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ADIVINHAÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O verdadeiro é semelhante a Deus; não aparece espontaneamente, temos de o adivinhar pelas suas manifestações” (Goethe)

Nunca acreditei em jogos adivinhatórios praticados por amadores; e também jamais levei a sério os falsos profetas que sobem ao púlpito de igrejas para explorar a crendice alheia; mas, noves fora os trapaceiros, sempre tive curiosidade pelos ancestrais métodos de prever o futuro, com espinhos, cera, fogo, fumaça, observação das nuvens, ossos, sonhos…

Ainda hoje nos interiores da Espanha e de Portugal joga-se ramos de louro na fogueira para, conforme os estalos, crer que determinada intenção dará certo….

Não sei se por brincadeira, a minha avó materna praticava a chamada “criptomancia”, que consiste em apagar um fósforo numa xícara de café quente e, através das figuras que se formam, responder a dúvidas; faz-se a mesma prática jogando água fervendo sobre folhas de chá e conforme elas sobem, será um bom ou mal augúrio…

Mais sofisticada, a arte de adivinhar veio do Oriente com o I-ching, um milenar manual de previsões. Popularizou-se no mundo inteiro tendo os seus hexagramas trocados por figuras no Tarot. Do Leste também chegaram à Europa, e atravessaram o Atlântico, a leitura da sorte pelo Baralho Cigano e a Quiromancia, leitura das linhas das mãos; ambas decifrações são clássicas e habituais.

Procedente da África, o Jogo de Búzios é muito apreciado nas ilhas caribenhas, no Brasil e na Colômbia, e é igualmente costumeira entre adeptos de religiões africanas a observação das chuvas, a germinação de sementes e a trilha de moluscos nas pedras.

Considerados pseudocientíficos, mas estudados com afinco e seriedade, temos a Numerologia e a Astrologia, esta última contando com um grande número de adeptos e de especialistas em mapas astrais, com o desenho da vida e a projeção para o futuro; e, pelo estudo dos signos do zodíaco, faz previsões pelos Horóscopos.

Aceite-se ou negue-se os enigmas para descortinar o futuro, há que se reconhecer que os procedimentos utilizados para predizer o porvir são populares no mundo todo, de Leste a Oeste.

Mesmo no quadro materialista da política, recolheu-se de Tancredo Neves a arte adivinhatória da Aeromancia – previsão pelo estudo das nuvens e dos ventos. É antológica a vidência de Tancredo dizendo que “a política é como nuvem. Num momento você olha e está de um jeito; no momento seguinte, você torna a olhar, e o jeito já mudou…”.

Mais do que uma profecia, essa observação de Tancredo mata a charada da incoerência, da falta de ética e mostra o desprezo de princípios pelos profissionais da política. Na semana passada lemos uma notícia que exemplifica a lição nas nuvens eleitorais corredeiras: “Dos 174 mil candidatos que disputam novamente a eleição, 115 mil concorrem em uma legenda diferente da usada em 2016”.

Os patifes mudam de partido, mudam de nome, mudam de cor e mudam as declarações de renda…  Houve até quem às escondidas trocou o modelo da cueca por uma mais espaçosa para enganar a polícia, depois do flagrante de Chico Rodrigues, senador do DEM e ex-líder do presidente Jair Bolsonaro.

De olho vivo sob as nuvens da política, os brasileiros usam as redes sociais fazendo denúncias que servem como técnica de adivinhação para a Polícia Federal nas investigações para caçar os corruptos que o Presidente diz que já não há.

Os trapaceiros e os imbecis ocupam um grande espaço na vida nacional; os primeiros adivinham por achismo, receitando remédios miraculosos, insinuando perigos pela imunização vacinal e prestidigitam a delinquência dos seus bandidos de estimação.Os outros seguem o que ouvem deles, e os veneram.

É preciso estarmos espertos e lembrarmo-nos de que “nem tudo que reluz é ouro”, como reza o ditado popular; e ficarmos conscientes de que acima das adivinhações está o “Olho que Tudo Vê”, lembrando aos políticos de que estão permanentemente observados.

