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Fernando Pessoa

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

LARANJAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Se você tem uma laranja e troca com outra pessoa que também tem uma laranja, cada um fica com uma laranja. Mas se você tem uma ideia e troca com outra pessoa que também tem uma ideia, cada um fica com duas. ”  (Confúcio)

Em tempo de pandemia virulenta seja com o novo coronavírus maléfico ou com a política cada vez mais nefasta, vale a pena falar de laranja, uma fruta festejada em toda parte que, como verbete dicionarizado é originário do árabe “narandja” e curiosamente pode ser substantivo feminino e substantivo masculino.

A versão feminina se refere ao fruto da laranjeira e a versão masculina significa pessoa utilizada por outra como intermediária em fraude e negócios suspeitos, como aplicar dinheiro obtido ilegalmente.

Os dicionários de gíria se referem à laranja para pessoa simples ou ingênua, e nos Sertões a palavra é masculinizada “laranjo” usada como referência à cor de bovinos.

Com menção ao coronavírus, lembro que a laranja é usada medicinalmente para o tratamento de males que derivam de infecções, como a dermatite e a cistite, porque além da famosa vitamina C, contém ácido fólico, cálcio, potássio, magnésio, fósforo e ferro.

Houve época em que os médicos recomendavam beber suco de laranja para “limpar” o organismo antes de determinadas cirurgias, ativando suas propriedades antioxidantes.

É ilustrativa a história de como a laranja doce foi trazida das fraldas do Himalaia para a Europa no século XVI pelos portugueses. Por isso são chamadas de “portuguesas” em vários países, especialmente na Itália e nos Bálcãs. No grego é portokali e portakal em turco.

Além de vários tipos que conhecemos, laranja-Bahia, laranja-da-terra, laranja-lima, laranja-pera, laranja-seleta e laranja vermelha, também designa cor, cor-de-laranja ou alaranjado.

A laranja entrou na literatura em livros como “Meu Pé de Laranja Lima”, clássico de José Mauro de Vasconcellos, que se popularizou com duas novelas, da década de 1970, de Ivani Ribeiro pela TV-Tupi, dirigida por Carlos Zara, com Cláudio Correia e Castro; e, na TV-Bandeirantes, sob a direção de Del Rangel, tendo como protagonista Gianfrancesco Guarnieri.

“Meu Pé de Laranja Lima” chegou ao cinema nacional com o filme também baseado no livro de José Mauro, sob a direção de Marcos Bernstein; cheio de ternura e ingenuidade, confrontou-se com o horror trazido à tela pelo badaladíssimo filme de Stanley Kubrick, “Laranja Mecânica” extraído do romance distópico de Anthony Burgess “A Clockwork Orange”.

O livro de Burgess se inspirou num fato real ocorrido em 1944: o estupro, por quatro soldados americanos, da primeira mulher do autor, Lynne, e o filme é realmente horroroso, amedrontador, mostrando um grupo de delinquentes liderados por um psicopata, que buscam o prazer através da ultraviolência.

Este funesto enredo desenvolvido por Kubrick nos leva ao pânico proporcionado pela pandemia que atravessamos, uma mistura maligna da covid-19 com a politicalha reinante no Brasil, com o fanatismo e o ódio tentando estuprar a Democracia.

É grave e lesiva a convergência dos extremismos de direita e esquerda desprezando as medidas de segurança que o momento exige; e, criminosamente, com o exemplo vindo de cima para baixo…

Laranjas políticos e profissionais se juntam aos laranjas virtuais (termos registrados no Dicionário de Gíria de J. B. Serra e Gurgel) para as tramoias, as rachadinhas, e levando às redes sociais a transgressão da lei e da ordem que vigoram no Estado de Direito.

Como híbrida da toranja e da tangerina, temos uma laranja entre as chamadas laranjas sanguíneas, conhecida como “Moro”.  Ao encontra-la na pesquisa, lembrou-me Sérgio Moro, o caçador de corruptos, que disse: “Talvez alguns entendam que o combate ao crime deve ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais!”

Esses “alguns”, da direita e da esquerda o odeiam por isso…

 

 

ADIVINHAÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo” (Clarice Lispector)

No meu tempo de escola “risonha e franca”, que era também ingênua, brincávamos de adivinhas. Algumas se tornaram clássicas, como a que pergunta “o que é, que é, cai em pé e corre deitado? ”, ou “quem é que anda com os pés na cabeça? ”. As respostas todos sabem, chuva e piolho…

As adivinhas, como vimos nos exemplos acima, são brincadeiras necessárias ao estímulo para aguçar o raciocínio infantil. Utilizei-as muito com meus filhos e depois com os meus netos. Tem um site de Português do “Escola KIDS” com adivinhas inteligentíssimas que podem ser encontradas pelo link  https://bit.ly/3hkf34E  .

