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A MAGIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O princípio da Causa e Efeito:  qualquer causa tem seu efeito.   Qualquer efeito tem sua causa” (Hermes Trismegisto)

Contaram-me a história de um prefeito da Zona da Mata mineira, que redigia os seus próprios decretos, e num deles, sobre um feriado, escreveu que o comércio da cidade deveria ficar “hermeticamente fechado”. Além do pleonasmo, é quase certo que o político não conhecesse a origem da palavra “hermético”.

A palavra Hermético vem de longe, no tempo e no espaço. Originou-se do nome do filósofo, legislador e médico do Antigo Egito, Hermes Trismegisto, nosso epigrafado, que viveu entre os anos 1.500 aC e 2.500 aC.

Trismegisto escreveu vários livros de pesquisas médicas, observações políticas e sociais, tratados de teologia e experiências alquímicas. Quase todos os seus escritos se perderam nas invasões sofridas pelo Egito, e certamente algumas delas foram incineradas no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Uma das suas obras, conhecida como ‘Tábua de Esmeralda’, circulou durante séculos entre os letrados árabes e foi registrada no livro “Segredo dos Segredos”, em árabe Kitab sirr al-Asrar. Diz-se que a Tábua inspirou os antigos filósofos gregos, destacando-se entre eles Aristóteles, Platão e Sócrates.

A Tábua de Esmeralda (ou Tábua Esmeraldina) não tem versão em grego, embora haja a referência histórica de que foi traduzida do grego para o siríaco e do siríaco ao árabe por Iáia de Antioquia, um tradutor relativamente famoso do século IX.

É importante e curioso o legado cultural contido neste documento que é um tratado guardião de antiquíssimas observações sobre a arte de governar, astrologia, ética, fisiognomonia, medicina e química.

Foi descoberto e traduzido para o inglês no século 13, pelo frade franciscano Roger Bacon, cujo mérito intelectual proporcionou-lhe o título de “Doctor Mirabilis” (“Doutor Admirável”, em latim).

A curiosidade pessoal do frei Roger Bacon e o seu prestígio acadêmico levou ao conhecimento das universidades de Oxford e de Paris as experiências químicas da Tábua, contendo os processos experimentais da liquefação, purificação, oxidação e evaporação, além da obtenção em laboratório de diversos ácidos, dando origem à Alquimia.

A palavra Alquimia é substantivo feminino de etimologia árabe; al-kîmiyâ; pelo grego khymeía, “fusão de líquidos”. É mal definida nos dicionários da língua portuguesa como “a química da Idade Média”; na verdade, a Alquimia era praticada a milhares de anos em busca de remédios para todos os males e mesmo a imortalidade. É gêmea univitelina da magia.

No antigo Egito e na Europa medieval a confinidade da alquimia com as práticas mágicas, esmiuçando elementos minerais e vegetais da Natureza, invocando forças sobrenaturais, anjos ou demônios, realizando rituais do que hoje chamamos de feitiçaria.

Graças ao médico e químico suíço Paracelso, a Alquimia tomou um rumo diferente, o estudo do poder do homem sobre a matéria e a energia. Embora ele tendo confessado que somou aos seus estudos o aprendizado do ocultismo e especulações de natureza mística e esotérica com a Magia e a Cabala, abandonou-os, voltando-se para a pesquisa científica sistêmica.

Paracelso foi uma figura notável, tendo discutido aos 14 anos com os catedráticos de Medicina da Universidade de Viena em 1508, e 20 anos mais tarde venceu a peste negra e antecipou em 500 anos a cura da sífilis, revolucionando a Medicina.

O lado satânico da magia que Paracelso descartou, volta nos dias de hoje assentado no despautério dos que veem num antigo e comprovado remédio para a malária, a cloroquina, uma panaceia para a cura da covid-19.

Do outro lado, a magia como arte herdada dos grandes profetas e médiuns do naturalismo, busca, ao contrário, aquilo que está oculto; na medicina, faz a pesquisa objetiva das vibrações biológicas dos seres vivos; e, na convivência sócio-política, interpreta os sinais transmitidos pela energia do inconsciente humano.

 

 

A RAZÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A pesquisa e o raciocínio científicos devem ser o maior objetivo para o nosso progresso intelectual” (Silva Mello)

Soma-se à epígrafe do mineiro de Juiz de Fora, Antônio da Silva Melo, cientista, médico, professor e ensaísta, autor do espetacular “Eu no Universo” entre outros livros magníficos, uma tese de mestrado que li, mas não pude mais encontrar no Google, perdendo o nome do autor, que escreveu: “A História do Pensamento é também História da Razão”.

