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SOMBRAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” (Carl Jung))

Mesmo com a idade avançada, não me sai da memória o tempo em que escutava no rádio a novela do “Sombra” – um personagem de histórias policiais que me encantava.

A trilha sonora, com acordes compassados e segundos em silêncio, imprimia atenção e expectativa para o aparecimento do personagem e a sua voz cavernosa: -“ O Sombra sabe…”, precedida de um riso em crescendo, “ah-ah-ah-ah-ah! ”.

Para um menino, o programa construía a ideia do combate ao crime, que mais tarde veio desenhado em revista de quadrinhos. O benéfico perseguidor mascarado “The Shadow” foi criado pelo escritor norte-americano Walter Brown; era um disfarce do milionário Lamont Cranston, na história que mais tarde inspirou a criação do Batman.

Além do personagem, o verbete Sombra é um substantivo feminino oriundo do latim “sulumbra”, nascida da expressão “sub illa umbra”, a parte escura do céu…. É a penumbra provocada pelo bloqueio da luz; significa também silhueta e até a maquiagem que dá cor às pálpebras.

Ao deixar a infância interessei-me pela Mitologia Grega e Romana, encontrando nos poemas épicos de Homero, Ilíada e Odisseia personagens sedutores, e especialmente encantou-me a Ilíada, a guerra protagonizada por Ulisses, rei de Ítaca, inventor do célebre Cavalo de Tróia. E foi com ele esbarrei em sombras.

Visitando o inferno, Ulisses viu Aquiles, outro grande guerreiro, comandando uma legião de heróis falecidos em combate; felicitou-o pela glória que conquistara entre os vivos e o reconhecimento dos mortos. Aquiles, porém, falou humildemente: – “Não tente me consolar, nobre Ulisses; eu preferiria lavrar o campo como servo, privado de privilégios e bens, do que comandar um Exército de Sombras…

A lendária saga de Aquiles aponta que a sua morte se deveu a uma flecha envenenada que lhe atingiu no calcanhar, a parte do corpo sem proteção da armadura; daí nasceu a expressão “calcanhar de Aquiles”, referindo-se à parte fraca de uma pessoa.

No correr da vida cai no esquecimento as lições que a própria vida recebeu; e comandar um “Exército de Sombras” é motivo de alegria e acrobacias verbais para Bolsonaro, que insiste em referir-se “o ‘MEU’ exército” querendo que acreditem ser ele dono de um “Exército” que pode acompanha-lo numa aventura golpista.

Na verdade, o Capitão Minto comanda um exército de sombras, com oficiais reservistas de farda no armário: uns até bem-intencionados, outros apenas para dobrar os rendimentos, muitos saudosistas do regime militar, em sintonia com conspirações, e mais alguns revanchistas esquizofrênicos contra o Estado de Direito.

De pijama ou de paletó e gravata, este Exército das Sombras nada tem a ver com os militares da ativa, do Exército de Caxias, com desempenho nos quarteis aonde impera a hierarquia a o patriotismo; e são tradicionalmente legalistas.

Há um 2º Exército das Sombras. Formado de mercenários que atuam nas redes sociais em defesa do Governo Bolsonaro, com a ignorância intolerante dos obedientes sabujos atrás da caça; estes, apesar de organizados e ruidosos não são levados a sério on line por disseminar fake news.

Pela religião mal compreendida (como alertou Martin Luther King), formou-se um 3º Exército das Sombras, e já tem um graduado no STF…. São religiosos “ao extremo” misturados com neo-cristãos oportunistas mergulhando nas trevas bolsonaristas como falsos defensores da liberdade religiosa.

Um cristão autêntico, despojado de vaidades e vacinado contra a politicalha, o padre Júlio Lancellotti, diz com sapiência e fé que “a essencialidade da liberdade religiosa é o testemunho de Deus. Não é ir no templo testemunhar o cofre…”.

Nestes tempos estranhos que vivemos, ouvir a voz da razão propõe uma justa repartição de sombras e de luz, pela união de todos contra a pandemia, propomos seguir as palavras do Cristo:  -“Perdoai-os, Pai, pois eles não sabem o que fazem”.

 

SILÊNCIO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar! ” (José Américo de Almeida)

Homenageou-se no mês de março o aniversário do jornal norte-rio-grandense “Tribuna do Norte” e o seu fundador, Aluízio Alves, jornalista de vocação sempre atuante. Aluízio, como homem de bom senso, conhecia o leitor-padrão dos jornais e ensinava na redação que era melhor suprimir o trecho de uma matéria do que acrescentar firulas ao conteúdo.

O noticiário jornalístico se perde por excesso de floreado que tira a atenção do leitor, como uma reportagem que li vinda de Nova York muitos anos atrás. Trouxe a história de uma violinista (de nome italiano, mas esqueci) que deixou no testamento o pedido para que no seu enterro se ouvisse uma tocata de Paganini e que o seu Stradivarius fosse enterrado com ela…. Ora, ouvir Paganini é uma maravilha; mas enterrar uma fortuna por simples egoísmo é uma excentricidade muito cara.

