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DAS TRAPAÇAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

O filósofo florentino Niccolò di Bernardo dei Machiavelli, conselheiro de ocupantes do poder na antiga Itália dizia que “o objetivo da política era manter a estabilidade social e do governo a todo custo”; e alertava: – “Aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar”.

Maquiavel, como é mais conhecido entre nós, tinha razão em ambas colocações e no caso do enganador a sua afirmação tornou-se tão popular que o trapaceiro adquiriu o sinônimo de maquiavélico…

No dizer do fabulista, teólogo e advogado La Fontaine a Trapaça é uma “ciência” que atrai muitas pessoas a se especializar nela, e praticá-la. Dicionarizado, o verbete Trapaça é um substantivo feminino vindo da palavra latina Trapa, significando armadilha, e chega ao brasilês como cilada ou arapuca….

Encontramos corriqueiramente a designação de Trapaça para qualquer ação desonesta para enganar alguém, manobra astuciosa empregada para iludir. Leva-nos a constatar fraude, logro e má-fé.

Há quem considere a Astrologia uma pseudo ciência explorada por trapaceiros, mas esta alegação é desmentida por milhares de pessoas que creem nela. Um enorme balaio de personalidades históricas de épocas variadas, como Júlio César, papas medievais, Napoleão e, mais recentes, no século 20, Eisenhower e Hitler, consultaram astrólogos e acreditavam em horóscopos.

Contrariamente, temos o exemplo do general árabe, comandante do exército do califa Valid, que embora descrente, consultou um astrólogo; ouvindo que iria morrer em breve. Para esnobar o Consultor perguntou-lhe o que os astros diziam sobre a vida dele. Ouvindo-o dizer que teria uma vida longa, disse: – “Confio tanto no teu conhecimento dos astros que lhe quero sempre junto comigo doravante, peço-lhe, portanto, que me espere no além”; e mandou que o decapitassem.

Também incrédulo, o jornalista e escritor ítalo argentino Pittigilli escreveu uma crônica sob o título “Grafologia” considerada também como “ciência”, e também controversa. Exemplifica que um certo grafólogo respeitado por decifrar textos manuscritos e autógrafos, pedia apenas que classifiquem a autoria, se é masculina ou feminina.

O Cronista arrasa de cara tal situação, perguntando como saber do íntimo das pessoas se não sabe distinguir se a letra é de homem ou de mulher? E conta uma história que ocorreu na Itália levando ao grafólogo da polícia de Turin uma assinatura do maestro Toscanini, um dos mais aclamados musicistas do século passado.

O reconhecido desvendador de crimes julgou que a letra revelava indisciplina, inconstância e escassa sensibilidade. Imaginem faltar sensibilidade e disciplina de Toscanini, que certa vez disse a um oboísta: – “Cuidado, no ensaio da terça-feira passada, você omitiu uma pausa de fusa no quinto compasso!”

As ciências pouco científicas que se propõem explicar as ocorrências e acidentes vitais de um indivíduo ou decifrar futuras ocorrências são usadas por pessoas espertas, de quem se pode esperar qualquer ação ardilosa.

Mesmo sem ter lido os livros de autores clássicos, a gente pode citar seus aforismos, anedotas, frases e pensamentos divulgados à larga pelo Google, assim temos do erudito chinês Lu Wen Liang a passagem da mais criminosa trapaça conhecida, contando a história de um poeta que se tornou inimigo figadal de um cortesão levando-o a publicar um livro em pergaminho com uma denúncia contra o Crítico e enviou-lhe uma cópia impregnada de veneno, sabendo que ele costumava umedecer os dedos com saliva para folhear as páginas.

E o desafeto morreu antes de terminar a leitura. Isto ocorreu há novecentos anos. Hoje, manobras trapaceiras podem até ser legais, de Estado e de Governo, podendo ser aplicadas ao gosto dos ocupantes corruptos do poder.

Como exemplo, uma dupla trapaça aparece no cenário da tragédia climática ocorrida no Rio Grande do Sul. É do conhecido presidente Lula da Silva diante da hostilidade popular contra si.

Ouvindo o seu Goebblels (ao acordar) passou por cima do Agro, da legalidade e da opinião pública, resolvendo importar um milhão de toneladas de arroz, uma trapaça que se somou a outra, empacotando o produto com propaganda governamental.

O personagem brasileiro enriquece dessa maneira a sinonímia de trapaça, blefando, burlando, enganando como fez nos governos anteriores.

PABLO NERUDA

ODE AO GATO

 

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de ouro.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

DAS MEDIDAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Lembro do tempo em que o alfaiate tomava a medida das pessoas e fazia um terno; e outro profissional tão antigo e, como o alfaiate, quase desaparecido, o chapeleiro, fazia um chapéu sem sequer conhecer o cliente, apenas com dados da cabeça dele.

