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O GRITO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“De médico e louco todo mundo tem um pouco” (Machado de Assis)

Nas publicações e círculos culturais entrou em pauta o famoso quadro do norueguês Edvard Munch “O Grito”, pintado por ele em 1908, durante a internação numa clínica psiquiátrica após um colapso nervoso. Estudiosos de vários países, pesquisaram durante anos uma frase escrita a lápis no canto superior esquerdo da tela, “Só podia ter sido pintado por um homem louco!”.

Pensava-se que seria um ato de vandalismo; mas finalmente os curadores do Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design da Noruega concluíram, baseados em estudos de caligrafia, que a frase fora escrita pelo próprio Munch.

O quadro, que sofreu um processo de recuperação, é raramente exposto ao público porque sofre problemas com a umidade, obrigando o Museu a mantê-lo sob a temperatura de 18 graus e iluminação sob controle.

As manifestações artísticas de pacientes psiquiátricos, particularmente dos esquizofrênicos, são expressões emocionantes. Temos no Rio de Janeiro o Museu de Imagens do Inconsciente, com um acervo de mais de 350 mil obras; foi uma criação revolucionária da médica psiquiatra alagoana, Nise Silveira, que tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Contrária aos tratamentos agressivos usados à época em pessoas com distúrbios psíquicos, Nise foi pioneira em introduzir na terapia ocupacional a arte-terapia, oferecendo como método terapêutico material de desenho e pintura para incentivar os pacientes a externarem através de imagens os conflitos armazenados no subconsciente.

Partiu também da Psiquiatra a iniciativa de criar a primeira clínica brasileira destinada ao tratamento psiquiátrico em regime de externato, a Casa das Palmeiras, fundada em 1956. As experiências colhidas ali foram aproveitadas nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), estimulando iniciativas artísticas dos pacientes.

O perfil cultural de Nise da Silveira é encontrado nos diversos livros que escreveu, destacando-se entre eles “Imagens do Inconsciente” e “O Mundo das Imagens”, e com a herança deixada por ela, o Brasil não fica devendo nada ao concerto das nações no campo da Psiquiatria.

Entre os estudiosos da História da Arte há uma corrente que defende a tese de que com o pintor e gravador norueguês Edvard Munch nasceu o Expressionismo, e o seu famoso “O Grito” é a representação mais marcante.

No Brasil, pintores como Candido Portinari e Tarsila do Amaral, considerados pela crítica como modernistas, produziram obras de influência expressionista, que também chegou à literatura, tendo Mário de Andrade como seu representante.

Se nos saraus da Academia Brasileira de Letras ainda se debate sobre literatura, (o que acho difícil), pela mediocridade da maioria dos seus membros, o Expressionismo está isolado no lockdown do imponderável….

Embora tardiamente, o expressionismo – agora com letra minúscula -, desceu ao lodaçal da ignorância política como anti-cultura, que não pode ser confundida com contracultura (que é protesto) ou subcultura (underground).

Em Brasília, nas casas do Congresso, no STF e nos corredores do Palácio do Planalto, “O Grito” está presente; não assistimos um só parlamentar capaz de usar a oratória, enfrentam os debates no grito; é também gritante entre os togados, o “garantismo” da impunidade; e assistimos o silêncio submisso dos “homens do Presidente” diante dos gritos dele…

Assim, a estética do discurso que consagrou tantos deputados e senadores brasileiros já não ecoa no cenário político; os juízes comprometidos com a Justiça, são raros; e, no Governo Federal, com relação à pandemia que ceifou mais de 260 mil vidas, só se escuta as expressões barulhentas, insanas e sem sentido de Bolsonaro.

A mediocridade vigente e o negacionismo estúpido nos agride e nos revolta; e o Presidente psicopata extrapola qualquer princípio da boa governança, arrancando das nossas gargantas O Grito: “Chega de Insanidade! ”….

