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Carlos Drummond de Andrade

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

(Publicado em Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 107)

SILÊNCIO

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons” (Martin Luther King)

Já contei em outros artigos a minha paixão pelos sebos; possuo na minha estante várias obras de referência esgotados, e uns até proibidos, como o “Mein Kampf”, de Hitler; “Judeu sem Dinheiro” de Henry Ford; e “As Bases do Separatismo”, do filósofo paraibano Alírio Meira Wanderley.

Outro dia, num périplo pela Rua da Carioca e Praça Tiradentes, numa banca vendendo revistas a R$0,50, encontrei a edição 2453 da IstoÉ de 14 de dezembro de 2016 com uma chamada de capa que me atraiu: “Dilma mandou Odebrecht pagar R$ 4 milhões a Gleise”.

Como é sempre legal ver a delação de Marcelo Odebrecht, que veio fragmentada e sempre meio apagada na grande mídia, levei a revista para conferir a matéria assinada pela jornalista Débora Bergamasco. Nela, me impressionaram o texto e o conteúdo.

Eu não sabia que a Procuradoria tinha aberto inquérito para tornar o poste de Lula inelegível, ela que foi salva pela vergonhosa fraude do ministro Lewandowsky e o senador Renan Calheiros no impeachment. Nunca ouvi falar nisso; assunto abafado e bem abafado nos sigilos em que certos setores da Justiça abrem para privilegiados;

Segundo a reportagem, o caminho da propina para a então senadora pelo Paraná obedeceu a um esquema mafioso. Gleise ficou devendo R$ 4 milhões ao marqueteiro Oliveiros Domingos Marques Neto que atuou na campanha eleitoral que a elegeu; e pediu socorro a Dilma.

A Presidente mandou Edinho Silva, tesoureiro do PT, procurar a Odebrecht; o petista foi à empreiteira e lá foi acertado o esquema da transação, realizada posteriormente no gabinete da Senadora lá no Senado.

O resto é silêncio, como nas palavras que o grande Shakespeare pôs na boca de Hamlet, “Quando todos que conheço se forem, o que restará? Vazio. Silêncio. Sim, o resto é silêncio…” A peça inspirou um romance do escritor gaúcho Érico Veríssimo de onde foi extraído um curta metragem produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre com roteiro de Angel Palomero.

O verbete Silêncio é substantivo masculino de origem latina, silentĭum,ĭi derivado do verbo silēre – ‘calar-se, não dizer palavra’. Cientificamente, silêncio é a ausência total ou relativa de sons audíveis, mas o comum é a privação, voluntária ou não, de falar, de publicar, de escrever ou manifestar os próprios pensamentos.

Para mim, o escritor português de primeira ordem, Camilo Castelo Branco, é que matou a pau ao escrever que “O silêncio é uma confissão”, e assim atestamos a culpabilidade de Dilma neste caso, pois ela calou-se; se fosse mentira teria processado a jornalista e a IstoÉ, não é mesmo?

E do silêncio misturado com segredo e sigilo, ficamos sem saber se a impichada é ou não é processada pela Procuradoria Geral da República, como deveria ser pela criminosa compra da Refinaria de Pasadena.

Neste cenário, a reportagem que me custou R$ 0,50 num sebo da Praça Tiradentes revela um dos crimes praticados pelo lulopetismo que, somados ao drama da herança maldita da Era Lula e o passo de cágado processos judiciais no STF, é semelhante ao filme norte-americano de 1991, “O Silêncio dos Inocentes”.

Encontram-se no caso em pauta e na película, as metafóricas presenças do Dr. Hannibal Lecter, brilhante psiquiatra e assassino canibal em série, e o astuto pelego Lula da Silva, mentor de uma governança para as empreiteiras que jorrava propinas para o PT e os parceiros.

