Arquivo do mês: novembro 2020

SANGUE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“De todas as sementes confiadas à terra, o sangue dos mártires é o que dá colheita mais rápida. ” (Balzac)

Havia nas circunvizinhanças de Jerusalém um descampado conhecido como Haceldama – em aramaico, “Campo de Sangue” –, nome dado ao logradouro pela crença de que teria sido comprado e pago com os trinta dinheiros de Judas, o pagamento pela entrega de Jesus aos fariseus.

Sangue, como verbete dicionarizado, é um substantivo de origem latina (sanguen.inis), fluido biológico líquido e nutriente que percorre pelas veias e artérias no sistema circulatório dos animais vertebrados vivos; levado ao Reino Vegetal é a seiva que alimenta as plantas.

Entre os sinônimos da palavra Sangue, encontramos figuradamente “casta”, “classe” e “raça”; o primeiro, “casta”, refere-se à genealogia, método criado por Nietzsche para ligar a História com a Filosofia; o ensaio nietzschiano foi aproveitado modernamente pelo filósofo francês Michel Foucault no estudo das tecnologias.

Assim, a genealogia passou a ser um critério para levantar a origem, evolução e disseminação das famílias e respectivos sobrenomes, ou seja, o “estudo do parentesco”, uma pesquisa que vai muito longe… Aprofundando-se, vai ao mito bíblico com cena de sangue entre os irmãos Abel e Caim, e chega à fundação de Roma com os gêmeos Rômulo e Remo.

O romantismo dos poetas diz que família não é uma questão de sangue, que você elege os seus parentes… O florentino Giovanni Boccaccio escreveu que “as ligações de amizade são mais fortes que as do sangue da família“.

Para isto inventou-se o tal “pacto de sangue”, que consiste em duas pessoas furarem o dedo indicador e juntarem ambos ferimentos de onde flui o sangue, misturando um do outro. Há radicais que fazem o mesmo procedimento cortando e juntando os pulsos….

A cultura popular acumula uma série de ditados e aforismos sobre o sangue, falando, por exemplo, de “sangue azul” referindo-se a membros da nobreza, “sangue bom” para pessoa de boa índole, ou “sangue de barata” o que se mantém calmo diante de qualquer adversidade.

Diz-se de “sangue nos olhos” e “sangue quente” para pessoas irritáveis, raivosas de caráter explosivo; e os racistas costumam usar a trapaça hipócrita de “sangue puro”. Hitler no seu livro Mein Kampf – “Minha Luta” –, dedica vários períodos ao sangue, um deles falando do envenenamento da “raça ariana” pela miscigenação étnica através de casamentos.

Talvez pelo racismo insano dos nazistas, alguns lexicógrafos, autores segregacionistas de dicionários, aceitem e registrem “raça” como sinônimo de sangue, como escrevemos acima. Desmentindo-os temos o sangue universal, de amarelos, brancos, negros e vermelhos, firmado por Jesus Cristo na Última Ceia: ‘Este é o meu sangue, que é derramado para remissão de pecados (Mateus 26:28).

Corre nos sertões nordestinos a sentença “é o sangue que faz mal ao sangue”, e isto se comprova na intervenção sanguínea do presidente Jair Bolsonaro para absolver o filho Flávio, envolvido no caso das rachadinhas, e paga por isto com o desgaste no seu projeto da reeleição…

… E o pior é que além das preocupações paternais e obcecado pela reeleição o Presidente não vê os óbitos provocados pela covid-19; ignorando o que Balzac prognosticou: o sangue dos mártires é o que dá colheita mais rápida”.

Se acordasse para isto, estancaria o negacionismo externado nas suas inconsequentes intervenções, quando chama de “maricas” os que defendem vida contra o vírus, ao indicar remédios ineficazes e pôr em dúvida uma vacina contra o novo coronavírus.