 

 

 

 

MAQUIAGEM

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Tem pessoas que deviam comer maquiagem prá ver se ficam mais bonitas por dentro”. (Coringa)

Desde menino sei como as mulheres de todas as classes sociais e de todas as idades usam cosméticos querendo, na opinião delas, melhorar a aparência. Há controvérsias, pelo menos na opinião de Shakespeare, que botou na boca de Hamlet uma reprimenda para Ofélia: – “Ouvi falar da vossa maquiagem. Deus vos deu um rosto e vós fazeis dele outro rosto”.

Will bateu com a brasileiríssima opinião expressada por Dorival Caymmi, que cantou – “Marina, me faça um favor, não pinte este rosto, você é bonita com o que Deus lhe deu”….  Foi no tempo em que não se condenava o machismo romântico pelo “politicamente correto”…

O certo é que o enfeitar-se (e hoje não é só uma preocupação das mulheres, mas dos homens também) exige pomadas e loções para branquear a pele, lápis delineadores para os olhos e sobrancelhas, rímel para as pálpebras e os cílios, ruge para a face, batom para os lábios, hena ou água oxigenada para os cabelos, e esmalte para as unhas…

Se embeleza as pessoas, é uma questão de gosto; mas o certo é que tornou bilionários comerciantes, industriais e inventores de cosméticos. Alguns deles tiveram os seus nomes popularizados como marcas célebres, como Elisabeth Arden, Coco Chanel, Helena Rubinstein e Max Factor, que aliaram seus produtos às embalagens atrativas e uma massiva publicidade.

“Maquiagem” ou “Maquilagem”, indiferentemente, como verbetes dicionarizados são substantivos femininos, significando ação ou efeito de maquilar, isto é, mudar a aparência de pessoas ou coisas. A palavra vem do francês “maquiller”, pintar o rosto para apresentação teatral.

Esta apresentação etimológica formal é capenga e sua definição é restrita; na verdade, o termo vem de um capítulo épico da História Mundial, da resistência francesa contra a ocupação nazista. “La resistence” era conduzida pelos jovens “maquisards” designação que foi simplificada para “maquis” designando os grupos atuantes que se escondiam nas áreas rurais, bosques e montanhas, e pintavam os rostos em ataques noturnos contra os invasores.

Assim, encontramos também a definição figurada da Maquiagem no sentido de “encobrir alguma coisa”. E é nesse sentido que vemos os maus políticos disfarçados de bons moços, maquiados com a “ética”, a “honestidade” e a “religião” para enganar o povo.

Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir sabe que os picaretas ególatras e corruptos usam a maquiagem enganadora e conseguem por muito tempo iludir as pessoas.

Uma antiga narração tendo como cenário a antiga Grécia, fala de um jogo que andou em moda nas rodas intelectuais, o “Jogo dos Reis” em que uma pessoa era escolhida para ser rei ou rainha e dar ordens indiscutíveis e obrigatórias a cada um dos convivas.

Num desses saraus estava presente a bela cortesã Friné, acatada pela brilhante inteligência e repentismo. Quando foi indicada para ser rainha, ela mandou que os escravos trouxessem bacias com água para as damas presentes; ao receber a sua, lavou o rosto e ordenou que todas a imitassem.

Após a remoção das maquiagens a maioria das caras lavadas eram lastimáveis, enquanto a soberana do jogo manteve o esplendor de sua beleza, elogiada através dos tempos…

Esta anedota histórica foi publicada numa das crônicas do jornalista ítalo-argentino Pittigrilli, exemplificando uma lição que deve ser levada ao eleitorado brasileiro para ser usada, numa exigência aos políticos populistas de direita e de esquerda para que lavem a cara e removam a maquiagem.

No cenário político brasileiro, o exemplo mais-do-que-perfeito é a camuflagem que o presidente Jair Bolsonaro mantém, mesmo depois de trair as suas promessas eleitorais; deveria ser ele o primeiro a usar o sabonete da autenticidade…

 

 

 

PIJAMA

MIRANDA SÁ (Email: (mirandasa@uol.com.br)

“Um soberano jamais deve colocar em ação um exército motivado pela raiva; um líder jamais deve iniciar uma guerra motivado pela ira” (Sun Tzu)

Na década de 1964 fui preso e processado por ter chamado certo militar de “coronel de pijama”. Na época, estudante jovem e abusado, usei a palavra “Pijama” como sinônimo de aposentadoria.

