Artigo
Feitiço do Tempo
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br )
“A única razão para o tempo é para que não aconteça tudo no mesmo instante.” (Albert Einstein)
Einstein demonstrou que o tempo é relativo, numa dimensão variável conforme o espaço; seja, não é uma linha reta e imutável. Comprovamos essa relatividade na política brasileira assistindo a derrocada do projeto dos vinte anos de poder petista, por si só, implodindo pela incompetência e corrupção.
Esta conjuntura desastrosa foi considerada em editorial do jornal britânico ‘Financial Times’ como um “filme de terror sem fim”. O realismo dos ingleses é tenebroso; tentando a mesma definição da situação nacional, prefiro a versão hollywoodiana de alta comédia através do filme de 1993 dirigido por Harold Ramis, ‘Feitiço do Tempo’.
A produção foi registrada como historicamente significativa pelo National Film Registry dos Estados Unidos. Adoro e recomendo aos amigos. Não me canso de assistír a correta interpretação de Bill Murray e Andie MacDowell.
Já vi umas dez vezes a história do repórter do tempo de canal de TV, Phil Connors (Murray), um chato de galocha que foi fazer a cobertura do Dia da Marmota na cidadezinha interiorana de Punxsutawney. A Marmota é sua homônima, também se chama Phil, e profetiza o fim ou a continuidade do Inverno.
Com a sua equipe, a produtora Rita (Andie MacDowell) e o câmera Larry – que não suportam seu egocentrismo –, grava a cerimônia tradicional, mas fica preso em Punxsutawney por causa de uma nevasca; daí em diante fica repetindo o mesmo dia várias vezes. Sempre que acorda no dia seguinte, não é o dia seguinte, mas a repetição do Dia da Marmota.
A esta situação estranha de déjà vu, comparo com a degringolada do Partido dos Trabalhadores com seus membros e simpatizantes assistindo a cada dia o repeteco dos roubos do Erário pelos seus companheiros, descobertos pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal.
Começou muito antes, mas a nova série – a Lava-Jato – já está na 16ª temporada, no capítulo da Radioatividade, que ultrapassa o assalto e a ruína da Petrobras, com um trailer para a extorsão no setor elétrico, outra versão do ‘Mensalão’ e do ‘Petrolão’. É o começo do ‘Eletrolão’, que já levou um vice-almirante e vários executivos de empreiteiras para a cadeia.
Eu imagino como se sentem os membros da esquerda caviar acordando diariamente às seis horas da manhã com o rádio-relógio repetindo o estribilho da música de Lobão, trazendo notícias de mais corrupção descoberta pela PF.
São pelegos de sindicatos, diretores de fundos de pensão, grandes empreendedores com crédito no BNDES e ocupantes de cargos governamentais com altos salários. Estão no alto dos seus apartamentos de milhões de dólares, de frente para o mar, com a boca escancarada cheia de dentes mastigando slogans socialistas.
Deve ser um pesadelo repassar cotidianamente situações vergonhosas de um projeto que foi deturpado pela ideologia troncha da pelegagem. Não será confortável identificar-se com os ladrões do patrimônio público. Creio ser um castigo reviver situação de acumpliciamento com um partido que se tornou uma organização criminosa.
A cidade de Punxsutawney dos petistas pode ser Pelotas, Ponta Grossa, São Bernardo, Uberlândia, Maceió, Natal, Parnaíba ou Belém… Eles ficam sentados nas suas poltronas, esperando que a Marmota anuncie o fim do Inverno; mas, em vez disso, o animal sapiens sai da toca anunciando que não vai colocar meta.Vai deixar a meta aberta, e quando atingir a meta, dobrará a meta. Ele não entenderá, mas aplaudirá irracionalmente.
Estes extemporâneos esquerdistas deveriam fazer como o repórter do Feitiço do Tempo, que reviu seu egocentrismo. Para escapar da nevasca criminosa do lulo-petismo, precisam repensar a dialética idealista, a gravidez do sectarismo bastardo, o ruminar das idéias de Gramsci e a cumplicidade maléfica com o PT-governo em nome de um tempo que a muito ficou no passado…
Catilinária
Miranda Sá (E-mail: mirandasa@uol.com.br )
“Até quando, Catilina, abusarás
da nossa paciência? Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?” (Marcus Tullius Cicero)
O embate de Marcus Tullius Cicero contra Lúcio Sérgio Catilina é envolta de muito mistério. Historiadores especializados em História Romana não conseguem unificar opiniões; e assim persistem controvérsias a respeito da adoção político-ideológica das duas figuras que tanto se projetaram, chegando à atualidade. A única convergência é que ambos são tratados apenas pelo primeiro nome: Cícero e Catilina.
O que nos chega ao exame dos fatos é a versão dos inimigos de Catilina, tal como nos ensinou o grande Machado de Assis no seu romance Quincas Borba: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.
O vencedor, Cícero, é por demais conhecido; quanto a Catilina há apenas retalhos do seu perfil. Foi amigo de Júlio César e de Crasso, e seguiu a carreira política, como questor, pretor e governador da África.
A briga dos dois começou quando Catilina candidatou-se a cônsul e foi derrotado por Cícero. A derrota se deveu à acusação de que ele desejava a volta da monarquia, conspirando com jovens patrícios ambiciosos e com os gauleses insatisfeitos com a administração de Murena, indicado por Cícero.
