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BOM SENSO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Tente botar bom senso na cabeça de um tolo e ele dirá que é tolice” (Eurípedes)

Tenho um amigo no Rio Grande do Norte, o médico e ex-senador Lavoisier Maia, que nos seus discursos apelava sempre para o bom senso dos seus eleitores e enfatizava o refrão “é comparando que se entende”. As duas expressões eram tão repisadas que marcaram a sua personalidade.

A doutora em psicologia social e autora de diversos livros na sua área, Ana Mercês Bahia Bock, afirma que “o senso comum é uma ciência baseada nos fatos que ocorrem no cotidiano” e para o filósofo Aristóteles, o bom senso é “elemento central da conduta ética, uma capacidade virtuosa de achar o meio-termo e distinguir a ação correta”.

Tratando-se de uma qualidade cultural, o bom senso soma a parte intuitiva do ser humano e a capacidade dos indivíduos terem conhecimento da realidade em que vivem adequando-se às suas regras e costumes.

Na convivência social observa-se que uma pessoa age com bom senso, constata-se que ela argumenta com racionalidade ao julgar e toma atitudes corretas nas escolhas conforme os padrões morais vigentes.

Por estar ligado a moral, o bom senso praticado por um agnóstico, budista, cristão, judeu e islamita é interpretado diferentemente, mas sempre baseado na doutrina seguida e praticada.

Dois séculos atrás a História Literária Lusófona registrou um caso que ficou conhecido como “Questão Coimbrã”, uma polêmica entre António Feliciano de Castilho e Antero de Quental, em torno dos conceitos “bom senso” e “bom gosto” para julgar o realismo e naturalismo.

Castilho, escritor romântico que perseguia os clássicos da literatura, censurou um grupo de jovens escritores e acusou-os de exibicionismo e de falta de bom senso e bom gosto.

O notável poeta Antero de Quental respondeu-lhe com uma carta, depois publicada num panfleto intitulado “Bom Senso e Bom Gosto”. Defendeu a adaptação dos jovens à nova realidade que refletia grandes mudanças, e ridicularizou a poesia de Castilho, que considerava leviana e desvalorizada.

Nos nossos dias revolucionários da economia global e a consequente intromissão tecnológica, a discussão dos grandes vultos portugueses nos parece sem importância, no entanto como é preciso mudar o que deve ser mudado, exige-se o bom senso de todos, principalmente dos ocupantes do poder.

É evidente que não há bom senso do juiz que age politicamente, e de um político que age em interesse próprio. Infelizmente, tais comportamentos desses protagonistas do governo e do estado tornaram-se corriqueiros entre nós.

Falta bom senso ao homem público, parlamentar ou magistrado, que se coloca contra o combate à corrupção. Um legislando para perseguir aqueles que investigam e punem corruptos e corruptores, e o outro afrouxando as punições dos criminosos favorecendo a impunidade.

O bom senso, portanto, está na cabeça de cada um, por sua formação ideológica. Uma passagem histórica (pode até ser uma lenda) conta um fato ocorrido entre Dario – o derrotado rei dos persas -, e Alexandre – O Grande -.  Ao terminar a batalha final, o conquistador foi procurado por um emissário do derrotado.

– “Alexandre”, disse o embaixador, “Dario lhe oferece a metade do seu reino em troca de uma paz honrosa”. O conselheiro do Macedônio, Parmênio, presente ao encontro, tomou a liberdade de intervir, dizendo – “Se eu fosse Alexandre, aceitaria”.

Com a segurança e o bom senso dos grandes líderes, Alexandre respondeu: -“Eu também, se fosse Parmênio”. E recusou.

 

 

 

SUPERSTIÇÕES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Existe uma certa superstição em evitar a superstição(Francis Bacon)

Há pouco, quando estivemos eu e minha mulher na Argentina levamos o nosso neto Heitor para visitar a Republica de Los Niños em La Plata; ao regressar para Buenos Aires pensamos em fazer a travessia do Rio da Prata até a Colônia de Sacramento, no Uruguai.

No dia aprazado, desci para o desjejum e pensei no elevador que não devíamos fazer o passeio. Enfrentei resistências dos meus, mas insisti em adiar nossa ida para o dia seguinte. Não deu outra; houve problemas com uma das lanchas, que ficou à deriva algumas horas.

