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ILUSÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não existe coincidência, apenas a ilusão de uma coincidência” (V de Vingança)

A ilusão nos engana, mas não é somente um problema nosso. É geral. O jornalista e escritor ítalo-argentino Pittigrilli, a quem muito admiro, conta um fato (não sei se é verdadeiro ou uma anedota que saiu da sua imaginação prodigiosa). Escreveu numa de suas crônicas:

“No estúdio cinematográfico da UFA, em Berlim, fazia-se um filme de guerra e o exército protagonista apresentava inúmeros figurantes; muitos soldados, alguns sargentos e oficiais; e um personificava o general-comandante. Nos intervalos, à hora do almoço servido num grande galpão, os soldados se agrupavam numa mesa enorme, os sargentos e oficiais, cada um dos grupos ocupavam mesas separadas e o general se isolava, afastado dos demais”.

Para Pittigrilli, sem que houvesse qualquer orientação para isto, a imaginação dos atores os levava à ilusão da realidade; e esta história nos leva a pensar como Balzac, ao dizer que “a ilusão é uma fé desmedida”, o que somo com outro autor que esqueci a referência dizendo que a ilusão é um dos demônios que mais atentam às pessoas.

Sem um conhecimento aprofundado das doenças da mente e o seu tratamento feito por psicólogos e psiquiatras, penso, pela definição, que a Esquizofrenia é irmã gêmea da Ilusão. Como é do conhecimento geral, esquizofrenia é um desdobramento da personalidade, como diz a sua raiz grega, “Skizo”, separo, e “fren”, pensamento.

Assim, vemos no nosso entorno múltiplos exemplos de comportamentos fragmentados, parecendo uma característica dos políticos e dos seus seguidores, sejam defensores de qualquer ideologia, alguma corrente filosófica, que sejam filiados a certo partido ou adeptos de uma denominação religiosa.

Cada qual com a sua ilusão, que como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino de etimologia latina (“illusio.onis”), engano; seja engano dos sentidos ou pensamento. Tem uma rica e variada sinonímia que vai da aparência, disfarce à alucinação e delírio

Gosto muito da definição de ilusão como uma esperança irrealizável…. Sugere que usemos o presente do conjuntivo do verbo abrir: “abramos” as cortinas da pesquisa e do raciocínio científico para assistir ao espetáculo da realidade e ver o drama que o Brasil representa tendo na presidência da República um obsessivo compulsivo somente preocupado em manter o poder a qualquer custo.

E não foi por acaso que o capitão Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado no dia 7 de setembro, aproveitando-se da data em que o País comemora a Independência para trair a República. Junto com seus seguidores fanáticos, minoritários, mas ativos e com dinheiro bastante, passou dois meses mobilizando uma manifestação de apoio aos seus tenebrosos planos para sufocar a Democracia.

Numa mais do que perfeita encenação tirada da cartilha de herr Goebbles, voou de helicóptero sobre a multidão, teve desfile de caminhões, dísticos, bandeiras e faixas com ataques ao Congresso e ao STF.  Assistimos pela televisão esta manifestação do “Eu autorizo” com o coro infernal da massa, que provocou um discurso virulento contra o Judiciário, cometendo um crime de responsabilidade.

Este ato criminoso felizmente não passou de engano, engodo, ludibrio e da mentira contumaz, por cometer o erro de haver subestimado a reação do mundo político e jurídico, e não ter ouvido o alerta de que os quarteis se mantêm patrioticamente legalistas contra um golpe.

A política, como a ciência, não pode se basear na ilusão, como a que foi construída teimosamente pelos filhos deslumbrados e os generais bajuladores da guarda pretoriana de pijama.

Dessa maneira, a pretensão golpista não passou de uma ilusão do psicopata, com o lado cômico do infantilismo fanático que tem como chupeta o vício de se iludir, mostrando que a ilusão coincidente é o alimento dos que desejam tornar um pesadelo o sonho de liberdade do povo brasileiro.