 

 

IMPUNIDADE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Aquele que não pune o mal, permite que ele seja feito” (Leonardo Da Vinci)

Parece que há um tempero indigesto no cozinhado legislativo que é degustado pelos ministros do STF. Isto preocupa pela insegurança que uma indigestão recaia na mesa exposta das correntes doutrinárias em litígio.

Com clareza meridiana vê-se que o sistema político e o sistema jurídico se completam criando condições para assegurar a impunidade:  Os parlamentares, que por corporativismo apoiam projetos dos colegas denunciados por vários tipos de delinquência; e os juízes garantistas da Alta Corte que se acorrentam à interpretação cega do texto legal.

Foi o que ocorreu com o ministro Marco Aurélio Mello – o garantista-mor –, que já soltou 79 presos condenados em 2ª Instância.  Desta vez foi o traficante de alta periculosidade André do Rap, já condenado duas vezes em segundo grau por tráfico de drogas.

A sentença de Marco Aurélio não tem nada de surpreendente; mas explodiu como uma bomba por motivos paralelos à sua interpretação jurídica porque ignorou o Ministério Público e porque o pedido de habeas corpus veio envolto no papel celofane da suspeição pela origem: o escritório de um advogado, ex-assessor seu.

Decisões monocráticas como esta trazem no ventre a tendência individual de alguns ministros das cortes superiores de Justiça. Chegam meladas de falso humanismo e açucaradas pela leniência, disfarçando o olfato e o paladar da Justiça boa e perfeita.

Libertado pelo ministro Marco Aurélio, André do Rap é um dos chefes da facção criminosa PCC – Primeiro Comando da Capital -, já fora condenado e preso anteriormente e estava na cadeia denunciado pela PF por ser dono de um carregamento de 882 quilos de pasta de cocaína, nove fuzis-metralhadora e acessórios para as armas, como miras e carregadores.

Para soltá-lo, o Ministro invocou um artigo da lei que desvirtuou o Pacote AntiCrime do então ministro Sérgio Moro sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, embora alertado para as brechas inseridas pelos picaretas do Congresso sabotando o combate à corrupção e ao crime organizado.

Entrevistado pela imprensa, Sérgio Moro afirmou que a soltura de André do Rap não estava no Pacote AntiCrime, e afirmou: – “Eu, quando ministro da Justiça e Segurança Pública, me opus à inserção deste artigo por temer a libertação imediata de presos perigosos por mero decurso de tempo”.

Fica assim esclarecida a decisão de Marco Aurélio. Queiram ou não os simplistas ideologizados que lhe atacam, responsabilizando-o como único responsável, a culpa deve ser dividida irmãmente entre ele, interpretador da Lei, o Congresso por promulga-la, e o Presidente da República que a aprovou.

Não é exaustivo dizer que o STF existe para interpretar a Constituição, incluindo os direitos do cidadão nela contidos. Por isto, o entendimento individual do ministro Marco Aurélio Mello que beneficiou o Traficante, é a definição da Corte que, equivocadamente, não reconhece prisão após sentença na 2ª Instância, exigindo o cumprimento da pena após o julgamento de todos os recursos.

Felizmente, as brisas chegadas com Luiz Fux na presidência do STF arejam a revisão das decisões monocráticas. Fux já manifestou a defesa do colegiado e já mostrou coragem tirando da 2ª Turma os processos da Lava Jato, encaminhando-os ao plenário. E irritou três colegas.

Estes formam um grupo pequeno, mas atuante, que discorda e critica o ministro Luiz Fux. Do lado de fora, há também uma tendência que se diz “conservadora”, mas aplaude a impunidade dos seus “bandidos de estimação”.

Os brasileiros que lutam contra a corrupção e o crime organizado estão na expectativa de ver como esse pessoal se comportar na apreciação da PEC que institui a prisão após condenação em 2ª Instância e da revisão do pacote anticrime. Será um teste de honestidade.

A grande maioria do povo, 83%, defende as medidas saneadoras e pensa como o poeta mineiro Cláudio Tavares Barbosa, que nos interpreta expondo: “Ai dos que puxam para si a iniquidade/ com cordas da injustiça, / os quais por suborno justificam o perverso/ e ao justo negam justiça”.

