Arquivo do mês: janeiro 2021

Marcel Proust

Chopin

Chopin, mar de soluços, lágrimas, suspiros,
Que um voo de ágeis borboletas atravessa,
A brincar com a tristeza, a apascentar seus giros.
Seduz, aquieta, sofre, agita, grita, apressa,
Ama ou embala, e faz rolar em meio às dores
O doce olvido do capricho teu, fugaz,
Como as borboletas embriagadas de flores:
Tua alegria é cúmplice da dor tenaz,
O alado torvelinho amaina os dissabores.
Das águas e da lua meigo confidente,
Príncipe da aflição ou grão-senhor traído,
Quanto mais pálido mais belo, entretido
Com o sol a inundar teu quarto de doente,
Tu te exaltas com a luz, a bem-aventurança
Da luz que chora o seu sorriso de Esperança.

VACINA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Vale mais prevenir que remediar!” (Galeno – O “Pai da Farmácia”)

A vacina é indispensável para garantir a saúde e a vida dos povos. Foi com muita tristeza que acompanhamos o nosso atraso no enfrentamento da covid-19, quando em todo o planeta os governos, entidades privadas e instituições filantrópicas se mobilizaram e contribuíram para as pesquisas de anticorpos imunizadores contra o vírus.

É um momento de mobilização mundial sem precedentes para enfrentar a covid-19; inúmeros países investiram bilhões de dólares para o desenvolvimento de vacinas e a comunidade científica, por sua vez, faz História ao produzi-la em tempo recorde.

O Brasil também vive hoje um dia histórico, escrito pela Anvisa, seu corpo de médicos e pesquisadores, que acaba de aprovar, por unanimidade, as vacinas desenvolvidas pelo Butantan e a FIOCRUZ, calando o negacionismo caricato e ignorante. Assim, “Habemus Vacinnae! ”.

Nesta nova realidade, é essencial que se faça (como já se fez) campanhas educativas sobre a imunização. A informação é indispensável para alertar e instruir a sociedade sobre o uso dos imunizantes; e o foco da instrução depende das pessoas esclarecidas contra o obscurantismo negacionista.

Tivemos no passado militares estudiosos da geopolítica e de Economia desenvolvimentista, que quando ocuparam o poder (1964-1979), fizeram várias campanhas educativas explicando a necessidade da vacinação. Eram conscientes da importância de vacinar as crianças para protege-las de doenças epidêmicas que grassavam no País.

Uma dessas promoções, em 1972, obteve o maior sucesso, trazendo um curioso personagem de animação, Sujismundo, que se recusava a tomar vacina, justificando: – “eu não tô doente…”, – “prá quê espetadas inúteis? ” – Eram os argumentos negacionistas da época.

Sujismundo se apresentava mal-ajambrado e sujo, provocando rejeição a si; mas em compensação o programa trazia a figura limpa, inteligente e vivaz de Sujismundinho, um garoto filho de Sujismundo, que exigia ser vacinado.

Aqueles filmes publicitários alertavam que a vacinação era obrigatória para crianças, e os pais que se recusassem vacinar seus filhos perderiam direito ao salário-família. Assim, conseguiu-se debelar muitas enfermidades no Brasil.

O êxito da propaganda incentivou mais tarde, na década de 1980, o aparecimento de Zé Gotinha, personagem que foi estudado na brilhante tese de mestrado de Johnny Ribas da Motta, da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade de Goiás.

Esta segunda campanha, igualmente meritória, trouxe um estímulo para a divulgação regional, com verbas para promover atividades artesanais de comunicação, como teatro de bonecos, literatura de cordel e desafios repentistas….

Mas o que passou, passou. Era muito difícil imaginar que viéssemos a ter na presidência da República um indivíduo com a mentalidade de Sujismundo; mas infelizmente é isto que temos; hoje impera nos círculos do poder a demência negacionista, ignorando os avanços científicos da medicina preventiva.

É triste constatar que este fato negativo é um produto mental importado da loucura de Donald Trump, reacionário retrógrado que felizmente foi derrotado na reeleição pelo povo norte-americano, repudiando suas trapaças egocêntricas…. Mas sua herança boçal do negacionismo vigora no Brasil como uma caricatura toscamente desenhada para as mentalidades colonizadas.

Toda Nação, quase à unanimidade – com exceção do bloco dos sujismundos, doentios seguidores de políticos animadores de auditório –, ansiava por um programa de vacinação de massa para enfrentar o novo coronavírus e a letal covid-19.

Com “ansiedade e a angústia” depreciadas pelo ministro-general Pazuello, eu gostaria de ajudar nisto; se tivesse a força de um ”digital influencer”, abriria nas redes sociais um concurso para eleger o Sujismundo da atualidade… O meu voto seria para Bolsonaro…

 

 

 

Arthur Rimbaud

A eternidade

Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.