Como eu, muita gente vê sinais em sonhos e pensamentos, mas há também quem não creia em superstições…, entretanto, ao longo da vida encontrei gente que beijava um naco de pão antes de se desfazer dele, quem jamais acenderia três velas num altar com o mesmo fósforo, e tive uma prima que só aceitou casar-se se fosse no mês de maio…

Conta-se o caso de um deão da Igreja anglicana que protestou quando Winston Churchill adotou aquele gesto do “V” da vitória com os dois dedos da mão, declarando que o Ministro estava figurando os chifres do diabo…, no entanto, a mímica ganhou o mundo principalmente como aceno político.

A numerologia cabalística considerada por alguns até como uma ciência, é usada para prever a vida pela data do nascimento, para avaliar número de letras do nome, para prever negócios e até para ter indícios de uma posição política. Entre os métodos adivinhatórios este é o maior nascedouro de superstições.

Acho que não se deve banalizar a superstição, mas não esquecer o genial Shakespeare que se expressou pela boca de Hamlet falando a Horácio: – “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia…”.

Temos conhecimento de inúmeros casos onde a superstição é surpreendida pelo acaso. Meu pai contava a história de um seu colega que pegou um avião do Rio para Recife, naquele pinga-pinga que parava até em Canavieiras. Antes de aterrissar em Vitória foi tomado de pânico, e da capital capixaba foi ao Correio passando um telegrama para a esposa dizendo que não estaria no voo tal. Mas ao sair do prédio, foi atropelado e morto em via pública.

A minha avó Quininha não permitia que ninguém deixasse um chinelo com o lado de calçar para baixo, dizendo que dava azar. Quando crianças com medo do que poderia acontecer obedecíamos. Mais tarde, já rapazote, perguntei a vovó de onde ela tirou a história dos chinelos, e ela me disse que era para nos ensinar a nos precaver de um escorpião que poderia adentrar no calçado…

Não é para sacanear não, mas ouvi um tio velho dizer que não acreditava num partido de número “13” portador de coisas más. – “No mínimo”, dizia, “vai trazer de volta um regime como o de Hitler ou de Stálin”. Seria uma profecia se tivesse acrescentado que além do totalitarismo traria também a corrupção…

Cristãos ortodoxos encontram na Bíblia o capítulo 13 do livro do Apocalipse que faz explícita referência ao anticristo e à besta.

Nada mais romântico do que a superstição contida num provérbio turco com a história de um poeta debruçado sobre um poço, que viu a Lua refletida na água; supersticioso, preparou uma corda com gancho para pescá-la. Na tentativa, o gancho ficou preso numa pedra, obrigando-o a um grande esforço para puxá-la e ela se rompeu; e ele caiu de costas com a cara para o céu, onde viu a lua.

Com a imaginação inspirada de sonhador disse: – “Que Alá seja louvado! Pus a Lua de novo entre os astros do firmamento! …

A CIÊNCIA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“A ciência é o triunfo do conhecido sobre o desconhecido” (Bráulio Tavares)

Um dia – faz muito tempo -, conversando com professores da Universidade de Leipzig opinei sobre a criação de um mercado comum no Cone Sul da América Latina (ainda não se falava em Mercosul) como o terceiro polo econômico rival dos EUA e da finada URSS. Um deles me perguntou qual era a base científica para este fundamento.

Não tive, e daí em diante, sempre que me questiono, penso nisto. Sem levar em conta a Ciência, seja pela observação das leis da Natureza ou analisando as relações socioeconômicas do País, qualquer projeção cai no vazio.

Dessa maneira, tento pesar qualquer preceito tendo como referência a humildade de Isaac Newton ao responder o panegírico de um orador que o exaltou na Academia de Ciências: “Se subi tão alto foi porque me apoiei sobre os ombros de gigantes”.

Newton referia-se aos antigos gregos “amigos da sabedoria” – que se chamavam a si mesmos “filósofos” – o que significava ser ao mesmo tempo escritor, poeta, músico, matemático, geômetra, político, teólogo e, claro, cientista… Destacaram-se entre eles Sócrates, Platão, Aristóteles e Pitágoras. Depois, também oferecendo os seus ombros aos pósteros, vieram Galileu e Da Vinci.

É inegável o tributo dos árabes muçulmanos após a conquista da Península Ibérica, no Califado de Córdoba, que fizeram avançar com sua alquimia, a química e a farmacologia, que com sua álgebra ampliaram os horizontes da matemática, e resgataram para o Ocidente os clássicos greco-romanos.

