Arquivo do mês: outubro 2020

ADIVINHAÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O verdadeiro é semelhante a Deus; não aparece espontaneamente, temos de o adivinhar pelas suas manifestações” (Goethe)

Nunca acreditei em jogos adivinhatórios praticados por amadores; e também jamais levei a sério os falsos profetas que sobem ao púlpito de igrejas para explorar a crendice alheia; mas, noves fora os trapaceiros, sempre tive curiosidade pelos ancestrais métodos de prever o futuro, com espinhos, cera, fogo, fumaça, observação das nuvens, ossos, sonhos…

Ainda hoje nos interiores da Espanha e de Portugal joga-se ramos de louro na fogueira para, conforme os estalos, crer que determinada intenção dará certo….

Não sei se por brincadeira, a minha avó materna praticava a chamada “criptomancia”, que consiste em apagar um fósforo numa xícara de café quente e, através das figuras que se formam, responder a dúvidas; faz-se a mesma prática jogando água fervendo sobre folhas de chá e conforme elas sobem, será um bom ou mal augúrio…

Mais sofisticada, a arte de adivinhar veio do Oriente com o I-ching, um milenar manual de previsões. Popularizou-se no mundo inteiro tendo os seus hexagramas trocados por figuras no Tarot. Do Leste também chegaram à Europa, e atravessaram o Atlântico, a leitura da sorte pelo Baralho Cigano e a Quiromancia, leitura das linhas das mãos; ambas decifrações são clássicas e habituais.

Procedente da África, o Jogo de Búzios é muito apreciado nas ilhas caribenhas, no Brasil e na Colômbia, e é igualmente costumeira entre adeptos de religiões africanas a observação das chuvas, a germinação de sementes e a trilha de moluscos nas pedras.

Considerados pseudocientíficos, mas estudados com afinco e seriedade, temos a Numerologia e a Astrologia, esta última contando com um grande número de adeptos e de especialistas em mapas astrais, com o desenho da vida e a projeção para o futuro; e, pelo estudo dos signos do zodíaco, faz previsões pelos Horóscopos.

Aceite-se ou negue-se os enigmas para descortinar o futuro, há que se reconhecer que os procedimentos utilizados para predizer o porvir são populares no mundo todo, de Leste a Oeste.

Mesmo no quadro materialista da política, recolheu-se de Tancredo Neves a arte adivinhatória da Aeromancia – previsão pelo estudo das nuvens e dos ventos. É antológica a vidência de Tancredo dizendo que “a política é como nuvem. Num momento você olha e está de um jeito; no momento seguinte, você torna a olhar, e o jeito já mudou…”.

Mais do que uma profecia, essa observação de Tancredo mata a charada da incoerência, da falta de ética e mostra o desprezo de princípios pelos profissionais da política. Na semana passada lemos uma notícia que exemplifica a lição nas nuvens eleitorais corredeiras: “Dos 174 mil candidatos que disputam novamente a eleição, 115 mil concorrem em uma legenda diferente da usada em 2016”.

Os patifes mudam de partido, mudam de nome, mudam de cor e mudam as declarações de renda…  Houve até quem às escondidas trocou o modelo da cueca por uma mais espaçosa para enganar a polícia, depois do flagrante de Chico Rodrigues, senador do DEM e ex-líder do presidente Jair Bolsonaro.

De olho vivo sob as nuvens da política, os brasileiros usam as redes sociais fazendo denúncias que servem como técnica de adivinhação para a Polícia Federal nas investigações para caçar os corruptos que o Presidente diz que já não há.

Os trapaceiros e os imbecis ocupam um grande espaço na vida nacional; os primeiros adivinham por achismo, receitando remédios miraculosos, insinuando perigos pela imunização vacinal e prestidigitam a delinquência dos seus bandidos de estimação.Os outros seguem o que ouvem deles, e os veneram.

É preciso estarmos espertos e lembrarmo-nos de que “nem tudo que reluz é ouro”, como reza o ditado popular; e ficarmos conscientes de que acima das adivinhações está o “Olho que Tudo Vê”, lembrando aos políticos de que estão permanentemente observados.

