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HERÓIS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

      “Hoje em dia, a história está se movendo rapidamente e heróis e vilões trocam seus papéis constantemente” (Ian Fleming)

O galardão de “Herói” vem das antigas mitologias que os tratavam como “semideuses”, assumindo uma posição intermediária entre os homens e os deuses.  Na Grécia mitológica, eram filhos de um ser humano com um deus.

No antigo Egito, uma exceção: Hórus, filho dos deuses Osíris e Isis, era invocado como herói; foi representado por uma figura humana com cabeça de falcão, como se vê nos hieróglifos; e na mitologia grega, seguiam a regra geral, mortais possuindo poderes sobrenaturais.

As antigas epopeias descrevem feitos extraordinários de Aquiles, Hércules, Perseu e Teseu, que inspirando personagens das histórias de quadrinhos…

Como verbete dicionarizado, Herói é um substantivo masculino de origem grega, hḗrōs,ōos, ‘chefe, nobre; semideus; herói; mortal elevado à classe dos semideuses’;  e nas línguas neolatinas, define-se como personagem de grande coragem ou autor de grandes feitos.

Agora, com o mundo de cabeça para baixo por causa da pandemia do novo coronavírus, a manada do abominável “politicamente correto” se aproveita das manifestações antirracistas para derrubar em vários países as estátuas dos heróis de épocas passadas, que conquistaram no seu tempo a reverência dos compatriotas.

Muitos deles, sem dúvida, foram colonizadores cruéis, corsários, piratas e traficantes de escravos, mas foram considerados “heróis” pelas sociedades a que serviram, enriquecendo-as.

Lembro dos corsários que deixaram seu nome na História, como o espanhol Amaro Pargo, o holandês Pieter van der Does e o inglês Francis Drake, que ganhou da rainha Elizabeth o título de “sir”.

Há, porém, de se perguntar o porquê dos governos edificarem os monumentos, e porquê os povos os cultuaram.  Na minha opinião, basta pesquisar sobre as riquezas que vieram dos saqueadores da África, como, por exemplo, da África do Sul, colonizada para o Império Britânico por John Graham, e o comandante Jan van Riebeeck, para a Holanda.

Estes ganharam estátuas dos usufrutuários da exploração, industrialização e comércio dos diamantes sul-africanos, tal qual Cecil Rhodes, Charles Rudd e Barney Barnato. Rodes foi tão poderoso que teve um país batizado com seu nome, a Rodésia.

… E a trágica conquista das Américas, assaltadas pelos europeus em nome de Cristo e sob as bandeiras da cruz (será cristofobia relembrar?). A História registra que os espanhóis e os portugueses destruíram civilizações locais e roubaram toneladas de ouro e prata nas regiões habitadas pelos astecas, incas e maias; e do subsolo brasileiro das Minas Gerais.

Após os movimentos de libertação das colônias europeias, os povos que conquistaram a independência levaram ao poder os seus líderes, sendo que muitos deles se tornaram ditadores, e ergueram estátuas para si próprios…

Por falar em estátuas… constata-se que “o culto dos heróis é mais forte onde a liberdade humana é menos respeitada”, como escreveu Herbert Spencer. Pelo sincretismo com as “religiões pagãs” o catolicismo atravessou os séculos adotando estátuas (batizadas de “imagens”), cruzes e ícones.

Nem o reformador Lutero, embora tenha abalado as velhas estruturas do papado, enfrentou essa idolatria condenada pela Bíblia; maneirou, pedindo que considerasse as imagens e cruzes “como testemunha, para a lembrança, como um sinal”.

Assim, heróis e santos se confundem na idolatria, na adoração primária das massas, que também cultuam pedras e árvores seguindo religiões primitivas; e tanto faz que sejam deuses ou demônios, antepassados ou ocupantes do poder, todos venerados fanaticamente…

… E muito pior do que esta obstinação negativa é vê-la estendida ao ativismo racial, como se expôs a cretinice incorreta em São Paulo, aproveitando-se do desparecimento na reurbanização do Anhangabaú da escultura “Diana, a Caçadora”. Propõe a sua substituição por uma “Diana Negra”…

Com o extremismo de faturadores do racismo às avessas, alguns idiotas conquistam 10 minutos de fama, mas evidenciam que os são de uma ignorância estatuária!  Nem os radicais afro-americanos dos EUA, tão copiados por eles, pensariam neste absurdo, pois, escolarizados, sabem respeitar a cultura universal…

 

PENICILINA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A ciência é o grande antídoto do veneno do entusiasmo e da superstição. ”(Adam Smith)

Aos fundamentalistas que se mostram – uns mais outros menos agressivos – contestadores dos avanços científicos, ignorando a passagem de Pasteur, Fleming, Sabin e Salk pelo mundo, levaram-me a procurar o registro histórico de um caso que ouvi do meu pai; como nada encontrei tentarei reproduzi-la.