Também o psicólogo – tira a medida do que está no interior do crâneo, revelando pelos medidores freudianos ou junguianos, verdades desconhecidas até pelo paciente…

Como verbete dicionarizado, “Medida” é um substantivo feminino de origem latina, particípio passado de Metire, “medir”. Define-se como uma determinada quantidade para avaliar dimensões ou frações mensuráveis.

Para medir grandezas físicas temos instrumentos, as unidades de medida que são: para o comprimento: metro (m), para a massa: grama (g) e para o volume: metro cúbico (m3).

Para quantificar a percepção humana, Platão nos trouxe um enunciado de Protágoras, filósofo e matemático grego, criador da corrente de pensamento conhecida como pitagorismo: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são como são e das que não são como não são”.

Isto induz que se uma pessoa pensa que uma coisa é verdade, tal coisa é a verdade para ela; serviu de base filosófica para o dialeta materialista Heráclito, defensor de que o conhecimento humano pode ser alterado conforme circunstâncias mutáveis.

Heráclito formulou como exemplo que “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não encontra as mesmas águas, e o próprio indivíduo já se modificou”.

Da sabedoria grega antiga concluímos que o ser humano tem o poder para determinar o valor ou significado das coisas, criando a sua própria realidade. E assim possuímos a  representação cultural de medidas políticas. Com elas temos a formação dos governos autoritários dispondo restrições e controle para a cidadania.

Com referência a estes critérios, sabemos que tais ações provocam reação dos defensores da liberdade de expressão que assumem nas redes sociais a luta contra a censura que o Governo Lula e seus sabujos no Judiciário e Legislativo tentam implantar.

Pela contradição no exercício de suas funções o Supremo Tribunal Federal, inoculou-se com o vírus da lerdeza coletiva, do interesse pessoal e permitindo a entrada da política no Tribunal, expulsando de lá a Justiça boa e perfeita.

É inegável que com isto fica escancarado o problema das decisões monocráticas. A questão é tão chocante que se põe à frente dos privilégios gozados pela magistratura – A mais cara do mundo –, e mantém nela um comportamento leniente enfermiço diante do crime e dos criminosos.

A febre do autoritarismo está a serviço dos aspirantes de uma “Democracia Relativa” com tremores doentios que levam um ministro do STF a dizer que as redes sociais não têm regulamentação. Ele ignora por falta de estudo ou acumpliciado com o totalitarismo, que já temos o Marco Civil da Internet, permitindo que qualquer juiz peça a retirada do conteúdo das redes a qualquer tempo.

Aliás, não é falta de estudo. Acho proposital a fala equivocada do ministro Alexandre de Moraes, pois julgo impossível seu desconhecimento de que o código penal tipifica os crimes contra a honra, a fraude e o estelionato, punindo-os em qualquer contexto, no tempo e no espaço.

Portando, qualquer crime cometido no mundo virtual pode e deve ser reprimido, investigado, e os culpados devem ser punidos. Não o fazer, alegando necessidade de repressão ou censura prévia, nada tem a ver com o Estado Democrático de Direito.

É por isto um dever da cidadania repudiar a volta da censura ditatorial, que só existe na cabeça de golpistas fanáticos de Bolsonaro ou defensores lulistas de “democracias efetivas e relativas”.

 

DA COBRANÇA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Atravessamos o pântano da delinquência judiciária enfrentando crocodilos que trazem nas mandíbulas as propinas da corrupção. A trilha segura da honestidade que a Operação Lava Jato abriu, perseguindo os corruptos e seus cúmplices, foi obstruída.

As ações em favor do crime como se vê agora, desmantelam a luta anticorrupção num momento em que o país está preocupado e consternado com a tragédia do RS. Tentam apagar a história recente do país anulando os processos que condenaram corruptos e corruptores.

Os cúmplices da bandidagem precisam saber que a anulação das sentenças de primeira e segunda instâncias não apagam os fatos, não escondem a verdade histórica. Os fatos e a História não podem ser anulados, pois não pertencem aos autos, pertencem ao mundo.

A única coisa está esclarecida é que o STF transmite uma percepção negativa da Justiça, e os que argumentam em seu favor mentem, escondendo que quem destruiu as empresas foi a corrupção lulopetista e não a caça aos criminosos procedida legalmente pela PF, MPF e juízes de primeira instância.

As investigações feitas, buscas e apreensões, apuraram casos gravíssimos de corrupção, de forma conjunta em vários órgãos de governo e empresas estatais. “Destampou a panela de pressão” que cozinhou a roubalheira, mas o ministro Dias Toffoli não provou o ensopado, nem experimentou o tempero da realidade flagrante.

Convicto da lealdade aos corruptos, anulou com canetadas atos da Lava Jato contra Marcelo Odebrecht, réu confesso, delator, colaborador premiado; e cometeu esta barbaridade sob o silêncio cúmplices dos seus pares.

