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TERRORISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não há nada mais servil, desprezível, covarde e tacanho que um terrorista ” 
(Visconde de Chateaubriand)

Sempre gosto de dizer que as palavras nascem, evoluem, vivem intensamente, adoecem, às vezes se curam e voltam à vida, ou são enterradas mortas…. Vou quase sempre em busca das palavras que gosto na UTI da Gramática.

Ao pensar no substantivo masculino “Terrorismo”, descobre-se que é um galicismo nascido na Revolução Francesa, “Terrorisme” (do latim terror, terroris, “terror, espanto”), empregado em acusação ao líder dos jacobinos, Maximilien de Robespierre, que defendeu a revolução continuada e permanente, implantando o Reino do Terror (1793-1794).

Como verbete dicionarizado, significa uso de violência, física ou psicológica, como meio de repressão; foi empregada pela primeira vez em 1794 como indicativo da doutrina dos partidários do Terror, isto é, dos seguidores de Robespierre.

A palavra foi recolhida mais tarde e usada pelos anarquistas na estratégia conhecida como “Ação Direta” que pregava o atentado a prédios públicos e assassinatos de personalidades do poder.

Condenada pela opinião pública a atividade anarquista da “propaganda pelo fato” foi abandonada, ressurgindo como “Sabotagem” no anarco-sindicalismo usada em operações grevistas levadas ao extremo, com os radicais jogando tamancos (sabot) nas máquinas industriais para quebra-las.

A palavra Sabotagem que está na UTI da Gramática, teve os seus momentos de glória na 2ª Guerra Mundial, praticada pelas organizações da resistência dos povos em países ocupados pelos nazistas. Foram notáveis os atos de destruição de trilhos ferroviários na França e na Iugoslávia, e a destruição de comboios logísticos alemães pelos russos na retaguarda do invasor hitlerista.

O Terrorismo, ressurgiu também na 2ª Grande Guerra com a visão sociológica nascida do estudo das ditaduras nazifascistas, vendo-as como “um sistema governamental que se impõe por meio do terror, sem respeito aos direitos e às regalias dos cidadãos”.

… E nos meados do século passado, o Terrorismo recrudesceu violento, radical e sistemático, adotado por organizações extremistas, como os separatistas bascos na Espanha, curdos na Turquia e no Iraque, mulçumanos na Caxemira e organizações racistas nos EUA.

Criou até escolas no Oriente Médio e na África; e, posteriormente, se espalhou pelo mundo afora, atingindo o pico com Osama Bin Laden e o atentado de 11 de setembro em Nova York. Assim, tornou-se o inimigo nº 1 da humanidade.

Não é de hoje que cito nos meus escritos o cronista e romancista ítalo-argentino, Pittigrilli, que muito contribuiu para a leitura apaixonada da minha juventude, e numa das suas crônicas encontrei a mais emocionante condenação do terrorismo que conheço.

Narra Pittigrilli: – “Numa família proletária, uma mãe chamou um médico para atender o filho muito doente e o doutor diagnosticou: difteria; e se apressa a fazer uma laringotomia para salvar a criança. Quando inicia o procedimento, ocorre uma perda de energia e as luzes se apagam. Passa o tempo e o menino morre. Nisto, entra afobado o pai, militante extremista, e diz à esposa que atirou uma bomba na usina elétrica e deixou a cidade às escuras. – “Sei”, replica a mulher, “mas ao fazer o que os teus chefes mandaram, assassinaste o teu filho”.

A inconsciência na prática de um mal em nome de um partido, de uma ideologia ou em obediência aos líderes, fica retratada nesta historieta. Espero que as pessoas que tomam conhecimento dela, pensem bastante sobre isto.

O crime não é uma enfermidade como ensinava Cesare Lombroso, veementemente criticado pelo respeitado professor Hélio Gomes numa aula de Medicina Legal que assisti.

Mas os terraplanistas, aliados a conhecidos corruptos, pregam uma volta ao passado tenebroso da ignorância e do fanatismo, ressuscitando Lombroso ao defender a imunidade de “doentios” criminosos com a panaceia do “foro privilegiado”.

