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A CONQUISTA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O conquistador dá leis aos povos obedientes” (Virgílio)

A História com “H” maiúsculo, desmente tudo aquilo que a desvirtuada educação colonial vem ensinando às crianças brasileiras. Nada mais é tão detestável como encucar nas cabeças infantis que o Brasil foi “descoberto” e não “conquistado”.

Descoberta por descoberta, o nosso território foi conhecido nas eras anteriores ao calendário gregoriano, imposto ao Ocidente pelo papa Gregório XIII. Assim como a América do Norte teve a presença dos vikings antes de Colombo, estudos escondidos mostram que estiveram povos navegadores no litoral brasileiro, entre eles os fenícios cartagineses.

A paleografia registra símbolos e inscrições com letras fenícias e demóticas egípcias gravadas em vários pontos do País, sendo que alguns petroglifos datam de séculos antes do almirante Pedro Álvares Cabral aqui aportar. Há registros documentados nos Cariris Velhos paraibanos e na Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro.

Este material, com desenhos e fotos com dizeres decifrados, está em exibição na Brandeis University, de Boston (EUA), colhido pelo professor Cyrus Gordon.

Também foram encontradas inscrições rupestres em fenício pela coluna do marechal Rondon que percorreu o Mato Grosso levando consigo os arqueólogos R. O. Marsh (americano), A. Frot, (francês), e o brasileiro Bernardo da Silva Ramos. Meu avô, Henrique Miranda Sá, participou desta marcha.

A presença antiga não basta para desmentir a “descoberta”. Muito antes dos portugueses, os bretões e os normandos já negociava o pau brasil com os índios, levando-o para a Europa, concorrendo com a púrpura oriental.

Além disto, está mais do que provada a presença espanhola anterior à portuguesa, nas viagens de Vicente Yañez Pinzôn e Diego de Lepe, ignoradas pela historiografia oficial, segundo Eduardo Bueno, no seu livro “Náufragos, Traficantes e Degredados”.

No trabalho de Bueno, a presença de Pinzôn foi bem documentada e “cronistas do século 16 se referem a ela com detalhes. O próprio Capitão Espanhol descreveu seu desembarque no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco.

Deixemos de lado as referências arqueológicas e históricas, e vamos nos prender à sugestão de uma polêmica entre a “descoberta” e a “conquista”, mostrando que nossa base geográfica já era habitada desde a pré-história.

Estudiosos da História do Brasil pré-cabralina sugerem inclusive que há vestígios de civilizações antigas, mais evoluídas do que nossos índios no estágio da Idade da Pedra, encontrando nos desenhos geométricos da cerâmica marajoara traços de grafias egípcias.

No interior de Pernambuco situa-se as ruínas de um monumento, conhecido como Santuário da Lapa, citado pelo historiador Cândido Costa no livro “As Duas Américas”, que precisa de uma pesquisa mais aprofundada para esclarecer se são restos de um antigo templo de civilização pré-histórica.

Oficializou-se, porém, a conquista portuguesa, abençoada pelo Vaticano, do território que os Guaranis e ando-peruanos davam nome de Pindorama – Terra das palmeiras. O território ocupado por Portugal recebeu os nomes de Ilha de Santa Cruz, Terra de Santa Cruz e finalmente Brasil, em homenagem ao pau brasil, cuja tinta enriqueceu Portugal nos primeiros anos da conquista.

A verdade é que fomos conquistados por aventureiros, principalmente europeus esfomeados pelas nossas riquezas, do Pau Brasil aos metais preciosos, ouro, prata e cobre. Ainda ocorre até hoje com as ONGs que atuam na Amazônia declarando amor ao meio ambiente, a flora e a fauna, quando na realidade visam apenas o subsolo…

MULTICOLORIDOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista”.(Nelson Rodrigues)

Para defender a mesma proposta totalitária dos lulopetistas que monopolizaram o tom vermelho das bandeiras, infamando-o com práticas corruptas, as mariposas do Partido Socialista do Leblon (Psol) multicoloriram as suas asas para escapar da condenação social.

Não conseguiram enganar muito tempo, como se viu na imprensa a fotografia do “socialista” Marcelo Freixo bebericando à beira da piscina do Copacabana Palace, o templo da alta burguesia no Rio de Janeiro.

