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LIBERDADE

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba. ” (Guimarães Rosa)

Escreveu o grande Machado de Assis numa das suas Notas Semanais que os alemães dizem que “duas metades de um cavalo não fazem um cavalo”. Herdeiros da sabedoria popular saxônica, os germânicos sintetizaram uma realidade imutável.

Com a nossa Constituição esquartejada pelos que têm o poder republicano de legislar, judiciar e administrar, assisti-os discutirem sobre a liberdade de expressão. Fazem-no como mutiladores de cavalos, ficando um com a cabeça; outro com o dorso, peito e quadril; e o terceiro com as quatro patas e o rabo.

Esta partilha política não externa o que os amantes das liberdades democráticas desejam, a garantia do direito de emitir o seu pensamento, agrade ou não os que o leem ou ouvem. Nada mais inofensivo e fácil de fazer do que respeitar a opinião alheia.

Para entrar na polêmica, faço-o com uma declaração de princípio: Alinho-me entre aqueles que, sem nenhuma retórica, andam com os pés no chão e uma lanterna na mão (como Diógenes) em busca da liberdade, da justiça e da paz. Isto completa minha vida política.

As proibições são sem dúvida opressoras. Mas tradições democráticas, monárquicas ou republicanas, baseadas em fontes constitucionais estabelecem princípios pétreos garantindo a liberdade de expressão; entretanto, como declarou o ministro do STF Alexandre de Moraes: ‘Liberdade de expressão não é liberdade de agressão’.

Infelizmente, há quem use e abuse da “liberdade de agressão”, franquiada pelo próprio presidente da República.

Para mim, a melhor maneira de garantir a liberdade é exerce-la e, exercendo-a, exigir a punição dos que a usam fraudulentamente para extingui-la. Não há crime político mais horrendo do que pregar sistemas ditatoriais, defender o totalitarismo e elogiar a tortura e os torturadores.

Considero, também, que deve se abrir nas redes sociais o debate levantando este tema, crucial para o cultivo das liberdades democráticas; mas não da boca para fora ou na rápida digitação de um texto.

Pelos anos que navego nas redes sociais sinto que muito poucos tuiteiros, mesmo entre os mais radicais defensores de um regime menos exclusivo, se declararam contra a liberdade; e tenho a quase certeza que um número muitíssimo menor defenderá a “liberdade de agressão”.

Há quem discorde de sentenças judiciárias do Supremo Tribunal Federal. Eu mesmo não engoli até hoje a pílula amarga da decisão em inocentar Lula da Silva, inegavelmente um patinador nas pistas da corrupção. E para cometer esta impunidade absurda, varrer para debaixo do tapete a delação do ex-ministro Antônio Palloci.

Embora não aceite esta decisão dos ministros togados, jamais pediria o fechamento da Corte, e muito menos atacaria pessoalmente cada um dos seus membros por sentença baixada. Faço as minhas críticas sem confundir “expressão” com “agressão”; deixo isto para elementos fascistóides praticantes do terrorismo político.

Os cariocas têm um ditado que a sabedoria popular consagrou: “o respeito é bom, e eu gosto”, esta máxima deve ser usada à larga por todos, homens e mulheres, crianças e velhos, gente de qualquer cor da pele.

A lembrança da infame Inquisição inspirou Nietzsche a dizer que: “Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse”.

Assino embaixo, porque só assim a Democracia (com “D” maiúsculo) se imporá. No tempo em que haviam engraxates meu pai me ensinou que eu deveria trata-lo como trataria o presidente da República. Esta metáfora hoje é esquecida como também o Hino da Proclamação da República. “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobres nós”.

 

 

 

 

TELEGRAMA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uolcom.br)

“Trame, planeje, calcule, postule…. E conte com isso! ” (Henry Miller)

Não faz muito tempo que escrevi uma crônica sobre as coisas que a Geração Web não conheceu, são tantas que nos obriga a selecionar apenas algumas, como apontador de lápis, caderno de caligrafia, caneta tinteiro, cartas, gravador portátil, máquina de escrever, telegrama…. Também o bom trato com os velhos….