O Silêncio dos Inocentes é o nosso silêncio, o preocupante silêncio dos bons, pior do que os gritos dos maus, porque nos satisfaz conhecer uma gota d’água no noticiário ignorando o poço onde as coisas que escondidas de nós…

 

LIBERALISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“As mudanças sociais são devidas tanto ao pensamento, como o fluxo de um rio às borbulhas que revelam a sua direção a um observador” (Bertrand Russel)

Ainda esperamos que se liberte o Brasil das políticas errôneas e antinacionais baseadas na ideologia superada dos governos lulopetistas. É por isso que vale a pena discutir-se a proposta do liberalismo econômico.

São as relações de produção e consumo que determinam o desempenho econômico e consequentemente as atividades política e social. É esta a visão liberal, como uma regra que associa os elementos de causa e efeito na vida de um País.

Não é uma ideologia utópica nem uma teoria complicada, limita-se ao direito de minimizar o poder do Estado para que este atenda apenas as necessidades básicas, educação, saúde, segurança e previdência.

É simples. Pode-se conferir na experiência de muitos países de economia aberta, com o liberalismo impulsionando o comércio, a indústria e os serviços nascidos com as novas tecnologias, registrando fortalecimento de uma classe média produtiva e independente de favores governamentais.

Esta ideia progressista vem das revoluções francesa e americana, que consagraram a Declaração dos Direitos Humanos e a Constituição dos EUA, adotando o princípio de que todos os homens nascem iguais, embora, como escreveu o nosso epigrafado Bertrand Russel, “as desigualdades surgidas posteriormente são um produto das circunstâncias, como a Educação”.

Russel recebeu de Locke, a quem chamou de “o mais afortunado dos filósofos”, a compreensão do liberalismo, imposto pela divulgação de Voltaire, influenciando os enciclopedistas, cujas lições são uma presença viva nos dias de hoje.

É o senso comum, em tese, que deve ser adotado por um governo que tenha uma participação popular ouvindo a voz do povo e não de minorias ruidosas; que garanta a liberdade de expressão do pensamento, a tolerância religiosa e que respeite o individualismo.

Nas veredas que percorremos no Brasil vemos o otimismo que andava em baixa nos meios populares. O presidente Jair Bolsonaro, eleito pela onda popular de repúdio ao narcopopulismo corrupto e corruptor, recebeu aplausos na montagem do seu governo sem o troca-trocas com os picaretas do Congresso Nacional.

Convenhamos, porém, que este otimismo diminui na medida em que o epicentro do poder se divide em tendências e aumentam as pressões internas e externas que desviam o rumo anunciado na campanha eleitoral por Bolsonaro.

As mudanças de direção preocupam o centro liberal que teve uma presença ativa nas eleições e depois da vitória eleitoral defende o desenvolvimento econômico nos moldes anunciados e o combate ao crime organizado, a sonegação fiscal, o terrorismo e as organizações antissociais.

Para isto, é preciso evitar a erosão nas margens do rio em que navegamos, provocados na vazão governamental. É necessário impedir o assoreamento político que traz riscos e provoca desgastes. É urgente mitigar a generalização de pronunciamentos inúteis e prejudiciais ao fluxo do governo.

Está para a oposição tresloucada, derrotada nas urnas, o momento de sabotar a máquina pública, mas não para quem votou em Bolsonaro; os entulhos vindos do lulopetismo prejudicam menos do que os atritos internos exibidos gratuitamente.

Felizmente, temos nas duas superpastas específicas de Estado, a Economia com Paulo Guedes, e a Justiça e Segurança Pública com Sérgio Moro, a moderação fundamental que impõe respeito.

Ambos reforçam a nossa crença de que a corrente liberal e democrática serão as borbulhas que auxiliarão o curso político que libertará o Brasil.

CINZAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

      “Por que se ensoberba aquele que é terra e cinza, e ainda em vida expele as próprias entranhas? (Eclo 10,9)

Passou, e pouco se comentou sobre a Quarta-feira de Cinzas, uma data no calendário gregoriano que, para a Igreja Católica, representa o primeiro dia da Quaresma. É o dia seguinte à terça-feira de Carnaval e o primeiro dos 40 dias que precedem a festa da ressurreição de Jesus Cristo.