Levando à nuvem a verdade histórica e mesmo a sua explicação, o que restou foram os discursos do orador ímpar que foi Cícero. Nos meus tempos de ginásio (2º grau) a gente estudava latim, e as peças mais apreciadas eram justamente as quatro ‘Catilinárias’, onde aprendíamos a força das palavras.
Nos vestibulares para Direito, também entrava o latim e, consequentemente, Cícero; e o verbete ‘catilinária’ compõe os dicionários como acusação violenta e eloquente, censura, repreensão veemente.
Quando cobri as sessões da Câmara dos Deputados, ainda no Rio, no Palácio Tiradentes, ouvi muitos discursos com frases tiradas das Catilinárias, e uma delas era repetida quase sempre: “Oh, tempos, oh, costumes”.
O tempo e os costumes de agora nos fazem lamentar a falta de um grande orador no Congresso Nacional. Falta alguém para traduzir o sentimento indignado do povo contra o domínio do mal representado pela dupla nociva de Lula e Dilma; falta alguém que acuse diretamente a roubalheira e a incompetência com a força da razão.
Lembro o capítulo da História do Brasil em que o paraibano José Américo de Almeida semanas antes do golpe de 1937 verberou contra o governo Getúlio Vargas: “É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar!”
Reconheço que não faltam parlamentares oposicionistas atacando o insano governo Dilma. Há muitos, e eu até tenho me surpreendido com a qualidade de alguns jovens deputados e senadores que assisto pela TV. A falha está no uso de uma linguagem que o povo entenda, dizendo tudo, trocando em miúdos o que os assaltantes do patrimônio público fazem no Brasil.
É preciso traduzir para o povo as alianças espúrias do lulo-petismo com ditadores, terroristas e até com o crime organizado. A arte de discursar manifestando com discernimento precisa ser levada às massas.
Para desmascarar a pelegagem corrupta que ocupa o poder repudiado por 93% do povo brasileiro estaríamos melhor com a oratória elegante de um Carlos Lacerda, Flores da Cunha, João Mangabeira e Vieira de Melo ou a vibração contundente de um Leonel Brizola.
Lembro que a primeira Catilinária foi um improviso de Cícero cara a cara com Catilina, que poderia ser dirigida hoje à organização criminosa que domina o País e ao golpismo sórdido de Lula da Silva, com as mesmas palavras: “Não vês que a tua conspiração já está dominada por todos que a conhecem?”
A Mandioca
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
A mandioca é um arbusto da família das euforbiáceas (manihot utilíssima), cujas raízes são tubérculos grossos, alguns enormes, ricos em amido e considerável uso na alimentação. Dela também se tira uma espécie de vinagre, o tucupi, muito usado no Norte do Brasil; e uma aguardente indígena de forte teor alcoólico chamada tiquira, Canjinjin ou Cataia.
Do seu tipo venenoso se faz a farinha-de-mesa e goma para tapioca. Diz-se autóctone das Américas, onde já existia há 5.000 anos. Expandiu-se pelo mundo levada por navegadores e colonizadores portugueses e já era encontrada largamente na Ásia e na África no início do século 17.
Mesmo sem ter estudado Botânica sei que são várias espécies encontradas no Brasil, e pela vivência conheço muitos nomes dados à mandioca, como aipim, aipi, macaxeira, maniva, manivieira, pão-de-pobre, pão-da-tarde e uaipi. No completo Dicionário de Gíria de J.B. Serra e Gurgel encontramos o verbete ‘mandioca’: Subs. Fem. O pênis.
Como no largo e variado emprego na cozinha, a palavra mandioca é freqüentemente usada na linguagem popular, referindo-se ao órgão reprodutor masculino no palavreado chulo. Vem de longe na História, em que o pênis aparece cultuado como o deus Priapo, provedor da fertilidade dos campos agrícolas e dos jardins.
Esta divindade foi da Ásia Menor para a Grécia, onde se tornou filho de Afrodite e Zeus na mitologia. A lenda contava que ainda feto, Priapo teve a forma humana substituída no ventre da deusa por um fálus que passou a ser adorado como o deus do sexo.
Chegou a Roma como filho de Baco, e tornou-se o deus da libido ocupando uma posição de destaque nas festividades orgíacas, saturnais e bacanais, nada diferentes das que ocorriam na Ásia e na África, concentrações de praticantes desse culto. Nas Américas dos incas, maias e astecas também foram encontradas representações de falos, em desenhos, estatuetas e jóias.
No Brasil, os cultos africanos primitivos dedicavam as noites de lua nova ao orixá Okô, regente da agricultura e da colheita. Okô ainda é venerado nos candomblés da Bahia e é encontrado à venda como adorno, amuleto e talismã, e como estatueta humana de ferro com um enorme falo.
A mandioca, para a presidente Dilma, sacerdotisa do besteirol, “é uma das maiores conquistas deste País”, afirmou no discurso de lançamento dos Jogos Mundiais Indígenas, e nos deixou perplexo… Não sei onde ela foi buscar isto, criando uma vertente além nas civilizações do arroz, do trigo e do milho…
Claude Lévi Strauss, vanguardeiro da corrente estruturalista da Antropologia, jamais ensinaria isto, embora tenha abordado nos seus estudos, investigações e reflexões filosóficas da alimentação como base da cultura dos povos.
