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Florbela Espanca

A MULHER

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!

Como sabes ser doce e desgraçada!

Como sabes fingir quando em teu peito

A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.

Adorada que amaram doidamente!

Quantas e quantas almas endoidecem

Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm

Sem nunca o confessarem a ninguém

Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.

Dum rei; amor de sonho e de saudade,

Que se esvai e que foge num lamento!

FASCISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não seria demasia lembrar que os arautos das devassas ilegais odiosas e fascistas, acabam por ter que quebrar os seus próprios espelhos. ” (Frase de autor desconhecido citada por Carl Sagan)

Chamar Bolsonaro de fascista não dá. Ele pode até pensar no fim da democracia pensando receber apoio das FFAA; mas pela sua formação, egresso da caserna por contumaz indisciplina, julga identificar-se,  como “capitão contestador”, como foram os “revolucionários” da mesma patente Luiz Carlos Prestes e Carlos Lamarca….

Diferente dos dois, porém, a sua formação política nasceu na Câmara dos Deputados sentado entre os picaretas do baixo clero. É uma salada mista ideológica; como deputado oportunista, votava com o PT-governo e dava entrevistas elogiando o ditador venezuelano Hugo Chávez…. Depois voltou-se para a “direita”.

Pela notória obtusidade, é incapaz de tornar-se um estadista, nem ao menos aparentar conhecimento da conjuntura socioeconômica nacional; e sequer possui eloquência oratória para cativar as massas.

É difícil para ele conviver com militares de alta patente da ativa, com curso de Estado Maior obedientes à Constituição; e muito menos com os políticos cultos de formação acadêmica; acomoda-se bem cercado da turma do Centrão, de advogados de porta de xadrez e de policiais que abandonaram a farda tornando-se seguranças.

Foi elevado ao poder federal por causa da roubalheira lulopetista, condenada e desmoralizada por patriotas brasileiros, que foram para as ruas espontaneamente aos milhões. E naquela conjuntura, a radicalização política foi rápida; e não demorou que fosse aproveitada por extremistas de direita e revanchistas do regime militar, orientados pelos piores anticomunistas, aqueles que não conseguiram se encarreirar no partido, se melindraram, e viraram gurus de ignorantes deslumbrados.

Ganha as eleições, as bandeiras da campanha contra a corrupção foram abandonadas pela pressão interna da criminalidade na mesquinharia das “rachadinhas”; como foram traídas outras promessas, como o liberalismo econômico e uma administração livre da picaretagem parlamentar.

Caminhou-se então o Governo Bolsonaro para a mitologia agressiva e a irracionalidade ideológica, promovendo o culto da personalidade e, com a pandemia do novo coronavírus, enaltecendo o negacionismo da Ciência inspirado na subalternidade ao boçal Donald Trump.

A cultura dominante e continuada do negacionismo promovido pela Familiocracia instalada no Planalto, nos leva à canção dos Engenheiros do Hawaii, “…o fascismo é fascinante/ deixa a gente ignorante e fascinada”. Este aludido fascínio atrai aqueles que são inclinados a “ouvir e obedecer”, e é repudiado pelos amantes da Democracia e da Liberdade.

O fascínio fascistizante produz decepções entre os que respeitam o Exército Brasileiro, ao saber que três militares-ministros, da Casa Civil, da Defesa e da Energia, tomaram vacina escondidos do Chefe. Um deles, Luiz Eduardo Ramos, da Casa Civil, contou que tomou “escondido” a vacina contra a Covid-19 e que tenta convencer o presidente Jair Bolsonaro a se imunizar também. Parece que esqueceram que “A verdade é um símbolo da honra militar”.

Lá em baixo, nas valas lamacentas do fanatismo e do mercenarismo, a sedução fascista chega nas redes sociais com ataques à Maçonaria e pior, com o revoltante racismo de uma “Petição ao Congresso” contra o casamento inter-racial para “garantir” a “raça pura”. Sobre esta loucura, a internauta Maria Feistauer falou por nós declarando: -“Os nazistas estão saindo das sombras sem qualquer pudor”.

Estas figurinhas fáceis que atuam nas redes sociais por controle remoto do Palácio do Planalto, exibem agora uma  ação fascista de atacar o médico Luiz Henrique Mandetta, que na CPI da Covid revelou que o País vive sob o poder de uma família tresloucada, capaz de fraudar bula de remédio e mentir sobre os números da pandemia.