Essa extravagância testamentária se repete com pessoas de várias profissões, não é como se pode pensar, a vaidade egocêntrica dos artistas; a encontramos, por exemplo, entre os políticos, em maioria carreiristas, gananciosos e personalistas, como vimos nos discursos em defesa das emendas parlamentares discutindo o Orçamento.

Ensinar a fazer silêncio em algumas oportunidades deveria fazer parte da educação doméstica infantil, como escovar os dentes, não falar com a boca cheia e não beber água antes da sopa…. Hemingway lembrou num dos seus livros que “são necessários dois anos para aprendermos a falar e sessenta para aprendermos a calar”.

Como tal ensino não é praticado, vimos há pouco o ministro Fábio Faria exagerar na falação, sugerindo que os jornais publicassem balanços sobre vítimas da pandemia, ignorando que já havia se formado um consórcio dos veículos de imprensa só com este objetivo…. E é o “homem de Bolsonaro” na Comunicação.

Tem um aconselhamento proverbial que diz: – “Falar é bom, calar é melhor, mas ambos são desagradáveis quando levados ao exagero”; esta lição serviria ao governador João Dória, que com incontinência propagandista correu para anunciar uma “vacina 100% brasileira” o que não é bem assim…

Os agentes públicos deveriam atentar que se o pronunciamento correr o risco de um equívoco, melhor será que se faça silêncio. Dicionarizada, a palavra “Silêncio” é um substantivo masculino significando total ausência de som, e também uma interjeição, quando vem precedida pelo sinal de exclamação. A origem é latina (silentium, -ii) e tem referência à situação de quem se abstém ou para de falar.

Um dos mais belos toques militares de corneta é clarinada do Silêncio, que é executado como honra fúnebre em enterros e avisa o recolhimento noturno. Kafka se refere à energia que reside no silêncio, e Shakespeare encerrou a sua genial peça Hamlet saindo da boca do príncipe moribundo: – “O resto é silêncio…” destas palavras se aproveitou o festejado escritor gaúcho Érico Veríssimo intitulando um dos seus livros, publicado em 1943, “O Resto É Silêncio.

Guardar o silêncio é prova de inteligência; mas ao alcançarem o poder, muitos s’ esquecem disto mantendo irrefreável loquacidade em assuntos que não lhe competem, ou simplesmente desconhecem, mas fingem conhecer…. E o pior é que não se conformam com as críticas da mídia sobre a tagarelice.

É assim que age o inconsequente presidente Bolsonaro na pandemia do novo coronavírus. Obcecado em desdenhar a peste como foi orientado pelo antigo líder, Donald Trump (que já se desculpou, mas não repercutiu aqui), e sem uma assessoria para orientá-lo, pois se cerca de iguais e inferiores à sua formação intelectual, continua dando maus exemplos à população pelo negacionismo explícito….

E, desgraçadamente, influencia o bando extremista falsamente assumido como “de direita” ou “conservador”, mas simplesmente de fanáticos pelo Chefe e achegados ao poder, muitos deles recebendo pixuleco nas redes sociais para defender o “tratamento precoce”.

Neste cenário vergonhoso e constrangedor, dá vontade de sugerir ao “Posto Ipiranga de Bolsonaro”, o ministro Paulo Guedes, ávido pela ressurreição da CPMF, que crie uma taxa para os boquirrotos, na mesma proporção como cobra pelos alimentos.

 

CAPITALISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Sem compreendermos o capitalismo não podemos compreender a sociedade humana da maneira que ela atualmente existe”. (George Bernard Shaw)

Outro dia escrevi um artigo falando do Tempo e recebi duas críticas sobre duas defesas que fiz no texto. Uma delas foi adotando a tese de Einstein de que é uma ilusão a diferença entre passado, presente e futuro…. A outra apontada foi a contradição entre malhar a imprensa e ao mesmo tempo livra-la de seus desvios atuais.

Ora, o Tempo, como eu disse, nos dá a oportunidade de pensar com base no presente, na experiência com o passado e o que poderá ocorrer no futuro. Quanto à imprensa, vejo o Tempo na sua versão musical, o andamento, o movimento e a pulsação: repito, é melhor que o país aceite a imprensa anômala do que ficar restrito à uma imprensa oficial de louvaminhas ao governo, como fazem as ditaduras.

Vivendo sob a trágica pandemia do novo coronavírus, o tempo tem sido impiedoso com o povo brasileiro, por termos no poder o presidente Jair Bolsonaro, um negacionista assumido. A conduta desequilibrada dele acarreta uma terrível insegurança no enfrentamento do vírus, acarretando a falta de insumos hospitalares, de medicação adequada e até de vacinas.

Isto nos leva de volta à selvageria, que nos faz pensar nos estudos da Zoologia, em que os cientistas registraram nos seus estudos sobre os gatos, que estes animais eram bravios como todos os felinos soltos na floresta, e que se levou mais de 3.000 anos para serem domesticados; daí, passaram a ser tão amados que antigos egípcios os adoravam como deuses….  O estudo citado, afirma que basta um gato ser deixado solto no mato que em 100 dias voltará ao estado selvagem.