Lévi Strauss foi do mel às cinzas, da canja de arara ao cozido de tatu e da farinha de milho à farinha de mandioca. Escreveu “O Cru e o Cozido”, um trabalho sobre a alimentação indígena e, evidentemente abordou a mandioca; e jamais afirmou que o tubérculo seria “uma conquista” de quem quer que fosse…
Esta asneira presidencial, pronunciada na presença de indígenas de vários países, envergonha os brasileiros letrados. E foi pior; Dilma falou com o sorriso alvar dos presunçosos manuseando uma bola artesanal de folha de palmeira que ganhou de presente dos representantes neozelandeses.
Sobre a bola, não negou sua ignorância: “esta bola é o símbolo da nossa evolução porque nós nos transformamos em homo sapiens ou mulheres sapiens”… Contribuiu dessa maneira para a separação de gêneros na Antropologia, motivo de chacota nos círculos científicos no mundo inteiro.
A tal “mulher sapiens” prostra-se diante do altar da mandioca invocada pela Presidente; não sei se a introdução dessa ritualística levará os lulo-petistas à adoração da Euforbiácea como raiz ou como pênis. Por uma proposta democrática, deixo-lhes à vontade para escolher o jeito desta reverência…
Mãe do Bispo
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
O eleitorado brasileiro registra 52% de mulheres, enquanto a representação feminina na Câmara Federal tem somente 51 deputadas, menos de 10% do total de 513; isto me parece injusto. Defendo uma participação mais significativa das mulheres na política, mas festejo a emenda recusada que reservaria 10% para elas nos legislativos municipais, estaduais e federais.
Seria iníquo e antidemocrático dar o mandato a uma candidata no lugar de um candidato eleito com mais votos do que ela. Melhor é despertar o gosto das mulheres pela política; fazê-las esquecer a repulsa que os atuais parlamentares provocam em quem tem juízo. Conscientizá-las do alto preço que pagam por não associar sua inteligência, energia e honestidade ao exercício da política.
Sou contra as tais das “cotas”. A cota para negros é uma discriminação explícita que rebaixa os afro-descendentes a cidadãos de 2ª classe, negando a projeção histórica e honrosa dos intelectuais, cientistas, literatos e políticos negros brasileiros. As cotas para as mulheres seriam muito pior, pela condição majoritária delas, que favorece a conquista da delegação política.
Estudando História, adquiri admiração pela baronesa de Staël-Holstein, a romancista e ensaísta francesa conhecida como Madame de Staël, a figura feminina que se projetou no Iluminismo.
Num dos debates que mantinha na corte, como defensora do direito das mulheres serem ouvidas pelos governantes, Staël foi interrompida por Napoleão Bonaparte que disse: – “Não gosto de mulheres que se ocupam da política”.
Madame de Staël não se amofinou, encarando Napoleão: – “Num País em que as mulheres são decapitadas, cabe-lhes o direito de saber por que”. (Lembrava o terror promovido pela revolução de 1789).
À mulher brasileira cabe também o direito de saber por que seu País é levado à falência pela incompetência e corrupção de um governo com menos de 9% de aprovação na opinião pública. Para isto, deve exercitar o espontaneísmo e a honestidade que possui e são necessários ao cumprimento do dever cívico.
As donas de casa que enfrentam a carestia imposta pela inflação, as profissionais desempregadas que se submetem ao subemprego e/ou a salário inferior por questão de gênero, e àquelas com formação acadêmica habilitadas ao debate político, são superiores a Dilma, cujo perfil é uma caricatura grosseira da mulher brasileira.
Como pode uma Presidente apelar para a condição de mulher como defesa para enfrentar a condenação da opinião pública por seus erros? Fazendo-o, Dilma se desnuda. E encontrando-se secretamente em Portugal com Ricardo Lewandowski, presidente do STF, se mostra inimiga da República!
Não surpreenderia a ninguém que ambos conversassem como chefes do Executivo e do Judiciário; revoltante é que isto seja feito subversivamente, por debaixo do pano, induzindo e fazendo-nos deduzir que conspiraram para manter o corrosivo lulo-petismo. Dilma e Lewandowski corromperam criminosamente a harmonia dos poderes constituídos. Esta fuga ao dever ético é uma aberração antidemocrática, a negação dialética do Estado de Direito.
Se os chefes do Executivo e do Judiciário tramam contra a República, a quem apelar? Aponto-lhe a última instância: a Mãe do Bispo, lembrando que se impôs no Rio de Janeiro a expressão “vá se queixar à Mãe do Bispo”.
A História se refere à respeitável mãe do bispo José Joaquim Justino, Ana Teodoro Mascarenhas Castelo Branco. Pela influência política no Estado, na Igreja e na Economia, don’Ana fez do filho um ‘príncipe da Igreja’, e pelo amor ao Direito exercendo-o na prática, granjeou também a confiança popular.
Na época, o casarão dos Mascarenhas Castelo Branco, que ficava no centro da cidade, esquina das atuais ruas Treze de Maio e Evaristo da Veiga, tornou-se um pólo de peregrinação em busca de justiça.
Dois séculos se passaram e não mais existem don’Ana e o casarão. Só nos resta agora rezar para a Mãe do Bispo, levando a nossa queixa em oração contra a esbórnia portuguesa de Dilma e Lewandowski, tramando às escondidas, sob o signo do padrinho dos dois, o pelego Lula da Silva.