Mentindo, esse bando atua como cópia xerocada do governo necrófilo, e embora muitos neguem serem fascistas, o são até sem o saber quando assumem a organização e a disciplina fascista para defender o Capitão Minto.

Para os servis lambe-botas não gasto mais de três linhas; uma delas é para lembrar-lhes que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, como escreveu Brecht; e também com Mussolini ao assumir o poder, encerrando o discurso de posse com a frase:  “Enterramos o cadáver pútrido da liberdade. ”

 

 

Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

O TEMPO (2)

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol,com.br)

“O tempo é o teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida” (Kafka)

Einstein, o genial criador da Teoria da Relatividade, observou que “o tempo é apenas uma persistente ilusão”, pela sua passagem relativa e ligada à velocidade. Será que um dia poderemos retroceder ao passado e avançar no futuro?

Leva-nos ao genial filme hollywoodiano, dirigido por Robert Zemeckis, com script dele próprio e Bob Gale, “Back to the Future” – De Volta ao Futuro -, que de tão relevante e incrivelmente extemporâneo, já deu três versões em série.

Produzido em 1985 com um excelente elenco que conta com Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover e Thomas F. Wilson, se mantém atual por trazer a visão de que as coisas se interpõem o passado e o tempo….

Da ficção para a realidade, chama a atenção o fato de não ser possível esconder para nós, a medida do tempo, escalonado na sua duração por segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, séculos…

Do cinema nos vem, também, uma curiosa situação de ficar preso ao tempo, com o filme “Feitiço do Tempo”, que tem como enredo a cobertura do Dia da Marmota, que a cada dia 2 de fevereiro, se define, pelo bichinho, se o inverno continua pelo mês. O repórter-do-tempo de uma TV vai à cidadezinha onde ocorre o evento e por não poder retornar à origem por uma nevasca, dorme no local e acorda sempre no mesmo dia…. Vale a pena assistir….

É interessante, porque contamos na vida com épocas, comemorações, ocasiões, períodos e prazos; e na medida em que envelhecemos, alegra-nos ou entristecem-nos os acontecimentos de ocasião.

Então observamos coisas que se passam diante de nós, na Ciência, na Economia e na Política. Que peso no tempo nos trouxe a pandemia do novo coronavírus! Como nos contraria ver no que produziu a estúpida dupla negacionista Trump e Bolsonaro… que entre seus malefícios ocasionaram milhares de mortes.

E uma das piores coisas que fizeram atingiu as populações miseráveis dos países pobres, negando a quebra da patente das vacinas. Eles favoreceram necrofilamente a indústria farmacêutica, sedenta de lucro sem se preocupar em curar alguém….

É inesquecível a colocação do bioquímico e biólogo molecular inglês Sir Richard J. Roberts, prêmio Nobel de Medicina, que disse “para a indústria farmacêutica, a cura é menos rentável que a doença”.

Os doidinhos fanáticos do bolsonarismo (teve um, nas manifestações de 1º de maio que exibiu uma placa “Autorizo o Presidente a me matar! ”) vão dizer que é opinião esquerdista, ou pior, uma “conspiração chinesa”…

Que pensem assim, ou reproduzam o que lhes mandam dizer. Esses chatos auto-assumidos “de direita”, renascidos do passado obscurantista das ditaduras e suas consequentes repressões à liberdade de expressão, leis de “segurança nacional”, prisões e torturas, são poucos e voltarão ao esquecimento, de onde não deveriam ter saído.

Eleitoralistas, querem um retorno à falsa polarização eleitoral, a fraudulenta e insultuosa alternativa entre Bolsonaro e Lula, iguais em quase tudo, incluindo a corrupção, de um, a grosso, vendendo medidas provisórias e do outro, no varejo com as “rachadinhas”….

Se os chatos “de direita” estão se amostrando e revoltando quem assiste a sua estupidez, enquanto os chatos de esquerda, por sua vez, continuam os mesmos, pensando e agindo como os communards ou os bolcheviques de 1917.

Então lembro a história de um esquerdista chato que numa conferência em Frankfurt abordou o patriarca dos Rothschild, fundador da maior oligarquia financeira do mundo no século 19.