A origem deste nome é puramente religiosa. Neste dia ocorre a tradicional Missa das Cinzas em que o celebrante lembra aos crentes a passagem bíblica do Gênesis 18:27, “Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás”, desenhando uma cruz de cinza na testa dos fiéis. As cinzas utilizadas no ritual provêm da queima dos ramalhetes abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior.

Vê-se que em termos religiosos, as cinzas representam um símbolo do dever de conversão e mudança de vida, lembrando que a vida humana é passageira e frágil, sujeita à morte. A imposição das cinzas na cristandade europeia remonta ao século 10.

A cor cinza ou cinzenta, combinação do branco com o preto, simboliza maturidade, mas também tristeza, incerteza ou neutralidade.

Na Missa das Cinzas do dia 5 de março, o Papa Francisco alertou para o início da penitência cristã da Quaresma, dizendo que sucesso, poder e posses materiais são fugazes e que desaparecerão “como poeira ao vento”.

A Quaresma é o período compreendido entre a Quarta-Feira de Cinzas e o Domingo de Páscoa. Dicionarizado, o verbete Quaresma é um substantivo feminino de origem latina, quadragesima dies, o quadragésimo dia. Tem também o verbo intransitivo quaresmar – isto é, cumprir os preceitos religiosos próprios desse tempo.

Durante os 40 dias, os cristãos são convidados a se aproximarem mais de Deus e a endireitar suas vidas através da reflexão, da oração, do jejum e da ajuda a outras pessoas.

Entretanto, não há nada na Bíblia que obrigue, nem proíba, celebrar a Quaresma. Essa manifestação religiosa é uma questão de consciência individual; entretanto, para algumas denominações evangélicas, a celebração não tem o significado de pagar pelos pecados cometidos, como ocorre com os católicos.

Muitos centros de Umbanda, religião que sincretiza o culto africano dos orixás com o catolicismo, fecham, ou tem o atendimento limitado no período do carnaval e da Quaresma.

No meu tempo de menino as pessoas iam à missa da quarta-feira e encontravam todas as imagens cobertas de roxo, saindo de lá com a testa marcada com um certo orgulho; em casa se jejuava e as emissoras de rádio programavam músicas sacras e clássicas.

Mesmo assim, alguns carnavalescos audaciosos ainda insistiam em levar blocos à rua na quarta-feira, como o Chave de Ouro, no Rio, e o Bacalhau com Batatas em Recife, mas a adesão era pequena. Hoje, o Carnaval só acaba no sábado seguinte à Quarta-Feira de Cinzas, enfrentando a contrição religiosa…

A ousadia dos foliões é comparável, mas perde para a insolência dos políticos quê, com ou sem carnaval, usam máscaras, inclusive religiosas, fantasiando o comportamento incompatível com os mandatos que assumem ou cargos que exercem.

Assistimos na quaresma patriótica, congressistas e magistrados reduzirem a cinzas as suas carreiras. E o fazem no antigo costume dos jornalistas amigos deletarem as suas falcatruas. Esquecem-se que hoje, sem bandidos de estimação, as redes sociais fazem o autêntico jornalismo, e há juízes como Moro, que os levam à cadeia.

Quanto àqueles que entre os atores da vida pública que usam a Internet, lembremos que “sucesso, poder e posses materiais são fugazes e desaparecerão como cinzas ao vento”.

 

 

 

 

 

 

 

PASSEATA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Como seria bom se existisse impressa a Declaração Universal das Responsabilidades Humanas” (Jackson da Mata)

Manifestações políticas sempre foram organizadas para atrair o povo, existindo na Grécia Antiga a democracia ateniense realizava a Eclésia (em grego: Εκκλησία: ekklesia), uma assembleia reunindo cidadãos com mais de 21 anos que tinham servido o exército.