Isto nos leva ao “Grande Sertão Veredas”, onde Guimarães Rosa põe na boca de um personagem:  “Por que o Governo não cuida?! Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias…”

 

 

 

 

 

OPINIÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A verdade não desaparece quando é eliminada a opinião dos que divergem” (Ulysses Guimarães)

Sobre a mesa postada pelos agentes da mídia, servem-nos uma salada mista de informação, análise e opinião que se torna indigesta ao ser temperada com o tempero tóxico das fake news.

Prós e contras em excesso distorcem a informação; as análises azedam ensopadas de ideologia; sobra somente a opinião dos comensais degustando e apreciando para definir o paladar das diferenças agridoces.

A Opinião é filha legítima da liberdade de expressão do pensamento. Como verbete dicionarizado, Opinião é um substantivo feminino de origem latina “opinio”, significando o parecer sobre alguém ou alguma coisa.

É vista comumente como modo de pensar, ponto de vista pessoal relativo a um assunto, fato ou pessoa. Traz quase sempre o lado positivo que leva receptor à reflexão; mas, como toda regra tem exceção, também embaralha a compreensão quando chega sem fundamento ou confirmação.

Entretanto, positiva ou negativa, a opinião de quem vive em grupo é inevitavelmente expressa, pois nasce do sentimento no tempo e no espaço em que se vive, dos assuntos abordados, dos temas levantados e dos problemas apresentados.

A opinião que transborda de todas as cabeças é determinada por impulso. O seu juízo se forma cerebralmente. Faz-se necessário, porém, distinguir a opinião pessoal da opinião pública, porque esta última é a soma conjuntural das opiniões pessoais.

Como a “opinião pública” reflete a maioria ou a minoria dos cidadãos quando divulgada maciçamente pela mídia, sua dimensão deve ser recebida com cuidado, necessariamente avaliada e medida.

Do outro lado, o modo de pensar e opinar de cada um pode e deve circular livremente sem influenciar a sociedade porque se limita aos círculos familiares, aos locais de trabalho e estudo, ou à vizinhança domiciliar.

É muito fácil expressar opinião. A minha filha mais nova, Manuela, foi com uma amiga à Itália e se encantaram com Veneza; em contraposição, a minha querida amiga Wanda Figueiredo, jornalista e escritora mineira que faleceu no ano passado, viu Veneza como uma cidade fedorenta com canais que são esgotos de fossas urbanas.

O mundo da cultura reverencia Dante Alighieri e a sua “Divina Comédia” como um clássico épico e teológico; divergindo, Voltaire considerou a obra como o “delírio de um bárbaro”.

Achegando-se aos círculos políticos, lembramos dos elogios de certo modo exagerados da presidente do PT, Gleise Hoffman a Barack Obama, quando chamou o corrupto Lula da Silva de “o cara”; e recentemente atacou virulentamente o ex-Presidente dos EUA por trazer no seu livro de memórias registro de que conhecia os casos de corrupção envolvendo o Pelegão condenado de Justiça.

Vemos assim que na conjuntura política o juízo formado conscientemente vive recluso, enquanto os conceitos apaixonados do “achismo” jorram cascateando nas redes sociais no calor dos embates entre a oposição e o governo.

No Twitter, essas diferenças de opinião se manifestam com insistência. Vê-se, como exemplo, o lado bolsonarista atacar os dissidentes do movimento que levou o Presidente ao poder; e toda e qualquer pessoa seja quem for, juiz, parlamentar ou cidadão que se mostre descontente, são atacados virulentamente.

Do outro lado, também os oposicionistas não perdoam Jair Bolsonaro, criticando a sua linguagem grosseira e a defesa abusiva dos deslizes dos seus filhos, vistos pelas lentes do Telescópio Canarias, conhecido nos meios científicos como GTC – o maior do mundo.

Diante do entrechoque político, alguém já aconselhou que “as diferenças de opinião nunca devem suscitar inimizade nem ressentimento”; entretanto, ao meu juízo, acompanho o estrategista Von Bismarck: “Um grande estado não pode ser governado com base nas opiniões de um partido”.