ROBÔS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A automação é como o Lord Voldemort, de Herry Potter; a força aterrorizante que ninguém quer nomear” (Jerry Michalski)

Da leitura do livro de Brian Selznick ao maravilhoso filme dirigido por Martin Scorsese, ganhador de cinco Oscars, vive-se uma maravilhosa emoção com “A Invenção de Hugo Cabret”. A fita está à disposição no Netflix e no Google.

Relembrando Hugo Cabret, resolvi escrever este texto sobre robôs. Para desenvolvê-lo fui ao também sensacional livro “Eu, Robô”, do futurólogo Isaac Asimov, que também se transmudou em filme, dirigido por Alex Proyas.

O “Eu, Robô”, ao contrário do passado épico do cinema na Invenção de Hugo Cabret, projeta-se para o futuro, o ano 2035, onde os robôs são usados para substituir o trabalho humano. Pela Lei dos Robóticos, eles são impedidos de praticar qualquer tipo de violência; mas um deles, que um parafuso frouxo aguçou instintos maléficos, pratica um crime matando um cientista; é perseguido e desativado…

A minha atração prendeu-se ao romantismo de Hugo Cabret, a história de um menino às voltas com um androide que o pai lhe deixou ao morrer. Sozinho, marcando as horas no relógio de uma estação ferroviária, Hugo vivia obstinado a consertar o boneco mecânico, roubando peças nas lojas para fazê-lo funcionar.

É flagrado, preso, e depois solto, mas termina resolvendo, com a ajuda de uma amiguinha, o mistério do androide. Fazendo-o movimentar-se, revela através dele a épica história de um pioneiro do cinema, que estava desaparecido.

Os autômatos surgiram por volta do século 18, e os mais notáveis deles foram construídos na França pelo relojoeiro Vauxasson para o rei Luís 15, hoje expostos em museus, como o “Tocador de Flauta” e um “Avestruz” em tamanho natural que corria nos jardins de Versalhes…

Esses primeiros foram brinquedos para adultos, apreciados nas ricas cortes europeias; e a sua evolução, pela introdução de um cérebro eletrônico computadorizado, trouxe-nos os robôs, usados em eletrodomésticos, aspiradores de pó, lava pratos, e até como parceiro no jogo de xadrez, criado por Wolfgang de Kempelen….

Diz-se – não pude comprovar em pesquisa feita às pressas – que o androide “Jogador de Xadrez”, de Kempelen, venceu três partidas disputadas com Napoleão Bonaparte, mas desconfiou-se na época que sob a aparência robótica havia um anão russo, campeão de xadrez na sua terra…

Temos em casa um, “Alexa”, que nos dá informações sobre o tempo, o noticiário midiático, curiosidades históricas e executa músicas a pedido de voz. Essas máquinas – não passam de máquinas, é bom não esquecer -, ajudam viagens interplanetárias, realizam pesquisas científicas, exames biológicos e testes para diagnóstico médico.

A ciência e a tecnologia avançaram surpreendentemente neste campo. As projeções robóticas de Azimov enfrentaram críticas acerbas, partidas de fundamentalistas religiosos. Interpelado sobre os perigos que as suas pesquisas trariam, pressionando-o a abandonar os seus estudos; mas ele foi curto e grosso: – “Se o conhecimento fosse perigoso, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução deveria ser a sabedoria”.

É justamente a sabedoria que nos leva a imaginar como as gerações futuras conviverão com os autômatos humanoides e, quem sabe, evoluídos a ponto de desenvolver ideias próprias…. Esta projeção recolhe-se armazenada em nuvem.

O momento presente é muito pior, pois nos leva a enfrentar pessoas com o pensamento programado, obedientes à voz do dono como robôs de carne e osso, nos chamando pelo telefone para vender bugigangas ou digitando mensagens políticas fraudulentas nas redes sociais, as famigeradas “fake news”…

… E isto não é uma hipótese, e não há força legal para impedi-las; até já tentei barrar chamadas telefônicas automáticas e o provedor se disse incapacitado de fazê-lo; como também se arrastam a mais de dois anos nos tribunais o estudo para decidir como punir fakesiosos e hackers, preservadores virtuais do mal.