Há diferença entre adivinha e adivinhação? Ambas são usadas como sinônimos, porque veem embrulhadas pelo papel celofane do verbo adivinhar; mas a sua diferença é refinada: Adivinha é charada, enigma, questão; e adivinhação é previsão, profecia, prognóstico.

Como verbete dicionarizado, Adivinhação é um substantivo feminino originário do verbo latino addivināre (de divināre ), previsão; suposição ou crença de que é possível prever o que está por vir, ou revelar o que está encoberto no presente e no passado.

Adivinhação é exemplificada num fato vivido pela sibilina deputada Carla Zambelli (aquela que propôs a Sérgio Moro que se submetesse aos desígnios pouco republicanos de Bolsonaro para ganhar cadeira no STF).

A parlamentar predisse que a Polícia Federal iria investigar governadores, e não deu outra: 24 horas depois Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, se enrascou de tal maneira com a investigação que está no caminho do impeachment…

Pensei que depois disto, se ela montar uma tenda de oráculos aberta a consultas, vai ganhar rios de dinheiro; há, porém, outros profetas políticos que não conseguem convencer ninguém.

Entre esses tais que não persuadem ao ler o futuro, tem um astrólogo, guru dos filhos do Presidente, que reclama por não ser ouvido, ameaçando raivoso até de revelar histórias do presidente Jair Bolsonaro se não receber atenção; talvez por isso, mesmo sem crédito na adivinhação, mantém vários pupilos em importantes cargos do governo federal.

Ao meu ver, ser adivinhão é uma profissão de risco. Tem uma história que corre com os camelos nos desertos da Arábia contando que o general Hedjaz, no reinado do califa Valid, consultou um astrólogo íntimo das constelações e dos cometas; e o atendente preparou o mapa astral do consulente e decretou:  – “Vais morrer em breve”.

Hedjaz ficou por instantes pensativo e agradecendo o augúrio disse: -“Confio tanto no seu conhecimento do destino, que desejo tê-lo ao meu lado na vida após a morte. Irás na frente, preparar a minha chegada”. E mandou decapitar o agourento…

Não sei se ocorre pelo mundo afora, mas no Brasil a adivinhação é contravenção penal. O artigo 27 da Lei de Contravenções Penais alcança videntes, cartomantes e adivinhões dedicados a “ler a sorte” por “explorar a credulidade pública mediante sortilégios, predição do futuro, interpretação de sonhos, ou práticas congêneres. ”

Esta Lei vem sofrendo de baixa consideração, mas está viva. A professora e pesquisadora Maíra Zapater nos dá sobre ela um pensamento antológico: – “Não obstante seu perfume de bolor e naftalina e os muitos dispositivos derrogados por normas posteriores ou mesmo não recepcionados pela Constituição Federal, a Lei de Contravenções Penais continua em vigor”.

Mesmo nos tempos imprevisíveis que atravessamos, das baboseiras do “politicamente correto” que condena o filme “…E O Vento Levou”, querendo deletar o passado com a sua soberba ignorância; surgem falsos profetas à esquerda e à direita recuperando o viço pressagiando uma volta ao passado, seja para surfar na corrupção lulopetista, seja para mergulhar num pântano ditatorial dos extremistas de direita.

Em tempo: A Deputada adivinhona não previu que seria investigada como instigadora de atos antidemocráticos, nem que o ministro Weintraub cairia, e muito menos que achariam e prenderiam Queiroz em Atibaia ….  E assim, me perdeu como cliente…

MILAGRES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Coincidências são pequenos milagres onde Deus prefere não aparecer” (Provérbio Árabe)

Quando se fala em milagre o nosso interesse se volta imediatamente para o sentido religioso da palavra. Leva-nos a pensar de uma interferência sobrenatural na vida de alguém; entretanto, a palavra tem um sentido mais amplo.

Como verbete dicionarizado, Milagre é um substantivo masculino de origem latina, “miracŭlum,i”, significando coisa extraordinária, assombrosa, inexplicável. Como ação divina é uma dádiva que beneficia uma pessoa, “milagre de Nossa Senhora”; como ocorrência extraordinária, “milagre da Medicina”; ou que causa surpresa, “milagre, fulano passou no concurso da PF”…

Registra-se na História do Teatro uma espécie de tipo de drama medieval, baseado na vida dos santos e seus milagres, inspirador de Ariano Suassuna no seu “Auto da Compadecida, aparecendo posteriormente como filme.

Para o poeta Walt Whitman, é tudo: “Cada momento de luz ou de treva/ é para mim um milagre”, análise encantadora que cai muito bem na cultura popular brasileira, onde encontramos a acepção da palavra para o artesanato em madeira e cera, ou arte pictórica que servem como oferenda aos santos por uma graça obtida.

