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BRUZUNDANGAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Tanto quero o pão, como o vinho, a fantasia e a realidade”.  (Cazuza)

Ler e reler é para mim uma diversão rentável, pois acumulo cultura como um usurário, seguindo o ensinamento prático da grande Cecília Meirelles que escreveu: “Gosto de estudar o que me dá conhecimento melhor das pessoas, do mundo, da unidade”.

Foi por isto que na Sexta-Feira da Paixão me peguei com Lima Barreto, que considero uma referência literária, ao nível do grande Machado de Assis. Saltitei sobre “Os Bruzundangas”, o estudo de um País que “vivia de expedientes”…

Vale a pena ler Lima, até para aprender o uso de certas palavras – algumas já mortas e enterradas, e outras entubadas, sobrevivendo na UTI da Gramática.

Descrevendo a República dos Estados Unidos da Bruzundanga, o narrador mostra que o País é o avesso do que ensinava Bossuet, teórico do absolutismo, sob o argumento que o governo era divino e que os reis recebiam seu poder de Deus. Os bruzudunguenses criticam os políticos, deputados, senadores, ministros e até o presidente.

O visitante observou que o povo tem, em parte, razão, por que lá os políticos são o pessoal mais medíocre que há. Apegam-se a velharias, a coisas estranhas à terra que dirigem. Eles ignoram o desemprego dos nacionais e facilitam a entrada de milhares de forasteiros…

“O ensino superior fascina todos na Bruzundanga. Os seus títulos, como sabeis, dão tantos privilégios, tantas regalias, que pobres e ricos correm para ele…  Mas só são três espécies que suscitam este entusiasmo: o de médico, o de advogado e o de engenheiro”.

Entretanto, de acordo com a sua Constituição, em Bruzundanga é livre o exercício de qualquer profissão, extinguindo todo e qualquer privilégio do diploma. Aliás, quando se reuniu a Constituinte no País, nasceu no povo uma grande esperança, mas entre os poderosos houve muita discordância.

Calaram-se, porém, os críticos, quando ficou estabelecido nas disposições gerais, com letra bem miudinha: “Toda vez que um artigo desta Constituição ferir interesses de pessoas da “situação”, ou membros dela, fica subentendido que ele não tem aplicação no caso. Até a oposição foi unânime em aprova-lo, porque todos esperavam ficar um dia na “situação”.

Se algum cidadão reclamasse de inconstitucionalidade e apelasse para a Justiça (lá em Bruzundanga se chama Chicana), logo a Suprema Corte indagava se feria interesses de pessoas da situação e decidia conforme o famoso artigo.

É lógico que só os advogados se obrigam a conhecer a barafunda de leis, enquanto os filósofos pensam que com relação ao Estado não se exija apenas o conhecimento dos textos jurídicos, mas também a opinião dos “especialistas”.

“Um País como a Bruzundanga precisa ter os seus heróis e heroínas para justificar aos olhos do seu povo a existência fácil e opulenta das facções que a têm dirigido”; e a imprensa, dominada por grandes jornais e revistas elegantes, monopolizam a opinião sobre a arte, a literatura e a política. Daí saem aqueles que são eleitos, por aplausos, para a Academia de Letras.

Os deputados eleitos, quando empossados tratam logo de colocar em bons lugares a sua clientela; vendem o voto, fazem reformas corporativas, inventam cargos, para alcançarem o seu objetivo político. Enfrentam em parceria com a Justiça, a Lei fundamental de Bruzundanga, que reza: “Todos os cargos públicos são accessíveis a todos os bruzundanguenses, mediante as provas de capacidade que a lei exigir”.

De comentário em comentário, Lima Barreto terceiriza a descrição de um país de fantasia que muito se parece com aquele que nós brasileiros herdamos do lulopetismo, e como paródia, lembro que quando se via um cara entrar do Planalto todo espevitado, perguntava-se quem era, e a resposta era pronta: – “É um pelego sindical”.

 

 

 

 

Fernando Pessoa

Quando as crianças brincam

E eu as oiço brincar,

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar.

E toda aquela infância

Que não tive me vem,

Numa onda de alegria

Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,

E quem serei visão,

Quem sou ao menos sinta

Isto no coração.