Veem de longe o conceito e o debate sobre a Razão. Encontramo-la no caudal da Filosofia com os aristotélicos, mais tarde no iluminismo europeu e, fechando o firo, com o filósofo alemão Hegel, que nos trouxe a compreensão da Razão como fruto de sucessivas gerações de pessoas, intemporal, portanto, na escalada histórica da humanidade.

Como consequência da Razão, nasceu a Revolução Francesa que a pôs nos altares como “deusa”, santificando aureolada a Democracia livre dos dogmas religiosos que sufocaram a Idade Média e dos privilégios da nobreza.

O verbete Razão é um substantivo feminino de origem latina, ratĭo,ōnis, significando cálculo, medida, proporção e registro. É a capacidade natural de raciocinar, de compreender, de estabelecer relações lógicas e também de avaliar e de julgar. A Razão, como entendimento pessoal sobreposto à emoção e à mística, nos leva à essência objetiva dos casos, dos fatos e das pessoas, pela observação e o raciocínio.

A Razão está presente na Matemática (o que me fez sofrer no ginásio), como relação entre dois valores de uma mesma grandeza, expressa geralmente como “a para b”, a:b ou a/b…. E, na Contabilidade, intitulando o livro que registra os lançamentos registados no diário.

Filosoficamente, a Razão deveria funcionar como uma bússola para orientar a política com patriotismo, e o Judiciário com sensatez e honestidade; mas, infelizmente, o que assistimos é a política adentrando nos tribunais e a Justiça saindo pela porta dos fundos, como alerta François Guizot.

Forças ocultas e misteriosas dominaram desde cedo o arcabouço jurídico do País, despachado do outro lado do Atlântico pela devassa corte portuguesa dos anos 1500, para assentar a base forense das capitanias hereditárias…

É por aí que encontramos os motivos da Razão consciente demorar a chegar entre nós e o porquê de não se impor no despudorado cenário político brasileiro, aonde se inverte a observação conceitual das casas legislativas em prejuízo da consciência cívica e da honestidade.

Paralelamente, observamos a magistratura brasileira como peça do mecanismo da Constituição de 88 com os parafusos frouxos, iludindo o entendimento da culpa, se advém do sistema ou da natureza humana; se devemos condenar a legislação cheia de duplas interpretações ou condenar os juízes que arranham a noção pura da Justiça….

O que baixa dos tribunais superiores em desacordo com os anseios nacionais é intolerável. Liberta-se criminosos condenados e impede-se investigações de suspeitos.  Agora mesmo, a troika que atua no STF contra a Lava Jato se juntou ao procurador-geral da República Augusto Aras e aos picaretas do Congresso para impedir investigações contra o crime organizado e a corrupção política.

O panorama é vergonhoso. Há 50 deputados na Câmara Federal investigados por práticas delinquentes, com predomínio das suspeitas de corrupção. Contra isto, felizmente, a corrente de pensamento arrazoada cresce para regozijo dos verdadeiros patriotas.

A Razão coletiva do povo brasileiro esteve presente nas manifestações de rua contra a criminalidade institucional nos governos lulopetistas e foi decisiva para a queda do lulopetismo corrupto e corruptor, e para a eleição de Jair Bolsonaro enganador…

Agora se assiste com revolta ensaios conjuntos dos fantasmas de Atibaia, da direita e da esquerda, contra a Lava Jato por uma volta ao passado. A cegueira do fanatismo “vê” diferença entre “roubozão” de Lula da Silva e o “roubozinho” das rachadinhas de Flávio Bolsonaro.

RAIVA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Se estiver zangado, conte até cem; se estiver mesmo muito zangado, blasfeme” (Mark  Twain)

Uma expressão que deve ser muito antiga, porque ouvi da minha avó, já velha, que tinha ouvido do avô dela: “engolir a raiva”. Na adolescência se falava em “engolir sapos” e “engolir cobras e lagartos”. Apoiando o pelego Lula da Silva, Leonel Brizola disse: “temos de engolir o sapo barbudo”.

A citação avoenga de “engolir a raiva” vinha, todavia, acompanhado de um completo e alertava: -“Engolir a raiva, envenena o sangue”…. A advertência, porém, dificilmente é seguida, pois é impossível frear os sentimentos.