Por isto, o companheiro Freixo sofreu críticas de ordem ideológica e até gozações humorísticas abordando a contradição entre o discurso e o seu comportamento. Eis, porém, que aparece (como sempre) um intelectualóide para defender o “quadro do partido”.

O argumento cretino é de que o socialismo considera isto natural porque luta para que todos gozem os mesmos momentos prazerosos dos burgueses… A hilaridade deste raciocínio levou-me a um velho livro, escondido na estante, “La Trahison des Cleres” – A Traição dos Intelectuais – que considera este fenômeno como usual para proteger interesses pessoais do autor ou do coletivo onde participa.

Ocorre que os intelectuais, autênticos ou não, têm permanentemente um lugar reservado nas páginas dos jornais e das revistas, e sob os holofotes da tevê, por conta de repórteres amigos ou das simpatias ideológicas dos editores. Pela notoriedade, são usados ou se aproveitam disto para se meter na política.

E insistem. Veem-se figurantes de novelas, ávidos por aparecer, abrindo o bocão para o público com chavões decorados em conversas de botequim. Jogam para frente as suas besteiras acreditando que “a massa tem a mentalidade de um garoto de 12 anos, qualquer ludibrio o impressiona”, como escreveu o escritor ítalo-argentino Pittigrilli.

Trata-se de uma tática de agitação dos grupos de pressão por demais conhecida, uma falácia dos herdeiros de Stálin que se dizem defensores da participação de todos os privilégios que o dinheiro oferece aos burgueses; e mesmo sabendo que esta utopia não se materializará vão se aproveitando, eles próprios, disto.

Durante muito tempo, esta minoria que se organiza, agita, e grita mais, conseguiu iludir um número considerável de trabalhadores e a classe média; mas isto se acabou no Brasil com a degenerescência dos seus chefes mergulhados na corrupção e a desgastante repetição de enganosas palavras-de-ordem.

Como discussão ideológica – ao seu gosto – nunca é demais lembrar que os privilégios burgueses sempre fizeram parte da vida dos líderes socialistas, desde Engels – o comunista de casaca -, e o seu parceiro Marx, a quem sustentava, que viveram a vida folgada dos capitalistas que condenavam…

Foi também o que assistimos na experiência dita marxista na URSS. O regime totalitário instaurado em nome da igualdade social, enriquecia os hierarcas do partido em detrimento do povo; e fracassou.  Mas o enxame dos lepidópteros obtusos pensa em apagar a História negando malogro dos regimes que defende.

As mariposas avermelhadas e as suas auxiliares coloridas não conseguem se antenar ao sentimento do povo; agora mesmo, um atirador de elite salvou 37 vidas, abatendo um sequestrador insano, e eles, em nome de um falso humanismo, atacam a polícia e defendem o bandido.

O “socialismo” das viagens aéreas de 1ª classe, dos hotéis cinco estrelas e das limusines, condena-se por si próprio. Nem é preciso denunciar o assalto aos cofres públicos, porque os seus “intelectuais” o justificarão dizendo que o camarada Stálin também assaltou…

BOM SENSO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Tente botar bom senso na cabeça de um tolo e ele dirá que é tolice” (Eurípedes)

Tenho um amigo no Rio Grande do Norte, o médico e ex-senador Lavoisier Maia, que nos seus discursos apelava sempre para o bom senso dos seus eleitores e enfatizava o refrão “é comparando que se entende”. As duas expressões eram tão repisadas que marcaram a sua personalidade.

A doutora em psicologia social e autora de diversos livros na sua área, Ana Mercês Bahia Bock, afirma que “o senso comum é uma ciência baseada nos fatos que ocorrem no cotidiano” e para o filósofo Aristóteles, o bom senso é “elemento central da conduta ética, uma capacidade virtuosa de achar o meio-termo e distinguir a ação correta”.

Tratando-se de uma qualidade cultural, o bom senso soma a parte intuitiva do ser humano e a capacidade dos indivíduos terem conhecimento da realidade em que vivem adequando-se às suas regras e costumes.

Na convivência social observa-se que uma pessoa age com bom senso, constata-se que ela argumenta com racionalidade ao julgar e toma atitudes corretas nas escolhas conforme os padrões morais vigentes.

Por estar ligado a moral, o bom senso praticado por um agnóstico, budista, cristão, judeu e islamita é interpretado diferentemente, mas sempre baseado na doutrina seguida e praticada.