A distinção com a terceira idade não desapareceu e ainda é respeitada pelos que não são filhos de chocadeira; quanto ao Telegrama, com a sua abreviação básica, teve um curto retorno  por uns tempos, quando o Twitter exigia dos micreiros 140 toques, ampliados depois para 280 em 2017.

O pensamento expresso sumariamente valorizava a expressão, dava-lhe qualidade e retratava a inteligência nos resumos, como no jornalismo temos as sinopses para atender os apressados.

Assim eram os telegramas. Meio de comunicação entre pessoas e instituições, com mensagens curtas e urgentes que eram entregues envelopados no endereço de destino; antes eram transmitidos pelo telégrafo, depois por telefone e agora temos um similar pouco usado via Internet.

Nos velhos tempos memorizava juras de amor; mensagens confidenciais, comerciais ou políticas; e comunicados funestos, noticiando acidentes e mortes. Temendo receber notícias tristes, muitas pessoas hesitavam em abri-los….

Parecia natural o temor por tomar conhecimento de acontecimentos telegramados. A gramática apresenta a figura da “preterição” que consiste em passar por cima de um texto, mas a curiosidade sobre o conteúdo de um telegrama era irresistível.

Antigamente era muito difícil manter sigilos. Os segredos eram um prato feito nas conversas familiares, almoços e jantares, bate papo de botequim. Tem até uma interessante resenha de Gore Vidal que diz: – “Quando alguém me pergunta se posso guardar um segredo, respondo: “Por que eu deveria, se você não pôde? ”.

Na Era da Mitomania Bolsonarista os sigilos fazem parte do discurso presidencial, uma breve simulação disto é espantosa: o capitão Bolsonaro fez segredo por 100 anos de um teste de vacinação; o Exército usou o mesmo período para dar conhecimento do julgamento do general Eduardo Pazuello por participar de comício partidário.

Tivemos a pouco um absurdo dos absurdos: o Governo Federal pôs sob sigilo as idas dos filhos do Presidente ao Palácio do Planalto! Assim, não é estranhável que um encontro de pastores evangélicos com Bolsonaro seja sigiloso; principalmente depois do escandaloso pastoril do gabinete paralelo no Ministério da Educação que revelou cobrança de propinas por pastores lobistas.

Talvez seja exibir demais de um governo do Centrão (como seria também de um governo lulopetista, porque os populistas são iguais), mas, em nome da Democracia e da Transparência na Administração Pública, os sigilos deveriam ser proibidos.

Perdoem-me os que pensam diferente por considera-los tolos. Não chegam a ser uns imbecis úteis como os alemães que apoiaram os nazistas e aplaudiram Hitler, embora contribuam para a disseminação do mistério na vida política dos governantes.

Além da manada cultuadora de personalidades, temos igualmente a omissão silenciosa dos garantistas togados e dos esgotados militares da ativa que apadrinham este tenebroso artigo de fé do sigilo.

Gostaria de fantasiar um pouco acreditando num Tribunal da Opinião Pública e num Exército do Patriotismo que, reunidos, enviaram o seguinte telegrama endereçado à Nação Brasileira:

“ACORDA POVO BIPT É IMPOSSÍVEL DORMIR NUM PAÍS ONDE SEGREDOS DOS OCUPANTES DO PODER SÃO LEGAIS PT O RUIDO DESTA MISTIFICAÇÃO LEVANTA SUSPEITAS VG NÃO SE ACUMPLICIE PT REAJA” ASS. A CONSCIÊNCIA

 

 

 

 

 

 

 

FAKE NEWS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“A tradução literal do inglês para o português é ‘notícias falsas’” (Wizard)

Insistentemente os ficcionistas dos “deuses astronautas’ falam do encontro submerso na costa turca de um artefato semelhante ao computador; da minha parte, considero isto apenas uma ansiosa vontade de provar fantasias; prefiro aceitar o registro histórico de que ele foi estudado na década de 1939 e exitoso na 2ª Guerra Mundial.

