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SENTENÇA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem” (Epicuro)

Como cultuador da História da Humanidade sei que ao longo do processo civilizatório juízes de todos os tipos acertaram, mas também erraram, aplicando sentenças à luz da legislação vigente nos seus países, à sua época. Sobre isto um antigo humorista se manifestou, dizendo: – “ Absolvição, condenação… São apenas palavras. ”

Vejamos os mais notáveis julgamentos do século passado, a partir da ascensão fascista, com a instalação por Hitler, na Alemanha, do “Volksgerichtshof” – Tribunal Popular -, que aplicava a “justiça penal nazista” violando os direitos e garantias individuais para condenar os opositores do regime e que considerava crimes raciais que impediam a purificação da raça ariana.

Tivemos os conhecidos “Julgamentos de Moscou” dos anos de 1936 a 1938, um espetáculo internacional que Stálin utilizou para condenar os seus adversários confessando publicamente seus crimes, após torturas e lavagem cerebral.

Após Segunda Guerra, assistiu-se a instalação do Tribunal Militar Internacional para julgar o alto escalão nazista por crimes de guerra e contra a humanidade, praticando a justiça que os povos com forte sentimento antinazista exigiram.

No mundo ocidental, países auto assumidos como democráticos, EUA, França e Inglaterra, também realizaram “julgamentos públicos” para afastarem inimigos políticos internos e unificar a ideia do que é socialmente aceitável para o país.

A revolução de Fidel Castro em Cuba, que abalou a América Latina, instalou um Tribunal de Exceção que proferiu sentenças levando centenas de cubanos ao fuzilamento num ritual chamado “Paredão”.

Junto aos “inimigos da revolução” houve condenações de homossexuais e exílio de judeus. Inquirido sobre isto em 1959, Che Guevara disse que não era preciso provas para condenar: – “Eu só preciso saber que é necessário executá-lo!”.

No Brasil de hoje, vivendo o “Estado Democrático de Direito”, a sentença segue o artigo 162, § 1º, do Código de Processo Civil Brasileiro definindo-a como ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts. 267 e 269 da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973.

A palavra “Sentença” é um substantivo feminino de etimologia latina, “sententia,la”, derivado do verbo “sentio/sentire” (sentir); e em português, como expressão que contém um sentido geral, é adágio, brocardo, ditado e máxima; e, no sentido de decisão: é acórdão, arbítrio, julgamento e veredito.

Do ponto de vista jurídico é uma decisão ou solução dada por um magistrado a toda e qualquer questão submetida à sua jurisdição; e, no campo do pensamento, uma frase lapidar que contém um provérbio de valor moral.

O juiz que conquista a admiração e o respeito dos seus contemporâneos é aquele que profere sentenças abalizadas, diretas e independentes. O exemplo fulgurante do passado é do Rei Salomão, cujas sentenças são até hoje consideradas lições de Justiça.

Tem uma história, não sei se foi extraída dos textos místicos judaicos ou das ricas metáforas muçulmanas, que me encantou quando eu era estudante de Direito: Numa festa de aniversário do rei Salomão, o seu povo lhe encheu de presentes: os ricos lhe deram joias, espadas preciosas, candelabros de ouros e especiarias raras; os demais trouxeram-lhe sedas, turbantes e animais exóticos.

Então chegou-se uma formiga carregando uma patinha de gafanhoto. Os cortesões provocadores perguntaram-lhe: – “O que é que Salomão vai fazer com isto? ”. E a formiga respondeu: – “Bem sei que a minha dádiva não está à altura do Grande Rei, mas é tudo o que lhe posso dar…”

É o meu caso. Não sei como posso contribuir com as minhas críticas aos poderosos juízes do Supremo Tribunal Federal, mas os meus recados são a única coisa que lhes posso oferecer. Hoje, lembro-lhes uma lição de François Guizot: “Quando a Política adentra no recinto dos tribunais, a Justiça sai por outra porta”.

A IDEIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“As ideias que criam, as ideias vivas que elevam religiões e impérios, gênios e heróis e mártires e santos…”  (Raul de Leôni)

Até pouco tempo a palavra Ideia vinha com acento agudo no “e”, e por causa da nova ortografia da língua portuguesa, despiu-se do sinal gráfico, mas continua sendo o mesmo substantivo feminino de origem grega, “idéa, as”, aspecto exterior, aparência, forma, maneira de ser; e do latim, “idĕa, ae”, forma original, imagem, noção.

Refere-se na linguística a representação mental de alguma coisa: conceito, concepção, pensamento, percepção, proposta, reflexão, sugestão…   É vasta a sua sinonímia, conforme o arbítrio do pensador.

Gosto muito da definição “ponto de vista”. O meu acompanha o de Victor Hugo, que analisando a realidade política da sua época, escreveu: “Nada é mais poderoso do que uma ideia que chega no momento certo”.

Sem dúvida. A História – que como as cartas do baralho cigano não mente jamais – registra no século seguinte a explosão das ideias totalitárias na Europa com a revolução russa e o surgimento do fascismo e do nazismo, contando com largo apoio à época.

Como as ideias vêm e vão, foram enterrados o fascismo com o cadáver do seu líder Benito Mussolini pendurado num gancho de açougueiro; o nazismo no bunker de Hitler, e o stalinismo sob os escombros do Muro de Berlim.

Não foi por acaso que uma ideia sobreviveu no Ocidente além às tormentas causadas pela 2ª Guerra Mundial: a Democracia, que o seu arauto após o conflito, Winston Churchill, definiu como “A Democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos…”.

Certifica-se, entretanto, que além da volta de doenças que pareciam extintas, graças à profilaxia implementada pelo avanço da Medicina, assistimos, também, o retorno das ideias malignas que aterrorizaram o mundo no século passado.

Felizmente, as liberdades democráticas conquistadas sob a consigna da revolução francesa, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, atraem mais gente do que as filosofias que negam a livre expressão do pensamento.

No nosso brasileiro, a ideia viva que o consciente coletivo do nosso povo eleva, é perseguir o fim da corrupção que foi institucionalizada nos governos petistas de Lula e do seu mamulengo, Dilma. Ele, para nossa satisfação, está preso e responde ainda por vários processos de corrupção praticada no seu governo; ela continua solta, escorregando entre os dedos dos investigadores e blindada por alguns procuradores.

A ideia nacional de apoio à Operação Lava Jato para extirpar o câncer nascido no organismo nacional, com metástase nos três poderes da República, passou agora por um teste no Congresso Nacional.

Tentando desmoralizar o ministro Sérgio Moro – paladino da luta contra o crime organizado e a corrupção –, parlamentares investigados pela Lava Jato e seus cúmplices, retiraram o Coaf do Ministério da Justiça.

Estes traidores do eleitorado pensaram em fazer o mal, mas sequer arranharam o verniz do esquema lavajatista que o Ministro representa no Governo Bolsonaro. Primeiro, porque terão que ganhar o plenário das duas casas do Congresso; segundo, porque, se mantida a decisão, o ministro Paulo Guedes, da Justiça, já se comprometeu a manter o comando indicado por Moro para o órgão.

Com relação à opinião pública, os inimigos da ordem e do progresso não desencantaram os brasileiros; pelo contrário, mostraram-se expostos a sua atividade corrosiva contra o Brasil ético. Os nomes estão anotados.

 

 

 

 

 

 

FANTASMAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A coragem que afugenta os fantasmas cria seus próprios duendes: a coragem quer rir”
(Friedrich Nietzsche)

Charles Dickens, um dos mais populares escritores ingleses de todos os tempos, deixou-nos clássicos da literatura mundial como “David Copperfield”, “Oliver Twist”e “Christmas Carol”. Este último é uma história de fantasmas.

Dickens com religiosidade anglicana, traz no seu “Um Conto de Natal” o personagem inesquecível de um velho avarento, Ebenezer Scrooge, milionário ganancioso e mesquinho, que despreza o Natal ignorando os que trabalham para si.

Descrevendo a realidade da penúria reinante na Londres dos anos 1800, a narrativa cerca Scrooge pela presença de três fantasmas de Natal, do passado, do presente e do futuro. Eles encenam a sua presença da maior data da cristandade obrigando-o a refletir sobre a sua presença no mundo, encerrando com a sua morte futura, sozinho, sofrido e abandonado, recebendo, porém, a solidariedade dos que desprezava.