Diante disto, defendo que lutemos para evitar que o Brasil se transforme num hospital manicomial onde circulem impunes autores de atentados terroristas, sejam materiais ou psicológicos…

 

 

SERMÕES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”  (Sermão da Montanha)

Um dos meus seguidores (que não autorizou a divulgação do nome) estranhou a citação que fiz noutro artigo do “Sermão do Diabo”, uma paródia satânica do belo “Sermão da Montanha” de Jesus Cristo, citado por Mateus. É um divertido gracejo literário do grande Machado de Assis.

Li-o, faz muito tempo, no livro “Páginas Recolhidas”, editado nas obras completas de Machado pela antiga e respeitável Editora Globo S/A. Na época, apenas achei graça; relendo mais tarde, achei uma crítica inteligente ao que o escritor chama “o sal do Money Market”.

Nesses tempos trágicos de uma pandemia letal, a prédica diabólica parece dirigida aos negacionistas, obtusos inimigos dos avanços científicos. Está claro que eles ignoram a História da Medicina, em particular o capítulo da antissepsia – que estabelece a resistência à propagação de bactérias e vírus na pele e nas mucosas.

A antissepsia vem dos começos do século 19, quando ainda se desconhecia a existência dos micro-organismos e pouco se entendia sobre os germes. Deve-se ao médico e cientista austro-húngaro Ignaz Semmelweis, a necessidade de medidas antissépticas para evitar infecções, como o ato de lavar as mãos.

Sobre Semmelweis, corre uma pitoresca história. Quando ele trabalhava no Hospital Geral de Viena e dava aulas na Escola de Medicina, recomendava a assepsia rigorosa; mas os estudantes incultos desdenhavam dele, sujando propositalmente as mãos antes de tocar nos pacientes…

Esta cretinice subsiste em pleno século 21 quando os sobreviventes brucutus da Idade da Pedra se negam a cumprir medidas preventivas contra o novo coronavírus depreciando a higiene, dizendo que usar máscara “não é coisa de macho” e até desconsiderando a aplicação de vacinas…

Estes negacionistas se esfregam com as “testemunhas de Jeová” como asnos na areia, porque esta seita fundamentalista proíbe a transfusão de sangue, impedindo o procedimento até no tratamento essencial da leucemia, que, sem ele, leva à morte. O menosprezo pela Ciência é próprio de considerações religiosas e/ou pseudo filosóficas.

Dos fundamentalistas religiosos pouco se tem a dizer, é explícito no fanatismo; e, quanto à Filosofia, lembro uma anedota contada pelo escritor Pittigrilli; “Passeando pelo Mercado de Atenas um Filósofo distraído chamou a atenção de uma florista que gritou: – “É um filósofo! ”, e logo em seguida ouviu-se vaias, e uma verdureira lhe atirou legumes vencidos.

– “Porquê, perguntou o Filósofo. – “Porque és um filósofo disseram em coro. – “Mas o que é um filósofo”? Perguntou o Filósofo. Ninguém soube dizer, ninguém sabia…

Trocando o Filósofo por um Cientista, e desenvolvendo esta historieta, cairemos na cretinice dos negacionistas que botam no lugar dos cientistas uma meia dúzia auto-assumidos filósofos que por cobiçoso ciúme não reconhecem o valor da Ciência.

Assistindo o médico televisivo Dráuzio Varela, o ex-astrólogo e auto-assumido Olavão soprou no ouvido do presidente Jair Bolsonaro (meio surdo pelo cerúmen da insciência), uma interpretação desprovida de dados que a pesquisa científica ainda não alcançara sobre o novo coronavírus e a covid-19.

Foi assim que o Presidente, convencido, disse que a pandemia não passava de uma “gripezinha”; e, pior do que isto, se obcecou pela cloroquina, remédio que ouviu dizer que era eficaz para os soldados na Amazônia….  De lá para cá não consegue se libertar desses equívocos.

Como os sermões têm o poder de emocionar e conscientizar as pessoas de boa vontade, seria interessante que os pastores evangélicos e padres católicos politiqueiros, que estão achegados ao poder, aconselhassem o presidente Bolsonaro a ler o Sermão da 4ª-feira de Cinzas: “Pulvis es, tu in pulverem reverteris”, que traduzo como a minha mãe ensinou: – “Tu és pó, e ao pó voltarás”.