Dois séculos atrás a História Literária Lusófona registrou um caso que ficou conhecido como “Questão Coimbrã”, uma polêmica entre António Feliciano de Castilho e Antero de Quental, em torno dos conceitos “bom senso” e “bom gosto” para julgar o realismo e naturalismo.

Castilho, escritor romântico que perseguia os clássicos da literatura, censurou um grupo de jovens escritores e acusou-os de exibicionismo e de falta de bom senso e bom gosto.

O notável poeta Antero de Quental respondeu-lhe com uma carta, depois publicada num panfleto intitulado “Bom Senso e Bom Gosto”. Defendeu a adaptação dos jovens à nova realidade que refletia grandes mudanças, e ridicularizou a poesia de Castilho, que considerava leviana e desvalorizada.

Nos nossos dias revolucionários da economia global e a consequente intromissão tecnológica, a discussão dos grandes vultos portugueses nos parece sem importância, no entanto como é preciso mudar o que deve ser mudado, exige-se o bom senso de todos, principalmente dos ocupantes do poder.

É evidente que não há bom senso do juiz que age politicamente, e de um político que age em interesse próprio. Infelizmente, tais comportamentos desses protagonistas do governo e do estado tornaram-se corriqueiros entre nós.

Falta bom senso ao homem público, parlamentar ou magistrado, que se coloca contra o combate à corrupção. Um legislando para perseguir aqueles que investigam e punem corruptos e corruptores, e o outro afrouxando as punições dos criminosos favorecendo a impunidade.

O bom senso, portanto, está na cabeça de cada um, por sua formação ideológica. Uma passagem histórica (pode até ser uma lenda) conta um fato ocorrido entre Dario – o derrotado rei dos persas -, e Alexandre – O Grande -.  Ao terminar a batalha final, o conquistador foi procurado por um emissário do derrotado.

– “Alexandre”, disse o embaixador, “Dario lhe oferece a metade do seu reino em troca de uma paz honrosa”. O conselheiro do Macedônio, Parmênio, presente ao encontro, tomou a liberdade de intervir, dizendo – “Se eu fosse Alexandre, aceitaria”.

Com a segurança e o bom senso dos grandes líderes, Alexandre respondeu: -“Eu também, se fosse Parmênio”. E recusou.

 

 

 

SUPERSTIÇÕES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Existe uma certa superstição em evitar a superstição(Francis Bacon)

Há pouco, quando estivemos eu e minha mulher na Argentina levamos o nosso neto Heitor para visitar a Republica de Los Niños em La Plata; ao regressar para Buenos Aires pensamos em fazer a travessia do Rio da Prata até a Colônia de Sacramento, no Uruguai.

No dia aprazado, desci para o desjejum e pensei no elevador que não devíamos fazer o passeio. Enfrentei resistências dos meus, mas insisti em adiar nossa ida para o dia seguinte. Não deu outra; houve problemas com uma das lanchas, que ficou à deriva algumas horas.

Como eu, muita gente vê sinais em sonhos e pensamentos, mas há também quem não creia em superstições…, entretanto, ao longo da vida encontrei gente que beijava um naco de pão antes de se desfazer dele, quem jamais acenderia três velas num altar com o mesmo fósforo, e tive uma prima que só aceitou casar-se se fosse no mês de maio…

Conta-se o caso de um deão da Igreja anglicana que protestou quando Winston Churchill adotou aquele gesto do “V” da vitória com os dois dedos da mão, declarando que o Ministro estava figurando os chifres do diabo…, no entanto, a mímica ganhou o mundo principalmente como aceno político.

A numerologia cabalística considerada por alguns até como uma ciência, é usada para prever a vida pela data do nascimento, para avaliar número de letras do nome, para prever negócios e até para ter indícios de uma posição política. Entre os métodos adivinhatórios este é o maior nascedouro de superstições.

Acho que não se deve banalizar a superstição, mas não esquecer o genial Shakespeare que se expressou pela boca de Hamlet falando a Horácio: – “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia…”.

Temos conhecimento de inúmeros casos onde a superstição é surpreendida pelo acaso. Meu pai contava a história de um seu colega que pegou um avião do Rio para Recife, naquele pinga-pinga que parava até em Canavieiras. Antes de aterrissar em Vitória foi tomado de pânico, e da capital capixaba foi ao Correio passando um telegrama para a esposa dizendo que não estaria no voo tal. Mas ao sair do prédio, foi atropelado e morto em via pública.