NOEL ROSA – Politicamente incorreto

 

QUEM DÁ MAIS? (Leilão do Brasil)

 

Quem dá mais por uma mulata que é diplomada

Em matéria de samba e de batucada

Com as qualidades de moça formosa

Fiteira, vaidosa e muito mentirosa?

Cinco mil réis, duzentos mil réis, um conto de réis!

Ninguém dá mais de um conto de réis?

O Vasco paga o lote na batata

E em vez de barata

Oferece ao Russinho uma mulata

Quem dá mais por um violão que toca em falsete

Que só não tem braço, fundo e cavalete

Pertenceu a Dom Pedro, morou no palácio

Foi posto no prego por José Bonifácio?

Vinte mil réis, vinte e um e quinhentos, cinquenta mil réis!

Ninguém dá mais de cinquenta mil réis?

Quem arremata o lote é um judeu

Quem garante sou eu

Prá vendê-lo pelo dobro no museu.

Quem dá mais por um samba feito nas regras da arte

Sem introdução e sem segunda parte

Só tem estribilho, nasceu no Salgueiro

E exprime dois terços do Rio de Janeiro?

Quem dá mais? Quem é que dá mais de um conto de réis?

(Quem dá mais? Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três!)

Quanto é que vai ganhar o leiloeiro

Que é também brasileiro

E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?

Quem dá mais?

INCÊNDIO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Um fogo devora um outro fogo. Uma dor de angústia cura-se com outra”. (Shakespeare)

Desde os primórdios da humanidade o fogo fascina as pessoas. No processo civilizatório, foi adorado no Egito e nos impérios orientais; sendo divinizado na Índia e tornado mito na Grécia antiga.

Na obra dos historiadores gregos Ésquilo e Hesíodo está gravada a história do titã Prometeu, que é reverenciado como defensor da humanidade por ser o responsável pelo roubo do fogo no Olimpo para dá-lo aos mortais sendo, portanto, responsável pelo progresso humano.

Na mitologia escandinava, tão rica em heróis, encontramos a admirável luta do grande deus Thor contra os Gigantes de Fogo, entidades fantásticas preparadas para assumir a destruição final do mundo.

Individualmente, loucos piromaníacos se notabilizaram por cometer crimes à sua época, sendo Eróstato o primeiro grande incendiário conhecido por atear fogo no Templo de Artemisa, em Éfeso, em 356 a.C.

Registra-se, a seguir, o incêndio da Biblioteca de Alexandria, no Egito, em 48 a.C., durante a guerra civil romana entre Pompeu e Júlio César. Esta biblioteca, uma das maravilhas da Antiguidade foi recuperada; mais tarde, no ano de 640, foi novamente destruída pelo fogo por ordem do califa Omar ao emir Amr Ibn al-As.

Atribui-se ao imperador Nero o incêndio que reduziu uma quinta parte de Roma a cinzas, no ano 64; e o facínora acusou os cristãos pelo seu crime.

Em 1519, o conquistador do México Hernann Cortés ordenou que se incendiasse a capital dos astecas, Tenochtitlan, uma das mais lindas e populosas cidades do mundo, para obter a rendição da grande civilização pré-colombiana.

No século passado, em 1933, uma combustão consumiu o Reichstag, em Berlim, com chamas que alcançaram e arruinaram a democracia alemã. Foram os nazistas autores da queima, mas Hitler, como Nero responsabilizou um demente holandês pelo crime.

A Psiquiatria traça o perfil do piromaníaco como um indivíduo movido pelo desejo mórbido e incontrolável de provocar incêndios, queimar ou atear fogo às coisas. Sua característica doentia é ser levado ao ato sem motivação para fazê-lo.

Assistimos a pouco a tentativa de lavrar um incêndio no STF com as faíscas da medida personalista e antidemocrática de ressuscitar a censura nos órgãos de comunicação, alcançando os internautas por críticas feitas aos ministros togados.

No caso do site “O Antagonista” e da revista “Crusoé” a repressão policialesca recebeu o argumento de que divulgaram “fake news”, acusação desmentida pelo “O Globo” afirmando ser verídica a citação de Marcelo Odebrecht sobre o “Amigo do amigo do meu pai”, referindo-se ao presidente da Corte, Dias Toffoli.