Justamente por conta disso, temos um exemplo concreto, ao vivo, na Ilha Furtada, na Baía de Sepetiba, Itacuruçá, Rio de Janeiro, que é ocupada por gatos selvagens, e por isso passou a ser mais conhecida como a “Ilha dos Gatos”.

É possível que o mesmo ocorra com a sociedade humana. Não fosse a aculturação milenar da civilização, estaríamos ameaçados de uma volta à Idade Média, aquela dos barões feudais, da servidão e do obscurantismo religioso. Então, evidentemente, a covid-19 passaria a ser tratada como foi a “peste negra” na época.

E é mais ou menos isto o que o bando negacionista quer para o Brasil, pela insanidade da extrema direita e do conservadorismo retrógrado. É isto que representam os que ainda apoiam Bolsonaro, desculpando-o pelo abandono do combate à corrupção, calando-se na volta ao estatismo da economia nacional e aceitando servilmente a aliança com os picaretas do Congresso.

Como o tempo revela e castiga, esta “meia volta” de Bolsonaro após ser eleito, será julgada; porque está inegavelmente alimentando o “feudalismo amazônico”, com a perseguição aos índios, a derrubada das florestas para a passagem da boiada, e franquiando a estúpida mineração mercurial.

Além disto, os que o cercam no poder ignoram o sistema capitalista, que não passa sequer pelo “Posto Ipiranga” do Presidente, como se esperava… O que é o Capitalismo? Como verbete dicionarizado é um substantivo masculino, formado de capital + ismo, significando o sistema econômico que reconhece e respeita a propriedade e os bens privados e defende ampla liberdade de produção e comércio. A palavra vem do latim, “caput, capitis”, que significa “cabeça” e passou a indicar o que é fundamental na economia.

Dever-se-ia ensinar aos políticos que o capitalismo tem uma base moral e não é a lei da selva, como disse Margaret Thatcher; é o sistema capitalista que garante a Democracia, protege a liberdade cidadã, assegura a livre concorrência no mercado e dá oportunidade individual para a ascensão social e econômica pelo trabalho e pelo mérito.

Contra este modelo econômico, nascido da “revolução industrial”, o filósofo alemão Karl Marx escreveu “O Capital”, que lançou as bases do comunismo. Profeta frustrado, Marx previu o fim do capitalismo, e erraram também os seus seguidores que garantiram a crise geral do capitalismo no após a 2ª guerra. Por fim, quem sofreu a crise e caiu de podre foi o regime burocrático e ditatorial marxista instalado na URSS….

Por esta experiência histórica, é preciso chamar a atenção dos aventureiros. Os aprendizes de ditador que sonham com um sistema despótico e dogmático, fiquem certos que tal regime fracassará também, venha rotulado de direita ou de esquerda.

Os bem-informados aprenderam que o Tempo é um capital que faz a verdade prevalecer sobre a mentira, que faz o atraso ceder lugar ao progresso; e que as conspirações antidemocráticas serão derrotadas pela ordem e a paz social….

 

 

 

INFECÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O vírus da ignorância tem se espalhado por causa da baixa humanidade” (Swami Raddhi Jyotirmay)

A pior epidemia é a epidemia da política malconduzida; e, infelizmente, o organismo estatal traz na sua essência os vírus de uma “classe” política onde falta patriotismo e sobra carreirismo, egocentrismo e ganância, atributos que levam à corrupção.

É triste constatar que é o próprio Estado Democrático de Direito, pela garantia dos direitos humanos e a defesa da liberdade, produz um caldo de bactérias letais à sua própria existência. São diversos os exemplos históricos que comprovam isto.

Após a derrubada de monarquias na Rússia e na Alemanha, registrou-se a queda dos governos republicanos instalados; na Rússia, o democrata Kerenski caiu pela ação revolucionária dos bolchevistas, e a libertária República de Weimar alemã cedeu lugar ao golpe de estado de Hitler e os nazistas.

Por covardia em diagnosticar a conjuntura política, os “observadores neutros” nunca veem que os agentes públicos produzem esse coquetel antidemocrático de bacilos para infectar as instituições, blindados por privilégios e direito à impunidade.

Só depois de acontecer a instalação dos bacilos destrutivos é que a Nação desperta, como se viu na invasão da Petrobras pelos lulopetistas promovendo um festival de propinas. Sob o silêncio dos petroleiros, a infecção delinquente na Petrobras cresceu e se espalhou epidemicamente, sem controle, por todos os seguimentos da administração pública.

Os coniventes com os governos petistas, usam o contra-argumento de que a corrupção sempre existiu; o que é, sem dúvida, uma verdade; todavia é incontestável que pela cumplicidade do poder, se institucionalizou. E pela transparência da roubalheira conscientizou o povo, incentivou manifestações anticorrupção e levou Lula da Silva à prisão.

É inesquecível como espontaneamente milhões de brasileiros foram as ruas apoiando a Lava Jato e o juiz Sérgio Moro pelo combate à corrupção. A faxina continuada das operações investigativas da Promotoria e da Polícia Federal criaram, porém, a ilusão de que serviria de vacina pró reativa contra os corruptos; mas eis que a infecção corruptiva reapareceu nas corrupçãozinhas periféricas.