 

 

IMPUNIDADE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Aquele que não pune o mal, permite que ele seja feito” (Leonardo Da Vinci)

Parece que há um tempero indigesto no cozinhado legislativo que é degustado pelos ministros do STF. Isto preocupa pela insegurança que uma indigestão recaia na mesa exposta das correntes doutrinárias em litígio.

Com clareza meridiana vê-se que o sistema político e o sistema jurídico se completam criando condições para assegurar a impunidade:  Os parlamentares, que por corporativismo apoiam projetos dos colegas denunciados por vários tipos de delinquência; e os juízes garantistas da Alta Corte que se acorrentam à interpretação cega do texto legal.

Foi o que ocorreu com o ministro Marco Aurélio Mello – o garantista-mor –, que já soltou 79 presos condenados em 2ª Instância.  Desta vez foi o traficante de alta periculosidade André do Rap, já condenado duas vezes em segundo grau por tráfico de drogas.

A sentença de Marco Aurélio não tem nada de surpreendente; mas explodiu como uma bomba por motivos paralelos à sua interpretação jurídica porque ignorou o Ministério Público e porque o pedido de habeas corpus veio envolto no papel celofane da suspeição pela origem: o escritório de um advogado, ex-assessor seu.

Decisões monocráticas como esta trazem no ventre a tendência individual de alguns ministros das cortes superiores de Justiça. Chegam meladas de falso humanismo e açucaradas pela leniência, disfarçando o olfato e o paladar da Justiça boa e perfeita.

Libertado pelo ministro Marco Aurélio, André do Rap é um dos chefes da facção criminosa PCC – Primeiro Comando da Capital -, já fora condenado e preso anteriormente e estava na cadeia denunciado pela PF por ser dono de um carregamento de 882 quilos de pasta de cocaína, nove fuzis-metralhadora e acessórios para as armas, como miras e carregadores.

Para soltá-lo, o Ministro invocou um artigo da lei que desvirtuou o Pacote AntiCrime do então ministro Sérgio Moro sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, embora alertado para as brechas inseridas pelos picaretas do Congresso sabotando o combate à corrupção e ao crime organizado.

Entrevistado pela imprensa, Sérgio Moro afirmou que a soltura de André do Rap não estava no Pacote AntiCrime, e afirmou: – “Eu, quando ministro da Justiça e Segurança Pública, me opus à inserção deste artigo por temer a libertação imediata de presos perigosos por mero decurso de tempo”.

Fica assim esclarecida a decisão de Marco Aurélio. Queiram ou não os simplistas ideologizados que lhe atacam, responsabilizando-o como único responsável, a culpa deve ser dividida irmãmente entre ele, interpretador da Lei, o Congresso por promulga-la, e o Presidente da República que a aprovou.

Não é exaustivo dizer que o STF existe para interpretar a Constituição, incluindo os direitos do cidadão nela contidos. Por isto, o entendimento individual do ministro Marco Aurélio Mello que beneficiou o Traficante, é a definição da Corte que, equivocadamente, não reconhece prisão após sentença na 2ª Instância, exigindo o cumprimento da pena após o julgamento de todos os recursos.

Felizmente, as brisas chegadas com Luiz Fux na presidência do STF arejam a revisão das decisões monocráticas. Fux já manifestou a defesa do colegiado e já mostrou coragem tirando da 2ª Turma os processos da Lava Jato, encaminhando-os ao plenário. E irritou três colegas.

Estes formam um grupo pequeno, mas atuante, que discorda e critica o ministro Luiz Fux. Do lado de fora, há também uma tendência que se diz “conservadora”, mas aplaude a impunidade dos seus “bandidos de estimação”.

Os brasileiros que lutam contra a corrupção e o crime organizado estão na expectativa de ver como esse pessoal se comportar na apreciação da PEC que institui a prisão após condenação em 2ª Instância e da revisão do pacote anticrime. Será um teste de honestidade.

A grande maioria do povo, 83%, defende as medidas saneadoras e pensa como o poeta mineiro Cláudio Tavares Barbosa, que nos interpreta expondo: “Ai dos que puxam para si a iniquidade/ com cordas da injustiça, / os quais por suborno justificam o perverso/ e ao justo negam justiça”.