Temos mais do que isto. São mais de 30 municípios e distritos batizados de “Milagres” no País; destacam-se cidades nas Alagoas, na Bahia, no Ceará, no Maranhão e nas Minas Gerais.

Pelo menos para conhecimento geral são poucas referências para a origem do nome dessas cidades homônimas.  Fala-se numa cruz na entrada da cidade ou da vila, da passagem de frade milagroso, da edificação de santuário e de ermidas construídas por anônimos.

Tentei uma pesquisa e encontrei mais citações sobre o turismo religioso do que alusão aos fatos ocorridos. Os acontecimentos não estão disponíveis, omitindo-se circunstâncias, datas e nomes.

Estas áreas urbanas são, porém, o testemunho da religiosidade dos brasileiros, principalmente nos rincões interioranos do país, com suas oradas ajudando a multiplicar a crença nos fenômenos que transgredem a ordem natural das coisas.

Einstein, autor de uma frase muito citada nos círculos rabínicos em defesa da religião, quando disse que “a ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”, fala do milagre com uma simplicidade ímpar quando escreveu: “Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre.

O grande poeta gaúcho Mário Quintana, ao contrário do Físico criador da Lei da Relatividade, é cético e nos deixou versos zombando dos crentes: “O milagre não é dar vida ao corpo extinto, / Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo…/ Nem mudar água pura em vinho tinto…/ Milagre é acreditarem nisso tudo! ”

Atribuindo à coincidência (que os árabes fatalistas consideram ‘pequenos milagres’) li outro dia a referência histórica às bravatas do ministro da propaganda nazista, herr doctor Goebbels, muito adotado no Brasil pelos populistas de direita e esquerda.

Quem escreveu foi um diplomata britânico, então em Berlim.  Conta que numa festa ocorrida em 1939, no auge do poder hitlerista e o esplendor totalitário, Goebbels discursou numa festa da chancelaria dizendo cheio de entusiasmo que despedaçaria a crença cristã como quebraria a taça de champanhe que tinha às mãos. Atirou-a contra a parede e ela caiu no chão sem trincar…  Sob risos (ainda havia quem sorrisse em Berlim) saiu da festa cheio de ódio.

Tem muito político fanfarrão capaz de subestimar a realidade por puro achismo, como fez o presidente Bolsonaro considerando a pandemia do coronavírus uma ‘gripezinha’; a partir daí o que assistimos é que ele vem perdendo cada vez mais a confiança da maioria dos que votaram nele.

Ao declarar que era ‘messias’, mas não fazia milagres, confessou a incapacidade de enfrentar a peste… A seguir, por vocação totalitária, referindo-se ao Congresso e ao Judiciário, baixou a palavra-de-ordem para os seguidores. “Acabou, porra! ”.

Assim, mesmo alinhando-me entre os que não creem em milagres e mitos, vejo, por coincidência, um castigo real chegar ao Presidente pela pesquisa do Instituto Orbis, dando-lhe 48% de rejeição…

A MORTE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A morte não extingue, transforma; não aniquila, renova; não divorcia, aproxima”  (Rui Barbosa)

A sabedoria do sertanejo nordestino diferencia a “morte morrida”, da “morte matada”, e o excelente “Dicionário de Termos e Expressões Populares”, do cearense Tomé Cabral, revela esta distinção entre a morte natural ou acidental e a morte por assassinato.

Encontramos também a expressão “morte súbita”, que no futebol passou a ser uma regra para decidir uma partida final que termina empatada após o tempo regulamentar; foi usada pela primeira vez na Cromwell Cup inglesa e é chamada pela Fifa de golden goal; mas a imprensa esportiva brasileira consagrou o nome funesto…

Do mesmo jeito como escrevi sobre a vida, e a proposta científica da sua origem, não custa ver o seu fim, a falência dos órgãos que animam os seres vivos, ocorrendo assim a morte.

Desde a mais remota antiguidade os homens sempre distinguiram o corpo do seu fluido vívido, a alma, o espírito, e as civilizações primordiais mantinham a crença na ressurreição dos mortos, criando um sem número de métodos para a preservação do corpo para a volta do espírito, ficando famosa a mumificação.

Como diversas religiões ainda persistentes no mundo, os espíritas, creem na vida post morte, com o espírito se desligando do corpo físico para a vida eterna, deixando a matéria inerte se decompondo. Originária da Índia e nações indígenas da América do Norte, viram cinzas ao se adotar a cremação…

No antigo Egito, dos faraós, das pirâmides e das múmias dominava a crença da reencarnação realizando a conservação dos corpos com métodos que os mantiveram por 4.000 anos… Junto ao morto, colocavam os seus pertences e ao lado da sua cabeça o Livro dos Mortos.

