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CHALEIRA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana”. (La Rochefoucauld)

A desprezível adulação da vaidade de quem ocupa o poder é uma tendência natural dos fracassados, dos malsucedidos, dos caçadores de privilégios, de todo o lixo político que forma a elite da escória social.

É isto que faz muita gente se especializar em chaleirismo para se julgar importante ao lado das personalidades que cultuam; os conhecidos “papagaios de pirata”…. Esses não aprenderam a lição de que é preferível incomodar os poderosos com a verdade do que agradar com bajulação.

Chaleirismo vem de “Chaleira”, verbete dicionarizado como substantivo feminino para designar o utensílio de cozinha para aquecer água; e é um adjetivo figurado originário do Brasil indicando quem bajula; o adulador, bajulador, incensador e puxa-saco.

Relativo às lisonjas feitas para obter atenção e vantagens, nasceu da política brasileira, sem surpresa nenhuma: a História registrou que o político gaúcho Pinheiro Machado, eleito senador pelo seu Estado, tornou-se, por suas habilidades políticas, o homem mais poderoso da Velha República e nesta condição vivia cercado de lisonjeadores.

A sede do Senado era no Rio de Janeiro e o Senador morava em Bangu, numa fazenda com a casa grande no alto do Morro da Graça. Como bom gaúcho tomava muito chimarrão e uma chusma de puxa-sacos subia a ladeira da Graça disputando o privilégio de segurar a chaleira com água quente para servir a cuia do Chefão quando mateava….

Certamente isto ocorria, e a cena não foi poupada pela crítica humorística, principalmente nas troças carnavalescas. Assim, no carnaval de 1906 os cariocas cantaram a polca “No Bico da Chaleira”, uma composição de Juca Storoni: – “Menina, eu quero só por brincadeira/ Pegar no bico da chaleira”…. A partir daí, nasceu o verbo chaleirar que caiu no goto do povo….

No ano seguinte surgiu a marchinha inspirada na polca de Staroni: – “Iaiá me deixe subir esta ladeira, / Que eu sou do grupo do pega na chaleira”; e um chargista da revista Careta publicou a caricatura do chimarrão de Pinheiro com a legenda: “Quem gosta de ser adulado é cúmplice do adulador”.

A sátira irônica dos intelectuais foi aplaudida pelo povão. É fácil ver-se e compreender a cumplicidade do adulado com o adulador…. Há, porém, em contrapartida, muitas personalidades históricas que rechaçaram o puxa-saquismo.

Dos meus arquivos tirei uma exemplar passagem com Catarina II – A Grande, imperatriz da Rússia, que reclamou que estava sofrendo dificuldade na leitura e foi aconselhada a usar óculos. Um dos cortezões apressou-se a encomendar as lentes e levou-as para a Czarina; esta, para experimentar os óculos, pediu que lhe dessem algo para ler. Outro puxa-saco escreveu um cartão com palavras lisonjeiras enaltecendo-a. Catarina passou a vista e devolveu o escrito e as lentes ao bajulador, dizendo: – “Estes óculos não servem; aumentam demasiadamente…”.

No livro “A Verdade de um Revolucionário” o general Olímpio Mourão Filho, que comandou de frente o movimento militar de 1964, escreveu que – “Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semianalfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta”.

O general Mourão foi do tempo em que os oficiais superiores das FFAA estudavam e eram promovidos e condecorados por mérito. Deve ter aprendido a lição do Marquês de Maricá ao dizer que “os aduladores são como as plantas parasitas que abraçam o tronco e os ramos de uma árvore para melhor a aproveitar e consumir”.

Como observador da política nacional, parece-me que na geração do capitão Bolsonaro e do general Pazuello os militares aceitam de bom grado o aplauso enganoso.

Como governo, financiaram internautas nas redes sociais para defender sua política negacionista, com depoimentos elogiosos a remédios ineficazes e ao fraudulento “tratamento precoce”. E nas “motociatas” de campanha eleitoral feita com o dinheiro público são sorteadas motocicletas entre os participantes, atraindo muita gente….

Dessa maneira vamos vivendo sob o poder dos que não aprenderam com Napoleão Bonaparte, que “quem sabe adular também é capaz de caluniar”….

CRUZADAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Que homem é um homem que não torna o mundo melhor?” (Do filme “Cruzada”)

O obsessivo negacionismo de Bolsonaro inspirado no seu ídolo Donald Trump sabota todos esforços para debelar a pandemia. Isto nos leva a pensar que se trata de uma cruzada do mal, levando-nos a recordar as cruzadas medievais organizadas para libertar Jerusalém dos muçulmanos.

Ficou notória a Primeira Cruzada, mobilizada por uma carta exortatória do papa Urbano II, atendendo a um apelo do Império Bizantino. Foi comandada em 1095 pelos nobres Godofredo de Bulhão e Balduíno de Bolonha.

Essa incursão para retomar a Terra Santa é descrita cruamente por sir Walter Raleigh na sua “História do Mundo”, registrando o fiasco do pretendido resgate do Santo Sepulcro.

Segundo o relato, a expedição reuniu mais de duzentos mil pessoas, bandos formados de criminosos soltos das prisões, egressos das galés, delinquentes de várias categorias e prostitutas, que eram liderados por aventureiros ávidos por violência e saques. Na massa desconforme havia exceções: participaram dela, além de nobres cavalheiros em busca da glória militar, piedosos sacerdotes cheios de fé.

Tal descrição nos leva a pensar como Victor Hugo, que avaliou: -“Deixemos à História as mentiras sublimes, não as discutamos; suas mentiras são melhores que a nossa verdade”. Acrescento, porém, que devemos observar as entrelinhas, lembrando que mesmo entre os maus, salvam-se alguns.

Garimpa-se na História da Primeira Cruzada a figura do seu adversário, o sultão Saladino, chefe militar curdo que dominava um grande império, da Síria ao Egito, e mantinha um cerco a Bizâncio.

Descreve-o bem o filme “Kingdom of Heaven” – “Cruzada” -, de 2005, dirigido por Ridley Scott no enredo que vai até à reconquista de Jerusalém pelo exército do Sultão, que além de admirável estrategista militar foi excelente administrador dos seus territórios e protetor da cultura islâmica; deixou entre os seus pensamentos um antológico: “Nunca esqueça: um homem é aquilo que faz”.

… E assim, pelo que fizeram os protagonistas da Primeira Cruzada, devemos estudar nos nossos dias o comportamento dos que, como nós, compõem a sociedade humana, principalmente daqueles que estão investidos de poder.

Estudar o que os homens fazem quando conquistam o poder é um mergulho fatal na História da Humanidade e, em particular entre nós brasileiros, onde um pouco de sinceridade é algo perigoso, e perfilar os mandatários pode ser fatal; tratando-se do capitão Bolsonaro vira crime, enquadrando o crítico na ditatorial “Lei de Segurança Nacional”….

Assegurar a verdade, porém, faz parte do espólio do Reino de Jerusalém, ou Reino Cristão de Jerusalém, parte da história protagonizada pelos Cavaleiros Templários, que até hoje provoca a curiosidade sobre os mistérios que envolvem a Ordem do Templo que fundaram.

Como sabemos, a Ordem dos Cavaleiros Templários nasceu no século 13, para garantir a segurança dos peregrinos cristãos que iam à Palestina visitar os lugares percorridos por Jesus Cristo. A sua formação militar e religiosa passou a ser também política, dividindo-se entre o ativismo orgânico e uma sociedade secreta de formação hierárquica, alimentando críticas ao papado, não aceitando Maria como “mãe de Deus”, mas como “mãe de Jesus”, e defendendo a pluralidade religiosa.

Herdeiros desta organização espalharam pela Europa círculos de obediência aos princípios éticos, principalmente a liberdade de consciência, o antidogmatismo religioso e a vigilância aos poderes constituídos.

Algumas ordens maçônicas tiveram origem na Ordem do Templo que foi presidida por Jacques de Molay, templário condenado à fogueira pela Inquisição. Vindas de Portugal, algumas dessas atuam no Brasil sem se comprometer com interesses pessoais ou grupistas, nem com os erros cometidos por quem ocupa eventualmente o poder.

Ainda hoje, pelo mundo afora, os herdeiros dos templários participam de uma Cruzada do Bem para criar um mundo melhor, lutando contra a covid-19 para salvar vidas; e, no Brasil, combatendo o negativismo patológico do capitão Bolsonaro, denunciando a picaretagem no Congresso Nacional e repelindo a intromissão do STF em casos que só a Ciência deveria se manifestar.

