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CARICATURA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A caricatura é mais forte que as restrições e que as proibições” (Eça de Queiroz)

Inspirei-me para o título deste artigo na observação de Aldous Huxley dizendo que as caricaturas são as formas mais agudas da crítica. A História nos mostra que no Brasil a caricatura tem sido a mais exuberante e influenciadora maneira de atacar a politicalha e os políticos despreparados, negligentes e venais.

Folheei a espetacular História da Caricatura Brasileira, de Luciano Magno, um registro da inteligência brasileira neste campo da literatura, mostrando o trabalho dos grandes caricaturistas e as dezenas de publicações, jornais e revistas, que encantavam o imperador Pedro II e mais tarde a Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck.

Nos governos militares, de 1964 a 1985, o último general que ocupou a Presidência da República, João Batista Figueiredo, comentava que o humor das caricaturas ajudou muito a abertura democrática iniciada no Governo Geisel e realizada por ele.

O verbete Caricatura, dicionarizado, é um substantivo feminino que significa a mostra ridícula de pessoas, coisas e acontecimentos científicos, culturais e sócio-políticos, provocando comicidade. Vem do francês “caricature” e do italiano “caricatura”, ambos de etimologia latina, “caricare”, carregar.

No casamento do desenho – com distorção engraçada, mas traços característicos do modelo -, e o texto – sucinto, claro e provocante -, muitas personalidades sociais foram ridicularizadas, projetos legislativos desmoralizados, poderosos caíram e governos mudaram o rumo da política….

Nessas núpcias humorísticas, entram festivamente as alcunhas, apelidos e codinomes, qualificativos especiais que revelam ou deixam dúvidas sobre a identificação dos referenciados…. Provocando risos ou enraivecendo, as caricaturas deverão ser acatadas como fez o genial Voltaire.

O Filósofo se encontrava num círculo de intelectuais que conversavam sobre superstições e citou Habacuque, atribuindo-lhe juízos radicais. Habacuque, é o oitavo dos doze profetas menores, aceito pelos rabinos ortodoxos como autor do Livro de Habacuque, pouco lido, mais com revelações semelhantes às de Jeremias sobre conversas entre eles e Deus.

Pois bem. Como não era a primeira vez que Voltaire citava Habacuque usando-o para avalizar ideias próprias, um dos presentes, estudioso da Bíblia, levantou dúvidas afirmando que o Profeta nunca dissera aquilo. Voltaire não se importunou: – “Pouco m’importa, considero-o capaz de ter dito isto e muito mais…”.

Assim, não devemos deixar esquecidas nas gavetas dos ofendidos as caricaturas que mostram que são capazes de manifestação censurável, sejam eles de que partido forem e quais as ideias que defendem. Se forem radicais no seu comportamento, muito melhor para serem divulgadas.

Os apelidos e alcunhas não podem ser escondidos, Getúlio era chamado pelo povão de “Gegê”, Juscelino, conhecido entre amigos como “JK”, o general Figueiredo, na Escola Militar de Realengo era apelidado de “Fig”, e o general Aurélio Lira Tavares, intelectual, usava nas suas crônicas o cognome de “Adelita”.

Uma capa da revista IstoÉ, comparando Bolsonaro a Coringa, vilão das histórias de Batman, alcunhou-lhe de “Bolsoringa”; mas, para desmerecer a comparação, os bolsonaristas inteligentes (os há, poucos, mas existem) passaram a chama-lo assim. Outros, entre eles, mostram intimidade chamando-o de “Bozo”.

Na oposição, aparecem “Capitão Minto”, com referência às contumazes mentiras, e “Capitão Cloroquina”. por causa da insistência tresloucada em diagnosticar um remédio para malária como sendo capaz de combater a covid-19….

Dá-se agora um apelido para o deputado preso pelo STF e a Câmara Federal por pregar a insurreição contra o Estado de Direito, defendendo o ditatorial AI-5, mostrando com esta explosão o desagregador contumaz, intolerável pela Corregedoria da PM/RJ, isolado na Câmara, e desprezado até pelo seu partido. Chamam-no de Daniel “O Quê”.