O JUIZ

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não procures tornar-te juiz se não tens força para extirpar a injustiça, caso contrário irás intimidar-te diante de um poderoso e mancharás a tua integridade”. (Eclesiástico 7,6)

Um exemplo de cultura e sobretudo de honestidade e patriotismo, Ruy Barbosa nos deixou inesquecíveis lições, entre as quais expôs que “os governos seduzem os magistrados, os governos os corrompem, e, quando não podem dominar e seduzir, os desrespeitam, zombam das suas sentenças, e as mandam declarar inaplicáveis, constituindo-se desta arte no juiz supremo, no tribunal da última instância, na última corte de revisão das decisões da justiça brasileira“.

Assim, Ruy tornou-se um futurologista, jogando estas palavras como um quepe na cabeça do capitão Bolsonaro que não conseguiu seduzir os ministros do STF, não pode corrompe-los e por isto os desrespeita, chegando ao cúmulo de xingá-los de “filho da puta”, como um moleque de rua.

Platão, filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, ensinou em 400 anos a/C que “o juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis”; intrínseco dependente da Lei.

É por isto que reprovamos a indicação para o Supremo Tribunal Federal um juiz cujo perfil ressalta que é “terrivelmente evangélico” usando um advérbio que causa horror aos que conhecem a História da Civilização onde se capitula no século 11 o julgamento dos albigenses, acusados de heresia. Para presidir a Corte, o papa Calisto II enviou Simão de Monfort à França.

Mal chegado de Roma, o emissário papal se reuniu com os bispos que seriam jurados no Conselho de Sentença dizendo-lhes: – “Sentenciem-se todos à morte, Deus saberá livrar do Inferno os que forem inocentes”.

Seria intolerável hoje, pela evolução da sociedade humana, um juiz dogmático deste tipo. Todo magistrado deverá se assumir como um servidor incondicional da lei; e, obrigar-se a seguir os critérios de avaliação acima dos princípios filosóficos, ideológicos ou religiosos.

Fugindo à circunspecção, trago na memória uma anedota sobre juiz que ouvi quando era menino contada pelo meu pai, portanto antiquíssima. É a história de um indivíduo levado a julgamento por ter vociferado injúrias contra uma mulher no trem.

O magistrado inquirindo: – “Porque você cometeu esta agressão contra uma senhora?

– “É porque perdi a paciência e fiquei muito nervoso, Excelência. Eu estava sentado na janela ao lado dela quando chegou o cobrador; ela abriu a bolsa e tirou uma carteira, abriu a carteira e tirou o passe, fechou a carteira, abriu a bolsa, colocou a carteira dentro e fechou a bolsa. Entregou a passagem ao Condutor; este lhe devolveu o canhoto e então ela abriu a bolsa, tirou a carteira, fechou a bolsa, abriu a carteira, pôs o canhoto dentro e fechou a carteira; abriu novamente a bolsa, colocou a carteira dentro, fechou a bolsa, e resolveu usar óculos, então abriu a bolsa…”

– “Chega! ”, interrompeu o Juiz, -“ está irritante esta descrição”.

– “Pois foi esta irritação que dominou os meus sentidos, Excelência”. Emitida a sentença, o Nervosinho foi absolvido, alegrando-se por ter advogado em causa própria.

Infelizmente, as absolvições que vêm ocorrendo no Brasil não são por conta de irritação, mas do tal “garantismo jurídico” adotado por alguns ministros do STF. Essa ideologia garantista é levada ao exagero na Corte, como se vê no caso Lula da Silva. Lula devia estar na cadeia mesmo sem ser julgado, como foi, em 1ª e 2ª instâncias…. Bastava a delação premiada do seu ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci.

Assim, entra neste engenho a proteção de todos corruptos denunciados pelos policiais e procuradores federais da Operação Lava Jato, e condenados pelo juiz Sérgio Moro; como se tornou uma norma, já alcançou o julgamento de Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas…

O “garantismo” evidencia e comprova o que afirma Lawrence J. Peter: – “Presume-se que um homem é culpado, até ele provar que é influente”.

 

 

Cora Coralina

Aninha e Suas Pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

TESTES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol;com.br)

“A pior forma de covardia é testar o poder na fraqueza do outro” (Maomé)

A vida nos sujeita a conhecer os nossos limites para encarar a realidade que nos cerca; exige um teste para ver até onde podemos ir e expressar o pensamento, sem ferir alguém.

