Artigo

DISCURSO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Discurse sobre a virtude e eles passarão como rebanho. Assobie e cante, e terás uma plateia” (Diógenes de Sinope)

Quanta verdade encontramos nesta epígrafe! Seu autor, conhecido na antiga Grécia como Diógenes – o Cínico, foi um filósofo que passou praticamente a vida toda discursando combatendo os ocupantes do poder que considerava os representantes de uma sociedade corrupta.

Ele teve muitos seguidores graças à sua eloquência e à coragem de expressar ataques violentos contra gente poderosa; pelo seu exemplo, lembrei-me da admiração que adquiri pelo grande orador paraibano, José Américo de Almeida, de quem gravei uma antológica frase do discurso que proferiu contra Getúlio Vargas nas vésperas do golpe e implantação da ditadura que foi de 1937 a 1945.

Disse José Américo: – “É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar…”; e, no correr da fala, apontou mazelas ministeriais citando os corruptos do governo nascido da revolução de 1930. E disto se valeu Getúlio para depois do golpe demitir todos eles…

Infelizmente desapareceu na política brasileira o brilho da eloquência que gostávamos, mas deixou como herança a propensão de muitas pessoas para discursar, como um jornalista que conheci no Rio Grande do Norte.

Colunista social, meu personagem se tornou uma das celebridades do jornalismo mais lidas entre os potiguares. Ficou conhecido também por exercitar a oratória em qualquer oportunidade, aniversários, batizados e enterros; dessa maneira, muitos o convidavam para eventos, esperando dele a exibição discursiva.

Hábil divulgador de empreendimentos, ganhou como prêmio da Varig uma viagem ao Rio de Janeiro. Embarcando, sentou-se nas primeiras poltronas do avião, e logo após a aeromoça anunciar o fechamento da porta para o início do voo, e desejar uma viagem tranquila a todos passageiros, o Colunista se levantou e tomou solenemente a palavra: – “Certo de representar todos aqui presentes, agradeço comovido a fala generosa que me antecedeu…“; e manteve o discurso de louvaminhas até a aeronave pousar no Recife….

Sobre tal impulso, dizem os psicólogos que estudam oratória geral e sermões, que os seus autores se preparam duas ou três semanas para um “improviso”. O inconveniente é quando oradores e pregadores estendem a explanação exagerando nos adjetivos e com zero de conteúdo.

Por isto, alguém já disse (não recordo quem) que “a eloquência só faz sentido quando o discurso é verdadeiro”.

A palavra “Discurso” dicionarizada, é um substantivo masculino de etimologia latina “discursus”, particípio passado do verbo “discurrere” (correr ao redor), significando as voltas da linguagem articulada, escrita ou oral, expondo um certo tema.

É citado mais usualmente como a mensagem oral diante de uma assistência. A História registra a formidável retórica de Catão no Senado Romano, com o seu famoso discurso “Delenda est Carthago”, que atiçou uma guerra ceifando milhares de vidas e arrasando o grande império da África do Norte.

George Orwell, autor de “1984”, escreveu que “a linguagem política dissimula para fazer as mentiras soarem verdadeiras e para dar aparência consistente ao puro vento”; é uma observação interessante, pois quase nunca o discurso político exprime a verdade, embora possa influenciar quem o ouve.

Para os políticos que ocupam o poder, o padre Antônio Vieira deixou uma lição que deveria ser seguida, ao dizer que “todos os que querem governar pelo discurso, erram e se perdem”.

E é isto que assistimos na pandemia: o capitão Bolsonaro usa e abusa de conceitos disparatados e ilógicos contra as medidas preventivas no combate ao vírus, e atacando criminosamente as vacinas. Pouco afeito ao estudo e à disciplina militar, decerto não tomou conhecimento de Napoleão Bonaparte, que disse:  – “Os   discursos passam, mas os atos ficam“.

Por seus atos estúpidos e necrófilos, os fanáticos que o seguem em rebanho, aplaudem – na contramão da História -, o discurso malcriado, xucro e mentiroso que fez na ONU, aviltando o Brasil no concerto das nações.

ILUSÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não existe coincidência, apenas a ilusão de uma coincidência” (V de Vingança)

A ilusão nos engana, mas não é somente um problema nosso. É geral. O jornalista e escritor ítalo-argentino Pittigrilli, a quem muito admiro, conta um fato (não sei se é verdadeiro ou uma anedota que saiu da sua imaginação prodigiosa). Escreveu numa de suas crônicas:

“No estúdio cinematográfico da UFA, em Berlim, fazia-se um filme de guerra e o exército protagonista apresentava inúmeros figurantes; muitos soldados, alguns sargentos e oficiais; e um personificava o general-comandante. Nos intervalos, à hora do almoço servido num grande galpão, os soldados se agrupavam numa mesa enorme, os sargentos e oficiais, cada um dos grupos ocupavam mesas separadas e o general se isolava, afastado dos demais”.

Para Pittigrilli, sem que houvesse qualquer orientação para isto, a imaginação dos atores os levava à ilusão da realidade; e esta história nos leva a pensar como Balzac, ao dizer que “a ilusão é uma fé desmedida”, o que somo com outro autor que esqueci a referência dizendo que a ilusão é um dos demônios que mais atentam às pessoas.