Surgiu por coincidência por causa da dúvida que o ministro Luiz Fux teve a respeito do seu sobrenome e representa o medíocre que ele é; esse “O Quê” é uma caricatura de parlamentar: ignorante e truculento que não merece respeito.

 

 

ESTADISTAS

MIRANDA SÁ (mirandasa@uol.com.br)

“Um verdadeiro estadista ostenta a imagem do seu país“ (André Maurois)

Quando eu era menino, assisti a uma manifestação de protesto contra o governo em frente ao Palácio do Catete quando, surpreendentemente, Getúlio Vargas chegou na sacada e fez um dos célebres discursos que começava com a exaltação: – “Trabalhadores do Brasil! ”, e garantiu que a reivindicação seria atendida em 24 horas. Os protestantes aplaudiram e se dispersaram gritando: -“Getúlio! ”, “Getúlio! ”.

Meu pai, que estava comigo, comentou: – “Vargas é um estadista! ”. O verbete Estadista, dicionarizado, é um substantivo masculino e feminino, formado etimologicamente pela junção da palavra Estado e do sufixo “ista”, significando pessoa que revela domínio na arte de governar, líder que dá exemplo de competência, empenho e conhecimento dos problemas nacionais.

A História veste muitos protagonistas que ocuparam o poder, vestidos pelo figurino do Estadista. Lembro de alguns protótipos.

Certa vez o rei Frederico II da Prússia assistiu de uma janela uma ruidosa manifestação de rua e ouviu do seu ajudante de ordens que alguém havia postado um cartaz com ofensas a ele, e o povo se agitava por que não conseguia ler o cartaz que estava muito alto. Disse ao rei que iria mandar a guarda reprimir o protesto; Frederico o impediu e pondo-se com o corpo de fora da janela, gritou bem alto: – “Abaixa o cartaz para que o povo possa ler! ”. A multidão riu-se e se dispersou…. Um exemplo de estadista…

Nos anos agitados de 1848, por causa da Comuna de Paris, a Rússia enfrentava ações subversivas e o brilhante escritor e pensador Fiódor Dostoievski, acusado de conspirador, foi preso e condenado ao fuzilamento. Levado à Praça Semenov, na antiga São Petersburgo, para ser executado publicamente pelo crime de insurreição contra o Império Russo.

Poucos minutos antes do pelotão de fuzilamento cumprir a sentença, o czar Nicolau I voltou atrás na sua decisão e comutou a pena de morte, mudando-a para prisão na Sibéria…  Declarou que o fazia em respeito à cultura russa. Exemplo de estadista…

Temos também, nas anedotas históricas sobre a postura de estadista, uma passagem com o rei Luís IX, que rejeitando um vinho que estava avinagrado, perguntou a sua origem e ouviu de um auxiliar que examinou a garrafa, que era falsificado. O Rei então lavrou imediatamente um decreto punindo os falsificadores de alimentos e de bebidas, condenando-os à forca. Medida que mostra um exemplo de estadista…

Infelizmente, não está entre esses exemplos modelares o registro histórico que nos deu a rainha Maria Antonieta que ouvindo falar de rebeliões em Paris porque faltava pão à mesa do povo, disse: – “Não tem pão? Então dei-lhes brioches…”.

Há quem negue a veracidade desse fato, mas ele se espalhou pelo mundo e chegou no Brasil, infelizmente adotado pelo presidente Jair Bolsonaro, cujas sugestões em plena pandemia do novo coronavírus são do tipo mariantonietônicas.

O seu ministro do Exterior, extremista ideológico, publicou nas redes sociais uma mensagem xenófoba e discriminatória contra China, injuriando o seu governo como responsável pelo vírus. Recebeu elogios de Bolsonaro, que três meses depois encarregou-o “negociar” uma aproximação com aquele País…

Quando informado de que estava morrendo gente por falta de oxigênio no Amazonas, Bolsonaro ordenou ao ministro-general preposto na Saúde: – “Não tem oxigênio? Distribua “kit covid” e cloroquina…”.