Assim foi batizado no Ocidente, mas na realidade era um rolo de papiro onde iam escritos hinos, orações, fórmulas mágicas e sobretudo a lembrança para a sua alma (KA) para defende-lo perante o ‘Grande Deus, o Deus de Amentet’, Khnemu, fazendo-o escutar o pedido, e não ouvir mentiras ao seu respeito…

Há também o Bardo Thodöl, em transliteração bar-do thos-grol, onde bardo é “transição” e thodol é “libertação”. É o chamado Livro Tibetano dos Mortos, tido como sagrado pelos monges budistas. É uma prece pela autolibertação da alma entre a morte e o renascimento para uma próxima reencarnação.

A cultura ocidental influenciada pelo cristianismo – em todas as suas vertentes – com a morte, o espírito vai para o céu ou para o inferno, sendo que para os católicos, ortodoxos, coptas e algumas denominações evangélicas, há o purgatório.

Segundo o vizinho judeu, o judaísmo prescreve que defunto seja despojado dos seus valores, dinheiro, joias, próteses e até perucas; que a sua casa tenha as janelas abertas e que o féretro deve ser de madeira, forrado de pano preto e uma estrela de Davi. Os caixões obedecem a um só padrão para mostrar que a morte iguala a todos.

Os muçulmanos creem que, como o nascimento, a morte está nas mãos de Deus. Lê-se no Alcorão:  “Foi Alá quem te criou, quem te sustentou, e é ele quem te fará morrer”, Suräh 30:40.

Não é demais falar-se da morte em plena pandemia do novo coronavírus, o covid-19. A ameaça é um cutelo que está sobre todas as cabeças, independendo de raça, sexo, condição social e econômica. Por isso devemos estar preparados para enfrentar os riscos, porque não se trata de uma ‘gripezinha’ como é vista negligentemente pelo Presidente da República.

Da minha parte, faço uma declaração pública:  Não acredito na sobrevivência da alma, nem tenho medo da morte; espero-a como cantou Raul Seixas a sua composição “Canto Para A Minha Morte”: “Vou te encontrar vestida de cetim/ Pois em qualquer lugar esperas só por mim/ Vem, mas demore a chegar…”

 

ALFARRÁBIO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Entre velhas páginas uma folha ainda verde da casa antiga”. (Alice Ruiz)

No ano de 1960 eu trabalhava no Correio da Manhã, o primeiro grande jornal em que atuei profissionalmente, e, como era madrugador, estava sozinho na redação quando apareceu um cidadão pedindo para falar com o chefe.

Conversa vai, conversa vem, a figura queria levar para Campina Grande, na Paraíba, um jornalista para dirigir um jornal local que transformaria a circulação semanal em diária; desejoso de participar deste desafio, antes de levar o campinense no aquário do chefe (que era meu primo) fui antes, e pedi-lhe para me indicar…

Não deu outra. Foi sopa no mel; o proprietário da publicação já tinha gostado da minha conversa e aceitou de bom grado a indicação.

Na Campina Grande regurgitante de progresso e vibrante movimentação econômica e cultural, encontrei um bar chamado Alfarrábio; era uma casa velha, com as paredes descoloridas e emboloradas, que acumulava como atividade comercial a venda de livros usados, de frutas e servir cachaça e cerveja (não muito gelada, como gostava o saudoso poeta Raimundo Asfora).

Perdoe-me, se ainda estiver entre nós, por não lembrar quem a pessoa me levou lá pela primeira vez; mas recordo que convivi ali com os jovens intelectuais Agnelo Amorim, Figueiredo Agra, Orlando Tejo, o jornalista Wallace Figueiredo e os estudantes Alcir Góes e Emílio Bezerra.

Vivi uma encantadora convivência no Alfarrábio, onde o papo era livre e agradável, e a gente se divertia quando apareciam comerciantes e políticos com a desculpa de levar para casa laranjas, maçãs e peras (um luxo na época) e aproveitavam a oportunidade para tomar umas e outras…

O curioso e inteligente nome do estabelecimento caía bem. Quando menino, pouco ouvia citar-se a palavra “alfarrábio”, que foi para a UTI da gramática e, ao que parece morreu, ficando no dicionário como elogio fúnebre: substantivo masculino originário do árabe, Al-Farābi, significando livro antigo ou há muito editado, cujo valor muitas vezes reside somente pela antiguidade.

Além de significar também sebos e lojas de nostalgia, Alfarrábio foi pluralizado pelo famoso escritor brasileiro José de Alencar, que intitulou “Alfarrábios” sua trilogia de romances históricos, seriada como “O Garatuja”, “O Ermitão da Glória” e “Alma de Lázaro”, crônicas dos tempos coloniais publicadas em 1873.