Mário Quintana

O Tempo

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Hilda Hilst

Amor 

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.
E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

IDOSOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A história se repete. Esse é um dos horrores da História. ” (Darwin)

Um dos leitores dos meus artigos (que com isto afaga o meu ego), fez outro dia a pergunta intrigante sobre a minha insistência em buscar nas antigas civilizações exemplos para a realidade que vivemos…. Eu aprofundaria sua indagação com os mergulhos na pré-História; outro dia falei sobre a nossa herança neandertal…

A resposta é simples. Aprendi com Miguel de Cervantes que “a História é desafiadora do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”.

O meu interlocutor é muito jovem como muitos dos meus seguidores no Twitter; seu perfil indica 28 anos. Ainda bem que não criticou o meu apego aos mais idosos das redes sociais, com quem vivo discutindo e aprendendo….

Não dialogar é um problema que os jovens só se arrependem de não fazer mais tarde…. Muitos dos antigos se arrependem de não ter mantido conversas pacientes com os avós e os pais quando moços. Disto me livrei; sempre conversei, polemizei e acumulei informações com os meus.

Não é advogando em causa própria que valorizo aqueles das novas gerações que procuram aprender com os idosos, pensando como eu pensava na mocidade. E uma das coisas ficou: a palavra Mocidade é poética, rima rica de muitos sonetos, mas que a palavra idoso(a) é inerente à sabedoria…

Anos atrás, quando trabalhei na Tribuna do Norte, jornal do político norte-rio-grandense Aluízio Alves, excelente jornalista, ouvi dele a admoestação a um repórter que se referiu a um homem se 60 anos como “ancião” numa matéria.

Concordei com Aluízio, não gosto da palavra Ancião, acho-a feia, assim como o povão rejeita usar a palavra “velho”, preferindo “antigo”. Embora o verbete “ancião” apareça nos dicionários como sinônimo de “Idoso”, vejo-o diferente. Pior do que ancião somente a idiotice politicamente correta de exibi-los na “terceira idade”.

Idoso, para a Organização Mundial da Saúde são as pessoas com mais de 65 anos de idade nos países desenvolvidos e com mais de 60 anos nos países subdesenvolvidos. Mas nesta “aritmética sociológica” a OMS não levou em conta que a expectativa de vida se ampliou na população mundial com a ciência e a tecnologia contribuindo para isto e nos empurrando para os 80, 90, 100 anos.

Ouvi certa vez uma máxima que reza: “não nascemos jovens, mas tornamo-nos jovens”; então apelo para a História, que é vista por muitos como paradoxal; para mim, porém, é a base das minhas considerações. Encontrei, por exemplo, que “Jovem” para Hipócrates – o pai da Medicina – é um homem até os 35 anos; que Tito Lívio acrescentou mais cinco, e que as “juventudes comunistas” reconhecem membros de 45 anos (razão porque a UNE virou ‘anciã’… rsrsrs).

Outra vez me referi à ‘Mulher de Trinta Anos’ (La femme de trente ans), personagem do realismo amoroso de Honoré de Balzac, escritor que muito admiro, embora vendo-o na sua época; hoje, ele se corrigiria evocando as mulheres de 40, 50, 60… e 70 anos…

Li em alguma publicação que os indianos dizem que o elefante já nasce velho; mas vê-se o contrário com o ser humano, os setentões engavetam atualmente a certidão de idade exibindo o corpo e a mente saudáveis de dar inveja aos jovens.

Constatamos, com alegria, que o envelhecimento sadio do corpo e da mente também é ativista pela preservação da vida; isto implica em usar a acumulação de experiências visibilizando o futuro da sociedade humana. E, sobretudo, defendendo o direito de reverenciar a História que os nossos antepassados viveram, porque ela se repete…

Tudo bem. Agradecendo mais uma vez ao jovem curioso que me interrogou, peço que grave uma lição de Victor Hugo: “Os velhos precisam de afeto, como precisam de sol”.

 

DE VOLTA À CAVERNA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Suponhamos que o homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do Sol? “ (Sócrates)

A situação cavernosa que estamos vivendo com o negacionismo ocupando diretamente o poder no Palácio do Planalto, lembrou-me um artigo que escrevi no ano passado, “A Caverna”, relatando a vida dos neandertais habitando grutas; e lembrei o DNA que nos legaram, gravando no nosso subconsciente o fascínio por elas.

