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W. Butler Yeats

A ROSA DO MUNDO

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

 

Tradução: José Agostinho Baptista

T. S. Elliot

O Nome dos Gatos

Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro,
E não um jogo que entretenha os indolentes;
Pode julgar-me louco como o chapeleiro,
Mas a um gato se dá TRÊS NOMES DIFERENTES.
Primeiro, o nome por que o chamam diariamente,
Como Pedro, Augusto, Belarmino ou Tomás
Como Victor ou Jonas, Jorge ou Clemente
– Enfim nomes discretos e bastante usuais.
Há mesmo os que supomos soar com som mais brando,
Uns para damas, outro para cavalheiros,
Como Platão, Admetus, Electra, Demétrio
Mas são todos discretos e assaz corriqueiros
Mas a um gato cabe dar um nome especial
Um que lhe seja próprio e menos correntio:
Se não como manter a cauda em vertical,
Distender os bigodes e afagar o brio?
Dos nomes desta espécie é bem restrito o quorum,
Como Quaxo, Munkunstrap ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum…
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.
Mas, acima e além, há um nome que ainda resta,
Este de que jamais ninguém cogitaria,
O nome que nenhuma ciência exata atesta
SOMENTE O GATO SABE, mas nunca o pronuncia.
Se um gato surpreenderes com ar meditabundo,
Saibas a origem do deleite que o consome:
Sua mente se entrega ao êxtase profundo
De pensar, de pensar, de pensar em seu nome:
Seu inefável afável
Inefanefável
Abismal, inviolável e singelo Nome.
Trad: Ivan Junqueira

MORTE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida” (Raul Seixas)

O epigrafado, Raul Seixas, na sua belíssima composição “Canto para minha Morte” fantasiou que a Ela caminhava ao seu lado e acreditava que a encontraria brilhante, vestida de cetim…

Esta visão poética de Raulzito nos mostra que a espera da Morte nada tem de idealista; é inevitável, e por isto não se deve teme-la; fazendo-o, esbarra na incrível clarividência de Shakespeare que vaticinou que “os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez”.

Não me lembro se já contei num dos meus artigos saídos na imprensa escrita e, de um tempo para cá, virtualmente. Vai lá:  quando jovem tive a oportunidade de ir a Paris, e do aeroporto fui direto ao Cemitério Père-Lachaise para visitar o túmulo de Voltaire; quis confirmar a lápide com o epitáfio escrito por ele mesmo: “O homem é o único animal que sabe que vai morrer um dia, triste destino! ”

Foi uma lúcida compreensão da natureza humana do filósofo, embora haja pessoas que se julgam imortais…. Respeito os espíritas que falam por Chico Xavier, crendo “que ninguém morre”, apenas atravessa uma fase carnal para o aperfeiçoamento. E então se encontram com o católico Rui Barbosa que escreveu: “A morte não extingue, transforma; não aniquila, renova; não divorcia, aproxima”.

O verbete Morte dicionarizado é um substantivo feminino de etimologia latina “mors.mortis” originário do Indo-Europeu com a raiz “mor”, “morrer”, de onde chegou ao idioma português com o verbo morrer, mortandade e morticínio.

A morte é o fim da vida, da existência; figuradamente é a ausência definitiva de uma espécie, animal, planta, da criação material e mental. Metaforicamente, o físico Oppenheimer, que dirigiu o centro de pesquisas atômicas de Los Alamos, ao saber dos bombardeios atômicos em Nagazaki e Hiroschima, exclamou diante da sua equipe: – “Agora eu me torno a morte, o destruidor de mundos. ”

Mostrando sapiência e futurologismo 300 anos a.C., Epicuro, filósofo grego do período helenístico, escreveu: “A morte é meramente a separação dos átomos que nos compõe. Não anuncia, portanto, nem castigos nem recompensas para os homens. Não devemos temer nem a morte e menos ainda, as punições infernais inventadas pela ignorância e pela superstição. ”

Os rabinos antigos debitavam ao profeta Enoque o conhecimento de ciências ocultas, a criação da onomatomancia, jogo advinhatório que vê nos nomes próprios o futuro das pessoas, e mesmo o tempo de vida….  Se funciona ou não, é difícil saber; mas é parte da mística judaica e se encontra na Cabala.