Às vezes fico conjecturando se uma visita a casos e fatos políticos ocorridos no século passado seriam alfarrábios…. Para mim ainda estão muito próximos, eu que cobri jornalisticamente a Câmara dos Deputados ainda no Rio, na Praça XV, e depois o Senado Federal sediado no Palácio Monroe, um belo monumento arquitetônico demolido estupidamente em 1976. Em nome do “progresso”…

No Rio de Janeiro antes da mudança da capital, era o espelho social e político do Brasil e viveu, sem dúvida alguma, os seus “anos dourados” na década de 1950, com uma efervescência generalizada, e a consequente evolução comportamental dos brasileiros, pelos avanços na ciência, na cultura e a implantação da tecnologia moderna, com a popularização da televisão e dos automóveis nacionais.

O lado triste, no começo da década – a derrota para o Uruguai no recém-inaugurado Maracanã – foi logo esquecido. Eleito para a presidência da República, Getúlio Vargas, criou a Petrobras, à época uma aspiração do povo brasileiro.

Tivemos a eleição de Juscelino Kubitschek e com ele uma era democrática e alegre, com paz e esperanças no futuro, coincidindo com o sucesso do rock e da nossa “Bossa Nova” tendo como pioneiros Tom Jobim, Vinícius de Morais e João Gilberto.

Essa alegria foi conturbada pela até hoje inexplicável renúncia de Jânio Quadros, sucessor de JK, o movimento militar legalista que garantiu a posse de João Goulart e depois outro movimento também militar, a derrubada do Presidente. E assim tivemos a implantação de um regime que suprimiu a liberdade.

Pena que ainda haja hoje um grupo extremista querendo a volta do regime de exceção como se fora um destino nacional, fechando-se o Congresso e o STF. Isto é, porém, impensável pois significaria o fim do Estado de Direito.

Pensando assim, estão errados e podem ser castigados… Encontrei num Alfarrábio a história que mostra o Destino com mão e contramão…  Como todos sabem, o filósofo grego pré-socrático, Zenon de Eleia, ensinava que a humanidade era subordinada a um Destino inevitável.

Certa vez flagrou um dos seus servos roubando, e o ladrão, malandro, se justificou dizendo que o destino lhe determinou que furtasse…. Zenon ouviu-o e disse: – “Tens razão, o Destino quis que roubasses e depois fosses surrado”. E mandou aplicar-lhe umas bordoadas.

 

AS BRUXAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Eu faço qualquer coisa, te dou tudo que tenho, oh bruxa, por um pedacinho de paz que um dia eu perdi”  (Raul Seixas)

Na sua comentada obra “Totem e tabu”, Freud estuda as primeiras hordas humanas e sugere três formas de pensamento: animismo, religioso e científico. O primeiro, tem a visão cosmogônica de entes superiores não humanos, animais, plantas, objetos inanimados ou fenômenos da natureza.

Mais tarde, nos albores da civilização, os medos diante do sobrenatural “se destacam nos nevoeiros das almas” como descreve Oliveira Martins no seu livro “Sistema dos Mitos Religiosos”. Assim criaram-se deuses por temor à floresta, à escuridão, aos raios e os trovões, no resguardo da caverna, na reverência ao sol e aos mortos.

As primeiras organizações sociais apresentaram o poder político exercido pelas mulheres, que desempenhavam um papel importante na administração social, respeitadas e admiradas sem impor-se pela força. Era o regime Matriarcal, cuja existência foi sugerida no século XIX pelo arqueólogo britânico Sir Arthur Evans, estudioso da Civilização Minoica.

Mais tarde, pesquisas arqueológicas da chamada Era do Gelo (40.000 – 10.000 a.C.) descobriram grande quantidade de estátuas femininas conhecidas como vênus ou Estatuetas de Vênus, identificando-as como representações da Deusa mãe.

Nas organizações sociais avançadas dos antigos impérios, as mitologias de diversos povos também consagram os mitos femininos da deusa-mãe, das amazonas ou mulheres guerreiras, valquírias, erínias, harpias e a deusa grega da sabedoria, inteligência e da guerra, Atena.

O cristianismo nascente, como religião acolhedora, caridosa, solidária e libertadora, contrapôs-se às práticas pagãs extravagantes realçando o papel da mulher na vida de Jesus de Nazaré.

São icônicas as três marias citadas nos evangelhos como participantes da pregação do Cristo, do seu suplício e ressureição. Não somente a mãe, Maria, como Maria Madalena, Maria Betânia, irmã de Lázaro, e Maria, mãe de Tiago, foram no princípio igualmente santificadas.

Entretanto, o cristianismo vitorioso, romano e imperial, sincretizou-se com outras religiões pagãs e, em defesa de um clero copiado do mitraísmo, apagou os registros do apostolado feminino contidos nos chamados evangelhos sinóticos.