Elocuções da sabedoria popular entram em contradição como que gravou o pensador e fraseur Fabricio Carpinejar, que escreveu: – “Um pouco de raiva não fará mal. Há frutos que apodrecem por excesso de doçura”.

Entre um dito e outro, a verdade é que tive uma raiva danada quando ouvi a proposta da recriação da CPMF pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, que se apresentava como “liberal” e com as suas declarações aceitando o cargo, me fizeram crer nisto.

Como disse acima, as nossas reações e aversões são irrefreáveis; a raiva desperta uma indignação que não impede a reação verbal e leva as pessoas malcriadas à excessos de fúria e até agressividade física.

“Raiva”, como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino, de origem latina rabies,ei, chegando ao latim vulgar como rabia,ae. Diz-se de uma manifestação de fúria em razão de algo ou diante de um fato desagradável; com a restrita sinonímia de “cólera” e “ira”.

Temos na Medicina Veterinária a classificação de Raiva, como uma doença infecciosa, causada por um vírus do gênero Lyssavirus, que ataca o sistema nervoso central, provocando convulsões e paralisia respiratória. É uma doença transmitida pela arranhadura, lambida ou mordedura de animais infectados, geralmente cachorros, e é conhecida como hidrofobia.

A cozinha portuguesa com a sua rica confeitaria de doces e sobremesas, nos presenteou com a “Raiva”, um gostosíssimo biscoito seco e crocante feito de manteiga, ovos, açúcar, farinha de trigo e canela, moldado em tamanho pequeno e forma irregular. No Brasil, em alguns estados, é conhecido como “Raivinha”.

No sentido coloquial da palavra, entretanto, a Raiva é um reflexo mental como reação a ataques pessoais ou aversão à fraude, à mentira e à corrupção intensamente praticadas por políticos desonestos.

No meu caso, por exemplo, blasfemo contra o ministro Paulo Guedes e aos seus apoiadores, o Presidente e seu Vice, por defenderem a recriação de um imposto que foi repudiado nacionalmente e derrubado pela força do povo unido acima dos partidos e das ideologias.

Para muita gente, há outros motivos de raiva, sem dúvida. Uma das minhas filhas me telefonou revoltada ao saber que o bispo Edir Macedo patenteou a “marca” Jesus Cristo comercializando-o em desacato aos cristãos autênticos e desrespeito à crença n’Aquele que morreu na cruz para salvar a humanidade. É por isso, que adoto uma lição de Buda: – “Deus não tem religião”.

Outras desfeitas são registradas, suscitando raiva de muita gente como, por exemplo, a classificação da desonestidade para maior ou menor, como fez o guru dos Bolsonaros, Olavo Carvalho, comparando o roubozão lulopetista com o “roubozinho” da rachadinha… É como se houvesse “meia gravidez” ou “meia integridade” ou “meia honradez”…

Vê-se, também, várias pessoas enraivecidas vendo um general da ativa do Exército, ocupando o Ministério da Saúde para executa a política negacionista do presidente Jair Bolsonaro na pandemia, receitando medicamentos controversos e distribuindo verbas do combate ao novo coronavírus contidas nas cotas parlamentares…

Um dos horrores da História, como escreveu Darwin, é que ela se repete. Talvez seja por isto que vislumbramos uma volta ao passado lulopetista (que pensávamos sepultado sem choro nem vela) pela direita oportunista; em consequência, a raiva se alastra como o novo coronavírus nos círculos do pensamento liberal…

A VOLTA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Pro dia nascer feliz / Essa é a vida que eu quis / O mundo inteiro acordar / E a gente dormir…” (Cazuza)

Uma volta fantástica ao passado, como assistimos no “Meia Noite em Paris”, filme genial do não menos genial Woody Allen, roteirista e diretor, leva-nos a pensar dialeticamente no inverso, uma volta ao futuro…

Otimista, não desejo para mim nem para o Brasil a volta ao passado da corrupção lulopetista, que se mantém nas cabeças dos que se aproveitaram dela, da pelegagem sindical e dos picaretas do Congresso. Amedronta-me ver o presidente Jair Bolsonaro de braço dado com Roberto Jefferson e Waldemar da Costa Neto, e se aliar com o Centrão.

Olhar para trás é virar uma estátua de sal como a mulher de Ló ,que desobedeceu a Jeová e foi castigada, servindo de exemplo para Lucas (17:32): “Não olhes para trás! ”.