Vem, entretanto, de muitíssimo longe o culto dos mortos. As almas eram divinizadas e os ritos fúnebres parece que foram as primeiras manifestações religiosas nas antigas civilizações. No Egito dos faraós resumia toda a crença religiosa, na Índia apareceu antes de se adorar Indra, e na Grécia Zeus vinha após as preces dedicadas aos defuntos.

A idolatria pela morte ainda persiste viva na Índia e principalmente no México, onde nasceu o Dia dos Mortos, depois adotado pelo cristianismo a dois de novembro do Calendário Gregoriano. Era venerado antes dos astecas se tornarem um império, vindo dos náuatles, purépechas, tepanecas e totonacas que cultuavam a deusa Mictecacíhuatl, a chamada “Dama da Morte”.

Infelizmente, o respeito e a reverência pelos mortos são desprezados no contexto insensato do carreirismo político na pandemia do novo coronavírus. Com mais de meio milhão de mortos, o Brasil ainda não ouviu do presidente Jair Bolsonaro sequer uma palavra de conforto às famílias enlutadas.

Esta conduta desumana retrata uma personalidade doentia, incapaz de refletir sobre o significado da vida, como faz agora, ao oferecer fuzis a uma Nação que quer paz, segurança, saúde e pão.

Além disto, investindo contra o STF e o Congresso Nacional, poderes republicanos que devem ser respeitados, o capitão Bolsonaro prega a morte da Democracia sem contar com o apoio nacional.

Resta-lhe apenas o aplauso fácil dos bajuladores e dos agentes pagos nas redes sociais, sem contar com um só amigo que sopre no seu ouvido a observação de Honoré de Balzac: “de todas as sementes confiadas à terra, o sangue dos mártires é o que dá colheita mais rápida”.

 

 

TATUAGEM

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Marcada a frio/ Ferro e fogo/ Em carne viva” (Chico Buarque)

A garimpagem arqueológica vem descobrindo múmias tatuadas em todo planeta desde as regiões geladas do Alaska, da Groenlândia e Sibéria, às zonas quentes e temperadas abrangendo os Andes, Egito, China, Filipinas, Mongólia e Sudão.

Vê-se que vem de longe o uso e o costume de tatuar, que está assinalado na travessia dos tempos. A tatuagem religiosa era habitual no Egito e Oriente Médio; e foi assinalada a partir do século V a.C. também na Europa, com registros históricos mostrando que gregos e romanos as usavam também.

O verbete Tatuagem, dicionarizado, é um substantivo feminino significando a arte de gravar na pele por meio de pigmentos qualquer marca ou desenho feitos no corpo humano. Por distensão, vem a ser assinatura, apontamento, sinalização, ou designação duradoura para o comportamento pessoal de alguém.

“Tatuagem” é uma palavra relativamente nova nas línguas ocidentais; vem da Polinésia Francesa, com origem taitiana; chegou ao idioma francês como “tatouage”, e na versão inglesa criada pelo capitão James Cook , é “tattoo”.

O dicionário, referindo-se à tatuagem como “arte”, tem a ver com as belas ilustrações e o colorido das aplicações subcutâneas, aplicadas com esmero e o uso primoroso de pigmentos por agulhas habilmente usadas.

A Roma Antiga tinha a Lei Remucia que adotou brutalmente a letra “K” marcada com ferro em brasa na testa dos caluniadores; e na Idade Média foi utilizado o ferrete para fixar a propriedade dos escravos e para o opróbrio de criminosos.

É recente a chegada da tatuagem no Brasil. A História registra que em 1959 aportou em Santos o dinamarquês Knud Harald Lucky Gegersen, o primeiro tatuador registrado no país. Manteve o seu estúdio na cidade portuária de São Paulo na zona de meretrício, e assim nasceu a fama de que a tatuagem seria coisa de marginais.

Por isso, até o fim do século passado a tatuagem decorativa era discriminada socialmente, constando dos estudos na cadeira de Medicina Legal das faculdades de Direito; foi alvo de pesquisas policiais como sinal de adesão de bandidos ás quadrilhas.

Aliás, segundo um delegado da Polícia Federal, meu amigo, o uso da tatuagem persiste demarcando membros das máfias internacionais e, entre nós, dos participantes do Comando Vermelho e do PCC, servindo para garantir a segurança e o respeito dos seus “soldados” nas prisões.