A hierarquia eclesial fez mais. Desprezou a personalidade de Madalena, tratando-a como se fora uma prostituta ou endemoniada, insinuação machista motivada pelo medo de ver exaltada a importância dela entre os fundadores do cristianismo.

Na idade Média, a loucura fanática e inquisitorial passou a condenar a mulher independente, praticante de terapias fitoterápicas, ou como obstetra, acompanhando a gravidez até o parto. Foram confundidas com as bruxas persistentes na crença pagã, versão feminina dos xamãs. Então, perseguiu-as, torturou-as, e levou-lhes à fogueira.

Como restos caricatos dos tribunais da Inquisição, a América do Norte colonial registrou no século 17, para vergonha do povo norte-americano, os julgamentos das bruxas de Salem, em Massachusetts, processando mulheres acusadas de bruxaria. Este fato inspirou a intelectualidade dos Estados Unidos a chamar de “Caça às Bruxas” a inquisição macarthista que perseguiu os liberais e antifascistas, incriminando-os antidemocraticamente como se fossem comunistas.

A estupidez autoritária não compreende que não se mata uma ideia ou uma prática, sacrificando o seu agente. Foi assim que Hitler suicidou-se no seu bunker berlinense e o stalinismo soçobrou com o Muro de Berlim.

Entristece-me em assistir agora o choque dos extremismos, incentivado pela inépcia intelectual de quem não devia fazê-lo. Espero que este cenário não nos leve a uma “caça às bruxas”, porque “direita” e “esquerda” não representam uma ideologia estável, são apenas sinais de união grupal como inquisidores de todos os tempos.

 

 

 

 

 

HINOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Liberdade! Abre as asas sobre nós…” (Hino da Proclamação da República)

Com letra de Medeiros e Albuquerque e música de Leopoldo Américo Miguez, o Diário Oficial publicou 37 dias depois do fim da monarquia, a 21 de janeiro de 1890, o Hino à Proclamação da República.

Pretendeu-se na época, segundo registros históricos, que se tornasse o Hino Nacional, mas esse só foi criado com letra de Joaquim Osório Duque Estrada e música de Francisco Manuel da Silva, tornando-se oficial sob a presidência de Epitácio Pessoa.

Conforme o que estabelece o art. 13, § 1.º, da Constituição do Brasil, o Hino Nacional Brasileiro era cultuado nos meus tempos ginasianos, juntamente ao Hino da Independência e o Hino à Proclamação da República.

Antes do início das aulas, os estudantes formavam alas de acordo com as classes e cantavam estes três hinos e mais um dedicado a Getúlio Vargas… vivíamos uma ditadura, mas Vargas era muito popular, principalmente após a declaração de guerra aos países do Eixo.

No correr das nossas vidas, a minha geração vibrava muito com a Marselhesa, sob a influência da revolução francesa de 1793 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, sob o dístico Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Nos tempos do vinil colecionei quase todos os hinos brasileiros e muitos estrangeiros; por causa dessa mania, ganhei muitos de presentes, sendo dois deles realmente encantadores, o Hino da República e a espetacular performance da Banda do Batalhão Naval executando o “Cisne Branco” – Hino da Marinha.

O da República, fortemente marcial, fortalecia meu entusiasmo patriótico e a defesa da liberdade como um princípio que carrego comigo até hoje; e a beleza melódica junto à letra poética d’ “O Cisne” enaltecendo o encanto do mar, emociona.

No 2º Batalhão de Obuses de Costa, sediado no Forte do Leme (Rio), aonde servi o Exército, cantávamos um hino que ao recordar, acho graça: “Rio, cidade tranquila/ que repousa à beira do mar/ Cabe à nossa Artilharia/ A sua vida feliz resguardar…”

Quando me interessei pela música erudita, participando dos ’Concertos da Juventude” do maestro Eleazar de Carvalho, encantei-me de tal modo que até hoje não durmo sem ouvir os clássicos.

Ali fui apresentado à “Polonesa Heroica”, obra prima de Frederico Chopin; ele compôs muitas “polonesas” inspiradas nas danças populares da Polônia e escritas para piano solo. Uma delas foi a primeira composição do grande compositor e pianista.

A Heroica, porém, em La bemol maior, Op. 53, conhecida mundialmente pelo seu nome francês, “Polonaise”, tem uma forte temática patriótica, que me seduziu. Vejo-a como um hino exaltando a Polônia contra a invasão napoleônica; e, na 2ª Grande Guerra, usada pela resistência popular contra a ocupação nazista.

Uma prima minha, a pianista Edda Fiore, premiada em Varsóvia no Concurso Chopin – já falecida, tocava maravilhosamente a Polonaise, e eu quando visitava a casa dos meus tios não me cansava de pedir-lhe para tocar, e de ouvi-la.

