Arquivo do mês: junho 2024

DAS TRAPAÇAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

O filósofo florentino Niccolò di Bernardo dei Machiavelli, conselheiro de ocupantes do poder na antiga Itália dizia que “o objetivo da política era manter a estabilidade social e do governo a todo custo”; e alertava: – “Aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar”.

Maquiavel, como é mais conhecido entre nós, tinha razão em ambas colocações e no caso do enganador a sua afirmação tornou-se tão popular que o trapaceiro adquiriu o sinônimo de maquiavélico…

No dizer do fabulista, teólogo e advogado La Fontaine a Trapaça é uma “ciência” que atrai muitas pessoas a se especializar nela, e praticá-la. Dicionarizado, o verbete Trapaça é um substantivo feminino vindo da palavra latina Trapa, significando armadilha, e chega ao brasilês como cilada ou arapuca….

Encontramos corriqueiramente a designação de Trapaça para qualquer ação desonesta para enganar alguém, manobra astuciosa empregada para iludir. Leva-nos a constatar fraude, logro e má-fé.

Há quem considere a Astrologia uma pseudo ciência explorada por trapaceiros, mas esta alegação é desmentida por milhares de pessoas que creem nela. Um enorme balaio de personalidades históricas de épocas variadas, como Júlio César, papas medievais, Napoleão e, mais recentes, no século 20, Eisenhower e Hitler, consultaram astrólogos e acreditavam em horóscopos.

Contrariamente, temos o exemplo do general árabe, comandante do exército do califa Valid, que embora descrente, consultou um astrólogo; ouvindo que iria morrer em breve. Para esnobar o Consultor perguntou-lhe o que os astros diziam sobre a vida dele. Ouvindo-o dizer que teria uma vida longa, disse: – “Confio tanto no teu conhecimento dos astros que lhe quero sempre junto comigo doravante, peço-lhe, portanto, que me espere no além”; e mandou que o decapitassem.

Também incrédulo, o jornalista e escritor ítalo argentino Pittigilli escreveu uma crônica sob o título “Grafologia” considerada também como “ciência”, e também controversa. Exemplifica que um certo grafólogo respeitado por decifrar textos manuscritos e autógrafos, pedia apenas que classifiquem a autoria, se é masculina ou feminina.

O Cronista arrasa de cara tal situação, perguntando como saber do íntimo das pessoas se não sabe distinguir se a letra é de homem ou de mulher? E conta uma história que ocorreu na Itália levando ao grafólogo da polícia de Turin uma assinatura do maestro Toscanini, um dos mais aclamados musicistas do século passado.

O reconhecido desvendador de crimes julgou que a letra revelava indisciplina, inconstância e escassa sensibilidade. Imaginem faltar sensibilidade e disciplina de Toscanini, que certa vez disse a um oboísta: – “Cuidado, no ensaio da terça-feira passada, você omitiu uma pausa de fusa no quinto compasso!”

As ciências pouco científicas que se propõem explicar as ocorrências e acidentes vitais de um indivíduo ou decifrar futuras ocorrências são usadas por pessoas espertas, de quem se pode esperar qualquer ação ardilosa.

Mesmo sem ter lido os livros de autores clássicos, a gente pode citar seus aforismos, anedotas, frases e pensamentos divulgados à larga pelo Google, assim temos do erudito chinês Lu Wen Liang a passagem da mais criminosa trapaça conhecida, contando a história de um poeta que se tornou inimigo figadal de um cortesão levando-o a publicar um livro em pergaminho com uma denúncia contra o Crítico e enviou-lhe uma cópia impregnada de veneno, sabendo que ele costumava umedecer os dedos com saliva para folhear as páginas.

E o desafeto morreu antes de terminar a leitura. Isto ocorreu há novecentos anos. Hoje, manobras trapaceiras podem até ser legais, de Estado e de Governo, podendo ser aplicadas ao gosto dos ocupantes corruptos do poder.

Como exemplo, uma dupla trapaça aparece no cenário da tragédia climática ocorrida no Rio Grande do Sul. É do conhecido presidente Lula da Silva diante da hostilidade popular contra si.