Fantasma, na crença popular, é o espírito de uma pessoa ou animal mortos que aparecem de maneira visível ou por outras formas de manifestação aos vivos. Há os que invocam a sua presença em sessões espíritas ou missas negras.

Vem de longe esta crença e sua prática, originando-se no animismo ou veneração dos mortos em culturas pré-históricas, e ainda é comum através da realização dos exorcismos levados a efeito por sacerdotes católicos e pastores evangélicos.

Dicionarizada, a palavra “Fantasma” é um substantivo de dois gêneros, originário do grego “fántasmaatos” e do latim “phantasma, atis”, significando aparição de pessoa morta e/ou objeto assustador, disforme ou demasiado grande.

A gente ouve tantas histórias de fantasmas, de casas mal-assombradas, aparecimento de sombras em lugares ermos e de vozes cavernosas tentando se comunicar, que termina desconfiando da existência de figuras além da imaginação…

Temos na cena política muita fantasmagoria. Outro dia, o presidente Jair Bolsonaro lembrou e condenou a volta do espectro narcopopulista que ronda a nossa vizinha Argentina pela ameaça da volta da corrupta Cristina Kitchener.

O segundo fantasma é o STF, que por uma minoria inimiga da Lava Jato ameaça voltar atrás nos avanços conquistados na luta contra a corrupção no País; jamais se esperou que – pela sua formação – que sozinho enfrentasse o sistema corrupto da política, mas nunca se duvidou que cumprisse a Lei.

Assombra-nos o terceiro fantasma, um retrocesso que se avizinha da sociedade brasileira, a volta da censura atentando contra as liberdades democráticas. Está ativa uma policialesca investigação contra participantes das redes sociais que criticam alguns togados e protestam contra o comportamento do ministro Dias Toffoli.

Para não ficar atrás desta maneira sórdida de ferir o Estado de Direito, decretando uma espécie de ditadura do Judiciário, alguns parlamentares – na sua maioria comprometidos com casos de corrupção – sugerem a formação de uma CPMI para “apurar” o uso das redes sociais para disseminar “ofensas” contra “autoridades”, tudo entre aspas…

A gente vê com tristeza e revolta que essas aparições assombram mais quando encontram imagens semelhantes na periferia do governo, influenciando e ameaçando a administração pública com desrespeito aos militares, que conferem ao presidente Jair Bolsonaro a base da confiança nacional.

Estes fantasmas estão se materializando, “sem a luz que flui dos seus corpos transparentes” como lhes descreveu o poeta Raul de Leoni; mas, felizmente, ainda não representam uma ameaça porque seu ectoplasma se mantem em estado bruto…

… E enfrentam, com certeza, a força do povo brasileiro que foi responsável pela eleição de Bolsonaro, e agora vai exorcizá-los todos, para rir no final!

 

 

 

 

GUERRA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A guerra nada mais é que a continuação da política por outros meios”.(Clausewitz)

Nas redes sociais, onde tudo se comenta, fala-se do tempo complicado que atravessamos enfrentando uma guerra cibernética onde os mais audaciosos se assemelham a robôs com smarthphones na mão.

Outro dia, no Twitter, encontrei um exemplo disto, com alguém confundindo o “centrão” dos picaretas da Câmara, com o Centro Democrático. Assim não dá para alimentar um debate…

Então a minha tristeza diante disso levou-me a uma citação do atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, num artigo que escreveu no ano passado. Parodiando Joaquim Nabuco, Moro disse que “existe uma esperança infinita de que os dias dos barões da corrupção chegarão ao fim, cedo ou tarde”.

Troquem os “barões da corrupção” por “barões da escravidão” e terão a frase original do grande pernambucano Nabuco, um político exemplar, diplomata, historiador e jurista que participou das lutas abolicionistas, com antológicos discursos em favor dos escravos; e, com Rui Barbosa, defendeu a liberdade religiosa no Brasil, a separação entre Estado e Religião e a laicidade do ensino público. Fundou, com seu grande amigo de Machado de Assis a Academia Brasileira de Letras.