Sobre Chopin corre uma anedota histórica. Ele foi protegido pela aclamada escritora e memorialista francesa, George Sand, baronesa de Dudevant, cuja desenvoltura agitava a sociedade de sua época, pois se vestia com roupas masculinas, para ela mais cômodas do que o vestuário feminino.

Pois bem. Recém-chegado a Paris, Chopin sofreu a aversão de um conhecido crítico musical, Kalkbrunner, e George Sand atuou na defesa dele usando uma artimanha: Convidou o Crítico para um concerto de Liszt (por quem ele mantinha grande admiração) na casa da duquesa de Orléans.  O sarau foi a meia luz, quase obscuridade e quem tocou foi Chopin recebendo aplausos entusiásticos de Kalkbrunner.

Ardis engenhosos como este merecem consideração e são válidos até para os mais exigentes do legalismo. Hoje, porém, as fraudes não são assim, mas cometidas nas redes sociais contra pessoas, entidades e poderes republicanos. São as fakes news criminosas.

E ainda por cima vemos o embuste indigno, e não menos delinquente, dos cúmplices dessa execrável prática, comparando os fake news com a liberdade de expressão do pensamento!

ESCREVER

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Eu acho que o escritor verdadeiro é aquele que escreve sobre o que ele viveu.”  (Jorge Amado)

Fico às vezes encabulado com os elogios que fazem aos textos que escrevo, mas, sem falsa modéstia, uso apenas a técnica adquirida desde a juventude com o exercício diário de jogar no papel coisas que me vêm à cabeça, pensamentos, leituras, descrições ambientais e perfis de pessoas a quem observo por onde ando.

Aprendi também com o festejado escritor Eduardo Galeano que disse “procurar uma linguagem sem solenidade que permita pensar, sentir e se divertir, nada habitual nos discursos de esquerda”.

Há diversas entidades e livros que se propõem ensinar como escrever; lembro o “EducaBrasil” trazendo “Sete dicas para começar a escrever melhor” e o “Guia da Escrita”, livro do canadense Steven Pinker, psicólogo-linguista-cientista da Universidade de Harvard, divulgado pela revista “Superinteressante”.

O anedotário jornalístico inglês conta que foi por causa de um resfriado que o mundo ganhou a espetacular autora de contos policiais Agatha Christie. Ainda adolescente e confinada no seu quarto, sua mãe aconselhou-a a escrever um diário; mas em vez de fazer confissões pessoais como as outras meninas, escreveu uma história curta, a “short stories” da literatura inglesa, que conquistou o público norte-americano.

Ao se curar da enfermidade, Agatha ganhou dos pais um passeio ao Egito, e no Cairo escreveu um conto que enviou a um editor. Do projeto saiu um livro que a projetou como escritora consagrada e traduzida em vários idiomas.

É assim; começando é que se começa…. Nada mais do que muito exercício para adquirir a técnica. Não há dica melhor.

À guisa de memória, relembro as alegrias da infância reconhecendo a felicidade de ter nascido de um casal sedento por cultura, com o pai colecionador de obras eruditas e a mãe incentivadora da leitura e da escrita. Fundamos em casa um jornalzinho “A Folha da Glória”, onde todos da família escreviam, os velhos, eu e minha irmã Lúcia.

Nunca fomos escravos da gramática, mas discutíamos sobre o uso da vírgula, do ponto e vírgula, os dois pontos, e a crase… do nosso modo de ver, o estilo – recurso de linguagem para se expressar – é livre. Fazíamos o que Manuel Bandeira confessou: – “Nunca fui um antiacadêmico. O problema é que eu gostava de tomar minhas licenças com a língua…”

“Escrever” é um verbo; como transitivo direto define como representar o pensamento por meio da escrita. Como transitivo direto, transitivo indireto e intransitivo significa expressar-se por meio de escrita e/ou usar caracteres numa mensagem.

Tive um professor que criticava o uso dos superlativos, que adoro; e outro chamou atenção sobre os sinônimos, dizendo que no dicionário não há dois vocábulos iguais, só equivalentes…

Já na faculdade, aprendi com um mestre uma coisa engraçada, mas verdadeira: ele dizia que o uso de frases latinas enriquece um texto porque o latim dá a qualquer ideia, por mais vulgar que seja, um certificado de seriedade…

Encontramos copiosamente a exibição do latim nas sentenças judiciais e nos discursos políticos dos picaretas letrados do Congresso, trata-se de uma terminologia corporativa, tipo “economês”, complicando o entendimento da realidade.