Essas reuniões chegaram à Roma republicana. Realizavam-se lá os comícios, comitiu, is, para as eleições do Senado; depois na Idade Média, com o fim dos governos despóticos europeus, também passaram a ocorrer comícios.

Muito mais tarde, essas demonstrações públicas atravessaram o Atlântico e o jeitinho brasileiro inventou showmícios com atrações lúdicas, apresentando artistas populares, sorteios de prêmios e distribuição de brindes. Estes, pela evidente compra de votos, foram proibidos em 2006 com a Lei Nº 11.300.

Lembrando manifestações políticas, a minha memória vai à infância, quando assisti comícios pedindo a declaração de guerra contra o nazi-fascismo, contra a ditadura Vargas, pela redemocratização do País; e depois, pelo inverso, na retumbante volta de Getúlio com o povo cantando “Bota o retrato do Velho, outra vez, / Bota no mesmo lugar”.

Nas manifestações nacionalistas do “Petróleo é Nosso” eu ia com meu pai, um patriota como poucos. Daí em diante, as passeatas tornaram-se rotineiras. O verbete “Passeata” é um substantivo feminino, derivado de passear e designando um passeio coletivo organizado, manifestação pública de alegria ou política.

Tem vasta sinonímia, como caminhada, cortejo, desfile, marcha, mobilização e protesto. Exprimindo religiosidade, procissão. Feita por jovens, rolê e giro. O Carnaval com o corso de automóveis e desfiles de carros alegóricos, inspirou o surgimento das carreatas político-eleitorais.

Em Campina Grande, Paraíba, assisti pela primeira vez à uma cavalgada, e soube que já era uma prática comum no Rio Grande do Sul; vi também em apoio político, cortejo de carroceiros, ronco de motocicletas e silenciosas bicicletadas.

Foram tão repetitivas as passeatas pela “redemocratização do País” que entrou para a História a “Passeata do 100 mil” em 1968, levando muitos da minha geração a continuar marchando até hoje, sem se dar conta de que os tempos mudaram; e que envelheceram sem ver a realidade.

Até entrou na gíria política a expressão “padres de passeata”, nomeando os sacerdotes politiqueiros (ainda os há muitos) que convocavam demonstrações pela queda de um palito no chão, da maneira como o Psol faz hoje para defender os aviõezinhos do tráfico da repressão policial…

A sequência de atos políticos, expressando várias vezes os mesmos slogans e palavras-de-ordem cai na trivialidade, tornam-se banais, corriqueiros e ordinários. Muitas vezes adquirem aspectos caricatos e até cômicos.

Compareci com familiares e amigos a Copacabana no dia 9 de setembro de 2018, ao comício-passeata de solidariedade a Jair Bolsonaro pelo brutal e covarde atentado sofrido em Juiz de Fora tendo como agente um pau mandado esquerdista.

Naquela altura Jair Bolsonaro representava o anti-ideologismo, postando-se contra tudo o que representava a corrupção e se expressava como terrorismo. Como o repúdio popular aos governos do PT cresceu como um tsunami, levou Bolsonaro à presidência da República.

Sinto reconhecer que como os “padres de passeata” e os eternos estudantes sem futuro, grupos auto assumidos como “bolsonaristas” ainda continuam desfilando em campanha eleitoral, dando-me vontade de gritar para eles, parodiando os cearenses: “Bolsonaro está eleito, babacas! ” .

O Presidente, que recuperou a saúde e se encontra em condições de cumprir as suas promessas, deve dar um exemplo de mandatário aos seus seguidores, para que evitem declarações e discursos que dividem o País. E, principalmente, não usarem a Internet com debates sem futuro.

Os manifestantes contínuos se exibem mais do que ajudam; para eles, lembro Sosígenes de Alexandria: “Quando se atravessa o tempo de manifestação e ela se torna permanente, o que atraiu torna-se repelente”.