 

SILÊNCIO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons. “ (Martin Luther King)

Depois de escrever num artigo anterior sobre “RUÍDOS”, o gênio da controvérsia me atentou para escrever sobre o “SILÊNCIO”; inspiraram-me os três macaquinhos sábios que adornam os templos budistas e têm as suas miniaturas vendidas nas lojas de R$ 1,99.

Os macaquinhos da sabedoria são chamados Mizaru, Kikazaru e Iwazaru; com as mãos, um deles tapa a boca, outro bloqueia os ouvidos e o terceiro venda os olhos. Os três representam uma lição de Confúcio: “não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal”.

Os cristãos autênticos, conhecendo os ensinamentos de Jesus, aprenderam isto com uma advertência d’Ele: “não se deve fazer com os outros o que você não gostaria que fizessem a você”…

É um princípio moral impossível de esquecer, o respeito humano. É por isso que nos preocupa assistirmos os políticos falharem na atenção e o zelo com os concidadãos, quando deveriam promover a união e a harmonia da Nação.

Por isto, é necessário que o ocupante do poder saiba silenciar, calando-se para ouvir, analisar e comprovar fatos e situações, para decidir sobre as medidas que deve tomar em defesa da coletividade.  Resumindo: o governante não deve ouvir somente os bajuladores, não deve olhar apenas em torno de si e evitar abrir a boca para dizer besteiras de rompante.

É o caso do presidente Jair Bolsonaro. Ignora que tudo o que fala sem o filtro da reflexão, influi na cabeça dos cultuadores da sua personalidade. Referindo-se à pandemia como uma “gripezinha”, desdenhando a imunização vacinal e dizendo que a 2ª onda é uma “conversinha”, leva os seus fanáticos seguidores a mergulhar no pântano do negacionismo.

Estes, que Brecht enquadraria como “analfabetos políticos”, multiplicam o maléfico combate à Ciência na cega convicção do ouvir dizer, e correm para divulgar o vale tudo das mentiras nas redes sociais.

Não será demais exigir a compreensão nacional para se meditar sobre o que ouve, parta de onde partir, e refletir sobre a realidade social. Se pairam dúvidas, mantenha-se o precioso silêncio até chegar a uma conclusão pessoal.

Se assim ocorrer, conquistaremos certamente o exercício democrático necessário para que a sociedade seja pacificada, respeite os direitos humanos e o meio ambiente.

Como é do Silêncio que se trata, a palavra dicionarizada é um substantivo masculino de origem latina (silentĭum, do verbo sileo), significando ‘ação de estar quieto’, “evitar barulhos ou ruídos’. Do Aurelão, “ausência de qualquer ruído”.

Os filósofos gregos antigos se preocupavam muito em refletir sobre o silêncio; Pitágoras de Samos, matemático, ensinava: – “O começo da sabedoria é o silêncio“, e Sócrates, um dos fundadores da filosófica ateniense, resumindo seu pensamento na busca da verdade, ensinou: – “As pessoas precisam de três coisas: prudência no ânimo, silêncio na língua e vergonha na cara“.

Ultimamente ouvimos o grito imprudente dos maus contra a Ciência, levantando incertezas com relação à imunização contra os vírus, levando uma situação de insegurança para a massa inculta. Triste é constatar que são os mesmos que agridem os críticos do Presidente – agora investindo contra o vice-presidente Hamilton Mourão –, insultam os magistrados que julgam conforme as leis e investem contra o jornalismo investigativo que divulga os malfeitos das familiocracia.

Diante deste quadro, o “silêncio dos bons” é abominável. Aplausos ruidosos pela isenção das FFAA, estendidos ao comandante do Exército, general Edson Pujol, e à mensagem do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo.

Por sua vez, os patriotas que foram às urnas nas eleições, igualmente mostraram também a sua independência, repudiando os corruptos do PT e contrapondo-se ao negacionismo genocida que desdenha da pandemia, opondo-se à imunização pela vacina.