Fernando Gabeira
Política e realismo mágico
“O Brasil é de uma fidelidade a si mesmo enorme. Muda para não mudar. É metade corrupção, metade incompetência”. Esta frase do historiador Evaldo Cabral de Mello define nossos principais problemas. Mas ele, que é um grande historiador, deve concordar também que existem pessoas talentosas, grupos capazes, ilhas de excelência no Brasil. Aqui no Rio aconteceu algo interessante. Liderado pela professora Suzana Herculano-Houzel, um grupo de pesquisadores brasileiros fez importante descoberta sobre o córtex cerebral.
O resultado da pesquisa foi publicado na revista “Science”. O estudo brasileiro desfez um mito sobre o córtex e sua relação com os neurônios. Um feito mundial. O grupo liderado por Suzana, no entanto, trabalha numa universidade em crise e ela colocou dinheiro do próprio bolso para comprar reagentes. Se quiser avançar em sua pesquisa, o grupo talvez tenha de escolher o caminho do aeroporto. A ilha de excelência corre o risco de naufragar no oceano de incompetência e corrupção.
O Brasil subestima a ciência e a pesquisa. É uma escolha que nos distancia do mundo. Deve haver mil razões para este fenômeno. Uma frase que ouvi na televisão talvez dê uma pista: os asiáticos construíram fábricas, e os latino-americanos, shoppings centers. De fato, muitas conquistas da ciência e da tecnologia desembocam nas prateleiras das lojas. Mas esta não é uma escolha acertada para o longo prazo. Falar em longo prazo no Brasil de hoje é quase heresia. Estamos enredados nas armadilhas do cotidiano. A política é um nó, a própria presidente evoca o seu impeachment e convida: venham me derrubar.
Não somos Macondo, o território mítico criado por García Márquez, mas nossa política, às vezes, se aproxima do realismo fantástico. Guardo alguns momentos na memória. Ulysses Guimarães, certa vez, cumprimentou o corneteiro numa solenidade. Houve um certo zunzum. Será que caducou, deixou de tomar o remédio diário? Mas eram momentos líricos. E para dizer a verdade, entre tomar remédios e cumprimentar corneteiros, talvez a última seja a solução mais branda. Esse lirismo já não existia mais nas intempéries de Collor: eu tenho aquilo roxo, dizia ele num acesso de arrogância.
Quando Dilma começou aquela frase: precisamos comungar o milho com a mandioca, percebi que estávamos vivendo mais um momento de realismo fantástico. No dia seguinte, na rua, um homem me abordou e disse que a explicação estava na dieta que Dilma faz para emagrecer.
Caetano Veloso escreveu um verso: “esse papo já tá qualquer coisa/ você já tá pra lá de Marrakesh”. No auge da crise, parece que dentro de Dilma mexe qualquer coisa doida. Mexe qualquer coisa dentro: numa outra oportunidade, ela saudou o fogo e a cooperação como as maiores criações tecnológicas da Humanidade. Pra lá de Teerã.
O filósofo inglês John Gray, que escreve interessantes ensaios, passou pelo Brasil e disse sobre a Europa: é possivel viver sem esperar que o mundo necessariamente melhore. Tudo bem. Nesse momento, no Brasil, estamos aprendendo a viver com a certeza de que o mundo vai necessariamente piorar. Dilma fez preleções sobre o fogo e a mandioca, mas é incapaz de dizer uma frase, ainda que não tenha muito sentido, sobre a crise nas universidades. Ela usou o slogan “Pátria educadora” como se usa um boné em dia de sol. Esqueceu no armário, com as outras quinquilharias produzidas pelo marketing.
Berço da filosofia ocidental, a Grécia passa por dificuldades. Entre o ajuste financeiro e as últimas medidas de Dilma, sobretudo a de cobrir parte do salário para evitar desemprego, há uma pequena contradição. Ela diz que será moleza permanecer no poder. Acho que continua saudando a mandioca. Não tem base política confiável, não consegue definir um ajuste e é cercada de problemas que partem de três direções: TCU, pedaladas; TSE, caixa dois; Operação Lava Jato, corrupção na Petrobras. Se ela conseguir superar esses problemas, com 9% de aceitação popular, no auge de uma crise econômica que produz desemprego, perda de renda, estarei saudando a mandioca.
Seria preciso combinar o milho com a mandioca, levar ao fogo para cozinhar no caldeirão a receita que salve o barco. No momento, ele navega rumo ao Triângulo das Bermudas. A comandante e seus marujos podem sumir nele. O país é grande demais para isso. O que sei é que esses tempos de incerteza nos atrasam. Não só o que acontece na universidades é desolador. Muitos projetos estão paralisados à espera de uma definição. Num país em que a presidente desafia a oposição a derrubá-la, quem vai fazer planos para o futuro? Ela mesma nos convida a adiar projetos e esperar o desfecho de seu mandato. Dilma é um manual ambulante da inabilidade política. Sua capacidade de complicar as coisas talvez contribua para uma saída mais rápida. Mas, ainda assim, vivemos num compasso de espera. É o tipo de situação que não pode se prolongar. Sair do buraco em que nos meteram é grande tarefa nacional.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 12/07/2015
Ouro dos Tolos
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
Quem não conhece o ouro, esse metal amarelo brilhante, flexível, moldável, condutor de eletricidade e de calor e resistente a corrosão? Seu nome vem do latim, ‘aurum’ = brilhante; na Química, recebe o número atômico 79 (79 prótons e 79 elétrons) e sua massa atômica é 197 u.
