Arquivo do mês: junho 2020

Mário Quintana

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Ezra Pound

ALBA
Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
……“Levanta patife, sus!
…………Vê, já reluz
………………A luz
………………Depressa, corre,
………………Que a noite morre…”

 

Tradução: José Lino Grünewald

Konstantínos Kaváfis

À ESPERA DOS BÁRBAROS


O que esperamos nós em multidão no Fórum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inação?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, sùbitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.

 

A FARDA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam” (Martin Luther King)

A fixação do presidente Jair Bolsonaro pela farda é comovente; foi de Brasília para o Rio assistir o funeral de um jovem paraquedista acidentado e morto em treinamento, mas se mostra indiferente diante dos mais de 50 mil óbitos por covid-19 no País.  Dispensa humanidade para um e sequer uma palavra de conforto às famílias enlutadas…

O Presidente ignora e não tem um só assessor encorajado para lembrar-lhe, que todos os brasileiros, com exceção apenas de 30 ou 300, estão pesarosos pelas vidas ceifadas na pandemia, e se solidarizam com os infectados à espera do pior.

Recebe apoio, sem dúvida, pela fração que lhe cultua no melhor estilo do que fizeram os nazistas com “mein führer” Hitler e os bolcheviques russos com “camarada” Stálin. São agrupamentos que os sociólogos classificam como “massa”.

A massa representa desmiolados reunidos em grupos, sob a liderança de algum esperto carreirista político ou de um malandro ludibriador mercenário. Toma o partido do condutor que grita mais ou incita com ardor de uma palavra-de-ordem espalhafatosa.

A massa tem coletivamente a mentalidade de uma criança de nove, 10 anos, aberta às sugestões dos adultos que respeitam. Participando, então, da política, é capaz de tudo: criar mitos, coroar heróis, derrubar estátuas, injuriar personalidades e incendiar edifícios públicos. Até assaltar bancos…

O gênio de Shakespeare nos deu um retrato sem retoques disto, descrevendo o velório de César, diante da massa hostil vociferando contra o morto e aplaudindo seus assassinos. Repercute o discurso fúnebre de Marco Antônio, recordando os feitos de César, e apresentando o testamento dele deixando os bens para o povo romano.

Este drama shakespeariano tem como apoteose a notável inversão do comportamento da massa exortando a memória de César e se voltando contra os conspiradores que o mataram.

Não é preciso um aprofundamento sociológico para se ver que há uma diferença enorme entre massa, povo, povo organizado e povo fardado. A própria convivência mostra que o povo tem consciência cívica; quando organizado, participa de movimentos de acordo com os seus ideais; e o povo militarmente estruturado obedece a uma hierarquia e aos valores patrióticos.

É assim que se forma uma Nação esclarecida e culta. Nação, do latim natio, de natus (nascido), é uma comunidade estável, historicamente constituída voluntariamente por uma comunidade baseada num território comum, com a mesma língua, herdando a mesma cultura e tendo as aspirações materiais e espirituais comuns.

A farda é a vestimenta padronizada que distingue as pessoas, usada por estudantes, clérigos, guardas municipais, policiais militares, porteiros de hotel e até os trajes cerimoniais da seita Santo Daime, que os adeptos chamam de “farda”.

A Farda é o uniforme das forças militares, instituído desde o século 17 na França e posteriormente adotado por todos os países ocidentais, espelhando o “povo fardado”, constituído para defender a Nação.

O Brasil é uma Nação-Estado constituída federativamente por regiões subnacionais, estados-membros, que além da cultura comum apresentam também formações culturais próprias, costumes, tradição e linguística.

A tese de doutorado de Janote Pires Marques na Universidade Federal do Ceará sobre o ensino militar no Brasil, evoca o poeta nacional Castro Alves e o seu poema “Quem Dá aos Pobres, Empresta a Deus” – desenvolvendo a relação benéfica entre a Cultura – O Livro -, e o Militar – O Sabre; “As duas grandezas que se abraçam e se cruzam”.

