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30 anos

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Papai Balzac, já dizia, / Paris inteira repetia, / “Balzac acertou na pinta, / Mulher só depois dos trinta” (Nássara e Wilson Batista)

Vou usar um clichê idiota, reconheço, mas não consegui encontrar outro: o “Mundo Livre” comemora no dia 9, os 30 anos da queda do Muro de Berlim, a sombria evocação que marca o poder e o fim da Era Stalinista.

A Alemanha, particularmente, festeja este aniversário trazendo vivos os horrores soterrados sobre os escombros do Muro, e as esperanças de um novo tempo de distensão, desarmamento e paz.

Embora estes anseios humanos não tenham sido totalmente realizados, a parte que cabe ao modelo democrático, seja liberal ou do chamado bem-estar social, experiências que a Europa tem vivido já vale a comemoração.

A memória coletiva, embora muitas vezes infiel, registra esta vitória, mesmo parcial, sobre a barbárie de um regime policialesco que dividiu o mundo por 28 anos, suprimindo a liberdade, dividindo famílias e impedindo o progresso. A celebração nos leva a este capítulo da História, magistralmente descrito no livro “Muro de Berlim – Um Mundo Dividido” de Frederick Taylor.

Gosto muito de dizer que a História como as cartas do baralho cigano, não mente, e mostra que os berlinenses e os alemães em geral foram abandonados pelos Estados Unidos, Reino Unido e França, sem que seus líderes, Kennedy, Macmillan e De Gaulle se dispusesse a pagar para ver o jogo nuclear na chamada “guerra fria”.

E no resto dessa narrativa é de assinalar que a derrubada do Muro deu início à dissolução do chamado “socialismo real” e a morte da União Soviética, que deixaram herdeiros psicopáticos e viúvas psicossociais do stalinismo que nesses 30 anos, assexuadas, sem comparação com a graça das mulheres de 30 anos de Balzac…

“La Femme de Trente Ans”, romance escrito no século XIX, descreve o amor entre os Carlos de Vandenesse e Julia d’Aiglemont, ambos com 30 anos que se apaixonam perdidamente. Balzac sustenta que a mulher se supera ao passar desta idade tornando-se “sete ou oito vezes mais interessante, sedutora e irresistível”.

Os excelentes compositores Antônio Nássara e Wilson Batista lançaram no carnaval de 1950 a antológica marchinha “Balzaquiana” interpretada por Jorge Goulart. A música estourou e patenteou mundialmente para os foliões brasileiros a expressão “balzaquiana”.

Este neologismo não se aplica de jeito nenhum às horríveis viúvas do Muro de Berlim, seduzidas diabolicamente pela fantasia de uma propaganda massiva, cujos restos ainda se vêem em algumas colunas de jornais e revistas e inúmeros blogs.

Balzac, além de romancista, foi um pensador político. É dele a notável reflexão, que deve ser observada pelos políticos brasileiros: “As leis são teias de aranha pelas quais as moscas grandes passam e as pequenas ficam presas”.

É dos políticos, os que se sentam no Congresso teoricamente para legislar, que gostaríamos de ver atenção para o aprimoramento das antigas e a elaboração de novas leis em benefício da Nação.

Ao contrário disso, deputados cegam para a iniciativa louvável do ministro Sérgio Moro para combater a bandidagem com o seu Pacote AntiCrime. “Cegar” é bondade minha, recordando a queda do Muro e romantizado após relembrar os tempos em que adolescente cantei: “Não quero broto, não quero, / Não quero não, / Não sou garoto/ Prá viver mais de ilusão, / Sete dias da semana/ Eu preciso ver, / Minha balzaquiana…”.

NEOLOGISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A imaginação é essencialmente criadora e sempre procura uma forma nova”. (Oscar Wilde)

Não tenho certeza se o aforismo é do poeta e fabulista francês La Fontaine, porque não me lembro de onde tirei e o tenho apenas de memória; mas tenho quase certeza de que é dele: “O mundo jamais careceu de charlatães e a charlatanice é até reconhecida como ciência por alguns juízes”.