Este cidadão, que chegou à Corte apenas por ter sido advogado do Partido dos Trabalhadores, colaborou com a empresa corruptora e o seu titular que lhe pagaram propinas revelando por E-mail o seu codinome: “Amigo do amigo do meu pai”.

Neste triste neste cenário vê-se a omissão dos demais membros do Supremo, que deveriam zelar pela Constituição e não reescrever a história da Lava Jato. Fazendo-o, colocam-se a serviço dos políticos desonestos.

Entretanto, pela propaganda massiva, convencem pessoas que se afirmam honestas e patriotas e defensoras do Direito. É o tipo de gente que emprenha de olhos fixos na televisão vendida e a imprensa cínica.  Foi dela que o pessimista Mark Twain se referiu dizendo que “quatro quintos da humanidade representam a estupidez do gênero humano”, e com isto nos leva à cobrança.

Como verbete dicionarizado, “Cobrança” é um substantivo feminino de etimologia latina, do verbo recuperare, relacionado com recipere significando “tomar, pegar”. Cobrar é exigir o pagamento de uma dívida; é o que faço cobrando do Congresso medidas que impeçam a continuidade dos atos jurídicos em favor do crime.

A cobrança se faz exigindo uma obrigação a tudo que é exigido pela consciência nacional e à legislação vigente no Estado de Direito. Aos religiosos, lembro que a cobrança é santa, como viu Jesus a um cobrador de impostos, Mateus, considerado um traidor pelo seu povo.

Mateus foi assistir uma prédica de Jesus que o chamou e disse: — “Venha comigo”; e assim aconteceu, ele passou a seguir o Mestre e em vez de exigir o pagamento de tributos para o Estado, passou a cobrar Justiça. Tornou-se um dos doze apóstolos.

O apostolado dos dias de hoje, diante de tanto mal, de delinquências de toda ordem, do favoritismo, dos privilégios e da violência, obriga-se a fazer cobranças para trazer de volta a Justiça boa e perfeita, e não um tribunal que sentencie a morte da verdade.

Para diversão, o dicionário também traz a “cobrança” na gíria futebolista: é cobrar um escanteio ou bater um pênalti. Torço para que a nossa cobrança no campo da política faça um gol para a vitória da política pública anticorrupção.

 

DAS VINGANÇAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

A sanha vingativa dos corruptos e seus cúmplices contra a Operação Lava Jato e os seus protagonistas da PF, do MPF e dos juízes de tribunais de primeira e segunda instâncias, é translúcida como água de esgoto. Quem ainda não observou como é transparente a água de esgoto?

Para se vingar de um julgamento justo que o sentenciou à cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula atiçou os seus sabujos contra Sérgio Moro, um juiz concursado, estudioso e perseguidor do crime.

Criou-se uma temporada inimaginável de perseguições contra a Lava Jato, encarnada por Moro, com o lulopetismo e o bolsonarismo juntando-se e formando um eixo do mal para vingar-se de quem mostrou a face horrenda da corrupção.

Com este aglomerado da falsa esquerda e da falsa direita formado contra os inimigos do crime fica transparente que a polarização que os confronta é apenas eleitoral. Eles pensam e fazem o mesmo quando chegam ao poder: tramam contra o Estado de Direito e as liberdades democráticas e assaltam o Erário.

Desta vez – é meio incompreensível – a Vingança urdida pelo PT e o PL para cassar Sérgio Moro frustrou-se pela falta de substância nas acusações e uma fraqueza inexplicável dos seus aliados no Judiciário.

O verbete Vingança dicionarizado é um substantivo feminino abstrato originário do latim vulgar, substantivando o verbo “vindicare” (tirar desforra), firmando “Vindicta”, (mostrar autoridade). Significa perseguir uma pessoa ou entidade para punir suposta ofensa ou danos.

É bom distinguir vingança de punição. A Vingança não é castigar uma transgressão que se faz em nome da Justiça; é molestar o próximo irracionalmente destilando ódio. Na sociedade humana aparece em muitas expressões intelectuais, na pintura aonde temos “A vingança de Herodíade“, de Juan de Flandes e na música, as óperas Don Giovanni e “Le nozze di Figaro”, de Wolfgang Amadeus Mozart.

Na literatura incluem-se os clássicos shakespeareanos nas peças Hamlet e “Otelo, o Mouro de Veneza”; e de Alexandre Dumas, o celebrado “Conde de Monte Cristo”. Como tema cinematográfico destaco dois filmes: “The Punisher” – O Justiceiro –, e “V de Vingança”.

O primeiro, O Justiceiro,  passou sem ser reconhecido na sua qualidade, que trouxe uma excelente interpretação de John Travolta e Thomas Jane, anti-heróis do lado do mal e do lado do bem… Filmado sob a direção de Jonathan Hensleigh, com roteiro dele mesmo e de Michael France.