Sem um conhecimento aprofundado das doenças da mente e o seu tratamento feito por psicólogos e psiquiatras, penso, pela definição, que a Esquizofrenia é irmã gêmea da Ilusão. Como é do conhecimento geral, esquizofrenia é um desdobramento da personalidade, como diz a sua raiz grega, “Skizo”, separo, e “fren”, pensamento.

Assim, vemos no nosso entorno múltiplos exemplos de comportamentos fragmentados, parecendo uma característica dos políticos e dos seus seguidores, sejam defensores de qualquer ideologia, alguma corrente filosófica, que sejam filiados a certo partido ou adeptos de uma denominação religiosa.

Cada qual com a sua ilusão, que como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino de etimologia latina (“illusio.onis”), engano; seja engano dos sentidos ou pensamento. Tem uma rica e variada sinonímia que vai da aparência, disfarce à alucinação e delírio

Gosto muito da definição de ilusão como uma esperança irrealizável…. Sugere que usemos o presente do conjuntivo do verbo abrir: “abramos” as cortinas da pesquisa e do raciocínio científico para assistir ao espetáculo da realidade e ver o drama que o Brasil representa tendo na presidência da República um obsessivo compulsivo somente preocupado em manter o poder a qualquer custo.

E não foi por acaso que o capitão Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado no dia 7 de setembro, aproveitando-se da data em que o País comemora a Independência para trair a República. Junto com seus seguidores fanáticos, minoritários, mas ativos e com dinheiro bastante, passou dois meses mobilizando uma manifestação de apoio aos seus tenebrosos planos para sufocar a Democracia.

Numa mais do que perfeita encenação tirada da cartilha de herr Goebbles, voou de helicóptero sobre a multidão, teve desfile de caminhões, dísticos, bandeiras e faixas com ataques ao Congresso e ao STF.  Assistimos pela televisão esta manifestação do “Eu autorizo” com o coro infernal da massa, que provocou um discurso virulento contra o Judiciário, cometendo um crime de responsabilidade.

Este ato criminoso felizmente não passou de engano, engodo, ludibrio e da mentira contumaz, por cometer o erro de haver subestimado a reação do mundo político e jurídico, e não ter ouvido o alerta de que os quarteis se mantêm patrioticamente legalistas contra um golpe.

A política, como a ciência, não pode se basear na ilusão, como a que foi construída teimosamente pelos filhos deslumbrados e os generais bajuladores da guarda pretoriana de pijama.

Dessa maneira, a pretensão golpista não passou de uma ilusão do psicopata, com o lado cômico do infantilismo fanático que tem como chupeta o vício de se iludir, mostrando que a ilusão coincidente é o alimento dos que desejam tornar um pesadelo o sonho de liberdade do povo brasileiro.

O JUIZ

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não procures tornar-te juiz se não tens força para extirpar a injustiça, caso contrário irás intimidar-te diante de um poderoso e mancharás a tua integridade”. (Eclesiástico 7,6)

Um exemplo de cultura e sobretudo de honestidade e patriotismo, Ruy Barbosa nos deixou inesquecíveis lições, entre as quais expôs que “os governos seduzem os magistrados, os governos os corrompem, e, quando não podem dominar e seduzir, os desrespeitam, zombam das suas sentenças, e as mandam declarar inaplicáveis, constituindo-se desta arte no juiz supremo, no tribunal da última instância, na última corte de revisão das decisões da justiça brasileira“.

Assim, Ruy tornou-se um futurologista, jogando estas palavras como um quepe na cabeça do capitão Bolsonaro que não conseguiu seduzir os ministros do STF, não pode corrompe-los e por isto os desrespeita, chegando ao cúmulo de xingá-los de “filho da puta”, como um moleque de rua.

Platão, filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, ensinou em 400 anos a/C que “o juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis”; intrínseco dependente da Lei.

É por isto que reprovamos a indicação para o Supremo Tribunal Federal um juiz cujo perfil ressalta que é “terrivelmente evangélico” usando um advérbio que causa horror aos que conhecem a História da Civilização onde se capitula no século 11 o julgamento dos albigenses, acusados de heresia. Para presidir a Corte, o papa Calisto II enviou Simão de Monfort à França.

Mal chegado de Roma, o emissário papal se reuniu com os bispos que seriam jurados no Conselho de Sentença dizendo-lhes: – “Sentenciem-se todos à morte, Deus saberá livrar do Inferno os que forem inocentes”.

Seria intolerável hoje, pela evolução da sociedade humana, um juiz dogmático deste tipo. Todo magistrado deverá se assumir como um servidor incondicional da lei; e, obrigar-se a seguir os critérios de avaliação acima dos princípios filosóficos, ideológicos ou religiosos.

Fugindo à circunspecção, trago na memória uma anedota sobre juiz que ouvi quando era menino contada pelo meu pai, portanto antiquíssima. É a história de um indivíduo levado a julgamento por ter vociferado injúrias contra uma mulher no trem.

O magistrado inquirindo: – “Porque você cometeu esta agressão contra uma senhora?