O verbete “Volta” dicionarizado, é um substantivo feminino e também as flexões do verbo voltar, a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo e a 2ª pessoa do singular do imperativo afirmativo.  Vem do latim volvitare, uma alteração de volvere, “ato de fazer rodar”.

Com a condescendência dos deuses de todas as religiões, creio piamente que eles nos permitirão olhar para trás estudando a História da Humanidade… Considero um dever de consciência conhecermos a vida e a obra dos filósofos gregos e chineses da antiguidade, de repassar a vista pela Renascença e de relembrar a Idade das Luzes… Eu até memorizo a minha infância empolgada com os romances de cavalaria, relendo os “Doze Pares de França”…

Nesta época infernal da crise provocada pelo novo coronavírus e a exigência da solidariedade humana, será bom constranger os egoístas desalmados relembrando a história da rainha Maria Antonieta, que ouvindo falar que o povo parisiense passava fome porque não tinha pão, exclamou: -“Pois que comam brioches! ”.

Conforme ensina a minha mulher padeira, o “brioche”, nasceu da confeitaria real do Château de Versailles: um pão doce, fofinho, amanteigado, açucarado, feito de farinha de trigo puríssima e gemas de ovos….

Outro dia, uma das agências de notícias internacionais noticiando sobre a economia dos países que compõem o G-20, informou que o consumo de alimentos deles tem qualidade e quantidade superiores à de todos outros 173 países-membros da ONU.

Entretanto, dos “Gê-vintenos” a gente ouve as maiores exclamações em defesa dos direitos humanos, uma hipocrisia desmentida pelas eternas tentativas de intervenção na soberania dos países em desenvolvimento. Com as críticas deles, chegam ao Brasil as suas Ongs para nos explorar…

O tema “de volta ao passado” consta de inúmeros livros, filmes e peças de teatro. Eu, inspirado por eles, gostaria de me rever meninote, pré-adolescente, testemunhando a chegada da Coca-Cola nas Lojas Americanas, e comer fatias das primeiras pizzas trazidas por um paulista que as fazia na Cinelândia num beco da Rua Álvaro Alvim.

As minhas memórias ancestrais levam-me às viagens de bonde para o Colégio, lendo o “reclame” com versos que diziam ser de Olavo Bilac: “Veja ilustre passageiro, / Que belo tipo faceiro/ O senhor tem ao seu lado…/ Entretanto, acredite, quase morreu de bronquite, / Salvou-o o “Rum Creosotado”…

E rever as séries do rádio, “O Sombra”, “Jerônimo, O herói do Sertão“ “Polícia Montada”, “Buck Rogers”, “Capitão Atlas”, “O Vingador”, e os programas de auditório, César de Alencar, Paulo Gracindo, Manuel Barcelos, “Os Discos Impossíveis”, “Jararaca e Ratinho” e o velho guerreiro Chacrinha…

Vejo-me regressando à formação cultural, nos “Concertos da Juventude” do maestro Eleazar Carvalho, indo às “Terças de Cultura” da Academia Brasileira de Letras, comparecendo aos debates políticos na ABI, assistindo as “Avant Première” do Cinema São Luiz, fazendo pesquisas na Biblioteca Nacional, visitando o Museu Nacional e indo ao teatro, inclusive às revistas do Teatro Recreio que meu pai gostava e nos levava.

Finalmente, deitando o olhar ao passado histórico, fui um menino de nove, dez anos, que acompanhou o cenário da 2ª Guerra Mundial, com meu pai sintonizando no seu rádio Phillips “A Voz da América”, a “BBC de Londres” e a “Rádio Moscou”; e minha mãe escrevendo esquetes para um programa antifascista da Radio Mundial.

Foi naquela época que aprendi a amar a liberdade e lutar contra os regimes ditatoriais que suprimem os direitos humanos, coagindo, reprimindo, torturando e assassinando. Assim, sou uma criação da Democracia e do Liberalismo.

É por isto que venho de volta à realidade abismado em ver o que julgava impossível: o economista “liberal” Paulo Guedes defendendo um novo imposto, a sinistra CPMF, e o Governo Federal escancarando o quadro funcional das agências reguladores para atender os picaretas do Centrão.