O Banqueiro defendia o humanismo; então, o Agitador lhe interrompeu em voz alta: –  “O senhor possui 200 milhões de florins e se assume como humanista, porque não divide a sua fortuna com os deserdados? ”

Rothschild alisou a barba e respondeu:  – “Você tem razão; se devo partilhar o meu dinheiro, raciocinemos: a Europa tem 200 milhões de habitantes, então cabe um florim para cada um”. Meteu a mão no bolso, tirou uma moeda, e arrematou: – “Eis aqui o seu, venha busca-lo”.

… E assim, o tempo se fecha….

Fernando Pessoa

Presságio

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

PIADAS…

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Rir é o melhor remédio” (Seleções de Reader’s Digest)

Em meio à calamidade trazida pela pandemia do novo coronavírus, em contradição aos lamentos lutuosos, surgem piadas divertidas – principalmente de humoristas e cartunistas – que desanuviam a dor e as preocupações.

As anedotas proliferam nas redes sociais, somando-se aos postadores negativistas do bando de Bolsonaro, que em si são piadas humanas (ou desumanas) pela condenação da Ciência e o cego fanatismo pela insana postura do Chefe.

Motivo de riso entre o episcopado católico corre a história da visita de um piedoso bispo do interior mineiro a uma clínica psiquiátrica, e lá ouviu de um asilado o pedido para intervir na sua internação, “feita por uma filha e um genro para apossar-se dos seus bens”. Sua Eminência se convenceu da argumentação e prometeu se interessar pelo caso.

“Volto na próxima 2ª-feira, trazendo a resenha que vai tirar-lhe daqui”, disse o Bispo, ao que ouviu uma surpreendente intervenção do paciente: – “Não, Eminência, na 2ª-feira, não, porque sou o presidente Bolsonaro e na 2ª-feira terei reunião do Comitê da Crise”….

Houve uma época que não havia o politicamente correto e as piadas de loucos foram moda. Lembro de uma em que dois alienados foram ajudar na pintura do hospício e um deles trepado numa escada pintava uma parede e pediu ao outro que guardasse a escada. – “Como? Se eu tirar a escada, você cai…” disse o auxiliar; que ouviu do colega: – “Que nada, eu me apoio no pincel preso à parede! ”.

… E tem a historieta da entrevista de um psiquiatra com um maníaco depressivo visando dar-lhe alta. Testando o paciente, disse: – “Lá fora você tem um bom dinheiro na sua conta bancária, e o que fará com ele? ”. O asilado respondeu sem pestanejar: – “Vou comprar um envelope com selos do Quirguistão”. – “O quê?”, retrucou o médico, em qualquer Filatelia esses selos custam baratíssimos…”

O paciente, colecionador de selos, então perguntou: – “Meu dinheiro dá para comprar um avião? ”; – “Dá, sim”, disse o doutor: – “… E por que você quer um avião? ”.  Sem titubear o entrevistado revelou: – “Eu iria para Bishkek, capital do Quirguistão, e comprarei selos lá no Correio…”.

Outro dia, numa dessas rádios religiosas que grassam no Rio de Janeiro, um repórter de rua, que intervém no noticiário da manhã, trouxe uma notícia fúnebre;- “Na Praça Seca, encontraram  o cadáver de um homem morto nesta madrugada…”

Na sua viagem à China o genial humorista Henfil descobriu que o budismo precedeu o nazismo no uso da cruz gamada. Encontrou desenhada num templo antigo, da dinastia Sung, ostentando uma suástica na porta de entrada; contando esta observação a um amigo, ele perguntou: – “E daí? ”. Henfil respondeu: “Conclui que Hitler era budista! ”….

Um querido amigo norte-rio-grandense, o poeta, escritor e pesquisador do folclore, Celso da Silveira, que já se foi, trouxe uma pilhéria intitulada “Susto”, no seu livro “Tempo de Rir”, contando que um advogado de Natal, dado a umas carraspanas chegou certa vez em casa, de madrugada, “mais prá lá do que prá cá”, e quando a empregada abriu a porta, passou a mão na bunda da mulher, pensando que era a esposa.