A Infecção, como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino de etimologia latina, (infectio,onis), ação de tingir; originado do verbo (facere), “fazer”. Em Portugal, aboliu-se o “C” antes do “Cedilha”, “Infeção”.

Surgiu tristemente, uma dupla infecção na pandemia que enfrentamos; além do novo coronavírus, alastrou-se microbianamente o negacionismo importado dos Estados Unidos, subestimando o novo coronavírus como se referiu Donald Trump: – “apenas uma pessoa que veio da China, e está sob controle. Vai ficar tudo bem”…

A atitude de Trump foi prontamente imitada pelo seu apaixonado admirador, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que falando sobre a covid-19, disse:  – “Não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”….

Não satisfeito em exprimir com discursos sua ignorância anticientífica, Bolsonaro fez outra maldade, estimulando os seus fanáticos apoiadores transformarem-se em espiroquetas gram-negativas da cretinice, depreciando as medidas preventivas contra a covid-19, criticando o uso de máscaras, combatendo o isolamento social e subestimando a busca da vacina.

… E o pior é que esta descompostura obscurantista que ataca a Ciência, vem junto com a defesa de um totalitarismo socializante, com ataques às instituições republicanas e pelo fim da Democracia. O exemplo mais-do-que-perfeito disto é o que fez o deputado Daniel Silveira, preso pelo STF e punido na Câmara Federal que, mesmo sub judice, agrediu um agente policial que lhe solicitou o uso da máscara.

Esta personalidade psicopática é hospedeira de agentes biológicos patogénicos que infeccionam o tecido social. Diagnosticado com sapiência, foi recolhido à UTI da Constituição, para evitar uma piora, uma recaída, a propagação do mal.

 

 

O TEMPO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.”    (Machado de Assis)

Viciados no ópio cultural que é a leitura, assistimos em duas décadas a imprensa escrita decair por força do surgimento da Internet. São raras as pessoas hoje em dia que ainda compram os jornais diários e as revistas semanais e estas são de pequenas e médias cidades interessadas na política local…

Assim como o rádio subsiste com a televisão, resistindo às projeções de “especialistas” que deveria desaparecer, os jornais poderiam sobreviver com a web, enquanto plataforma de comunicação e informação.

Isto parece que não está ocorrendo, e o que reforça o fim das publicações impressas é a degenerescência da sua linguagem e do seu conteúdo. Joseph Pulitzer, editor que revolucionou os jornais com novas técnicas e criou o Prêmio Pulitzer para valorizar a profissão de jornalista, disse: – “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica formará um público tão vil como ela mesma”.

Com sua sublime filosofia humorística, o nosso Millôr Fernandes disse mais ou menos a mesma coisa: – “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data ”.  Ó tempos, ó costumes…

É isto. “O tempo rodou num instante / Nas voltas do meu coração…”. Como jornalista apaixonado e atuante a 70 anos, quando me iniciei como amador e depois com o registro profissional, lamento muito esse deperecimento, talvez um pouco tarde lembrando que vi em cidadezinha do interior de Portugal uma antiga torre onde está escrito abaixo do relógio, uma advertência: “É mais tarde do que pensas”….

É inegável que o Tempo define a ideia de presente, passado e futuro relacionados a episódios circunstanciais que ocorrem, que ocorreram ou estão por ocorrer…. E que durante toda uma vida os eventos se sucedem alegrando-nos ou entristecendo-nos, mas sempre deixando experiências que nos enriquecem.

2.020 anos não é muito tempo, por exemplo, para lembrar uma passagem de Jesus Cristo na Terra. e o seu alerta: – “Guardai-vos dos falsos profetas que se apresentam disfarçados em cordeiros, mas por dentro são lobos vorazes…”; 2.020 anos foi pouco tempo para que os tolos aprendessem isto, pois, até os dias de hoje continuam a se iludir e venerar ilusionistas da religião e da política.

A palavra “Tempo”, dicionarizada, é um substantivo masculino originado do latim, “tempus”, significando estação do ano e momento”, que derivou do grego “témno”, “cortar em pedaços”, “dividir”. A semântica indo-europeia firmou no latim vulgar “temp-os, “esticado, estendido”, de uma raiz ten-, “esticar, alongar”.

Entretanto, a duração das coisas é condicional. Einstein, o genial criador da Teoria da Relatividade, observou que pelo tempo ser relativo e ligado à velocidade, a “diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão”.

Seguindo o pensamento einsteiniano, perguntamos: – “será que os fatos ocorridos e que estão ocorrendo têm uma sequência presencial inarredável? ”. Parece que sim, pois assistimos no Brasil que a recusa da vacina oferecida pela Pfizer em agosto do ano passado recusada pelo negacionista Bolsonaro continua provocando mortes.

É a necropolítica empreendida por um psicótico que se mostra desarvorado, mantendo dois subministros da Saúde nos piores momentos da pandemia do novo coronavírus. E não fica apenas nesta irresponsável acumulação da ineficiência; há descuidos, conforme lemos na revista Crusoé que o segundo sub, Marcelo Queiroga, é réu numa ação penal por crime contra o patrimônio público.