Desde a mais distante antiguidade o ouro é valorizado pela raridade e beleza; e, por isso, sempre foi um símbolo de riqueza e de poder. Encanta e seduz nas joalherias e galerias de arte; atrai em vários museus, no Museu Britânico, em Londres, no Louvre, em Paris, no Museu Egípcio de Berlim e no Museu de Jóias, em Pequim.
Nossos vizinhos, Peru e Colômbia mostram impressionantes coleções da ourivesaria inca nos seus museus “Del Oro”; e o nosso Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Rio, apresenta vitrines com sobras da riqueza que foi levada às toneladas para Europa pelo colonizador português.
Pelo alto valor comercial e para gerar renda, o ouro é cobiçado e incita o crime através de artifícios para enganar trouxas ambiciosos; sua imitação mais comum é conhecida como “ouro dos tolos”, um mineral do enxofre, dissulfeto de ferro, chamado ‘pirita’.
Assistimos em filmes do faroeste, corridas do ouro para Califórnia e bandidos vigaristas “semeando” piritas em terrenos devolutos para vendê-los a bom preço para mineração do ouro que não existia…
É sabido que os tolos sentem uma imperiosa necessidade de se iludir, principalmente quando sua falta de juízo é associada à vaidade e presunção… O estudo da realidade sócio-política induz que a utopia é uma espécie de ‘pirita’… O imaginário das massas ignorantes é rico em utopias, o ouro dos tolos personificado num líder que corresponde às suas fantasias ilusórias.
Com o uso intensificado da propaganda na política, o surgimento de um líder dispensa o fascínio das massas por uma pessoa carismática. É determinado pelo marketing. Sai das ondas do rádio e da televisão; e, depois de firmada a imagem, é mantida pela cooptação e o mercenarismo.
A mídia divulgou nos últimos dias que um hierarca petista afirmou que o PT está abaixo do volume morto da política, porque atualmente a sua militância só pensa em propinas, empregos e cargos. Cargos significam divisão do poder; e falando em poder, ouçamos o general Olímpio Mourão Filho que disse: “Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semi-analfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará a sua volta”.
Não há outro exemplo similar na História da Humanidade de um conto-do-vigário maior do que o ‘ouro dos tolos’ que Lula da Silva passou ao eleitorado brasileiro apresentando a atual presidente, Dilma, como uma “gerentona”. Dilma revelou-se uma ‘pirita’ avalizada por um aventureiro e mentiroso contumaz.
A enganação está clara nos olhos dos brasileiros lúcidos, vendo Dilma por em dúvida a lisura da sua eleição com suas promessas eleitorais – sem exceção – desmentidas pelos fatos, consubstanciando um verdadeiro estelionato.
Com o despertar do povo, que distingue o ouro de um mineral sem valor, a aprovação de Dilma nas pesquisas de opinião tem apenas um dígito, fazendo-a balançar sacudida pelos 86% dos brasileiros que consideram o seu governo ‘ruim’ e ‘péssimo’.
Mesmo diante desta realidade, Dilma com o peculiar cinismo dos lulo-petistas classifica como “golpista” o desejo de vê-la renunciar ao governo ou ser impichada pelas manobras nas contas públicas.
Golpismo é isto: Rasgar a Constituição, descumprir a lei, servir-se de astúcias na prestação de contas, manobrar pelo aparelhamento os órgãos jurídicos do governo. Golpista é Dilma quando diz que defenderá “com unhas e dentes” um mandato desprezado pela vontade popular. Ela perdeu o crédito quando disse que não mexeria nos direitos trabalhistas “nem que a vaca tossisse”. E só falou a verdade quando disse que se aliaria com o diabo para ganhar a eleição; aliou-se, e o canhoto está satanizando o Brasil.
Precisamos reagir. Raul Seixas inspirou-se no ouro dos tolos e escreveu uma canção com Paulo Coelho, que mexe com quem quer uma alternativa para o Brasil. Agitam eles: “Ah!/Eu é que não me sento/No trono de um apartamento/ Com a boca escancarada/Cheia de dentes/ Esperando a morte chegar!”
A MENTIRA
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
Dostoievski: “A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais”
Fiódor Mikhailovich Dostoiévski é, em minha opinião, um dos maiores romancistas de todos os tempos… E antes que algum extremista de direita venha reclamar porque é russo, adianto-lhe que morreu em 1881, muito antes da revolução de 1917, e que não conheceu Lênin e muito menos Stálin…
Minha admiração por Dostoiévski vem da mais tenra juventude, quando me encantei lendo “Crime e Castigo”, passando a ler tudo o que escreveu e que tive às mãos. Entretanto, ele entra neste artigo não apenas pela epígrafe, mas por que eu senti a necessidade de contestá-lo; não concordo que mentir seja um privilégio do homem.
Também não creio que os animais não mintam; falta-lhes o dom de falar, é certo, mas enganam com camuflagens, disfarces, e se escondem, nem sempre como defesa, mas para o ataque…
A diferença entre os seres ditos racionais e irracionais é que o animal usa o logro para a sobrevivência, enquanto o homem mente rompendo com os padrões sociais, desrespeita a moral e a ética, e comete pecado condenado pelas religiões monoteístas, budismo, judaísmo, cristianismo e islamismo.
A mentira tem dezenas de sinônimos; mas é como falsidade, que diz a que vem. A mentira aguça as contradições ideológicas e os conflitos políticos em proveito de uma facção ou de um partido.