Eu tinha naquele tempo uma profunda admiração por dois políticos nordestinos, o pernambucano Cid Sampaio (que foi governador de Pernambuco) e deputado federal José Joffily, paraibano, líder da Frente Parlamentar Nacionalista. E numa palestra em que compareci ouvi a intervenção de uma pessoa, que se identificou como coronel do Exército, metendo o pau nos nacionalistas, entre eles Cid e Joffily.

Sabendo que o aparteante era da reserva, contraparteei citando-o, por ironia, como “militar de pijama”…. Não deu outra; pelo autoritarismo reinante na época, no dia seguinte fui detido e interrogado sobre o caso, sendo processado depois…. Para quem ficou curioso, fui absolvido no Supremo Tribunal Militar.

O verbete Pijama, dicionarizado, é um substantivo masculino e feminino, referindo-se ao vestuário caseiro, leve e folgado, próprio para dormir e usado por ambos os sexos. Sua origem é indiana, do hindi “pāe-jāmah” e foi adotado pelo dominador inglês da Índia, rebatizando-o como “pyjamas”.

Posteriormente soube que é doloroso para quem cumpriu o oficialato por trinta e tantos anos, cair na inatividade. Saudade dos colegas, saudade do quartel, saudade até dos toques de corneta nos movimentos de ordem unida….

Isto não ocorre com a maioria dos civis ao se aposentar. No meu caso, o pijama só me lembrou do tempo em que eu ia ao baile de carnaval “Um Pijama para Dois” no Hotel Colonial, lá na Avenida Niemeyer….  Só entrava casal: o homem com as calças do pijama e a mulher com paletó do mesmo…

Pijama para muitos é roupa de dormir. No meu tempo de mocidade as mulheres usavam camisola; depois apareceu o “baby doll”, advindo do livro “Lolita” de Vladimir Nabokov em 1955, que que mais tarde, em 1962, fez sucesso com o filme homônimo levado às telas sob a direção de Stanley Kubrick.

A belíssima atriz Marilyn Monroe perguntada por um entrevistador o que usava para dormir, respondeu: – Duas gotas de Ma Griffe… E, numa viagem à Itália para o Festival de Veneza, a atriz brasileira Bruna Marquezine publicou diversas fotos saindo às ruas trajando um pijama.

A importância do vestuário, que prestigia seus criadores, costureiras e costureiros, desde a antiga Suméria, aproxima a moda da etiqueta. A moda, como sabemos, surge espontaneamente e depois vira fonte de altos lucros no Comércio e na Indústria; e a etiqueta é uma formalidade que cria regras a serem seguidas.

Ao longo dos tempos, a moda elegeu as antigas “combinações” como roupa de saída e, embora escondidas, as calcinhas e as cuecas, são propagandeadas pela tevê e nas páginas de revistas. Agora, as cuecas servem também de cofre para os políticos corruptos.

A toga romana, por exemplo, foi a vestimenta básica para todas as classes sociais, mas os senadores obrigavam-se a usá-las impecavelmente brancas e os imperadores com uma sobrecapa púrpura, mantida pelos cardeais da Igreja Católica….

A etiqueta vigente na Roma Antiga chegava aos militares, entre os quais se distinguiam os oficiais e soldados de elite que formavam a Guarda Pretoriana que protegia os imperadores.

Com seus belos uniformes, os pretorianos adquiriam privilégios e troca de favores que garantiam a sua fidelidade, embora isto não os impedisse de urdir conspirações visando conquistar prestígio e comandos legionários.

No Brasil de hoje, as togas são de uso nos tribunais, e são pretas; e temos também nos corredores do Planalto e no Ministério da Saúde uma Guarda Pretoriana formada de oficiais superiores da reserva para criar ilusão de que o Presidente conta com o apoio das Forças Armadas….