– “É porque perdi a paciência e fiquei muito nervoso, Excelência. Eu estava sentado na janela ao lado dela quando chegou o cobrador; ela abriu a bolsa e tirou uma carteira, abriu a carteira e tirou o passe, fechou a carteira, abriu a bolsa, colocou a carteira dentro e fechou a bolsa. Entregou a passagem ao Condutor; este lhe devolveu o canhoto e então ela abriu a bolsa, tirou a carteira, fechou a bolsa, abriu a carteira, pôs o canhoto dentro e fechou a carteira; abriu novamente a bolsa, colocou a carteira dentro, fechou a bolsa, e resolveu usar óculos, então abriu a bolsa…”

– “Chega! ”, interrompeu o Juiz, -“ está irritante esta descrição”.

– “Pois foi esta irritação que dominou os meus sentidos, Excelência”. Emitida a sentença, o Nervosinho foi absolvido, alegrando-se por ter advogado em causa própria.

Infelizmente, as absolvições que vêm ocorrendo no Brasil não são por conta de irritação, mas do tal “garantismo jurídico” adotado por alguns ministros do STF. Essa ideologia garantista é levada ao exagero na Corte, como se vê no caso Lula da Silva. Lula devia estar na cadeia mesmo sem ser julgado, como foi, em 1ª e 2ª instâncias…. Bastava a delação premiada do seu ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci.

Assim, entra neste engenho a proteção de todos corruptos denunciados pelos policiais e procuradores federais da Operação Lava Jato, e condenados pelo juiz Sérgio Moro; como se tornou uma norma, já alcançou o julgamento de Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas…

O “garantismo” evidencia e comprova o que afirma Lawrence J. Peter: – “Presume-se que um homem é culpado, até ele provar que é influente”.

 

 

TESTES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol;com.br)

“A pior forma de covardia é testar o poder na fraqueza do outro” (Maomé)

A vida nos sujeita a conhecer os nossos limites para encarar a realidade que nos cerca; exige um teste para ver até onde podemos ir e expressar o pensamento, sem ferir alguém.

O homo sapiens (e a mulher sapiens, como quer Dilma Rousseff) é dotado de inteligência e, portanto, apto a entender desde as mensagens mais simples até as intrincadas especulações filosóficas; isto só ocorre, porém, se não estiver apaixonado ou fanatizado pelo objeto a ser analisado.

Os testes foram criados para encontrar certezas e dúvidas…. Entre os mais antigos, registra-se o fato dos rabinos atuando para saber se não havia efraítas infiltrados entre os fugitivos de Efraim, testava-os mandando-lhes falar a palavra “selbboleth” (espiga em hebraico); e o desgraçado que pronunciasse “sibboleth”, era entregue ao carrasco.

Bem mais tarde, a literatura infantil produzida pelos irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, nos deu o conto “Cinderela” amplamente conhecido, em que o príncipe mandou agentes percorrerem o reino a fim de encontrar a jovem por quem se enamorou, testando mulheres no uso de um sapatinho de cristal que ela deixara ao fugir do baile….

O verbete “Teste” dicionarizado, é um substantivo de dois gêneros e flexão do verbo “Testar”. Sua etimologia é latina (testis.is), ação que busca verificar a verdade de um fato relatado. Sua sinonímia é diversa e rica, arguição, diagnóstico, exame, concurso, constatação, amostragem, prova, etc.

Este texto e a epígrafe com uma sura do Alcorão, se inspiraram na conversação que mantive com uma velha amiga do Twitter; ela, como defensora intransigente do capitão Bolsonaro, criticou o discurso anti-golpe do ministro Luiz Barroso, do STF, chamando-o de desonesto.

A liberdade de expressão me permitiu apontar a insanidade do líder que ela protege, na tentativa gorada do golpe que mobilizou por 72 dias apoio popular e, diante dos manifestantes e pelo vídeo televisivo, atacou a Suprema Corte, xingou ministros e afirmou que não obedeceria às decisões judiciais.

O Capitão fez mais: Exortou os seus seguidores que o autorizassem a tomar medidas autoritárias, rumo à ditadura.  O coro estrondoso do “eu autorizo” levou-me a perguntar aonde encontrara, diante disto, desonestidade de Barroso; fiz o teste que a levou a recuar, reconhecendo a competência de advogado no Ministro, “capaz de provar que pau é pedra”.

Nesses tristes (e perigosos) tempos de crise institucional permanentemente provocada pelo capitão Bolsonaro, somos obrigados a testar a reação das pessoas honestas sobre fatos concretos, indesmentíveis. Ele elege inimigos que precisam ser exorcizados como demônios para gáudio dos seus seguidores sedentos de ódio.

Felizmente se encerrou a fase de preocupações com o golpe tentado e armado pela extrema direita nazifascista. Na página virada está escrito que falhou pois só contou com o apoio de militares saudosos e revanchistas da ditadura, pastores mercadores do Templo, milicianos e financiadores laranjas de apoios mercenários.

A massa que viveu a agitação gigantesca da mobilização para apoio das investidas bolsonaristas contra o Estado de Direito, pelo fechamento do Congresso e do STF e uma intervenção golpistas das FFAA, agiu democraticamente e não deu motivo para violência. Frustrou assim, cordata e disciplinada, o uso de medidas extraordinárias de força como queriam os golpistas.