Os nazistas, com sua amoralidade, cultuaram a mentira: é conhecida a ordem do ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, para os agitadores do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães: “É mais fácil fazer as pessoas acreditarem numa grande mentira dita muitas vezes, do que numa pequena verdade dita apenas uma vez”.
Goebbels deixou uma célebre frase, seguida pelos marqueteiros de todo mundo: “A mentira quanto mais vezes repetida, mas se aproxima da verdade”. Esta imoralidade fez o professor de jornalismo M. Choukas ensinar que “admitamos que um propagandista minta mesmo quando diz a verdade…”
No Hemisfério Ocidental, pedagogos de várias tendências concordam que se deve ensinar às crianças que não se deve mentir; e em alguns países asiáticos a mentira é punida cortando-se a língua do mentiroso; na África, mais propriamente em Zanzibar, é condenado à pena de morte.
Falando de mentira, chegamos ao execrável peleguismo que ocupa o poder no Brasil. É sabido que desde a primeira eleição de Lula da Silva que a bandeira da impostura foi desfraldada e o brasão da má fé foi instituído. À sombra, fez-se uma lavagem cerebral em indivíduos fracos, recriando o culto da personalidade e transformando o Partido dos Trabalhadores numa seita intolerante.
Tive um colega jornalista que adentrava na redação e antes de dizer ‘bom dia’, perguntava: “Qual é a ‘mentirex’ do dia?” A má imprensa e a má política usam a mentira como ferramenta de trabalho… No PT-governo é oficial. A Presidente da República divulga sempre o avesso da verdade. A sua própria imagem é uma ilusão construída pelo marketing. E gosta de mentir quando está fora do País para não ouvir o repúdio popular em forma de panelaços…
Gandhi ensinou que “assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, acontece com a mentira entre os homens”. É o que ocorre sob a administração petista contaminada pela fraude e a corrupção.
Mas a sabedoria popular no Brasil nos entusiasma com o provérbio: ”É mais fácil pegar um mentiroso do que um coxo!” Não vai durar muito o ‘privilégio’ de Dilma em mentir impunemente; acredito que a Justiça dar-lhe-á o castigo pelo crime que comete contra a nossa Pátria.
DOMINÓ
Miranda Sá (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
De origem antiqüíssima e por demais conhecido, o jogo de dominó foi um passatempo familiar durante muito tempo no Brasil. Pesquisadores dizem que surgiu por volta de 250 a.C. na China, e que seu inventor foi o soldado Hung Ming, que dedicou o jogo ao imperador Hui Tsung, adepto do ludismo.
É chamado no Oriente de “kwat p´ai”, extraído do ideograma “tabletes de osso”. Foi na Europa que recebeu o batismo de Dominó pelos padres que o jogavam, porque o vencedor expressava em latim “domino gratias!”, o que significa “graças a Deus”.
O jogo atravessou o Atlântico com os portugueses, vindo para o Brasil no século 16, e aqui adquiriu enorme popularidade em todos os meios, dos escravos à nobreza. Ainda se joga dominó no mundo inteiro, principalmente na América Latina.
O dominó tem 28 peças, divididas ao meio com pontos de zero a seis, indo do zero mais zero até o seis mais seis numa ordem que vai do zero e zero, zero e um, um e um, zero e dois, um e dois, dois e dois, e assim por diante até o seis e seis.
Além do jogo de estratégia, dito “profissional”, os americanos que adoram competições, inventaram uma disputa que consiste em derrubar as peças colocadas em pé, uma atrás das outras numa longa e diferenciada seqüência, sendo que ao se derrubar a primeira, esta derruba a seguinte e enfim prostrando todas de uma a uma.
Fazem-se arranjos geométricos com milhares de pedras, e, segundo o Guiness Book, o recorde de derrubada é de 30.000 pedras. A disputa para quebrar recordes é imensa, orgnizando-se festivais, campeonatos e até sites na Internet.
Pela semelhança, as situações como a do jogo são chamados de “efeito dominó” ao ocorrerem quedas em série, levando a uma derrubada final. Na guerra do Vietnã houve uma estratégia militar do estado maior dos EUA batizada de “efeito dominó”.
O Pentágono decidiu entrar no conflito contra o vietgong, temendo que a luta de independência dos vietnamitas se espalhasse pelos países vizinhos, acarretando um desequilíbrio geopolítico com a URSS proporcionando graves efeitos na “guerra fria”.
Assistimos no Brasil um “efeito dominó” que está levando o lulo-petismo em queda abaixo do volume morto da política nacional. As pedras erguidas com a ascenção do PT caem uma a uma, a partir da debandada dos intelectuais e políticos honestos que fundaram o partido, e se decepcionaram com o exercício do poder de Lula da Silva.
Lula, como presidente, banalizou a prática da pelegagem sindical no Pais. Institucionalizou-a, levou-a ao Congresso, aos partidos e aos movimentos e organizações populares; fez e estimulou jogadas de jogo duplo, dos dossiês, das mamatas e das cooptações pelo apelo “ideológico” ou pela compra deslavada de corruptíveis.
A corrupção disparou com os sanguessugas do Ministério da Saúde e chegou à ruina da Petrobras. E ainda falta abrir a caixa preta do BNDES. Assim, a divergência entre petistas se acentuou e cresceu, com os que abriram os olhos repugnando a bandalheira dos pelegos corruptos e a incompetência governamental para cumprir o programa partidário e as promessas eleitorais.