SAMBA DO CRIOULO DOIDO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música” (Friedrich Nietzsche)

Ao lembrar a genialidade do jornalista Sérgio Porto (que nos faz ter saudades do antigo jornalismo), nos deixou como herança uma canção satírica, Samba do Crioulo Doido, composta por ele para o Teatro de Revista sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

A letra é uma overdose de ironia, voltada para a obrigatoriedade imposta pelo Departamento de Turismo da Guanabara aos compositores de sambas-enredo de abordarem apenas temas da História do Brasil, que terminou por criar disparates.

Imaginem: No enredo, Sérgio Porto descreve como Chica da Silva obrigou a Princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes e este, depois eleito como Pedro Segundo, procurou o padre José de Anchieta para juntos proclamarem a escravidão…

A canção foi inicialmente interpretada pelos Originais do Samba e gravada pelo Quarteto em Ci e os Demônios da Garôa. Tornou-se tão popular que o título foi usado como expressão designando coisas sem sentido e textos sem nexo. Cortando-a em partes, como Jack Estripador, temos as palavras “Samba”, “Crioulo” e “Doido”, três temas de estudo.

O samba, como estamos cansados de saber, é um gênero musical de raízes africanas, cuja origem é disputada pela Bahia e Rio de Janeiro, por ser uma das mais importantes manifestações culturais brasileiras. Deve-se ao Governo Vargas o decreto de sua classificação como Música Nacional do Brasil.

Assim, desde a década de 1930, o samba chegou a todas as regiões do país através de agremiações carnavalescas, organizações de carnaval, e sambistas, entre os quais se destacaram como desbravadores Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Pixinguinha, Donga e Sinhô.

Depois do Samba, vem o Crioulo, palavra cuja etimologia se refere na América Espanhola a descendentes de europeus nascidos na colônia e mestiços de brancos com indígenas e negros. No Brasil o termo de origem portuguesa foi usado como sinônimo de negro ou de mulato, e depois a qualquer homem negro.

O vendaval maléfico do politicamente correto, de chamar alguém de crioulo é considerado capciosamente como racismo, uma maneira de diminuir um negro, coisa do racismo às avessas, o vitimismo e a herança da “dívida histórica” importados dos EUA.

Como o politicamente correto é uma manifestação absolutamente cretina, um distúrbio mental que chegou ao cúmulo de condenar o uso da palavra “homem” para gênero, porque para esses psicopatas o gênero é uma decisão individual.

Assim chegamos ao terceiro verbete, “Doido” que é dicionarizado com rica sinonímia, em três categorias, como louco, imprudente e apaixonado… É, na verdade a qualidade de quem se comporta insensatamente; que não tem juízo.

Assim, em tempo de “politicamente correto” com as palavras submetidas ao patrulhamento pseudo-ideológico, vamos adotar o Samba do Afro Descendente para vender o nosso peixe.

Ontem, acordei no meio da noite – o que não é de meu costume – e ligando a tevê assisti ao desfile de uma Escola de Samba, não importa o nome, e acompanhei perplexo um roteiro que foi de um centurião romano, passando pela revolução francesa, chegando à escravidão no Brasil, com um papa estilizado conduzindo a bateria…

A globalização do tema não ficou muito diferente dos tempos de Chica da Silva e da Princesa Izabel…

O TEMPO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O tempo é relativo e não pode ser medido exatamente do mesmo modo e por toda parte” (Einstein)

Muitos anos atrás fiz uma reportagem sobre a previsão de chuvas no Nordeste com os chamados “profetas” dos sertões. Encontrei um deles que revelava a chegada da temporada de chuvas pelo rastro de caracóis na pedra. Muito tempo depois descobri que em certa região dos EUA um mamífero roedor que existe por lá, a marmota, prevê o fim do Inverno.

Foi no filme “Feitiço do Tempo”, que traz a narrativa da cobertura jornalística do Dia da Marmota, evento em que o animal meteorológico faz seu prognóstico. A cobertura de um arrogante repórter, que vive uma trama inusitada: acorda toda manhã sempre no mesmo dia, que recomeça levando-o a viver episódios que lhes servem de lição e que terminam humanizando-o.