Esta atração pela caverna originou vários mitos nas sociedades antigas, fazendo-as cenário do surgimento de deuses em várias religiões e até o nascimento de Jesus Cristo é representado nos presépios natalinos em grutas.

Vê-se no Brasil pessoas com a mente voltada ao passado, sob a influência psíquica neandertal ou submetidos às ineptocracias que negam a Ciência, afligindo os minimamente escolarizados, porque o retorno à antiguidade não tem o romantismo do cinema.

O cinema nos mostrou no belíssimo filme “Meia Noite em Paris”, de Woody Allen, saindo da boca de Gil, um roteirista de Hollywood interpretado por Owen Wilson, a importante lembrança de como seria difícil viver no passado.

Gil, convivendo fantasticamente com a intelectualidade migrante que infestava a capital francesa nos anos 1920, conta um pesadelo que teve, sofrendo a falta de anestesia no tratamento dentário e por não haver antibióticos para combater infecções…. Isto deixou a interlocutora perplexa, pois naquela época todos ignoravam os futuros avanços da Medicina.

Triste é que ainda hoje, em pleno século 21, ocorre o anverso. Nos espantamos e nos revoltamos com o alheamento sobre o enfrentamento científico aos bacilos, bactérias e vírus transmissores de doenças. Vemos alguns cegarem para o avanço civilizatório, manifestando o desapreço pela Ciência, sem aprofundar-se no estudo ou raciocinar com a própria cabeça.

Entristece ver alguém que vivendo sob uma terrível pandemia condene a imunização biológica criando anticorpos para enfrentar a virulência…. No meu tempo de menino, a gente estudava no curso primário (equivalente hoje ao Fundamental I) a história de Pasteur salvando um menino da raiva, com a vacina que descobriu.

Os negacionistas não estudaram a História da Civilização, onde se registra o holocausto dos astecas, maias, incas, indígenas americanos, brasileiros e caribenhos, indefesos biologicamente para as enfermidades bacterianas trazidas pelos europeus.

É penoso vê-los usando as ferramentas da Internet digitando mensagens nas redes sociais, refugarem a corrida do bem pela descoberta da vacina contra a covid-19. Fazem-no, ora desconfiando da origem nacional, ora enjeitando-a por influência ideológica, ora escravizados ao fundamentalismo religioso.

Sei que não adianta argumentar com essas pessoas. São fanáticas como aquelas que na Itália fascista chamavam Mussolini de “chefe amado e provado”; na Alemanha nazista tratavam Hitler como o “pai da pátria” e na Rússia comunista, idolatravam Stálin enaltecendo-o como “guia genial dos povos”….  O fanático ama seu líder; o fanático confunde o seu líder com a Pátria; o fanático considera o seu líder um gênio.

Não creio que essa adoração seja pela cor dos olhos, que Hitler os tinha azuis; não pela pose de comando, que sobrava em Mussolini, e muito menos pelo domínio de Stálin sobre os seus partidários…. Cabe-lhes a qualidade negativa que Nietzsche definiu: – “O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos”.

O revoltante é quando os fanáticos se misturam com mercenários e, desta mescla, surgem “guardiões terrivelmente evangélicos” como ocorreu no Rio de Janeiro para constranger os críticos e a imprensa; e pior ainda, é saber que este esquema se expande pelo Brasil afora emergindo da ação virtual nas redes sociais para a ação direta.

Do jogo diabólico das milícias políticas do bispo-prefeito Marcelo Crivella que assistimos, chegou-me à lembrança o escritor João Ubaldo Ribeiro que escreveu: – “A humanidade é uma espécie estúpida que se mata desde as cavernas. Só que, agora, com técnicas mais eficientes”.

Verdade. A metodologia impositiva dos políticos populistas e dos aprendizes de ditador, ofusca os olhos de quem vive as trevas do extremismo. Sem a claridade solar do livre pensar, não condenam o negacionismo científico, os atentados ao meio ambiente, nem sequer veem o modelo americano do nosso Presidente, Donald Trump, dispensar a cloroquina no tratamento da covid-19…

 

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HERÓIS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

      “Hoje em dia, a história está se movendo rapidamente e heróis e vilões trocam seus papéis constantemente” (Ian Fleming)

O galardão de “Herói” vem das antigas mitologias que os tratavam como “semideuses”, assumindo uma posição intermediária entre os homens e os deuses.  Na Grécia mitológica, eram filhos de um ser humano com um deus.