A mulher se recusou, batendo-lhe fortemente na mão, o que lhe fez ver o erro cometido e estudou uma desculpa. No dia seguinte, bate à porta o marido da empregada e manda chama-lo; ele se achegou morrendo de medo, e ouviu do homem: – “Patrão, a sua mulher me contratou para pintar a casa e venho lhe pedir que compre as tintas ainda hoje…” O Advogado aliviado, nem titubeou: – “Espere”; saiu e voltou trazendo dois mil reais e disse: – Tome, compre-as e fique com o troco…”

Como se vê, mesmo sofridos pela doença e pelas mortes, há sempre uma nesga de esperança, trazendo motivos para rir.  Comentei com a minha irmã Lúcia sobre a tragicômica existência dessas chacotas e ela contou-me que uma amiga anda tão desesperada com a situação do Brasil que revelou a vontade de procurar uma clínica psiquiátrica e pedir para ser internada: – “É melhor conviver com os doidos de verdade do que estes doidos fakes que estão governando o Brasil! ”

RESSURREIÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A ressurreição derruba três muros intransponíveis: a morte, a injustiça e o fracasso”  (Dom Orlando Brandes)

Intitulei de “Ressuscitem o ‘Bessias’” uma mensagem escrita na semana retrasada comentando a indicação do ex-ministro Eduardo Pazuello, alvo da CPI da Covid, para um cargo a nível ministerial a fim de blindá-lo. (Repetia-se o caso de Dilma querendo livrar o corrupto Lula da prisão; o nome do secretário era Messias, mas a ex-presidente estava fanha na ocasião).

Recebi várias críticas sobre isto; o interessante porém, é que não foi somente dos bolsonaristas defendendo a medida frustrada que igualaria Bolsonaro a Dilma; os pareceres contrários mais contundentes (e alguns ofensivos), vieram de psicopatas decorebas da Bíblia considerando que referir-me à “ressurreição” é um despropósito.

Como admirador do pastor Martin Luther King, imolado pelo racista e extremista James Earl Ray, aproveito um seu pensamento na minha defesa: – “A religião mal-entendida é uma febre que pode terminar em delírio”; e não perdoo esses delirantes que me criticaram.

A ressurreição dos mortos é a base de todas as religiões. Para os cristãos, consta nos Velho e Novo testamentos e nos livros não-canônicos de Baruque, de Enoque e de Esdras, e é emblemática a volta de Jesus Cristo do reino dos mortos.

Assim, a metáfora que eu usei sobre o finado secretário da ex-presidente Dilma, não constitui nem uma ofensa ao morto, nem uma blasfêmia. Não fora a beleza proverbial do texto de Oscar Wilde sobre a ressurreição, encontraríamos nele, isto sim, um insulto ao sagrado.

Contou Wilde que ressurreto, Jesus surgia às vezes à noite, e numa delas reparou um jovem sentado à beira da estrada chorando. – “Porque choras? Perguntou o Nazareno; entre soluços, o rapaz respondeu: – “Eu estava morto e Vós me ressuscitastes; que poderei fazer vendo uma cruel realidade em torno de mim, senão chorar? ”.

Talvez fosse assim o que ‘Bessias’ encontrasse na infeliz conjuntura que o Brasil atravessa. Após tanto tempo afastado do mundo vivente, talvez se entristecesse e chorasse como o moço que Jesus ressuscitou observando o cenário político no Brasil, que provoca lágrimas de revolta a quem realmente ama o nosso País.

Por causa do negacionismo genocida de Bolsonaro, as coisas andam tão mal na luta contra a pandemia do novo coronavírus, pela negligência em todas as ações do governo federal, comprovadamente na falta de insumos hospitalares e até de vacinas!

A mais antiga ressurreição que conhecemos é a de Osiris, primeiro faraó egípcio, assassinado traiçoeiramente pelo irmão Set para tomar o poder. O morto teve várias partes do corpo separadas e atiradas no Rio Nilo; mas a sua dedicada esposa Isis, conseguiu reunir os pedaços e com a ajuda da cunhada Néftis, deusa da morte, ressuscita-o, e Osiris se torna o Deus do Julgamento final.

Essa lembrança mitológica da ressurreição nos leva a Bolsonaro, que vem fazendo de tudo para recuperar a confiança perdida para os que votaram nele contra a corrupção, e os traiu; tornando impossível que ressuscite moralmente.