É preciso constatar que a insanidade antidemocrática não contou também com o apoio dos quarteis, como vaticinou o general da reserva Paulo Chagas, ao afirmar na véspera, que “os militares da ativa não apoiarão medidas autoritárias como o cancelamento de eleições”.

Dessa maneira, o capitão Bolsonaro perdeu a chance e não passou no teste dos prognósticos astrais…. Em vez do “eu autorizo” dos fanáticos, a bela Esfinge da opinião pública submeteu-lhe ao enigma do respeito à Lei, e invocando o “Decifra-me ou te devoro” o canibalizou….

Diz a milenar sabedoria maçônica que o Grande Arquiteto do Universo impõe a todos um teste para saber qual seu propósito na vida; este foi feito no “after day” de 7 de setembro, e assim, do rugir leonino do golpista ouviu-se guinchos de um rato…

ASTROLOGIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos Homens” (Albert Einstein)

Corre em Brasília um ti-ti-ti sobre a Astrologia que eu não creio que seja verdade, mas como o capitão Bolsonaro defende as fake news chapas-brancas, liberou geral. Então vai lá: Conta-se que o astrólogo Olavo de Carvalho veio dos Estados Unidos, onde mora, trazendo um mapa astrológico para o Presidente.

Não foi recebido a princípio e teve um chilique, foi internado, espalhou-se na mídia que o estado era grave (falaram até que havia morrido), e um dos meninos Bolsonaro, não sei se Eduardo ou Carlos, seus discípulos, pegou o horóscopo e levou-o para o pai. Daí se leu um cronograma garantindo a vitória de Bolsonaro na setembrada terrivelmente evangélica e naturalmente miliciana.

Nos sertões nordestinos, quando um foguete de estrondo falha, dizem que “deu chabu”…. Pois bem, foi o que ocorreu com a bombástica profecia do guru bolsonarista; deu chabu. Tivemos 72 dias de “gigantesca” propaganda, “gigantescas” mobilizações e “gigantescas” verbas, viu-se muita gente na rua, mas a projeção de dois milhões de participantes na Avenida Paulista, registraram-se 10%, seja 185 mil.

Mas a derrota do capitão Bolsonaro não se deveu a isto, e sim aos seus tresloucados discursos em Brasília e São Paulo. O esvaziamento dos apoios refletiu-se na reação política. O presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, suspendeu todas as sessões; o presidente da Câmara Federal Arthur lira, descolou timidamente da subserviência ao governo, e o presidente do STF, Luiz Fux, rebateu duramente as bravatas de desobediência a sentenças judiciárias.

Fux e Lira convergiram falando de Brasil real que enfrenta a pandemia, o desemprego e a carestia de vida pelo descontrole econômico; uma conjuntura diferente da alucinação esquizofrênica de Bolsonaro. Dos protestos patrióticos, fechou o firo o ministro Luiz Roberto Barroso definindo corajosamente o Presidente como farsante.

O que se viu do 7 de setembro? Em vez do golpe ribombante do palanqueiro para esconder o fracasso econômico e desviar as denúncias das rachadinhas familiares e do negativismo lucrativo dos insumos médicos e vacinas, realizou-se 48 horas após o “parto da montanha”: após grandes abalos sísmicos viu-se que o nascituro não era um leão, mas um rato!

Assim, a previsão da Astrologia foi para as nuvens. Resumiu-se à pseudociência que se aproveitou a observação astronômica na Babilônia, onde sacerdotes expertos perverteram os estudos para explorar a crença de que o movimento dos planetas, do sol e da lua, influenciavam a vida das pessoas; e os antigos mitos sumérios serviram para divinizar os reis e controlar as atividades de Estado.

Nos dicionários, a “Astrologia” aparece como um substantivo feminino significando a prática de decifrar como os astros conduzem os sistemas políticos e o destino das pessoas. A palavra vem do grego antigo, (“astron”, “astros e “logos”, estudo, portanto “estudo dos astros”.

O jogo de previsão do futuro pelos astros chegou ao Ocidente com o livro de Ptolomeu “Tetrabiblos”, trazendo a teoria geocêntrica de Aristóteles, que, embora totalmente superada pelos avanços tecnológicos óticos e mecânicos da astronomia, ainda serve de base para os astrólogos.

O grande Isaac Newton já dissera que: – “Eu posso prever o movimento dos astros, mas não consigo entender a loucuras dos homens”, mostrando-nos a desorientada e enganosa busca do destino, ignorando que o universo é governado pelas leis da ciência e a ilusão de projetar o futuro não tem qualquer base científica.

A História registra que várias personalidades eram acompanhadas de astrólogos, como Adolfo Hitler; mas a característica sociológica dos brasileiros a respeito da astronomia é curiosa. Aqui, as pessoas temem despachos da macumba, mas são pouquíssimos os que interagem com os astrólogos. É a nossa diferença com os norte-americanos, entregues à crendice advinhatória.

Há dados da Prefeitura de Nova York que registram cerca de 90 mil endereços onde se vendem profecias como vimos no filme “Ghost”…. Nos EUA, o negócio dos astrólogos é rendoso; talvez por isto os nossos emigram e se dão bem por lá….

