Arquivo do mês: março 2019

FILOSOFIA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Quem, de três milênios/ Não é capaz de se dar conta/ Vive na ignorância, na sombra, / À mercê dos dias, do tempo. ” (Goethe)

O atual e festejado escritor norueguês Jostein Gaarder ao romancear a Filosofia, inicia o seu livro “O Mundo de Sofia” com a principal personagem, Sofia Amundsen, recebendo pelo correio duas cartas – sem destinatário -, com lacônicas perguntas: 1) “Quem é você? ” 2) “De onde vem o mundo? ”.

Se Gaarder trouxesse uma terceira missiva indagando: – “O que faz você no mundo? ”, abrangeria, sem dúvida, todo o sistema filosófico construído pela civilização através dos tempos.

Alguém já disse (infelizmente esqueci a fonte) que quem primeiro se indagou “O que faço eu neste mundo”, foi o inventor da Filosofia. Todos os demais que o seguiram levantando esta dúvida, apenas bordaram lantejoulas e paetês nesta pergunta.

A palavra “Filosofia”, segundo a História, foi criada por Pitágoras (570 – 495 a.C), compondo duas palavras, philia (φιλία) que significa respeito entre os iguais; e sophia (σοφία), sabedoria ou simplesmente saber.

Dicionarizada em português do Brasil, é um substantivo feminino, “estudo que visa criar a compreensão da realidade”; ou, simplesmente, sabedoria. E a nossa cultura ocidental se limita ao antigo pensamento filosófico grego e romano, e suas linhagens europeias, em dúvida de excelência, mas omitindo a riquíssima contribuição dos pensadores orientais.

Kung-Fu-Tse, o popular Confúcio, foi um pensador que brilhou na “Era das Primaveras e Outonos”, época de ouro da civilização chinesa, como o Século V de Péricles na Grécia Antiga. Este Filósofo nos deixou lições inesquecíveis.

Um excelente pensamento confuciano é atual, no momento em que tanto se fala de ódio, da cultura do ódio, da incitação do ódio, mais um negativismo dos antifas importado dos EUA. Disse ele: “Um homem enraivecido está sempre cheio de veneno. Se não encontrar onde derramar, irá derramar dentro de si mesmo. “

Um filósofo, como dizem seus ex-admiradores, é um astrólogo de primeiro time; outros, não veem o que está escrito nas estrelas…  Para ambas “escolas filosóficas”que se chocam, gostaríamos de perguntar “O que é o espaço? O que é o tempo? ”, “O que é a realidade em si mesma? ”, “O que é o certo e o errado? ”.

Indagamos por ignorância confessa em Filosofia. E, como observador da vida, preocupo-me em saber “O que é a felicidade? E como alcançá-la? ”…  São lições que gostaria de receber, da maneira como aprendi com a escritora Raquel de Queiroz que: “A gente na vida tem que tomar o costume de desejar o impossível, porque o possível é muito mais difícil”.

Parece metafísica de Raquel, um alheamento de intelectual nordestina, mas isto fica patente num cartaz exposto no refeitório de uma fábrica de aviões na Coreia:

“Segundo as leis da Física, comprovadas em experiências realizadas num túnel aerodinâmico, a abelha não poderia voar, porque as suas dimensões, o peso, e a configuração do corpo, não são proporcionais à largura de suas asas. Mas a abelha, que ignora as verdades científicas, alça voo e vai ao trabalho em busca de matéria prima para fazer mel. ”

É por isso, que a nossa batalha do dia-a-dia deverá levar-nos a duvidar sempre das verdades estabelecidas e perseguir o que estabelecem ser impossível de conquistar.

Carlos Drummond de Andrade

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

(Publicado em Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 107)

SILÊNCIO

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons” (Martin Luther King)

Já contei em outros artigos a minha paixão pelos sebos; possuo na minha estante várias obras de referência esgotados, e uns até proibidos, como o “Mein Kampf”, de Hitler; “Judeu sem Dinheiro” de Henry Ford; e “As Bases do Separatismo”, do filósofo paraibano Alírio Meira Wanderley.

Outro dia, num périplo pela Rua da Carioca e Praça Tiradentes, numa banca vendendo revistas a R$0,50, encontrei a edição 2453 da IstoÉ de 14 de dezembro de 2016 com uma chamada de capa que me atraiu: “Dilma mandou Odebrecht pagar R$ 4 milhões a Gleise”.

Como é sempre legal ver a delação de Marcelo Odebrecht, que veio fragmentada e sempre meio apagada na grande mídia, levei a revista para conferir a matéria assinada pela jornalista Débora Bergamasco. Nela, me impressionaram o texto e o conteúdo.