E por falar em charlatanice (perdoem-me os doutores laureados pelo estudo da linguística na sua forma escrita), eu gostaria de ser um grafólogo para analisar as sentenças dos supremos ministros do STF. Será que suas letras tremem ao escrever barbaridades para salvar seus bandidos de estimação? Ou para mentir descaradamente pelo mesmo motivo?

Mas os tempos são outros, a caligrafia já era… eles usam o teclado do computador, sempre criando dificuldade para o estudo dos seus escritos. Sabem que a frieza impressa não revela emoções.  Para conhecer o caráter deles, somente pelo voto oral, que ainda podemos acompanhar pela TV-Justiça…

Neste caso, sem as letras manuscritas, louvamos Gutenberg – o inventor da prensa de tipos móveis –, por termos nas mãos livros, e o livro “Código da Vida”, memórias autobiográficas do advogado Saulo Ramos, ex-consultor-geral da República e ex-ministro da Justiça no governo Sarney.

O livro desnuda a falsa moral reinante no Supremo e em particular de Celso de Mello, cheio de fricote com as críticas do presidente Jair Bolsonaro, mas que se calou covardemente quando o presidiário Lula da Silva disse que os ministros do STF estavam acovardados.

Sobre Celso, conta Saulo um episódio curioso no julgamento do pedido de impugnação da candidatura de Jose Sarney pelo Estado do Amapá, em que Celso votou pela impugnação. Covarde, apressou-se em justificar com Saulo o voto dado: -“Doutor Saulo, o senhor deve ter estranhado o meu voto; – “Claro! ”, disse Saulo, “O que deu em você? ”

Aí Celso tentou justificar: — “É que a Folha de São Paulo, na véspera da votação, noticiou que o presidente Sarney tinha os votos definidos favoravelmente e o meu nome como um deles; e então estando garantida a vitória dele, não precisava mais do meu, então decidi desmentir o jornal…”

Saulo não se conteve. –“Então você votou contra o Sarney porque a Folha de São Paulo noticiou que você votaria a favor? … E se o Presidente não estivesse garantido ao chegar à sua vez, você votaria a favor dele? ”.

Celso se animou e garantiu: -“Sim, exatamente; o senhor entendeu? ” Saulo então foi curto e grosso: — “Entendi. Entendi que você é um juiz de merda! ”.

Voltando aos presente, vimos que o presidente Jair Bolsonaro teve um rompante para se defender dos ataques que vem sofrendo, divulgando um vídeo zoológico (que depois apagou) onde ele aparece como um leão enfrentando uma manada de hienas nomeadas como o STF, o PSL, a OAB e a Mídia, entre outras.

Não sei se o cidadão Jair Bolsonaro é afeito à zoologia, a ciência que estuda a vida animal; eu não sou, mas sei bem o que são metáforas e neologismos, para que servem, atingindo a quem se quer atingir.

Bolsonaro desenhou uma audaciosa metáfora; e eu atrevi-me a enfrentar o grande Diderot, que disse: – “Só Deus e alguns gênios raros continuam a avançar nas inovações” Então criei a palavra “deshienação”, usando-a para uma caprichada limpeza nas instituições brasileiras, limpando-as, para que a Ética e a Justiça imperem no Brasil, tão necessitado delas!

 

Manuel Bandeira

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

OS 5 W

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro” (Gabriel García Márquez)

Pouco familiarizado com a língua inglesa, papeando aqui, mimicando lá, lembrei-me aqui em Nova Iorque das minhas primeiras lições de jornalismo perdidas no demérito da imprensa atual, empresarial e politiqueira. Eram naquele tempo quatro “W”, agora são discutíveis cinco “W”.