Vê-se que Freud bem explica ao dizer que “o caráter de um homem é formado pelas pessoas que escolheu para conviver”. Então não se precisa fazer louvaminhas a quem teve ao seu lado Machado e Rui.

Sempre de olho na História, voltando-me ao passado, quando o amor à Pátria estava acima das ambições pessoais, vejo muitos políticos de hoje, representantes do sistema narcopopulista que institucionalizou a corrupção, e declaro guerra.

“Guerra” é um substantivo feminino originário do alemão antigo, “werra”, luta, discórdia. Conquistou as línguas neolatinas, como o português – “a última flor do Lácio”. O “bellum,i” romano, foi só aproveitado nas palavras, bélico, belicismo, rebelde e rebelião.  

Como verbete dicionarizado, entre outros significados, “Guerra” traz a definição de qualquer combate com ou sem armas. E é sem armas, só com palavras e dentro dos princípios democráticos que quero guerrear para extirpar o câncer da corrupção entranhado no organismo nacional.

Para iniciar o meu combate mapeei os pontos de degeneração da administração pública municipal, estadual e federal. Já tiveram muita coisa revelada no Mensalão, e na esteira desse esquema criminoso, veio também a Operação Lava Jato.

Assim, luto ao lado do lavajatismo, onde a tática do ataque é a defesa da aplicação da Lei e da ação da Justiça contra o uso dos interesses pessoais dos agentes públicos, que tivemos na atividade deletéria de Lula da Silva e de Dilma Rousseff praticando o “modo petista de governar”.

A Lei, como diz Sérgio Moro repetidamente, deve valer para todos, e o “ativismo reside na estrita aplicação da Lei, mesmo contra interesses especiais”. Estendendo este pensamento, Moro conclui que “No Brasil, tal postura é revolucionária”.

É acreditando que defender a Lei e que os barões da corrupção chegarão ao fim, que movo a guerra revolucionária, sem conceder a trégua que fortalece o inimigo, como ensinou Sun Tzu.

Acredito na peleja permanente para evitar sabotagens, sem recuar na marcha batida contra as escaramuças dos corruptos e dos seus cúmplices, ainda entrincheirados em vários setores da administração pública.

 

 

Octavio Paz

VENTO, ÁGUA, PEDRA

A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.

O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.

O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.

Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.

Cruz e Souza

LIVRE!

Livre! Ser livre da matéria escrava,
Arrancar os grilhões que nos flagelam
E livre, penetrar nos Dons que selam
A alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
Dos corações daninhos que regelam
Quando os nossos sentidos se rebelam
Contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
Mais junto à Natureza e mais seguro
Do seu amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
Para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

EQUILÍBRIO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“É preciso que os poderes sejam separados e iguais para que o poder freie o poder” (Montesquieu)

Comentando os meus artigos sobre a Justiça, o arquiteto Willian Fagiolo, uma das brilhantes inteligências do Twitter, pediu-me um texto que alcançasse também os demais poderes do tripé republicano.

Isso levou-me a Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu, o filósofo iluminista, inspirador do enciclopedismo e precursor da Revolução Francesa, autor do conhecido livro “Do Espírito das Leis”.

Na sua obra, Montesquieu traçou vários princípios sobre formas de governo e o exercício da autoridade política. Dele, universalizou-se a sua teoria da separação dos poderes, que hoje é consagrada nas constituições de diversos países.

Entre os conceitos elaborados no “De l’esprit des lois”, sempre arrotado nos banquetes do andar de cima, é o que reza: “Não há liberdade se o Poder Judiciário não estiver separado do Legislativo e do Executivo”.

Alardeia-se isto pomposamente no Brasil; em latim, alemão, francês e inglês…, mas são poucos os ocupantes do Executivo, do Judiciário e do Legislativo que se prestam a respeitar o equilíbrio e a harmonia entre os poderes. E pior, tanto por negligência como por ambição, o banquinho governamental das três pernas tem sempre uma delas desnivelada e fica manco, deficiente.