Da herança desses gigantes do saber, se aproveitaram o confesso coletor da sabedoria Newton, e Leibniz, inventores ao mesmo tempo do cálculo diferencial integral, a maior contribuição científica para o mundo tecnológico, a engenharia matemática e a Teoria da Relatividade de Einstein.

Para abordar os avanços da Ciência surgiram várias teorias da conspiração. Fala-se de intervenção extraterrestre, sociedades secretas, manifestações do espírito de pessoas desencarnadas e até da bruxaria alquímica…

O triunfo do conhecido sobre o desconhecido tem realmente uma misteriosa repressão. Galileu, por defender o heliocentrismo de Copérnico foi obrigado pelo Papa a se retratar e depois exilado; e Calvino determinou que o fármaco-químico e médico espanhol, Miguel Servet, fosse queimado vivo.

Tais perseguições ocorrem pior ainda quando a ideologia se infiltra nos meios científicos. Registra-se o fato de Stálin defender o seu bajulador Lyssenko, o charlatão criador da falsa biologia “materialista”, impedindo que cientistas russos coordenados por Jaurès Medvedev, descobrissem pioneiramente a dupla hélice do DNA.

E mais triste ainda, estes sábios soviéticos foram perseguidos, e como Medvedev, presos e enviados para campos na Sibéria por discordarem do lissenquismo. Estas vítimas da Ciência foram reabilitadas com o fim da URSS, sem, contudo, recuperar-se a perda sofrida no campo da genética.

Coisa parecida fazem os opositores lulopetistas do Governo Bolsonaro condenando apressada e organizadamente “cortes de verbas para pesquisas” e denunciando a perda de bolsas de estudo sem mérito. Com eco na mídia comprometida com o globalismo, taxam o Presidente de inimigo da Ciência.

O lulopetismo é cômico e nos leva às gargalhadas ao lembrarmos que a única conquista científica nos 16 anos de poder do PT e seus puxadinhos foi a tomada de três pinos, um “avanço” não da Ciência, mas ao bolso do povo que pagou às indústrias amigas do PT-governo a distribuição de propinas aos hierarcas do partido…

 

 

Fernando Pessoa

O UNIVERSO NÃO É UMA IDEIA MINHA

O universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Fernando Pessoa

Quando as Crianças Brincam 

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Luis de Camões

Canto VII

Já se viam chegados junto à terra
Que desejada já de tantos fora,
Que entre as correntes Indicas se encerra
E o Ganges, que no Céu terreno mora.
Ora sus, gente forte, que na guerra
Quereis levar a palma vencedora:
Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante!

LEITURA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas”. (Mario Quintana)

Tive a felicidade de nascer e ser educado num ambiente onde a leitura era compulsiva. Meus pais liam muito e sempre estavam em dia com os livros lançados e comentados; tinham até conta em livraria.

Adquirir o hábito da leitura logo cedo foi uma dádiva na minha adolescência e juventude, como hoje ocorre com as crianças e jovens que têm a felicidade de dispor de computadores ou outros dispositivos móveis.

Dizem que o fenômeno da Internet leva as pessoas ficarem parcimoniosas com a leitura. Nada mais falso, porque nas redes sociais temos a plenitude do direito à informação, com notícias de jornais nacionais e estrangeiros, comentários em revistas culturais, científicas e técnicas, e livros, embora ainda pouco acessados.

Na minha opinião, o motivo para a falta de leitura deve-se à degradação da chamada grande imprensa no dever de informar, o que é comprovado pelo grande número de pessoas que deixou de comprar jornais e cortou assinaturas de revistas, fugindo da servidão ao conteúdo desses órgãos.

O desprezo pela opinião pública na imprensa escrita, a irresponsabilidade das agências de notícias e as fraudes dos institutos de pesquisa, fazem orquestradamente a defesa sub-reptícia de personalidades, de grupos, de partidos e seitas.

A redação nos jornais vem copidescada de tal forma que já não se entende o conteúdo da matéria pela inflação de palavras e a pontuação truncada; parece proposital, mas é possível que os profissionais estejam sendo pagos por lauda e linhas, ou é provável o alinhamento deles com o zumbi stalinista, um morto-vivo que corre o mundo.