Relata a história do policial federal Frank Castle (Thomas Jane) que vê o massacre de sua família, pais irmãos, esposa e filho por uma gangue de traficantes que ele investigava. Gravemente ferido e dado como morto assume a sobrevida para vingar-se do chefe da quadrilha, Howard Saint (John Travolta).

Entre ousadas ações subversivas, mata o filho de Howard e cria situações que estimulam o doentio ciúme que o levam a matar o seu braço direito e a mulher. Com a tarefa cumprida, Frank torna-se um vigilante decidido a enfrentar criminosos.

O outro filme, inspirado no “1984” de George Orwel, num enfrentamento a um regime totalitário. É o “V de Vingança”, feito sob a direção de James McTeigue, com roteiro das irmãs Wachowski, Lilly e Lana, com Natalie Portman, Hugo Weaving e Stephen Rea, e Hugo atuando de máscara cobrindo todo rosto.

A história se passa na Inglaterra submetida a uma ditadura fascista e um movimento clandestino de resistência inspirado nas atividades terroristas de um personagem conhecido como “V”, atuante na luta pela liberdade e contra o totalitarismo; ele é perseguido pelo comissário de polícia, detetive Finch (Stephen Rea), cujas investigações terminam convencendo-o dos horrores ditatoriais.

Por uma coincidência, “V” se encontra com Evey (Natalie Portman) uma jovem trabalhadora de serviços gerais na televisão estatal. Salva-a de uma agressão de esbirros da polícia secreta; e assim os seus destinos se cruzam e se misturam novelescamente.

O final é apoteótico: Baleado, “V” morre e seu cadáver segue num trem sob à vista de Evey e Finch. A composição carregada de explosivos segue para o Parlamento e o Big Ben que são destruídos sob a execução da “Abertura 1812”, de Tchaikovsky, irradiada e aplaudida por uma imensa multidão sob olhares das forças militares que iriam reprimi-la.

No diálogo final, Finch pergunta a Evey qual era a identidade do Mascarado, ao que ela responde: – “Ele era Edmond Dantès. Era meu pai, minha mãe, meu irmão, meu amigo. Ele era eu, era você, era todos nós”.

 

DO ISOLACIONISMO

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Para se ter uma ideia de sociedade e, consequentemente, da cidadania, temos em mão a interessante concepção materialista do historiador britânico nascido em Alexandria, Eric Hobsbawm; ele mostra a socialização dos seres humanos através de uma metáfora.

Hobsbawm proferiu numa palestra: “Imaginemos um selo colado numa moeda poeta em cima do Obelisco Lateranense, do Egito Antigo, moldado em granito vermelho, com 45,7 metros de altura e ainda em pé; pressupondo que ele represente a idade da Terra, a espessura da moeda representaria os 350 mil anos em que o homem surgiu, e o selo configura o tempo em que se civilizou”.

Com esta tese, vemos que limite civilizatório do Homo Sapiens é tão pequeno que não escondeu sua necessidade de se coletivizar para sobreviver, abandonando a economia da caça e da colheita selvagens para se fixar no solo, plantando e domesticando animais.

Recebeu o exemplo da Natureza com a variação de estio e chuvas, promovendo assim a evolução e fortalecimento de animais e plantas; quanto ao ser humano, a “meteorologia social” fez o mesmo.

O contrário disto, temos o Isolacionismo.  O exemplo está no livro “Robinson Crusoé”, clássico da literatura escrito por Daniel Defoe. Historiadores afirmam que a aventura romanceada não foi ficção. Baseou-se no caso do náufrago escocês Alexander Selkirk, que viveu durante quatro anos numa ilha do Pacífico situada na costa chilena.

A Ilha de Robinson era selvagem e desabitada e ele teve a sorte do mar revolto trazer à praia os escombros do navio soçobrado na tempestade. De lá o náufrago retira além de alimentos não-perecíveis e barris de rum, vários utensílios de uso corrente. Na cabine do comandante pega armas, projéteis, pólvora, facas, navalhas e tesoura. Na cabine do comandante acha, num cofre, libras e as barras de ouro e prata.

Depois de tudo arrumado numa gruta habitável que encontrara, Robinson olha para o dinheiro e os metais preciosos e num rasgo filosófico, pensa e clama em voz alta: – “Oh! Vaidade das vaidades, vil metal impostor, para que serves?”; leva tudo à praia atirando-os ao quebra-mar.

Com este gesto, o Isolado apontou o mal da sociedade que do lado capitalista da servidão ao dinheiro. É a única vantagem do isolamento: mostrar o lado negativo da sociedade, mantido pelo sistema estatal repressor e a minoria privilegiada dos governantes.