O homo sapiens (e a mulher sapiens, como quer Dilma Rousseff) é dotado de inteligência e, portanto, apto a entender desde as mensagens mais simples até as intrincadas especulações filosóficas; isto só ocorre, porém, se não estiver apaixonado ou fanatizado pelo objeto a ser analisado.

Os testes foram criados para encontrar certezas e dúvidas…. Entre os mais antigos, registra-se o fato dos rabinos atuando para saber se não havia efraítas infiltrados entre os fugitivos de Efraim, testava-os mandando-lhes falar a palavra “selbboleth” (espiga em hebraico); e o desgraçado que pronunciasse “sibboleth”, era entregue ao carrasco.

Bem mais tarde, a literatura infantil produzida pelos irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, nos deu o conto “Cinderela” amplamente conhecido, em que o príncipe mandou agentes percorrerem o reino a fim de encontrar a jovem por quem se enamorou, testando mulheres no uso de um sapatinho de cristal que ela deixara ao fugir do baile….

O verbete “Teste” dicionarizado, é um substantivo de dois gêneros e flexão do verbo “Testar”. Sua etimologia é latina (testis.is), ação que busca verificar a verdade de um fato relatado. Sua sinonímia é diversa e rica, arguição, diagnóstico, exame, concurso, constatação, amostragem, prova, etc.

Este texto e a epígrafe com uma sura do Alcorão, se inspiraram na conversação que mantive com uma velha amiga do Twitter; ela, como defensora intransigente do capitão Bolsonaro, criticou o discurso anti-golpe do ministro Luiz Barroso, do STF, chamando-o de desonesto.

A liberdade de expressão me permitiu apontar a insanidade do líder que ela protege, na tentativa gorada do golpe que mobilizou por 72 dias apoio popular e, diante dos manifestantes e pelo vídeo televisivo, atacou a Suprema Corte, xingou ministros e afirmou que não obedeceria às decisões judiciais.

O Capitão fez mais: Exortou os seus seguidores que o autorizassem a tomar medidas autoritárias, rumo à ditadura.  O coro estrondoso do “eu autorizo” levou-me a perguntar aonde encontrara, diante disto, desonestidade de Barroso; fiz o teste que a levou a recuar, reconhecendo a competência de advogado no Ministro, “capaz de provar que pau é pedra”.

Nesses tristes (e perigosos) tempos de crise institucional permanentemente provocada pelo capitão Bolsonaro, somos obrigados a testar a reação das pessoas honestas sobre fatos concretos, indesmentíveis. Ele elege inimigos que precisam ser exorcizados como demônios para gáudio dos seus seguidores sedentos de ódio.

Felizmente se encerrou a fase de preocupações com o golpe tentado e armado pela extrema direita nazifascista. Na página virada está escrito que falhou pois só contou com o apoio de militares saudosos e revanchistas da ditadura, pastores mercadores do Templo, milicianos e financiadores laranjas de apoios mercenários.

A massa que viveu a agitação gigantesca da mobilização para apoio das investidas bolsonaristas contra o Estado de Direito, pelo fechamento do Congresso e do STF e uma intervenção golpistas das FFAA, agiu democraticamente e não deu motivo para violência. Frustrou assim, cordata e disciplinada, o uso de medidas extraordinárias de força como queriam os golpistas.

É preciso constatar que a insanidade antidemocrática não contou também com o apoio dos quarteis, como vaticinou o general da reserva Paulo Chagas, ao afirmar na véspera, que “os militares da ativa não apoiarão medidas autoritárias como o cancelamento de eleições”.

Dessa maneira, o capitão Bolsonaro perdeu a chance e não passou no teste dos prognósticos astrais…. Em vez do “eu autorizo” dos fanáticos, a bela Esfinge da opinião pública submeteu-lhe ao enigma do respeito à Lei, e invocando o “Decifra-me ou te devoro” o canibalizou….

Diz a milenar sabedoria maçônica que o Grande Arquiteto do Universo impõe a todos um teste para saber qual seu propósito na vida; este foi feito no “after day” de 7 de setembro, e assim, do rugir leonino do golpista ouviu-se guinchos de um rato…

Adélia Prado

AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 97) 

ASTROLOGIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos Homens” (Albert Einstein)

Corre em Brasília um ti-ti-ti sobre a Astrologia que eu não creio que seja verdade, mas como o capitão Bolsonaro defende as fake news chapas-brancas, liberou geral. Então vai lá: Conta-se que o astrólogo Olavo de Carvalho veio dos Estados Unidos, onde mora, trazendo um mapa astrológico para o Presidente.