Vai lá com as minhas palavras: – “Homenageado num congresso médico, Alexandre Fleming, no discurso de agradecimento, contou que quando menino caiu numa piscina e estava prestes a se afogar quando um rapaz o salvou… e o moço chamava-se Winston Churchill…

“ – ‘Que coincidência’, comentou uma médica; – ‘Se o doutor Fleming não tivesse sido salvo por Churchill, o nosso mundo não conheceria a penicilina…’.

“ – ‘O curioso’, retrucou outro congressista, – ‘é que se Churchill não tivesse salvo Fleming, o mundo não teria uma personalidade como Winston Churchill’; e contou um fato desconhecido por muitos:

“- ‘Quando combateu na África do Sul, o Primeiro-Ministro britânico, esteve gravemente enfermo, e sir Alexandre Fleming foi de avião ao Continente Africano levando penicilina e curou-o’”.

Esta história é um dos tijolos que construíram o meu respeito pela ciência médica. Por isso, sempre que posso, cito e elogio os cientistas, principalmente os brasileiros que operam na Fundação Oswaldo Cruz (onde tenho minha filha, Paula, pesquisadora) e no Butantã, uma referência mundial.

Reportando-me a Oswaldo Cruz lembro-me que este cientista, que desde criança mostrou interesse pela microbiologia, formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de janeiro em 1892 e a sua tese de doutorado foi “A veiculação microbiana pelas águas”.

Fez numa viagem de estudos a Paris, onde permaneceu por dois anos como membro efetivo do Instituto Pasteur. De volta ao Brasil, participou da comissão que estudava a proliferação de ratos, responsável por um surto de peste bubônica na cidade de Santos.

Retornando ao Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz lançou uma campanha sanitária de prevenção contra as doenças que afligiam a população, febre amarela, peste bubônica e varíola.

Então capital federal, o Rio sofria com a febre amarela endêmica, e o Cientista, enfrentando a opinião geral, lançou a suposição (que se mostrou verdadeira) de que a transmissão da malária se devia ao mosquito; e para combater o inseto, implantou medidas sanitárias com fiscais visitando casas, jardins, quintais e ruas, para eliminar focos de insetos.

Houve resistências, com o povo estimulado pelos jornais e políticos oposicionistas, e a reação foi muito grande. Mesmo assim a campanha deu certo.

Mais tarde os cariocas sofreram a epidemia da varíola, levando Oswaldo Cruz a propor a vacinação em massa da população; foi quando o negacionismo da época se mostrou tão virulento quanto as doenças… Então ocorreu o que se convencionou chamar de “Revolta da Vacina”, que foi derrotada pelo Exército, mas o governo federal cedeu à pressão e suspendeu a obrigatoriedade da imunização.

Como a verdade sempre prevalece, o reconhecimento pelos resultados positivos obtidos graças ao trabalho de Oswaldo Cruz veio em 1908, quando ele foi aclamado como herói e o Instituto de Microbiologia recebeu o seu nome.

Dez anos depois, em 1928, registrou-se a descoberta da benzilpenicilina, ou penicilina G, pelo médico e bacteriologista escocês Alexander Fleming, sobre quem narramos a passagem histórica acima. Este antibiótico pioneiro passou a ser amplamente utilizado na medicina, salvando milhões de vidas.

Max Weber, que conseguiu a proeza de juntar a Sociologia e a Economia na sua obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, escreveu que “a crença na verdade científica não procede da natureza, mas é produto de determinadas culturas”, assertiva que nos dá a chance de perguntar: “Como se pode negar o que a humanidade, e nós brasileiros, conquistamos através da Ciência? ”.

 

 

 

MODISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasda@uol.com.br)

“A moda sai de moda, o estilo jamais…” (Coco Chanel)

Para varrer para debaixo do tapete o abandono do meio ambiente pelo Governo Bolsonaro e sua carreta carregada de mentiras, assistimos na semana passada a criação de uma nova moda: atacar a Argentina pela volta do kitchernismo, –  a ressurreição do narcopopulismo corrupto naquele país.

Os maestros que dirigem os percussionistas da orquestra bolsopetista se aproveitam da realidade portenha, porque os hermanos, veem continuadamente repetindo os mesmos erros “descamisados”, elegendo os herdeiros bastardos do peronismo.

Mas o refrão orquestrado nas redes sociais não está na partitura do tango argentino; tem apenas o objetivo diversionista, com a maioria dos batedores de tambor tocando “de ouvido”, sem saber o que realmente se passa…

A massa de manobra apenas papagaia o discurso do “novo Itamarati” por puro modismo, ignorando a contradição de bater numa tecla só, fora da agenda traçada dos Estados Unidos dos ataques copiados contra Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, a estratégia eleitoral de Trump, uma manta virtual para a frígida direita populista nos States.

Faz-se dessa maneira a ação de iludir os outros (iludindo-se, também), debitando na conta corrente do jogo de facção, a eliminação do princípio democrático de um governo para todos e não aquele do “nós e eles” transposta dos governos lulopetistas derrotados nas últimas eleições.

Afinal, derrotamos nas urnas a corrupção lulopetista, mas caímos no blefe da convergência dos extremos… Tudo que era feito anteriormente retorna descaradamente; a aliança com os picaretas do Congresso em nome da “governabilidade”, a distribuição de cargos para pessoas suspeitas e a poderosa intervenção jurídico-policial em defesa de “bandidos de estimação”.