Assim tivemos da cidadania militar e civil respostas silenciosas cheias de pólvora!

AUTO-ENTREVISTA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado. ”
(Eduardo Galeano)

Pode parecer bizarro, mas estou copiando o grande Gilberto Freire que já escreveu uma auto-entrevista, perguntando-se e respondendo-se sobre os tipos sócio- antropológicos no romance brasileiro. Enxeridamente tentarei fazer o mesmo replicando o que penso sobre as eleições num Estado de Direito.

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PERGUNTA:  qual a razão de você, ao contrário de um grande número de tuiteiros, recusar-se a comentar sobre as eleições nos Estados Unidos, sequer acompanha-las como muitos seguidores, torcendo por um dos candidatos majoritários?

RESPOSTA:  acho que fui muito claro na mensagem que tuitei. Sou um patriota brasileiro sem sofrer a síndrome do colonizado… para mim tanto faria quem ganhasse o confuso processo de votação nos Estados Unidos e o ainda mais complicado o da apuração dos votos…

Isto nada tem a ver com xenofobia e muito menos com ranços anti-imperialistas que eram inculcados na minha geração. Nunca me influenciaram; estudei a guerra de libertação americana e invejava o “way american of life”. Fui um grande admirador de Franklin Delano Roosevelt, um exemplo de estadista.

Quem conhece a passagem histórica de Roosevelt por três mandatos na Casa Branca, como poderia ter alguma empolgação por Biden ou Trump? Ambos, no sistema criticado por Gore Vidal, distinguiram-se eleitoralmente como Analgésico “A” e o Analgésico “B”, sendo que ambos são aspirinas….

Para os meus jovens seguidores que pouco conhecem sobre a quebra da Bolsa de Valores em 1929, que levou os Estados Unidos à bancarrota e abalou o mundo, informo que se deveu a Roosevelt, com o seu programa New Deal, a recuperação do País da chamada “Grande Depressão”.

Impressionante também foi a condução dos EUA para a guerra contra o nazi-fascismo e o extraordinário esforço industrial responsável pela vitória dos aliados. Tristemente, com a sua morte aos 63 anos em abril de 1945, Roosevelt não assistiu a ascensão do país à liderança mundial e a prosperidade pós-guerra do povo americano.

Dele, resta a confiável análise de C. G. Jung: – “Não tenham dúvidas, Roosevelt é uma força da natureza, um homem dotado de uma mente superior”; e também a referência elogiosa do pastor Martin Luther King lembrando discurso dele (em 1934!), na Universidade de Harvard: – “Não devem existir homens ou raças esquecidos entre os cidadãos americanos”.

O inegável definhamento cultural e moral das personalidades mundiais que assistimos nos nossos dias, leva-me ao reconhecimento dos estadistas (goste-se ou não se goste deles) que conviveram à época de Roosevelt, como Churchill, De Gaulle, Getúlio Vargas, Perón e Stálin.

Com não entristecer com os governantes que vemos hoje à frente dos países que eles lideraram? …  E, pior, são novamente candidatos, despreparados e personalistas. É por isto que na nossa Pátria, o Brasil, deve residir a nossa preocupação. Findo o capítulo eleitoral lá no país em que para alguns é a matriz, essas mentes intoxicadas pelas drogas ideológicas estão em polvorosa. Já sabem que o povo vai enfrenta-los agora nas eleições municipais.

***

PERGUNTA:  como o eleitor deve se comportar no Brasil, votando para prefeitos e vereadores na corrida pelo poder municipal executivo e legislativo?

RESPOSTA:  estas eleições apresentam um quadro surreal, pincelado com as mediocridades coloridas e a falta de patriotismo. Nelas pontificam os políticos que meteram a mão no dinheiro do contribuinte para o Fundão Eleitoral, para eleger os inimigos do povo, carreiristas, oportunistas e picaretas.