Depois, a própria Procuradoria Geral da República comprovou a veracidade da matéria jornalística, censurada injustamente e posteriormente revogada pelo próprio autor da absurdez, o ministro Alexandre Moraes, alegando numa atitude incompatível a quem julga que desconhecia ser verdade a publicação.

Quanto aos internautas do Facebook e do Twitter, sob repressão, as suas críticas a um ou outro togado e ao STF, como um todo, deve-se que na Corte, que deveria ser o Templo da Justiça, as verdades são unipessoais e as canetas monocráticas.

Vê-se assim que por individualismo de uns e corporativismo generalizado, alastram-se as chamas que podem atingir grandes proporções, atingindo fatalmente o Estado Democrático de Direito. Isto ocorrendo, para manter as liberdades democráticas será preciso intervir no Poder Judiciário com o antídoto homeopático “similia similibus curantur”, do latim: “semelhante pelo semelhante se cura”, ou seja, contra o veneno totalitário, totalitarismo.

 

BARRABÁS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Todos os nossos dias e em vários momentos chega-nos a pergunta: “Cristo ou Barrabás?
(Daniel Brito)

Ao decidir como relator de um agravo, o ministro Celso de Mello usou a frase latina “nemo auditur propriam turpitudinem allegans” (“Ninguém pode se beneficiar da própria torpeza”), o princípio do Direito Romano que é repetidamente alardeado nos círculos jurídicos.

Somente o termo torpeza é um tanto inusual, e por isso deve ser traduzido como “desonestidade”, “falta de compostura”, “indecência”, expressões diretas que são rejeitadas na Magistratura para esconder do povo os seus segredos. Por isso, usam sentenças no latim.

No caso em pauta, perdoem-me a licença imaginativa, a pomposa frase certamente era usada por Pôncio Pilatos, governador na província romana da Judeia, execrado historicamente por ter sido o juiz que sentenciou Jesus Cristo a morrer na cruz; hoje, comparado com alguns magistrados do STF, readquire o respeito dos cristãos.

Aliás, nas igrejas cristãs Ortodoxa e Copta, Pilatos foi reabilitado, e até canonizado pela Igreja Etíope, junto com a sua mulher Santa Prócula. Os teólogos orientais concluíram que ele nada fez senão cumprir o que estava programado por Deus.

Esta absolvição deve-se ao lado humano, generoso de Pilatos, que tentou salvar Jesus a pedido da esposa Cláudia Prócula. Lembrou-se do indulto, costume judaico de soltar um preso na Páscoa, e então pediu ao povo para escolher entre Barrabás, ladrão e assassino, ou Jesus, chamado Cristo.

A multidão, agitada pelos ministros do Sinédrio liderados por Caifás, e pelos profanadores do Templo expulsos por Jesus, escolheu Barrabás; assim, Cristo foi entregue aos soldados para ser crucificado. O apócrifo “Evangelho de Nicodemos” aponta nos “Atos de Pilatos” que a condenação do Cristo é exclusiva dos fariseus.

Atualmente, no campo das leis, é clara a preocupação dos defensores do direito para que seja coibido qualquer ato de abuso de confiança, mesmo aparentemente legal. Mesmo assim, sob críticas de entidades representativas da magistratura e da advocacia, e a ampla condenação da opinião pública, vêm ocorrendo excessos inconvenientes.

Só se desviam dos princípios consagrados na Constituição com respeito à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa, jornalistas mercenários e profissionais corporativistas, uns ganhando para calar e outros atacando para se defender.

É por isto que me faço presente nesta luta pela Democracia que sofre ataques pontuais de fascistóides. Assim pede a consciência de um patriota que se coloca acima dos partidos e das personalidades políticas.

Aos cristãos de todas as denominações que atravessam esta Semana Santa que não ouçam os caifazes condenando Cristo e libertando Barrabás. É um apelo feito com amor no coração, para que todos engrossem a procissão da Liberdade, cantando o hino da “Censura Nunca Mais! ”

TOGAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer…” (Rui Barbosa)

Li num velho livro de páginas amarelecidas, publicado muito antes da minha geração abrir os olhos, o romance de um juiz honesto que se revoltou por ver um colega de magistratura condenar uma pobre mulher por se submeter a um aborto.