Tudo na medida “fashion” dos que acompanham a moda, na presunção do vanguardismo, sem ter aprendido que nada há de novo sob o sol, como reza o ditado popular, nascido das lições do Eclesiastes.

Dicionarizado, o verbete “Moda” é um substantivo feminino, herdado do Latim “modus,i”, que designava para os romanos “jeito, maneira e medida”. No português, é o jeito de se vestir em determinada época, indicando, também, indústria do vestuário sazonal.

O Marquês de Maricá criticava os jovens da sua época por serem “solícitos” na maneira de trajar-se, mas negligenciando no respeito aos idosos… E é dos antigos que aprendemos que a moda nada tem de original. Recordo uma anedota contada por um dos “setentões” do Twitter que exemplifica isto.

Vou omitir o nome do autor; ele disse que conversando com um sobrinho, educado nos padrões da alta classe média, o rapaz perguntou-lhe porquê, sendo um homem bem relacionado socialmente, teimava em usar sempre os mesmos ternos, camisas, gravatas e sapatos antiquados, sem acompanhar a moda.

O nosso amigo, homem de impecável formação intelectual, filosofou inteligentemente: – “Na sociedade, tudo volta sempre de 20 em 20 anos… Neste caso, usando sempre o mesmo modo de vestir, já estive três vezes no rigor da moda…”.

A piada vale para refletirmos sobre o assunto. Remoendo a teoria do retorno da moda, vejo que ela vale para uma pá de coisas, mas na política brasileira, não; a demagogia, o mandonismo e o nepotismo que vigoraram nas capitanias hereditárias seguem na moda a cada eleição e a cada governo…

Assim, a politicagem atravessou do Império para a República, alterando apenas o título de barão para o de “coronel”, e as mesmas oligarquias se mantiveram. Continuam em voga a enganação, a compra de votos, e a traição às promessas eleitorais, e o estilo se mantém como refletiu a estilista francesa Coco Chanel, nossa epigrafada.

O estilo da politicagem nos leva ao poeta Jean Cocteau que observando a leviandade dos ocupantes do poder, disse: – “É isso que torna grave a sua insânia”. Isto reforça a necessidade de enfrentar as tolices de um Presidente e da familiocracia comprometida com intimidades espúrias, alianças suspeitas, e apoiada na moda de grupos de pressão informatizados….

… E o que nos alivia diante disto é a sabedoria de Bernard Shaw: “A moda, afinal, não passa de uma epidemia induzida”.

 

 

ASSUMIR

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Pessoas deveriam ter coragem de assumir seus próprios erros, assim como têm orgulho em exibir suas qualidades” (Autor desconhecido)

Um dos leitores dos meus artigos perguntou outro dia se eu tenho religião… não sei se foi uma dedução por frases garimpadas nos meus textos, ou uma provocação para me queimar no tribunal do fervor religioso… Eu respondo: Tenho, na verdade, de seis a oito religiões, todas elas baseadas na crença no Deus que Spinoza chama de “Alma do Universo”.

Adotei este conceito graças ao conhecimento de uma entrevista em que o cientista Alberto Einstein citou a teoria do filósofo Baruch Spinoza, que tenho citado nos meus artigos. A avaliação de Einstein valeu muito para que eu fosse em busca da ideia “de um deus que não se preocupe com nossos problemas pessoais”…

Com isto, encontrei a base que evitou a minha queda para o ateísmo, provocada pelo excesso de fantasia e pouca robustez das religiões judaico-cristãs; assim, acolhi e assumi que “A essência de Deus pressupõe a sua existência. A substância divina é infinita e não é limitada por nenhuma outra ”.

Ao aplicar o verbo assumir na primeira pessoa do presente indicativo, trago com ele a responsabilidade consciente por esta concepção doutrinária. Como verbete dicionarizado, “Assumir” é um verbo transitivo direto com origem no latim “assumptere”, tomar para si. Significa aceitar, acolher, admitir, e quando se trata de opinião, responsabilizar-se.

As lições acadêmicas da Filosofia usam “assumir” para indicar a aceitação de uma hipótese viável; do mesmo jeito que é possível encontrar-se nos textos bíblicos suposições e conjecturas perfeitamente aceitáveis.

Condenável na observação teosófica é o fatalismo. Recolhe-se dos Evangelhos, por exemplo, que ninguém sabe o dia em que vai morrer. Escreveu alguém – esqueci e quem puder indicar o faça – que “os condenados no corredor da morte esperam, até o derradeiro minuto, um indulto”.

A História registra outro retrato disto. O notável escritor russo Fíodor Dostoievski, autor dos memoráveis “Crime e Castigo, “O Idiota” e “Irmãos Karamazov”, foi condenado à morte, e já estava diante de um pelotão com as armas carregadas, quando chegou a ordem do Czar suspendendo a execução.

Há, por outro lado, múltiplos exemplos de pessoas que enfrentam com dignidade o fim da vida, assumindo tranquilamente a situação definitiva. Narra-se que o advogado Raymond Desèze foi indicado pelo rei Luís XVI para defende-lo no mais importante julgamento da Revolução Francesa.