A minha avó Quininha não permitia que ninguém deixasse um chinelo com o lado de calçar para baixo, dizendo que dava azar. Quando crianças com medo do que poderia acontecer obedecíamos. Mais tarde, já rapazote, perguntei a vovó de onde ela tirou a história dos chinelos, e ela me disse que era para nos ensinar a nos precaver de um escorpião que poderia adentrar no calçado…

Não é para sacanear não, mas ouvi um tio velho dizer que não acreditava num partido de número “13” portador de coisas más. – “No mínimo”, dizia, “vai trazer de volta um regime como o de Hitler ou de Stálin”. Seria uma profecia se tivesse acrescentado que além do totalitarismo traria também a corrupção…

Cristãos ortodoxos encontram na Bíblia o capítulo 13 do livro do Apocalipse que faz explícita referência ao anticristo e à besta.

Nada mais romântico do que a superstição contida num provérbio turco com a história de um poeta debruçado sobre um poço, que viu a Lua refletida na água; supersticioso, preparou uma corda com gancho para pescá-la. Na tentativa, o gancho ficou preso numa pedra, obrigando-o a um grande esforço para puxá-la e ela se rompeu; e ele caiu de costas com a cara para o céu, onde viu a lua.

Com a imaginação inspirada de sonhador disse: – “Que Alá seja louvado! Pus a Lua de novo entre os astros do firmamento! …

A CIÊNCIA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“A ciência é o triunfo do conhecido sobre o desconhecido” (Bráulio Tavares)

Um dia – faz muito tempo -, conversando com professores da Universidade de Leipzig opinei sobre a criação de um mercado comum no Cone Sul da América Latina (ainda não se falava em Mercosul) como o terceiro polo econômico rival dos EUA e da finada URSS. Um deles me perguntou qual era a base científica para este fundamento.

Não tive, e daí em diante, sempre que me questiono, penso nisto. Sem levar em conta a Ciência, seja pela observação das leis da Natureza ou analisando as relações socioeconômicas do País, qualquer projeção cai no vazio.

Dessa maneira, tento pesar qualquer preceito tendo como referência a humildade de Isaac Newton ao responder o panegírico de um orador que o exaltou na Academia de Ciências: “Se subi tão alto foi porque me apoiei sobre os ombros de gigantes”.

Newton referia-se aos antigos gregos “amigos da sabedoria” – que se chamavam a si mesmos “filósofos” – o que significava ser ao mesmo tempo escritor, poeta, músico, matemático, geômetra, político, teólogo e, claro, cientista… Destacaram-se entre eles Sócrates, Platão, Aristóteles e Pitágoras. Depois, também oferecendo os seus ombros aos pósteros, vieram Galileu e Da Vinci.

É inegável o tributo dos árabes muçulmanos após a conquista da Península Ibérica, no Califado de Córdoba, que fizeram avançar com sua alquimia, a química e a farmacologia, que com sua álgebra ampliaram os horizontes da matemática, e resgataram para o Ocidente os clássicos greco-romanos.

Da herança desses gigantes do saber, se aproveitaram o confesso coletor da sabedoria Newton, e Leibniz, inventores ao mesmo tempo do cálculo diferencial integral, a maior contribuição científica para o mundo tecnológico, a engenharia matemática e a Teoria da Relatividade de Einstein.

Para abordar os avanços da Ciência surgiram várias teorias da conspiração. Fala-se de intervenção extraterrestre, sociedades secretas, manifestações do espírito de pessoas desencarnadas e até da bruxaria alquímica…

O triunfo do conhecido sobre o desconhecido tem realmente uma misteriosa repressão. Galileu, por defender o heliocentrismo de Copérnico foi obrigado pelo Papa a se retratar e depois exilado; e Calvino determinou que o fármaco-químico e médico espanhol, Miguel Servet, fosse queimado vivo.

Tais perseguições ocorrem pior ainda quando a ideologia se infiltra nos meios científicos. Registra-se o fato de Stálin defender o seu bajulador Lyssenko, o charlatão criador da falsa biologia “materialista”, impedindo que cientistas russos coordenados por Jaurès Medvedev, descobrissem pioneiramente a dupla hélice do DNA.