Em conformidade com isto, vemos então que aquele selinho, colado à moeda e posto sobre o vértice do Obelisco Lateranense registrou historicamente avanços notáveis no campo das ciências, mas não logrou implantar o sentimento de solidariedade que levou os seres humanos a incluir-se socialmente.

É que o processo evolutivo da organização comunal foi da propriedade coletiva, mantendo o direito de todos aos produtos produzidos, para a propriedade privada cuja economia criou classes e exigiu o trabalho escravo, primeiro, como conquista de guerras e mais tarde com a revoltante comercialização do servilismo africano.

Visto o exemplo, a Sociologia Histórica nos leva a buscar nas estantes teorias da filosofia social que foram ofuscadas pela volumosa propaganda marxista; e lá encontramos um livro amarelado de Gabriel Tarde.

Este filósofo francês, sociólogo, psicólogo e criminologista, nos traz a compreensão da relação individual com a sociedade com relações interpsíquicas, exemplificada no processo desenvolvido na História Social. Segundo Tarde, a troca de experiências pessoais é um ciclo infinito de criações com base na imitação.

Ao contrário do coletivismo teórico, é uma tese que defende a precedência do indivíduo como responsável pela troca de informação que valorizam a força do trabalho no processo produtivo. Assim, o percursor da psicologia social no século 19, defende que a atividade social depende conscientização das pessoas e não do poder de coerção que o Estado lhes impõe.

Paralelamente completa-o a dialética de Paul Lafargue, autor do manifesto “O Direito à Preguiça”, publicado em 1883. Lafargue analisa o mundo do trabalho e vê a tendência do trabalhador em ampliar o seu tempo livre, encerrando o ciclo da produção e do lazer; levando-nos à compreensão do valor das políticas sociais-democráticas nórdicas que obtêm maior produtividade com o “direito à preguiça”.

Refletimos dessa maneira que Isolacionismo é cúmplice do mecanismo estatal que explora o trabalhador, como trabalhador, e é contra o cidadão como cidadão: faz um amálgama do produtor e a máquina, e do eleitor o escravo de um regime inimigo.

 

DOS VENENOS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Para falar de venenos dou uma volta ao passado, ir a Natal, Rio Grande do Norte, nos anos 1980, recordando uma conversa de que participei em torno de canecas de chopp; éramos cinco amigos e, não-sei-lá-porquê, falamos sobre venenos.

O assunto veio da triste lembrança sobre o nazismo, que promoveu o extermínio de eslavos, ciganos, homossexuais e judeus nas câmaras de gás de Auschwitz, onde foi usado Zyklon B, comprimido que dissolvido em água se transformava em gás letal.

Então o assunto chegou aos maiores venenos do mundo, sendo primeiramente citado o Sarin, veneno que deixa as vítimas cansadas e sem conseguir respirar; outro lembrou a Estricnina, um poderoso tóxico ainda usado na eutanásia de animais de estimação. Levantou-se também o Cianureto, ou Cianeto, o ácido que é fatal para humanos após 10 minutos de exposição.

Daí, um dos presentes, o psiquiatra Maurilton Morais, que me autorizou a citá-lo, nos apresentou a tese de que o pior veneno para o ser humano é psíquico; e deu exemplos, entre os quais o de uma moça, sua cliente, que se suicidou emocionada após ouvir a Sinfonia n.º 6 do extraordinário compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovski.

E acrescentou o Médico que ele próprio se sensibiliza e se comove ao ouvir a Abertura 1812 do mesmo autor, a quem atribui o talento de provocar o auto envenenamento mental com a melodia.

Bem, não pretendo discutir a teoria musical e seus efeitos melódicos sobre a cabeça das pessoas, mas reportar jornalisticamente a tese de que o veneno é um fenômeno mental inoculado e ativado pela emoção.

Encontrei tempos após a conversa em Natal, um argumento a favor do tema do veneno psíquico. Um milenar conto árabe traz uma historieta investida da seriedade que as fábulas trazem para aconselhar e educar.

A narrativa é simples e direta. Descreve que “a Peste veio correndo no deserto e alcançou uma caravana que se dirigia para Bagdá. O chefe caravaneiro enfrentou-a perguntando-lhe o motivo de tanta pressa; e a Senhora dos Flagelos respondeu que estava chegando a hora de ceifar cinco mil vidas numa localidade adiante.

“Passados três dias e a caravana vindo de volta, ocorreu um novo encontro com a Peste e outra vez o chefe dos cameleiros dirigiu-se ousadamente para ela: – ‘Mentiste! Nós comprovamos, em vez de cinco mil vidas levaste 30 mil’. A Mãe das Epidemias foi pronta e veemente em responder: – ‘Nunca minto, senhor, na verdade recolhi apenas as cinco mil almas cumprindo a minha tarefa; as outras levou-as o Medo’.