Alma sentinela
Murmura teu rogo
De noite tão nula
E um dia de fogo.

Fernando Pessoa

Tudo que faço ou medito

 

Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço –

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além…
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

 

MAQUIAGEM

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Tem pessoas que deviam comer maquiagem prá ver se ficam mais bonitas por dentro”. (Coringa)

Desde menino sei como as mulheres de todas as classes sociais e de todas as idades usam cosméticos querendo, na opinião delas, melhorar a aparência. Há controvérsias, pelo menos na opinião de Shakespeare, que botou na boca de Hamlet uma reprimenda para Ofélia: – “Ouvi falar da vossa maquiagem. Deus vos deu um rosto e vós fazeis dele outro rosto”.

Will bateu com a brasileiríssima opinião expressada por Dorival Caymmi, que cantou – “Marina, me faça um favor, não pinte este rosto, você é bonita com o que Deus lhe deu”….  Foi no tempo em que não se condenava o machismo romântico pelo “politicamente correto”…

O certo é que o enfeitar-se (e hoje não é só uma preocupação das mulheres, mas dos homens também) exige pomadas e loções para branquear a pele, lápis delineadores para os olhos e sobrancelhas, rímel para as pálpebras e os cílios, ruge para a face, batom para os lábios, hena ou água oxigenada para os cabelos, e esmalte para as unhas…

Se embeleza as pessoas, é uma questão de gosto; mas o certo é que tornou bilionários comerciantes, industriais e inventores de cosméticos. Alguns deles tiveram os seus nomes popularizados como marcas célebres, como Elisabeth Arden, Coco Chanel, Helena Rubinstein e Max Factor, que aliaram seus produtos às embalagens atrativas e uma massiva publicidade.

“Maquiagem” ou “Maquilagem”, indiferentemente, como verbetes dicionarizados são substantivos femininos, significando ação ou efeito de maquilar, isto é, mudar a aparência de pessoas ou coisas. A palavra vem do francês “maquiller”, pintar o rosto para apresentação teatral.

Esta apresentação etimológica formal é capenga e sua definição é restrita; na verdade, o termo vem de um capítulo épico da História Mundial, da resistência francesa contra a ocupação nazista. “La resistence” era conduzida pelos jovens “maquisards” designação que foi simplificada para “maquis” designando os grupos atuantes que se escondiam nas áreas rurais, bosques e montanhas, e pintavam os rostos em ataques noturnos contra os invasores.

Assim, encontramos também a definição figurada da Maquiagem no sentido de “encobrir alguma coisa”. E é nesse sentido que vemos os maus políticos disfarçados de bons moços, maquiados com a “ética”, a “honestidade” e a “religião” para enganar o povo.

Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir sabe que os picaretas ególatras e corruptos usam a maquiagem enganadora e conseguem por muito tempo iludir as pessoas.

Uma antiga narração tendo como cenário a antiga Grécia, fala de um jogo que andou em moda nas rodas intelectuais, o “Jogo dos Reis” em que uma pessoa era escolhida para ser rei ou rainha e dar ordens indiscutíveis e obrigatórias a cada um dos convivas.

Num desses saraus estava presente a bela cortesã Friné, acatada pela brilhante inteligência e repentismo. Quando foi indicada para ser rainha, ela mandou que os escravos trouxessem bacias com água para as damas presentes; ao receber a sua, lavou o rosto e ordenou que todas a imitassem.

Após a remoção das maquiagens a maioria das caras lavadas eram lastimáveis, enquanto a soberana do jogo manteve o esplendor de sua beleza, elogiada através dos tempos…

Esta anedota histórica foi publicada numa das crônicas do jornalista ítalo-argentino Pittigrilli, exemplificando uma lição que deve ser levada ao eleitorado brasileiro para ser usada, numa exigência aos políticos populistas de direita e de esquerda para que lavem a cara e removam a maquiagem.

No cenário político brasileiro, o exemplo mais-do-que-perfeito é a camuflagem que o presidente Jair Bolsonaro mantém, mesmo depois de trair as suas promessas eleitorais; deveria ser ele o primeiro a usar o sabonete da autenticidade…

 

 

 

Fernando Pessoa


Tenho tanto Sentimento

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

 

Bocage

O Leão e o Porco

O rei dos animais, o rugidor leão,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.
Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria,
Soltavam contra ele injúria sobre injúria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:

«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!»
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
Não há poder algum que mude a natureza:
Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.

Bocage, in ‘Fábulas’

DECEPÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O tempo passa e descobrimos que grandes eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais! ”  (Bob Marley)

Findo o segundo ano de governo, fora de realizações pontuais o presidente Jair Bolsonaro atende apenas a duas prioridades: defender os filhos, particularmente o 01, envolvido até o gogó no caso das “rachadinhas”; e a própria reeleição, esquecendo dos acenos eleitorais contrários da campanha eleitoral de 2018.