A fita é uma comédia chapliniana que nos faz rir pela crítica às crendices, irreverência, malícia e humor negro. Mais do que entretenimento, “Feitiço do Tempo” leva à reflexão sobre o correr das horas, dos dias, dos meses, e dos anos…

Guilherme Coral faz uma excelente crítica do filme comparando-o com a passagem do tempo na vida real, encontrando as mesmas características de aventura, agressividade, conquista, desânimo, desfrute, drama, entrega, experiência acumulada, otimismo e romantismo.

Aí descobrimos uma verdade que não pode ser escondida: o tempo escancara as portas do conhecimento e fortalece a liberdade individual de pensar. E sem uma escala fixa para o sentimento, como o nosso Machado de Assis evoca: “Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.”

Machado desmistifica também a tradição mitológica que apresenta o Tempo como um velho de barbas brancas. Para ele é justamente o contrário, o Tempo é um “rapagão ágil, esperto, que sabe das coisas e o que fazer sobre elas…’

É esse jovem personagem que nos mostra a desarrumação do País que herdamos dos governos lulopetistas. Nos revolta com a notícia de que agentes graduados dos poderes públicos, com direito de legislar, judiciar e administrar, criticam e querem sustar as investigações da Receita Federal de seus dados fiscais, tributários e bancários, como ocorre com todos os demais cidadãos.

Os revoltados não se dão conta de que devem respeitar a Lei, para serem respeitados pelo povo, porque, ou atendem e respeitam o princípio constitucional de que “todos são iguais perante a Lei” ou assistirão à decomposição do que faz a essência da vida nacional.

Se o “andar de cima” pretende manter, além do famigerado foro privilegiado a blindagem para as suas relações éticas com o Fisco, dão um péssimo exemplo para a Nação, sem moral para condenar as corporações que se emparceiram para sabotar as mudanças da Previdência Social, caminho único para garantir os benefícios futuros.

O problema previdenciário não ocorre somente no Brasil, mas aqui, sem dúvida, foi agravado pela irresponsabilidade da politicagem eleitoralista dos governos que cederam e cedem aos grupos de pressão organizados, benesses com a contribuição previdenciária.

A História registra que os malefícios da Previdência não são de origem. Pelo contrário, os institutos de previdência foram criados com o maior cuidado e boa intenção, e funcionavam bem atendendo seus propósitos. Desgraçadamente foram contaminados pela infiltração da pelegagem sindical que os aparelharam e corromperam.

Para romper o vicioso comprometimento dos pelegos, o regime militar sem um estudo aprofundado e de forma apressada, criou o sistema único (INSS) impossibilitando a vigilância dos contribuintes, como ocorria nos tempos em que cada categoria tinha o seu próprio instituto.

Espero que o Tempo, personificado por Machado de Assis como um jovem, seja um esportista. Que se mova com rapidez e pratique artes marciais, capoeira, jiu-jitsu, karatê, vale-tudo, todas, para pôr em nocaute as marmotas inúteis que querem manter a Previdência no tempo em que está, sem se preocupar com o futuro do Brasil.

O PODER

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Um homem que quer reger a orquestra precisa dar as costas à plateia” (James Cook)

Desde a mais tenra infância, tornei-me um leitor irrecuperável. Mesmo tendo aderido à Internet e ter virtualmente obras à mancheia, gosto mesmo é de livro, livro de capa e papel, com ideias impressas da maneira gutemberguiana…

Quando publiquei o artigo “Fruto Proibido” citando a frase de Clarice Lispector “O pecado me atrai, o que é proibido me fascina”, recebi um simpático comentário sobre o que esta declaração expõe; respondendo, contei a malandragem do meu pai que me levou à frente da estante, incentivou-me a ler tudo, excetuando o que estava em certa prateleira.