Esta passagem registra a presença letal do Veneno-Medo, que pode intoxicar qualquer um, a mim e aos leitores dos meus textos. Não importa o sexo, a idade, a adoção filosófica ou credo religioso.

Atravessando os desertos orientais alcançamos a doutrina humanista do libertador da Índia, Mohandas Gandhi, que amedrontou os colonialistas ingleses com a arma da não-violência, deixando-nos a lição sobre os receios humanos: “o medo tem alguma utilidade, mas a covardia não”.

Como estímulo à sobrevivência humana, o medo é certamente um estímulo que nos protege de riscos naturais e acidentais; é um comportamento necessário à vida na Natureza; mas, quando se trata da sociedade, obrigando-nos às vezes a enfrentar o mal devemos usar contra este terrível inimigo o medo na sua função homeopática.

Se o veneno do medo dissolvido nas paixões mundanas ajudou a para libertar uma grande Nação como a Índia, poderá derrotar no Brasil os bandos criminosos seguidores de políticos corruptos e golpistas.

Estes delinquentes investem contra a livre expressão do pensamento adotando a censura e ameaçando acabar com as redes sociais que a Internet proporciona. O medo de perderem o poder fazem-nos extremistas.

Contra eles eu gostaria que mil sapinhos amazônicos Phyllobates terribilis, capazes de matar até dez adultos com uma pequena dose do seu veneno (o mais mortífero do mundo), se manifestem saltando diante dos três poderes da República assustando os inimigos da Liberdade.

 

 

 

 

DAS ATITUDES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Muitos anos estão acumulados desde que uma dessas reformas idiotas do ensino acabou com os cursos Primário, Ginasial, Científico e Clássico, fáceis de distinguir nos seus currículos. E entre o Primário e o Ginásio, havia ainda o Complementar, para ajudar os que eram reprovados no Exame de Admissão ao Ginásio.

Recordando meus tempos de estudante, faço-o para lembrar que fiz o Clássico, e nele tive às mãos uma interessante história traduzida do grego.

“O espartano Phedarete concorreu às eleições para o Conselho dos 300 e quando voltou para casa, mostrando um sorriso nos lábios, ouviu da mulher o comentário – “Estou vendo pela sua alegria que foi vencedor!”, a que ele respondeu que havia sido preterido. A mulher insistiu: – “… E porque estás tão alegre?”; então o patriota Phedarete replicou: – “Estou satisfeito por saber que em Esparta há 300 homens mais virtuosos do que eu!”

Uma atitude dessas é quase impossível nos tempos que atravessamos; o que vemos é a perda de caráter dos políticos e suas brigas por cargos públicos, disputas partidárias, luta interna nos governos pelo poder e a desgraçada polarização eleitoral entre grupos populistas.

Infelizmente são raros no Brasil os exemplos de dignidade e patriotismo como de Phedarete. Chegam aqui apenas as ideologias que quando estão bem velhinhas na Europa, atravessam o Atlântico e vêm para o Brasil…. Viram moda entre imbecilizados e fingem que são antagônicas para polarizar ludibriando o eleitorado paspalhão.

Aliás, a “Atitude” não se limita à maneira de posicionar o corpo; é sobretudo o modo de assumir uma posição que exige definições perante a sociedade ou mesmo no relacionamento entre pessoas ou entidades. O procedimento pessoal também deve retratar a disposição para enfrentar problemas pessoais ou diante de uma situação que envolva outras pessoas ou se refira a objetos, instituições etc…

Assistimos atitudes individuais em todos os setores do cotidiano. No terraplanismo jurídico ficou marcada a sentença do ministro do STF Dias Toffoli livrando a multa dos corruptores condenados pela Lava Jato. O peso desta decisão entra num dos pratos da balança em que o nome deste Togado esteve presente nas planilhas de propina da Odebrecht com o codinome de “Amigo do amigo do meu pai”.

Folheando o “vade mecum” que interpreta o modo de proceder dos ministros do STF, apareceu subitamente a condenação da Internet, vinda do também togado Alexandre de Moraes, que declarou sem embaraço, “que antes das redes sociais era feliz e não sabia”.

Feliz, porquê? Na cabeça de quem pensa assim, deve se sentir inseguro, sem poder fazer bobagens nem cometer delinquências, porque o terceiro olho da comunicação acompanha o comportamento das pessoas públicas.

Na contracapa do Livro encontramos a atitude do ex-presidiário corrupto, José Dirceu, condenado por assalto à Petrobras. Sentado entre os picaretas da Câmara Federal, sem mais nem porquê, declarou desavergonhadamente que ‘Até por justiça, mereço voltar à Câmara’. Disse-o e foi aplaudido sem pudor pelo coletivo…

… E, politicamente, para não ficar apenas na faixa do populismo lulopetista, chegou-nos a notícia de uma visita de Eduardo Bolsonaro ao parlamento alemão, posando para fotos com Beatrix Von Storch, neta de Hitler. É indesmentidamente uma atitude que comprova as suas simpatias com o nazismo.

