Arquivo do mês: abril 2021

SOMBRAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” (Carl Jung))

Mesmo com a idade avançada, não me sai da memória o tempo em que escutava no rádio a novela do “Sombra” – um personagem de histórias policiais que me encantava.

A trilha sonora, com acordes compassados e segundos em silêncio, imprimia atenção e expectativa para o aparecimento do personagem e a sua voz cavernosa: -“ O Sombra sabe…”, precedida de um riso em crescendo, “ah-ah-ah-ah-ah! ”.

Para um menino, o programa construía a ideia do combate ao crime, que mais tarde veio desenhado em revista de quadrinhos. O benéfico perseguidor mascarado “The Shadow” foi criado pelo escritor norte-americano Walter Brown; era um disfarce do milionário Lamont Cranston, na história que mais tarde inspirou a criação do Batman.

Além do personagem, o verbete Sombra é um substantivo feminino oriundo do latim “sulumbra”, nascida da expressão “sub illa umbra”, a parte escura do céu…. É a penumbra provocada pelo bloqueio da luz; significa também silhueta e até a maquiagem que dá cor às pálpebras.

Ao deixar a infância interessei-me pela Mitologia Grega e Romana, encontrando nos poemas épicos de Homero, Ilíada e Odisseia personagens sedutores, e especialmente encantou-me a Ilíada, a guerra protagonizada por Ulisses, rei de Ítaca, inventor do célebre Cavalo de Tróia. E foi com ele esbarrei em sombras.

Visitando o inferno, Ulisses viu Aquiles, outro grande guerreiro, comandando uma legião de heróis falecidos em combate; felicitou-o pela glória que conquistara entre os vivos e o reconhecimento dos mortos. Aquiles, porém, falou humildemente: – “Não tente me consolar, nobre Ulisses; eu preferiria lavrar o campo como servo, privado de privilégios e bens, do que comandar um Exército de Sombras…

A lendária saga de Aquiles aponta que a sua morte se deveu a uma flecha envenenada que lhe atingiu no calcanhar, a parte do corpo sem proteção da armadura; daí nasceu a expressão “calcanhar de Aquiles”, referindo-se à parte fraca de uma pessoa.

No correr da vida cai no esquecimento as lições que a própria vida recebeu; e comandar um “Exército de Sombras” é motivo de alegria e acrobacias verbais para Bolsonaro, que insiste em referir-se “o ‘MEU’ exército” querendo que acreditem ser ele dono de um “Exército” que pode acompanha-lo numa aventura golpista.

Na verdade, o Capitão Minto comanda um exército de sombras, com oficiais reservistas de farda no armário: uns até bem-intencionados, outros apenas para dobrar os rendimentos, muitos saudosistas do regime militar, em sintonia com conspirações, e mais alguns revanchistas esquizofrênicos contra o Estado de Direito.

De pijama ou de paletó e gravata, este Exército das Sombras nada tem a ver com os militares da ativa, do Exército de Caxias, com desempenho nos quarteis aonde impera a hierarquia a o patriotismo; e são tradicionalmente legalistas.

Há um 2º Exército das Sombras. Formado de mercenários que atuam nas redes sociais em defesa do Governo Bolsonaro, com a ignorância intolerante dos obedientes sabujos atrás da caça; estes, apesar de organizados e ruidosos não são levados a sério on line por disseminar fake news.

Pela religião mal compreendida (como alertou Martin Luther King), formou-se um 3º Exército das Sombras, e já tem um graduado no STF…. São religiosos “ao extremo” misturados com neo-cristãos oportunistas mergulhando nas trevas bolsonaristas como falsos defensores da liberdade religiosa.

Um cristão autêntico, despojado de vaidades e vacinado contra a politicalha, o padre Júlio Lancellotti, diz com sapiência e fé que “a essencialidade da liberdade religiosa é o testemunho de Deus. Não é ir no templo testemunhar o cofre…”.

Nestes tempos estranhos que vivemos, ouvir a voz da razão propõe uma justa repartição de sombras e de luz, pela união de todos contra a pandemia, propomos seguir as palavras do Cristo:  -“Perdoai-os, Pai, pois eles não sabem o que fazem”.