De outro lado, as tatuagens estão disseminadas hoje por todo mundo com adesão de artistas, esportistas e personalidades intelectuais e políticas. A novidade é que houve uma evolução que foi da utilização primitiva de ossos finos como agulhas para a sua aplicação por raios laser.

No momento em que o mundo repudia o neonazismo, esta infâmia é acolhida no Brasil pela Familiocracia Bolsonaro, por isto, não custa ensinar à ignorante banda “religiosa” de apoio ao Presidente “defensora” de Israel, que a Alemanha de Hitler adotava a tatuagem numerada no antebraço esquerdo dos judeus.

Sublinhe-se que tal prática não está longe dos sonhos dos fanáticos bolsonaristas pelo odiento tratamento dado por eles aos opositores do Chefe, os críticos das “rachadinhas” e os que condenam as transações suspeitas dos vigaristas no Ministério da Saúde em troca de “comissionamentos”.

Do outro lado, um “K” na testa dos corruptos que reapareceram e se fortaleceram no Ministério da Saúde, em plena pandemia, seria uma sentença justa aplaudida pelos brasileiros honestos e defensores de punição exemplar para a corrupção, seja de que partido seja.

Nas últimas eleições revoltados contra a roubalheira institucionalizada nos governos lulopetistas, os brasileiros deram um salto no escuro, caindo infelizmente na fossa infecta dos vermes que pululam em torno do capitão Bolsonaro, cada vez mais idêntico ao Pelegão que repudiamos. Igual por igual, só tatuando ambos com o “ZERO”, a marca do desprezo!

 

 

MIGALHAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Qualquer migalha que se dê ao homem simples o fará feliz” (Enéas Carneiro)

Podemos conceder muito às pessoas inteligentes, mas não permitir que dilapidem as migalhas do bom senso. Ninguém pode desperdiçar nacos do pão da sabedoria que alimentam o humanismo na ceia da convivência social.

Deve-se, por isso, atirar ao lixo as fake news postadas nas redes sociais e os discursos políticos demagógicos; estas idiossincrasias são dispensáveis, como as mentirinhas insignificantes e as desprezíveis mentironas. A desonestidade é sempre dispensável, o que não ocorreu quando acreditamos nas promessas eleitorais do capitão Bolsonaro.

O tempo, felizmente, se encarrega de mostrar a falsidade dele pouco a pouco desmentida, aumentando o nosso respeito pela sabedoria popular que ensina: “é mais fácil pegar um mentiroso do que um coxo”….

E assim os coxos ganham disparados do Capitão Minto que confessa, passados três anos da campanha eleitoral que sempre foi do Centrão. Ainda ecoam nos nossos ouvidos os discursos dele combatendo a picaretagem do Congresso, seguido em coro por um general de pijama do seu grupo publicando que “se gritar pega Centrão, não ficaria um só ladrão… ”

Também, para não esquecer a insanidade extremista do aprendiz de ditador, e dar razão aos antifas, passou de “liberal democrata conservador” a revelar-se como admirador do neonazismo alemão, abraçando publicamente uma neta de um ministro de Hitler.

Estas revelações fazem parte das grandes mentiras, porque as mentirinhas com exceção dos varrem para debaixo do tapete todo mundo conhece:  a defesa das “rachadinhas” familiares, os cheques do Queiroz e, recentemente, a fraude do negativismo lucrativo dos comissionamentos (a velha propina), na compra de vacinas.

Bocados de inverdade e porções de falsidade continuam distribuídos pelo capitão Bolsonaro tentando arrastar os militares do seu grupo para tentar um golpe antidemocrático.

Tais confabulações encantam a manada que o segue fanaticamente. Os homens simples que se apaixonam pelos discursos, cultuam personalidades políticas e ficam fascinados com as malandragens delas. Se agrupam ao toque do berrante participando dos movimentos criados pela propaganda, seguindo a claque profissional da lista da Secom.

São os analfabetos políticos que não têm o alcance da lição de Victor Klemperer, doutor e professor universitário de filologia românica na Universidade de Dresden, que acompanhou a tomada do poder na Alemanha por Hitler e escreveu os livros “Os diários de Victor Klemperer” e “Linguagem Do Terceiro Reich”, mostrando as desgraças da ditadura hitlerista.

Klemperer afirmou: “O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas, inconsciente e mecanicamente”.