Assim, considero o computador uma coisa nova, a internet novíssima, e as redes sociais, excepcionalmente recentes…. Mas as fake news são muito mais antigas do que a nossa imaginação alcança.

Há quem afirme que têm a sua origem nos Vedas, livros sagrados do hinduísmo, e estudiosos ocidentais dizem que foram copiadas nas histórias do Antigo Testamento entre 1800 e 500 a.C..

Já no Ocidente tivemos em Roma o filósofo Tito Lívio, que sofreu pesadas críticas por desacreditar da veracidade de uma Loba que amamentou os fundadores de Roma, Romulo e Remo. Considerava-a uma mentira fantástica, seja, aquilo que hoje chamamos de fake news….

As notícias falsas nasceram de absurdos, dos mitos (que persistem na cabeça dos palermas), das sátiras e de zombarias. Batizadas de fake news, chegaram aos subúrbios da politicagem, disseminando maldades; e esta presença agigantou-se nas eleições brasileiras de 2018, e se tornou perversa e desumana na pandemia do novo coronavírus.

Mensagens desvirtuadas falsas e pervertidas foram usadas contra a Ciência Médica pelo negativismo bolsonarista, apelando emocionalmente para pessoas ingênuas, ou de crenças distorcidas, ou dos fanáticos cultuadores de personalidades políticas.

Entre os operadores de fake news encontramos mercenários criadores de conteúdo comercial ou político nas redes sociais; outros são agentes políticos convictos ou profissionalizados para defender pautas de movimentos e partidos; e temos os indivíduos e grupos brincalhões com pegadinhas realistas ou humorísticas, paródias, piadas e sátiras.

Há também os “trolls”, que criam histórias absurdas para criar confusão e, tristemente, encontram sempre quem concorde, se emocione e se interessem em divulgar as suas mensagens insidiosas e pérfidas. Alguns cretinos se engajam espontaneamente ou são recrutados para a vulgarização de posts, sites e vídeos fraudulentos entre os usuários das redes sociais.

Na sua maioria são “usuários comuns” das redes, contratados por empresas ou organizações políticas para espalhar desinformação e informações mentirosas sobre entidades, fatos, pessoas públicas, pesquisas científicas e projetos econômicos. O resultado obtido enaltece ou desmoraliza artistas, intelectuais e políticos e reforça campanhas publicitárias.

Há muita gente paga para fazer isto, mas a pior disseminação das fake news vem da inteligência artificial, o uso de robôs acionados à distância que realizam intervenções em massa. Estes “bots” (diminutivo de robôs) conhecidos nos meios de dissimulação no webinário (“web-based seminar“) como Internet bot ou web robô, simulam a atuação humana padronizada e repetidas vezes.

Aí reside o perigo ameaçador de conquistar adesões, principalmente agora, iniciando-se sub-repticiamente ou burlando a vigilância do TSE, está nas redes sociais a campanha eleitoral polarizada entre os dois maiores grupos divulgadores de fake-news. Os bots e robôs de carne e osso vêm ensaiando desde 2014, e foram usados massivamente em 2018.

Para enfrentar a desinformação e a salvação da Democracia nas próximas eleições, o TSE criou em 2019 o Programa de Enfrentamento à Desinformação; e no Congresso parlamentares patriotas enfrentam os criminosos defensores da fraude.

Assim o País se mobiliza para combater e penalizar as notícias falsas contumazes dos agentes populistas de direita e de esquerda; e revoltante é haver estúpidos nas redes sociais defendendo embustes e mentiras como fossem “liberdade de expressão”. Só camisa-de-força.

 

 

 

 

SEMPRE

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Há duas palavras que não se podem usar: uma é Sempre; a outra é Nunca” (José Saramago)

No universo esquizofrênico do fanatismo, a mistura de fantasia e realidade dá o caldo da estupidez. Recentemente, ao surgir o escândalo do pastoril bolsonarista no Ministério da Saúde, apareceu como defesa da cumplicidade do capitão Bolsonaro com os parceiros propinistas a expressão: – “Sempre se fez assim”.