É deles que a Democracia sofre a infecção virulenta da corrupção municipal que se alastra pelo país, e a maior prova disto é a ganância continuísta na reeleição dos prefeitos em municípios “falidos”…

Neste mar de lama, sem dúvida, sobrevivem honrosas exceções, mas nos dá trabalho para batear cascalhos atrás de pepitas de ouro…. Da minha parte, se não encontrar o candidato ideal, escolho o menos pior….

Se não me engando, Theodore Roosevelt Jr., tio de Franklin, disse que “ o voto é como um rifle, sua utilidade depende do caráter do beneficiado”.

Atrás de um bom caráter, não encontrei ainda um candidato a vereador no Rio; se morasse em São Paulo votaria no médico Gilberto Natalini, ambientalista vigoroso e honesto. Para prefeito no Rio votarei na juíza Marta Rocha, por eliminação dos demais concorrentes.

 

REELEIÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A negação não é uma poça d’água. É um oceano. E como podemos fazer para não nos afogarmos? ”  (Grey’s Anatomy)

Foi divulgada há dois ou três anos, não me lembro quando, uma pesquisa que supus séria pelos dados gerais, a abrangência e o número de entrevistados. Entre diversos itens, um deles me chamou a atenção e eu anotei: 86% dos eleitores não se lembravam do candidato em que votaram.

O tempo se passou e acredito que este percentual será igual ou maior para responderem se recordam das promessas eleitorais do político que elegeu, vereador ou prefeito, deputados estaduais e governadores, congressistas e até do presidente da República!

Também os compromissos eleitorais, ou grande parte deles, não são cumpridos; e desconfio que essa displicência alienada continue dando crédito às mesmas promessas repetidas nos palanques reeleitorais, levando-nos a pensar como Eleanor Roosevelt: “Se alguém trai você uma vez, a culpa é dele. Se trai duas vezes, a culpa é sua”.

Cabe realmente ao “eleitor cúmplice” a responsabilidade de levar duas vezes ao poder um traidor. É por isto que não merece perdão o ex-presidente Fernando Henrique Cardozo por ter aprovado a reeleição e criado o “mensalão”, com o qual comprou a sua.

A reeleição é uma inimiga perigosas da Democracia. Seria maçante e até impertinente falar de reeleição nos municípios – aonde começa a corrupção que assola a política brasileira –, da mesma forma como reconhecer que esta legislação infame favorece as oligarquias corruptas e corruptoras pelo Brasil afora.

Dizem que o mandato de quatro anos para os cargos executivos é pouco tempo para o eventual ocupante do poder se afirmar como administrador da coisa pública. A culpa é da Constituição de 1988 – tantas vezes emendada pelo Legislativo e descumprida pelo Judiciário -, mas intocável no caso de aumentar para cinco anos o exercício do cargo executivo; assim, ajuda a reeleição que só satisfaz aos ambiciosos.

Muitos esqueceram, mas nas últimas eleições os ambiciosos ainda disfarçados de reformistas, se diziam contra a reeleição. Um deles foi o atual presidente Jair Bolsonaro que agora, mesmo no momento difícil que o país atravessa, tem como único propósito, a própria reeleição.

No Palácio do Planalto tudo gira em torno das eleições sucessórias vindouras; todos ali estão engajados na campanha antecipada, dos generais da reserva que formam a guarda pretoriana do Presidente, ao trio maravilhoso dos filhotes aproveitadores da política personalista do pai, cada vez mais facciosa e populista.

Diz o liberalíssimo ditado popular que “em cada cabeça uma sentença”, e por este princípio individualista, o presidente Jair Bolsonaro pode fazer politicamente o que lhe der na telha, contando que esteja de acordo com a Lei.

Seria interessante, entretanto, que o Presidente tivesse a humildade de aprender as lições que as eleições norte-americanas trouxeram, exceto acusar fraudes aonde não há, nem negar a vitória de um adversário, como faz o seu figurino Donald Trump.