A fração “bolsonarista” do eleitorado cega e surda não vê nem escuta os rumores das ruas, nem a realidade à sua volta. Pouco importa aos idólatras que o seu mito seja do Centrão, neonazista ou mentiroso. Conforma-se com as migalhas que sobram do banquete da demagogia, defendendo-o pela fraqueza humana da ilusão.

“Migalha”, como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino originário do latim hispânico “micalea”, por sua vez vindo do latim clássico “mica,ae”. Seu significado é “pequeno pedaço do pão ou resto de qualquer comida; por extensão, usa-se como porção de uma coisa qualquer.

O inteligente cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro escreveu que “as memórias nada mais são do que aquilo que nos restou de nossos esquecimentos. São como os pombos no asfalto, eles sabem voar alto mas insistem em catar as migalhas do chão“.

Catando migalhas, vemos a generosidade com o dinheiro público do pródigo capitão Bolsonaro distribuindo verbas comprando o apoio dos picaretas do Congresso, e usando eleitoralmente o “Bolsa Família” que dizia ser dos cabos eleitorais do PT, e (adota-o para si próprio como “Auxílio Brasil”).

Juntam-se também algumas migalhas de memória para lembrar que traiu quem votou nele porque combatia a corrupção e defendia a Lava Jato, coisas que abominou depois de eleito para escapar das rachadinhas….

Infelizmente, os farelos de fraudes, mentiras e traições que infelicitam o País e envergonham os brasileiros, fazem felizes os alheados que ainda o seguem.

 

 

PEGASUS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O Grande Irmão está lhe vigiando” (George Orwell)

As cidadãs e cidadãos ciosos da sua dignidade e integridade repudiam a invasão espiã da sua vida privada. É claro que fica de fora a manada tangida pelos violadores dos direitos humanos, ditadores e aprendizes de ditador.

Descobrimos, entretanto, ao tomar conhecimento da existência do software espião “Pegasus”, que todos estamos sob esta ameaça, usada por governos antidemocráticos para vigiar ativistas de movimentos sociais, blogueiros, jornalistas, militantes dos partidos políticos de oposição e até mesmo os seus aliados de quem desconfiam….

Criadora desta ferramenta totalitária, a empresa israelense NSO Group, alega que não foi produzida com esta intenção, mas reconhece que a espionagem tem sido aplicada de maneira insensata por governos autoritários.

O escândalo fascistóide contra a privacidade das pessoas e de organizações civis causa apreensões e condenações do mundo pensante. Na ONU, por exemplo, formou-se um comitê de vigilância contra as operações de alguns governos violentos que resultaram em prisões, intimidações e até assassinatos.

Apesar dos protestos internacionais e adoção de medidas de segurança por muitos governos, no Brasil dos estagiários do totalitarismo, a espionagem é vista como necessária. Viu-se, por exemplo, no mês de maio deste ano o vereador federal Carlos Bolsonaro, chefe da propaganda bolsonarista, negociar através do Ministério da Justiça a aquisição do Pegasus.

Participou pessoalmente de negociações para que a NSO Group participasse de uma licitação do Ministério da Justiça. Sem muita explicação, porém, a representante dos israelenses responsável por comercializar o software espião, se retirou do processo licitatório.

Em nome da verdade, a movimentação do filho do Presidente da República, não contou então com o apoio dos militares com cargos no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e na Agência Nacional de Inteligência (Abin).

Hoje talvez fosse diferente, com os comandos mudados e a clara intervenção pouco republicana do capitão Bolsonaro nas FFAA, sob a proteção da guarda pretoriana de pijama. Hoje, possivelmente, os brasileiros seríamos esquadrinhados pelo gabinete do ódio que atua nos porões do Planalto.

O exemplo de que a intimidação e espreita está na denúncia feita pelo senador Rogério Carvalho em sessão da CPI da Covid, apontando que o coronel da reserva Roberval Corrêa Leão tentou “bisbilhotar” a sua vida. O Coronel é chapa branca; contemporâneo e ligado ao ministro da Defesa, Braga Netto.

Com isto, temos a impressão de que o projeto de espionagem dos Bolsonaro poderá estar penetrando nos órgãos públicos através dos que morrem de saudades do tempo em que as polícias políticas agiam contra os opositores do regime militar, as prisões eram gratuitas e a tortura ocorria nos porões dos quarteis.