ROBÔS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A automação é como o Lord Voldemort, de Herry Potter; a força aterrorizante que ninguém quer nomear” (Jerry Michalski)

Da leitura do livro de Brian Selznick ao maravilhoso filme dirigido por Martin Scorsese, ganhador de cinco Oscars, vive-se uma maravilhosa emoção com “A Invenção de Hugo Cabret”. A fita está à disposição no Netflix e no Google.

Relembrando Hugo Cabret, resolvi escrever este texto sobre robôs. Para desenvolvê-lo fui ao também sensacional livro “Eu, Robô”, do futurólogo Isaac Asimov, que também se transmudou em filme, dirigido por Alex Proyas.

O “Eu, Robô”, ao contrário do passado épico do cinema na Invenção de Hugo Cabret, projeta-se para o futuro, o ano 2035, onde os robôs são usados para substituir o trabalho humano. Pela Lei dos Robóticos, eles são impedidos de praticar qualquer tipo de violência; mas um deles, que um parafuso frouxo aguçou instintos maléficos, pratica um crime matando um cientista; é perseguido e desativado…

A minha atração prendeu-se ao romantismo de Hugo Cabret, a história de um menino às voltas com um androide que o pai lhe deixou ao morrer. Sozinho, marcando as horas no relógio de uma estação ferroviária, Hugo vivia obstinado a consertar o boneco mecânico, roubando peças nas lojas para fazê-lo funcionar.

É flagrado, preso, e depois solto, mas termina resolvendo, com a ajuda de uma amiguinha, o mistério do androide. Fazendo-o movimentar-se, revela através dele a épica história de um pioneiro do cinema, que estava desaparecido.

Os autômatos surgiram por volta do século 18, e os mais notáveis deles foram construídos na França pelo relojoeiro Vauxasson para o rei Luís 15, hoje expostos em museus, como o “Tocador de Flauta” e um “Avestruz” em tamanho natural que corria nos jardins de Versalhes…

Esses primeiros foram brinquedos para adultos, apreciados nas ricas cortes europeias; e a sua evolução, pela introdução de um cérebro eletrônico computadorizado, trouxe-nos os robôs, usados em eletrodomésticos, aspiradores de pó, lava pratos, e até como parceiro no jogo de xadrez, criado por Wolfgang de Kempelen….

Diz-se – não pude comprovar em pesquisa feita às pressas – que o androide “Jogador de Xadrez”, de Kempelen, venceu três partidas disputadas com Napoleão Bonaparte, mas desconfiou-se na época que sob a aparência robótica havia um anão russo, campeão de xadrez na sua terra…

Temos em casa um, “Alexa”, que nos dá informações sobre o tempo, o noticiário midiático, curiosidades históricas e executa músicas a pedido de voz. Essas máquinas – não passam de máquinas, é bom não esquecer -, ajudam viagens interplanetárias, realizam pesquisas científicas, exames biológicos e testes para diagnóstico médico.

A ciência e a tecnologia avançaram surpreendentemente neste campo. As projeções robóticas de Azimov enfrentaram críticas acerbas, partidas de fundamentalistas religiosos. Interpelado sobre os perigos que as suas pesquisas trariam, pressionando-o a abandonar os seus estudos; mas ele foi curto e grosso: – “Se o conhecimento fosse perigoso, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução deveria ser a sabedoria”.

É justamente a sabedoria que nos leva a imaginar como as gerações futuras conviverão com os autômatos humanoides e, quem sabe, evoluídos a ponto de desenvolver ideias próprias…. Esta projeção recolhe-se armazenada em nuvem.

O momento presente é muito pior, pois nos leva a enfrentar pessoas com o pensamento programado, obedientes à voz do dono como robôs de carne e osso, nos chamando pelo telefone para vender bugigangas ou digitando mensagens políticas fraudulentas nas redes sociais, as famigeradas “fake news”…

… E isto não é uma hipótese, e não há força legal para impedi-las; até já tentei barrar chamadas telefônicas automáticas e o provedor se disse incapacitado de fazê-lo; como também se arrastam a mais de dois anos nos tribunais o estudo para decidir como punir fakesiosos e hackers, preservadores virtuais do mal.