Muitos dos que votaram no Presidente, votaram porque ele prometeu que não seria sempre assim. Mentiu, e se revelou um mitômano incurável. Dizia-se contra o Centrão, falando pela boca do fantoche general Heleno, defendeu a Lava Jato nomeando Sérgio Moro para a Justiça e nos primeiros comentários sobre as rachadinhas dos filhos falou “se fizer merda, pagará”.

Hoje assume ser do Centrão com a concordância de Heleno; é contra qualquer investigação sobre corrupção, e troca delegados da PF para defender a “Famiglia”, comprometida até o gogó com as rachadinhas.

Vergonhoso é o caso a Wal do Açaí. Denunciada como funcionária fantasma no gabinete de Bolsonaro quando deputado em Brasília, ele jurou em cruz que ela cumpria os deveres regulamentares; agora que ela assumiu nunca ter ido à Brasília, p Mitômano se desmente “assumindo” a delinquência. Mas se justifica dizendo ser uma prática comum na Câmara Federal.

“Sempre se fez assim”. O filósofo grego (323 a.C.), Diógenes – O Cínico – andava pelas ruas de Atenas em pleno dia com uma lanterna na mão dizendo que procurava “a verdade” ou “um homem honesto”…. Hoje no Brasil, religiosos bolsonaristas andam com uma Bíblia padronizada atrás de propinas.

Bolsonaro defende os lobistas corruptos da Educação acumpliciando-se com eles, e conta com o apoio cego dos cultuadores da sua personalidade. É pena ver-se entre estes baba-ovos pessoas alguns com formação acadêmica. A reação vem somente dos que se assumiram em oposição diante deste desmando.

Combater os repetidos escândalos nos alvos mais críticos do destino nacional, primeiro na Saúde e agora na Educação, é prova de verdadeiro e corajoso patriotismo.

Lembre-se que Buda lutou contra a estupidez formalista dos Brâmanes; Jesus Cristo atacou vigorosamente os escribas e fariseus hipócritas e Martin Luther King foi imolado por defender os direitos civis.

Nenhuma destas figuras históricas fez o que sempre se faz…. E para a Federação Única da Idiotia, a palavra Sempre tem o sentido de eternidade; usam-na como continuadamente, repetidamente, reiteradamente, perpetuamente.

Como verbete dicionarizado, a palavra Sempre, é gramaticalmente múltipla; aparece como advérbio, conjunção coordenativa adversativa e substantivo masculino de origem latina, “semper”. Significa tudo que se refere ao tempo: durável, contínuo, duradouro, eterno, infindável, longevo, perdurável, perene, permanente, prolongado e perpétuo.

Sobre tal definição de Sempre há controvérsias: uma é do português Saramago, meu epigrafado, impedindo o seu uso; outra é de Pittigrilli, escritor ítalo-argentino que lhe deu o sentido de mudança: – “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre”.

Que tal, se por licença poética usássemos a palavra Sempre como mutável, no caso dos escândalos ministeriais de Milton Ribeiro e seus pastores? É fundamental se lhes diga que em nenhum momento é possível implantar-se um sistema educativo inclusivo vendendo bíblias, construindo templos e cobrando ouro por liberação de verbas…

Bolsonaro em vez de ouvir Michele, para quem o pastor Milton Ribeiro é um santo, precisa aprender os antônimos de Sempre: Nunca, jamais.

 

 

 

 

 

ENTREVISTA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Quando uma religião começa a dominar, tem como adversários os que foram seus primeiros adeptos” (Nietzsche)

Novelista de imaginação fabulosa, o escritor ítalo-argentino Pitigrilli trouxe na sua literatura de ficção um jornalista que entrevistou Deus; a crônica mostra que este apareceu à meia-noite no quarto do repórter assustando-o.

Vou parodiar a historieta, criando outra personagem de jornal que recebeu também a mesma visita. E ouviu do madrugante que revelou:  – “Sou Deus”, disse, desfazendo a dúvida do sonolento jornalista, revelando pelo semblante a incerteza da identidade do personagem, e falou: – “Aparecendo a essa hora acordando-me abruptamente, não preciso conhecer Teologia para presumir que és o Diabo”.