Temos desta maneira, magistrados lenientes com a corrupção, políticos corruptos e empresários corruptores fortalecendo as atitudes dos ex-condenados pela Lava Jato e dos fascistóides golpistas que se mostram de corpo inteiro.

Isto, nos “andares de cima”, mostra cenas imorais e não o show de Madonna como a idiotia religiosa aponta; os ocupantes do poder nos levam às raias da impaciência ao constatar insegurança jurídica, o descalabro dos corruptos e a exibição da camisa hitlerista, sem encontrar resistência.

Poucas são as atitudes pessoais arriscando-se a lutar contra o regime policialesco instalado pelos “antifascistas” no poder. Esta minoria audaciosa somos nós, que usamos ferramentas da Internet no combate aos “porquês” dos que investem contra o “X”, refúgio da Liberdade. As atitudes corajosas estão nas redes sociais aonde se exerce a livre expressão do pensamento, o alicerce da Democracia.

DOS ROBÔS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Nos dias de hoje os robôs estão presentes em toda parte; saíram dos laboratórios de pesquisa para conviver no cotidiano das ruas, das escolas, do trabalho e em casa… Poucos, porém, sabem que eles vêm de longe no tempo e no espaço.

Num período histórico em que a Europa vivia em estado selvagem, mais ou menos 3.000 a.C, os chineses faziam surpreendentes descobertas e ensaiavam os primeiros avanços tecnológicos. Quatro das suas grandes invenções, a bússola, a pólvora, a fabricação de papel e a impressão, só chegaram ao ocidente no final da Idade Média.

O que nos interessa, falar de robôs, estes também tiveram existência mecânica por lá e têm relação com outra das criações chinesas, a xilogravura, a primeira cultura impressa, produzindo livros, deixando-nos como herança a referência aos autômatos que se movimentavam, batiam tambores e tinham expressões faciais como mexer com os olhos.

No século 17, o filósofo inglês Francis Bacon, trouxe na sua famosa obra “Novum Organum” o crédito à velha China pelas grandes mudanças que a humanidade recebeu dela, “coisas que nenhum império, nenhuma seita, nenhuma estrela parecem ter exercido maior poder e influência nos assuntos humanos do que as descobertas chinesas”.

Chegando à contemporaneidade, a palavra Robô surgiu em 1920 numa experiência teatral do dramaturgo checo Karel Čapek. Na peça “R.U.R. – Robôs Universais de Rossum” –, em que as máquinas entram em cena com aparência humana com mais eficiência do que seus colegas humanos. Čapek deu-lhes o nome de “rabota”, que em checo significa “trabalho”.

A partir daí a Ciência e a Tecnologia libertaram para a humanidade a criação dos robôs, que trouxeram para a nova realidade uma salada variada de admiração, curiosidade, desejo, oportunismo, ansiedade e temor do que eles podem vir a fazer.

Os robôs modernos são máquinas que estão em constante desenvolvimento e pela Inteligência Artificial aplicada aprendem com seus erros; é, aliás, a IA e seus aplicativos que levam os robôs ao universo da ficção científica.

Entrou na literatura com o best-seller “Eu, Robô” de Isaac Asimov publicado em 1950, sendo o pioneiro mundial na introdução do assunto, que estendeu ao cinema um filme com o mesmo nome, mostrando o seu lado ameaçador.

Projetando ameaças, imagina-se que os robôs produzirão os seus próprios semelhantes e ocuparão o emprego dos humanos; podendo se revoltar contra os seus fabricantes, este é o lado mal: temos do outro lado, porém, um ponto de vista que vê a presença deles facilitando a vida social e uma segura relação com o trabalho produtivo.

Este aspecto veio também com a arte cinematográfica com a interessante película “O Homem Bicentenário” feito sob orientação de Asimov e direção de Chris Columbus com magnífica atuação de Robin Williams e Wendy Crewson.

Esta fantasia traz um robô doméstico com características humanas ligado a uma família e, enriquecendo com o produto de trabalhos artesanais, financia um técnico em mecânica de androides para se humanizar, e acasalar-se com uma descendente do primeiro patrão… O resto, confiram, está em alguns streamings.

Enfim, temos uma realidade de já existirem máquinas inteligentes, incorporadas de forma humanoide, mas, também, como aspiradores de pó, lavadores de pratos e a frequência quase indispensável da Alexa, que nos obedece para ligar e desligar a luz, a tevê, o ar condicionado e atender pedidos de notícias, música e piadas…

Intolerável é a atuação dos robôs no campo da política, presentes nas redes sociais para divulgar fake news e mesmo tendo usurpadas suas personalidades por pessoas de carne e osso…. Mercenários e fanáticos capazes de tudo.