Este quadro inquieta as pessoas livres do fanatismo político. São muitas críticas dos que votaram nele pelo acolhimento farsante à delinquência filial, intervindo na Polícia Federal, usando a Abin e um grupo particular de arapongagem e, sub-repticiamente, aliando-se ao lulopetismo no combate à Lava Jato.

Também a campanha reeleitoral, a outra obsessão, é desaprovada pelo eleitor do modo populista como é feita, o festival de reinaugurações (até de relógio!), para alegria dos cabos eleitorais, dos jornalistas fuxiqueiros, dos institutos de pesquisa e, principalmente, dos mamadores nas tetas governamentais.

O cenário político expõe a fotografia em grande angular da “direita populista” que persegue o poder pelo poder praticando a pior espécie de eleitoralismo… Pelos conchavos, tenta-se até a volta do lulopetismo corrupto à cena política para ressuscitar o abominável pelego Lula da Silva; uma estratégia oportunista que visa polarizar eleitoralmente a “direita populista” com a “esquerda populista”, ambos combatendo Sérgio Moro, o caçador de corruptos.

Assim, surgiu o “bolsopetismo” uma investida caricatural copiada das jogadas do tucanato de polarização, que ludibriava os desavisados invertendo os princípios éticos da política e patinando na lama da corrupção deixada pelos pelegos lulopetistas.

Pouco importa se isto ameaça a Democracia escondendo que com Lula e o seu “Poste” alastrou-se virulentamente a corrupção na Petrobras, conquistou-se propina para os filhos, ganhando-se o Tríplex e o Sítio, e cometendo crime de lesa Pátria, ao receber dinheiro do ditador líbio Muamar Khadaffi, como foi denunciado por Antônio Palocci.

Diante desses desatinos que chegaram às raias da criminalidade, os brasileiros revoltados apoiaram Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Ledo engano! O “Salvador da Pátria”, não passava de um deputado do “baixo clero” com 28 anos de mandato na Câmara Federal e atravessando 11 partidos diferentes.

Apenas duas correntes o conheciam realmente: os beneficiados pelo “sindicalismo fardado” e os revanchistas militaristas revoltados com a Democracia. Os demais apoiadores que desconheciam o perfil do candidato e as performances dos seus filhos, acreditaram ingenuamente nas promessas eleitorais. E acabaram traumatizados pela decepção.

Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, vê e ouve o Presidente dizer que “o Brasil está quebrado, eu não posso fazer nada…”.  Comentário que está mais para Elba Ramalho falando no mais puro “dilmês”.

A decepção é dolorosa. Como verbete dicionarizado, “Decepção” é um substantivo feminino de origem latina, “Deceptio”, significando ’empulhação, dolo, engano’. Temos também disappoint, do inglês médio vindo do francês antigo desapointer; ambas, no sentido literal, significam “remover do cargo”.

Como já disse alguém (que se perdeu no meu esquecimento), “a decepção não mata, ensina a viver”; é vivendo-a que os brasileiros se revoltam com as bandalhas, as piadas infames e o negacionismo estúpido diante da pandemia.

O desdém pela pandemia que Bolsonaro demonstrou com a fina bossa da ignorância é decepcionante e imperdoável, porque é genocida. As lágrimas derramadas pelos familiares e amigos dos 200 mil mortos exigem a condenação do algoz…

Diógenes de Sinope, também conhecido como Diógenes – O Cínico –, ficou conhecido como o mais folclórico dos filósofos gregos da antiguidade clássica. Andava pelas ruas de Atenas durante o dia com uma lanterna acesa nas mãos procurando a verdade e a honestidade. É dele o excepcional pensamento: “A decepção é filha da expectativa”.

Isto valoriza Bob Marley, nosso epigrafado, pois passados dois anos de decepções, vê-se que os sonhos foram grandes demais e o Presidente é pequeno demais para torná-los reais!

 

Lord Byron

Uma taça feita de um crânio humano

(Tradução de Castro Alves)

Não recues! De mim não foi-se o espírito…
Em mim verás – pobre caveira fria –
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!… que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
– Taça – levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
…Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p’ra alguma coisa!…

Charles Baudelaire

Embriagai-vos!

Deveis andar sempre embriagados. Tudo consiste nisso: eis a única questão. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos quebra as espáduas, vergando-vos para o chão, é preciso que vos embriagueis sem descanso.

Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude. Como quiserdes. Mas, embriagai-vos.

E si, alguma vez, nos degraus de um palácio, na verde relva de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, despertardes com a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo que gene, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão:

– É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!