Cito uma publicação, a Crusoé, cujas reportagens investigativas vêm dando muita dor de cabeça nos corruptos que se assumem como de direita ou de esquerda, porque, como o tempo é medido em horas, dias, meses e anos, tive alguns minutos para rever as críticas à imprensa de Pullitzer, Millôr e as minhas próprias.

Em respeito ao tempo, fecho este texto concluindo que a imprensa, mesmo decadente e ruim, “quando não fala, o povo é que não fala. Não se cala a imprensa. Cala-se o povo”, (William Blake).

 

 

OS CHATOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos” (Mario Quintana)

Tive uma amiga francesa, Melanie, que morou algum tempo no Rio e era uma fumante inveterada, e viciada naqueles Gauloises (que como o Hollywood no Brasil, deixaram de ser fabricados). Ela gastava tempo e dinheiro para trazer da França os cigarros de sua preferência.

Certa vez, reunimos alguns amigos, e entre eles um chato – em qualquer grupo que se forme há sempre um chato -, este maçante, vendo Melanie acender um cigarro após outro provocou-a: -“Do jeito como você fuma, com este gasto poderia comprar um carro… “.

Minha amiga não se conteve, virou-se para mim e disse em voz alta: – “Sabe, ‘Mirranda’ (nunca perdeu o sotaque), em francês, nós chamamos os chatos de ‘raseurs’”, e sem olhar o provocador, deu uma golada no chope….

Misturando o português castiço com a gíria, a palavra Chato é adjetivo, o que não tem relevo; liso, plano, rasteiro; e também substantivo, piolho pubiano que produz prurido. O chato que me referi acima foi usado com referência ao inseto parasita que atiça irritante coceira. A palavra dicionarizada tem etimologia latina, “plattus,a,um“, e do grego “platôs”, ambas com o sentido de plano.

No sentido de plano, sem relevo, liso e rasteiro nos leva a um chato recém-aparecido, defensor da suspeita filosofia baseada no obscurantismo religioso e na idiotia política, que adotou a tese absurda e anticientífica de que a Terra é plana…. Os “terraplanistas”.

Imperdoável é também o “chato de galocha” que aporrinha a gente no Twitter, defendendo as insanidades negativistas do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e do adepto fervoroso dele, Jair Bolsonaro. A chatura é tanta que não vêm que Trump já recuou, fez autocrítica e até se vacinou.

Entretanto, parado no tempo, Bolsonaro continua o mesmo com a cabeça embotada pelos 28 anos sentado na cadeira de deputado federal do Baixo Clero, fazendo sindicalismo fardado para integrantes das FFAA e polícias militares…. Mas os chatos continuam seguindo-o subalternamente com ataques xenófobos à China. Alguma coisa lhes diz, no inconsciente, que antigamente naquele país (não sei como é nos dias atuais), a lei punia os chatos que azucrinavam os professores com a mesma pena dos batedores de carteira.

Com os inúmeros exemplos de chatos que temos no Twitter conjugando o verbo “Chatear”, espero que ninguém confunda “Chato” com “Chat”, termo que entrou na Web e é usado nas redes sociais, significando conversação, ou mais informalmente, bate-papo.

Outro termo derivado de Chato, como o verbo Chatear, é “Chatice”, que designa amolação, vista na maçada que assistimos com o Governo Bolsonaro indicando um novo subministro da Saúde, e mantenha dois, um de direito, outro de fato….

Até o momento em que encerro este texto, nada saiu no DOU, nem o afastamento, nem a nomeação. Sei disto porque que tenho lido o DOU, curioso em saber como virá a demissão do ministro-general Eduardo Pazuello, após ele repetir nove vezes que não pediria demissão.

O novo figurante do Ministério da Saúde, é o cardiologista paraibano Marcelo Queiroga, escolhido pela Familiocracia; ele fazia declarações pró-ciência; mas parece que já se ajustou ao comando negacionista, dizendo que “a política é do Governo Bolsonaro, não do ministro”; e com isto renuncia à autonomia no cargo.

Quanto isto, nós aqui, dos andares de baixo, vemos que o poeta Quintana tinha razão, temos nossos chatos de predileção; eu mantenho uma meia dúzia de três ou quatro no Twitter, e me divirto vendo-os defender convictos a insanidade presidencial e tentar convencer de que as mentiras de Bolsonaro são mentiras verdadeiras….

 

TRAPAÇAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A trapaça, a má fé e a duplicidade são, infelizmente, o caráter predominante da maioria dos homens que governam as nações” (Frederico II)

O nosso epigrafado, o rei Frederico II, da Prússia, foi protetor e amigo de Voltaire, de quem recebeu grande influência filosófica e política. Tornou-se o que a História registra um “Déspota Esclarecido”.

Esta qualificação foi dada aos soberanos europeus que adotaram e puseram em prática as ideias dos filósofos iluministas. Frederico II, no seu reinado aboliu os castigos físicos, a Educação Básica foi obrigatória e garantiu a liberdade religiosa para todos os cultos. Elevou a Prússia ao nível das grandes potências da época graças ao seu talento militar e administrativo.

Como intelectual (autor das “Obras do Filósofo de Sans Souci”, referência à Voltaire), Frederico II referia-se às trapaças dos governantes que não passavam os seus ministros por um filtro, limpando-os antes de nomeá-los das impurezas para garantir neles apenas a ética, a competência e a honestidade.