O meritíssimo sabia que uma outra mulher, cometendo o mesmo delito numa luxuosa clínica, assistida por um cirurgião renomado, jamais iria a um tribunal. Ele tinha a consciência do privilégio das classes dominantes para que a lei seja ignorada quando se trata de um deles.

Juízes são pessoas de carne e osso. Entre eles há os que ralam num concurso para conquistar a cátedra e os que fazem vassalagem aos poderosos para ganhar o cargo. Uns enfrentam as pressões, outros as ignoram, e mais alguns se aproveitam disso para obter lucro político ou pecuniário.

Dois mil e trezentos anos atrás, o filósofo ateniense Platão, que viveu no período clássico da Grécia Antiga, fez uma condenação ao dizer que “O juiz não é nomeado para fazer favores com a Justiça, mas para julgar segundo as leis”. Mas eu me pergunto, e se a Lei for má? Se for leniente com o crime?

A resposta é extraída do cérebro privilegiado de Rui Barbosa, que se trata de covardia a má interpretação da Lei; e escreveu:  – “O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde”.

A visão da correta da função de julgar de um bom magistrado é perceber que pode errar e só o alivia a modéstia de esperar que o caso vá à 2ª Instância para ter a aprovação ou ser corrigido.

Ocorre, porém – vamos cutucar a onça com vara curta – que ao chegar na 2ª Instância, outro colega, igualmente honesto, pode pensar que o processo teve a tramitação correta e aprova-o sem se aprofundar a decisão anterior.

A ficção quando noveliza a Justiça traz coisas curiosas; Tolstoi num dos seus livros, traz a história do juiz da corte superior da Rússia Imperial que, para anular ou confirmar as decisões anteriores, olhava o número de ordem do processo; se fosse par, anulava e se fosse ímpar, confirmava…

O juiz russo vestia a toga negra dos advogados e solicitadores presentes ao tribunal, a vestimenta comumente usada pelos cidadãos romanos, sendo proibido o seu uso aos estrangeiros e escravos. Havia as brancas dos senadores e as púrpuras dos vitoriosos em guerras externas e depois dos imperadores.

“Toga”, como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino que define a capa dos romanos, destacando-lhes para o gozo de inúmeros privilégios; e atualmente indica seu uso pelos magistrados com prerrogativas semelhantes.

Cá no Brasil, nos dias avessos de hoje, a toga é o adjetivo qualificativo dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que pelos comportamentos e palavras se julgam donos da verdade.

No STF, as verdades são unipessoais e as canetas monocráticas. Foi por isso que um deles que soltou o corrupto José Dirceu, articulador do Mensalão, o gigantesco esquema de propinas para ele próprio e para os hierarcas do Partido dos Trabalhadores. Pouco importou que o ex-primeiro-ministro do Governo Lula estivesse condenado a 30 anos e 9 meses de prisão por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Foi o ministro Dias Toffoli, atual presidente do Supremo, que articulou esta excrescência contando com o voto de Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowsky, que atuam na 2ª Turma da Corte com a mesma formação político-ideológica.

Agora, juntando-se à essa minoria que sonha com a implantação de uma ditadura do Poder Judiciário, vem o ministro Alexandre Moraes atentar contra as liberdades democráticas, impondo por puro corporativismo a censura a sites e publicações que divulgam as implicações de Toffoli com a Odebrecht.

Sempre atento e independente, o jurista Modesto Carvalhosa diz que a decisão de Moraes ao censurar a revista “Crusoé” e “O Antagonista” é “sinal de decadência total” da mais alta corte do país.

Lembrou-me o juiz da Suprema Corte Americana, Benjamim Cardoso, disse certa vez que “O Direito, como o viajante, deve estar pronto para o dia seguinte”. E o nosso “after day” é triste, vendo o Direito refém de onze juízes praticamente controlados por uma minoria insana.

 

 

 

ESTUPIDEZ

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa”.
(Martin Luther King)

Anos atrás o jornalista norte-americano Michael Moore fez sucesso com o seu livro “Stupid White Men” (“Estúpidos Homens Brancos”) que correu o mundo e teve boa repercussão no Brasil. Mas aqui a palavra “Estúpido” que antigamente era muito usada, não voltou à moda.