Agora velho e ainda abusado, arrisco-me a considerar esta Guarda Pretoriana “de Pijama”; e que ela não reflete os quarteis nem faz jus à antiga intelectualidade militar da ESG, da Bibliex, da Revista do Exército, dos generais Aurélio Lira Tavares, Castelo Branco, Celso José Pires, Ferdinando de Carvalho, Golbery do Couto e Silva, Meira Matos e Lavenére-Wanderley….

Entristece-me a subalternidade envelhecida desses pretorianos, colaborando para a prioridade máxima do Presidente, defender o filho até usando a Abin incorreta e inconstitucionalmente, segundo a Revista Época.

 

 

ASSUMIR

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Pessoas deveriam ter coragem de assumir seus próprios erros, assim como têm orgulho em exibir suas qualidades” (Autor desconhecido)

Um dos leitores dos meus artigos perguntou outro dia se eu tenho religião… não sei se foi uma dedução por frases garimpadas nos meus textos, ou uma provocação para me queimar no tribunal do fervor religioso… Eu respondo: Tenho, na verdade, de seis a oito religiões, todas elas baseadas na crença no Deus que Spinoza chama de “Alma do Universo”.

Adotei este conceito graças ao conhecimento de uma entrevista em que o cientista Alberto Einstein citou a teoria do filósofo Baruch Spinoza, que tenho citado nos meus artigos. A avaliação de Einstein valeu muito para que eu fosse em busca da ideia “de um deus que não se preocupe com nossos problemas pessoais”…

Com isto, encontrei a base que evitou a minha queda para o ateísmo, provocada pelo excesso de fantasia e pouca robustez das religiões judaico-cristãs; assim, acolhi e assumi que “A essência de Deus pressupõe a sua existência. A substância divina é infinita e não é limitada por nenhuma outra ”.

Ao aplicar o verbo assumir na primeira pessoa do presente indicativo, trago com ele a responsabilidade consciente por esta concepção doutrinária. Como verbete dicionarizado, “Assumir” é um verbo transitivo direto com origem no latim “assumptere”, tomar para si. Significa aceitar, acolher, admitir, e quando se trata de opinião, responsabilizar-se.

As lições acadêmicas da Filosofia usam “assumir” para indicar a aceitação de uma hipótese viável; do mesmo jeito que é possível encontrar-se nos textos bíblicos suposições e conjecturas perfeitamente aceitáveis.

Condenável na observação teosófica é o fatalismo. Recolhe-se dos Evangelhos, por exemplo, que ninguém sabe o dia em que vai morrer. Escreveu alguém – esqueci e quem puder indicar o faça – que “os condenados no corredor da morte esperam, até o derradeiro minuto, um indulto”.

A História registra outro retrato disto. O notável escritor russo Fíodor Dostoievski, autor dos memoráveis “Crime e Castigo, “O Idiota” e “Irmãos Karamazov”, foi condenado à morte, e já estava diante de um pelotão com as armas carregadas, quando chegou a ordem do Czar suspendendo a execução.

Há, por outro lado, múltiplos exemplos de pessoas que enfrentam com dignidade o fim da vida, assumindo tranquilamente a situação definitiva. Narra-se que o advogado Raymond Desèze foi indicado pelo rei Luís XVI para defende-lo no mais importante julgamento da Revolução Francesa.

Desèze apresentou o poeta, crítico e tradutor François Malherbe como testemunha de defesa e somente por participar do processo, Malherbe foi mais tarde acusado como “monarquista”, e foi julgado e condenado à guilhotina. Como era um intelectual avançado ironizou os supersticiosos ao tropeçar nos degraus do cadafalso, dizendo: -“Que mal sinal! Um romano antigo voltaria para casa…”

A superstição é irmã gêmea do fatalismo, e ambos são uma peculiaridade de uma religião mal interpretada, como alertava o pastor Martin Luther King, assim como a politicagem, filha bastarda da Política com “P” maiúsculo, é uma característica do tempo que atravessamos.

Vejam bem. Nunca vimos um ocupante do poder assumir que cometeu um erro, um engano, um desempenho prejudicial no governo. Agora mesmo, que estamos enfrentando a grave pandemia do novo coronavírus e suas consequências mortais da covid-19, não vimos ainda o Presidente, nem os juízes, governadores, nem congressistas ou prefeitos, reconhecendo que erraram em alguma decisão tomada.