Castro emociona com os versos: “Não cora o livro de ombrear co’o sabre…/ Nem cora o sabre de chamá-lo irmão…. “ E, como o Poeta, os brasileiros bem formados culturalmente esperam do povo fardado o sabre para garantir institucionalmente a manutenção do Estado de Direito, com respeito à Constituição e aos poderes republicanos.

 

 

T. S. Elliot

Os homens ocos

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

Tradução: Ivan Junqueira

Carlos Drummond de Andrade

QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

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INCÊNDIOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A vida é um incêndio: nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta! ” (Mário Quintana)

Quando estudávamos latim no ginásio éramos obrigados a ler e traduzir os discursos de Cícero – que sempre caiam no exame vestibular das faculdades de Direito -, e para os curiosos, como eu, haviam coletâneas de provérbios e os “Doze Césares” de Suetônio.

Lembro-me (não tenho condições de confirmar, por falta de referência) que o livro de Suetônio tem um capítulo dedicado a Nero, onde encontramos as mesmas louvaminhas dos historiadores chapas-branca que enxameiam em torno do poder – e aparecem muitos entre nós…

Para defender o Imperador, Suetônio transfere para os cristãos a culpa pelo incêndio de Roma, uma versão que foi negada posteriormente por Tácito, e que foi combatida insistentemente por escritores católicos, como no livro “Quo Vadis”, romance do escritor polonês Henryk Sienkiewicz ambientado na Roma Imperial à época de Nero.

O tema abordado por Sienkiewicz gira em torno da conversão de Paulo de Tarso ao cristianismo, sua presumível presença em Roma e a perseguição que se abateu sobre os cristãos, após o incêndio.

A força do livro “Quo Vadis” e a transmissão oral por gerações consecutivas atribuem a Nero um comportamento execrável, sentimentos abjetos, sexualidade pervertida e acusam-no pelo incêndio urdido apenas para lhe inspirar um poema…

Outros pontos de vista argumentam antagonicamente o perfil de Nero como um monstro e os seus atos tirânicos. Se firmam pela denúncia de ficção e a frágil confiabilidade das fontes que abundam na Biblioteca do Vaticano.

Fugindo da discussão e separando a ficção da realidade, podemos encontrar governantes que a História registra desde a Antiguidade apresentados como heróis pelos seus patrícios, mas que foram responsáveis por chacinas criminosas. Temos o exemplo de Napoleão Bonaparte, que com suas guerras foi responsável por um milhão e setecentos mil franceses mortos.

Nem precisamos falar de Hitler e Stálin, os neros do século passado, ainda fixos na memória dos traficantes de utopias fraudulentas, e cultuados por admiradores fanáticos.

Ambos foram piromaníacos: Stálin mandou queimar a safra de trigo dos kulaks na década de 1920; e Hitler arquitetou o incêndio do Reichstag após a vitória eleitoral em 1933, o que lhe proporcionou o poder absoluto na Alemanha. O Führer também se divertia com as fogueiras armadas com livros clássicos pela Juventude Nazista…

Guardo tristemente na memória recente do grande incêndio da catedral de Notre-Dame de Paris, cuja construção data do século 12, e se tornou o símbolo da capital francesa. Esta tragédia, segundo notificação inicial da polícia deveu-se à negligência pela conservação da igreja.

A indiferença por um patrimônio cultural da humanidade deu-se igualmente no Brasil com o incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. As causas foram esquecidas, mas ninguém me tira da cabeça que esse trágico incidente deveria ser creditado aos responsáveis pela sua preservação.

Temos no Brasil incendiários perversos com as continuadas queimadas das nossas florestas, em particular na Floresta Amazônica. Os criminosos são blindados por um mecanismo dissimulado e oculto aos olhos dos governos através dos tempos. Antes, durante, e possivelmente após o Governo Bolsonaro, se não pudermos evitar punindo severamente os seus autores.

Mesmo com a criação da operação Garantia da Lei e da Ordem (GLO), autorizando os militares para coibir as queimadas na Região Amazônica, ainda estamos longe de ver o fim da ação revoltante

A defesa da Amazônia não pode se resumir às piadas em torno da ativista juvenil Greta Thünberg. Trata-se de uma imposição da consciência patriótica para impedir que a “boiada passe” arruinando o futuro das próximas gerações.