Mário Quintana

O Tempo

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Hilda Hilst

Amor 

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.
E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

IDOSOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A história se repete. Esse é um dos horrores da História. ” (Darwin)

Um dos leitores dos meus artigos (que com isto afaga o meu ego), fez outro dia a pergunta intrigante sobre a minha insistência em buscar nas antigas civilizações exemplos para a realidade que vivemos…. Eu aprofundaria sua indagação com os mergulhos na pré-História; outro dia falei sobre a nossa herança neandertal…

A resposta é simples. Aprendi com Miguel de Cervantes que “a História é desafiadora do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”.

O meu interlocutor é muito jovem como muitos dos meus seguidores no Twitter; seu perfil indica 28 anos. Ainda bem que não criticou o meu apego aos mais idosos das redes sociais, com quem vivo discutindo e aprendendo….

Não dialogar é um problema que os jovens só se arrependem de não fazer mais tarde…. Muitos dos antigos se arrependem de não ter mantido conversas pacientes com os avós e os pais quando moços. Disto me livrei; sempre conversei, polemizei e acumulei informações com os meus.

Não é advogando em causa própria que valorizo aqueles das novas gerações que procuram aprender com os idosos, pensando como eu pensava na mocidade. E uma das coisas ficou: a palavra Mocidade é poética, rima rica de muitos sonetos, mas que a palavra idoso(a) é inerente à sabedoria…

Anos atrás, quando trabalhei na Tribuna do Norte, jornal do político norte-rio-grandense Aluízio Alves, excelente jornalista, ouvi dele a admoestação a um repórter que se referiu a um homem se 60 anos como “ancião” numa matéria.

Concordei com Aluízio, não gosto da palavra Ancião, acho-a feia, assim como o povão rejeita usar a palavra “velho”, preferindo “antigo”. Embora o verbete “ancião” apareça nos dicionários como sinônimo de “Idoso”, vejo-o diferente. Pior do que ancião somente a idiotice politicamente correta de exibi-los na “terceira idade”.

Idoso, para a Organização Mundial da Saúde são as pessoas com mais de 65 anos de idade nos países desenvolvidos e com mais de 60 anos nos países subdesenvolvidos. Mas nesta “aritmética sociológica” a OMS não levou em conta que a expectativa de vida se ampliou na população mundial com a ciência e a tecnologia contribuindo para isto e nos empurrando para os 80, 90, 100 anos.

Ouvi certa vez uma máxima que reza: “não nascemos jovens, mas tornamo-nos jovens”; então apelo para a História, que é vista por muitos como paradoxal; para mim, porém, é a base das minhas considerações. Encontrei, por exemplo, que “Jovem” para Hipócrates – o pai da Medicina – é um homem até os 35 anos; que Tito Lívio acrescentou mais cinco, e que as “juventudes comunistas” reconhecem membros de 45 anos (razão porque a UNE virou ‘anciã’… rsrsrs).

Outra vez me referi à ‘Mulher de Trinta Anos’ (La femme de trente ans), personagem do realismo amoroso de Honoré de Balzac, escritor que muito admiro, embora vendo-o na sua época; hoje, ele se corrigiria evocando as mulheres de 40, 50, 60… e 70 anos…

Li em alguma publicação que os indianos dizem que o elefante já nasce velho; mas vê-se o contrário com o ser humano, os setentões engavetam atualmente a certidão de idade exibindo o corpo e a mente saudáveis de dar inveja aos jovens.

Constatamos, com alegria, que o envelhecimento sadio do corpo e da mente também é ativista pela preservação da vida; isto implica em usar a acumulação de experiências visibilizando o futuro da sociedade humana. E, sobretudo, defendendo o direito de reverenciar a História que os nossos antepassados viveram, porque ela se repete…

Tudo bem. Agradecendo mais uma vez ao jovem curioso que me interrogou, peço que grave uma lição de Victor Hugo: “Os velhos precisam de afeto, como precisam de sol”.

 

DE VOLTA À CAVERNA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Suponhamos que o homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do Sol? “ (Sócrates)

A situação cavernosa que estamos vivendo com o negacionismo ocupando diretamente o poder no Palácio do Planalto, lembrou-me um artigo que escrevi no ano passado, “A Caverna”, relatando a vida dos neandertais habitando grutas; e lembrei o DNA que nos legaram, gravando no nosso subconsciente o fascínio por elas.