Assim é suspeitável que a ameaça se torne cada vez mais real. A intimidação fantasmagórica atingiu o clímax com a programação de uma “Tanquiata” em continência ao capitão Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios, no dia em que a Câmara Federal apreciaria a PEC do Voto Impresso, a tática trumpista de embaralhar as eleições do ano que vem.

Pairam dúvidas se a cúpula militar submissa aos projetos continuístas do mitomaníaco que ocupa a Presidência tem apoio dos quarteis. Não creio que um militar das FFAA traia o princípio pétreo de defender a Constituição e defender o Estado.  Se isto ocorrer, o retrocesso histórico nos alinhará entre as ridículas “repúblicas das bananas”.

Porque seguir a aventura golpista do Grande Mentiroso é atentar contra o Estado Democrático de Direito, na medida em que ele defende o vazamento dos processos que correm em sigilo, alegando que devem ser conhecidos porque interessam a todos nós. Entretanto vem sendo useiro e vezeiro de decretar sigilos…. Fez segredo até no seu teste para a covid-19 e faz segredo para a movimentação dos filhos no Planalto.

Mesmo assentado em visível incoerência, é cercado de uma horda de aduladores perfilados, fardados ou de pijama, numa cena que foi vaticinada pelo general Olímpio Mourão Filho no seu livro “A Verdade de um Revolucionário”….

 

 

 

MOLEQUE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância” (Millôr)

A rica contribuição do quimbundo para o idioma português falado no Brasil nos deu a sonora, sugestiva e de amplo significado a palavra Moleque, de origem “muleke”, que dicionarizada é um substantivo masculino.

Na linguagem coloquial Moleque tem o significado de criança buliçosa, sapeca e traquinas; no pejorativo é usado como gentalha, ralé, pessoa que não merece confiança.

O depreciativo se encaixa perfeitamente na personalidade grosseira, mal-educada e inescrupulosa do capitão Bolsonaro. Quem imaginou, por exemplo, que um dia tivéssemos um presidente da República que xingasse publicamente um ministro do Supremo Tribunal Federal de “filho da puta”?

Coisa de gentalha de ponta de rua. Desprezo os que por fanatismo insano ou pagos para isto, aplaudem este comportamento de quem senta na cadeira presidencial; e condeno aqueles que o defendem direta ou metaforicamente essa insensatez, considerando-os iguais a ele.

“Ele é assim”; “diz o que tem vontade”; “porque está com raiva”…. Defesas tolas de manifesta bajulação. Mas tem pior: “é a formação dele”…. Uma desconsideração bestial à vida anterior como militar. Nas escolas militares não se ensina isto, e nem mesmo os nossos sargentos assumem a caricata grosseria dos colegas americanos que assistimos nos filmes…

O Exército não o tolerou obrigando-o a ir para a reserva. Saiu e seu meteu na política, no carreirismo alucinado que foi de namoro com a esquerda, elogios ao ditador venezuelano Chávez, e sem ter crédito no lado de lá, se cobriu com o manto dos revanchistas da ditadura militar defendendo torturas e torturadores.

E há quem considere isto “de direita” e “conservadorismo”! …. E pior ainda; passou 28 anos na Câmara dos Deputados sentado na bancada do Centrão, cobrando rachadinhas e se assumindo como pelego de um virtual “sindicato da farda” para defender aumentos de soldos e encarreiramentos nas forças armadas e polícias militares.

Muito mais do que traquinagens, criou um sistema nepótico levando os filhos para a política, através das bases eleitorais formadas de revanchistas, reservistas politiqueiros e os aquinhoados com vantagens obtidas através dele com o dinheiro público.

Este explorador de verbas governamentais e da crendice infame num “salvador da Pátria”, exibiu a sua psicopatia e rica acumulação de mentiras na campanha presidencial em que se elegeu com o voto dos descontentes pela corrupção lulopetista e dos patetas cocainizados na ilusão de conquistar segurança institucional.

Vencedor, traiu as duas frações que haviam se somado ao bando de milicianos políticos; traiu, desprezou e sabotou as medidas contra a corrupção defendidas por Sérgio Moro e em vez de trazer segurança criou a maior instabilidade no País desde a redemocratização.

