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Gregório de Matos

Triste Bahia

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Castro Alves

O “Adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos sec’los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . ”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Cecília Meireles

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo…

Hilda Hilst

Poemas aos homens do nosso tempo

 

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.

AMIGOS

MIRANDA SÁ (mirandasa@uol.com.br)

“Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.”   (Machado de Assis)

Fui educado dando valor à amizade; aprendi com meu pai radical nos seus conselhos, um dos quais se tornou, para mim, princípio de vida: – “Nunca se sente à mesa para comer, beber ou jogar, sem ser com amigos”. Sigo até hoje este ensinamento.

Para o povão, o cantor Roberto Carlos ressaltou o amigo na canção em homenagem ao seu parceiro Erasmo Carlos: “Você meu amigo de fé, meu irmão camarada/ A sua palavra de força, de fé e de carinho/ Me dá a certeza de que eu nunca estive sozinho”; e o mineiríssimo Milton Nascimento reforça esta ideia: “Amigo é coisa pra se guardar/ Debaixo de sete chaves, / Dentro do coração”.

Dicionarizado, o verbete Amigo é um substantivo para os dois gêneros, masculino para amigo e feminino para amiga. Vem do vocábulo latino “amicus,i” originado do verbo “amo”, significando “gostar de”, “amar”.

Coloquialmente usamos para uma pessoa com quem se mantém relação de amizade, de afeto, de companheirismo; e o seu reconhecimento, para os mais exigentes, achei num provérbio histórico vivido pelo filósofo Sócrates da antiga Grécia.

“Conta-se que o Sábio, já reconhecido como uma personalidade respeitada entre os atenienses, mandou construir uma casa para morar com a sua família. Então, os colegas de estudos, conhecidos da Ágora e alguns familiares começaram a criticar a construção.

“Diziam que o frontispício era modesto, que a estrutura externa não era digna de um cidadão da sua personalidade, e quase em unanimidade condenaram os aposentos achando-os pequenos. Enfim, nenhum detalhe escapou à censura.

“Ouvindo os comentários críticos e opiniões contrárias, Sócrates, imperturbável, exclamou: – ‘Provera Deus que a minha casa, tal como eu a desejo, pequena e acanhada, pudesse estar cheia de verdadeiros amigos’”.

Esta preleção tem o peso da sabedoria que o Filósofo com a notável perspicácia nos deixou, através dos seus brilhantes discípulos Platão e Xenofonte – porque ele não deixou escritos os seus pensamentos e ideias.

Por desgostar do poder constituído, Sócrates foi preso, acusado de corromper a juventude e provocar mudanças na religião, desdenhando dos deuses com o princípio “Conhece-te a ti mesmo” que era, para ele, a essência da vida. Foi condenado a suicidar-se tomando um veneno chamado cicuta, em 399 a/C.

Aproveitando os traços desta sapiente trajetória filosófica, qualquer um de nós gostaria de ver as nossas casas repletas de verdadeiros amigos.

Afirmando “amigos de verdade” evitamos vulgarizar a palavra que é empregada, por exemplo, como “amigo do alheio”, referindo-se a ladrão, figurinha carimbada nos meios políticos brasileiros; ou, também, “amigo da onça”, designando quem foi considerado amigo e se revelou traiçoeiro ou desleal.

Temos ainda na gíria brasileira a expressão “amigo urso” também voltada para o infiel e traidor; mas, para compensar, o lado do bem adota “amigo do peito”, aquele que é íntimo, confidente e protetor, o que nos conforta. É este que rareia entre os políticos brasileiros, deixando-os quase todos alheios à realidade por excesso de louvaminhas e falta de informação.

Sócrates, que ainda vive através dos seus ensinamentos, ensinou que “uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida”, o que parece um recado secular, antecipado para o presidente Jair Bolsonaro.

O Presidente, enfrentando obstáculos para cumprir suas promessas eleitorais, deve estar atento seu maior amigo e conselheiro, ele próprio, que vive no seu cérebro e no coração desde quando aspirou a presidência da República…

Cora Coralina

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Vinicius de Moraes

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

CAMINHO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quer.” (Confúcio)

Escrevi um artigo homônimo em 2017, “O Caminho”, mostrando a intolerância stalinista contra um dos grandes intelectuais brasileiros, o escritor alagoano Otávio Brandão, autor de diversas obras entre elas, “Canais e Lagoas”, como o “Manifesto Sururu” que inspirou bem mais tarde o movimento recifense “Mangue Beat”.

Gosto muito da palavra Caminho. É poética e mística. Dicionarizada, é um substantivo masculino vindo do latim vulgar com origem celta (camminu), com riquíssima sinonímia na língua portuguesa de onde pescamos atalho, brecha, destino, momento, oportunidade, saga, senda, trilha, vereda e via.

A mitológica saga nórdica e a beleza sertaneja vivificada por Guimarães Rosa, se completam com senda, que coloquialmente é hábito, rotina; e na discussão filosófica entra com momento, oportunidade e via.

“Trilha” intitula um grupo do Twitter, com participantes comprometidos com o bem, pelo Desenvolvimento Econômico, Justiça, Patriotismo e Liberdade; luta pelo destino que todos queremos para o Brasil.

O Evangelho de João (14:6) registra as palavras de Jesus Cristo “eu sou o caminho, verdade e a vida” em uma conversa com seus apóstolos; e Confúcio, com uma lição magistral diz que: “a experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido”.

O notável orador paraibano José Américo de Almeida, cunhou na antologia dos grandes pensamentos brasileiros a frase “ninguém se perde no caminho da volta” lembrando que a gente adquire prática e perícia com o conhecimento transmitido ao longo da vida.