– “Não importa o que pensas de mim; quero ser entrevistado como o Deus que está na Bíblia, aquele que transformou a mulher de Lott em estátua de sal, que mandou as sete pragas para o Egito, fez da vara de Aarão uma cobra e castigou com conjuntivite a Santa Genoveva pela curiosidade olhando pelo buraco da fechadura”….

Assim, o jornalista se sentiu mais seguro e disse: – Concordo, mas pensava que Deus teria outra maneira de se apresentar…” E foi de pronto replicado: – Querias que eu me revelasse como uma sarça ardente, como fiz com Moisés? Fez uma pausa e repetiu: -“Quero ser entrevistado, tu serás uma pessoa que falou com Deus”.

Pegando passivamente caneta e papel, ouviu do hóspede inesperado: – “Venho de público lembrar às pessoas que me pedem uma ajuda pessoal para esquecerem isto; tenho milhões de sistemas universais para cuidar e não me é possível ajudar ninguém a ganhar na loteria ou resolver casos conjugais ou solucionar problemas com um cano furado…”

Este introito basta para certificar-nos de que este não era o Diabo, mas o Deus das pessoas inteligentes como Spinoza, que se refere ao Altíssimo como a “Alma do Universo” e que Einstein afirmou não aceitar um deus que se preocupe em atender necessidades pessoais….

Assim, uma criação imaginária ganha força de argumentação para as pessoas que não pagam a fraudadores que se apresentam como intermediários entre o crente e Deus; e levam ao evangelho de Mateus (VII,6): “Não deis coisas santas aos cães e não lanceis pérolas diante dos porcos, com medo que pisem nos nossos pés ou se voltem e vos despedacem”.

Na sua fantástica herança intelectual, o pastor autêntico Martin Luther King nos esclareceu alertando que:  – “A religião mal-entendida é uma febre que pode terminar em delírio”; e presume-se que seja o que ocorre no círculo íntimo da Família Bolsonaro ao defender o pastoril corrupto do Ministério da Educação.

Deixa-nos dúvidas se é realmente incompreensão ou cumplicidade. O ouro reluz nos olhos ávidos de quem praticou a rachadinha e recebeu cheques de origem suspeita e sem uma explicação lógica; talvez por isso assistimos o capitão Bolsonaro defender o ministro Milton Ribeiro e os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, que indicou e sustentou no Ministério.

Foi criminosa a ação de lobistas para liberar verbas federais como foi crime mantê-los e acumpliciar-se com eles: está no Código Penal como formação de quadrilha. Para tirar o corpo fora, Bolsonaro agora “joga no mato” (como se diz no Sertão) seu Ministro.

Poderia ter sido antes, pois Ribeiro perdera há muito o apoio da ala militar, da maioria do Centrão e de parte do seguimento evangélico; ficou mais tempo porque não passava de um fantoche.

Há quem tenha se revoltado mais com a foto na Bíblia do Pastor-Ministro do que com as propinas; mas o que a Cidadania exige é honestidade dos ocupantes do Poder. Para os hipócritas, Nietzsche tem um recado: – “Quando colocamos a verdade de cabeça para baixo, geralmente não notamos que também nossa cabeça não se acha onde deveria estar”.

Bertolt Brecht

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

BOCAGE

O Leão e o Porco

O rei dos animais, o rugidor leão,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.
Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria,
Soltavam contra ele injúria sobre injúria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:
«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!»
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
Não há poder algum que mude a natureza:
Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.

Bocage, in ‘Fábulas’

ESCÂNDALOS

MIRANDA Sá (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“A palavra escândalo caiu em desuso no Brasil, porque nada mais escandaliza o brasileiro”  (@HugoAg0go)

Eu não consigo, desde a adolescência, compactuar com os políticos corruptos que assolam o País desde aquele tempo; foi por isto que me alegrei com a chegada da Lava Jato e o processo de perseguição aos corruptos e a prisão do ex-presidente Lula.

Continuo me escandalizando, e ficou atravessada na garganta minha revolta contra a aliança dos corruptos e os garantistas do STF para anular as sentenças do ex-juiz Sérgio Moro, do TRF4 e das investigações do MPF e PF contra a corrupção dos governos lulopetistas.