 

 

Fernando Pessoa

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

LARANJAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Se você tem uma laranja e troca com outra pessoa que também tem uma laranja, cada um fica com uma laranja. Mas se você tem uma ideia e troca com outra pessoa que também tem uma ideia, cada um fica com duas. ”  (Confúcio)

Em tempo de pandemia virulenta seja com o novo coronavírus maléfico ou com a política cada vez mais nefasta, vale a pena falar de laranja, uma fruta festejada em toda parte que, como verbete dicionarizado é originário do árabe “narandja” e curiosamente pode ser substantivo feminino e substantivo masculino.

A versão feminina se refere ao fruto da laranjeira e a versão masculina significa pessoa utilizada por outra como intermediária em fraude e negócios suspeitos, como aplicar dinheiro obtido ilegalmente.

Os dicionários de gíria se referem à laranja para pessoa simples ou ingênua, e nos Sertões a palavra é masculinizada “laranjo” usada como referência à cor de bovinos.

Com menção ao coronavírus, lembro que a laranja é usada medicinalmente para o tratamento de males que derivam de infecções, como a dermatite e a cistite, porque além da famosa vitamina C, contém ácido fólico, cálcio, potássio, magnésio, fósforo e ferro.

Houve época em que os médicos recomendavam beber suco de laranja para “limpar” o organismo antes de determinadas cirurgias, ativando suas propriedades antioxidantes.

É ilustrativa a história de como a laranja doce foi trazida das fraldas do Himalaia para a Europa no século XVI pelos portugueses. Por isso são chamadas de “portuguesas” em vários países, especialmente na Itália e nos Bálcãs. No grego é portokali e portakal em turco.

Além de vários tipos que conhecemos, laranja-Bahia, laranja-da-terra, laranja-lima, laranja-pera, laranja-seleta e laranja vermelha, também designa cor, cor-de-laranja ou alaranjado.

A laranja entrou na literatura em livros como “Meu Pé de Laranja Lima”, clássico de José Mauro de Vasconcellos, que se popularizou com duas novelas, da década de 1970, de Ivani Ribeiro pela TV-Tupi, dirigida por Carlos Zara, com Cláudio Correia e Castro; e, na TV-Bandeirantes, sob a direção de Del Rangel, tendo como protagonista Gianfrancesco Guarnieri.

“Meu Pé de Laranja Lima” chegou ao cinema nacional com o filme também baseado no livro de José Mauro, sob a direção de Marcos Bernstein; cheio de ternura e ingenuidade, confrontou-se com o horror trazido à tela pelo badaladíssimo filme de Stanley Kubrick, “Laranja Mecânica” extraído do romance distópico de Anthony Burgess “A Clockwork Orange”.

O livro de Burgess se inspirou num fato real ocorrido em 1944: o estupro, por quatro soldados americanos, da primeira mulher do autor, Lynne, e o filme é realmente horroroso, amedrontador, mostrando um grupo de delinquentes liderados por um psicopata, que buscam o prazer através da ultraviolência.

Este funesto enredo desenvolvido por Kubrick nos leva ao pânico proporcionado pela pandemia que atravessamos, uma mistura maligna da covid-19 com a politicalha reinante no Brasil, com o fanatismo e o ódio tentando estuprar a Democracia.

É grave e lesiva a convergência dos extremismos de direita e esquerda desprezando as medidas de segurança que o momento exige; e, criminosamente, com o exemplo vindo de cima para baixo…

Laranjas políticos e profissionais se juntam aos laranjas virtuais (termos registrados no Dicionário de Gíria de J. B. Serra e Gurgel) para as tramoias, as rachadinhas, e levando às redes sociais a transgressão da lei e da ordem que vigoram no Estado de Direito.

Como híbrida da toranja e da tangerina, temos uma laranja entre as chamadas laranjas sanguíneas, conhecida como “Moro”.  Ao encontra-la na pesquisa, lembrou-me Sérgio Moro, o caçador de corruptos, que disse: “Talvez alguns entendam que o combate ao crime deve ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais!”