MIRAGEM

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br

“Procure a verdade numa aparição, num eco, numa imagem, numa miragem, num sonho, num tato…” (Subhuti, discípulo de Buda)

Sócrates – o filósofo da Grécia Clássica -, passeava modestamente pelo mercado de Atenas sob os comentários dos feirantes que o achavam um tolo abestalhado…. O que ocorria, entretanto, é que ele vivia abstraído na ânsia de encontrar explicações para a realidade.

O grande pensador deu razão antecipada ao poeta e compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, que cantou: – “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar”….

É com a ajuda socratiana que me obrigo, constrangido, a acusar os que elegem gurus infalíveis. Na sua maioria, não conseguem usar os sentidos para raciocinar e pensar por conta própria, envolvendo-se no encantamento ilusório da politicagem.

Estes néscios se algemam ao fanatismo e morrem de medo de pensar diferente dos seus condutores, acreditando fazer a coisa certa, mas terminam envolvendo-se numa miragem.

“Miragem” como verbete dicionarizado é um substantivo feminino originário do francês “mirage”, significando um efeito da refração e reflexão, fenômeno óptico frequente nos desertos. Cria na atmosfera imagens próximas e invertidas de objetos distantes.

Miragem tem como sinônimos: engano dos sentidos, fantasia, ilusão, quimera, sonho, e, figurativamente, chega a decepção. Será, por exemplo, algo que nos parece muito bom e por não ser real, nos desaponta.

Todos encontramos esta falsa realidade no correr de nossas vidas e alguns até acreditam que é real. Conta-se nos círculos intelectuais que o poeta italiano Giacomo Leopardi, ensaísta, filólogo e pensador, era de um pessimismo irremediável, e certa vez pensou em se suicidar; mas desistiu de fazê-lo. Mais tarde, escreveu vaidoso que considerava o suicídio coisa de gente simplória…

A desistência de enfrentar as adversidades atentando contra a própria vida, é um ato de coragem para alguns; e, para outros, o desvirtuamento da essência de viver. Para os espiritualistas é uma visão retorcida e condenável da própria existência.

Quando a pessoa humana falha como ser pensante, e foge dos valores éticos e morais, degrada-se; e na sua baixeza se afasta do meio social seguindo a banda dos seus bandidos de estimação….

Nem todos se entregam à facilidade de acompanhar o poder. Sem obter vantagens nem ter preguiça de se assumir como pessoa independente, exigem dos políticos um comportamento ético, principalmente daqueles que fazem da Política uma profissão. Os verdadeiros cidadãos intimam os ocupantes dos poderes republicanos a serem honestos, não praticarem corrupção, não desvirtuarem os cargos seja explorando empresas estatais ou praticando o “roubozinho” das rachadinhas.

O verdadeiro patriota não cai na miragem de que as atividades corruptas podem ser escalonadas como grandes e pequenas. Considera o político criminoso tanto embolsando um tostão quanto um milhão.

Esta demanda pela honestidade na política não é para medíocres; esses estão sempre a espera de tirar proveito de alguma coisa no joguete das ações governamentais ou na demagogia do capitão Bolsonaro  vivendo uma campanha eleitoral permanente e ininterrupta em vez de governar.

Persegue a remota chance da reeleição; e como esta fica cada vez mais longe, tenta um autogolpe, investindo contra o Estado Democrático de Direito. Para isto, elege continuamente inimigos, tornando-os alvos do ódio do seguidor “maria-vai-com-as-outras”, dos fariseus auto-assumidos “cristãos” e dos militares revanchistas.

Para os primeiros lembro Oscar Wilde assegurando não haver pecado igual ao da estupidez, e para os segundos, sugiro o axioma que “o mal não é ter uma ilusão, o mal é iludir-se”.

Além disto, no seu carreirismo desenfreado, o capitão Bolsonaro cria a caricata miragem de uma cruzada anticomunista fora de época, levando-nos a perguntar com Jô Soares: – ”E se o comunismo acabar, quem é que vai levar a culpa?

MORTE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida” (Raul Seixas)

O epigrafado, Raul Seixas, na sua belíssima composição “Canto para minha Morte” fantasiou que a Ela caminhava ao seu lado e acreditava que a encontraria brilhante, vestida de cetim…

Esta visão poética de Raulzito nos mostra que a espera da Morte nada tem de idealista; é inevitável, e por isto não se deve teme-la; fazendo-o, esbarra na incrível clarividência de Shakespeare que vaticinou que “os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez”.

Não me lembro se já contei num dos meus artigos saídos na imprensa escrita e, de um tempo para cá, virtualmente. Vai lá:  quando jovem tive a oportunidade de ir a Paris, e do aeroporto fui direto ao Cemitério Père-Lachaise para visitar o túmulo de Voltaire; quis confirmar a lápide com o epitáfio escrito por ele mesmo: “O homem é o único animal que sabe que vai morrer um dia, triste destino! ”

Foi uma lúcida compreensão da natureza humana do filósofo, embora haja pessoas que se julgam imortais…. Respeito os espíritas que falam por Chico Xavier, crendo “que ninguém morre”, apenas atravessa uma fase carnal para o aperfeiçoamento. E então se encontram com o católico Rui Barbosa que escreveu: “A morte não extingue, transforma; não aniquila, renova; não divorcia, aproxima”.