E foram vários os erros, de todos eles. É por isso que não lhes reconheço como os líderes políticos que eu gostaria de ter. Deixo John Maxwell falar por mim: “Liderança é assumir responsabilidades enquanto outros inventam justificativas”.

João Cabral de Melo Neto

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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Mario Quintana

SIMULTANEIDADE

– Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
– Você é louco?
– Não, sou poeta.

Vinícius de Moraes

A Transfiguração pela poesia 

Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz.

No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza e reconstruí-lo livre.

Pois na luta onde todos foram soldados – a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela – os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar.

E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido.

→Excerto da Poesia de Vinícius de Moraes “A Transfiguração pela poesia”.

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ACROBACIAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O trapezista morre quando pensa que voa” (Mário Henrique Simonsen)

As acrobacias são movimentos de destreza corporal aos exercícios e às piruetas que realizam no solo e no ar. Diz-se que estes artistas na China e no Japão começam a se preparar após os 5 anos de idade usando anéis, argolas, balanços, pêndulos, pernas de pau, trapézio e rolamentos…

As crianças são acrobatas inatos. Dão naturalmente cambalhotas, paradas de mão e de cabeça, saltos mortais e as “estrelinhas”, indisciplinadamente. A profissionalização vem ao adquirir primeiro a habilidade, depois a técnica e por fim estabelecer a harmonia de equilíbrio e tempo.

O verbete Acrobacia é um substantivo feminino com origem na Grécia Antiga, (Akrobatos), – o exercício de acrobata, seja, o que dançava e fazia jogos de equilíbrio nas mãos e nos pés. Na modernidade designa também manobras de avião, arriscadas e perigosas, com piruetas, parafusos e voos rasantes.

Sinônimos de Acrobacia são inúmeros, como habilidade, astúcia, esperteza, e, figuradamente, virtuosismo, habilidade de efeito, perícia.

Na ginástica acrobática, uma modalidade olímpica, os ginastas mais habilidosos de cada país têm a oportunidade de mostrar quem é o melhor competidor.

Registra-se que estas manifestações de arte se originaram na Grécia no século 5 a/C, quando foram criados os primeiros Jogos Olímpicos. Pinturas rupestres encontradas em vários lugares do mundo indicam, porém, a existência de equilibristas e suas exibições.

Durante séculos, a acrobacia se limitou a apresentações circenses orientais, e no Ocidente a história do circo cita a Idade Média, quando muitos artistas ganhavam a vida fazendo apresentações nas casas de membros da nobreza e nas ruas. Alguns deles viajavam por toda a Europa espalhando sua arte.

É admirável a conquista do equilíbrio corporal. Tal destreza é cultivada mentalmente, com jogos de raciocínio e ilusões de ótica. A humanidade traz exemplos magníficos de personalidades que se destacaram neste campo, os geômetras e filósofos gregos, médicos muçulmanos, Da Vinci, Newton, Einstein…

Do lado negativo, temos atualmente os saltimbancos em toda política mundial, e que no Brasil reproduzem-se, multiplicam-se e propagam-se. Embora fáceis de se identificar escapam à Justiça graças aos seus semelhantes indicados por eles para ocupar os tribunais superiores.

O maior exemplo dessas acrobacias jurídicas foi a decisão do Supremo Tribunal Federal de acabar com a prisão após condenação em segunda instância para favorecer o ex-presidente Lula da Silva, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Esta sentença abriu as portas da prisão para mais de trinta corruptos julgados pela Operação Lava Jato.

Assim, o STF armou sobre o território brasileiro a vasta tenda da impunidade para os assaltantes do Erário, das empresas estatais e dos fundos de pensão. Este cenário circense da criminalidade apresenta um espetáculo que revoltantemente parece ser irreversível pelas novas variações surgidas no trapézio da politicagem.