Telespectadores abandonam programas políticos das grandes redes de televisão em protesto pela manipulação do noticiário e a distorção das análises; assim, dos tradicionais meios de Comunicação restam as emissoras de rádio que divulgam música ou são especializadas em temas esportivos e/ou religiosos.

Isto vem ocorrendo também na literatura. É lamentável o desprezo pela poesia e pelo texto teatral; constata-se nas estantes o vazio outrora ocupado por escritores nacionais, que cedem lugar aos best-sellers europeus e norte-americanos.

Os escritores da atualidade não aprenderam a lição de Eduardo Galeano, que confessou de público a procura de uma linguagem sem solenidade que permita pensar, sentir e se divertir, “nada habitual nos discursos de esquerda”.

É por isto a desprezível composição da Academia, a falência de editoras e livrarias, e o esvaziamento dos festivais literários como se viu no último de Paraty.

Há igualmente outra razão para o fracasso da leitura: a baixa qualidade intelectual das gerações formadas nos governos lulopetistas, período em que se enalteceu o analfabetismo dos pelegos ocupantes do poder, e a cultura virou o monopólio de meia dúzia de intelectuais militantes financiados pelo PT-governo.

Da mesma forma, é triste conferir o que escrevem os autos assumidos e autos elogiados filósofos, que engorduram seus textos com a banha da vaidade, sem humildade e desrespeito com os antecessores, desvalorizando-se e negando-se como pensadores.

Dessa maneira, a Web é a taboa de salvação. Da minha parte, como brilhantes colegas que atuam nas redes sociais, faço-me presente com artigos duas vezes por semana, contando com uma média de 120 leitores de excelente qualidade.

Reconheço, porém, e lamento, que alguns tuiteiros da nova leva não estão habituados com a leitura ou têm preguiça de ler, sofrendo dificuldade de interpretar um texto. Levo para eles, um recado de Carlos Drummond de Andrade: – “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, são muitos os que não sentem esta sede”.

 

HERESIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uoL.com.br)

“Aqueles que concordam com uma opinião chamam-lhe opinião; mas os que discordam chamam-lhe heresia” (Thomas Hobbes)

Podem me chamar de “herege”; mas criado numa família em que a minha avó paterna era católica ao extremo, mãe espírita, pai agnóstico, irmã umbandista e um tio que foi pastor protestante na época da perseguição aos “crentes”, não me considero preconceituoso quanto à religião. Apenas sou um leigo diante dela.

Vejo que tanto na religião como na política defende-se o sentido da vida, e em ambas, como diz o jornalista e escritor italiano Eugenio Scafari, vê-se que o que vale, é ver “a divisão entre o que é bem e o que é mal, compreendendo a existência de uma ordem do bem e do mal”.

Entretanto, pelas intervenções de alguns tuiteiros que acompanho, encontro uma disposição de trazer para o campo político um entrevero religioso, pedindo orações em vez de argumentação ou denúncias contra os males que o lulopetismo insiste em manter contra o interesse nacional.

Os sectários são poucos, mas por convicção enraizada não se dispõem a pôr os pés no chão enfrentando a realidade no combate ao mal, como se encontramos nas posições laicas em relação à politicagem.

Evitam, inclusive, o diálogo com os companheiros de viagem independentes das suas tendências teológicas sem ver que a inclinação ao laicismo é a busca da verdade, querendo respostas científicas para o preceito básico da fé, em nome da liberdade de consciência; adotando o livre-arbítrio.

É por isto que defendo para os leigos o direito de seguir pesquisando, duvidando e censurando os que embaralham religião e política na mesa forrada com textos bíblicos. São os mesmos que criticaram a missa rezada em latim dos católicos e hoje criticam a exibição de cumprimento litúrgico em hebraico.

A magia do tempo leva-nos a pensar como Humberto Eco, registrando com a sua religiosidade laica a “força religiosa, moral e poética de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos e da vida em holocausto pela salvação da humanidade”.

Isto encanta e nos leva a pensar em imitá-Lo, porém nos leva a pensar hereticamente, como fez o cardeal Carlo Maria Martini, jesuíta, interrogando-se, “se, por inescrutável desígnio divino, Cristo tivesse encarnado no Japão? ”. E abrasileirando, se Jesus Cristo tivesse nascido de uma virgem caeté do litoral nordestino, pregaria em nome de Tupã?