O W que entra no esquema da reportagem correta, vem do inglês; as quatro interrogações que eram exigidas no meu tempo para uma informação completa eram who, (quem?); why, (como?); when, (quando?); e, where, (onde?). Veio depois, what, (o quê).

Com este bê-á-bá que o jornalismo norte-americano ensinou para o mundo da notícia, venho escapando aqui em Nova Iorque. Além disso, reforço a minha consciência de que a liberdade da imprensa nos EUA é sustentada por publicações independentes e os diários das cidades do interior.

Vejo também que o idealismo do jornalista subsiste aqui, embora os tentáculos da influência do dinheiro despejado pela Soros Fund Management cheguem a certas publicações, coincidentemente aquela ‘meia dúzia’ de três ou quatro jornais que são citados no Brasil pela mídia oposicionista.

O interessante é que as informações locais são sempre corretas e seguidas por todos numa megalópole como Nova Iorque. Embora os taxistas (na maioria indianos ou latinos) sejam apressados, obedecem às regras de trânsito.

O pedestre nunca desobedece aos sinais luminosos (quase nunca, corrigindo) atravessa a rua fora das faixas, e respeita o caminhar à direita e à esquerda nas calçadas e no metrô; o que surpreende quem vem do Rio de Janeiro…

Em locais de convivência, hall de hotéis, teatros, museus, bares, restaurante e parques as pessoas se cumprimentam, guardando o respeito à privacidade do outro. Nas lojas e supermercados observa-se duas coisas importantes: compra-se apenas o necessário e se nota preocupação com a economia, observando os preços das mercadorias.

A política aqui é mais intensa nas manchetes dos jornais escritos ou televisados (ainda não ouvi o rádio) e as manifestações não reúnem mais de 100 pessoas.

Desde ontem já se nota a atuação de segurança policial nas imediações do prédio da Onu, em preparação da próxima Conferência, quando cabe ao Brasil a sua abertura, que este ano terá o discurso do presidente Jair Bolsonaro.

É a primeira vez – e possivelmente a última – que venho a Nova Iorque, mas como sou enxerido, aconselho a todos que façam os que os populistas, auto assumidos representantes da esquerda brasileira adora fazer, vir aos Estados Unidos. Inimigos do capitalismo, lulopetistas dos cinquenta tons de vermelho veem observar as desgraças deste regime odiento, reforçando-lhes a convicção de que vale a pena manter a defesa dos paraísos cubano e venezuelano.

Estou vivendo, sem dúvida, uma experiência social emocionante, observando o comportamento consciente e disciplinado dos nova-iorquinos (aqui nascidos ou chegados de todos os quadrantes mundiais) em respeito ao outro.

Como velho jornalista que aprendeu a brigar pela informação correta, como um direito do povo, vou desligar o microfone e falar ao pé-de-ouvido dos amigos do Twitter, obedecendo ao princípio do “off the record” para uma confidência: O que vi de ruim não vou contar em respeito aos que me receberam com respeito e amabilidade…

Olavo Bilac

Via Láctea

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” e eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

CONSELHO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Se você é capaz de distinguir entre o bom e o mau conselho, então não precisa de conselho”
(Edward Murphy)

Quando deixei de ser menino, mas ainda não me tornara adulto, ouvi uma lição que trago até hoje nos ouvidos: “Se conselho fosse bom não seria gratuito, cobrar-se-ia muito caro por ele”… Poucos da minha geração seguiram este ensinamento, ouvindo-os e distribuindo-os com outros…

Talvez estivessem certos. É inconveniente pedir conselhos, mas deve-se recebe-los com agrado, e sendo bons, passa-los adiante para quem encontre utilidade neles.

No meu caso, guardo com carinho o valor das palavras que ilustram os pensamentos, elas são os instrumentos adequados para garimpar sabedoria. Aprendi com o grande Confúcio: “Eu não procuro saber das respostas, procuro compreender as perguntas. ” As palavras, escritas ou faladas são moedas de troca das experiências.