Quanto aos patriotas resistentes ao besteirol negacionista, que pratiquem o que ensinou Benjamin Franklin: – “Um bom exemplo é o melhor sermão”.

DESILUSÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Uma cruel desilusão / Foi tudo o que ficou / Ficou pra machucar meu coração” (Ari Barroso)

Entristece-me ao ver que entre os defensores oficiais da Amazônia, há alguns que nunca estiveram na região e sequer viram a floresta, mesmo nos documentários da ‎National Geographic… é por isto que pedimos mais cuidados na escolha destes agentes governamentais.

Conhecer a realidade é exigido até para a descrição literária. Diz-se, por exemplo, que o dramaturgo espanhol Calderón de La Barca viajou mais de um ano com um circo ambulante para escrever sobre a vida dos acrobatas; e que o admirável Èmilie Zola andou de carroça pelos campos franceses colhendo informações para o seu livro “La Terre”.

Os historiadores, que não podem voltar à pré-história – como a gente assiste nos filmes “De Volta ao Futuro” –, se valem dos arqueologistas e panteologistas para desenvolver teses sobre a Pangeia e a formação dos continentes…

Explico, porém, que minha censura à Comissão chefiada pelo vice-presidente Hamilton Mourão não individualiza ninguém, nem a formação profissional e intelectual de nenhum, civis ou militares; baseia-se nas críticas divulgadas na imprensa internacional e nas ameaças de retaliação de vários países contra o Brasil.

O problema da Amazônia vem de longe e não apenas às atuais queimadas e ao desmatamento. Ocorre com a invasão de “missionários” para catequizar os indígenas, com a infestação de Ongs estrangeiras prospectando o subsolo, vê-se nos invasores de terras da União e nos posseiros apaniguados por políticos, nas marcações de terras indígenas e no garimpo ilegal.

A defesa da Amazônia abrange tudo isto. Mas os ambientalistas especificam a situação, estranhando as medidas de prevenção de sempre, condenando a demora burocrática para solução de casos imanentes e sabendo que não é somente um “passar de boiada”, como propôs o ministro Ricardo Salles; vem de gestores antigos, José Sarney, Fernando Henrique, Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Categóricas, no momento, são as tentativas de fraudar os dados do Inpe ou mesmo escamoteá-los para evitar que a realidade seja exposta. A intervenção do Governo Federal no Inpe é deplorável, mostrando o desprezo pela preservação da Amazônia. Firma-se na política arrivista da demagogia, auto-assumida “de direita”.

O coordenador de Comunicação do Observatório do Clima, doutor Claudio Angelo, resume numa frase o frenesi bolsonarista pela “conquista da Amazônia” por garimpeiros, madeireiros e pecuaristas: – “O Inpe é o novo Ibama”.

Este estudioso do Clima referiu-se no site “Direto da Ciência” ao arruinamento pela atual gestão do Ibama, escrevendo: – “Demorou mais de um ano e meio, mas finalmente o governo Bolsonaro parece ter aprendido o que fazer para não ter mais dor de cabeça com os dados de desmatamento. Vai destroçar o Instituto”.

É isto que vemos o Presidente fazer, valendo-se de um Ministro velhaco que propôs em reunião ministerial aproveitar-se da pandemia para escancarar o território.  Bolsonaro terceiriza a responsabilidade levando-nos ao “Sermão do Diabo”, que o grande Machado de Assis deixou na sua rica antologia “Páginas Recolhidas”: “Quando quiseres tapar um buraco, entendei-vos com algum sujeito hábil, que faça treze de cinco e cinco”.

Este ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tangedor da boiada, juntou-se ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão, num infeliz vídeo propagandístico negando que a Amazônia esteja queimando, como se todo mundo esteja cego e surdo, e que o fumacê não estivesse alcançando as regiões Sul, Sudeste…

Assim, no chove não molha da militarização do problema, tudo continua como d’antes no quartel do Abrantes. A novidade é o Presidente propondo a compra de um satélite “sem ideologia” para monitorar a região, um robô voyeur ineficaz para coibir os crimes ambientais.