 

 

OFERENDA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

O valor de uma oferta não está naquilo que se dá ou faz, mas na intenção de quem o deu ou fez” (Sêneca)

Quem acompanha a beleza litúrgica dos rituais religiosos, encontra na primeira parte da missa católica apostólica romana o Ofertório, consagrando a oferta do pão e o vinho a Deus.

A oferenda aos deuses e santos faz parte das cerimônias de todas religiões e seitas do mundo; desde às monoteístas aos cultos mais primitivos. A ação de ofertar é praticada por sacerdotes ou por manifestação individual.  Assim ocorre na liturgia eucarística do catolicismo, no ritual funerário judaico, na hégira do islamismo e na meditação sob os incensos e velas do budismo e do xintoísmo.

Em certas religiões de origem africana no Brasil e no Caribe, a oferenda vai para Iemanjá nas sete ondas do mar, ou colocada numa encruzilhada ou cachoeira para Exu; e também na missa negra do negativismo celebrada por Bolsonaro, oferta-se cadáveres dos mortos pela covid-19 no altar do desdém pela pandemia e da sabotagem contra as vacinas.

Ao contrário das práticas maléficas do celebrante necrófilo, a gente encontra alegria na música, no álbum “Ofertório”, do compositor e cantor Caetano Veloso em conjunto com seus filhos Moreno, Zeca e Tom, com 28 músicas de excelência.

E temos igualmente na música a lindíssima peça melódica e poética executada e cantada na missa, entre o Credo e o Sanctus: – “Venho Senhor, minha vida oferecer, / Como oferta de amor e sacrifício”. O sacrifício do ofertório lembrou-me uma antiquíssima lenda chinesa.

Conta que o inventor da porcelana, cujo nome se perdeu nos tempos, pesquisou durante anos qual a temperatura ideal para coser no forno a argila e conseguir uma delicada e refinada cerâmica.

Após inúmeras tentativas, sem conseguir alcançar a perfeição desejada, desesperou-se e atirou-se às brasas. Era um homem rechonchudo, como Pazuello (o “meu gordinho” de Bolsonaro).

No seu sacrifício, a gordura do corpo adicionou o que faltava para conseguir o esmero perseguido para os seus vasos, que foram encontrados no dia seguinte com a textura perfeita.

Segundo os crentes da religião chinesa “Caminho dos Deuses” de onde derivou o xintoísmo japonês, o sacrifício para a obtenção da porcelana deu ao seu inventor um lugar nos altares, certo de que não havia cosido os vasos com a sua gordura, mas com a sua alma…

Martinho Lutero, ex-monge e teólogo alemão, considerado o pai do movimento da reforma protestante, deixou-nos frases e pensamentos antológicos e ressaltando a ontologia da alma comentou, como fez Tomás de Aquino, “Deve-se doar com a alma livre, simples, apenas por amor, espontaneamente! ”.

Eduardo Pazuello, o “meu gordinho” de Bolsonaro, não tem alma, como mostrou a sua gestão genocida no Ministério da Saúde, e tragicamente na crise do oxigênio que resultou em centenas de mortes.

Como ativista do negacionismo, Pazuello atirou-se à fogueira das vaidades e caminhou nas brasas da inconsequência, invertendo o conceito de oferenda ao transferir para as Forças Armadas o sacrifício ministrado pelo alto comando do Exército absolvendo-o de flagrante indisciplina. Um comportamento intolerável em qualquer força armada do mundo.

A gordura societária do General com o Capitão não produziu nas chamas a delicada porcelana, mas uma rústica panela de barro, que serve para cozinhar no fogão do sigilo a descrença que o povo brasileiro adquiriu pelo capitão Bolsonaro e na vergonha dos militares.

SÃO 30%

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Eles podem cortar todas as flores, mas não podem parar a primavera” (Pablo Neruda)

“É a China, é o Dória, são os governadores e prefeitos, são as medidas de isolamento preventivo, é o desprezo pela Economia e é a oposição ao Presidente bonzinho, que alertou para o perigo da pandemia, se apressou a adquirir vacinas e deu exemplo ao povo de como se portar, usando máscara, condenando aglomerações e enaltecendo o valor da vacinação”….