Desèze apresentou o poeta, crítico e tradutor François Malherbe como testemunha de defesa e somente por participar do processo, Malherbe foi mais tarde acusado como “monarquista”, e foi julgado e condenado à guilhotina. Como era um intelectual avançado ironizou os supersticiosos ao tropeçar nos degraus do cadafalso, dizendo: -“Que mal sinal! Um romano antigo voltaria para casa…”

A superstição é irmã gêmea do fatalismo, e ambos são uma peculiaridade de uma religião mal interpretada, como alertava o pastor Martin Luther King, assim como a politicagem, filha bastarda da Política com “P” maiúsculo, é uma característica do tempo que atravessamos.

Vejam bem. Nunca vimos um ocupante do poder assumir que cometeu um erro, um engano, um desempenho prejudicial no governo. Agora mesmo, que estamos enfrentando a grave pandemia do novo coronavírus e suas consequências mortais da covid-19, não vimos ainda o Presidente, nem os juízes, governadores, nem congressistas ou prefeitos, reconhecendo que erraram em alguma decisão tomada.

E foram vários os erros, de todos eles. É por isso que não lhes reconheço como os líderes políticos que eu gostaria de ter. Deixo John Maxwell falar por mim: “Liderança é assumir responsabilidades enquanto outros inventam justificativas”.

TERRORISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não há nada mais servil, desprezível, covarde e tacanho que um terrorista ” 
(Visconde de Chateaubriand)

Sempre gosto de dizer que as palavras nascem, evoluem, vivem intensamente, adoecem, às vezes se curam e voltam à vida, ou são enterradas mortas…. Vou quase sempre em busca das palavras que gosto na UTI da Gramática.

Ao pensar no substantivo masculino “Terrorismo”, descobre-se que é um galicismo nascido na Revolução Francesa, “Terrorisme” (do latim terror, terroris, “terror, espanto”), empregado em acusação ao líder dos jacobinos, Maximilien de Robespierre, que defendeu a revolução continuada e permanente, implantando o Reino do Terror (1793-1794).

Como verbete dicionarizado, significa uso de violência, física ou psicológica, como meio de repressão; foi empregada pela primeira vez em 1794 como indicativo da doutrina dos partidários do Terror, isto é, dos seguidores de Robespierre.

A palavra foi recolhida mais tarde e usada pelos anarquistas na estratégia conhecida como “Ação Direta” que pregava o atentado a prédios públicos e assassinatos de personalidades do poder.

Condenada pela opinião pública a atividade anarquista da “propaganda pelo fato” foi abandonada, ressurgindo como “Sabotagem” no anarco-sindicalismo usada em operações grevistas levadas ao extremo, com os radicais jogando tamancos (sabot) nas máquinas industriais para quebra-las.

A palavra Sabotagem que está na UTI da Gramática, teve os seus momentos de glória na 2ª Guerra Mundial, praticada pelas organizações da resistência dos povos em países ocupados pelos nazistas. Foram notáveis os atos de destruição de trilhos ferroviários na França e na Iugoslávia, e a destruição de comboios logísticos alemães pelos russos na retaguarda do invasor hitlerista.

O Terrorismo, ressurgiu também na 2ª Grande Guerra com a visão sociológica nascida do estudo das ditaduras nazifascistas, vendo-as como “um sistema governamental que se impõe por meio do terror, sem respeito aos direitos e às regalias dos cidadãos”.

… E nos meados do século passado, o Terrorismo recrudesceu violento, radical e sistemático, adotado por organizações extremistas, como os separatistas bascos na Espanha, curdos na Turquia e no Iraque, mulçumanos na Caxemira e organizações racistas nos EUA.

Criou até escolas no Oriente Médio e na África; e, posteriormente, se espalhou pelo mundo afora, atingindo o pico com Osama Bin Laden e o atentado de 11 de setembro em Nova York. Assim, tornou-se o inimigo nº 1 da humanidade.

Não é de hoje que cito nos meus escritos o cronista e romancista ítalo-argentino, Pittigrilli, que muito contribuiu para a leitura apaixonada da minha juventude, e numa das suas crônicas encontrei a mais emocionante condenação do terrorismo que conheço.

Narra Pittigrilli: – “Numa família proletária, uma mãe chamou um médico para atender o filho muito doente e o doutor diagnosticou: difteria; e se apressa a fazer uma laringotomia para salvar a criança. Quando inicia o procedimento, ocorre uma perda de energia e as luzes se apagam. Passa o tempo e o menino morre. Nisto, entra afobado o pai, militante extremista, e diz à esposa que atirou uma bomba na usina elétrica e deixou a cidade às escuras. – “Sei”, replica a mulher, “mas ao fazer o que os teus chefes mandaram, assassinaste o teu filho”.

A inconsciência na prática de um mal em nome de um partido, de uma ideologia ou em obediência aos líderes, fica retratada nesta historieta. Espero que as pessoas que tomam conhecimento dela, pensem bastante sobre isto.