Esta situação enviesada, como uma biruta de aeroporto, não desilude os cultuadores da personalidade de Bolsonaro, na maioria agradecidos pelas “ações sindicais” de melhoria salarial dos fardados; mas machuca o coração dos que votaram nele contra a corrupção lulopetista pensando num futuro melhor para as próximas gerações; e vivem uma cruel desilusão.

 

 

MENTIRA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O primeiro pecado da humanidade foi a fé; e a primeira virtude foi a dúvida” (Carl Sagan)

Joseph Ernest Renan, escritor, filósofo, teólogo, filólogo e historiador francês, escreveu “A vida de Jesus”, livro dedicado à historicidade do Cristo, em que se considera ter trazido a criação de uma “ciência irreligiosa”. O grande Machado de Assis chama esta interpretação de “verificação racional do cristianismo”.

Renan visitou a Holanda nos meados do século 19 e em Haia, diante do monumento erguido em homenagem a Baruch Spinoza, escreveu: “Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas — pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino”.

Baruch Spinoza teve a audácia de no século 17 quebrar os grilhões dogmáticos que obrigavam (e ainda obrigam) os cristãos a obedecer aos cânones adotados em concílios e/ou escritos por ‘doutores da Igreja’, sem qualquer intervenção divina.

Aceitando isto, me permito a questionar os chamados “pecados capitais”, que são sete, onde a Mentira não é encontrada… O papa Gregório Magno oficializou-os no século 6, com o cuidado de partir do mais brando para o mais ofensivo; são Luxúria, Gula, Avareza, Preguiça, Raiva, Inveja e Soberba.

Esta lista rendeu outras tantas, mas nenhum incluiu a mentira. Talvez como autodefesa dos seus autores… Mahatma Gandhi fez a sua, a dos Sete Pecados Sociais: política sem princípios; riqueza sem trabalho; comércio sem moralidade; ciência sem humanidade, colaboração sem sacrifício; prazer sem consciência e conhecimento sem caráter.

Os teólogos antolhados, tanto católicos como evangélicos, seguem aberta ou disfarçadamente a tese crítica de Tomás de Aquino, considerando a Luxúria como a subordinação fanática pelo dinheiro, pela distinção e pelo poder. E para justificar a não condenação da Mentira, dizem que por Inveja, alguém pode mentir….

Nos Provérbios (6.16-19), lê-se: “Seis coisas aborrecem Deus, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos”.

Será que tal consideração abrirá os olhos dos tolos algemados das convicções impostas politicamente e fervor aos seus líderes colocando-se a serviço deles? (E no caso brasileiro, tristemente, isto se estende até aos familiares do Chefe).

Como a pergunta traz em si a resposta, entenda-se que há quem prefira ter fé em vez de ter dúvida… para estes, lembro Oscar Wilde que pôs na boca do personagem de uma das suas peças que “não há outro pecado além da estupidez”.

Se mentir não é pecado, é mais do que censurável, é um crime por contagiar muitos como um vírus, e não há vacinas imunizadoras para quem não ousa pensar por si, pois as ideias próprias são os únicos anticorpos contra os mentirosos.

E uma coisa é certa: aonde haja um mentiroso os que estão à sua volta mentem pelo contágio, porque o bacilo da mentira é epidêmico…

Isto fica comprovado quando o ministro Paulo Guedes afirma que no ano que entra o Brasil se nivelará com as nações mais desenvolvidas e que a indústria brasileira pode esperar câmbio alto, juro baixo e impostos menores para 2021…

Dá para conferir, também, depois de pausada a pesquisa da vacina da Oxford, o que disse o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, que ’em janeiro, a gente começa a vacinar todo mundo’…

A propagação das mentiras do governo federal tem a sua Wuhan no Palácio do Planalto; ali se encontra o pecado da mentira, que é a essência da familiocracia populista ali instalada.

Os brasileiros conscientes não podem ficar desatentos e impassíveis diante disto; acordem com Dante, que alertou: “no inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise. ”

 

O DEVER

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Minha espada não tem partidos”  (Luiz Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias)

Li certa vez numa publicação da Companhia de Jesus a narrativa (não sei se uma alegoria ou representação histórica) sobre Santo Inácio de Loiola, contando que ele acabara de escrever uma carta com instruções para seus seguidores e sofreu uma crise cardíaca. O padre-secretário apressou-se a lhe atender, mas ele, agonizante disse: – “Cuide primeiro da carta que é de interesse da Companhia…”.