O verbete “Trapaça” dicionarizado, é um substantivo feminino com etimologia derivada do latim vulgar, “trappa”, que significa armadilha. Refere-se a qualquer manobra astuciosa, ação realizada com má-fé, tudo o que envolve logro e fraude. É conjugado pelos verbos “trapaçar” e “trapacear”, sendo este último mais usado coloquialmente.

Chegando ao cinema, tivemos o filme American Hustle, traduzido no Brasil como “Trapaça” dirigido por David O. Russell. O roteiro envolve o uso de dois vigaristas, por um agente do FBI numa operação promovida por políticos desonestos.

Além de ser rotineira nos discursos e no desempenho de muitos políticos, a trapaça trouxe notoriedade e fama a trapaceiros que entraram para a História.

Faz tempo que ouvi um caso que se passou em Paris no século passado, quando um jovem deixou nas mãos de um comerciante um violino, penhorado por ínfima quantia.  Ao sair, encosta na calçada da loja um carro, saltando dele um senhor bem vestido que entra na loja procurando certa mercadoria; daí, vê o violino e diz ao atendente: – “Vende o violino? ”, e oferece uma quantia vultosa pelo instrumento. O comerciante surpreso, diz que o violino não lhe pertence. –“Que pena”, lamenta o freguês: – “sou colecionador de “Stradivárius”, e este é um dos poucos que ainda existem; dê um jeito que volto mais tarde”….

De regresso com o dinheiro na mão para pagar o penhor e receber de volta o seu violino, o jovem estudante de música (foi assim que se apresentou) recebeu a oferta de alguns milhares de francos pela compra do instrumento do ganancioso lojista (com o pensamento voltado no milhão do Colecionador). O estudante vacila, regateia, e termina embolsando o dinheiro; e o elegante “Colecionador” (seu sócio) nunca mais voltou à loja…

Este golpe do Stradivárius, provoca simpatia dos que adotam o provérbio popular do “ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão…”. Há entretanto trampolinices que revoltam, como a de certo bispo evangélico que patenteou a “marca” Jesus Cristo, e processou um adepto por usá-la sem pagar… Outro presbítero anunciou feijões curativos contra o novo coronavírus, disputando com a cloroquina do Bolsonaro…

Não é de agora que os trapaceiros atuam fingindo-se religiosos; na velha Bizâncio a Igreja punia com rigor quem não pagava o dízimo, mas seus prelados politiqueiros deixavam os muros da cidade sem defesa, confinados num convento discutindo o sexo dos anjos…

O ludibrio, da religião para a política, não tem limite. O trapaceiro Donald Trump passou ao seu incauto admirador Bolsonaro a ideia de que a cloroquina curava a covid-19, sendo seguido entusiasticamente…. E fez pior, trapaceando mais uma vez, pressionou o governo brasileiro para rejeitar a vacina russa Sputnik V, e foi obedecido colonialmente…

Agora tivemos a trapaça monumental da Familiocracia Bolsonaro em torno do Ministério da Saúde; já haviam escolhido o médico paraibano Marcelo Queiroga para o lugar do ministro-general Pazuello, mas armaram uma farsa com o presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira, que indicou a cardiologista Ludhmila Hajjar para o lugar.

Convidada para uma reunião com Bolsonaro a conceituada médica viajou a Brasília, mas durante o encontro foram acionados os bonzos bolsonaristas nas redes sociais e os milicianos extremistas das ruas para ataca-la vilmente, até com ameaças de morte.

É assim que age a “ala ideológica” do Governo Bolsonaro. E salve-se quem puder!

O SORO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para esconde-la”. (“V” de Vingança)

Comentando outro dia sobre a compulsão psicótica de Bolsonaro em mentir, um dos meus seguidores sugeriu que os militares que participam do seu governo deveriam ministrar-lhe Pentotal, para arrancar dele a verdade e desobrigar-se de cumplicidade com os desatinos dele.

Fazia muitos anos que ouvira falar em Pentotal e não me lembrava mais o que seria; fui ao dicionário e encontrei: “Pentotal”, substantivo masculino que define uma substância tiobarbitúrica para indução anestésica, aplicada com injeções intravenosas. Foi (e não sei se ainda é) usado para obter revelações de suspeitos pela prática criminosa.

Na intenção de obter-se sob o seu efeito revelações guardadas em segredo, o Pentotal é chamado de “soro da verdade”, do inglês (truth serum); nasceu de uma experiência feita em 1915 pelo médico norte-americano Robert House. Obstetra, o dr. Robert observou que mulheres anestesiadas em trabalho de parto falavam espontaneamente sobre assuntos íntimos.

A partir de então, várias substâncias entorpecentes e sedativas passaram a ser utilizadas em pacientes de quem se esperava transparecer coisas que escondiam; entretanto a maioria dos indivíduos sob efeito do Pentotal apresentavam mais alucinações do que propriamente a realidade que se esperava colher.