Não foi recebido a princípio e teve um chilique, foi internado, espalhou-se na mídia que o estado era grave (falaram até que havia morrido), e um dos meninos Bolsonaro, não sei se Eduardo ou Carlos, seus discípulos, pegou o horóscopo e levou-o para o pai. Daí se leu um cronograma garantindo a vitória de Bolsonaro na setembrada terrivelmente evangélica e naturalmente miliciana.

Nos sertões nordestinos, quando um foguete de estrondo falha, dizem que “deu chabu”…. Pois bem, foi o que ocorreu com a bombástica profecia do guru bolsonarista; deu chabu. Tivemos 72 dias de “gigantesca” propaganda, “gigantescas” mobilizações e “gigantescas” verbas, viu-se muita gente na rua, mas a projeção de dois milhões de participantes na Avenida Paulista, registraram-se 10%, seja 185 mil.

Mas a derrota do capitão Bolsonaro não se deveu a isto, e sim aos seus tresloucados discursos em Brasília e São Paulo. O esvaziamento dos apoios refletiu-se na reação política. O presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, suspendeu todas as sessões; o presidente da Câmara Federal Arthur lira, descolou timidamente da subserviência ao governo, e o presidente do STF, Luiz Fux, rebateu duramente as bravatas de desobediência a sentenças judiciárias.

Fux e Lira convergiram falando de Brasil real que enfrenta a pandemia, o desemprego e a carestia de vida pelo descontrole econômico; uma conjuntura diferente da alucinação esquizofrênica de Bolsonaro. Dos protestos patrióticos, fechou o firo o ministro Luiz Roberto Barroso definindo corajosamente o Presidente como farsante.

O que se viu do 7 de setembro? Em vez do golpe ribombante do palanqueiro para esconder o fracasso econômico e desviar as denúncias das rachadinhas familiares e do negativismo lucrativo dos insumos médicos e vacinas, realizou-se 48 horas após o “parto da montanha”: após grandes abalos sísmicos viu-se que o nascituro não era um leão, mas um rato!

Assim, a previsão da Astrologia foi para as nuvens. Resumiu-se à pseudociência que se aproveitou a observação astronômica na Babilônia, onde sacerdotes expertos perverteram os estudos para explorar a crença de que o movimento dos planetas, do sol e da lua, influenciavam a vida das pessoas; e os antigos mitos sumérios serviram para divinizar os reis e controlar as atividades de Estado.

Nos dicionários, a “Astrologia” aparece como um substantivo feminino significando a prática de decifrar como os astros conduzem os sistemas políticos e o destino das pessoas. A palavra vem do grego antigo, (“astron”, “astros e “logos”, estudo, portanto “estudo dos astros”.

O jogo de previsão do futuro pelos astros chegou ao Ocidente com o livro de Ptolomeu “Tetrabiblos”, trazendo a teoria geocêntrica de Aristóteles, que, embora totalmente superada pelos avanços tecnológicos óticos e mecânicos da astronomia, ainda serve de base para os astrólogos.

O grande Isaac Newton já dissera que: – “Eu posso prever o movimento dos astros, mas não consigo entender a loucuras dos homens”, mostrando-nos a desorientada e enganosa busca do destino, ignorando que o universo é governado pelas leis da ciência e a ilusão de projetar o futuro não tem qualquer base científica.

A História registra que várias personalidades eram acompanhadas de astrólogos, como Adolfo Hitler; mas a característica sociológica dos brasileiros a respeito da astronomia é curiosa. Aqui, as pessoas temem despachos da macumba, mas são pouquíssimos os que interagem com os astrólogos. É a nossa diferença com os norte-americanos, entregues à crendice advinhatória.

Há dados da Prefeitura de Nova York que registram cerca de 90 mil endereços onde se vendem profecias como vimos no filme “Ghost”…. Nos EUA, o negócio dos astrólogos é rendoso; talvez por isto os nossos emigram e se dão bem por lá….