Isto é, sem dúvida, uma bela ilustração do senso de dever. Coisa de Santo. O nosso epigrafado, o patrono do Exército, Duque de Caxias, manteve, como soldado, uma conduta que é um grande exemplo de ética, e, principalmente, de respeito ao dever consciente.

Infelizmente, este herói da Pátria não está sendo seguido como o fizeram combatentes da Guerra do Paraguai, quando ele exortou: “Sigam-me os que forem brasileiros”.

Temos assistido muitos homens públicos, civis e militares, alheios ao cumprimento de obrigações com a cidadania e alguns até mesmo de agradecimento aos que lhes ajudaram a se eleger.

Agora mesmo, mostrando desprezo pela Lei e pelo Dever, assistimos o presidente Jair Bolsonaro cometer uma deplorável falta de respeito às leis vigentes e à educação dos futuros cidadãos sem atender ao mínimo de atenção de que deveria servir de modelo para os seus compatriotas.

Visitando a cidade de Eldorado, no interior paulista, o Transgressor descumpriu o decreto estadual que obriga o uso de máscaras de proteção contra o novo coronavírus em locais públicos; e não satisfeito em infringir a lei não usando o acessório medicinal, mandou que uma criança que se aproximou dele tirasse a máscara para cumprimentá-lo.

Que triste figurino presidencial nós temos! Como não bastasse falar sem pensar, agir sem estudar e governar para toda Nação e não apenas para uma fração, ele está moldando um comportamento abominável para os seus fanáticos seguidores.

Outro dia (5/set), um descerebrado cultuador da personalidade do Presidente, escreveu no Twitter que tem “vontade de socar a cara de quem está usando máscara nas ruas”, num impulso insano que está a exigir uma assistência psiquiátrica.

Admito, sinceramente, que muitas pessoas não se sentem à vontade usando o equipamento defensivo contra a covid-19; acho que até podem se arriscar não cumprindo as orientações médicas de cautela. Mas, mesmo sem ser milico, acompanho o Duque de Caxias, exigindo obediência às regras sócio-políticas estabelecidas.

Dos fardados, ordena-se disciplina. Se não formam com o regulamento; se não cumprem o dever, estão certamente de passo errado na marcha pela Ordem e o Progresso, para um Brasil culto, desenvolvido e justo.

Já cobrei em artigos anteriores uma assessoria inteligente e ponderada ao senhor Presidente da República. Alguém com autoridade moral para dizer-lhe que ele não é mais um deputado do “baixo clero”, nem o sindicalista defensor de aumentos salariais e vantagens para as corporações militares, mas o Chefe da Nação.

Para assumir uma postura de estadista, como tiveram (pode-se discordar politicamente, mas reconhecer o comportamento) Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck e Ernesto Geisel, deve ser o espelho de altivez impondo respeito à cidadania.

Caso queira continuar um capitão lendário eleito pelos seus seguidores – como capitães lendários foram do outro lado da moeda seus inimigos Lamarca e Prestes pelos deles –, o presidente Jair Bolsonaro deve se habituar a assumir a postura condizente com o cargo que ocupa; mas se quiser, pode manter o comportamento desaforado dos antigos cabos de polícia das cidadezinhas sertanejas…

 

 

 

VIVER

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A vida é muito bela para ser insignificante ” (Chaplin)

Humphrey Bogart, um dos mais intelectualizados atores do cinema-norte-americano, casado com a não menos preparada atriz Lauren Bacall, e foi protagonista do clássico “Casablanca” contracenando com Ingrid Bergman, deixou-nos um perfeito axioma sobre a vida, dizendo: – “Envelhecer não é uma coisa tão terrível, quando se pensa na alternativa…”.

Despertei para isto ao receber a mesma lição de um motorista de táxi, aonde entrei desajeitado carregando sacolas de supermercado e me desculpando, e exclamei: – “Envelhecer é uma merda! ”… E o chofer, que também já deixara a juventude para trás, consolou-me com a singeleza do homem comum: – “O pior é não envelhecer…”.