Relatos obtidos dos pacientes sob ação do soro evocavam fantasias indistintas entre a veracidade ou simplesmente mentiras próprias de maníacos obsessivos; fez-se outras experiências como substituto do “soro da verdade” – pelo menos nos EUA -, o ecstasy, a maconha e o LSD, mas os resultados foram idênticos.

É triste constatar isto, porque não adiantaria incluir o bando doentio de fanáticos que aplaudem e seguem o Mitômano que ocupa a presidência da República e raramente expressa a verdade; e vimos  que na pandemia do novo coronavírus ele multiplicou neuroticamente essa incontida repulsa pela realidade.

Daí, em apoio às mentiras presidenciais procedem dos porões do Palácio do Planalto para uso dos agentes governistas, argumentos infectados de esquizofrênica convicção no que o Chefe diz, como se vê na defesa dos remédios ineficazes prescritos irresponsavelmente por ele.

Os cultuadores fanáticos do Presidente (são poucos, mais atuantes) chegam ao extremo ridículo de manifestar pelas redes sociais que as pessoas estão morrendo só para botar a culpa do negacionismo presidencial…. Este desvario alucinado expressa uma criminosa cumplicidade com o genocídio que provocou no País 270 mil mortes pela covid-19.

Fruto da ignorância e desprezo pela Ciência, o negacionismo apareceu no Brasil – sempre é bom repetir –, graças à subserviência enfermiça de Bolsonaro ao ex-presidente Donald Trump, quando este desprezou a pandemia e quase levou os Estados Unidos ao colapso.

O mesmo ocorreu e se mantem ampliando-se entre nós. Fala-se no Congresso em convocar uma CPI da Pandemia para investigar as responsabilidades. Seria como aplicar o soro da verdade nos responsáveis pelos casos e fatos deploráveis que acontecem do Oiapoque ao Chuí.

Porém pela legislação vigente, nenhuma pessoa é obrigada a apresentar provas contra si; o que deixa à disposição dos acusados o direito de mentir; e que o ônus da prova cabe somente ao acusador.

Assim, a injeção de Pentotal para induzir a confissão de um crime é considerada por muita gente como uma forma de tortura. Dizem até que consta do direito internacional privado; mas não encontramos esta referência.

Dessa maneira, como se pode condenar um delinquente negacionista que manda o povo enfiar “no rabo” as máscaras de proteção?  Condenando-se o soro da verdade, livra-se de serem punidos pela Justiça dos homens muitos desses facínoras, o que nos faz raciocinar como Tomaz de Aquino: – “A verdade que deveria libertar-nos, aprisiona-nos”.

O GRITO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“De médico e louco todo mundo tem um pouco” (Machado de Assis)

Nas publicações e círculos culturais entrou em pauta o famoso quadro do norueguês Edvard Munch “O Grito”, pintado por ele em 1908, durante a internação numa clínica psiquiátrica após um colapso nervoso. Estudiosos de vários países, pesquisaram durante anos uma frase escrita a lápis no canto superior esquerdo da tela, “Só podia ter sido pintado por um homem louco!”.

Pensava-se que seria um ato de vandalismo; mas finalmente os curadores do Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design da Noruega concluíram, baseados em estudos de caligrafia, que a frase fora escrita pelo próprio Munch.

O quadro, que sofreu um processo de recuperação, é raramente exposto ao público porque sofre problemas com a umidade, obrigando o Museu a mantê-lo sob a temperatura de 18 graus e iluminação sob controle.

As manifestações artísticas de pacientes psiquiátricos, particularmente dos esquizofrênicos, são expressões emocionantes. Temos no Rio de Janeiro o Museu de Imagens do Inconsciente, com um acervo de mais de 350 mil obras; foi uma criação revolucionária da médica psiquiatra alagoana, Nise Silveira, que tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Contrária aos tratamentos agressivos usados à época em pessoas com distúrbios psíquicos, Nise foi pioneira em introduzir na terapia ocupacional a arte-terapia, oferecendo como método terapêutico material de desenho e pintura para incentivar os pacientes a externarem através de imagens os conflitos armazenados no subconsciente.

Partiu também da Psiquiatra a iniciativa de criar a primeira clínica brasileira destinada ao tratamento psiquiátrico em regime de externato, a Casa das Palmeiras, fundada em 1956. As experiências colhidas ali foram aproveitadas nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), estimulando iniciativas artísticas dos pacientes.

O perfil cultural de Nise da Silveira é encontrado nos diversos livros que escreveu, destacando-se entre eles “Imagens do Inconsciente” e “O Mundo das Imagens”, e com a herança deixada por ela, o Brasil não fica devendo nada ao concerto das nações no campo da Psiquiatria.

Entre os estudiosos da História da Arte há uma corrente que defende a tese de que com o pintor e gravador norueguês Edvard Munch nasceu o Expressionismo, e o seu famoso “O Grito” é a representação mais marcante.

No Brasil, pintores como Candido Portinari e Tarsila do Amaral, considerados pela crítica como modernistas, produziram obras de influência expressionista, que também chegou à literatura, tendo Mário de Andrade como seu representante.

Se nos saraus da Academia Brasileira de Letras ainda se debate sobre literatura, (o que acho difícil), pela mediocridade da maioria dos seus membros, o Expressionismo está isolado no lockdown do imponderável….