Eu não sabia que a Procuradoria tinha aberto inquérito para tornar o poste de Lula inelegível, ela que foi salva pela vergonhosa fraude do ministro Lewandowsky e o senador Renan Calheiros no impeachment. Nunca ouvi falar nisso; assunto abafado e bem abafado nos sigilos em que certos setores da Justiça abrem para privilegiados;

Segundo a reportagem, o caminho da propina para a então senadora pelo Paraná obedeceu a um esquema mafioso. Gleise ficou devendo R$ 4 milhões ao marqueteiro Oliveiros Domingos Marques Neto que atuou na campanha eleitoral que a elegeu; e pediu socorro a Dilma.

A Presidente mandou Edinho Silva, tesoureiro do PT, procurar a Odebrecht; o petista foi à empreiteira e lá foi acertado o esquema da transação, realizada posteriormente no gabinete da Senadora lá no Senado.

O resto é silêncio, como nas palavras que o grande Shakespeare pôs na boca de Hamlet, “Quando todos que conheço se forem, o que restará? Vazio. Silêncio. Sim, o resto é silêncio…” A peça inspirou um romance do escritor gaúcho Érico Veríssimo de onde foi extraído um curta metragem produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre com roteiro de Angel Palomero.

O verbete Silêncio é substantivo masculino de origem latina, silentĭum,ĭi derivado do verbo silēre – ‘calar-se, não dizer palavra’. Cientificamente, silêncio é a ausência total ou relativa de sons audíveis, mas o comum é a privação, voluntária ou não, de falar, de publicar, de escrever ou manifestar os próprios pensamentos.

Para mim, o escritor português de primeira ordem, Camilo Castelo Branco, é que matou a pau ao escrever que “O silêncio é uma confissão”, e assim atestamos a culpabilidade de Dilma neste caso, pois ela calou-se; se fosse mentira teria processado a jornalista e a IstoÉ, não é mesmo?

E do silêncio misturado com segredo e sigilo, ficamos sem saber se a impichada é ou não é processada pela Procuradoria Geral da República, como deveria ser pela criminosa compra da Refinaria de Pasadena.

Neste cenário, a reportagem que me custou R$ 0,50 num sebo da Praça Tiradentes revela um dos crimes praticados pelo lulopetismo que, somados ao drama da herança maldita da Era Lula e o passo de cágado processos judiciais no STF, é semelhante ao filme norte-americano de 1991, “O Silêncio dos Inocentes”.

Encontram-se no caso em pauta e na película, as metafóricas presenças do Dr. Hannibal Lecter, brilhante psiquiatra e assassino canibal em série, e o astuto pelego Lula da Silva, mentor de uma governança para as empreiteiras que jorrava propinas para o PT e os parceiros.

O Silêncio dos Inocentes é o nosso silêncio, o preocupante silêncio dos bons, pior do que os gritos dos maus, porque nos satisfaz conhecer uma gota d’água no noticiário ignorando o poço onde as coisas que escondidas de nós…

 

LIBERALISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“As mudanças sociais são devidas tanto ao pensamento, como o fluxo de um rio às borbulhas que revelam a sua direção a um observador” (Bertrand Russel)

Ainda esperamos que se liberte o Brasil das políticas errôneas e antinacionais baseadas na ideologia superada dos governos lulopetistas. É por isso que vale a pena discutir-se a proposta do liberalismo econômico.

São as relações de produção e consumo que determinam o desempenho econômico e consequentemente as atividades política e social. É esta a visão liberal, como uma regra que associa os elementos de causa e efeito na vida de um País.

Não é uma ideologia utópica nem uma teoria complicada, limita-se ao direito de minimizar o poder do Estado para que este atenda apenas as necessidades básicas, educação, saúde, segurança e previdência.

É simples. Pode-se conferir na experiência de muitos países de economia aberta, com o liberalismo impulsionando o comércio, a indústria e os serviços nascidos com as novas tecnologias, registrando fortalecimento de uma classe média produtiva e independente de favores governamentais.

Esta ideia progressista vem das revoluções francesa e americana, que consagraram a Declaração dos Direitos Humanos e a Constituição dos EUA, adotando o princípio de que todos os homens nascem iguais, embora, como escreveu o nosso epigrafado Bertrand Russel, “as desigualdades surgidas posteriormente são um produto das circunstâncias, como a Educação”.

Russel recebeu de Locke, a quem chamou de “o mais afortunado dos filósofos”, a compreensão do liberalismo, imposto pela divulgação de Voltaire, influenciando os enciclopedistas, cujas lições são uma presença viva nos dias de hoje.

É o senso comum, em tese, que deve ser adotado por um governo que tenha uma participação popular ouvindo a voz do povo e não de minorias ruidosas; que garanta a liberdade de expressão do pensamento, a tolerância religiosa e que respeite o individualismo.