Sentindo-se traídos e iludidos, os militantes decentes se afastam, deixando o governo e o partido sob controle de hierarcas amorais; estes, para se manterem, cercam-se de carreiristas e oportunistas de todo tipo. O que escrevo é negado pelos fanáticos, mas é o próprio Lula, tirando dos ombros o fardo da responsabilidade, quem diz.
Discursando num seminário patrocinado pelo seu Instituto, que está debaixo de suspeição e com seu presidente convocado pela CPI da Petrobras, o Pelegão falou: “O PT perdeu parte do sonho, da utopia”.
E com o cinismo que lhe é peculiar acrescentou: “Hoje, a gente só pensa em cargo, só pensa em emprego, só pensa em ser eleito.”
Faltou dizer que os lulo-petistas só pensam em criar consultorias para assaltar os cofres públicos e receber propinas. Faltou-lhe autocrítica para assumir que o congresso do PT foi esvaziado e que o povo não mais tolera o seu governo, mentiroso, incapaz e corrupto.
Da nossa parte, vemos as peças da organização partidária sendo derrubadas e esperamos a queda do zero mais zero, ele, Lula, caindo na prisão pelo envolvimento no Petrolão e outros mais. É o efeito dominó da Justiça que estamos assistindo.
Fernando Gabeira
Transparência, abra as asas sobre nós
Num dos fronts mais intensos no Brasil de hoje se trava uma luta entre a transparência e o segredo. No petrolão, na CBF e, sobretudo, no BNDES e algumas outras escaramuças.
Lula é um general do segredo e o PT, seu exército fiel. Só assim se pode interpretar a alegria coletiva que ele e o partido demonstraram, em Salvador, com a demissão de 400 jornalistas.
Na história da esquerda no Brasil, mesmo antes do PT, os jornalistas sempre foram considerados trabalhadores intelectuais. Não estavam no mesmo patamar mítico do trabalhador de macacão, e eram respeitados. Um Partido dos Trabalhadores celebrando a demissão de trabalhadores é algo que jamais imaginei na trajetória da esquerda.
Lula afirma que os jornais mentem, e parecia feliz com o impacto da crise, criada pelo governo petista, num momento da história da imprensa em que a revolução digital leva à necessidade de múltiplas plataformas. O argumento de que os jornais mentem não justifica, num universo de esquerda, festejar demissões de jornalistas. Por acaso Prestes achava que a imprensa dizia a verdade? Não creio que Prestes e o Partido Comunista fossem capazes de festejar demissões de jornalistas. O mais provável é que se solidarizassem com eles, independentemente de seu perfil político.
Gastando fortunas em hotéis de luxo, viajando em jatinhos de empreiteiras e ganhando fábulas por uma simples palestra, Lula perdeu o contato com a realidade. E a plateia do PT tende a concordar e rir com suas tiradas. Deixaram o mundo onde somos trabalhadores e mergulharam do mundo do nós contra eles, um espaço onde é preciso mentir e guardar segredos diante que algo arrasador: a transparência.
A batalha teve outro front surpreendente, desta vez no Itamaraty. O ministro diretor do Departamento de Comunicações e Documentação (DCD), João Pedro Corrêa Costa, tentou dar um drible na Lei de Acesso à Informação e proteger por mais alguns anos os documentos sobre BNDES, Lula e Odebrecht. Felizmente. o ministro fracassou. Mas no seu gesto revelou um viés partidário, até uma contradição com a lei.
Nos 16 anos de Parlamento, passei 15 e meio na oposição. O Itamaraty sempre me tratou de forma imparcial e gentil, independentemente da intensidade momentânea dos embates políticos. Agia como um órgão de Estado, e não de governo. Como as Forças Armadas, a julgar pela experiência que tive com elas.
O Itamaraty é produto de uma longa história se olharmos bem para trás, como fez Richard Sennett. Observando um quadro pintado em 1553, Sennett descreve como o surgimento da profissão de diplomata foi um avanço na História. Ele observa que com o surgimento da diplomacia se impõem novas formas de sociabilidade, fundadas não mais em código de honra ou vingança. No seu lugar entra uma espécie de sabedoria relacional baseada nos códigos de cortesia política.
No Congresso do PT em Salvador e no Itamaraty as forças do segredo travavam batalhas distantes no espaço, mas próximas no objetivo: esconder as relações de Lula com as empreiteiras e o BNDES. Não estão unidos apenas no objetivo, mas na negação dos seus princípios. Um diplomata tentando contornar a lei para proteger um grupo político, um Partido dos Trabalhadores festejando demissões em massa, tudo isso é sinal de uma época chocante, mas também reveladora.
A batalha da transparência contra o segredo estendeu-se à cultura. Venceu a transparência com a decisão do Supremo de liberar as biografias. E venceu num placar de fazer inveja à seleção alemã: 9 a 0.
Não canso de dizer como admiro alguns artistas que defenderam o segredo. Mas embarcaram numa canoa furada. E não foi somente a transparência que ganhou. A cultura ganhou novas possibilidades. Com a liberação de livros e documentários sobre brasileiros, uma nova onda produtiva pode enriquecer o debate.
Se examinamos o comportamento do BNDES e da própria Odebrecht, constatamos que têm argumentos para defender suas operações. Por que resistir tanto à transparência, como o governo resistiu até agora? E, sobretudo, por que ainda manter alguns documentos em sigilo?