Esta atração pela caverna originou vários mitos nas sociedades antigas, fazendo-as cenário do surgimento de deuses em várias religiões e até o nascimento de Jesus Cristo é representado nos presépios natalinos em grutas.

Vê-se no Brasil pessoas com a mente voltada ao passado, sob a influência psíquica neandertal ou submetidos às ineptocracias que negam a Ciência, afligindo os minimamente escolarizados, porque o retorno à antiguidade não tem o romantismo do cinema.

O cinema nos mostrou no belíssimo filme “Meia Noite em Paris”, de Woody Allen, saindo da boca de Gil, um roteirista de Hollywood interpretado por Owen Wilson, a importante lembrança de como seria difícil viver no passado.

Gil, convivendo fantasticamente com a intelectualidade migrante que infestava a capital francesa nos anos 1920, conta um pesadelo que teve, sofrendo a falta de anestesia no tratamento dentário e por não haver antibióticos para combater infecções…. Isto deixou a interlocutora perplexa, pois naquela época todos ignoravam os futuros avanços da Medicina.

Triste é que ainda hoje, em pleno século 21, ocorre o anverso. Nos espantamos e nos revoltamos com o alheamento sobre o enfrentamento científico aos bacilos, bactérias e vírus transmissores de doenças. Vemos alguns cegarem para o avanço civilizatório, manifestando o desapreço pela Ciência, sem aprofundar-se no estudo ou raciocinar com a própria cabeça.

Entristece ver alguém que vivendo sob uma terrível pandemia condene a imunização biológica criando anticorpos para enfrentar a virulência…. No meu tempo de menino, a gente estudava no curso primário (equivalente hoje ao Fundamental I) a história de Pasteur salvando um menino da raiva, com a vacina que descobriu.

Os negacionistas não estudaram a História da Civilização, onde se registra o holocausto dos astecas, maias, incas, indígenas americanos, brasileiros e caribenhos, indefesos biologicamente para as enfermidades bacterianas trazidas pelos europeus.

É penoso vê-los usando as ferramentas da Internet digitando mensagens nas redes sociais, refugarem a corrida do bem pela descoberta da vacina contra a covid-19. Fazem-no, ora desconfiando da origem nacional, ora enjeitando-a por influência ideológica, ora escravizados ao fundamentalismo religioso.

Sei que não adianta argumentar com essas pessoas. São fanáticas como aquelas que na Itália fascista chamavam Mussolini de “chefe amado e provado”; na Alemanha nazista tratavam Hitler como o “pai da pátria” e na Rússia comunista, idolatravam Stálin enaltecendo-o como “guia genial dos povos”….  O fanático ama seu líder; o fanático confunde o seu líder com a Pátria; o fanático considera o seu líder um gênio.

Não creio que essa adoração seja pela cor dos olhos, que Hitler os tinha azuis; não pela pose de comando, que sobrava em Mussolini, e muito menos pelo domínio de Stálin sobre os seus partidários…. Cabe-lhes a qualidade negativa que Nietzsche definiu: – “O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos”.

O revoltante é quando os fanáticos se misturam com mercenários e, desta mescla, surgem “guardiões terrivelmente evangélicos” como ocorreu no Rio de Janeiro para constranger os críticos e a imprensa; e pior ainda, é saber que este esquema se expande pelo Brasil afora emergindo da ação virtual nas redes sociais para a ação direta.

Do jogo diabólico das milícias políticas do bispo-prefeito Marcelo Crivella que assistimos, chegou-me à lembrança o escritor João Ubaldo Ribeiro que escreveu: – “A humanidade é uma espécie estúpida que se mata desde as cavernas. Só que, agora, com técnicas mais eficientes”.

Verdade. A metodologia impositiva dos políticos populistas e dos aprendizes de ditador, ofusca os olhos de quem vive as trevas do extremismo. Sem a claridade solar do livre pensar, não condenam o negacionismo científico, os atentados ao meio ambiente, nem sequer veem o modelo americano do nosso Presidente, Donald Trump, dispensar a cloroquina no tratamento da covid-19…

 

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HERÓIS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

      “Hoje em dia, a história está se movendo rapidamente e heróis e vilões trocam seus papéis constantemente” (Ian Fleming)

O galardão de “Herói” vem das antigas mitologias que os tratavam como “semideuses”, assumindo uma posição intermediária entre os homens e os deuses.  Na Grécia mitológica, eram filhos de um ser humano com um deus.