Os corruptos estão de volta, como se comprova com depoimentos dos envolvidos e copiosos documentos; quanto à inseguridade, assistimos aqui a insensata loucura da ditadura coreana de Norte com desfiles militares para demonstração de força. Cá como lá, vê-se governos fracos e impopulares apoiados pela força armada.

O carnaval fora de época de blocos uniformizados exibindo tanques como carros alegóricos, leva-nos a refletir sobre a triste realidade que vivemos; da minha parte, apelo de coração para a poesia “Menino Moleque”, de Milton Nascimento; “… não posso aceitar sossegado/ Qualquer sacanagem ser coisa normal…”.

 

 

 

DOGMAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br

“Dogma não significa ausência de pensamento, mas sim o fim do pensamento” (Chesterton)

As cidades-estados da velha Grécia, que foram o berço da Democracia, eram contraditoriamente governadas por uma teocracia; que foi copiada pelos “bispos cristãos” ao conquistar o poder em Roma criando o Papado.

Esta organização eclesial fortemente hierarquizada substituiu as antigas comunidades cristãs livres que tiveram de se submeter ao imperador Constantino e a sua fraude oportunista de que dialogara com Jesus Cristo…

Assim, o cristianismo católico passou a governar através de uma simbiose Deus-Estado…. Inventou até um título para Deus, “Rei dos reis”…. E o papa então tornou-se o representante de Deus na Terra, como Pontifex Maximus, como era o chefe do colégio dos sacerdotes na antiga religião romana.

O Papado com o poder imperialmente consolidado chegou à Idade Média estendendo o seu mando aos países europeus convertidos, pondo os bispos a serviço dos governos e divinizando também os ocupantes do poder.

Esta interação teocrática dominou com forte repressão, criando tribunais de exceção que sentenciavam prisões, torturas e condenações à morte pela fogueira. Mas como todo poder totalitário, degenerou-se estimulando a revolta dos clérigos honestos. A reação culminou com a Reforma Protestante.

Este movimento nasceu da repulsa ao modo de vida luxurioso do bispado e do repúdio à politicagem e a corrupção de grande parte do clero, comportamento que corroeu o Sacro Império Romano Germânico.

Como autodefesa, o Papado viu-se obrigado em 1546 a convocar um concílio a fim de reestruturar o ordenamento clerical. Conhecido como “Concílio de Trento”, o sínodo realizou-se sob a direção do papa Paulo III; aprovou duras medidas para disciplinar o sacerdócio, proibiu a imoral venda de indulgências, criou seminários para formar padres e permitiu a livre expressão de pensadores cristãos, como Inácio de Loyola e Erasmo de Roterdã.

Foi assim que surgiu a “contrarreforma”. Esta, apesar do arejamento das ideias humanistas, teve que fazer concessões para conter a rejeição dos ultramontanos conservadores e dogmáticos, fortalecendo a Inquisição para julgar “hereges”,

“Herege” é uma palavra grega, “hairetikós”, que significa escolher. Seriam as pessoas que pela visão de um bispo investido de juiz, inconformadas com as correntes retrógradas mantidas no Vaticano, como todo aquele que contestasse os dogmas estabelecidos de cima para baixo pela hierarquia eclesial sem ter por base os Evangelhos.

Dessa maneira, o recalque da burocracia sacerdotal manteve os dogmas, impondo que as decisões do Papado deveriam ser acatadas sem análises, discussão ou questionamentos, um princípio doutrinário absurdo que chegou até os dias atuais.

Desta posição bitolada originou-se a beatice, o carolismo igrejeiro; enfim, o fanatismo, pois só os fanáticos não têm dúvidas sobre o que lhes impõem como verdade.

Vê-se até hoje no campo da política, exemplos desse servilismo aceitando a exigência de obedecermos aos programas de Governo que não são dogmas, e acolher como correto o discurso de quem ocupa eventualmente o poder. Ambos exigem a discussão, e no mínimo, o diálogo.

Não se deve aceitar e curvar-se à imposição dos segredos misteriosos do capitão Bolsonaro sobre o trânsito e o comportamento dos seus familiares, com decreto de sigilo por 100 anos quanto à ida e vinda dos filhos no Palácio do Planalto

Trata-se de uma medida que nos obriga à reflexão, a discutir e a protestar; chega de sigilos! Por honestidade consigo mesmo, o brasileiro deve adotar o princípio socratiano de que “a vida sem questionamentos, não merece ser vivida”.