O amor pela vida para o gênero humano é muito mais do que o instinto animal da sobrevivência; é a consciência de um milagre, seja na felicidade ou mesmo na desdita; o fenômeno natural de nascer, aprender a viver e conviver com os semelhantes, discernindo o que é bom ou ruim para comportar-se socialmente, é uma dádiva.

Não sei por que é difícil para muitas pessoas entenderem que possuem um pensamento lógico que lhes atribui a faculdade de avaliar o seu próprio comportamento para manter uma conduta coerente com os outros.

É preciso compreender e se convencer de que a nossa passagem pela vida é curta demais diante da eternidade, por isto é preciso valorizá-la, como ensinou o nosso epigrafado, Chaplin: “A vida é um teatro sem ensaios. Cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche, sem aplausos”.

… E o admirável Bernard Shaw, Prêmio Nobel de Literatura, excelente em todas atividades que teve como dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista, pôs na boca da estátua do deus egípcio Ra, na peça “César e Cleópatra”, o discurso: – “Não me eternizei como pedra para fazer-vos recuar comigo dois mil anos; o caminho dos deuses é o caminho da vida e só. Não preciso reverências”.

Como diz a palavra divina, o caminho da vida deve ser seguido conscientemente, observando que o importante é viver o presente, o dia de hoje, como lembrou num dos seus livros Chico Xavier: – “O ontem já se foi e o amanhã talvez não venha. ”

É glorioso o pretérito perfeito do verbo viver, é uma festa para a matéria e o espírito que deve nos alegrar por toda existência, se soubermos evitar a tragédia de que a perspectiva de vida morra dentro de nós.

Assim, é que vejo a realidade no isolamento social em solidariedade aos que venham precisar de serviços de Saúde e em defesa da vida. Torço pela corrida do bem pela vacina contra o novo coronavírus, desprezando o negativismo desumano e cego diante das mais de 120 mil mortes por covid-19 no Brasil.

Neste país abençoado por Deus, mais do que os políticos egocêntricos, carreiristas e em grande parte corruptos, temos pastores evangélicos politiqueiros e medíocres padres católicos ávidos de propaganda pessoal, assumindo o lugar dos vendilhões do Templo que Jesus Cristo expulsou.

Enfrentando esta súcia, venho me acomodando à realidade virulenta, e disposto a me adaptar a ela obedecendo às instruções médico-científicas, desprezando o “achismo” da politicagem populista que antecipa insensatamente a campanha presidencial de 2022.

Assim, desqualifico os picaretas redivivos do “baixo clero” e do “centrão”, em plena consciência de que com eles ou sem eles, viver é um privilégio dos seres humanos. Por isto, digo “Não” à canalhice herdada “dos aventureiros, degredados, patifes e oportunistas que queriam fazer fortuna e voltarem “fidalgos para Portugal”, como lecionou outro dia o nosso @RadioRockPuro.

Dessa maneira, escapo do castigo que os corruptos e seus cúmplices sofrerão com a praga de Albert Schweitzer:  “A tragédia do homem é o que morre dentro dele enquanto ele ainda está vivo. ”

 

 

VENDILHÕES

MIRANDA SÁ (mirandasa@uol.com.br)

“O meu templo será casa de oração. Mas vocês transformaram-no em caverna de ladrões. ”  (Lucas 19:45-46)

Está no Novo Testamento, Jo 2,13-25: “Jesus Cristo foi a Jerusalém na véspera da Páscoa, e indo ao Templo revoltou-se com a feira ali instalada, fez um chicote de cordas e empunhando-o expulsou os vendilhões, derrubando as mesas dos cambistas e espalhando as moedas pelo chão. Irado, esbravejou: “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio! ”

Ah, se ele voltasse e viesse ao Brasil! Certamente convulsionaria os crentes castigando padres católicos, pastores evangélicos e médiuns espíritas que exploram suas religiões ditas cristãs transformando as suas igrejas numa retalheira varejista.