No antigo Egito, uma exceção: Hórus, filho dos deuses Osíris e Isis, era invocado como herói; foi representado por uma figura humana com cabeça de falcão, como se vê nos hieróglifos; e na mitologia grega, seguiam a regra geral, mortais possuindo poderes sobrenaturais.

As antigas epopeias descrevem feitos extraordinários de Aquiles, Hércules, Perseu e Teseu, que inspirando personagens das histórias de quadrinhos…

Como verbete dicionarizado, Herói é um substantivo masculino de origem grega, hḗrōs,ōos, ‘chefe, nobre; semideus; herói; mortal elevado à classe dos semideuses’;  e nas línguas neolatinas, define-se como personagem de grande coragem ou autor de grandes feitos.

Agora, com o mundo de cabeça para baixo por causa da pandemia do novo coronavírus, a manada do abominável “politicamente correto” se aproveita das manifestações antirracistas para derrubar em vários países as estátuas dos heróis de épocas passadas, que conquistaram no seu tempo a reverência dos compatriotas.

Muitos deles, sem dúvida, foram colonizadores cruéis, corsários, piratas e traficantes de escravos, mas foram considerados “heróis” pelas sociedades a que serviram, enriquecendo-as.

Lembro dos corsários que deixaram seu nome na História, como o espanhol Amaro Pargo, o holandês Pieter van der Does e o inglês Francis Drake, que ganhou da rainha Elizabeth o título de “sir”.

Há, porém, de se perguntar o porquê dos governos edificarem os monumentos, e porquê os povos os cultuaram.  Na minha opinião, basta pesquisar sobre as riquezas que vieram dos saqueadores da África, como, por exemplo, da África do Sul, colonizada para o Império Britânico por John Graham, e o comandante Jan van Riebeeck, para a Holanda.

Estes ganharam estátuas dos usufrutuários da exploração, industrialização e comércio dos diamantes sul-africanos, tal qual Cecil Rhodes, Charles Rudd e Barney Barnato. Rodes foi tão poderoso que teve um país batizado com seu nome, a Rodésia.

… E a trágica conquista das Américas, assaltadas pelos europeus em nome de Cristo e sob as bandeiras da cruz (será cristofobia relembrar?). A História registra que os espanhóis e os portugueses destruíram civilizações locais e roubaram toneladas de ouro e prata nas regiões habitadas pelos astecas, incas e maias; e do subsolo brasileiro das Minas Gerais.

Após os movimentos de libertação das colônias europeias, os povos que conquistaram a independência levaram ao poder os seus líderes, sendo que muitos deles se tornaram ditadores, e ergueram estátuas para si próprios…

Por falar em estátuas… constata-se que “o culto dos heróis é mais forte onde a liberdade humana é menos respeitada”, como escreveu Herbert Spencer. Pelo sincretismo com as “religiões pagãs” o catolicismo atravessou os séculos adotando estátuas (batizadas de “imagens”), cruzes e ícones.

Nem o reformador Lutero, embora tenha abalado as velhas estruturas do papado, enfrentou essa idolatria condenada pela Bíblia; maneirou, pedindo que considerasse as imagens e cruzes “como testemunha, para a lembrança, como um sinal”.

Assim, heróis e santos se confundem na idolatria, na adoração primária das massas, que também cultuam pedras e árvores seguindo religiões primitivas; e tanto faz que sejam deuses ou demônios, antepassados ou ocupantes do poder, todos venerados fanaticamente…

… E muito pior do que esta obstinação negativa é vê-la estendida ao ativismo racial, como se expôs a cretinice incorreta em São Paulo, aproveitando-se do desparecimento na reurbanização do Anhangabaú da escultura “Diana, a Caçadora”. Propõe a sua substituição por uma “Diana Negra”…

Com o extremismo de faturadores do racismo às avessas, alguns idiotas conquistam 10 minutos de fama, mas evidenciam que os são de uma ignorância estatuária!  Nem os radicais afro-americanos dos EUA, tão copiados por eles, pensariam neste absurdo, pois, escolarizados, sabem respeitar a cultura universal…

 

PENICILINA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A ciência é o grande antídoto do veneno do entusiasmo e da superstição. ”(Adam Smith)

Aos fundamentalistas que se mostram – uns mais outros menos agressivos – contestadores dos avanços científicos, ignorando a passagem de Pasteur, Fleming, Sabin e Salk pelo mundo, levaram-me a procurar o registro histórico de um caso que ouvi do meu pai; como nada encontrei tentarei reproduzi-la.