 

SILÊNCIO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar! ” (José Américo de Almeida)

Homenageou-se no mês de março o aniversário do jornal norte-rio-grandense “Tribuna do Norte” e o seu fundador, Aluízio Alves, jornalista de vocação sempre atuante. Aluízio, como homem de bom senso, conhecia o leitor-padrão dos jornais e ensinava na redação que era melhor suprimir o trecho de uma matéria do que acrescentar firulas ao conteúdo.

O noticiário jornalístico se perde por excesso de floreado que tira a atenção do leitor, como uma reportagem que li vinda de Nova York muitos anos atrás. Trouxe a história de uma violinista (de nome italiano, mas esqueci) que deixou no testamento o pedido para que no seu enterro se ouvisse uma tocata de Paganini e que o seu Stradivarius fosse enterrado com ela…. Ora, ouvir Paganini é uma maravilha; mas enterrar uma fortuna por simples egoísmo é uma excentricidade muito cara.

Essa extravagância testamentária se repete com pessoas de várias profissões, não é como se pode pensar, a vaidade egocêntrica dos artistas; a encontramos, por exemplo, entre os políticos, em maioria carreiristas, gananciosos e personalistas, como vimos nos discursos em defesa das emendas parlamentares discutindo o Orçamento.

Ensinar a fazer silêncio em algumas oportunidades deveria fazer parte da educação doméstica infantil, como escovar os dentes, não falar com a boca cheia e não beber água antes da sopa…. Hemingway lembrou num dos seus livros que “são necessários dois anos para aprendermos a falar e sessenta para aprendermos a calar”.

Como tal ensino não é praticado, vimos há pouco o ministro Fábio Faria exagerar na falação, sugerindo que os jornais publicassem balanços sobre vítimas da pandemia, ignorando que já havia se formado um consórcio dos veículos de imprensa só com este objetivo…. E é o “homem de Bolsonaro” na Comunicação.

Tem um aconselhamento proverbial que diz: – “Falar é bom, calar é melhor, mas ambos são desagradáveis quando levados ao exagero”; esta lição serviria ao governador João Dória, que com incontinência propagandista correu para anunciar uma “vacina 100% brasileira” o que não é bem assim…

Os agentes públicos deveriam atentar que se o pronunciamento correr o risco de um equívoco, melhor será que se faça silêncio. Dicionarizada, a palavra “Silêncio” é um substantivo masculino significando total ausência de som, e também uma interjeição, quando vem precedida pelo sinal de exclamação. A origem é latina (silentium, -ii) e tem referência à situação de quem se abstém ou para de falar.

Um dos mais belos toques militares de corneta é clarinada do Silêncio, que é executado como honra fúnebre em enterros e avisa o recolhimento noturno. Kafka se refere à energia que reside no silêncio, e Shakespeare encerrou a sua genial peça Hamlet saindo da boca do príncipe moribundo: – “O resto é silêncio…” destas palavras se aproveitou o festejado escritor gaúcho Érico Veríssimo intitulando um dos seus livros, publicado em 1943, “O Resto É Silêncio.

Guardar o silêncio é prova de inteligência; mas ao alcançarem o poder, muitos s’ esquecem disto mantendo irrefreável loquacidade em assuntos que não lhe competem, ou simplesmente desconhecem, mas fingem conhecer…. E o pior é que não se conformam com as críticas da mídia sobre a tagarelice.

É assim que age o inconsequente presidente Bolsonaro na pandemia do novo coronavírus. Obcecado em desdenhar a peste como foi orientado pelo antigo líder, Donald Trump (que já se desculpou, mas não repercutiu aqui), e sem uma assessoria para orientá-lo, pois se cerca de iguais e inferiores à sua formação intelectual, continua dando maus exemplos à população pelo negacionismo explícito….

E, desgraçadamente, influencia o bando extremista falsamente assumido como “de direita” ou “conservador”, mas simplesmente de fanáticos pelo Chefe e achegados ao poder, muitos deles recebendo pixuleco nas redes sociais para defender o “tratamento precoce”.

Neste cenário vergonhoso e constrangedor, dá vontade de sugerir ao “Posto Ipiranga de Bolsonaro”, o ministro Paulo Guedes, ávido pela ressurreição da CPMF, que crie uma taxa para os boquirrotos, na mesma proporção como cobra pelos alimentos.