Faz muito tempo que os três poderes não observam a disposição ordenada da República. Ao Congresso pode-se acusar, sem medo de errar, a queda de qualidade do coletivo a cada legislatura, desde a chamada redemocratização. Não é somente a falta de formação dos parlamentares, mas, principalmente, pela ganância de enriquecer com o mandato.

Traindo os seus eleitores, os congressistas se envolvem com lobbies, se misturam com empreiteiras e até com o crime organizado. Recentemente temos o exemplo do deputado Paulinho da Força, articulando abertamente contra a reforma da Previdência para sabotar o Governo Bolsonaro. Igual a muitos colegas do baixo clero da Câmara, sobra-lhe vigarice na mesma proporção em que lhe falta a virtude do patriotismo.

Não são poucos congressistas que se desviam do caminho do bem, ficando dependentes do “toma lá, dá cá” com o Executivo, vendendo o voto em projetos que representam o melhor para o País. Vemos agora, aqueles privados de força moral que ficam contra a Nova Previdência.

Do outro lado, desde a eleição indireta de Tancredo Neves e, pela morte deste, com José Sarney, o Executivo adotou a política de “resultados” e a distorção semântica da palavra “articulação”, para designar a compra da “governabilidade”.

Pensou-se que o impeachment de Fernando Collor daria um fim no ninho de vespas da corrupção. Que nada! Os escândalos não sofreram qualquer abalo e o modo corrupto de governar foi institucionalizado nos governos petistas de Lula da Silva e Dilma Rousseff, até com vendas de medidas provisórias, segundo Antônio Palocci.

Para não deixar totalmente o Judiciário de lado, registre-se que os gângsteres do Legislativo e os punguistas do Executivo sempre confiaram na impunidade ministrada por mal juízes, seus parceiros, seja pela procrastinação dos processos ou o seu engavetamento.

Diante deste quadro, vislumbrou-se uma reviravolta com a eleição de Jair Bolsonaro, fora do esquadro das forças dominantes, da mídia, dos sindicatos e dos partidos. Na Presidência, elegeu-se alguém que prometeu a mudança de tudo que revoltava o povo.

Dessa maneira, se espera que Bolsonaro faça ouvidos moucos ao aconselhamento tresloucado e divisionista da extrema direita, e assume o amor à Pátria demonstrado na campanha eleitoral, seguindo o que Montesquieu chamou de virtude política, a mola que faz mover a República e manter a Democracia.

 

 

 

POESIA

 

GEOGRAFIA

Sá Neto (1º/maio/2019)

 

(Ofereço ao professor

José Carlos Bortoloti )

 

Este sou eu, um cabo sem esperança

de formação vulcânica e de sonhos,

que pelo mar avança

 

No centro de mapa-múndi colorido

ergo-me sólido de ideias satânicas

sem alarido nem sentido

 

Enfrento decidido a fúria das ondas

mar adentro, e mitos do Amazonas

botos fantasmas e anacondas

 

Trago em mim a incandescência

do núcleo terrestre; piromaníaco

de verborreias e demência

 

Disponho-me a rasurar e rasgar

do mapa as distâncias, e assim

revelo a ânsia de avançar

 

Para desviar os rios Vermelho

e Amarelo, ilhas ignotas com

sereias e o seu espelho

 

Bombardearei o atol atômico

de Biquíni, no e nada Pacífico

hoje menos troponômico

 

Vou desabar no Ártico as geleiras,

cavalgando o vento Siroco, louco,

e brisas saarianas derradeiras

 

Sou levado pelos Alísios tropicais

equilibrando-me nos Contra-Alísios

das inversões equatoriais

 

Quero cavar fósseis em Bornéu,

antes dos arqueólogos da tevê

e distribuir catálogos ao léu

 

Acharei muitas tribos isoladas,

perdidas no verdejar amazônico

de mil e tantas tonalidades

 

Depois de tudo e finalmente

irei enfrentar tempestades,

ciclones, furacões, deidades

e tsunamis que não assustam

nem impedem os que surfam

sem tom, sem som, nem dom

de temer o Armagedon…

 

Carlos Drummond de Andrade

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante o amor.