Revolta ainda mais ver-se o próprio TSJ (que também sentenciou o corrupto Lula da Silva à prisão), condenar o procurador Deltan Dallagnol a pagar indenização para o Pelegão “por danos morais”…. Dallagnol, que investigou e comprovou a delinquência do ex-presidente, passou a ser culpado pela denúncia feita.

Com Lula livre, leve e solto, assistimos agora o remake do filme policial em que foi personagem. É a película “CORRUPÇÃO – O RETORNO”, mostrando o general Braga Neto na Casa Civil atuando com o capitão Bolsonaro em favor de um projeto de lei favorável à Associação Brasileira de Clínica de Vacinas – ABCEVAC – contratante com a Precisa Medicamentos para fornecer a vacina indiana Covaxin.

Sem desmentidos do Governo Federal até hoje, Bolsonaro e Braga Neto assumiram o compromisso de comprar 20 milhões de doses da Covaxin de ‘facilitadores políticos’ que iriam receber ‘comissionamentos’ na transação.

Deu-se desta maneira, segundo a CPI da Covid, o mais-que-perfeito esquema de “rachadinhas oficiais” na gestão do general Pazuello, cercado de militares à frente do Ministério da Saúde.

Noutro escândalo, é impossível negar que Pazuello negociou pessoalmente a compra da vacina Coronavac de intermediários amigos da família Bolsonaro por quase o triplo do preço negociado pelo Instituto Butantan.

É impressionante constatar-se que enquanto o povo necessitava de vacinas para enfrentar a pandemia, os responsáveis pelo Governo Federal se preocupavam em extrair propinas; um verdadeiro escândalo.

À época, um editorial do Estadão foi incisivo: “ À medida que as investigações da CPI da Covid avançam no Ministério da Saúde, vêm à tona indícios não de sistema sofisticado de fraudes, mas de trambique, mutreta, picaretagem, tramoia. ”

No roteiro das cenas revoltantes, observa-se o paradoxo entre clarinadas de honestidade (noves fora as rachadinhas e cheques de Queiroz para Michele) e a realidade. Faz-se sob o silêncio da tropa bolsopetista, felizmente reduzida aos que se degeneraram pelo fanático culto à personalidade do capitão Bolsonaro.

Chegando aos anos 2022, o filme “CORRUPÇÃO – O RETORNO”, recém lançado no auditório da política, mostra reuniões de um gabinete paralelo no Ministério da Educação coordenadas pelos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, sem vínculos com a pasta, mas controlando empenhos de R$ 9,7 milhões.

Além de tudo, até pedidos de barras de ouro, estes “lobistas religiosos” controlam “em nome de Cristo” a agenda do ministro Milton Ribeiro apoiados pelo capitão Bolsonaro, segundo o próprio titular da Pasta em vídeo amplamente divulgado.

O Ministro, justificando-se, diz que obteve com seus parceiros uma ótima taxa de agilidade na liberação de verbas de repasses federais. Fora dos padrões, se o prefeito “colaborar”, tem 18 dias para a grana chegar.

Neste imbróglio aparece disfarçadamente o dinheiro público destinado para construção de templos. Deste modo crescem os escândalos no Governo Bolsonaro, que joga na lata do lixo a ética e a honestidade.

Pela atual inversão dos valores, juízes, policiais e procuradores vacilam em entrar nesta briga temendo ser condenados por denunciar a corrupção, como fez o STJ dando ganho de causa ao corrupto Lula da Silva punindo o procurador Deltan Dallagnol que o denunciou.

 

 

 

Antero de Quental

Nirvana

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro – é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

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O DIABO

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

       “O Diabo se empenha em nos dominar nas pequenas coisas para nos enfraquecer” (São Vitor)

O nosso epigrafado, Vitor, santo católico nascido na Sicília viveu à época dos imperadores romanos Diocleciano e Maximiano e das perseguições aos   cristãos. Morreu como mártir da Igreja, e, se não me engano, é padroeiro da cidade de Praga.