O crime não é uma enfermidade como ensinava Cesare Lombroso, veementemente criticado pelo respeitado professor Hélio Gomes numa aula de Medicina Legal que assisti.

Mas os terraplanistas, aliados a conhecidos corruptos, pregam uma volta ao passado tenebroso da ignorância e do fanatismo, ressuscitando Lombroso ao defender a imunidade de “doentios” criminosos com a panaceia do “foro privilegiado”.

Diante disto, defendo que lutemos para evitar que o Brasil se transforme num hospital manicomial onde circulem impunes autores de atentados terroristas, sejam materiais ou psicológicos…

 

 

SERMÕES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”  (Sermão da Montanha)

Um dos meus seguidores (que não autorizou a divulgação do nome) estranhou a citação que fiz noutro artigo do “Sermão do Diabo”, uma paródia satânica do belo “Sermão da Montanha” de Jesus Cristo, citado por Mateus. É um divertido gracejo literário do grande Machado de Assis.

Li-o, faz muito tempo, no livro “Páginas Recolhidas”, editado nas obras completas de Machado pela antiga e respeitável Editora Globo S/A. Na época, apenas achei graça; relendo mais tarde, achei uma crítica inteligente ao que o escritor chama “o sal do Money Market”.

Nesses tempos trágicos de uma pandemia letal, a prédica diabólica parece dirigida aos negacionistas, obtusos inimigos dos avanços científicos. Está claro que eles ignoram a História da Medicina, em particular o capítulo da antissepsia – que estabelece a resistência à propagação de bactérias e vírus na pele e nas mucosas.

A antissepsia vem dos começos do século 19, quando ainda se desconhecia a existência dos micro-organismos e pouco se entendia sobre os germes. Deve-se ao médico e cientista austro-húngaro Ignaz Semmelweis, a necessidade de medidas antissépticas para evitar infecções, como o ato de lavar as mãos.

Sobre Semmelweis, corre uma pitoresca história. Quando ele trabalhava no Hospital Geral de Viena e dava aulas na Escola de Medicina, recomendava a assepsia rigorosa; mas os estudantes incultos desdenhavam dele, sujando propositalmente as mãos antes de tocar nos pacientes…

Esta cretinice subsiste em pleno século 21 quando os sobreviventes brucutus da Idade da Pedra se negam a cumprir medidas preventivas contra o novo coronavírus depreciando a higiene, dizendo que usar máscara “não é coisa de macho” e até desconsiderando a aplicação de vacinas…

Estes negacionistas se esfregam com as “testemunhas de Jeová” como asnos na areia, porque esta seita fundamentalista proíbe a transfusão de sangue, impedindo o procedimento até no tratamento essencial da leucemia, que, sem ele, leva à morte. O menosprezo pela Ciência é próprio de considerações religiosas e/ou pseudo filosóficas.

Dos fundamentalistas religiosos pouco se tem a dizer, é explícito no fanatismo; e, quanto à Filosofia, lembro uma anedota contada pelo escritor Pittigrilli; “Passeando pelo Mercado de Atenas um Filósofo distraído chamou a atenção de uma florista que gritou: – “É um filósofo! ”, e logo em seguida ouviu-se vaias, e uma verdureira lhe atirou legumes vencidos.

– “Porquê, perguntou o Filósofo. – “Porque és um filósofo disseram em coro. – “Mas o que é um filósofo”? Perguntou o Filósofo. Ninguém soube dizer, ninguém sabia…

Trocando o Filósofo por um Cientista, e desenvolvendo esta historieta, cairemos na cretinice dos negacionistas que botam no lugar dos cientistas uma meia dúzia auto-assumidos filósofos que por cobiçoso ciúme não reconhecem o valor da Ciência.

Assistindo o médico televisivo Dráuzio Varela, o ex-astrólogo e auto-assumido Olavão soprou no ouvido do presidente Jair Bolsonaro (meio surdo pelo cerúmen da insciência), uma interpretação desprovida de dados que a pesquisa científica ainda não alcançara sobre o novo coronavírus e a covid-19.

Foi assim que o Presidente, convencido, disse que a pandemia não passava de uma “gripezinha”; e, pior do que isto, se obcecou pela cloroquina, remédio que ouviu dizer que era eficaz para os soldados na Amazônia….  De lá para cá não consegue se libertar desses equívocos.

Como os sermões têm o poder de emocionar e conscientizar as pessoas de boa vontade, seria interessante que os pastores evangélicos e padres católicos politiqueiros, que estão achegados ao poder, aconselhassem o presidente Bolsonaro a ler o Sermão da 4ª-feira de Cinzas: “Pulvis es, tu in pulverem reverteris”, que traduzo como a minha mãe ensinou: – “Tu és pó, e ao pó voltarás”.

Quanto aos patriotas resistentes ao besteirol negacionista, que pratiquem o que ensinou Benjamin Franklin: – “Um bom exemplo é o melhor sermão”.

DESILUSÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Uma cruel desilusão / Foi tudo o que ficou / Ficou pra machucar meu coração” (Ari Barroso)

Entristece-me ao ver que entre os defensores oficiais da Amazônia, há alguns que nunca estiveram na região e sequer viram a floresta, mesmo nos documentários da ‎National Geographic… é por isto que pedimos mais cuidados na escolha destes agentes governamentais.

Conhecer a realidade é exigido até para a descrição literária. Diz-se, por exemplo, que o dramaturgo espanhol Calderón de La Barca viajou mais de um ano com um circo ambulante para escrever sobre a vida dos acrobatas; e que o admirável Èmilie Zola andou de carroça pelos campos franceses colhendo informações para o seu livro “La Terre”.

Os historiadores, que não podem voltar à pré-história – como a gente assiste nos filmes “De Volta ao Futuro” –, se valem dos arqueologistas e panteologistas para desenvolver teses sobre a Pangeia e a formação dos continentes…

Explico, porém, que minha censura à Comissão chefiada pelo vice-presidente Hamilton Mourão não individualiza ninguém, nem a formação profissional e intelectual de nenhum, civis ou militares; baseia-se nas críticas divulgadas na imprensa internacional e nas ameaças de retaliação de vários países contra o Brasil.

O problema da Amazônia vem de longe e não apenas às atuais queimadas e ao desmatamento. Ocorre com a invasão de “missionários” para catequizar os indígenas, com a infestação de Ongs estrangeiras prospectando o subsolo, vê-se nos invasores de terras da União e nos posseiros apaniguados por políticos, nas marcações de terras indígenas e no garimpo ilegal.

A defesa da Amazônia abrange tudo isto. Mas os ambientalistas especificam a situação, estranhando as medidas de prevenção de sempre, condenando a demora burocrática para solução de casos imanentes e sabendo que não é somente um “passar de boiada”, como propôs o ministro Ricardo Salles; vem de gestores antigos, José Sarney, Fernando Henrique, Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Categóricas, no momento, são as tentativas de fraudar os dados do Inpe ou mesmo escamoteá-los para evitar que a realidade seja exposta. A intervenção do Governo Federal no Inpe é deplorável, mostrando o desprezo pela preservação da Amazônia. Firma-se na política arrivista da demagogia, auto-assumida “de direita”.

O coordenador de Comunicação do Observatório do Clima, doutor Claudio Angelo, resume numa frase o frenesi bolsonarista pela “conquista da Amazônia” por garimpeiros, madeireiros e pecuaristas: – “O Inpe é o novo Ibama”.

Este estudioso do Clima referiu-se no site “Direto da Ciência” ao arruinamento pela atual gestão do Ibama, escrevendo: – “Demorou mais de um ano e meio, mas finalmente o governo Bolsonaro parece ter aprendido o que fazer para não ter mais dor de cabeça com os dados de desmatamento. Vai destroçar o Instituto”.

É isto que vemos o Presidente fazer, valendo-se de um Ministro velhaco que propôs em reunião ministerial aproveitar-se da pandemia para escancarar o território.  Bolsonaro terceiriza a responsabilidade levando-nos ao “Sermão do Diabo”, que o grande Machado de Assis deixou na sua rica antologia “Páginas Recolhidas”: “Quando quiseres tapar um buraco, entendei-vos com algum sujeito hábil, que faça treze de cinco e cinco”.

Este ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tangedor da boiada, juntou-se ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão, num infeliz vídeo propagandístico negando que a Amazônia esteja queimando, como se todo mundo esteja cego e surdo, e que o fumacê não estivesse alcançando as regiões Sul, Sudeste…

Assim, no chove não molha da militarização do problema, tudo continua como d’antes no quartel do Abrantes. A novidade é o Presidente propondo a compra de um satélite “sem ideologia” para monitorar a região, um robô voyeur ineficaz para coibir os crimes ambientais.

Esta situação enviesada, como uma biruta de aeroporto, não desilude os cultuadores da personalidade de Bolsonaro, na maioria agradecidos pelas “ações sindicais” de melhoria salarial dos fardados; mas machuca o coração dos que votaram nele contra a corrupção lulopetista pensando num futuro melhor para as próximas gerações; e vivem uma cruel desilusão.

 

 

MENTIRA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O primeiro pecado da humanidade foi a fé; e a primeira virtude foi a dúvida” (Carl Sagan)

Joseph Ernest Renan, escritor, filósofo, teólogo, filólogo e historiador francês, escreveu “A vida de Jesus”, livro dedicado à historicidade do Cristo, em que se considera ter trazido a criação de uma “ciência irreligiosa”. O grande Machado de Assis chama esta interpretação de “verificação racional do cristianismo”.

Renan visitou a Holanda nos meados do século 19 e em Haia, diante do monumento erguido em homenagem a Baruch Spinoza, escreveu: “Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas — pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino”.

Baruch Spinoza teve a audácia de no século 17 quebrar os grilhões dogmáticos que obrigavam (e ainda obrigam) os cristãos a obedecer aos cânones adotados em concílios e/ou escritos por ‘doutores da Igreja’, sem qualquer intervenção divina.