Assim se expressam os 30% (com otimismo) que ainda cultuam a personalidade de Bolsonaro, adoração ao Chefe como fizeram as massas alemães e italianas ao seu führer e ao seu duce; e, até hoje, comunistas idolatrando o “paizinho” Stálin.

Os 30% (com otimismo) têm dois lados extremistas nefastos da política brasileira, um dele dos que apoiam Bolsonaro e os outros pertencem a Lula, o encantador de serpentes corruptas como ele próprio.

Estes percentuais numéricos levam-nos a percorrer os nossos 8.516.000 km² para ver o que vem ocorrendo no Brasil. Contaram-me, por exemplo, que numa cidade do interior da Paraíba, Bolsonaro foi inaugurar um mata-burro e reuniu 30% (com otimismo) da população local aplaudindo-o; e, sete dias depois, na mesmíssima cidade, o PT convocou uma manifestação oposicionista e também apareceram os 30% (com otimismo) em entusiástico apoio….

Segundo a observação maldosa de um jornalista de Campina Grande, meu amigo, daqueles mil manifestantes de um lado e do outro, a metade eram as mesmas pessoas, controladas pelos cabos eleitorais do Prefeito, que quer se sair bem com os dois….

Diante deste fato, analisamos que as pesquisas eleitorais são t desprezíveis entrando na lista de Theodore Roosevelt, registrando que “há três espécies de mentiras: mentiras, estatísticas e pesquisas”…. Entretanto, os números que elas trazem podem ser aproveitados, porque têm mantido um pouco mais, um pouco menos de 30% para Bolsonaro e Lula; podem conferir.

O que se passa nas cabeças de 40% restantes? O que pensarão os orgulhosos contabilistas daqueles que fazem parte desta maioria? Calam-se; deixam a resposta para o tempo que vai passar até as próximas eleições….

Na verdade, o Tempo registra historicamente a formação de impérios e a sua decadência; Ibsen, na sua visão materialista, lembra que também cada dogma e cada igreja “já tiveram a sua aurora e terão certamente o seu crepúsculo”; do mesmo modo como irá acontecer no porvir político das terras brasílis.

Como descarto dos dois nomes que a polarização extremista quer nos impor, observo a louca corrida eleitoral, mantenho-me observando-a à distância entre Nietzsche e Pilatos, o alemão perguntando-se o que é a mentira, e o romano que julgou Cristo e Lhe perguntou: – “O que é a verdade?

As diferenças filosóficas das duas personalidades históricas nos mostram a necessidade de ter dúvidas, de buscar a verdade estudando a realidade sem falsidade e sem os fundamentos que as massas aceitam na sua vulgaridade mental.

Gosto de citar Galileu Galilei, cientista defensor do heliocentrismo preso pela Inquisição por enfrentar dogmas idiotas. Entre os pensamentos que deixou, referiu-se que   “a verdade não resulta do número dos que nela creem”; e isto nos alerta para o que se vê no mundo da ignorância científica.

Até mesmo categorias supostamente esclarecidas curvam-se para a mentira que vigora entre os 30% bolsonaristas. O que não surpreende é que sob os reflexos condicionados pela formação de subalternidade, a estreiteza intelectual do general-ativista Eduardo Pazuello leve-o a subverter a disciplina militar.

O que assombra é que a instituição que tem o Duque de Caxias como patrono curve-se diante disto por pressão de Bolsonaro, desastrado aprendiz de ditador. Trata-se de uma ameaça ao Estado de Direito que o silêncio reinante entre os meios políticos e jurídicos assustam os defensores do Estado Democrático de Direito.

 

 

 

 

Pablo Neruda

O TEU RISO

Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas

não me tires o teu riso.

(…)

ri, porque o teu riso será para as minhas mãos

como uma espada fresca.

(…)

mas quando abro

os olhos e os fecho,

quando os meus passos se forem,

quando os meus passos voltarem,

nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas o teu riso nunca

porque sem ele morreria.

CINISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Há almas cuja treva é maior que a noite, consciências cuja lama é maior que a de todos os pântanos da terra” (Albino Forjaz Sampaio)

O Cinismo, como corrente filosófica foi criado por um dos discípulos de Sócrates, Antístenes, que dedicou a vida pregando que o valor da pessoa humana não é medido pelos bens que possui, mas pelo seu altruísmo.