O verbete Morte dicionarizado é um substantivo feminino de etimologia latina “mors.mortis” originário do Indo-Europeu com a raiz “mor”, “morrer”, de onde chegou ao idioma português com o verbo morrer, mortandade e morticínio.

A morte é o fim da vida, da existência; figuradamente é a ausência definitiva de uma espécie, animal, planta, da criação material e mental. Metaforicamente, o físico Oppenheimer, que dirigiu o centro de pesquisas atômicas de Los Alamos, ao saber dos bombardeios atômicos em Nagazaki e Hiroschima, exclamou diante da sua equipe: – “Agora eu me torno a morte, o destruidor de mundos. ”

Mostrando sapiência e futurologismo 300 anos a.C., Epicuro, filósofo grego do período helenístico, escreveu: “A morte é meramente a separação dos átomos que nos compõe. Não anuncia, portanto, nem castigos nem recompensas para os homens. Não devemos temer nem a morte e menos ainda, as punições infernais inventadas pela ignorância e pela superstição. ”

Os rabinos antigos debitavam ao profeta Enoque o conhecimento de ciências ocultas, a criação da onomatomancia, jogo advinhatório que vê nos nomes próprios o futuro das pessoas, e mesmo o tempo de vida….  Se funciona ou não, é difícil saber; mas é parte da mística judaica e se encontra na Cabala.

Vem, entretanto, de muitíssimo longe o culto dos mortos. As almas eram divinizadas e os ritos fúnebres parece que foram as primeiras manifestações religiosas nas antigas civilizações. No Egito dos faraós resumia toda a crença religiosa, na Índia apareceu antes de se adorar Indra, e na Grécia Zeus vinha após as preces dedicadas aos defuntos.

A idolatria pela morte ainda persiste viva na Índia e principalmente no México, onde nasceu o Dia dos Mortos, depois adotado pelo cristianismo a dois de novembro do Calendário Gregoriano. Era venerado antes dos astecas se tornarem um império, vindo dos náuatles, purépechas, tepanecas e totonacas que cultuavam a deusa Mictecacíhuatl, a chamada “Dama da Morte”.

Infelizmente, o respeito e a reverência pelos mortos são desprezados no contexto insensato do carreirismo político na pandemia do novo coronavírus. Com mais de meio milhão de mortos, o Brasil ainda não ouviu do presidente Jair Bolsonaro sequer uma palavra de conforto às famílias enlutadas.

Esta conduta desumana retrata uma personalidade doentia, incapaz de refletir sobre o significado da vida, como faz agora, ao oferecer fuzis a uma Nação que quer paz, segurança, saúde e pão.

Além disto, investindo contra o STF e o Congresso Nacional, poderes republicanos que devem ser respeitados, o capitão Bolsonaro prega a morte da Democracia sem contar com o apoio nacional.

Resta-lhe apenas o aplauso fácil dos bajuladores e dos agentes pagos nas redes sociais, sem contar com um só amigo que sopre no seu ouvido a observação de Honoré de Balzac: “de todas as sementes confiadas à terra, o sangue dos mártires é o que dá colheita mais rápida”.

 

 

TATUAGEM

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Marcada a frio/ Ferro e fogo/ Em carne viva” (Chico Buarque)

A garimpagem arqueológica vem descobrindo múmias tatuadas em todo planeta desde as regiões geladas do Alaska, da Groenlândia e Sibéria, às zonas quentes e temperadas abrangendo os Andes, Egito, China, Filipinas, Mongólia e Sudão.

Vê-se que vem de longe o uso e o costume de tatuar, que está assinalado na travessia dos tempos. A tatuagem religiosa era habitual no Egito e Oriente Médio; e foi assinalada a partir do século V a.C. também na Europa, com registros históricos mostrando que gregos e romanos as usavam também.

O verbete Tatuagem, dicionarizado, é um substantivo feminino significando a arte de gravar na pele por meio de pigmentos qualquer marca ou desenho feitos no corpo humano. Por distensão, vem a ser assinatura, apontamento, sinalização, ou designação duradoura para o comportamento pessoal de alguém.

“Tatuagem” é uma palavra relativamente nova nas línguas ocidentais; vem da Polinésia Francesa, com origem taitiana; chegou ao idioma francês como “tatouage”, e na versão inglesa criada pelo capitão James Cook , é “tattoo”.

O dicionário, referindo-se à tatuagem como “arte”, tem a ver com as belas ilustrações e o colorido das aplicações subcutâneas, aplicadas com esmero e o uso primoroso de pigmentos por agulhas habilmente usadas.

A Roma Antiga tinha a Lei Remucia que adotou brutalmente a letra “K” marcada com ferro em brasa na testa dos caluniadores; e na Idade Média foi utilizado o ferrete para fixar a propriedade dos escravos e para o opróbrio de criminosos.

É recente a chegada da tatuagem no Brasil. A História registra que em 1959 aportou em Santos o dinamarquês Knud Harald Lucky Gegersen, o primeiro tatuador registrado no país. Manteve o seu estúdio na cidade portuária de São Paulo na zona de meretrício, e assim nasceu a fama de que a tatuagem seria coisa de marginais.