E agora, quando se elevou o clamor desesperado do povo pela ameaça de falta de vacinas contra a covid-19, o Presidente ouviu dos seus aliados no Congresso que é preciso providenciar os imunizantes. O que ele fez?; lhes enviou uma medida provisória facilitando a compra de armas e munições. – “Não tem vacinas? Vamos dar revólveres! ”…. E com isto, assume um mau exemplo de estadista…

IMPROVISOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Ter capacidade de improviso é fundamental, improvisar como regra é imprudência” (Reis Júnior)

Morei alguns anos em Campina Grande, e foi lá que ouvi uma história sobre um querido amigo, Raymundo Asfora, advogado, político e poeta admirável. Está anotada num dos meus caderninhos (tenho mais de cem). Reencontrei-a mexendo nos meus guardados com o tempo que me sobra no isolamento social….

Conta que Asfora estava sentado à mesa de um bar com amigos, quando uma moça se achegou esbaforida, lhe implorando para ir defender seu irmão que estava sendo julgado por causa de uma briga com a família da namorada.

Saíram correndo, pois, os julgamentos do dia estavam iniciados, o que não deu tempo para Asfora estudar o processo; ele passou rapidamente a vista pelos autos e iniciou a defesa – como sempre brilhante -, argumentando contrariamente ao seu cliente. Quase concluía sua intervenção, quando a irmã do réu se aproximou e lhe advertiu que estava acusando em vez de defender….  Sem se perturbar, Raymundo Asfora correu para o improviso:

– “É assim que falará o promotor acusando o meu constituinte, apresentando deduções fantasiosas para condenar este pobre moço, vítima e não culpado; e eu vou rebatê-lo mergulhando nas águas cristalinas do Direito! ”. E fez uma defesa severa que absolveu o rapaz e entrou nos anais da Justiça Paraibana….

O improviso é muitas vezes necessário, e todos estamos sujeitos a improvisar, mas também somos obrigados a nos responsabilizar por possíveis equívocos, o que não é o caso dos advogados….

Acontece também (e muito) no Teatro. Do palco, conta-se que Sir Lawrence Olivier, no início da fulgurante carreira, foi perseguido por um velho ator que morria de inveja dele. Quando Lawrence estreou, foi coincidentemente como coadjuvante do personagem principal, protagonizado pelo tal invejoso; e este, em cena, passou-lhe um papel em branco e ordenou-lhe que lesse um édito do Rei.

Lawrence não se apoquentou; curvando-se, devolveu-lhe a lauda e disse em voz alta: -“Meu amado milorde, o Rei não sabe que sou analfabeto, como Vossa Excelência sabe, portanto, peço-lhe humildemente que leia por mim…”

Como na vida todos somos atores, enfrentamos situações imprevisíveis, sem estarmos preparados para enfrenta-la, sem um ponto em frente ao palco da existência que nos possa indicar o que deveremos fazer. Então somos obrigados a improvisar.

O verbete Improviso, dicionarizado, é um substantivo masculino com significado para algo que é dito de chofre, sem nenhuma preparação ou ensaio prévio. Leva ao teatro e à música para situações que exigem uma rápida modificação do texto ou na composição.

Improviso é também adjetivo, aquilo que se realizou de maneira repentina e imprevista; a etimologia da palavra é latina “improvisu”, do “in promptu”, prontidão, pronto para agir.

Nem sempre podemos festejar e aplaudir improvisos. Agora mesmo, enfrentando a diabólica pandemia do novo coronavírus, aprendemos, por exemplo, que governar não é improvisar como tem feito seguidamente o Governo Bolsonaro, e o Presidente, de moto próprio, adotando o “achismo” para receitar remédios ineficazes para a covid-19, como a cloroquina indicada para a malária.

O pior é que Bolsonaro é seguido submissamente pelo ministro da Saúde, distribuidor de “kits-covid” que nada têm a ver com a doença, e o ministro da Ciência, imaginem, da “Ciência! ”, indicando um vermífugo contra o novo coronavírus!

Assim, assistimos a todo momento conceitos negativistas assumidos por Bolsonaro sobre as mortes e contaminações, mostrando o seu despreparo, sua inconsciência, frieza e desumanidade, no trato das coisas ligadas à pandemia.