Ouvindo o seu Goebblels (ao acordar) passou por cima do Agro, da legalidade e da opinião pública, resolvendo importar um milhão de toneladas de arroz, uma trapaça que se somou a outra, empacotando o produto com propaganda governamental.

O personagem brasileiro enriquece dessa maneira a sinonímia de trapaça, blefando, burlando, enganando como fez nos governos anteriores.

PABLO NERUDA

ODE AO GATO

 

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de ouro.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

DAS MEDIDAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Lembro do tempo em que o alfaiate tomava a medida das pessoas e fazia um terno; e outro profissional tão antigo e, como o alfaiate, quase desaparecido, o chapeleiro, fazia um chapéu sem sequer conhecer o cliente, apenas com dados da cabeça dele.

Também o psicólogo – tira a medida do que está no interior do crâneo, revelando pelos medidores freudianos ou junguianos, verdades desconhecidas até pelo paciente…

Como verbete dicionarizado, “Medida” é um substantivo feminino de origem latina, particípio passado de Metire, “medir”. Define-se como uma determinada quantidade para avaliar dimensões ou frações mensuráveis.

Para medir grandezas físicas temos instrumentos, as unidades de medida que são: para o comprimento: metro (m), para a massa: grama (g) e para o volume: metro cúbico (m3).

Para quantificar a percepção humana, Platão nos trouxe um enunciado de Protágoras, filósofo e matemático grego, criador da corrente de pensamento conhecida como pitagorismo: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são como são e das que não são como não são”.

Isto induz que se uma pessoa pensa que uma coisa é verdade, tal coisa é a verdade para ela; serviu de base filosófica para o dialeta materialista Heráclito, defensor de que o conhecimento humano pode ser alterado conforme circunstâncias mutáveis.

Heráclito formulou como exemplo que “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não encontra as mesmas águas, e o próprio indivíduo já se modificou”.

Da sabedoria grega antiga concluímos que o ser humano tem o poder para determinar o valor ou significado das coisas, criando a sua própria realidade. E assim possuímos a  representação cultural de medidas políticas. Com elas temos a formação dos governos autoritários dispondo restrições e controle para a cidadania.

Com referência a estes critérios, sabemos que tais ações provocam reação dos defensores da liberdade de expressão que assumem nas redes sociais a luta contra a censura que o Governo Lula e seus sabujos no Judiciário e Legislativo tentam implantar.

Pela contradição no exercício de suas funções o Supremo Tribunal Federal, inoculou-se com o vírus da lerdeza coletiva, do interesse pessoal e permitindo a entrada da política no Tribunal, expulsando de lá a Justiça boa e perfeita.

É inegável que com isto fica escancarado o problema das decisões monocráticas. A questão é tão chocante que se põe à frente dos privilégios gozados pela magistratura – A mais cara do mundo –, e mantém nela um comportamento leniente enfermiço diante do crime e dos criminosos.

A febre do autoritarismo está a serviço dos aspirantes de uma “Democracia Relativa” com tremores doentios que levam um ministro do STF a dizer que as redes sociais não têm regulamentação. Ele ignora por falta de estudo ou acumpliciado com o totalitarismo, que já temos o Marco Civil da Internet, permitindo que qualquer juiz peça a retirada do conteúdo das redes a qualquer tempo.

Aliás, não é falta de estudo. Acho proposital a fala equivocada do ministro Alexandre de Moraes, pois julgo impossível seu desconhecimento de que o código penal tipifica os crimes contra a honra, a fraude e o estelionato, punindo-os em qualquer contexto, no tempo e no espaço.

Portando, qualquer crime cometido no mundo virtual pode e deve ser reprimido, investigado, e os culpados devem ser punidos. Não o fazer, alegando necessidade de repressão ou censura prévia, nada tem a ver com o Estado Democrático de Direito.

É por isto um dever da cidadania repudiar a volta da censura ditatorial, que só existe na cabeça de golpistas fanáticos de Bolsonaro ou defensores lulistas de “democracias efetivas e relativas”.