Evidente que Deus na sua onisciência, onipresença e onipotência sabe o que faz; e é óbvio que Ele quer a convivência pacífica e respeitosa de crentes e leigos para que possam viver em comunidade defendendo uma justiça boa e perfeita e o progresso na Nação.

Muito tempo atrás, iniciando no Twitter e conquistando meia centena de seguidores, meu genro, ironizando, disse que eu já podia fundar uma igreja. Nunca pensei nisto, ao contrário, apenas conscientizei-me de que a expressão sincera do pensamento me gratificaria e levaria os mais jovens a refletir sobre as minhas experiências e o conhecimento que acumulei ao longo da vida.

Assim, procuro defender princípios. E informar, e esclarecer, e apelar para a reflexão sobre a realidade em que vivemos, separando a política da minha crença – que adota, como Einstein, o deus que Spinoza chama de “Alma do Universo”, e não um deus que se preocupe com as minhas necessidades pessoais.

Por isso mantenho a luta por um mundo melhor; e, como patriota, acredito e acompanho a consigna “Brasil acima de tudo”, esperando não seja abandonada à margem do longo caminho que temos pela frente para nos livrar da herança maldita deixada pela pelegagem narcopopulista.

 

 

 

PRECONCEITO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Nunca é tarde para abrirmos mão dos nossos preconceitos” (Henry Thoreau)

A História registra grandes preconceitos que, como uma vitória da consciência humana, foram derrubados ao longo do tempo. Há poucos registros sobre isto, e um deles garimpei nas minhas pesquisas: já no estágio civilizatório ocidental, até o século 17 era proibida a subida de mulheres num navio e até pouco tempo era voz corrente entre os marinheiros que elas davam azar entrando num submarino…

O preconceito foi quebrado num fato que marcou o início da colonização dos Estados Unidos e até hoje é motivo de orgulho para os norte-americanos, a migração dos puritanos ingleses conhecidos como Os Peregrinos, que saíram da Inglaterra em 1620 no navio Mayflower com 25 tripulantes e 102 passageiros, incluindo famílias já formadas e recém-casados.

Em geral, os preconceituosos nem sabem mesmo porque o são. Li a história vivida pelo grande músico italiano, Arturo Toscanini, que ouvindo uma sinfonia de Beethoven gravada em disco, criticou a interpretação, sem saber que a execução era dele, gravada num dos seus concertos. Quando soube, reconheceu que o disco era seu…

O triste é que há preconceitos apoiados até pela Bíblia, cujo texto os católicos não podem pôr em dúvida, porque o Concílio de Trento, em 1546, proibiu que se pusesse em dúvida a inspiração divina do Livro. Nele, porém, está gravada a intolerância em Lucas, XIV, 23: “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora com a vara, e secará e enfeixá-lo-ão, e o lançarão no fogo, e arderá”.

Muitas pessoas se sentirão hoje tão perseguidas quanto a proibição da Marcha Gay em Havana pelo maravilhoso socialismo fidelista, ao tomar conhecimento do que está escrito no Deuteronômio (XXII): “Não haverá traje de homem na mulher, e não vestirá o homem com roupa de mulher”.

Se na religião encontramos isto, imagine como pululam preconceitos como larvas nas poças enlameadas da politicagem. Hitler mandou que se queimasse livros de judeus e comunistas notáveis, grandes cientistas, literatas e pensadores. Stálin, com mania de perseguição, mandou expulsar médicos judeus da Associação Médica da URSS. Depois, prendeu-os.

O narco-populismo da pelegagem que assomou ao poder na América Latina como reação aos regimes militares implantados durante a guerra fria, tentou se manter no poder baseando-se em preconceitos, que conseguiu em grande parte, porque muitos subsistem.

Fingindo combater o racismo, a vertente nacional do socialismo bolivariano importou dos Estados Unidos o abominável termo afrodescendente, como se os negros não fossem brasileiros como todos os que aqui nasceram ou se naturalizaram. É o racismo às avessas.

É do lulopetismo, também, o confronto religioso entre católicos e evangélicos, aliás muito aproveitado por políticos oportunistas dos dois lados. E o mais execrável é o feminismo xiita, um grupo diminuto que prega a aversão pelo homem seletivamente na sua atuação social, falando pretensiosamente em nome de todas as mulheres…

Parece precipitado falar, mas os agentes que usam os preconceitos para dividir a sociedade a fim de controla-la, estão infiltrados em todos os estamentos da vida pública, até nas sanduicherias dos fritadores de hambúrgueres…

Dicionarizada, a palavra Preconceito é um substantivo masculino formado pelo prefixo latino “pré” (anterioridade, antecedência) mais o substantivo “conceito” (comportamento, opinião, reputação). Trata-se de sentimento hostil e intolerância, com atitudes apressadas impostas pela formação ou o meio.