As famílias enlutadas, a agonia nas UTIs, a falta de leitos e de oxigênio, deveriam servir de alerta para que o Presidente pisasse no freio da sua estupidez para que interrompa seus improvisos, os disses-não-disses e a negação à Ciência, que resultam em lamento e revolta das vítimas e incentivam as mentiras revoltantes dos seus defensores…

 

 

MELANCIAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“De onde alguém tirou essa ideia imbecil de chamar a pessoa de melancia ou de maçã? (José Wilker)

Pelo comportamento e intervenções discursivas vê-se logo que o mais ferrenho anticomunista foi um membro da organização marxista que não alcançou os cargos de mando na hierarquia do partido…

Exceção à regra foi o jornalista Carlos Lacerda que presidente da Juventude Comunista, abandonou o PCdoB. Possuía uma invejável cultura, foi brilhante orador e extraordinário redator, pelo estilo e clareza do texto. Tive a oportunidade de vê-lo na Tribuna da Imprensa ditar dois artigos ao mesmo tempo para duas datilógrafas em mesas à distância uma da outra….

Outros referidos ficam por baixo na comunicação social; excetua-se o radialista e astrólogo Olavo de Carvalho, guru dos Bolsonaro e influente no governo federal, com duas ou três indicações para o Ministério…. Este se tornou, como influenciador digital, uma peça importante na política atual.

O anticomunismo de Olavão (como é conhecido pelos seus discípulos) bate com a formação do presidente Jair Bolsonaro. Ambos vivem o passado da chamada “guerra fria”, o conflito ideológico entre os Estados Unidos e a finada União Soviética, melhor dito, entre o capitalismo e o comunismo.

Antes de Bolsonaro ser afastado do Exército, o Pentágono – centro nevrálgico das Forças Armadas norte-americanas -, ainda planejava estratégias militares e a geopolítica da guerra fria, repassando-as aos seus aliados (como o Brasil). Então, o perigo vermelho era o espectro ameaçador para o Mundo Livre.

Hoje, essas configurações ficaram para trás, o Departamento de Estado e os militares norte-americanos subestimam os paisécos que se assumem como comunistas; voltam-se para enfrentar o terrorismo nascido no Oriente Médio, fazendo-lhe uma guerra sem trégua. Vê-se agora, o novo presidente norte-americano deletar a política externa de Donald Trump, mas manter as ações punitivas contra o Estado Islâmico e o que resta dos Talibãs.

Qualquer pessoa bem informada enxerga isto com clareza, por que não é difícil saber que a URSS se acabou, a China adaptou-se ao capitalismo e a Internacional Comunista ficou soterrada sob os escombros do Muro de Berlim…

Entre os países mais avançados, seja talvez o Brasil o único que olha pelo retrovisor da História, pela ignorância dos charlatães que ocupam o poder em nome de uma “direita conservadora” – que não é, evidentemente, o conservadorismo que Ângela Merkel faz na Alemanha, nem o do recém falecido George Shultz, ex-secretário de Estado dos EUA que ajudou a acabar com a Guerra Fria.

Por causa dos que ficaram presos ao passado, vemos ressurgir no Brasil o termo “melancia”, como sinonímia comparativa inventada pelos antigos arapongas da Abin para dedurar os oficiais das FFAA, classificando-os como melancias, “verdes por fora, vermelhos por dentro”….

A palavra Melancia, com este sentido aproximado não consta dos dicionários.  Aparece como um substantivo feminino usado na Botânica para designar uma planta cucurbitácea que foi cultivada antigamente nos países mediterrâneos e hoje se espalha em todo mundo. O verbete tem origem latina “maca mattiana”, “maçã da cidade de Mattium“, que deu no asturiano “mellón” e no gaélico antigo, “mael”; hoje, nos países hispânicos fala-se sandía.

No Verão que atravessamos, o suco da melancia é um refrescante notável; mas no Inverno da politicagem mas a fruta continua usada na expressão dos arapongas. Vemos nas redes sociais esta referência para os generais patriotas que não se penduraram nos cabides de empregos governamentais.

No Twitter, os retardados cultuadores de Bolsonaro chamarem o vice-presidente Hamilton Mourão e os generais Villas Boas e Santos Cruz de melancias… Estes estúpidos, que se assumem como anticomunistas, imitam Stálin, querendo apagar as fotografias dos antigos defensores de Bolsonaro, dissidentes revoltados, como eu, pelas traições dele ao discurso eleitoral.