Dois meses atrás, ficamos pasmos tomando conhecimento de que o bispo evangélico Edir Macedo, pontífice da Igreja Universal do Reino de Deus, estava processando um ex-sócio, dissidente que criou nova denominação, pelo uso da “marca Jesus Cristo”, uma patente que lhe pertence…

Simultaneamente assistimos atônitos e confusos nos casos de estupro e malversação de recursos tendo como protagonista o médium João de Deus, cujo Centro tinha uma afluência imensa, com visitantes até do Exterior.

É recente o caso do padre Robson de Oliveira Pereira, famoso em Goiás, investigado e denunciado por diversos crimes, apropriação indébita de campanha de caridade, lavagem de dinheiro e transações imobiliárias suspeitas. Segundo reportagem publicada pela revista Época, este sacerdote chefiaria uma organização criminosa.

Chocantes também as investigações policiais que denunciaram como assassina do próprio marido, a pastora, cantora gospel e deputada federal Flordelis, chegada aos Bolsonaro e “irmã em Cristo” da ministra Damares Alves…

Agora, quase virando rotina, o pastor político Everaldo, presidente nacional do PSC, foi preso, acusado de desvio de recursos públicos da Saúde no Estado do Rio de Janeiro, corrupção e lavagem de dinheiro. Curiosamente, foi essa figura que batizou Jair Bolsonaro em 2016 nas águas do rio Jordão, em Israel.

Todos esses casos de página policial dos jornais envolvem pessoas hipocritamente religiosas ligadas à política, todas no cardápio da salada mista da corrupção, servida com azeite amargo da picaretagem parlamentar nas câmaras de vereadores, assembleias legislativas e influente no Governo Bolsonaro.

Relembrando que Jesus Cristo derrubou as mesas dos cambistas, espalhando as moedas pelo chão, um dos excelentes frasistas que a gente encontra no dr. Google, Fernando Reis Luís, mostra com realismo o que se vê: – “O dinheiro é uma hóstia metálica/ Que se usa para pagar/ Aos vendilhões do templo. ”

Quando senadora, a alagoana Heloísa Helena discursando contra um determinado projeto disse mais ou menos isto: “no Congresso está montado um balcão de negócios sujos onde se distribuem cargos, prestígio e poder, de forma safada – sofisticada, é verdade -, mas desprezível e desrespeitosa”…

Bate com que o evangelho de Lucas (19:45-460) traz: “A Sagrada Escritura diz: o meu templo será casa de oração. Mas vocês transformaram-no em caverna de ladrões”; aprendendo esta lição, não será blasfêmia dizer que o Congresso, o STF e a presidência da República deveriam ser os templos da Democracia. Infelizmente, porém, seria uma metáfora disparatada no Brasil, conhecendo as personalidades que assumem esses poderes republicanos.

Vendo as sedes do poder como cavernas de ladrões, assegura-se o pensamento subtraído dos cânones cristãos, aos quais adiciono Buda que ensinou: -“onde quer que se viva, esse é o seu templo, se o tratar como tal”.

… E como os políticos tratam mal os seus “templos”! Seus caracteres duvidosos criam muralhas em volta da gente, nos cercam por todos os lados com os seus privilégios, tratando-nos como cidadãs e cidadãos de segunda classe…

Vamos lavar esses valhacoutos, não na contrição com que os baianos lavam a Igreja do Senhor do Bonfim, mas com ódio aos que erguem o ídolo maléfico da impunidade!

 

 

João Cabral de Melo Neto

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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FUSOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso” (Provérbio popular)

Os costumes tradicionais – parece redundância, mas não é –, levam muitas vezes a absurdos. Um amigo meu, cônsul português no Rio de Janeiro, contou-me que num vilarejo do Norte de Portugal uma viúva, atendendo ao pedido do falecido marido, não usou luto; e por isso sofreu agressões das mulheres locais nas ruas e teve a porta de sua casa coberta de piche.

É o que sugere o ditado popular, epigrafado, conhecido em várias nações sobre os costumes sociais e tradições respeitadas pelos seus povos. Isto se manifesta no comportamento pessoal e também nas relações regionais, nacionais e internacionais, cada local usando o lado negativo deles.