Em vida, São Vitor pregava a palavra e os milagres de Jesus Cristo, e principalmente o enfrentamento d’Ele com o Diabo, expulsando a Legião de demônios que dominavam um pobre homem.

Foi talvez o primeiro pregador evangélico a ilustrar o episódio do Cristo de não se deixar seduzir pelo Diabo, conforme Lucas expôs: – “… E o Diabo mostrou-Lhe num instante do tempo todos os reinos do mundo e disse-Lhe:  ‘Tudo será teu se me adorares’; e Jesus respondeu irado: – ‘Vai-te, Satanás; porque está escrito: – ‘Adorarás o Senhor Deus e só a ele seguirás’.

Reconhecendo a existência do Diabo, a Bíblia diz: – “… E isso não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz. Portanto, não é nada demais que os servidores dele se disfarcem, apresentando-se como pessoas que fazem o bem. (2 Coríntios 11:14-15).

Isto suscita uma pergunta importante:  Por que Deus criaria Satanás, um diabo ‘ruim’ (o nome significa ‘sedutor’) para corromper a humanidade? Deus prometeu a redenção no início dos tempos segundo Abraão e através de Moisés; e realizou com a ressurreição de Jesus.

E o que encontramos nos textos bíblicos é que o Diabo, ao contrário, faz tudo para enganar as pessoas negando as promessas divinas e as impedir de entrar no reino dos céus para se apossar das suas almas.

Pouco informado, não sei como os atuais teólogos católicos, cismáticos e evangélicos têm abordado a existência do Diabo, embora constate que esta figura sinistra se faz presente no imaginário dos sectários cristãos de todas igrejas.

O povo em geral vê o Diabo como um ente do mal. Sua referência aparece em não-sei-quantos sinônimos; dicionários de gíria e termos populares registram anjo mau, ardiloso, belzebu, canhoto, capiroto, cão, chifrudo, cornudo, demônio, lúcifer, maldito, maligno, malvado, satanás, tinhoso…

É corrente também o crédito nas possessões. De vez em quando aparece alguém com o diabo no corpo, situação reconhecida por todas as denominações cristãs ao manter padres e pastores exorcistas e que é explorada cinematograficamente…

Conforme é fácil ver-se, há muitos endemoniados entre os políticos brasileiros, que reconhecemos pela atuação eleitoralista junto às igrejas e na proliferação de sacerdotes políticos atuantes nos poderes republicanos.

Numa viagem do ministro-pastor Milton Ribeiro revelou-se um diabólico esquema de corrupção através do também pastor Gilmar dos Santos, que assegurou ao Prefeito do Município ser o responsável por garantir verbas para prefeituras. Também não se sabe se é Deus ou o Diabo em nome do qual foi criado um “gabinete paralelo” no Ministério da Educação.

Sabíamos e acompanhamos os desmandos ideológicos da ala direitista mais radical no Ministério do Governo Bolsonaro, mas ignorávamos que esta Pasta sofrera a ocupação de um grupo capitaneado pelos pastores Gilmar Silva dos Santos e Arilton Moura. E que com isto se explica que a agenda do Ministro-Pastor seja feita pelos colegas sem vínculo formal com o órgão.

Como sou cismado, me pergunto se esta situação acolhe “mercadores” como aqueles que Jesus expulsou do Templo chicoteando-os. Sei que muitos sacerdotes das mais diversas religiões e seitas “cobram” uma falsa intermediação com Deus; mas é a primeira vez que vejo atuarem com lobistas repassando verbas públicas. Esta revelação que vem de uma reportagem do Estadão, é revoltante.

Veio, porém, em boa hora. Mostra que as transações feitas pelos lulopetistas nos governos de Lula e Dilma sobrevivem no Governo Bolsonaro comprovando a existência do “bolsopetismo”, que iguala os populistas de esquerda e de direita nas trilhas obscuras da corrupção.

Tenho certeza que esta gente sabe de cor passagens dos livros do Pentateuco, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, mas não conhecem Shakespeare: – “O diabo pode até citar as Escrituras quando isso lhe convém…”.