A palavra “Cinismo” no grego antigo, “kynismós” significa “como um cão” mostrando a maneira espontânea e natural dos adeptos desta filosofia, os Cínicos. Dicionarizado, o verbete Cínico é substantivo e adjetivo; aquele que despreza as tradições, afronta as convenções e desacata as regras sociais correntes.

Através dos tempos, a linguagem é domesticada pela ordem constituída passando por transformações em favor da mentalidade dominante; e assim ocorreu com a inversão do sentido das palavras “Cinismo” e de “Cínico”, depreciadas no seu significado original; “Cínico” passou a ser tratado como desavergonhado, descarado, devasso, indecente, libertino e até sem-vergonha!

Como o poder político não passa de segurança do shopping da Economia, não permite uma oposição ao seu sistema. Reprime quem lhe despreza, lhe afronta e desacata. Os seus agentes, entretanto, são de um cinismo ímpar – o da linguagem corrente, do “sem-vergonha” -, pela falta de caráter e a sofreguidão pelo acúmulo de riquezas, seja qual for o modo de adquiri-las.

No Brasil, os políticos em geral revoltam a opinião geral pela maneira inconveniente de usar a coisa pública, e nisto é excessivo o cinismo de alguns deles. Agora mesmo, ocupando o poder, um grupo de sem-caracteres é comandado por um patife, capaz de gastar R$ 1.790.003,92 – em plena pandemia, por quatro dias de “descanso”, de 8 a 17 de fevereiro.

Este velhaco, o presidente Bolsonaro, se exibiu outro dia nas redes sociais mostrando uma picanha de boi da raça wagyu, de origem japonesa, vendida a R$ 1.799,99 o quilo, no churrasco que ofereceu à sua patota.

Isto revolta os brasileiros desejosos de um País sem privilégios, justo, pacífico e progressista, mas satisfaz a ignorância gulosa pelo néctar de mitos camaleônicos. O excesso de cinismo é pandêmico.

Como um vírus, a sem-vergonhice se espalhou pelo Brasil, por todas as classes sociais: adotaram-no líderes comunitários, cooptou padres e pastores politiqueiros, entrou nas atas dos clubes de militares de pijama, encantou os carreiristas políticos e até assumiu uma forma “garantista” nos tribunais superiores….

Neste cenário de luzidia insensatez que vivemos, se sobressai Jair Bolsonaro, que de deputado medíocre admirador do golpista e ditador venezuelano Hugo Chávez, enveredou pelo sindicalismo fardado, tornou-se “comissário” do revanchismo militar, e, com um discurso contra a corrupção, se elegeu presidente da República.

Após as descobertas do filho mordedor de “rachadinhas” e dos cheques inexplicáveis passados para a mulher, casou a mentira com o cinismo e passou a blasfemar contra a Lava Jato, rompendo com o caçador de corruptos, Sérgio Moro, para intervir no Coaf e na PF, e blindar seus bandidos de estimação.

Então, a nova versão do cinismo tornou-se rotina entre os que proclamam a honestidade do Presidente, até mesmo quando ele apoia as ações suspeitas do ministro boiadeiro Ricardo Salles, advogado de madeireiros contrabandistas.

O otimismo cínico dos cultuadores da personalidade de Bolsonaro aplaude a traição das promessas eleitorais dele, que quer se reeleger com as mesmas promessas. Pior ainda, cega para a sua loucura em criar um “gabinete paralelo” para executar uma política necrófila.

Este cinismo deplorável se expõe comparando-se as ações do governo federal diante da pandemia letal:  isto se vê claramente com Bolsonaro, que levou três meses para responder a oferta das vacinas da Pfizer, e apenas três minutos para sediar a Copa América no Brasil, uma ameaça de risco de transmissões da covid-19.

Se o cinismo da politicalha servisse à Nação como atende ao negacionismo, a política necrófila não seria exaltada, e as famílias de meio milhão de brasileiros mortos não derramariam lágrimas.

Uma coisa é certa: as viúvas, viúvos, pais, irmãos e órfãos dos caídos pelo genocídio promovido por Bolsonaro jamais se tornarão cínicos como os seguidores dele….

 

 

 

 

Gabriela Mistral

O PENSADOR DE RODIN


Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.