Vai lá com as minhas palavras: – “Homenageado num congresso médico, Alexandre Fleming, no discurso de agradecimento, contou que quando menino caiu numa piscina e estava prestes a se afogar quando um rapaz o salvou… e o moço chamava-se Winston Churchill…

“ – ‘Que coincidência’, comentou uma médica; – ‘Se o doutor Fleming não tivesse sido salvo por Churchill, o nosso mundo não conheceria a penicilina…’.

“ – ‘O curioso’, retrucou outro congressista, – ‘é que se Churchill não tivesse salvo Fleming, o mundo não teria uma personalidade como Winston Churchill’; e contou um fato desconhecido por muitos:

“- ‘Quando combateu na África do Sul, o Primeiro-Ministro britânico, esteve gravemente enfermo, e sir Alexandre Fleming foi de avião ao Continente Africano levando penicilina e curou-o’”.

Esta história é um dos tijolos que construíram o meu respeito pela ciência médica. Por isso, sempre que posso, cito e elogio os cientistas, principalmente os brasileiros que operam na Fundação Oswaldo Cruz (onde tenho minha filha, Paula, pesquisadora) e no Butantã, uma referência mundial.

Reportando-me a Oswaldo Cruz lembro-me que este cientista, que desde criança mostrou interesse pela microbiologia, formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de janeiro em 1892 e a sua tese de doutorado foi “A veiculação microbiana pelas águas”.

Fez numa viagem de estudos a Paris, onde permaneceu por dois anos como membro efetivo do Instituto Pasteur. De volta ao Brasil, participou da comissão que estudava a proliferação de ratos, responsável por um surto de peste bubônica na cidade de Santos.

Retornando ao Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz lançou uma campanha sanitária de prevenção contra as doenças que afligiam a população, febre amarela, peste bubônica e varíola.

Então capital federal, o Rio sofria com a febre amarela endêmica, e o Cientista, enfrentando a opinião geral, lançou a suposição (que se mostrou verdadeira) de que a transmissão da malária se devia ao mosquito; e para combater o inseto, implantou medidas sanitárias com fiscais visitando casas, jardins, quintais e ruas, para eliminar focos de insetos.

Houve resistências, com o povo estimulado pelos jornais e políticos oposicionistas, e a reação foi muito grande. Mesmo assim a campanha deu certo.

Mais tarde os cariocas sofreram a epidemia da varíola, levando Oswaldo Cruz a propor a vacinação em massa da população; foi quando o negacionismo da época se mostrou tão virulento quanto as doenças… Então ocorreu o que se convencionou chamar de “Revolta da Vacina”, que foi derrotada pelo Exército, mas o governo federal cedeu à pressão e suspendeu a obrigatoriedade da imunização.

Como a verdade sempre prevalece, o reconhecimento pelos resultados positivos obtidos graças ao trabalho de Oswaldo Cruz veio em 1908, quando ele foi aclamado como herói e o Instituto de Microbiologia recebeu o seu nome.

Dez anos depois, em 1928, registrou-se a descoberta da benzilpenicilina, ou penicilina G, pelo médico e bacteriologista escocês Alexander Fleming, sobre quem narramos a passagem histórica acima. Este antibiótico pioneiro passou a ser amplamente utilizado na medicina, salvando milhões de vidas.

Max Weber, que conseguiu a proeza de juntar a Sociologia e a Economia na sua obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, escreveu que “a crença na verdade científica não procede da natureza, mas é produto de determinadas culturas”, assertiva que nos dá a chance de perguntar: “Como se pode negar o que a humanidade, e nós brasileiros, conquistamos através da Ciência? ”.