Explica-se isto com a equação formulada por Einstein para a sua teoria da relatividade, E = mc², aplicando-a comparativa para juízes que prendem criminosos e juízes que os soltam, com advogados que buscam a Justiça e advogados que a subornam, corrompendo-a.

Os fanáticos e mercenários travestidos de robôs nas redes sociais atuam para comprometê-las e comprometer os próprios robôs, dando argumento para os inimigos da livre expressão do pensamento atentarem contra os aplicativos de Comunicação; e devem ser punidos severamente por isto.

 

 

DO ESCAPISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

A genialidade do dramaturgo, poeta e filósofo alemão Bertolt Brecht, estrela ofuscante da arte teatral no século 20, condenou o “Escapismo”, lembrando “que continuando a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem “.

Brecht deu como exemplo o “analfabeto político”, a pessoa que não ouve, não fala, nem acompanha as ações de governo. “Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”, escreveu.

Como verbete dicionarizado, “Escapismo” é um substantivo masculino, significando a tendência de se afastar de situações ruins considerando-se incapaz de resolve-las; é a fuga da realidade ou do cotidiano por meio da abstração, da fantasia. Vem do inglês, “escapism” que no brasilês se formou com escapar + ismo.

Alguns estudiosos atribuem esta palavra ao célebre mágico Harry Houdini, famoso pelo ilusionismo como a arte de escapar de prisões consideradas intransponíveis. Por isto, chamavam-no “escapologista”.

Daí o termo entrou para a cultura contemporânea, expressando-se notadamente na literatura pelo romantismo baseado em situações imaginárias de fuga de problemas aparentemente reais.

No cinema, encontramos a chamada ficção especulativa que traz à telona fantasias, terror e a atraente ficção científica. Especialistas dizem que isto expressa a excelência do “escapismo”.

Aliás, a cultura norte-americana é riquíssima em escapismo, que notadamente se difundiu após a “grande depressão” – a quebra do mercado de ações em 1929. Alan Brinkley, autor do badalado livro sobre este fato que abalou o mundo, “Culture and Politics in the Great Depression”, considera que historicamente foi o escapismo que ajudou o povo norte-americano a atenuar o medo da retração econômica, e escapar mentalmente da pobreza em massa surgida no país.

Assim se viu no jornalismo, nos filmes e matérias radiofônicas. O melhor exemplo é a revista Life, que se tornou popular pelas entrevistas otimistas, reportagens romantizadas sobre os esportes e belas fotos de jovens mulheres na praia. Tudo, menos pobreza e desemprego.

Os EUA escaparam da miséria pelo New Deal de Roosevelt, mas a tendência ao escapismo se revigorou após a Segunda Guerra Mundial e recentemente após o 11 de Setembro.

Freud considerou uma dose de fantasia escapista como um elemento necessário na vida dos humanos: “Eles não podem prescindir da satisfação de extorquir da realidade”. Infelizmente isto é obtido muitas vezes pelo uso de drogas, perversões sexuais e ideação suicida.

Constatamos tristemente que isto vem ocorrendo entre nós. Fugir à realidade e à rotina, é um pensamento que grassa entre os mais jovens que encontram motivos para escapar das decepções e emoções desagradáveis.

A violência reinante, social e politicamente, provoca a deserção para se salvar do caldeirão aonde ferve a corrupção parlamentar e judicial, e dos governos populistas demagógicos que se alternam pela satânica polarização eleitoral.

Não quero que se estabeleça a sociedade dos “Elói” formada por indivíduos indiferentes ao seu entorno, como nos mostrou o filme “A Máquina do Tempo”, baseada no livro de H.G. Wells do mesmo nome; condeno por isto o escapismo dos que não lutam contra o sistema estabelecido.

Não combater a corrupção, o desleixo na administração pública e a injustiça na conjuntura que atravessamos, como fazem os escapistas por conveniência pessoal, covardia ou fanatismo partidário, torna-os cúmplices da maligna realidade criada pelos ocupantes dos três poderes republicanos que se misturam diabolicamente.

Muitos desses evadidos da honestidade e do patriotismo estão anestesiados pela imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta, divulgadora do escapismo. A chamada “grande mídia” nos dá o exemplo mais do que perfeito disto com a descarga de reportagens nos jornais e revistas e a copiosa cobertura televisiva do show de Madonna…. Influenciam pessoas com apenas um ovo da geladeira a se deslocar para Copacabana e vê-la na janela do Hotel.

Graças à lavagem cerebral do escapismo brasileiros comem nas mãos dos polarizadores populistas mesmo enfrentando a carestia de vida, os altos preços dos remédios, sem ter Educação, sem uma Justiça confiável e sem Segurança.

Atentem: Não é por acaso o combate contra as redes sociais independentes, que mostram a realidade, que criticam, denunciam e reivindicam.