A revolta contra “segredos” jurídicos e governamentais dogmáticos é um imperativo de consciência cívica. Pensemos, pois, com André Gide: “Crê nos que buscam a verdade. Ponha em dúvida aqueles que dizem tê-la encontrado”.

 

 

 

VENENO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

A ciência é o grande antídoto contra o veneno do entusiasmo e da superstição“ (Adam Smith)

No ano de 1973 foi lançado um filme do gênero terror sobrenatural que tirou o sono de muita gente: “O Exorcista” (The Exorcist), com o roteiro baseado no livro com título homônimo escrito por William Peter Blatty e dirigido por William Friedkin.

A crônica cinematográfica informa que a história foi supostamente inspirada no caso real do pré-adolescente Robbie Manheim que vivia em 1949 na cidade de Cottage, em Maryland, nos Estados Unidos, que sofreu uma possessão demoníaca.

Verdade ou simplesmente ficção fantástica, tal situação deixa o registro com o parecer de um protagonista do filme: – “o demônio é um mentiroso. Ele vai mentir para nos confundir. Ele também vai misturar mentiras com a verdade para nos atacar”.

As mentiras demoníacas, mesmo em gotículas, são um veneno que transtorna a realidade e comprometem os que vivem no entorno do mentiroso.

Gramaticalmente, a palavra “Veneno” é um substantivo masculino de etimologia latina “venēnum”, designando substância tóxica, natural ou preparada, ou altera ou destrói as funções vitais de um organismo. Acrescente-se que reflete a interpretação maldosa ou deturpada de algo. E o maior veneno secretado nos nossos corações e mentes é a mentira.

A mentira pactua com a perversidade, obrigando-nos a fugir dos seus efeitos danosos ao degustar o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, aquela que o grande Arquiteto do Universo proibiu a Adão e Eva; a Ciência, como diz Erasmo de Rotterdam no seu “Elogio da Loucura”, é o veneno da felicidade.

Para sermos felizes sem alienação é necessário repudiar a maléfica mentira propiciada pelo mundo político; principalmente a intoxicação produzida pelas promessas eleitorais que envenenam as nossas aspirações e interesses.

Verdade se diga que todas as substâncias são venenos, mas não há mentira que não seja um veneno. Leve-se em conta, entretanto, que o Tito Lucrécio Caro, poeta e filósofo da Roma Antiga, classificou veneno como intriga, dizendo que “o que é alimento para uns, para outros é um veneno amargo”.

Este pensamento nos leva aos comentários que se multiplicam em Brasília sobre a recriação do Ministério do Trabalho, que sob o comando do fraudulento Onix Lorenzoni, se incumbirá de atrair a pelegada com a volta do abominável imposto sindical. É veneno para o povo e alimento para a pelegagem.

Investe-se de poder este Ministro “de qualquer ministério” para angariar apoio político e votos para a reeleição do Capitão Minto. Vem somar-se ao “Tratoraço” – o “Mensalão”, na versão da nomenclatura bolsonarista -, compra de parlamentares inventada por Fernando Henrique Cardozo e adotada ardilosamente pelo lulopetismo.

E foca também à disposição da patota de Carluxo, outro termo na novilíngua, o novo cognome de “Propina”; que passou a ser “Comissionamento” para os arrecadadores do negativismo lucrativo do bolsonarismo….

Desse jeito, fica transparente e corrosivo o veneno da corrupção para desfrute dos bajuladores que infestam o “cercadinho” do Palácio do Planalto e enxameiam as redes sociais, onde “sobra algum” dos gastos publicitários para os que disseminam as fake news do gabinete do ódio.

Ocorreu, e parece que vem ocorrendo, com a divulgação em massa em defesa do tratamento precoce para a covid-19 e trazendo depoimentos de cura pelo uso de remédios ineficazes para a doença, cloroquina, hidroxicloroquina e Ivermectina.

Talvez por falta de verbas, ainda não vi nenhum adjutório para a nova droga saída da mente inescrupulosa de Bolsonaro, a proxalutamida. Mas certamente teremos em breve os bolsonaristas do Centrão repetindo o diagnóstico fraudulento nas redes sociais garantindo a que “achismo” do Chefe é genial.

Esta idolatria estúpida nutrida com o veneno das mentiras, fortalece a convicção dos tolos; da minha parte, prefiro a oração de Gandhi: “Meu Senhor, ajude-me a dizer a verdade diante dos fortes e não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos débeis”.