Sem a hipocrisia dos “cristãos profissionais” e à crença da ressurreição, lembro a passagem bíblica em que Jesus traz Lázaro de volta à vida depois de quatro dias de sepultamento…. Mas considero um feito ainda maior do que ressuscitar os mortos, a certeza que o Cristo tem capacidade de ressuscitar os vivos.

O que não é o caso do Capitão Minto, que mesmo com as orações hipócritas dos pastores e padres políticos que apoiam os seus desatinos, jamais será perdoado pela resistência à imunização contra o vírus, nem por semear o ódio antirrepublicano entre os poderes constituídos.

Nem a ressurreição moral, nem a CPI da Covid, e muito menos o Código Penal, o salvarão da condenação histórica pelas quase 400 mil mortes de brasileiros, em grande parte devidas ao seu negacionismo….

N’EST PAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

‘Le Brésil n’est pas un pays sérieux’ (General De Gaulle)

Passando um olhar patriótico sobre o Brasil real, vivendo atualmente sob a mediocridade da política populista e o carreirismo eleitoral, é profundamente triste reconhecer que De Gaulle tinha razão.

Ao assumir patriotismo, lembro que George Orwell no seu badalado livro “1984” projetou um “Ministério da Verdade” usando uma “novilíngua” para distorcer a significação dos vocábulos; o que ocorre entre nós quando a palavra “patriotismo” é adotada por alguns como o culto da personalidade de Jair Bolsonaro.

Vem destes cultuadores fanáticos os aplausos para a totalitária “Lei de “Segurança Nacional” que confunde a pessoa do Presidente da República blindando-o como se fora o próprio Estado, levando-nos de volta a Luiz 14 que dizia “L’ Estat c’est moi”, – “O Estado sou Eu”.

Ungido ao poder por um desastroso desvio do destino, que arrastou expressiva fração do eleitorado inimiga da corrupção lulopetista para elegê-lo, traiu o discurso de campanha, aliou-se aos picaretas e se cercou de uma horda de aduladores oportunistas.

Assim, não é por acaso que o chamado Capitão Minto, ensimesmado, tenha desdenhado a pandemia, bravateado o negacionismo da Ciência e o desrespeito pelas regras sanitárias. O triste é que contou com o apoio das brigadas primitivas, antigos assessores, executores de “rachadinhas” e beneficiados com ações legislativas do “sindicato fardado” que dirigia da Câmara Federal.

Contará com o mesmo amparo agora, quando comete um bestial crime contra a nacionalidade, desprezando-a e envergonhando-a, ao impedir a realização do Censo Demográfico?

Não é preciso ser especialista nem cobrador “de oposição”, para entender que um País deve contar com informações confiáveis sobre todos os aspectos da vida cotidiana, afim de alicerçar a administração pública e conscientizar para a realidade nacional políticos, empresários e cidadãos.

O Brasil deve se orgulhar do IBGE que sempre trabalhou com seriedade e conquistou renome internacional pelo embasamento das suas pesquisas. Entretanto, a irresponsabilidade do atual governo federal não quer saber de números reais, desprezando-os e substituindo-os pela fraude, como vem ocorrendo na pandemia.

As contumazes mentiras de Bolsonaro, são acompanhadas pelo seu ”Posto Ipiranga” e o general Augusto Heleno, atingindo os limites do ridículo. O ministro Paulo Guedes ironizou o questionário do Censo e o general Heleno não esconde o menosprezo pela pesquisa dizendo que a taxa do desmatamento amazônico levantada pelo Inpe era inflada.

Constata-se com isto que Bolsonaro que não tem noção do que seja um Censo, porque ao manobrar no Congresso o Orçamento Picareta de 2021 fez pouco caso da megapesquisa populacional e econômica, pouco ligando que seja ou não seja realizada.

Assim, o Censo que ocorria a cada dez anos e ocorreria no ano passado, foi adiado para 2021 com a desculpa da pandemia, mas na realidade para economizar R$ 2 bilhões….

Novamente, em função da ignorância imperante em Brasília, o Governo Bolsonaro não deu importância ao financiamento do Censo quando tramitou no Congresso a lei orçamentária de 2021. E, na semana passada, o Presidente anunciou desavergonhadamente que o levantamento nacional sobre a conjuntura socioeconômica será adiado mais uma vez.