Por isso, até o fim do século passado a tatuagem decorativa era discriminada socialmente, constando dos estudos na cadeira de Medicina Legal das faculdades de Direito; foi alvo de pesquisas policiais como sinal de adesão de bandidos ás quadrilhas.

Aliás, segundo um delegado da Polícia Federal, meu amigo, o uso da tatuagem persiste demarcando membros das máfias internacionais e, entre nós, dos participantes do Comando Vermelho e do PCC, servindo para garantir a segurança e o respeito dos seus “soldados” nas prisões.

De outro lado, as tatuagens estão disseminadas hoje por todo mundo com adesão de artistas, esportistas e personalidades intelectuais e políticas. A novidade é que houve uma evolução que foi da utilização primitiva de ossos finos como agulhas para a sua aplicação por raios laser.

No momento em que o mundo repudia o neonazismo, esta infâmia é acolhida no Brasil pela Familiocracia Bolsonaro, por isto, não custa ensinar à ignorante banda “religiosa” de apoio ao Presidente “defensora” de Israel, que a Alemanha de Hitler adotava a tatuagem numerada no antebraço esquerdo dos judeus.

Sublinhe-se que tal prática não está longe dos sonhos dos fanáticos bolsonaristas pelo odiento tratamento dado por eles aos opositores do Chefe, os críticos das “rachadinhas” e os que condenam as transações suspeitas dos vigaristas no Ministério da Saúde em troca de “comissionamentos”.

Do outro lado, um “K” na testa dos corruptos que reapareceram e se fortaleceram no Ministério da Saúde, em plena pandemia, seria uma sentença justa aplaudida pelos brasileiros honestos e defensores de punição exemplar para a corrupção, seja de que partido seja.

Nas últimas eleições revoltados contra a roubalheira institucionalizada nos governos lulopetistas, os brasileiros deram um salto no escuro, caindo infelizmente na fossa infecta dos vermes que pululam em torno do capitão Bolsonaro, cada vez mais idêntico ao Pelegão que repudiamos. Igual por igual, só tatuando ambos com o “ZERO”, a marca do desprezo!

 

 

MIGALHAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Qualquer migalha que se dê ao homem simples o fará feliz” (Enéas Carneiro)

Podemos conceder muito às pessoas inteligentes, mas não permitir que dilapidem as migalhas do bom senso. Ninguém pode desperdiçar nacos do pão da sabedoria que alimentam o humanismo na ceia da convivência social.

Deve-se, por isso, atirar ao lixo as fake news postadas nas redes sociais e os discursos políticos demagógicos; estas idiossincrasias são dispensáveis, como as mentirinhas insignificantes e as desprezíveis mentironas. A desonestidade é sempre dispensável, o que não ocorreu quando acreditamos nas promessas eleitorais do capitão Bolsonaro.

O tempo, felizmente, se encarrega de mostrar a falsidade dele pouco a pouco desmentida, aumentando o nosso respeito pela sabedoria popular que ensina: “é mais fácil pegar um mentiroso do que um coxo”….

E assim os coxos ganham disparados do Capitão Minto que confessa, passados três anos da campanha eleitoral que sempre foi do Centrão. Ainda ecoam nos nossos ouvidos os discursos dele combatendo a picaretagem do Congresso, seguido em coro por um general de pijama do seu grupo publicando que “se gritar pega Centrão, não ficaria um só ladrão… ”

Também, para não esquecer a insanidade extremista do aprendiz de ditador, e dar razão aos antifas, passou de “liberal democrata conservador” a revelar-se como admirador do neonazismo alemão, abraçando publicamente uma neta de um ministro de Hitler.

Estas revelações fazem parte das grandes mentiras, porque as mentirinhas com exceção dos varrem para debaixo do tapete todo mundo conhece:  a defesa das “rachadinhas” familiares, os cheques do Queiroz e, recentemente, a fraude do negativismo lucrativo dos comissionamentos (a velha propina), na compra de vacinas.

Bocados de inverdade e porções de falsidade continuam distribuídos pelo capitão Bolsonaro tentando arrastar os militares do seu grupo para tentar um golpe antidemocrático.

Tais confabulações encantam a manada que o segue fanaticamente. Os homens simples que se apaixonam pelos discursos, cultuam personalidades políticas e ficam fascinados com as malandragens delas. Se agrupam ao toque do berrante participando dos movimentos criados pela propaganda, seguindo a claque profissional da lista da Secom.

São os analfabetos políticos que não têm o alcance da lição de Victor Klemperer, doutor e professor universitário de filologia românica na Universidade de Dresden, que acompanhou a tomada do poder na Alemanha por Hitler e escreveu os livros “Os diários de Victor Klemperer” e “Linguagem Do Terceiro Reich”, mostrando as desgraças da ditadura hitlerista.

Klemperer afirmou: “O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas, inconsciente e mecanicamente”.

A fração “bolsonarista” do eleitorado cega e surda não vê nem escuta os rumores das ruas, nem a realidade à sua volta. Pouco importa aos idólatras que o seu mito seja do Centrão, neonazista ou mentiroso. Conforma-se com as migalhas que sobram do banquete da demagogia, defendendo-o pela fraqueza humana da ilusão.