Geralmente ocorre contra indivíduos ou grupos de afiliação política, identidade de gênero, linguagem/língua, nacionalidade, raça/etnia, crença religiosa, profissão e até torcida esportiva.

O preconceito é algo que deve ser abolido com intensidade e urgência do mesmo modo como queremos varrer a corrupção, o fanatismo e a traição nacional de pessoas e partidos que pregam a secessão no Brasil.

 

 

 

ESPECIALISTAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Em questões mundiais qualquer um aqui pode saber tanto quanto os especialistas. ” (Noam Chomsky)

O jornalismo atual não exige muito dos profissionais de imprensa. Donos de jornal e seus executivos se preocupam mais com a aparência, esperteza e vivacidade dos comunicadores recrutados ao léo, e é por isto encontramos várias artimanhas nas notícias veiculadas.

No regime de exceção – com um censor presente nas redações – botava-se na seção de cartas as críticas que normalmente seriam censuradas. Hoje, porém em pleno Estado de Direito, com a liberdade de imprensa inegavelmente vigorando, não há razão para se inventar personagens fictícias, fingindo veracidade do texto.

Os repórteres falam de fonte que não quer se identificar, e os colunistas citam “um ministro” ou “um empresário”, ou “um parlamentar” anônimos; e, pior do que isto, são useiros e vezeiros em citar “um especialista” fantasma.

Esses “especialistas” que se multiplicam na chamada grande imprensa são invocados para falar de qualquer assunto; tal qual os animadores dos programas políticos da Globo News, com onisciência capaz de saber o que se passa na cabeça da Rainha da Inglaterra.

Tanto uns como outros me irritam profundamente, porque sou do tempo em que especialista detinha um doutorado em determinada área, com o conhecimento aprofundado de uma matéria; e não se escondiam. Encontrávamos entre eles, também autodidatas excepcionais, raros, porém autênticos conhecedores da antropologia, arqueologia, arte, astronomia, economia, farmacologia, física, química, etc.

Entre especialistas de verdade, tínhamos profissionais de artesanato, telefonia, telégrafo, música, ocupando espaços na administração pública ou nas empresas privadas.

O verbete “Especialista” dicionarizado é um substantivo de dois gêneros, indicando que ou quem se dedica a um ramo do saber ou sabe muito sobre determinada coisa na ciência ou nas artes; pessoa que conhece a fundo a maneira de criar e produzir objetos manufaturados. Diz-se também de quem tem habilidade ou prática em certa função.

São especialistas o montador de azulejos e o encanador na construção civil; mecânicos de manutenção de automóveis e aeronaves, enfermeiros e fisioterapeutas, médico perito no tratamento de certas doenças ou autópsias.

Até nos animais como os cães farejadores de narcóticos e burros, camelos, jumentos, lhamas e mulas usados em transportar cargas a longas distâncias temos especialistas. E, por falar em transportes, garimpei do escritor Pittigrilli numa das suas admiráveis crônicas, conta a história de quem foi forçado a tornar-se especialista:

“Um carteiro levou um telegrama que precisava de assinatura do recibo. O endereço, uma Sinagoga, tinha um porteiro analfabeto que precisou chamar Rabino para assiná-lo. Por este incidente, o reverendo demitiu o empregado por falta de instrução.

“Desempregado, o ex-porteiro foi à estação ferroviária e tornou-se carregador de malas. Decorou os horários e com os ganhos, comprou um carrinho para o serviço e recrutou outros colaboradores cooperativados.

“Pelo êxito nos negócios fez empréstimo bancário, constituiu uma empresa e com o tempo, várias filiais. Ficou milionário e reverenciado.

Recebendo uma homenagem da Federação das Indústrias, o porta-voz da entidade exaltou-o como um vencedor mesmo sem instrução, e enfatizou: ‘Ele é um especialista que seria muito maior tivesse estudado! …”.

“O homenageado agradeceu a peroração e respondeu humildemente: – ‘Especializei-me porque se eu tivesse estudado estaria esperando a aposentadoria como porteiro de sinagoga! ”