Aceitando isto, me permito a questionar os chamados “pecados capitais”, que são sete, onde a Mentira não é encontrada… O papa Gregório Magno oficializou-os no século 6, com o cuidado de partir do mais brando para o mais ofensivo; são Luxúria, Gula, Avareza, Preguiça, Raiva, Inveja e Soberba.

Esta lista rendeu outras tantas, mas nenhum incluiu a mentira. Talvez como autodefesa dos seus autores… Mahatma Gandhi fez a sua, a dos Sete Pecados Sociais: política sem princípios; riqueza sem trabalho; comércio sem moralidade; ciência sem humanidade, colaboração sem sacrifício; prazer sem consciência e conhecimento sem caráter.

Os teólogos antolhados, tanto católicos como evangélicos, seguem aberta ou disfarçadamente a tese crítica de Tomás de Aquino, considerando a Luxúria como a subordinação fanática pelo dinheiro, pela distinção e pelo poder. E para justificar a não condenação da Mentira, dizem que por Inveja, alguém pode mentir….

Nos Provérbios (6.16-19), lê-se: “Seis coisas aborrecem Deus, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos”.

Será que tal consideração abrirá os olhos dos tolos algemados das convicções impostas politicamente e fervor aos seus líderes colocando-se a serviço deles? (E no caso brasileiro, tristemente, isto se estende até aos familiares do Chefe).

Como a pergunta traz em si a resposta, entenda-se que há quem prefira ter fé em vez de ter dúvida… para estes, lembro Oscar Wilde que pôs na boca do personagem de uma das suas peças que “não há outro pecado além da estupidez”.

Se mentir não é pecado, é mais do que censurável, é um crime por contagiar muitos como um vírus, e não há vacinas imunizadoras para quem não ousa pensar por si, pois as ideias próprias são os únicos anticorpos contra os mentirosos.

E uma coisa é certa: aonde haja um mentiroso os que estão à sua volta mentem pelo contágio, porque o bacilo da mentira é epidêmico…

Isto fica comprovado quando o ministro Paulo Guedes afirma que no ano que entra o Brasil se nivelará com as nações mais desenvolvidas e que a indústria brasileira pode esperar câmbio alto, juro baixo e impostos menores para 2021…

Dá para conferir, também, depois de pausada a pesquisa da vacina da Oxford, o que disse o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, que ’em janeiro, a gente começa a vacinar todo mundo’…

A propagação das mentiras do governo federal tem a sua Wuhan no Palácio do Planalto; ali se encontra o pecado da mentira, que é a essência da familiocracia populista ali instalada.

Os brasileiros conscientes não podem ficar desatentos e impassíveis diante disto; acordem com Dante, que alertou: “no inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise. ”

 

O DEVER

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Minha espada não tem partidos”  (Luiz Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias)

Li certa vez numa publicação da Companhia de Jesus a narrativa (não sei se uma alegoria ou representação histórica) sobre Santo Inácio de Loiola, contando que ele acabara de escrever uma carta com instruções para seus seguidores e sofreu uma crise cardíaca. O padre-secretário apressou-se a lhe atender, mas ele, agonizante disse: – “Cuide primeiro da carta que é de interesse da Companhia…”.

Isto é, sem dúvida, uma bela ilustração do senso de dever. Coisa de Santo. O nosso epigrafado, o patrono do Exército, Duque de Caxias, manteve, como soldado, uma conduta que é um grande exemplo de ética, e, principalmente, de respeito ao dever consciente.

Infelizmente, este herói da Pátria não está sendo seguido como o fizeram combatentes da Guerra do Paraguai, quando ele exortou: “Sigam-me os que forem brasileiros”.

Temos assistido muitos homens públicos, civis e militares, alheios ao cumprimento de obrigações com a cidadania e alguns até mesmo de agradecimento aos que lhes ajudaram a se eleger.

Agora mesmo, mostrando desprezo pela Lei e pelo Dever, assistimos o presidente Jair Bolsonaro cometer uma deplorável falta de respeito às leis vigentes e à educação dos futuros cidadãos sem atender ao mínimo de atenção de que deveria servir de modelo para os seus compatriotas.

Visitando a cidade de Eldorado, no interior paulista, o Transgressor descumpriu o decreto estadual que obriga o uso de máscaras de proteção contra o novo coronavírus em locais públicos; e não satisfeito em infringir a lei não usando o acessório medicinal, mandou que uma criança que se aproximou dele tirasse a máscara para cumprimentá-lo.

Que triste figurino presidencial nós temos! Como não bastasse falar sem pensar, agir sem estudar e governar para toda Nação e não apenas para uma fração, ele está moldando um comportamento abominável para os seus fanáticos seguidores.

Outro dia (5/set), um descerebrado cultuador da personalidade do Presidente, escreveu no Twitter que tem “vontade de socar a cara de quem está usando máscara nas ruas”, num impulso insano que está a exigir uma assistência psiquiátrica.

Admito, sinceramente, que muitas pessoas não se sentem à vontade usando o equipamento defensivo contra a covid-19; acho que até podem se arriscar não cumprindo as orientações médicas de cautela. Mas, mesmo sem ser milico, acompanho o Duque de Caxias, exigindo obediência às regras sócio-políticas estabelecidas.