Falar em Economia e do economês, temos constatado um combate acirrado à agenda liberal do ministro Paulo Guedes que, aliás, está sendo fritado visivelmente pelos bolsolavistas; e também a tese dicotômica “vidas humanas vs retomada da Economia”. Considero trágico enxergar a pandemia do coronavírus deste ângulo; e lembrei a história do usurário e o rabino:  “Um financista se viu isolado socialmente, até pelos parentes, e foi à procura do rabino atrás de um conselho para se reaproximar das pessoas. O sacerdote pegou-o pelo braço e levou-o à janela; – “Olhe por esta vidraça e diga o que vês”.

– “Vejo muita gente”, respondeu o ricaço. O rabino então apresentou-lhe um espelho e voltou a indagar: – “… E o que vês agora? ”; a resposta não se fez esperar: – “vejo somente eu”.

“O religioso esclareceu então, como conselho, que tanto a vidraça como o espelho são vidros, mas o vidro do espelho se reveste de uma camada de prata. Por causa do metal precioso deixa-se de ver os outros para só enxergar a si mesmo…”

APARELHAMENTO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br

Pessoas que são boas em arranjar desculpas raramente são boas em qualquer outra coisa”       (Benjamin Franklin)

Bons tempos aqueles em que a grande maioria dos tuiteiros era contra o aparelhamento ignóbil do aparelho de Estado e de cargos no governo na Era Lulopetista!

Hoje não se fala mais nisto. Pelo contrário; tenho até encontrado no Twitter pessoas justificando que os cargos no governo federal devem ser negociados com o Centrão com o mesmo discurso da velha política; para garantir a “governabilidade”.

Esta tal governabilidade apareceu no Brasil na esteira intelectueira do governo FHC, aproveitando-se dos termos ingleses governance ou good governance, para indicar governança e governabilidade.

Adequar as palavras governança e governabilidade no Brasil trouxe infinitas discussões como aquelas que levaram Bizâncio à ruína, no alvoroço das divergências e debates sobre o sexo dos anjos, envolvendo a sociedade de cima para baixo, dos doutores da Lei ao baixo clero…

Segundo alguns, a governabilidade é o atributo daquilo que é governado, ou seja, a sociedade; e vulgarizou-se para justificar alianças dos governantes com o lado podre da política como necessidade de apoio para governar; diz-se de governança como manutenção da estabilidade política, social e financeira pelo governo.

Assim, no meu entender, não se explica bem o uso de aparelhamentos para garantir a governabilidade, a não ser que falte capacidade do Executivo para exercer a governança.

Por outro lado, com boas ou más intenções, o aparelhamento do Estado e do Governo sempre levanta desconfiança e suspeitas por parte da cidadania. Era ameaçador antes, com a intimidação invisível e silenciosa do lulopetismo para garantir o poder nas mãos dos defensores da “pátria grande bolivariana”.

Assim se fez nos governos lulopetistas, de Lula e do seu poste, Dilma Rousseff. Durante o seu exercício na administração pública, o PT e os seus puxadinhos de diversas siglas esquerdistas aparelharam o ensino público, os órgãos culturais, as empresas estatais, o Ibama e a Funai, criando grupos de pressão ideológicos.

Dicionarizado, o verbete “Aparelhamento” é um substantivo masculino originário do verbo transitivo “aparelhar”, preparar, dispor, arrear (o cavalo); e ou, como verbo pronominal, significando preparar-se, dispor-se, aprontar-se. A palavra se formou de aparelha + mento, ato de aparelhar.

Muito usado na terminologia da 3ª Internacional Comunista como ocupação de postos estratégicos no partido ou nas organizações do Estado, o aparelhamento consiste em colocá-los a serviço dos interesses da hierarquia ideológica.

Tivemos no Brasil como de resto na América Latina o aparelhamento dos governos em órgãos que contratam grandes obras públicas em benefício de empresas do setor. É inesquecível a varredura da Lava Jato entre nós.

Escreveu alguém que “a História se repete como caricatura”; e é assim que temos hoje a estranha e numerosa ocupação de militares da reserva na burocracia ministerial e nas empresas estatais. No Planalto, vários generais reservistas formam uma espécie de guarda pretoriana que, infelizmente, não consegue impedir a volta de suspeitos ao conselho de Itaipu, nem que o Centrão e seus 300 picaretas ocupem importantes setores no governo.

Há, entretanto, uma forma de barrar o aparelhamento que vem de priscas eras. Temos sobre isto um episódio na História da França com o político e diplomata Talleyrand, Charles-Maurice de Talleyrand, chanceler do Governo da Restauração.

Conta-se que ele recebeu a visita de um jovem que solicitava um emprego. – “Quem o recomenda? Perguntou o Ministro. O rapaz, tímido diante a autoridade respondeu: – “Ninguém…”

“ –Como? Exclamou Talleyrand perplexo; – “é isto que venho procurando; você assumirá o seu emprego amanhã de manhã…”

O Chanceler se mostrou capaz de formar a consciência dos futuros mandatários. Inutilmente…