Esses “alguns”, da direita e da esquerda o odeiam por isso…

 

 

ADIVINHAÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo” (Clarice Lispector)

No meu tempo de escola “risonha e franca”, que era também ingênua, brincávamos de adivinhas. Algumas se tornaram clássicas, como a que pergunta “o que é, que é, cai em pé e corre deitado? ”, ou “quem é que anda com os pés na cabeça? ”. As respostas todos sabem, chuva e piolho…

As adivinhas, como vimos nos exemplos acima, são brincadeiras necessárias ao estímulo para aguçar o raciocínio infantil. Utilizei-as muito com meus filhos e depois com os meus netos. Tem um site de Português do “Escola KIDS” com adivinhas inteligentíssimas que podem ser encontradas pelo link  https://bit.ly/3hkf34E  .

Há diferença entre adivinha e adivinhação? Ambas são usadas como sinônimos, porque veem embrulhadas pelo papel celofane do verbo adivinhar; mas a sua diferença é refinada: Adivinha é charada, enigma, questão; e adivinhação é previsão, profecia, prognóstico.

Como verbete dicionarizado, Adivinhação é um substantivo feminino originário do verbo latino addivināre (de divināre ), previsão; suposição ou crença de que é possível prever o que está por vir, ou revelar o que está encoberto no presente e no passado.

Adivinhação é exemplificada num fato vivido pela sibilina deputada Carla Zambelli (aquela que propôs a Sérgio Moro que se submetesse aos desígnios pouco republicanos de Bolsonaro para ganhar cadeira no STF).

A parlamentar predisse que a Polícia Federal iria investigar governadores, e não deu outra: 24 horas depois Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, se enrascou de tal maneira com a investigação que está no caminho do impeachment…

Pensei que depois disto, se ela montar uma tenda de oráculos aberta a consultas, vai ganhar rios de dinheiro; há, porém, outros profetas políticos que não conseguem convencer ninguém.

Entre esses tais que não persuadem ao ler o futuro, tem um astrólogo, guru dos filhos do Presidente, que reclama por não ser ouvido, ameaçando raivoso até de revelar histórias do presidente Jair Bolsonaro se não receber atenção; talvez por isso, mesmo sem crédito na adivinhação, mantém vários pupilos em importantes cargos do governo federal.

Ao meu ver, ser adivinhão é uma profissão de risco. Tem uma história que corre com os camelos nos desertos da Arábia contando que o general Hedjaz, no reinado do califa Valid, consultou um astrólogo íntimo das constelações e dos cometas; e o atendente preparou o mapa astral do consulente e decretou:  – “Vais morrer em breve”.

Hedjaz ficou por instantes pensativo e agradecendo o augúrio disse: -“Confio tanto no seu conhecimento do destino, que desejo tê-lo ao meu lado na vida após a morte. Irás na frente, preparar a minha chegada”. E mandou decapitar o agourento…

Não sei se ocorre pelo mundo afora, mas no Brasil a adivinhação é contravenção penal. O artigo 27 da Lei de Contravenções Penais alcança videntes, cartomantes e adivinhões dedicados a “ler a sorte” por “explorar a credulidade pública mediante sortilégios, predição do futuro, interpretação de sonhos, ou práticas congêneres. ”

Esta Lei vem sofrendo de baixa consideração, mas está viva. A professora e pesquisadora Maíra Zapater nos dá sobre ela um pensamento antológico: – “Não obstante seu perfume de bolor e naftalina e os muitos dispositivos derrogados por normas posteriores ou mesmo não recepcionados pela Constituição Federal, a Lei de Contravenções Penais continua em vigor”.

Mesmo nos tempos imprevisíveis que atravessamos, das baboseiras do “politicamente correto” que condena o filme “…E O Vento Levou”, querendo deletar o passado com a sua soberba ignorância; surgem falsos profetas à esquerda e à direita recuperando o viço pressagiando uma volta ao passado, seja para surfar na corrupção lulopetista, seja para mergulhar num pântano ditatorial dos extremistas de direita.

Em tempo: A Deputada adivinhona não previu que seria investigada como instigadora de atos antidemocráticos, nem que o ministro Weintraub cairia, e muito menos que achariam e prenderiam Queiroz em Atibaia ….  E assim, me perdeu como cliente…