Dicionarizado, “Estúpido” é um adjetivo que, segundo o Caldas Aulete, significa “o que provoca emburrecimento e/ou tédio; que não é inteligente. Figuradamente o vocábulo pode ser modo excessivo; demasiado.

A origem é latina, “stupidus,i”, que derivou de “stupere”, ‘ficar atônito, espantado, inerte ou pasmado diante de algo fora do comum’. Daí saiu estupidez, exprimindo ‘sem ação’, ‘incapacitado’, sem discernimento ou falta de inteligência. E por extensão, ação grosseira, incivil.

Com certa ironia, encontra-se na literatura conclusões de que a estupidez humana obedece a leis constantes, como aquela Lei da Gravitação Universal que a gente decorava no ginásio: “a matéria atrai a matéria na razão da sua massa e inversamente proporcional ao quadrado da distância”…

A toda hora e em todo lugar a regra da estupidez se comprova. É o grafiteiro que rabisca os monumentos ou as vitrines de uma loja; é o vândalo que risca a porta de um carro estacionado; são aqueles que nos trens do Metrô e nos ônibus, fazem os mesmos gestos, repetem as mesmas frases, ou ficam alheados com atenção fixa no celular.

Constata-se também a presença da estupidez no mundo político, onde sempre se observa picaretagens visando o assalto ao Erário, como temos assistido à mobilização dos estúpidos – sempre com apoio da mídia – exigindo “articulação” para aprovação da Nova Previdência. “Articulação” em picaretês é o velho “toma lá, dá cá”…

Na estupidez de alguns parlamentares, o futuro é uma ficção…  Não são poucos entre os ditos representantes do povo sem a consciência de que daqui a cinco anos os aposentados e pensionistas ficarão sem receber os benefícios por falta de dinheiro.

E como não pode deixar de ser, os estúpidos se assumem como “especialistas”, “experientes” e “técnicos”, sendo entrevistados pelos jornalistas similares para responder tudo que lhe for indagado. Atuam como os infalíveis juris dos programas de auditório.

Por falar em programas de auditório, lembro-me que o meu pai me contou a história de uma promoção, em Hollywood, do concurso para os imitadores de Carlitos com um prêmio milionário. Sob aplauso de centenas de estúpidos, o júri de “especialistas” pôs Charles Chaplin, que se inscrevera incógnito, em 19º lugar como seu “imitador”…

Pelas coisas descritas, creio que exista uma organização da estupidez como sociedade secreta, tipo Máfia italiana, Yakusa japonesa, Tríade chinesa e mesmo os nossos Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital e Milícia Fluminense…

Os estúpidos são organizados, e estendem seus tentáculos por todo aparelho de Estado. É por causa deles, que assistimos a Justiça negada por magistrados ao soltar bandidos; nos revoltamos com as molecagens de deputados em audiência com um Ministro; e desdenhamos os que fazem campanha para libertar um corrupto condenado e preso.

Eles têm uma audiência do tipo daquela que se comporta nos cinemas diante da logomarca (será que se chama assim?) de uma produtora cinematográfica mostrando um abutre num galho que voa até o anagrama da empresa. De início, o auditório grita “xô” para espantar a ave e depois a acompanha com interjeições inaudíveis…

Giácomo Leopardi

CANTO XXVIII – A SI MESMO

Repousa para sempre,

Meu coração cansado. O engano extremo

Que acreditei eterno – é morto. Sinto

Em nós de enganos puros,

Não que a esperança: o desejo já extinto.

Dorme até nunca – e o muito

Que pulsaste. Não vale coisa alguma

O impulso teu, nem de um suspiro é digna

A terra: amarga e balda

É a vida, mais que tudo – e lama o mundo.

Aquieta-te, não creias

Numa outra vez. Ao querer nosso o fado

Paga em morte: despreza-te, por fim,

E à natureza, e ao mudo

Poder que – ingente – à comum perda leva,

E à infinita vaidade de tudo.