Uma vez a minha mulher teve o celular roubado em Buenos Aires, na Caje Florida, e ao darmos queixa na polícia, o plantão da delegacia lamentou e se desculpou dizendo que a cidade estava cheia de “bolivianos”; também em Santiago do Chile recebemos o conselho de tomarmos cuidado com os pertences porque haviam muitos argentinos batedores de carteira…

Na linguagem diplomática há um (ou seria “uma”?) “troca-troca” de referências sobre retiradas de reuniões sem justificativa: Os ingleses falam de “despedir-se à francesa”, e os franceses de “retirar-se à inglesa”.

“Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”. Como sugere o ditado popular, cada região, das metrópoles aos povoados interioranos, têm as suas tradições comuns adaptadas à própria realidade, da linguagem aos costumes, nos relacionamentos sociais, ritos de passagem, festas familiares e populares.

“Terra”, como solo, território, país e pátria, todos nós sabemos o que é, e os agitadores sociais, formadores de opinião e políticos, não se cansam de enaltece-los e defende-los da boca para fora, por pura demagogia.

Entretanto, “roca” e “fuso” neste século 21, são referências que devem parecer estranhas para as novas gerações; a Roca é a avoenga dos teares, que encontramos atualmente nos museus; é um equipamento mecânico composto de uma roda e uma vara que leva um bojo na extremidade para enrolar fios de algodão, lã ou linho, para tecer. Como substantivo feminino designa também penhasco, rochedo; e na linguagem náutica é uma peça de madeira que reforça o mastro de uma embarcação; ainda temos “roca” como presente do indicativo do verbo rocar, ato de fazer um roque no jogo de xadrez.

O Fuso, um substantivo masculino com vários significados é mais conhecido. Para quem estuda geografia ou viaja, lida com os fusos horários, cada uma das 25 áreas em que se divide a Terra, marcando no espaço de cada uma, a hora legal. São meios planos na Matemática, e, na Geometria o sólido formado pela revolução de uma curva. Além desses, dá-se o nome dos moluscos gastrópodes de concha longa e pontiaguda.

O nosso Brasil é dividido territorialmente por regiões bastante distintas, que cartografando encontraremos no mapa relações fusiformes políticas se encaixando como um parafuso no meio ambiente, estabelecendo distintos padrões de cultura da vida cotidiana, interação e relações sociais.

Assim, estamos assistindo no Nordeste um fenômeno político vendo a massa eleitoralista que era do corrupto Lula da Silva pendendo agora para Jair Bolsonaro; mostram assim os nordestinos que nenhum dos dois é dono dos votos, mas os seus cabos eleitorais “bolsa-família” e “auxílio emergencial”…. Naquela região as rendeiras do Sertão Paraibano e os fabricantes de redes do Seridó Norte-rio-grandense ainda usam rocas e fusos…

Quando falo do Nordeste, lembro-me do excelente livro do grande intelectual paraibano Allyrio Wanderley, “As bases do Separatismo”, um estudo sociológico que me fez conhecer o que chamávamos antigamente de Nordeste Meridional, a faixa geográfica que se estende do Rio Grande do Norte às Alagoas.

Allyrio revolve historicamente a Revolução Pernambucana de 1817, mostrando a importância regional nacionalista com uma proposta separatista que teve grande repercussão na Região Sul e a divulgação do livro impedida pela ditadura Vargas.

Mais tarde, a venda do livro foi proibida dizendo-se na época que a medida se deveu ao capítulo “Soldadinhos de Ouro”, analisando o custo do Exército em relação à Educação e Saúde públicas.

Este fuso geométrico na curva econométrica continua preocupando. Repercute na crise econômica acelerada pelo novo coronavírus, com os poderosos dos três poderes republicanos exigindo sacrifícios do povo, sem abrir mão dos seus privilégios, o que daria um exemplo de empenho altruísta.

Tecendo nesta roca, relembro que na última campanha presidencial, votei num candidato que criticava os cartões corporativos e o foro privilegiado; hoje gasta mais com os cartões do que os governos anteriores; e enaltece o fuso do “foro” em defesa dos seus…

 

 

 

 

Carlos Drummond de Andrade

Convite Triste

 

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.

(Em: Brejo das Almas)

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