“Ma como sonno cretini! ”, disse um senador italiano (que m’esqueço o nome) quando os fascistas foram contra o Tratado de Latrão, que deu autonomia ao Estado do Vaticano. Um dos “cretini” brasileiros, xerocador das fake news do andar “de cima”, acusou o general Olímpio Mourão Filho de comunista, pela citação do livro dele, “A Verdade de um Revolucionário”.

Ignorante, desconhece que Mourão Filho foi o principal ator do movimento militar de 1964 e fazem 50 anos que faleceu, em 1972. Vá ser cretino assim no Inferno!

ARQUIVO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Lembrar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração. ” (Gabriel García Márquez)

Acho que todos nós humanos, sejamos de qualquer origem geográfica, sexo, estatura ou cor, já refletimos pelo menos uma vez na vida que temos um computador no cérebro; o Criador inventou-o muito antes de Charles Babbage ou de Alan Turing que dividem opiniões sobre a invenção da máquina…

Aliás é uma pergunta insistente: – “Quem inventou o computador? ”. Babbage projetou e desenvolveu no século 19 um dispositivo eletrônico programável, que ficou conhecido como “Máquina Analítica”, que seria o projeto do computador.

O outro, Alan Turing, é conhecido pela literatura e no cinema, como criador do sistema chamado “Bombe”, que traduziu os textos criptografados nazistas e ajudou a derrota-los na 2ª Guerra Mundial. É aceito como o “pai da computação”, por ser o primeiro a acreditar numa máquina se tornar inteligente.

Quem está lendo este meu artigo pelo computador, laptop e smartphone na chamada “Era eletrônica” agradeça aos dois, Babbage e Turing, a quem se somaram dezenas, talvez centenas de cientistas que ajudaram a criar estes aparelhos.

Essas invenções maravilhosas trouxeram recursos de armazenamento de programas informativos infinitamente.  O “arquivo” está na “Memória RAM” temporariamente, porque só é ativado quando o computador está ligado; mas fica guardado no “Disco Rígido” definitivamente, pois todos os dados ficam salvos mesmo com o computador desligado.

É fantástico sabermos contar com arquivo numa máquina de metal e plástico, com botões, teclas, chips e parafusos no CPU; e não sei quantos dispositivos sem tradução em português, backup, bluetooth, desktop, drive, etc….

O nosso computador cerebral é mais simples; não precisa tanta coisa…. Segundo os biólogos, bastam os neurônios no Sistema Nervoso Central, localizado na substância cinzenta, e o Sistema Nervoso Periférico, nos gânglios e em órgãos dos sentidos….

Com ele, estamos aptos para emitir e receber ondas magnéticas com os nossos pensamentos e formação de ideias…. Temos também os nossos arquivos pessoais em lugar seguro sem precisar guarda-los na nuvem da web…

E são muito importantes os arquivos…  para os políticos são dossiês, e para nós, gente comum, recordações e lembranças, que formam os elementos fundamentais da nossa personalidade.

O verbete Arquivo, dicionarizado, é um substantivo masculino, conjunto de documentos mantidos em lugar seguro; e também a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo arquivar; ambos com etimologia latina (larchivum, i). Em Portugal é conhecido como Ficheiro.

Existem “arquivo morto” e “arquivo corrente”. O arquivo morto deixa esquecidos documentos não necessários no dia-a-dia, tal como notas fiscais, contábeis, processos encerrados; e o arquivo corrente, que alguns dividem em intermediários e permanentes são aqueles que ficam sempre à disposição para vistoria, revisão e prova.

Para cada um de nós, individualmente, a memória é fundamental na convivência social, e nas redes sociais muitas vezes nos surpreende.

No meu caso, que escrevi o artigo “Mitômano” referindo-me às mentiras compulsivas de Jair Bolsonaro, fiquei espantado por aparecerem mais de dez vídeos no Twitter com discursos dele antes de ser presidente, e todos desmentindo-o no que diz e faz… E depois veio a vergonhosa cena do general Heleno cantando em 2018: “Se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão…”

Esta forma de compartilhamento de História, com imagens e áudios, combinados e incontestáveis é um milagre da tecnologia…. Repartir pelas redes sociais os arquivos sobre personalidades políticas é essencial, faço-o sempre que posso com “os meus cabelos brancos que são o arquivo do passado”, tal qual se assumiu Edgar Allan Poe.