Quem tem cabeça de pensar sabe que todos os países devem ter estas informações obtidas por uma minuciosa operação estatística; que se torna complexa no Brasil, pela sua dimensão territorial de 8.515.692,27 km², distribuídos por 27 Unidades da Federação e 5.565 municípios.

Lembramos que as pesquisas seriam realizadas com visitas a todos os municípios, distritos, bairros e localidades rurais e urbanas, com visitas a domicílios, colhendo dados sobre as condições de vida da população; e ressaltamos que um País que não sabe quem são os seus cidadãos e cidadãs, não sabe o que realmente possui e o que pode realizar, não é um País sério, que traduzimos para o mundo: – “n’est pas serieux”.

 

 

PROTESTO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele” (Martin Luther King)

É impossível esconder o protesto dos 380 mil mortos pela covid-19 contra o presidente Bolsonaro, mais preocupado com a sua reeleição do que em promover a vacinação em massa, única maneira de debelar a pandemia.

Em vez de adquirir vacinas e insumos hospitalares, de mobilizar e ampliar equipes de atendimento às vítimas do vírus, a Familiocracia no poder recruta mercenários e “tolos ideológicos” como agitadores para esconder a política negacionista e fazer do Capitão Minto o “Pai da Vacina”…. É o novo slogan: “A fraude acima de tudo”.

Levantam-se protestos mundo afora; do empresariado, dos trabalhadores, dos intelectuais, do sistema econômico, da magistratura e da política; mas o protesto dos mortos traz a força milenar da maldição do “Rei Tut”, encontrada na tumba dele em 1922 pelo arqueólogo Howard Carter.

Numa parede cheia de pinturas representando Tutancâmon e os seus feitos em vida, numa vasilha contendo fungos, hieróglifos alertavam: – “Ai de quem violar o sono do Faraó! ”. Uma ameaça explícita a quem violasse o túmulo que atingiu os seus descobridores, pois a maioria dos membros da equipe de Carter morreu de causas sobrenaturais; e também alcançou Lorde Carnarvon, o financiador da expedição.

Muitos negam isto, afirmando não passar de uma lenda; mas há quem considere e acredite nas antigas profecias, fazendo ilações sobre acontecimentos coincidentes.

É, mais ou menos, o que vem ocorrendo no Brasil: duas correntes de opinião; uma que questiona os fatos em busca da verdade; e outra que se baseia nas repetidas mentiras do mitômano Bolsonaro.

Nos entrechoques da política miúda, prevalece a sabedoria popular ao dizer que “nem tudo que reluz é ouro”, um princípio que alerta para as fraudes do folheado a ouro, da máquina de fazer dinheiro, da pérola falsa e da demagogia populista….

Nenhuma destas arapucas armadas por vigaristas consegue enganar quem está prevenido sobre as vírgulas de um decreto, a convocação de uma CPI para não investigar, e não levar a sério o bando oportunista que se fantasia “de direita” e “conservador”.

Os observadores da política nacional estão vacinados contra o fanático culto de personalidades e seguidores de ideologias adulteradas por falsos gurus. Vêm claramente a orquestração do grupo que atua sob a orientação baixada de salas contíguas à do Presidente no Palácio do Planalto.

É o ativismo bolsonarista. São poucos, mas confirmam a observação de Mark Twain que disse: – “os tolos representam quatro quintos da humanidade”, dando oportunidade aos espertos para conduzi-los.

Nas redes sociais a gente está sempre topando com um deles, particularmente os recém-chegados no Twitter, que não seguem os princípios éticos que adotávamos e deixam de lado os critérios de socialização (é possível que algum desses imbecis confunda socialização com socialismo, mas não é).

Com este pessoal, passamos a encontrar mensagens padronizadas, opiniões selecionadas, ofensas pessoais e xingamentos com palavrões…. E vão ao exagero com ataques a quem não reza pela cartilha do desvario governamental grotescamente ideologizado.

Contra tudo isto, chega o protesto dos nossos mortos “transportando estrelas no negro infinito”, como os viu o poeta mexicano Amado Nervo. Do além, inspiram as suas famílias e os seus amigos a também repudiar a falta de consciência e a desumanidade de Bolsonaro na prática da sua política necrófila.

É preciso que a presença espiritual dos que morreram graças ao negacionismo, faça os civis se comoverem, e que os militares cumpram o princípio da caserna:  “A verdade é um símbolo da honra militar”.