“Migalha”, como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino originário do latim hispânico “micalea”, por sua vez vindo do latim clássico “mica,ae”. Seu significado é “pequeno pedaço do pão ou resto de qualquer comida; por extensão, usa-se como porção de uma coisa qualquer.

O inteligente cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro escreveu que “as memórias nada mais são do que aquilo que nos restou de nossos esquecimentos. São como os pombos no asfalto, eles sabem voar alto mas insistem em catar as migalhas do chão“.

Catando migalhas, vemos a generosidade com o dinheiro público do pródigo capitão Bolsonaro distribuindo verbas comprando o apoio dos picaretas do Congresso, e usando eleitoralmente o “Bolsa Família” que dizia ser dos cabos eleitorais do PT, e (adota-o para si próprio como “Auxílio Brasil”).

Juntam-se também algumas migalhas de memória para lembrar que traiu quem votou nele porque combatia a corrupção e defendia a Lava Jato, coisas que abominou depois de eleito para escapar das rachadinhas….

Infelizmente, os farelos de fraudes, mentiras e traições que infelicitam o País e envergonham os brasileiros, fazem felizes os alheados que ainda o seguem.

 

 

PEGASUS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O Grande Irmão está lhe vigiando” (George Orwell)

As cidadãs e cidadãos ciosos da sua dignidade e integridade repudiam a invasão espiã da sua vida privada. É claro que fica de fora a manada tangida pelos violadores dos direitos humanos, ditadores e aprendizes de ditador.

Descobrimos, entretanto, ao tomar conhecimento da existência do software espião “Pegasus”, que todos estamos sob esta ameaça, usada por governos antidemocráticos para vigiar ativistas de movimentos sociais, blogueiros, jornalistas, militantes dos partidos políticos de oposição e até mesmo os seus aliados de quem desconfiam….

Criadora desta ferramenta totalitária, a empresa israelense NSO Group, alega que não foi produzida com esta intenção, mas reconhece que a espionagem tem sido aplicada de maneira insensata por governos autoritários.

O escândalo fascistóide contra a privacidade das pessoas e de organizações civis causa apreensões e condenações do mundo pensante. Na ONU, por exemplo, formou-se um comitê de vigilância contra as operações de alguns governos violentos que resultaram em prisões, intimidações e até assassinatos.

Apesar dos protestos internacionais e adoção de medidas de segurança por muitos governos, no Brasil dos estagiários do totalitarismo, a espionagem é vista como necessária. Viu-se, por exemplo, no mês de maio deste ano o vereador federal Carlos Bolsonaro, chefe da propaganda bolsonarista, negociar através do Ministério da Justiça a aquisição do Pegasus.

Participou pessoalmente de negociações para que a NSO Group participasse de uma licitação do Ministério da Justiça. Sem muita explicação, porém, a representante dos israelenses responsável por comercializar o software espião, se retirou do processo licitatório.

Em nome da verdade, a movimentação do filho do Presidente da República, não contou então com o apoio dos militares com cargos no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e na Agência Nacional de Inteligência (Abin).

Hoje talvez fosse diferente, com os comandos mudados e a clara intervenção pouco republicana do capitão Bolsonaro nas FFAA, sob a proteção da guarda pretoriana de pijama. Hoje, possivelmente, os brasileiros seríamos esquadrinhados pelo gabinete do ódio que atua nos porões do Planalto.

O exemplo de que a intimidação e espreita está na denúncia feita pelo senador Rogério Carvalho em sessão da CPI da Covid, apontando que o coronel da reserva Roberval Corrêa Leão tentou “bisbilhotar” a sua vida. O Coronel é chapa branca; contemporâneo e ligado ao ministro da Defesa, Braga Netto.

Com isto, temos a impressão de que o projeto de espionagem dos Bolsonaro poderá estar penetrando nos órgãos públicos através dos que morrem de saudades do tempo em que as polícias políticas agiam contra os opositores do regime militar, as prisões eram gratuitas e a tortura ocorria nos porões dos quarteis.

Assim é suspeitável que a ameaça se torne cada vez mais real. A intimidação fantasmagórica atingiu o clímax com a programação de uma “Tanquiata” em continência ao capitão Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios, no dia em que a Câmara Federal apreciaria a PEC do Voto Impresso, a tática trumpista de embaralhar as eleições do ano que vem.

Pairam dúvidas se a cúpula militar submissa aos projetos continuístas do mitomaníaco que ocupa a Presidência tem apoio dos quarteis. Não creio que um militar das FFAA traia o princípio pétreo de defender a Constituição e defender o Estado.  Se isto ocorrer, o retrocesso histórico nos alinhará entre as ridículas “repúblicas das bananas”.

Porque seguir a aventura golpista do Grande Mentiroso é atentar contra o Estado Democrático de Direito, na medida em que ele defende o vazamento dos processos que correm em sigilo, alegando que devem ser conhecidos porque interessam a todos nós. Entretanto vem sendo useiro e vezeiro de decretar sigilos…. Fez segredo até no seu teste para a covid-19 e faz segredo para a movimentação dos filhos no Planalto.

Mesmo assentado em visível incoerência, é cercado de uma horda de aduladores perfilados, fardados ou de pijama, numa cena que foi vaticinada pelo general Olímpio Mourão Filho no seu livro “A Verdade de um Revolucionário”….