E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.

E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte

Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.

Jorge Luis Borges

As Coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Servem-nos, como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que partimos em um momento.

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CHEIRO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não se pode trabalhar num esgoto sem cheirar a esgoto” (José Saramago)

Todas as pessoas que conheço estimulam as lembranças do passado pelos sentidos. São paisagens, olfato, sabores, sons e texturas trazem recordações a muito enterradas no nosso subconsciente; e, para mim, o mais excitante dentre os sentidos é o olfato.

São incríveis os cheiros que me trazem a presença de entes queridos que se foram. De vez em quando, andando pelas ruas passo por uma senhora usando o perfume que minha mãe usava, “Cuir de Russie” de Chanel, trazendo-me imensa tristeza pela ausência dela da minha vida.

“Cheiro” é um substantivo masculino de origem discutida, sendo para mim a mais próxima é a derivada do provençal, “cheiriar” significando lavar com energia as mãos para tirar odores deixados pelo contato com animais, corpos humanos, plantas e objetos produzidos por matérias químicas.

Com muitas variantes, “Cheiro” exprime concretamente a impressão originária do olfato, e o verbo derivado “cheirar” leva até ao uso de cocaína…. Figurativamente, lembra o carinho do fungar no pescoço da pessoa amada, e realça a odorífera poesia de Shakespeare: – “Se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume”.

“Cheiro” também expressa metaforicamente a suspeita de algo que aconteceu ou está por acontecer. É o que sentimos na política brasileira, com o cheiro de mofo, de tinta descascada e musgo de muro carcomido saído do encontro entre Fernando Henrique e Lula; do mesmo modo como o cheiro de enxofre expelido pelo demônio que mora nos ouvidos de Bolsonaro. Nesses exemplos entram os antônimos catinga, fedor, fétido, pestilência….

Embora sem ser investigador de polícia ou ter o faro apurado de um perdigueiro, senti forte cheiro de corrupção quando no ano passado assisti a reunião ministerial de 22 de abril, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, propondo que o governo aproveitasse a pandemia para passar a “boiada”….

Esse “aboio” do Ministro para tanger o gado, foi uma alegoria política visando aproveitar as atenções voltadas para a pandemia e intervir na legislação, mudar as portarias e as regras em defesa do Meio Ambiente, em favorecimento dos desmatadores, garimpeiros e madeireiros ilegais.

O gado humano que apoia bovinamente o Governo Bolsonaro ignorou o fato, por motivos óbvios, e o escondeu sob o esterco da cumplicidade; o mesmo não aconteceu com a manada dos brasileiros patriotas que divulgaram, combateram e não esqueceram a proposta obscena, para não dizer criminosa.

Agora, esta impostura emergiu no noticiário midiático:  Autoridades norte-americanas do Governo Biden apreenderam uma carga ilegal de madeira amazônica e alertaram sobre irregularidades nestes carregamentos para os Estados Unidos. E assim confirmou que a Polícia Federal agiu corretamente ao deflagrar a Operação Akuanduba.

Esta ação foi criada para apurar crimes de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e irregularidades para facilitar o contrabando com a participação suspeitosa de agentes públicos.

Em consequência, veio a seguir, acionada pelo superintendente da PF no Amazonas, delegado Alexandre Saraiva, a Operação Handroanthus, que apreendeu 213 mil metros cúbicos de madeira ilegal na divisa entre Amazonas e Pará no fim do ano passado, uma delinquência que foi defendida pelo ministro Ricardo Salles.

No contexto deste flagrante criminoso, a Polícia Federal abriu investigação sobre a intervenção protetora de Salles e funcionários do Ibama à ilegalidade; mas o Governo Bolsonaro, em vez de combater a corrupção e punir os infratores, destituiu Saraiva da Superintendência da PF….

Nesta circunstância, exala no ar um ativo cheiro de jabaculê, pixuleco, propina e suborno, com o ministro Salles e sua equipe suspeitos de apoiar o contrabando e perseguir agentes públicos. Só quem perdeu o olfato por causa da covid-19 não sente este miasma, e se junta aos que estão sufocados pelo bafio do fanatismo defendendo seus bandidos de estimação.

 

 

 

T. S. Eliot

Quatro quartetos – n. 1

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nuca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisíveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente, contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.