Foi a melhor maneira de me fazer mergulhar nas águas da lagoa do proibido; onde nadei para encontrar o fruto proibido e saciar-me com a doce e suculenta verdade: a curiosidade e a dúvida acabam com qualquer convicção, livrando-me do fanatismo.

Morei em Natal, no Rio Grande do Norte, onde, como sempre fazia no Rio, era um assíduo frequentador de sebos. Num deles, encontrei um livro que vinha procurando havia tempos, “Poder”, do escritor norte-americano Howard Fast, um dos melhores romancistas da literatura mundial moderna.

O livro já estava manuseado e marcado com duas referências de posse, sendo eu, neste caso, o quarto presumível leitor, contando com o primeiro proprietário, que o comprou novo e não o ferrou com a sua marca…

No “Poder”, Fast descreve a saga de um pelego sindical que, como sabemos, todos adotam a ideologia do amoralismo pois jogam nos dois lados, defendendo os interesses do patrão, fingindo interceder pelos companheiros de sindicato.

Vê-se no livro a degenerescência do sindicalismo norte-americano sob domínio de pelegos. Isto foi avaliado também no magistral filme de Elia Kazan “Sindicato de Ladrões”, de 1954, ganhador de três Óscares, um para Marlon Brando como melhor ator. O filme sofreu censuras dos partidos de esquerda e sindicatos americanos, incentivando assim ser visto por quem não viu à época.

É difícil reconhecer e descrever o poder que um dirigente sindical detém. Isto, em qualquer lugar do mundo; imaginem o que vinha ocorrendo no Brasil desde Getúlio Vargas, com as facilidades criptofascistas da CLT e uma justiça trabalhista leniente…

Não é por acaso que temos mais de 17 mil entidades sindicais, além de um grande número de federações e dez ou doze “centrais”. Confiram:  são ocupadas por bem nutridos “representantes de trabalhadores” que vivem à tripa forra.

Os sindicatos, inegavelmente idealistas sob influência anarquista, foram se degenerando a partir da ditadura Vargas e da redemocratização de 1945, pela disputa de poder entre comunistas e petebistas. Com o fim da ditadura militar e a ascensão da pelegagem lulopetista, as representações trabalhistas apodreceram de vez.

Os sindicatos tornaram-se caça-níqueis de grupos, verdadeiras quadrilhas, e um trampolim para a entrada na política burguesa dos mais espertos como António Palocci, Jacques Wagner, Lula da Silva, Mantega, Paulo Paim e outros que ocuparam cadeiras no Congresso, ministérios, a magistratura e até a presidência da República.

Com este salto para a política convencional levaram todas as malandragens da pelegagem no sentido carreirista da conquista do poder, e é aí que mora o perigo para quem não tem essa origem tão ao gosto dos pervertidos obreiristas da USP e da CNBB.

O resumo vale um alerta para o presidente Jair Bolsonaro, para que dê as costas â mídia para reger o governo em conformidade com a partitura da campanha eleitoral sem concessões aos picaretas do Congresso; tapando os ouvidos para movimentos artificiais e as ONGs sanguessugas.  E que se desfaça de qualquer corrupto que comprometa o seu governo.

Lembramos que o poder foi conquistado pela reação do povo brasileiro contra o lixão do lulopetismo e que vivemos um momento de virada, da faxina, das reformas, da justiça para todos e do desenvolvimento econômico.

Na luta revolucionária dos que elegeram Bolsonaro pela recuperação dos valores éticos, temos pela frente o alvo mais icônico e simbólico do poder: O foro privilegiado de políticos e juízes, cujo fim será o começo de um novo Brasil. É chegada a hora de entrilhar o País na estrada de ferro que nos levará a um futuro promissor.

 

 

Epílogo

Eu quis, como Schumann, compor

Um Carnaval todo subjetivo:

Um Carnaval em que só o motivo

Fosse o meu próprio ser interior…

Quando o acabei – a diferença que havia!