 

 

 

VACINAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Vai comprar vacina na casa de sua mãe” (Jair Bolsonaro)

As crianças do mundo inteiro (e os que já foram crianças um dia) devem venerar o médico, virologista e epidemiologista norte-americano, Jonas Salk, que deve ser lembrado por ter desenvolvido a vacina oral (famosa “gotinha”) para a poliomielite.

Certa vez, indagado por um jornalista se ele havia registrado a patente da vacina da poliomielite, Salk respondeu: – “Não. Ela é das pessoas. Não há nenhuma patente. Você poderia patentear o sol? “. Merece ou merece encômios?

Os aplausos, infelizmente devem ser trocados por apupos aos governantes que foram contra a quebra das patentes, medida humanitária para as nações mais pobres enfrentarem a pandemia. Entre os defensores do lucro das farmacêuticas monopolistas alinhou-se o presidente brasileiro, capitão Bolsonaro, atendendo ao pedido do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, a quem venera.

Isto, por si, é condenável; mas Bolsonaro fez muito pior, condenou pessoas à morte pelo negativismo, também seguindo Trump, subestimando a ameaça da pandemia do novo coronavírus, e depreciando as medidas preventivas como uso de máscaras, evitar aglomerações e fazer o isolamento social.

E foi ao superlativo – mesmo como neologismo -, pioríssimo, ao charlatanescamente prescrever drogas ineficazes para a covid-19 e desqualificando perversamente a vacina, ora ridicularizando o seu uso, ora condenando por xenofobia a insumo chinês desenvolvido pelo Instituto Butantan.

Com isto torna-se impossível encontrar um adjetivo para qualificar o negativismo lucrativo de Bolsonaro suspeitosamente comprar vacinas através de intermediários dispostos a pagar “comissionamentos” à quadrilha que se instalou no Ministério da Saúde.

Como pensador iluminista cujos pensamentos estão válidos até hoje, Voltaire disse que “a política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano”, mostrando-se um futurólogo para o Brasil do que Nostradamus que se limitou à Europa…. (Embora haja quem interprete centúrias deste lado do Atlântico).

A perversidade genocida do capitão Bolsonaro e seus partidários não se limitou a ceifar mais de meio milhão de vidas: tornou-se lucrativa como faziam os guardas de campos de concentração nazistas recolhendo roupas, joias, cabelos e até arrancando dentes de ouro dos que iam para as câmaras de gás.

Desenrola-se, para júbilo dos brasileiros que não têm bandido de estimação, uma CPI no Senado Federal que está mostrando a ganância criminosa ocorrida nas transações fraudulentas com intermediários para suposta aquisição de vacinas. Com US$ 1 de sobrepreço para atender a demanda gulosa dos comissionados….

Na CPI da Covid a brilhante senadora Simone Tebet em uma atuação firme. Antecedeu pelo estudo e projeções a nota da farmacêutica indiana Barath Biotech questionando a autenticidade dos documentos apresentados pela Precisa Medicamentos que foram recebidos e aceitos pelo Ministério da Saúde. E isto ocorrido, comprova as maracutaias que estavam sendo tramadas para recebimento de “comissionamentos” a propina rebatizada pela novilíngua bolsonarista.

A Barath Biotech também rescindiu o contrato com a Precisa por Irregularidades na negociação da vacina com o Governo Bolsonaro denunciadas pelo deputado Luís Miranda a quem o Capitão até agora não respondeu.

Os documentos falsificados foram exibidos oficialmente em rede de televisão pelo ministro de qualquer coisa Onix Lorenzoni, configura um crime de falsidade ideológica, coisa que vem ocorrendo sistematicamente com o próprio capitão Bolsonaro, que ocupa a presidência da República.

Oficiosamente, anunciado à larga pelos motoqueiros do fanatismo, o diversionismo do capitão Bolsonaro já não convence sequer a direita autêntica, traída em seus princípios contra os visíveis desvios da honestidade, do pudor e da ética, enfrenta vacinada contra o medo as ameaças golpistas guarda pretoriana de pijama….

Estes arreganhos seriam a última palha para o capitão Bolsonaro se afogando no slogan que se inverteu na boca do povo brasileiro: “Na minha corrupção não tem governo”!