Pela minha ótica, a sociedade brasileira está precisando mais do que nunca de percorrer o caminho da verdade com uma lanterna iluminando as trevas de um passado recente, onde uma quadrilha se apossou do poder por um estelionato eleitoral e se manteve nele por 16 anos, demolindo, tijolo a tijolo, a ética, a honestidade e o respeito pelas tradições nacionais.

Tudo foi deles para eles. A demagogia midiática desenfreada, o assalto às empresas estatais, a criminosa transferência da riqueza nacional para as ditaduras narco-populistas e o aparelhamento do Estado, infiltrando agentes do caos nos três poderes da República.

Muito pior do que o lado material da desconstrução dos valores nacionais, o campo espiritual ficou desprovido do respeito humano e da solidariedade com a mútua e respeitosa consideração entre as pessoas. A fração perniciosa do narcopopulismo insiste em destruir reputações e impedir o avanço da luta contra o crime organizado, da bandidagem comum e dos políticos corruptos.

A ideia da solidariedade me levou ao escritor francês Remy de Gourmont que escreveu, referindo-se à uma prática de devoção budista em certos mosteiros do Nepal, que quando a neve e os temporais tornam impraticáveis as subidas na montanha, os monges recortam figurinhas de cavalo em papel e as soltam ao vento do alto das torres. Confiam que Buda vai recolhe-las e converte-las em cavalos de verdade para ajudar os peregrinos a se salvar.

Gostaria de pedir aos dirigentes do Congresso, do Executivo e do STF que pratiquem esta santa lição recortando em papel alumínio pequenos foguetes, e os soltem brilhantes sob o sol de Brasília indicando e defendendo o caminho de um futuro radioso para a nossa Pátria.

 

Carlos Drummond de Andrade

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

 

DOS MILAGRES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“No desespero e no perigo, as pessoas aprendem a acreditar no milagre. De outra forma não sobreviveriam”  (Erich Remarque)

Escrevi num artigo anterior que as palavras são instrumentos para batear sapiência; e acrescento: é através delas que as pessoas se entendem, se julgam e se compreendem. Escritas ou faladas, quando traduzem um pensamento puro, já não pertencem a quem as proferiu; se ampliam e incorporam-se ao senso comum.

No mundo das ideias, as palavras condenam a intriga, o preconceito, o racismo e a violência, mas de outro lado recolhem e afagam a amizade verdadeira, o amor, a solidariedade humana e a verdade.

O mundo real, ao contrário. Não me lembro quem, e o doutor Google não soube dizer, deixou escrito que: “A natureza é implacavelmente indiferente. Essa é uma das lições mais duras que devemos aprender.”

Com os padrões de comportamento ditados por minorias introvertidas muitas pessoas se afastam do convívio social trazendo em si a indiferença; mas detêm o poder irremovível de escolher o que advier.  É o que as religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo chamam de livre-arbítrio, embora isto não esteja explícito nem no velho, nem no novo testamentos, tampouco no Alcorão.

É este impulso natural que nos leva a crer ou não crer em milagres. Dicionarizado, o verbete “Milagre” é um substantivo masculino vindo do latim, “miraculum”, do verbo “mirare”, que se traduz por “maravilhar-se”. Trata-se de um acontecimento incomum, extraordinário, que não se explica normalmente e a Ciência não comprova.

Hollywood nos trouxe em 1999 o belo filme “À Espera de um Milagre”, dirigido por Frank Darabont contando no elenco com Tom Hanks, Michael Clarke Duncan, David Morse e Bonnie Hunt.

Passa-se no corredor da morte de uma prisão no Sul dos Estados Unidos. O chefe da carceragem, beneficiado pela cura sobrenatural de uma terrível infecção renal, pelo poder miraculoso de um preso, Coffey, condenado por ter matado duas crianças, tem o maior respeito por ele.

Na presença de outros agentes penitenciários, assiste-se à ressuscitação de um rato e o restabelecimento de uma senhora que tinha um câncer no cérebro. No papel do milagreiro Coffey, M. C. Duncan conquistou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante pela magnífica interpretação.

No Brasil de hoje, somos milhares de brasileiros à espera de um milagre que salve a nossa Pátria do enredo maléfico deixado pelos dezesseis anos dos governos petistas de Lula da Silva e do seu mamulengo, Dilma Rousseff, quando se institucionalizou a corrupção levando o País a tornar-se exportador de propinas para a América Latina.

E mais: deixaram a administração pública infiltrada de agentes narcopopulistas que sabotam quaisquer iniciativas e esforços para dar um fim na corrupção e criar condições para o desenvolvimento econômico do País.

Agora mesmo, estamos assistindo uma continuada conspiração, com tramas midiáticas e terrorismo virtual, botando vida política e social pelo avesso. Vemos o senhor Glenn Greenwald, cúmplice de uma criminosa ação de hackers contra personalidades do Ministério Público e da Justiça Federal, receber apoio de setores da política e da mídia, numa orquestração planejada e executada para abalar os ministros do STF, visando soltar o presidiário corrupto Lula da Silva.

A colunista Mônica Bergamo do jornal oposicionista Folha de São Paulo, porta-voz do lulopetismo, revelou outro dia a reunião de 40 advogados comprometidos em defender Greenwald. Não é pelo cerceamento da liberdade de informar, mas para impedir investigações da movimentação financeira dele pelo Coaf…

Engrossando esta grande maquinação, outro tentáculo do lulopetismo, o partido Rede, pediu que o STF suspenda qualquer investigação a respeito deste conluio contra a Lava Jato e o ministro Sérgio Moro.

Diante disso, quem pode calar-se? Sigam-me os brasileiros no compasso das palavras de Abraham Lincoln: “Pecar pelo silêncio, quando se deve protestar, faz da cidadania vergonhosamente covarde”.