O de Schumann é um poema cheio de amor,

E de frescura, e de mocidade…

E o meu tinha a morta morta-cor

Da senilidade e da amargura…

– O meu Carnaval sem nenhuma alegria!…

Manuel Bandeira (do livro “Antologia Poética”, Editora Nova Fronteira)

TRAIÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Assim como há uma Rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, Rua Traidores da Pátria. ” (Nelson Rodrigues)

Quando o machismo e o sexísmo se juntam, atrapalham qualquer pesquisa sobre “traição”, que é confundida com adultério… Para a palavra traição o doutor Google traz, entre dez referências, nove sobre deslealdade conjugal e/ou entre amantes.

Este verbete que dicionarizado é um substantivo feminino de etimologia latina “traditione (la) ” – entrega -, e tem uma vasta sinonímia a qual se acrescentam outras dezenas para o verbo “Trair”, e para “Traidor”, aquele (a) que trai.

A traição pelo adultério é por demais estudado na Psicologia e explorado na literatura. Psicólogos apontam uma imensa diversidade de fatores que levam à infidelidade, desde questões culturais até por vingança contra o parceiro (a) traidor (a).

Homero e Shakespeare trouxeram nas suas obras Ilíada e Otelo, referências ao adultério, e o nosso Machado de Assis deixou-nos o caso antológico de Bentinho e Capitu no romance “Dom Casmurro”. Jorge Amado politizou a traição levando-a para a quadrilha dos Capitães de Areia, que tinham por princípio a expulsão do bando de quem o traísse.

No cinema, foi alvo de muita polêmica em 1948, o filme “O Traidor”, baseado em livro homônimo de Humphrey Slater. A fita nada acrescentou à arte cinematográfica e a discussão prendeu-se à atuação do ator Robert Taylor, que fez o papel de um oficial britânico espionando para URSS. Diziam que atuou como espião para se livrar de perseguição do macarthismo.

A expressão mais odienta da traição é justamente a deslealdade para com a Pátria, como ocorreu com o traidor da Inconfidência Mineira, Joaquim Silvério dos Reis, que entregou os seus companheiros conjurados em troca do perdão de suas dívidas pela Coroa.

Na lei militar, traição é o crime de deslealdade de um cidadão à sua Pátria. Em tempo de guerra, se uma pessoa que coopera com o inimigo (colaboracionismo), é considerado um traidor e condenado à morte.

Durante as guerras, são sempre descobertos atos de espionagem típicos de traição, e ficou na Primeira Grande Guerra o exemplo bombástico da dançarina holandesa Mata Hari, celebre pela sua sensualidade e descoberta como agente dupla para alemães e franceses, sendo fuzilada por traição.

Também famosa é a expressão “quinta coluna”, referindo-se a traidor da Pátria: Surgiu na Guerra Civil Espanhola, no ataque de Franco à Madri com quatro colunas as quais o seu lugar tenente, general Queipo de Llano, acrescentou a quinta, pois encontraria na cidade apoio encoberto de um grupo de inimigos da República.

No Brasil dos nossos dias, a traição nacional é transparente. Partidos “de esquerda” apoiam abertamente, em notas oficiais, a ditadura sanguinária de Maduro, da Venezuela, ficando contra o governo brasileiro. E o chefe do PT, criminoso e preso Lula da Silva, recebeu dinheiro do ditador líbio Muamar Khadaffi para campanha eleitoral, segundo denúncia do ex-ministro António Palocci.

Este comportamento é crime previsto pela Constituição, que é rasgada por juízes nomeados para preserva-la, atentando contra a harmonia dos poderes republicanos. Agora mesmo usurpam a função de legislar do Congresso, cometendo uma traição à República.

… E temos também uma quinta-coluna atuando contra a necessária, fundamental e urgente reforma da Previdência. Conspiradores contra o futuro do País juntam-se a corporativistas, pelegos sindicais e agitadores da extrema esquerda psolista, para sabotar as propostas que garantirão as futuras aposentadorias. É o “quanto pior melhor” atravessando a Rua dos Traidores da Pátria…