A mais expressiva entre as lições positivas foi a participação diligente e expressiva do cabo eleitoral Coronavírus e sua auxiliar ativista Covid-19. Podem somar: Assistimos pesar na apuração final as simpatias e antipatias pessoais, o partidarismo e as ideologias; mas a derrota de Trump se deveu ao negacionismo que deu continuidade ao desdém pela pandemia, por puro egocentrismo e cabeça dura…. O povo não é bobo.

 

 

AS LEIS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

                   “Não se acha suficiente que a lei seja justa, pretende-se também que seja filantrópica” (Frederic Bastiat)

Contraditoriamente, Ricardo Barros, líder do governo que defende o antigo regime militar e elogia torturadores, propõe a convocação de uma Assembleia Constituinte como fez o Chile para enterrar a Constituição ditatorial de Pinochet, que – não duvido – seja bem lembrado pelo presidente Jair Bolsonaro.

A Constituição de 1988 é sem dúvida exagerada ao misturar a defesa dos direitos humanos com o direito dos bandidos, sendo leniente com os criminosos. Nasceu de um suspiro reparador dos políticos da oposição consentida.

Não se pode desprezar, também, que a batizada “Carta Cidadã” trouxe uma overdose de direitos, sem a contrapartida dos deveres, negaceando a necessidade desta exigência necessária à ordem pública.

Desconheço as constituições dos 193 países-membros da ONU, mas entre as antigas, dos países europeus e dos Estados Unidos, a coisa não é bem assim. Exigem dos seus povos obrigações para com o País. Lembro de um artigo do advogado Rodrigo Lobato, onde se esclarece este ponto de vista ao enfatizar: “Não pergunte o que o Brasil pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo Brasil”…

É preciso, sem dúvida, esclarecermos a questão dos direitos e dos deveres, e rever a legislação penal paliativa e tolerante com os ladrões que infestam mexicanamente o nosso país… Não com a volta da Lei de Talião, “Dente, por Dente, Olho por Olho”, mas com agravantes e pelo cumprimento total da pena para os delinquentes condenados.

Em muitos países (e está de volta em alguns estados dos Estados Unidos) vem sendo restabelecida a pena de morte como pena máxima. No Brasil, pela nova Lei nº 13.964/2019 a pena máxima é de 40 anos em regime fechado, mas o preso recebe benesses após o cumprimento de 1/6 da pena.

Para beneficiar criminosos, as charadas jurídicas se multiplicam graças aos grupos de pressão de advogados e das ONGs “defensoras” dos direitos humanos; e com isto se multiplicam também as ações criminosas, a corrupção e a violência.

Antigamente, em muitos países árabes, cortava-se a machado a mão direita dos ladrões e cauterizava-se o talho em alcatrão fervente…. Se não me engano, ainda vigora na China: amputa-se os dedos de batedores de carteiras.

Parecem descomedidas estas penas; basta a segregação em prisões de segurança máxima e obrigações a ser seguidas pelos sentenciados como trabalho, sem a compaixão do falso humanismo para os bandidos.

A punição para o crime deve ser dura, principalmente dos crimes hediondos como o estupro, o latrocínio e o tráfico de drogas; e que a Justiça não repita o que ocorreu a poucos dias em Pernambuco, com um juiz que mandou soltar traficantes detidos em flagrante transportando 133 kg de maconha. Uma droga considerava “leve”, mas que é criminalizada pela legislação vigente.

Muito menos como ocorreu no caso que envolveu a blogueira Mariana Ferrer, e a insólita sentença de um juiz em Santa Catarina acatando a tese de que o estuprador cometeu ‘estupro culposo’, ‘crime’ não previsto por lei…

São intoleráveis, também, as sentenças garantistas do Supremo Tribunal Federal, que libertam criminosos, principalmente políticos corruptos assaltantes do Erário, como ocorre com José Dirceu e Lula da Silva, este último delinquindo no exercício da presidência da República. Um mal exemplo para a sociedade!