 

(Traduções de Renato Suttana)

Giácomo Leopardi

O INFINITO

Sempre cara me foi esta colina  Erma, e esta sebe, que de tanta parte  Do último horizonte, o olhar exclui.  Mas sentado a mirar, intermináveis  Espaços além dela, e sobre-humanos  Silêncios, e uma calma profundíssima  Eu crio em pensamentos, onde por pouco  Não treme o coração. E como o vento  Ouço fremir entre essas folhas, eu  O infinito silêncio àquela voz  Vou comparando, e vêm-me a eternidade  E as mortas estações, e esta, presente  E viva, e o seu ruído. Em meio a essa  Imensidão meu pensamento imerge  E é doce o naufragar-me nesse mar.

(Tradução: Vinícius de Moraes – Rio de Janeiro , 1962)

SELFIE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Faz-se leprosários para leprosos, manicômios para os loucos e prisões para os criminosos, mas não há um asilo fechado para os imbecis” (Pittigrilli)

Não me lembro onde e quando tomei conhecimento de que a equipe permanente da Enciclopédia Britânica aprovou a composição da palavra selfie. Esse neologismo da língua inglesa que até 2016 não havia sido dicionarizado no Brasil; mas apareceu na linguagem coloquial como farinha em feira.

Há expressões que possuem uma grande facilidade em se fixar na linguagem comum, e há também palavras que entram na cabeça da gente sem nenhuma explicação, como selfie, que somou ao substantivo “self” (“eu” ou “a própria pessoa”, em inglês) ao sufixo diminutivo “ie” (“-inho (a)”), resultando, em tradução direta, “euzinho (a)”.

A Wikipédia, enciclopédia livre que navega no Google, define Selfie como fotografia, comumente digital, que uma pessoa tira de si própria e às vezes envolve outras pessoas, as “selfies em grupo”.

Historiadores meticulosos ligam à selfie ao secular “autorretrato”, atribuindo a primeira versão deste a Robert Cornelius, que em 1839 tirou-o do lado de fora de sua loja na Filadélfia, EUA. Na época, imaginem, ele teve que permanecer em pé por mais de 15 minutos para conseguir a foto!

Em 1920, o fotógrafo nova-iorquino Joseph Byron tirou uma selfie dele com amigos em um terraço sem que nenhum deles soubesse aonde a câmera estava; e são conhecidas diversas experiências dessas fotografias diante de um espelho, quem sabe, feitas por alguns de nós do Twitter…

A moda obedece a leis sociais que, com as novas tecnologias se tornam cada vez mais instáveis e mais velozes; hoje, em qualquer país do mundo, nos mais recônditos locais da África, da Amazônia e de Bornéu, se fazem selfies.

Passei a vista num estudo sobre pessoas que tiram selfies sem nenhum treinamento em fotografia e se adaptam espontaneamente às regras clássicas da composição fotográfica, como a regra dos terços….

Apesar dos avanços intelectuais e técnicos as selfies têm seu lado negativo, a obsessão de muitos, entrando deste modo nos estudos da mente, mobilizando psicanalistas e psicólogos. As análises psicopatológicas iniciais incluem narcisismo, baixa autoestima, solidão, egocentrismo e comportamentos de busca de atenção, sendo ainda mais graves as postagens em redes sociais.

Para enriquecer esses estudos, sugiro que se façam amostragens nos antros da politicagem parlamentar, onde um imenso número de pessoas se acotovela para tirar selfies com os seus corruptos favoritos.

Mesmo não tendo o conhecimento médico do cérebro humano, arrisco dar opinião sobre a interação eleitor-político, cuja exibição de intimidade é, ao meu ver, mais do que um transtorno mental, uma demonstração de acumpliciamento…

Lembro que lá nos EUA, fonte imperial das fake news, dos antifas, do racismo pelo avesso e das feminazis, uma revista sensacionalista publicou que artistas famosos apagaram selfies tiradas ao lado de Kevin Spacey durante a entrega do Oscar de 2014, quando o assediador brilhava.

Será que se envergonham aqui na colônia, os milhares de cariocas que fizeram selfies com Lula, Cabral, Dilma e Pezão, a quadrilha que arrasou o Rio de Janeiro? Podem se somar às vidas apagadas dos que caíram de precipícios, sacadas de edifícios e atropeladas em linhas de estrada de ferro para não perder a oportunidade de fazer uma selfie.

Isto exposto, dou razão ao escritor ítalo-argentino Pittigrilli: faltam, realmente, asilos fechados para os imbecis…