Tivemos agora a absolvição do ex-prefeito do Rio Eduardo Paes, notório participante da quadrilha Lula-Cabral que assaltou o Rio de Janeiro. Além dos movimentos acrobáticos de assalto na Olimpíada, dos desvios e obras inacabadas Paes teria cancelado irregularmente pagamentos empenhados no valor de R$ 1,5 bilhão.

Está livre, porém. Até quando a Justiça malfeita abusará da nossa paciência?

 

 

 

 

Olavo Bilac

Nel mezzo del camin…

 

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha…
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.”

30 anos

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Papai Balzac, já dizia, / Paris inteira repetia, / “Balzac acertou na pinta, / Mulher só depois dos trinta” (Nássara e Wilson Batista)

Vou usar um clichê idiota, reconheço, mas não consegui encontrar outro: o “Mundo Livre” comemora no dia 9, os 30 anos da queda do Muro de Berlim, a sombria evocação que marca o poder e o fim da Era Stalinista.

A Alemanha, particularmente, festeja este aniversário trazendo vivos os horrores soterrados sobre os escombros do Muro, e as esperanças de um novo tempo de distensão, desarmamento e paz.

Embora estes anseios humanos não tenham sido totalmente realizados, a parte que cabe ao modelo democrático, seja liberal ou do chamado bem-estar social, experiências que a Europa tem vivido já vale a comemoração.

A memória coletiva, embora muitas vezes infiel, registra esta vitória, mesmo parcial, sobre a barbárie de um regime policialesco que dividiu o mundo por 28 anos, suprimindo a liberdade, dividindo famílias e impedindo o progresso. A celebração nos leva a este capítulo da História, magistralmente descrito no livro “Muro de Berlim – Um Mundo Dividido” de Frederick Taylor.

Gosto muito de dizer que a História como as cartas do baralho cigano, não mente, e mostra que os berlinenses e os alemães em geral foram abandonados pelos Estados Unidos, Reino Unido e França, sem que seus líderes, Kennedy, Macmillan e De Gaulle se dispusesse a pagar para ver o jogo nuclear na chamada “guerra fria”.

E no resto dessa narrativa é de assinalar que a derrubada do Muro deu início à dissolução do chamado “socialismo real” e a morte da União Soviética, que deixaram herdeiros psicopáticos e viúvas psicossociais do stalinismo que nesses 30 anos, assexuadas, sem comparação com a graça das mulheres de 30 anos de Balzac…

“La Femme de Trente Ans”, romance escrito no século XIX, descreve o amor entre os Carlos de Vandenesse e Julia d’Aiglemont, ambos com 30 anos que se apaixonam perdidamente. Balzac sustenta que a mulher se supera ao passar desta idade tornando-se “sete ou oito vezes mais interessante, sedutora e irresistível”.

Os excelentes compositores Antônio Nássara e Wilson Batista lançaram no carnaval de 1950 a antológica marchinha “Balzaquiana” interpretada por Jorge Goulart. A música estourou e patenteou mundialmente para os foliões brasileiros a expressão “balzaquiana”.

Este neologismo não se aplica de jeito nenhum às horríveis viúvas do Muro de Berlim, seduzidas diabolicamente pela fantasia de uma propaganda massiva, cujos restos ainda se vêem em algumas colunas de jornais e revistas e inúmeros blogs.

Balzac, além de romancista, foi um pensador político. É dele a notável reflexão, que deve ser observada pelos políticos brasileiros: “As leis são teias de aranha pelas quais as moscas grandes passam e as pequenas ficam presas”.

É dos políticos, os que se sentam no Congresso teoricamente para legislar, que gostaríamos de ver atenção para o aprimoramento das antigas e a elaboração de novas leis em benefício da Nação.

Ao contrário disso, deputados cegam para a iniciativa louvável do ministro Sérgio Moro para combater a bandidagem com o seu Pacote AntiCrime. “Cegar” é bondade minha, recordando a queda do Muro e romantizado após relembrar os tempos em que adolescente cantei: “Não quero broto, não quero, / Não quero não, / Não sou garoto/ Prá viver mais de ilusão, / Sete dias da semana/ Eu preciso ver, / Minha balzaquiana…”.