E mais triste ainda, estes sábios soviéticos foram perseguidos, e como Medvedev, presos e enviados para campos na Sibéria por discordarem do lissenquismo. Estas vítimas da Ciência foram reabilitadas com o fim da URSS, sem, contudo, recuperar-se a perda sofrida no campo da genética.

Coisa parecida fazem os opositores lulopetistas do Governo Bolsonaro condenando apressada e organizadamente “cortes de verbas para pesquisas” e denunciando a perda de bolsas de estudo sem mérito. Com eco na mídia comprometida com o globalismo, taxam o Presidente de inimigo da Ciência.

O lulopetismo é cômico e nos leva às gargalhadas ao lembrarmos que a única conquista científica nos 16 anos de poder do PT e seus puxadinhos foi a tomada de três pinos, um “avanço” não da Ciência, mas ao bolso do povo que pagou às indústrias amigas do PT-governo a distribuição de propinas aos hierarcas do partido…

 

 

Fernando Pessoa

O UNIVERSO NÃO É UMA IDEIA MINHA

O universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Fernando Pessoa

Quando as Crianças Brincam 

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Luis de Camões

Canto VII

Já se viam chegados junto à terra
Que desejada já de tantos fora,
Que entre as correntes Indicas se encerra
E o Ganges, que no Céu terreno mora.
Ora sus, gente forte, que na guerra
Quereis levar a palma vencedora:
Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante!

LEITURA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas”. (Mario Quintana)

Tive a felicidade de nascer e ser educado num ambiente onde a leitura era compulsiva. Meus pais liam muito e sempre estavam em dia com os livros lançados e comentados; tinham até conta em livraria.

Adquirir o hábito da leitura logo cedo foi uma dádiva na minha adolescência e juventude, como hoje ocorre com as crianças e jovens que têm a felicidade de dispor de computadores ou outros dispositivos móveis.

Dizem que o fenômeno da Internet leva as pessoas ficarem parcimoniosas com a leitura. Nada mais falso, porque nas redes sociais temos a plenitude do direito à informação, com notícias de jornais nacionais e estrangeiros, comentários em revistas culturais, científicas e técnicas, e livros, embora ainda pouco acessados.

Na minha opinião, o motivo para a falta de leitura deve-se à degradação da chamada grande imprensa no dever de informar, o que é comprovado pelo grande número de pessoas que deixou de comprar jornais e cortou assinaturas de revistas, fugindo da servidão ao conteúdo desses órgãos.

O desprezo pela opinião pública na imprensa escrita, a irresponsabilidade das agências de notícias e as fraudes dos institutos de pesquisa, fazem orquestradamente a defesa sub-reptícia de personalidades, de grupos, de partidos e seitas.

A redação nos jornais vem copidescada de tal forma que já não se entende o conteúdo da matéria pela inflação de palavras e a pontuação truncada; parece proposital, mas é possível que os profissionais estejam sendo pagos por lauda e linhas, ou é provável o alinhamento deles com o zumbi stalinista, um morto-vivo que corre o mundo.

Telespectadores abandonam programas políticos das grandes redes de televisão em protesto pela manipulação do noticiário e a distorção das análises; assim, dos tradicionais meios de Comunicação restam as emissoras de rádio que divulgam música ou são especializadas em temas esportivos e/ou religiosos.

Isto vem ocorrendo também na literatura. É lamentável o desprezo pela poesia e pelo texto teatral; constata-se nas estantes o vazio outrora ocupado por escritores nacionais, que cedem lugar aos best-sellers europeus e norte-americanos.

Os escritores da atualidade não aprenderam a lição de Eduardo Galeano, que confessou de público a procura de uma linguagem sem solenidade que permita pensar, sentir e se divertir, “nada habitual nos discursos de esquerda”.

É por isto a desprezível composição da Academia, a falência de editoras e livrarias, e o esvaziamento dos festivais literários como se viu no último de Paraty.

Há igualmente outra razão para o fracasso da leitura: a baixa qualidade intelectual das gerações formadas nos governos lulopetistas, período em que se enalteceu o analfabetismo dos pelegos ocupantes do poder, e a cultura virou o monopólio de meia dúzia de intelectuais militantes financiados pelo PT-governo.