Há muita coisa estranha acontecendo no Brasil. Todos se chocaram quando se constatou o tamanho do assalto à Petrobrás. Os corruptos da Venezuela, roubando dinheiro da PDVSA, a empresa de petróleo de lá, estavam lavando dinheiro no Brasil. A julgar pelo volume de dinheiro, o assalto por lá foi tão grande quanto o daqui.
O ministro do Itamaraty que quis ocultar documentos será esquecido logo. Lula, no entanto, já passa algumas dificuldades para explicar sua relação com as empreiteiras. E quanto mais se complica, mais estimula as centenas de pesquisadores, acadêmicos, escritores e cineastas que querem mostrar a História recente do País.
A batalha pela transparência nunca será ganha de uma só vez. De qualquer forma, a lei de acesso e a liberdade para as biografias são dois instrumentos.
Mesmo as pessoas mais indiferentes à roubalheira gostam de saber o que se está passando no País. Existe nelas, como em quase todos, aquela necessidade de mostrar que, apesar de sua calma, não são ingênuas.
Lula e o PT comemoram demissões nos jornais como se fossem as únicas plataformas críticas. A internet dá aos petistas, por meio dos robôs e compartilhamento entre militantes, uma falsa sensação de alívio. Na verdade, o avanço tecnológico apenas ampliou o alcance dos jornais. E encurtou o espaço da mentira. Como dizia um personagem de Beckett, não se passa um dia sem que algo seja acrescido ao nosso saber. E acrescenta: desde que suportemos as dores.
As dores da transparência são mais suportáveis que os males do segredo, tramas de gabinete, truques contábeis, roubalheira no escuro, conchavos nos corredores. Com a mesma alegria com que hoje festejam nossas demissões, celebraremos o dia em que forem varridos do poder.
Artigo publicado no Estadão em 19/06/2015
Entreguismo
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br )
Dicionarizada, a palavra “entreguismo” é um conceito político que defende a entrega de um país para outro, suas riquezas naturais e até culturais, como a expressão foi usada na Espanha do século 19 contra a influência estrangeira.
Por indução política, confunde-se com ideologia. O emprego dessa palavra ultrapassa, entretanto, a sua aplicação política de exaltação do nacionalismo radical e do isolacionismo econômico nos países produtores de petróleo contra a cartelização das chamadas “Sete Irmãs”, empresas multinacionais que dominam o mercado mundial.
A condenação do “entreguismo”, nesses termos, foi a tônica político-econômica do segundo governo de Getúlio Vargas nas relações internacionais e para conquistar apoio popular interno. O Brasil da época dividiu-se entre os que defendiam que o País devia relacionar-se com o exterior e os que acreditavam poder dispensar o capital externo.
Foi sob o signo do choque entre nacionalistas e entreguistas, que surgiu a campanha d’ “o petróleo é nosso” e o monopólio estatal a ser exercido pela Petrobrás (naquele tempo com acento agudo).
Nos conturbados anos das décadas de 1940 e 1950, se exaltaram o entreguismo da “direita” e “esquerda”. A História registra dois pronunciamentos perturbadores, de um lado, o udenista Juracy Magalhães dizendo “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”, e do outro, o comunista Luiz Carlos Prestes pregando “o que é bom para a União Soviética, é bom para o Brasil”.
Entrávamos na “Guerra Fria”. Certos ou errados, os dois políticos, respeitados pelos seus partidos e com imenso número de seguidores, assumiram as simpatias pelas duas potências em confronto.
Triste é o Brasil de hoje em que o lulo-petismo no poder defende “o que é bom para Cuba e sua sucursal venezuelana, é bom para o Brasil”… Por uma idiotia falsamente ideológica, o PT defende o narco-populismo bolivariano, subalterno a outros países quando temos a vocação de liderar a América Latina.
Mais do que um equívoco, oferecer apoio a uma ilusória “pátria grande” abdicando da soberania nacional, não passa de uma encenação para conquistar politicamente as massas ignorantes ou fanatizadas, para o grande assalto ao patrimônio nacional que os petistas realizam ininterruptamente.
O maior exemplo é o que os lulo-petistas fizeram na Petrobras (sem acento agudo): Transformaram a estatal numa fonte de propinas e na única empresa petroleira do mundo a dar prejuízo.
Arrombados os cofres, o que ficou na conjuntura petrolífera? Desajuste dos preços da gasolina e do diesel, represados para favorecer a reeleição de Dilma, fingindo controlar a inflação; desmantelo na produção alcooleira e impossibilidade de atender a demanda de combustível.
Em nome de um caricato nacionalismo, o que o PT-governo faz, é deprimente. Desmoraliza o Itamaraty, tornando-o uma agência dos interesses da empreiteira Olderbrecht, para defender seu grande lobista, Lula da Silva, uma praga que foi, por descuido, presidente da República. O nacionalismo lulo-petista é na verdade “entreguismo” dos bons.
Produz a desnacionalização sistemática da indústria, enriquece a banqueirada estrangeira, e se obriga a entregar as reservas de petróleo a grupos estrangeiros. Os setores chaves da infraestrutura vão aos poucos se privatizando; enfim, o PT levou o País de volta ao passado.
Agora assistimos o “entreguismo” subserviente do PT-governo, calando diante da agressão sofrida pelos senadores brasileiros em missão humanitária para visitar os presos políticos da ditadura venezuelana.
Dilma e o Itamaraty, dirigido por um comissário bolivariano, se calam; não tiveram a presteza que tiveram ao atender o narco-populismo afastando o Paraguai do MERCOSUL para ceder a vaga para Chávez!
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