Dos fardados, ordena-se disciplina. Se não formam com o regulamento; se não cumprem o dever, estão certamente de passo errado na marcha pela Ordem e o Progresso, para um Brasil culto, desenvolvido e justo.

Já cobrei em artigos anteriores uma assessoria inteligente e ponderada ao senhor Presidente da República. Alguém com autoridade moral para dizer-lhe que ele não é mais um deputado do “baixo clero”, nem o sindicalista defensor de aumentos salariais e vantagens para as corporações militares, mas o Chefe da Nação.

Para assumir uma postura de estadista, como tiveram (pode-se discordar politicamente, mas reconhecer o comportamento) Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck e Ernesto Geisel, deve ser o espelho de altivez impondo respeito à cidadania.

Caso queira continuar um capitão lendário eleito pelos seus seguidores – como capitães lendários foram do outro lado da moeda seus inimigos Lamarca e Prestes pelos deles –, o presidente Jair Bolsonaro deve se habituar a assumir a postura condizente com o cargo que ocupa; mas se quiser, pode manter o comportamento desaforado dos antigos cabos de polícia das cidadezinhas sertanejas…

 

 

 

VIVER

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A vida é muito bela para ser insignificante ” (Chaplin)

Humphrey Bogart, um dos mais intelectualizados atores do cinema-norte-americano, casado com a não menos preparada atriz Lauren Bacall, e foi protagonista do clássico “Casablanca” contracenando com Ingrid Bergman, deixou-nos um perfeito axioma sobre a vida, dizendo: – “Envelhecer não é uma coisa tão terrível, quando se pensa na alternativa…”.

Despertei para isto ao receber a mesma lição de um motorista de táxi, aonde entrei desajeitado carregando sacolas de supermercado e me desculpando, e exclamei: – “Envelhecer é uma merda! ”… E o chofer, que também já deixara a juventude para trás, consolou-me com a singeleza do homem comum: – “O pior é não envelhecer…”.

O amor pela vida para o gênero humano é muito mais do que o instinto animal da sobrevivência; é a consciência de um milagre, seja na felicidade ou mesmo na desdita; o fenômeno natural de nascer, aprender a viver e conviver com os semelhantes, discernindo o que é bom ou ruim para comportar-se socialmente, é uma dádiva.

Não sei por que é difícil para muitas pessoas entenderem que possuem um pensamento lógico que lhes atribui a faculdade de avaliar o seu próprio comportamento para manter uma conduta coerente com os outros.

É preciso compreender e se convencer de que a nossa passagem pela vida é curta demais diante da eternidade, por isto é preciso valorizá-la, como ensinou o nosso epigrafado, Chaplin: “A vida é um teatro sem ensaios. Cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche, sem aplausos”.

… E o admirável Bernard Shaw, Prêmio Nobel de Literatura, excelente em todas atividades que teve como dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista, pôs na boca da estátua do deus egípcio Ra, na peça “César e Cleópatra”, o discurso: – “Não me eternizei como pedra para fazer-vos recuar comigo dois mil anos; o caminho dos deuses é o caminho da vida e só. Não preciso reverências”.

Como diz a palavra divina, o caminho da vida deve ser seguido conscientemente, observando que o importante é viver o presente, o dia de hoje, como lembrou num dos seus livros Chico Xavier: – “O ontem já se foi e o amanhã talvez não venha. ”

É glorioso o pretérito perfeito do verbo viver, é uma festa para a matéria e o espírito que deve nos alegrar por toda existência, se soubermos evitar a tragédia de que a perspectiva de vida morra dentro de nós.

Assim, é que vejo a realidade no isolamento social em solidariedade aos que venham precisar de serviços de Saúde e em defesa da vida. Torço pela corrida do bem pela vacina contra o novo coronavírus, desprezando o negativismo desumano e cego diante das mais de 120 mil mortes por covid-19 no Brasil.

Neste país abençoado por Deus, mais do que os políticos egocêntricos, carreiristas e em grande parte corruptos, temos pastores evangélicos politiqueiros e medíocres padres católicos ávidos de propaganda pessoal, assumindo o lugar dos vendilhões do Templo que Jesus Cristo expulsou.

Enfrentando esta súcia, venho me acomodando à realidade virulenta, e disposto a me adaptar a ela obedecendo às instruções médico-científicas, desprezando o “achismo” da politicagem populista que antecipa insensatamente a campanha presidencial de 2022.

Assim, desqualifico os picaretas redivivos do “baixo clero” e do “centrão”, em plena consciência de que com eles ou sem eles, viver é um privilégio dos seres humanos. Por isto, digo “Não” à canalhice herdada “dos aventureiros, degredados, patifes e oportunistas que queriam fazer fortuna e voltarem “fidalgos para Portugal”, como lecionou outro dia o nosso @RadioRockPuro.

Dessa maneira, escapo do castigo que os corruptos e seus cúmplices sofrerão com a praga de Albert Schweitzer:  “A tragédia do homem é o que morre dentro dele enquanto ele ainda está vivo. ”