E, voltando à Constituição de 88, é inesquecível que muitas delinquências no mundo político são “legais” como o assalto ao bolso dos contribuintes com os “fundões” partidário e eleitoral. E até pode se acrescentar a esta “legalidade bandida” o foro privilegiado e a famigerada reeleição que pretende manter no poder aqueles que o usam para se reeleger.

O explorador Henry Morton Stanley que se tornou famoso por encontrar o missionário David Livingstone, desaparecido no interior da África (e inspirou o filme “O Explorador Perdido”), estudou uma sociedade primitiva onde o chefe que atinge a idade avançada é convidado pela tribo a subir num coqueiro que os guerreiros balançam fortemente. Se ele conseguir se segurar, fica no poder por mais um ano; se cair, perde o mandato.

Numa sociedade considerada civilizada e democrática, o coqueiro é o voto, onde todos que cumprirem a missão para que foram eleitos, devem ser sacudidos e defenestrados pelo eleitorado.

 

 

A MORTE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Quem não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte?” (Confúcio)

Para quem já escreveu três artigos sobre a Vida e um apenas sobre a Morte, não se perturba em voltar com a morte nesta peleja dicotômica, aproveitando o terror do pesadelo de 160 mil óbitos por causa da “gripezinha”, referência dos negacionistas para a covid-19, subestimando-a por interesses políticos.

Por não crer na imortalidade e disposto a enfrentar a própria morte (que não seja sofrida, pelo amor de Deus!), sempre fui atraído por epitáfios. Já contei que ao fim do serviço militar, em 1952, ganhei uma viagem a Paris do meu pai e lá desembarcando fui direto ao cemitério Père Lachaise para ver o túmulo de Voltaire.

O filósofo dos tempos modernos que me encanta, tem na lápide sobre seu túmulo uma frase que ele mesmo redigiu: “O Homem é o único animal que sabe que vai morrer um dia. Triste destino! ”.

No sepulcro de Arquimedes – o pai da Geometria –, em Siracusa, a epígrafe não tem letras. É apenas um desenho geométrico, um quadrado inscrito num círculo.

Arquimedes foi astrônomo, engenheiro, físico, inventor e matemático; e na esteira deste gênio da humanidade, o matemático alemão Ludolf van Ceulen, radicado e falecido nos Países Baixos, pediu que no seu túmulo fosse posto apenas o “PI” grego, 3,14,16, que muitas vezes havia calculado…

Falecido a pouco, eu sugeriria que para Sean Conery, ator escocês que atuou em mais de 90 papeis no teatro e no cinema e recebeu da Rainha Elizabeth II o título de cavaleiro da Ordem Britânica, um elogio fúnebre: “Intocável”. Inspirei-me no filme de Brian de Palma “Os intocáveis”, que lhe concedeu o Oscar de 1988.

Para os curiosos, adianto-lhes que escrevo este texto no dia 2 de novembro de 2020, Dia de Finados, em que venero os meus mortos, familiares, amigos, e aos que admirei em vida, mesmo de longe.

Foi neste dia, fazem 70 anos, que faleceu outra personalidade da minha admiração, o jornalista irlandês George Bernard Shaw, também contista, dramaturgo, ensaísta e romancista.

Shaw, sempre desafiando os costumes sociais vigorantes na época, não se preocupou com louvores post-mortem. Pediu a cremação do seu cadáver e que as cinzas fossem misturadas às de sua esposa que o antecedeu na partida… O amor se impôs às celebrações póstumas.

E além da morte, a ciência também se sobrepõe às crendices e ao misticismo que vigoram desde que o homo sapiens conquistou a Terra aniquilando os neandertais… E vem demolindo a ignorância humana revelando todos os segredos universais.

Embora a idiotia ainda subsista e indivíduos incultos, mesmo com as fotografias do planeta tiradas do Cosmos, divulguem sem acanhamento, que a Terra é plana, assumindo com suas asneiras um lugar no negacionismo à Ciência.