 

 

 

MODISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasda@uol.com.br)

“A moda sai de moda, o estilo jamais…” (Coco Chanel)

Para varrer para debaixo do tapete o abandono do meio ambiente pelo Governo Bolsonaro e sua carreta carregada de mentiras, assistimos na semana passada a criação de uma nova moda: atacar a Argentina pela volta do kitchernismo, –  a ressurreição do narcopopulismo corrupto naquele país.

Os maestros que dirigem os percussionistas da orquestra bolsopetista se aproveitam da realidade portenha, porque os hermanos, veem continuadamente repetindo os mesmos erros “descamisados”, elegendo os herdeiros bastardos do peronismo.

Mas o refrão orquestrado nas redes sociais não está na partitura do tango argentino; tem apenas o objetivo diversionista, com a maioria dos batedores de tambor tocando “de ouvido”, sem saber o que realmente se passa…

A massa de manobra apenas papagaia o discurso do “novo Itamarati” por puro modismo, ignorando a contradição de bater numa tecla só, fora da agenda traçada dos Estados Unidos dos ataques copiados contra Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, a estratégia eleitoral de Trump, uma manta virtual para a frígida direita populista nos States.

Faz-se dessa maneira a ação de iludir os outros (iludindo-se, também), debitando na conta corrente do jogo de facção, a eliminação do princípio democrático de um governo para todos e não aquele do “nós e eles” transposta dos governos lulopetistas derrotados nas últimas eleições.

Afinal, derrotamos nas urnas a corrupção lulopetista, mas caímos no blefe da convergência dos extremos… Tudo que era feito anteriormente retorna descaradamente; a aliança com os picaretas do Congresso em nome da “governabilidade”, a distribuição de cargos para pessoas suspeitas e a poderosa intervenção jurídico-policial em defesa de “bandidos de estimação”.

Tudo na medida “fashion” dos que acompanham a moda, na presunção do vanguardismo, sem ter aprendido que nada há de novo sob o sol, como reza o ditado popular, nascido das lições do Eclesiastes.

Dicionarizado, o verbete “Moda” é um substantivo feminino, herdado do Latim “modus,i”, que designava para os romanos “jeito, maneira e medida”. No português, é o jeito de se vestir em determinada época, indicando, também, indústria do vestuário sazonal.

O Marquês de Maricá criticava os jovens da sua época por serem “solícitos” na maneira de trajar-se, mas negligenciando no respeito aos idosos… E é dos antigos que aprendemos que a moda nada tem de original. Recordo uma anedota contada por um dos “setentões” do Twitter que exemplifica isto.

Vou omitir o nome do autor; ele disse que conversando com um sobrinho, educado nos padrões da alta classe média, o rapaz perguntou-lhe porquê, sendo um homem bem relacionado socialmente, teimava em usar sempre os mesmos ternos, camisas, gravatas e sapatos antiquados, sem acompanhar a moda.

O nosso amigo, homem de impecável formação intelectual, filosofou inteligentemente: – “Na sociedade, tudo volta sempre de 20 em 20 anos… Neste caso, usando sempre o mesmo modo de vestir, já estive três vezes no rigor da moda…”.

A piada vale para refletirmos sobre o assunto. Remoendo a teoria do retorno da moda, vejo que ela vale para uma pá de coisas, mas na política brasileira, não; a demagogia, o mandonismo e o nepotismo que vigoraram nas capitanias hereditárias seguem na moda a cada eleição e a cada governo…

Assim, a politicagem atravessou do Império para a República, alterando apenas o título de barão para o de “coronel”, e as mesmas oligarquias se mantiveram. Continuam em voga a enganação, a compra de votos, e a traição às promessas eleitorais, e o estilo se mantém como refletiu a estilista francesa Coco Chanel, nossa epigrafada.

O estilo da politicagem nos leva ao poeta Jean Cocteau que observando a leviandade dos ocupantes do poder, disse: – “É isso que torna grave a sua insânia”. Isto reforça a necessidade de enfrentar as tolices de um Presidente e da familiocracia comprometida com intimidades espúrias, alianças suspeitas, e apoiada na moda de grupos de pressão informatizados….

… E o que nos alivia diante disto é a sabedoria de Bernard Shaw: “A moda, afinal, não passa de uma epidemia induzida”.