Porque vivo o presente, torço para que o Governo Bolsonaro se resolva: Ou faz o que prometeu na campanha ou faz uma meia volta volver e assume que repete a política bolsopetista…  Faça-o,  para o Brasil acordar e a gente descansar…

Manoel de Barros 

O apanhador de desperdícios 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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Carlos Drummond de Andrade

Ausência 

 Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

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Cora Coralina

Não Sei 

Não sei se a vida é curta ou longa para nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe,
braço que envolve, palavra que conforta,
silencio que respeita, alegria que contagia,
lágrima que corre, olhar que acaricia,
desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais, mas que seja intensa,
verdadeira, pura enquanto durar.

Feliz aquele que transfere o que sabe
e aprende o que ensina”.

 

Fernando Pessoa

Quando as Crianças Brincam 

 

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

SEGREDOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Vou contar este segredo para mim mesmo de vez em quando, mas não vou acreditar” (Will Tacker – personagem de Hugh Grant no filme “Um lugar Chamado Notting Hill)

Vejo na Democracia – “o pior regime, com exceção de todos os outros”, no dizer de Churchill -, um mal aqui no Brasil; o voto obrigatório que tange o rebanho eleitoral para delegar uma representação a pessoas despreparadas, oportunistas e corruptas nas casas legislativas, federais, estaduais e municipais.

O meu segredo nesta crítica à Democracia vem com o repúdio à conversa fiada do “direito de votar”, em contraposição ao “dever de votar”. Quanta diferença há entre o direito e o dever! Se votar é obrigatório, tira a oportunidade da cidadania consciente mudar o quadro desesperador dos parlamentos. As manadas ignorantes e carentes se encarregam de mantê-las…

Aqui, a imensa maioria vota num candidato sem conhece-lo e muito menos aos que lhes cercam, parentes, amigos e puxas-sacos; é atraída pela propaganda enganosa ou pelo “ouvir dizer”.  Pior ainda, uma grande fração apoia quem lhe comprou o voto, seja em espécie, ou pelas promessas demagógicas…

Essa transação de compra e venda é um velho truque do tempo dos coronéis, e foi tão aprimorada através dos tempos que dificilmente é punida pelos órgãos competentes; quanto ao logro sofrido pelas mentiras de campanha eleitoral, só tem o preço do arrependimento.

É claro que a situação é mais destrutiva no caso federal, porque as eleições preenchem as cadeiras do Congresso, Câmara e Senado, e, ao lado desses “representantes”, elege-se também o presidente da República.

Porque destrutiva? Porque são eles, congressistas e presidente, que indicam os titulares dos ministérios, as chefias das secretarias e a direção das empresas estatais; terceirizam a administração da Educação, da Saúde, da Segurança e demais setores de atendimento à população. Ao fazê-lo, nem sempre pensam no geral, mas em atender interesses regionais ou grupais.

Neste embrulho de papel de padaria, vem um ciclone bomba em redemoinho sobre o interesse nacional e popular: a indicação dos que comandam a economia e as finanças públicas, gerenciadores das crises, dos preços, salários e lucros; do emprego e das transações cambiais.

Diante disto, confesso outro segredo: Adoto, entre outros ícones da cultura, Machado de Assis, a quem reverencio diferentemente dos que cultuam charlatães, adotando-os como “gurus”, e lhes pagam com verbas públicas… De Machado, temos uma lição objetiva:  – “Ouça-me este conselho: em política, não se perdoa nem se esquece nada”.

Este ensinamento nos leva a não perdoar os políticos picaretas que conspurcam a nossa República; não livramos a cara dos congressistas que engavetam as reformas prometidas nas eleições, e que se negaram a aprovar o Pacote AntiCrime de Sérgio Moro.

Não peço a ninguém para guardar este segredo porque, pelo contrário, gostaria que fosse alardeado, como uma vacina contra o vírus das corrupções do “roubozinho” das rachadinhas, e do “roubozão” do lulopetismo no Erário.

Garanto que os meus segredos não estão infectados pelas bactérias da falsidade ideológica, considerando, como considero, que “esquerda e direita não são discursos ideológicos estáveis, são símbolos de união grupal. Basta que duas pessoas se digam de direita ou de esquerda para que automaticamente essas facções passem a existir”…. E produzem males degenerativos como o fanatismo.

Os dicionários nos trazem o verbete “Segredo” como um substantivo masculino de etimologia latina, secretum,i, indicando algo que não deve ser sabida por outrem e/ou, especificando, coisa que se diz a outrem, mas que não deve chegar ao conhecimento de terceiros.