LEITURA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.”  (Mário Quintana)

Antes de me profissionalizar como jornalista, trabalhei em vários órgãos da imprensa do Rio de Janeiro que já não circulam. Guardo com saudade “A Manhã”, dos Diários Associados, onde reportei o esporte amador dos subúrbios cariocas; e, o “Diário Trabalhista”, onde fiz a incursão pelo jornalismo político. Reverencio especialmente a lembrança da revista “Leitura”.

Despertando para a vida, tive a felicidade de ver, mesmo de longe, na redação da Leitura, na Rua das Marrecas, Carlos Drummond, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Lúcia Miguel Pereira, Raquel de Queiroz, Rubem Braga…. E ao tê-los por perto, mergulhei na produção literária deles….

Graças à convivência imaginária com estes ídolos, tornei-me um voraz leitor. Li tudo o que me caiu nas mãos; além dos periódicos, jornais e revistas, os almanaques (multiplicavam-se naquela época), “best-sellers” estrangeiros, peças teatrais, poesias, romances, e até bula de remédio…

Adotei obsessivamente uma máxima de Monteiro Lobato, que veio num artigo escrito para a Leitura, alertando: – “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê. ”

Partindo daí, não vejo o “pior analfabeto” de que fala Brecht; para mim todos analfabetos são os piores indivíduos da raça humana… Excetuam-se apenas os combatentes em campo de guerra, conforme ouvi um relato sobre a atuação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra.

Um primo meu, que foi para a Itália guerrear contra o nazi-fascismo, contava uma passagem do comandante da FEB, general e depois marechal Mascarenhas de Morais, uma história que nenhum livro divulga.

“Quando inspecionava as tropas, Mascarenhas viu um soldado que trazia duas medalhas no peito, a cruz da bravura e a cruz do mérito; então perguntou ao oficial no comando: -“Por que este soldado ainda não foi promovido? ”. E ouviu que o praça era analfabeto e o regulamento impedia isto.

O General foi curto e grosso: – “Se ele demonstra coragem enfrentando o inimigo e conquista vitórias, quem vai exigir que leia e escreva? ”; e atropelando a regra, promoveu o soldado a sargento…

Esta é a única exceção porque o analfabetismo é imperdoável, mesmo considerando que o acesso aos estudos no Brasil é privilégio da alta burguesia e das classes médias; mas não são poucos os que rompem com isto, e mesmo com o ensino público deficiente, enriquecem-se pelo autodidatismo. Não há perdão sequer para militares analfabetos cujo combate se trava nas trincheiras da política…

A leitura está muito facilitada pelo advento da Internet e o acesso às redes sociais. Acompanhei (não vou citar nomes) muitos que se iniciaram trocando dois esses pelo cê cedilha e botavam ene antes de pê e bê…. Na sua maioria, passaram a escrever razoavelmente bem, e esta evolução se deve à leitura expressa no exercício da escrita e à paciência e à bondade dos vários professores que atuam na Rede.

O verbete Leitura, dicionarizado, é um substantivo feminino significando “ação de ler, compreender um texto escrito”; tem origem no verbo latino “lĕgo,is,lēgi,lectum,legĕre”, captar com os olhos, substantivado como “lectura,ae”.

Não me lembro qual o filósofo que defendeu a tese da importância da leitura ultrapassar os livros, aconselhando que se deve ler diretamente a realidade que nos cerca. Considero interessante a proposta, mas quem tem preguiça de pegar um livro terá olhos para ler o mundo?

Está certo o Padre Antônio Vieira quando diz que “Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar”. É assim que lemos penosamente a realidade brasileira, vendo a falta de estímulo do Ministério da Educação e das próprias universidades que dão mais valor a um diploma do que ao conhecimento.

Aos meus leitores (coautores dos textos, como diz Ledo Ivo) os meus agradecimentos; e, como na sinonímia da palavra “Ler” encontramos também “Advinhar”, podem crer que faço tudo para compreendê-los e interpreta-los.

MITOMANIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br )

“Não é aconselhável encontrar símbolos em tudo aquilo que se vê. Os símbolos tornam a vida cheia de horrores…” (Oscar Wilde)

Sou um admirador do mineiro Affonso Romano de Sant’Anna como poeta, mais do que como professor de literatura…. Degusto as poesias e nunca assisti suas aulas…. O pessoal do Twitter é testemunha de que não canso de postar os versos dele, recortados na sua maioria da “Implosão da Mentira”, um poema sempre atual no nosso cenário político…

A implosão da mentira faz parte da minha preocupação, pela multiplicação de falsos símbolos e criação de mitos vazios destinados a movimentos e personalidades na luta pelo poder; é a veneração dos tontos pelos protagonistas do show da mentira.

Exigente em relação aos agentes públicos, vejo muitas dessas figuras mais como mitômanas (ou mitomaníacas, como querem muitos) do que como mitos (como querem alguns).

Para a Mitomania, compulsão patológica para mentir, vou sempre a Sant’Anna, do qual reproduzo um excerto, extrato magnifico da sua poesia, à apreciação dos meus leitores:

“Mentiram-me./  Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente./ Mentem de corpo e alma, completamente./ E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente./ Mentem, sobretudo, impune/mente”.

O verbete Mitomania dicionarizado é um substantivo feminino de origem grega, composto da raiz “mythos”, que significa ‘história’ ou ‘palavra’, e do sufixo “mania”, significando ‘desejo desordenado’. O termo é vigente na Psicologia como a tendência mórbida para contar mentiras compulsivamente, criar histórias fantásticas ou simular situações inexistentes.

Por não encontrarmos textos fora da Medicina sobre a mentira patológica, acatamos os estudos médicos sobre os sinais e sintomas deste transtorno de personalidade, entendendo-os como a “predisposição para mentir”.

Estudos neurocientíficos sugerem que este transtorno decorre de determinadas condições mentais, como transtorno bipolar, esquizofrenia ou transtorno de personalidade limítrofe.

Pesquisa feita pela Universidade Stanford, da Califórnia, Estados Unidos, levantou dados com crianças de 200 famílias de origem e formação diferentes, e concluiu que meninos e meninas começam a mentir com seis anos, mas que pela repressão doméstica e a convivência escolar abandonam o hábito; são poucos indivíduos que se tornam mitômanos.

Para o poeta e escritor russo Boris Pasternak, autor do famoso romance “Doutor Jivago”, em que relata as perseguições do regime stalinista contra a liberdade de expressão do pensamento, tem uma frase que talvez lhe condene aqui e agora: – “Os detentores do poder ficam tão ansiosos por estabelecer o mito da sua infalibilidade que se esforçam ao máximo para ignorar a verdade.

É um pensamento que vem de encomenda para o presidente Jair Bolsonaro, eleito “mito” pelos seus aduladores fanáticos e, talvez por isto usa e abusa da própria condição mitômana da infalibilidade… Desdenhou da pandemia do novo coronavírus tratando-a como uma “gripezinha”, receitou, a conselho de Trump, remédios ineficazes e condena a imunização em massa pela vacina.

Aparelhou o Ministério da Saúde com militares da ativa e da reserva sem a menor experiência em saúde pública. Perfilam-se diante dele, mas batem cabeça na campanha da vacinação aceitando suas ordens negacionistas.

Felizmente os brasileiros em geral – com exceção dos cultuadores da personalidade do Presidente – registram os discursos irrealistas, as opiniões insensatas e o comportamento estúpido dele, tudo oxigenado de mentiras para fazer-se acreditar.

Enganou durante um certo tempo com mensagens inexatas e fictícias que não se mantiveram; pelo contrário, levaram-no de “mito” a mitômano, aquela pessoa que “de tanto mentir tão brava/mente constrói um país de mentira diária/mente”…

 

 

ADULADORES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

 “Os aduladores são a pior espécie de inimigos” (Tácito)

Encontramos nos dicionários de nordestinês do cearense Tomé Cabral e do paraibano Horácio de Almeida o termo “Adulão” designando o adulador. É usado como um desprezo ao agente da subserviência, que a altivez popular do Nordeste condena.