No antigo Egito, uma exceção: Hórus, filho dos deuses Osíris e Isis, era invocado como herói; foi representado por uma figura humana com cabeça de falcão, como se vê nos hieróglifos; e na mitologia grega, seguiam a regra geral, mortais possuindo poderes sobrenaturais.

As antigas epopeias descrevem feitos extraordinários de Aquiles, Hércules, Perseu e Teseu, que inspirando personagens das histórias de quadrinhos…

Como verbete dicionarizado, Herói é um substantivo masculino de origem grega, hḗrōs,ōos, ‘chefe, nobre; semideus; herói; mortal elevado à classe dos semideuses’;  e nas línguas neolatinas, define-se como personagem de grande coragem ou autor de grandes feitos.

Agora, com o mundo de cabeça para baixo por causa da pandemia do novo coronavírus, a manada do abominável “politicamente correto” se aproveita das manifestações antirracistas para derrubar em vários países as estátuas dos heróis de épocas passadas, que conquistaram no seu tempo a reverência dos compatriotas.

Muitos deles, sem dúvida, foram colonizadores cruéis, corsários, piratas e traficantes de escravos, mas foram considerados “heróis” pelas sociedades a que serviram, enriquecendo-as.

Lembro dos corsários que deixaram seu nome na História, como o espanhol Amaro Pargo, o holandês Pieter van der Does e o inglês Francis Drake, que ganhou da rainha Elizabeth o título de “sir”.

Há, porém, de se perguntar o porquê dos governos edificarem os monumentos, e porquê os povos os cultuaram.  Na minha opinião, basta pesquisar sobre as riquezas que vieram dos saqueadores da África, como, por exemplo, da África do Sul, colonizada para o Império Britânico por John Graham, e o comandante Jan van Riebeeck, para a Holanda.

Estes ganharam estátuas dos usufrutuários da exploração, industrialização e comércio dos diamantes sul-africanos, tal qual Cecil Rhodes, Charles Rudd e Barney Barnato. Rodes foi tão poderoso que teve um país batizado com seu nome, a Rodésia.

… E a trágica conquista das Américas, assaltadas pelos europeus em nome de Cristo e sob as bandeiras da cruz (será cristofobia relembrar?). A História registra que os espanhóis e os portugueses destruíram civilizações locais e roubaram toneladas de ouro e prata nas regiões habitadas pelos astecas, incas e maias; e do subsolo brasileiro das Minas Gerais.

Após os movimentos de libertação das colônias europeias, os povos que conquistaram a independência levaram ao poder os seus líderes, sendo que muitos deles se tornaram ditadores, e ergueram estátuas para si próprios…

Por falar em estátuas… constata-se que “o culto dos heróis é mais forte onde a liberdade humana é menos respeitada”, como escreveu Herbert Spencer. Pelo sincretismo com as “religiões pagãs” o catolicismo atravessou os séculos adotando estátuas (batizadas de “imagens”), cruzes e ícones.

Nem o reformador Lutero, embora tenha abalado as velhas estruturas do papado, enfrentou essa idolatria condenada pela Bíblia; maneirou, pedindo que considerasse as imagens e cruzes “como testemunha, para a lembrança, como um sinal”.

Assim, heróis e santos se confundem na idolatria, na adoração primária das massas, que também cultuam pedras e árvores seguindo religiões primitivas; e tanto faz que sejam deuses ou demônios, antepassados ou ocupantes do poder, todos venerados fanaticamente…

… E muito pior do que esta obstinação negativa é vê-la estendida ao ativismo racial, como se expôs a cretinice incorreta em São Paulo, aproveitando-se do desparecimento na reurbanização do Anhangabaú da escultura “Diana, a Caçadora”. Propõe a sua substituição por uma “Diana Negra”…

Com o extremismo de faturadores do racismo às avessas, alguns idiotas conquistam 10 minutos de fama, mas evidenciam que os são de uma ignorância estatuária!  Nem os radicais afro-americanos dos EUA, tão copiados por eles, pensariam neste absurdo, pois, escolarizados, sabem respeitar a cultura universal…