  • Comentários desativados em Carlos Drummond de Andrade

POMPEIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Saudade da justiça pura, imaculada. Aquela que não olha a quem nem o rabo de ninguém. A que não olha o bolso também” (Rui Barbosa)

Temos um exemplo histórico que lembra Pompeia Sula, a segunda esposa de Júlio César, viúvo de Cornélia, falecida no parto de um filho natimorto. Casaram-se em 67 a.C., quando ele voltou à Roma após servir como questor na Espanha.

No tempo em que se estudava História, aprendia-se que César foi o conquistador das Gálias e instalou a ditadura, assumindo depois como imperador de Roma. Quando imperava, Pompeia realizou em casa um festival em homenagem a Bona Dea (“boa deusa”), onde nenhum homem poderia participar.

Disfarçado de mulher, um jovem patrício, Públio Clódio Pulcro, participou do evento sendo preso e processado por sacrilégio. Mesmo sem evidência, correu o boato de que ele se chegava a Pompeia no intuito de seduzi-la. César, porém, perdoou-o e ele foi inocentado.

Mais tarde, debaixo da boataria que chegava até as classes inferiores, o Imperador se divorciou de Pompeia sob o argumento de que “minha esposa não pode alimentar dúvida, nem estar sob suspeita”. Assim, legou à posteridade o provérbio “A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.

Os que me acompanham no Twitter sabem que respeito as opiniões divergentes, e como Voltaire, proponho-me a defender até a morte o direito alheio de expressá-las; mas adoto a tese de que “quem assume um cargo nos poderes da República não basta ser digno, mas deve assumir a dignidade”.

Isto vai do vereador, passando por todos cargos eletivos no Legislativo e no Executivo e ainda mais exigível aos magistrados das cortes superiores, de quem a sociedade espera que execute a justiça boa e perfeita, como os crentes esperam de Deus.

Vivemos, entretanto, uma época embaralhada. Lembro-me de que a ex-ministra do STJ Eliane Calmon, quando esteve na Corregedoria-Geral da Justiça Federal fez duras críticas ao STF, deixando o formigueiro corporativo da Justiça em polvorosa.

O então presidente do Supremo, o ex-ministro Cezar Peluso, tatuado pelo corporativismo, criticou a Ministra dizendo que tal declaração enlameava a honra dos magistrados…

Pela formação e índole, Peluso usou palavras corteses, deixando uma lição – ao meu modo de ver – que não repercute entre os seus sucessores catedráticos no plenário da Alta Corte de Justiça. Alguns não se preocupam com o aprendizado histórico preferindo cultuar a vaidade.

Um recente ataque, mais contundente do que o de Eliane Calmon, parte do ministro Luiz Roberto Barroso que em palestra na Universidade de Columbia (EUA), disse que o STF vive um momento de descrédito sob o ataque de grande parte da sociedade, porque alguns ministros atuam abertamente contra o combate à corrupção no País.

No ano passado, Barroso dissera que há gabinetes no Supremo “distribuindo senha para soltar corruptos”. Então foi recriminado, mas tudo ficou como dantes, com farta e repetitiva distribuição de alvarás de soltura para corruptos.

É triste constatar que mesmo diante dos protestos, temos togados insistindo na tentativa (inútil, numa Democracia) de divinizar suas personalidades. Blindam-se contra críticas, muitas vezes justas, e erguem altares que só convencem os sonhadores acadêmicos de Direito e (sempre) os advogados bajuladores que tiram proveito de relacionamentos suspeitos.

Infelizmente, nenhum instituto de pesquisa se atreve a fazer um levantamento sobre a avaliação popular da magistratura, particularmente dos togados; mas quem tem os pés no chão, anda de metrô ou ônibus, faz compras em supermercados, farmácias e hortifrútis, sabe muito bem.

O povo brasileiro, esclarecido pelas redes sociais, ainda não esqueceu a saga criminosa do juiz Lalau, nem o vergonhoso caso do juiz federal que após condenar um réu, foi flagrado dirigindo o carro de luxo dele, apreendido por sua ordem.

Esses exemplos foram ampliados agora com o atual presidente do STF, Dias Toffoli, promovendo repressão policialesca contra os seus críticos e atentando contra a liberdade de imprensa de forma totalitária e egocêntrica. Assim, rasga de vez a Constituição.