O verbete Adulador é dicionarizado como adjetivo, o que bajula, o lisonjeador; e também como substantivo masculino para o Indivíduo que adula; quem faz elogios em excesso. A etimologia é latina, “adulator,oris”, aquele que adula.

Esta fauna é encontrada em todos ramos da atividade humana e se multiplica com filhotes tal e qual ratazanas de esgoto, que pare doze ou mais cada vez….  Surgem na escola, no emprego, nas forças armadas e nas repartições dos governos; e até de onde não se espera, no exercício profissional…

Aprendi com a minha mãe que o bajulador é um ser desprezível e meu pai dizia que a gente fica mais confiante e mais forte com as críticas. Estas lições me fazem incomodar muita gente com a verdade, do que agradar com bajulações.

Por isso, recebo críticas sobre o que escrevo defendendo a vida contra o negacionismo obscurantista, filho da ignorância e da politicagem. Faço-o permanentemente comentando, denunciando e perfilando os cúmplices conscientes do vírus, ou omissos em contestá-lo.

Como uma realidade funesta, a pandemia do novo coronavírus construiu um sistema mental de revolta, que assumo, contra os que desdenham a ameaça da covid-19 e negam os avanços científicos na busca de combate-la.

Numa comédia de Shakespeare, “Noite de Reis”, um dos personagens rejeitado no seu meio, que comenta – “Os amigos me adulam e me fazem de asno, mas meus inimigos dizem abertamente que o sou; de forma que os amigos me prejudicam e com os inimigos aprendo a me conhecer”.

Como a cena política é um teatro, nós, do auditório, assistimos os personagens principais trocando falsas lisonjas influenciando os coadjuvantes a adulá-los para melhor aproveitar-se deles.

Nada melhor representa isto do que as figuras que cercam o presidente Jair Bolsonaro, a partir dos próprios filhos, que sempre viveram à sua sombra e às suas custas; e se estende aos ministros nomeados do círculo familiar ou figurantes reservistas para mostrar compromisso militar.

Lembram-me a “Verdade de um Revolucionário”, em que o verdadeiro líder de 1964, o general Olímpio Mourão Filho, vê pela lupa da verdade o mundo da bajulação, e observa: “Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semianalfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta”.

Na crise inegável que atravessamos, os bajuladores não se limitam ao governo, são figurantes secundários que se abraçam ao tronco do poder como parasitas para sugar a sua seiva…  Multiplica-se no varejo das redes sociais, legiões de fantoches (o povo os trata como mamulengos) manipulados desde os porões do Palácio do Planalto.

Essas marionetes não regatearam aplausos quando Bolsonaro declarou no ano passado que “a pandemia está no fim e pressa para vacina não se justifica”; e agora deram uma guinada de 180 graus, convertendo o líder negacionista em “Pai da Vacina”…. Quanta hipocrisia!

Por fanatismo ou vantagens pessoais, pouco importa aos aduladores que Chefe, mesmo com presumível formação militar, ignore o grande estrategista Carl von Clausewitz e seu livro “Da Guerra”, ensinando que “quem não colabora, prejudica”; e também desconhece a lição antológica de Napoleão Bonaparte: – “Quem sabe adular também é capaz de caluniar’.

No mundo civil, temos a antiquíssima filosofia hindu ensinando que “as línguas dos aduladores são mais macias do que seda na nossa presença, mas são como punhais na nossa ausência….

 

 

Pablo Neruda

O monte e o rio

Na minha pátria tem um monte.
Na minha pátria tem um rio.
Vem comigo.
A noite sobe ao monte.
A fome desce ao rio.
Vem comigo.
E quem são os que sofrem?
Não sei, porém são meus.
Vem comigo.
Não sei, porém me chamam
e nem dizem: “Sofremos”
Vem comigo
E me dizem:
“Teu povo,
teu povo abandonado
entre o monte e o rio,
com dores e com fome,
não quer lutar sozinho,
te está esperando, amigo.”
Ó tu, a quem eu amo,
pequena, grão vermelho
de trigo,
a luta será dura,
a vida será dura,
mas tu virás comigo.

Gabriela Mistral

O Pensador de Rodin

 

Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.

E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.

E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte

Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.