Da mesma forma, é triste conferir o que escrevem os autos assumidos e autos elogiados filósofos, que engorduram seus textos com a banha da vaidade, sem humildade e desrespeito com os antecessores, desvalorizando-se e negando-se como pensadores.

Dessa maneira, a Web é a taboa de salvação. Da minha parte, como brilhantes colegas que atuam nas redes sociais, faço-me presente com artigos duas vezes por semana, contando com uma média de 120 leitores de excelente qualidade.

Reconheço, porém, e lamento, que alguns tuiteiros da nova leva não estão habituados com a leitura ou têm preguiça de ler, sofrendo dificuldade de interpretar um texto. Levo para eles, um recado de Carlos Drummond de Andrade: – “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, são muitos os que não sentem esta sede”.

 

HERESIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uoL.com.br)

“Aqueles que concordam com uma opinião chamam-lhe opinião; mas os que discordam chamam-lhe heresia” (Thomas Hobbes)

Podem me chamar de “herege”; mas criado numa família em que a minha avó paterna era católica ao extremo, mãe espírita, pai agnóstico, irmã umbandista e um tio que foi pastor protestante na época da perseguição aos “crentes”, não me considero preconceituoso quanto à religião. Apenas sou um leigo diante dela.

Vejo que tanto na religião como na política defende-se o sentido da vida, e em ambas, como diz o jornalista e escritor italiano Eugenio Scafari, vê-se que o que vale, é ver “a divisão entre o que é bem e o que é mal, compreendendo a existência de uma ordem do bem e do mal”.

Entretanto, pelas intervenções de alguns tuiteiros que acompanho, encontro uma disposição de trazer para o campo político um entrevero religioso, pedindo orações em vez de argumentação ou denúncias contra os males que o lulopetismo insiste em manter contra o interesse nacional.

Os sectários são poucos, mas por convicção enraizada não se dispõem a pôr os pés no chão enfrentando a realidade no combate ao mal, como se encontramos nas posições laicas em relação à politicagem.

Evitam, inclusive, o diálogo com os companheiros de viagem independentes das suas tendências teológicas sem ver que a inclinação ao laicismo é a busca da verdade, querendo respostas científicas para o preceito básico da fé, em nome da liberdade de consciência; adotando o livre-arbítrio.

É por isto que defendo para os leigos o direito de seguir pesquisando, duvidando e censurando os que embaralham religião e política na mesa forrada com textos bíblicos. São os mesmos que criticaram a missa rezada em latim dos católicos e hoje criticam a exibição de cumprimento litúrgico em hebraico.

A magia do tempo leva-nos a pensar como Humberto Eco, registrando com a sua religiosidade laica a “força religiosa, moral e poética de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos e da vida em holocausto pela salvação da humanidade”.

Isto encanta e nos leva a pensar em imitá-Lo, porém nos leva a pensar hereticamente, como fez o cardeal Carlo Maria Martini, jesuíta, interrogando-se, “se, por inescrutável desígnio divino, Cristo tivesse encarnado no Japão? ”. E abrasileirando, se Jesus Cristo tivesse nascido de uma virgem caeté do litoral nordestino, pregaria em nome de Tupã?

Evidente que Deus na sua onisciência, onipresença e onipotência sabe o que faz; e é óbvio que Ele quer a convivência pacífica e respeitosa de crentes e leigos para que possam viver em comunidade defendendo uma justiça boa e perfeita e o progresso na Nação.

Muito tempo atrás, iniciando no Twitter e conquistando meia centena de seguidores, meu genro, ironizando, disse que eu já podia fundar uma igreja. Nunca pensei nisto, ao contrário, apenas conscientizei-me de que a expressão sincera do pensamento me gratificaria e levaria os mais jovens a refletir sobre as minhas experiências e o conhecimento que acumulei ao longo da vida.

Assim, procuro defender princípios. E informar, e esclarecer, e apelar para a reflexão sobre a realidade em que vivemos, separando a política da minha crença – que adota, como Einstein, o deus que Spinoza chama de “Alma do Universo”, e não um deus que se preocupe com as minhas necessidades pessoais.

Por isso mantenho a luta por um mundo melhor; e, como patriota, acredito e acompanho a consigna “Brasil acima de tudo”, esperando não seja abandonada à margem do longo caminho que temos pela frente para nos livrar da herança maldita deixada pela pelegagem narcopopulista.