Embora tardiamente, o expressionismo – agora com letra minúscula -, desceu ao lodaçal da ignorância política como anti-cultura, que não pode ser confundida com contracultura (que é protesto) ou subcultura (underground).

Em Brasília, nas casas do Congresso, no STF e nos corredores do Palácio do Planalto, “O Grito” está presente; não assistimos um só parlamentar capaz de usar a oratória, enfrentam os debates no grito; é também gritante entre os togados, o “garantismo” da impunidade; e assistimos o silêncio submisso dos “homens do Presidente” diante dos gritos dele…

Assim, a estética do discurso que consagrou tantos deputados e senadores brasileiros já não ecoa no cenário político; os juízes comprometidos com a Justiça, são raros; e, no Governo Federal, com relação à pandemia que ceifou mais de 260 mil vidas, só se escuta as expressões barulhentas, insanas e sem sentido de Bolsonaro.

A mediocridade vigente e o negacionismo estúpido nos agride e nos revolta; e o Presidente psicopata extrapola qualquer princípio da boa governança, arrancando das nossas gargantas O Grito: “Chega de Insanidade! ”….

 

 

 

 

FATALISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

           “Existe uma fatalidade interior: há sempre um minuto em que nos descobrimos vulneráveis” (Saint Exupéry)

Tem muita gente que é fatalista sem saber…. Acreditando que o destino de cada um já está traçado antes do nascimento. Este Fatalismo é a concepção de que todos os acontecimentos são irrevogáveis.

Muitos filósofos gregos antigos, epicuristas em particular, eram fatalistas, e assim entrou no estoicismo, deixando como herança a crença do Logos, a ordem cósmica que preside a vida cotidiana. O Logos era para eles a ordem, a razão e o tempo, associados à vontade dos deuses que regiam o mundo.

No mundo árabe o fatalismo se escreve do mesmo jeito como destino, a palavra Maktub ( مكتب ), que se define como alguma coisa que está predestinada a ocorrer. O termo deriva de (kitab) que quer dizer “livro”, e quando se fala Maktub, refere-se a algo que já estava escrito.

No cristianismo (embora seja negado pelos teólogos católicos), encontramos um tipo de fatalismo doutrinário com a Divina Providência, o apelo do crente para uma ação transcendente que atenda a um fim; e, no Judaísmo, apareceu com a esperança da terra prometida e à espera da vinda do Messias, um descendente da Casa de Davi que virá para redimir a humanidade e estabelecer o Reino de Deus na Terra.

No campo filosófico, o fatalismo inspirou Nietzsche a adotar o transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson, propondo de que tudo na Natureza e na sociedade humana seja explicado pela determinação, ou seja, por relações de causalidade. É o chamado Determinismo.

Por determinação ou providência, os debates religiosos e filosóficos na atualidade se dividem entre os que aceitam ser a vida um resultado da vontade divina e os que acham que existe de acordo com leis da Natureza.

Muitas histórias contadas ao redor da fogueira, ou para adormecer crianças, insinuam a existência do fatalismo. Quando eu era meninote ouvi da minha tia Autinha um conto (de origem persa) narrando que certa vez um jovem jardineiro regava as flores do jardim de um potentado quando lhe apareceu de repente a Morte.

“O rapaz correu para o patrão apavorado gritando –“Meu amo, o gênio da Morte se mostrou para mim e eu não quero morrer. Me ajude! ”. O dono da mansão se condoeu e disse: – “Tens razão. És muito moço para morrer; pega estas moedas e monta no mais veloz dos meus cavalos, em menos de 24 horas chegarás a Teerã e lá se esconda na casa do meu irmão, que conheces…”

“O adolescente agradeceu e fugiu. Eis que o Sultão (acho que era um Sultão) desceu melancólico ao jardim e lá se deparou com a Morte. – “Porque assustaste o meu servo, tão dedicado no cultivo das rosas e um bem sonante flautista que me divertia? ”

A Morte então interveio: – “Não o quis assustar, pelo contrário; olhei-o surpreso por vê-lo aqui, pois eu deveria leva-lo comigo daqui a 24 horas lá em Teerã…”

Qual o menino que ouvindo essa história não crê no fatalismo? Encanta-se com as coloridas fantasias dos contos das Mil e Uma Noites, reza e pedincha para a Divina Providência e acredita que Jesus Cristo foi o Messias que os judeus desprezaram.

Assim determinado, juntei-me aos milhões de brasileiros que estavam revoltados contra o sindicalismo degenerado dos pelegos, o stalinismo caricaturado pelos trotskistas do PT e o rotineiro assalto ao Erário estimulado pelo corrupto Lula da Silva.

Em massa, assumimos indignados o fatalismo judeu crendo na vinda de um messias…. Desgraça fatal! Ficara sobrevivendo no lugar deixado pelos corruptos um espírito maligno travestido de negativismo, desta vez roubando vidas….

No século passado, há muitas dezenas de anos atrás, como repórter d’ “O Radical” ouvi de um pai-de-santo lá em Madureira, a predição de que muitas tragédias ocorreriam na virada do século 20 para o século 21. Estão aí: vieram com os desatinos de um Presidente genocida.