Assim, revelando segredos, tenho mais um, o sonho de festejar o fim da pandemia e a volta à vida normal, este, porém, só conto a mim mesmo, mesmo sem acreditar nele, torcendo no que escreveu o intelectual francês Jean Baptiste Racine, dramaturgo, historiador e poeta: – “Não há segredos que o tempo não revele. ”

 

 

 

 

 

A ALMA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

    “Ser sensível é uma coisa e sensato é outra. Uma tem a ver com a alma, a outra com a razão. ”      (Diderot)

É linda a comparação da Mitologia Grega fazendo da borboleta o símbolo da alma humana; os pais da Filosofia da Grécia Antiga viam também nessas espécies coloridas e esvoaçantes a forma visível da alma.

Num dos meus últimos artigos, “Sonhos”, descrevi as versões da ciência e da religião sobre a alma, que é representada na Mitologia Grega por Psique, a mortal que tanto fascinava a todos com a sua beleza que ocupou o lugar de Vênus na crença popular.

Diante disto, enciumada, Vênus se revoltou considerando uma profanação a própria existência de Psique. Cheia de ódio, incumbiu o filho, Cupido, de levar uma praga para a jovem, condenando-a apaixonar-se pelo mais inaccessível dos homens.

Entretanto, mesmo enfrentando todas as agruras impostas pela maldição da deusa, a incriminada encontrou o amado, mas desgraçadamente ele morreu na celebração das núpcias…

A dor da perda foi amenizada por Zéfiro, o mensageiro da Primavera, que a sequestrou levando-a a ocupar como morada um suntuoso palácio. Nele, Psique era visitada por um amante invisível que a beijou e conquistou. Foi Cupido, que tendo se apaixonado por ela, amou-a escondido da mãe Vênus.

Arqueólogos encontraram uma grande quantidade de ornamentos em vasos, em quadros e estátuas, mostrando Psique com asas de borboletas. São alegorias para representa-la como a alma humana purificada pelos sofrimentos e infortúnios, mas preparada, assim, para ser feliz.

O pai da psicanálise, Sigmund Freud, figurou entre outros mitos a história de Psique mostrando a necessidade do analista assumir o autoconhecimento, e o seu discípulo Jung encontrou na história de Cupido (deus do amor) e de Psique (personificação da alma) o modelo disciplinador do processo analítico.

Dicionarizado, o verbete Alma é um substantivo feminino definido como princípio vital; vida. A palavra vem do sânscrito Ātman e no nosso idioma deriva etimologicamente do latim, anima,ae, significando “o que anima, inspira”.

Na antiga Grécia dos filósofos, o termo adotado é psykhé, “o ser”, “a vida” e também “criatura”. É certamente uma referência a Psique. A Filosofia discute desde então a diferença entre “Alma” e “Espírito”, termos que se confundem nas religiões espiritualistas.

Refletimos, porém, que o conceito geral vê a alma o espírito como a mesma coisa, a energia que atua indissociável à vida dos seres viventes, e, nos humanos, suscitando a afetividade, a sensibilidade e o pensamento, que se revelam independentes da atividade corporal.

O desempenho físico dos indivíduos obedece a um conjunto de movimentos práticos, diferente dos seus sentimentos. As normas de conduta das pessoas são distintas entre si, dependendo das suas relações sociais.  Na sociedade moderna vê-se claramente a diferença ideológica entre o trabalhador braçal e o trabalhador intelectual.

A nossa experiência ensina, todavia, que ambos são interdependentes. O intelectual sobrevive graças a produção braçal, e o técnico se emociona com o fruto do trabalho intelectual, o cinema, a música, a poesia e o teatro, as descobertas científicas e tecnológicas. Materializa-se dessa maneira o pensamento de Brecht: “Ciência e arte têm algo em comum: existem para simplificar a vida do homem. Uma na substância material, outra no espírito”.

Assim, na Filosofia e no Trabalho vemos o realismo recusar a ver a alma metafísica e muito menos existindo na maléfica política brasileira que surfa nas ondas da incompetência e da corrupção no enfrentamento do novo coronavírus.

Quem não encontra beleza no poema de Fernando Pessoa, que se perguntava quantas almas tinha, e poetou:  “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E, do outro lado, temos do também poeta Mario Quintana uma definição filosófica: “A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe”.

Com uma visão pessoal, a minha consciência acompanha o pensamento de Giordano Bruno, escritor, filósofo, matemático, poeta e teólogo, condenado e morto pela Inquisição romana:  – “Ignorância e arrogância são duas irmãs inseparáveis, com um só corpo e alma”.