Há também pessoas que por puro esnobismo se engajam na tolice de negar a eficácia das vacinas; e, nesse contexto, seguem desdenhando as milhões de mortes provocadas pela covid-19.

Este comportamento leva a um duplo raciocínio: ou adotam as milenares práticas chinesas de sepultar as pessoas com festa, e os carnavalescos festivais mexicanos das caveiras e esqueletos, ou levam de volta a sua ignorância para o século 19….

Lembro que mais de duzentos anos atrás o papa Pio VII, discutindo com o polivalente cientista Alexander von Humboldt, disse que os meteoritos eram pedras que caiam de uma fenda da abóboda celeste.

Esta concepção falsa e contestável era, na época, dominante no Ocidente; uma coisa que deve ser considerada insana, como é totalmente alienado negar a eficácia de uma vacina contra os vírus…

 

 

IMBECILIDADE TELEVISIVA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana…”  (Barão de Itararé)

É muito forte a palavra Imbecilidade, definida gramaticalmente como substantivo feminino, originária do latim “imbecillitas.atis”, desprovido de inteligência, senso ou tino; leva a Imbecil, também de etimologia latina “imbecille”, pessoa apalermada, idiota, tola.

A psiquiatria define “imbecilidade” como a condição de pessoal cuja idade mental é a de uma criança entre três e sete anos; e coloquialmente o povão usa como burrice, ações e comportamento de um idiota.

O jornalista e humorista gaúcho Apparício Torelly, conhecido nas rodas intelectuais do Rio de Janeiro como Apporelly e/ou pelo título de nobreza assumido, Barão de Itararé, viu a televisão nos seus primórdios, e revoltou-se com as chanchadas que apareceram inicialmente. Exagerou na definição.

Se vivesse nos dias atuais possivelmente mudaria de opinião, sem generalizar, embora – com toda razão -, destacasse possivelmente a imbecilidade de alguns canais televisivos que insistem em fazer os usuários de idiotas.

Se acessasse Smithsonian Channel, a National Geographic ou International BBC television channels, não pensaria da mesma forma.

Por outro lado, vemos os canais History e Discovery se esforçando em se pôr a serviço da “imbecilidade humana”. Tendo como tema o Alasca, abundam versões brasileiras das idiotices que agradam a audiência norte-americana, parecendo exibições comerciais para atrair tolos.

É possível que possa atrair a massa ignara sempre disposta ao entretenimento diversionista. Há panaca para tudo que é passatempo; mas creio que – independente da escolaridade -, a intelligentsia brasileira é mais exigente. O povão é esperto e gosta de aprender.

O que não pode é aceitar a exibição repetitiva de dezenas de filmetes sobre o Alasca, limitados e dirigidos apenas para a curiosidade de um público desprovido de informação ou apaixonado por tudo o que se relaciona com os Estados Unidos.

Enumerei alguns programas que realmente estão no subsolo do edifício QI. Começa com “Alasca, a Última Fronteira”, se repete com “Alasca ao Extremo” e com “Construções Remotas no Alasca”… Depois tem “Perdidos no Alasca” e, se não bastasse, “isolados no Alasca”. Para quem gosta de suspense, “O Misterioso Triângulo do Alasca”, “Alasca, Perigo no Ar”….

Tem “Por Dentro do Alasca” e lá “A Grande Família do Alasca”, divertindo-se na “Festa no Alasca” com “Corridas de Cachorros no Alasca”, “Bullins Alasca” e aos que gostam de construções, “Megamáquinas do Alasca”.  “Trilhos do Alasca” são para ver-se a paisagem gelada de lá, “Alasca em Grande Estilo”…

Desculpem meus fiéis seguidores pela limitação a somente este “Show do Alasca”; quem recolher outros em dezenas deles, me avisem de qual canal extraíram, para que eu não o acesse…

 

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