Perguntar é uma obrigação de quem quer aprender. Lembro uma história antiga que ouvi, mas não sei se expressa uma passagem histórica ou uma lenda; como é elucidativa, memorizei-a e registro-a em linguagem corrente. Ei-la:

“Na primeira vez em que foi convidado a falar num comício, Alcebíades, o grande orador e político da antiguidade grega, sofreu um medo danado de enfrentar o auditório. Sentiu aquilo que a gíria teatral chama “trac”, a vacilação em enfrentar o público. O seu tio Péricles mandou-o procurar o conselho de Sócrates, o sábio.

Expressando ao Mestre o que ocorria, Alcebíades ouviu dele: – “Acaso te acanharias em falar cara a cara com o feirante Ariston? ” – “Não”, respondeu o jovem.

“O filósofo insistiu: – “Terias medo de conversar cara a cara com o sapateiro Leandro? ” – “Evidente que não! ”, enfatizou o político principiante.

“Sócrates então resumiu o seu julgamento sobre a multidão: – “Nesse caso, o que pode te causar preocupação a ideia de vê-los ambos multiplicados por cem ou por mil? ”

Esta tirada filosófica substituiu o “Conselho” o substantivo masculino originário do latim, (concilium, ii) com significado de associação, reunião, assembleia, concílio. A palavra vulgarizada passou também a ser pessoa que dá conselhos; quem aconselha, orienta, dá direcionamentos a outrem; aconselhador, guia.

Conselho pode ser um aviso, um parecer ou um grupo de pessoas com funções deliberativas, como “conselho de família”, “conselho de ministros” ou “conselho de guerra”. Parece estranho, mas estão corretos os verbetes conselho (com “s”) e concelho (com “c”) na língua portuguesa.

Esta troca-letras é corriqueira e frequente na gramática e usual na advocacia, na magistratura e no parlamento. Registra-se com ela a vitória do ministro Sérgio Moro sobre os jornalistas comprometidos em criticá-lo e metidos a conhecer a língua lusófona. Participando de uma audiência pública no Congresso, Moro usou a palavra “Conge” sendo criticado pela mídia como se tivesse cometido um erro.

Esse exemplo mais do que perfeito da crítica ignorante teve efeito entre os ignorantes lulopetistas ávidos em apontar erros do juiz da Lava Jato, mas não entre os estudiosos do idioma…. Agentes midiáticos não pesquisaram o novo acordo ortográfico, nem estudaram a redução de sílabas átonas na linguagem coloquial.

Para o respeitado gramático, doutor Ernani Terra, a palavra “Conjugue” na terminologia jurídica, tem como raiz “jugo”, trazendo em si o conceito de vínculo matrimonial. Deslizou na linguagem comum para “Conge”. Terra, ironicamente, apela para outro jargão advocatício, o “benefício da dúvida”, que deveria ser dado a Moro…

Na minha opinião, como Sérgio Moro é Sérgio Moro, caber-lhe-á até o direito de criar neologismos… por isso, o Dicionário informal sempre presente no Google, apressou-se a registrar o verbete como variação falada de “conjugue”, referindo-se à pessoa com quem se mantém relacionamento matrimonial.

Para os cretinos que atacam Moro para defender o arquicorrupto Lula da Silva, preso por corrupção e lavagem de dinheiro, deixo-lhes Machado de Assis: “Ouçam-me este conselho: em política, não se perdoa nem se esquece nada”.

Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Paul Verlaine

Canção do outono

Os longos sons
dos violões,
     pelo outono
me enchem de dor
e de um langor
     de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
     bater a hora,
lembrando os dias
e as alegrias:
     e ais de outrora.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
     me transporta
de cá p’ra lá,
como faz à
     folha morta.

tradução de Onestaldo de Pennafort

Cora Coralina

Considerações de Aninha

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos

Fernando Pessoa

FRESTA

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado

Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.