Carlos Drummond de Andrade

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

MIRAGEM

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br

“Procure a verdade numa aparição, num eco, numa imagem, numa miragem, num sonho, num tato…” (Subhuti, discípulo de Buda)

Sócrates – o filósofo da Grécia Clássica -, passeava modestamente pelo mercado de Atenas sob os comentários dos feirantes que o achavam um tolo abestalhado…. O que ocorria, entretanto, é que ele vivia abstraído na ânsia de encontrar explicações para a realidade.

O grande pensador deu razão antecipada ao poeta e compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, que cantou: – “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar”….

É com a ajuda socratiana que me obrigo, constrangido, a acusar os que elegem gurus infalíveis. Na sua maioria, não conseguem usar os sentidos para raciocinar e pensar por conta própria, envolvendo-se no encantamento ilusório da politicagem.

Estes néscios se algemam ao fanatismo e morrem de medo de pensar diferente dos seus condutores, acreditando fazer a coisa certa, mas terminam envolvendo-se numa miragem.

“Miragem” como verbete dicionarizado é um substantivo feminino originário do francês “mirage”, significando um efeito da refração e reflexão, fenômeno óptico frequente nos desertos. Cria na atmosfera imagens próximas e invertidas de objetos distantes.

Miragem tem como sinônimos: engano dos sentidos, fantasia, ilusão, quimera, sonho, e, figurativamente, chega a decepção. Será, por exemplo, algo que nos parece muito bom e por não ser real, nos desaponta.

Todos encontramos esta falsa realidade no correr de nossas vidas e alguns até acreditam que é real. Conta-se nos círculos intelectuais que o poeta italiano Giacomo Leopardi, ensaísta, filólogo e pensador, era de um pessimismo irremediável, e certa vez pensou em se suicidar; mas desistiu de fazê-lo. Mais tarde, escreveu vaidoso que considerava o suicídio coisa de gente simplória…

A desistência de enfrentar as adversidades atentando contra a própria vida, é um ato de coragem para alguns; e, para outros, o desvirtuamento da essência de viver. Para os espiritualistas é uma visão retorcida e condenável da própria existência.

Quando a pessoa humana falha como ser pensante, e foge dos valores éticos e morais, degrada-se; e na sua baixeza se afasta do meio social seguindo a banda dos seus bandidos de estimação….

Nem todos se entregam à facilidade de acompanhar o poder. Sem obter vantagens nem ter preguiça de se assumir como pessoa independente, exigem dos políticos um comportamento ético, principalmente daqueles que fazem da Política uma profissão. Os verdadeiros cidadãos intimam os ocupantes dos poderes republicanos a serem honestos, não praticarem corrupção, não desvirtuarem os cargos seja explorando empresas estatais ou praticando o “roubozinho” das rachadinhas.

O verdadeiro patriota não cai na miragem de que as atividades corruptas podem ser escalonadas como grandes e pequenas. Considera o político criminoso tanto embolsando um tostão quanto um milhão.

Esta demanda pela honestidade na política não é para medíocres; esses estão sempre a espera de tirar proveito de alguma coisa no joguete das ações governamentais ou na demagogia do capitão Bolsonaro  vivendo uma campanha eleitoral permanente e ininterrupta em vez de governar.

Persegue a remota chance da reeleição; e como esta fica cada vez mais longe, tenta um autogolpe, investindo contra o Estado Democrático de Direito. Para isto, elege continuamente inimigos, tornando-os alvos do ódio do seguidor “maria-vai-com-as-outras”, dos fariseus auto-assumidos “cristãos” e dos militares revanchistas.

Para os primeiros lembro Oscar Wilde assegurando não haver pecado igual ao da estupidez, e para os segundos, sugiro o axioma que “o mal não é ter uma ilusão, o mal é iludir-se”.

Além disto, no seu carreirismo desenfreado, o capitão Bolsonaro cria a caricata miragem de uma cruzada anticomunista fora de época, levando-nos a perguntar com Jô Soares: – ”E se o comunismo acabar, quem é que vai levar a culpa?

Fernando Pessoa

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

W. Butler Yeats

A ROSA DO MUNDO

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

 

Tradução: José Agostinho Baptista