Nas veredas que percorremos no Brasil vemos o otimismo que andava em baixa nos meios populares. O presidente Jair Bolsonaro, eleito pela onda popular de repúdio ao narcopopulismo corrupto e corruptor, recebeu aplausos na montagem do seu governo sem o troca-trocas com os picaretas do Congresso Nacional.

Convenhamos, porém, que este otimismo diminui na medida em que o epicentro do poder se divide em tendências e aumentam as pressões internas e externas que desviam o rumo anunciado na campanha eleitoral por Bolsonaro.

As mudanças de direção preocupam o centro liberal que teve uma presença ativa nas eleições e depois da vitória eleitoral defende o desenvolvimento econômico nos moldes anunciados e o combate ao crime organizado, a sonegação fiscal, o terrorismo e as organizações antissociais.

Para isto, é preciso evitar a erosão nas margens do rio em que navegamos, provocados na vazão governamental. É necessário impedir o assoreamento político que traz riscos e provoca desgastes. É urgente mitigar a generalização de pronunciamentos inúteis e prejudiciais ao fluxo do governo.

Está para a oposição tresloucada, derrotada nas urnas, o momento de sabotar a máquina pública, mas não para quem votou em Bolsonaro; os entulhos vindos do lulopetismo prejudicam menos do que os atritos internos exibidos gratuitamente.

Felizmente, temos nas duas superpastas específicas de Estado, a Economia com Paulo Guedes, e a Justiça e Segurança Pública com Sérgio Moro, a moderação fundamental que impõe respeito.

Ambos reforçam a nossa crença de que a corrente liberal e democrática serão as borbulhas que auxiliarão o curso político que libertará o Brasil.

CINZAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

      “Por que se ensoberba aquele que é terra e cinza, e ainda em vida expele as próprias entranhas? (Eclo 10,9)

Passou, e pouco se comentou sobre a Quarta-feira de Cinzas, uma data no calendário gregoriano que, para a Igreja Católica, representa o primeiro dia da Quaresma. É o dia seguinte à terça-feira de Carnaval e o primeiro dos 40 dias que precedem a festa da ressurreição de Jesus Cristo.

A origem deste nome é puramente religiosa. Neste dia ocorre a tradicional Missa das Cinzas em que o celebrante lembra aos crentes a passagem bíblica do Gênesis 18:27, “Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás”, desenhando uma cruz de cinza na testa dos fiéis. As cinzas utilizadas no ritual provêm da queima dos ramalhetes abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior.

Vê-se que em termos religiosos, as cinzas representam um símbolo do dever de conversão e mudança de vida, lembrando que a vida humana é passageira e frágil, sujeita à morte. A imposição das cinzas na cristandade europeia remonta ao século 10.

A cor cinza ou cinzenta, combinação do branco com o preto, simboliza maturidade, mas também tristeza, incerteza ou neutralidade.

Na Missa das Cinzas do dia 5 de março, o Papa Francisco alertou para o início da penitência cristã da Quaresma, dizendo que sucesso, poder e posses materiais são fugazes e que desaparecerão “como poeira ao vento”.

A Quaresma é o período compreendido entre a Quarta-Feira de Cinzas e o Domingo de Páscoa. Dicionarizado, o verbete Quaresma é um substantivo feminino de origem latina, quadragesima dies, o quadragésimo dia. Tem também o verbo intransitivo quaresmar – isto é, cumprir os preceitos religiosos próprios desse tempo.

Durante os 40 dias, os cristãos são convidados a se aproximarem mais de Deus e a endireitar suas vidas através da reflexão, da oração, do jejum e da ajuda a outras pessoas.

Entretanto, não há nada na Bíblia que obrigue, nem proíba, celebrar a Quaresma. Essa manifestação religiosa é uma questão de consciência individual; entretanto, para algumas denominações evangélicas, a celebração não tem o significado de pagar pelos pecados cometidos, como ocorre com os católicos.

Muitos centros de Umbanda, religião que sincretiza o culto africano dos orixás com o catolicismo, fecham, ou tem o atendimento limitado no período do carnaval e da Quaresma.

No meu tempo de menino as pessoas iam à missa da quarta-feira e encontravam todas as imagens cobertas de roxo, saindo de lá com a testa marcada com um certo orgulho; em casa se jejuava e as emissoras de rádio programavam músicas sacras e clássicas.

Mesmo assim, alguns carnavalescos audaciosos ainda insistiam em levar blocos à rua na quarta-feira, como o Chave de Ouro, no Rio, e o Bacalhau com Batatas em Recife, mas a adesão era pequena. Hoje, o Carnaval só acaba no sábado seguinte à Quarta-Feira de Cinzas, enfrentando a contrição religiosa…

A ousadia dos foliões é comparável, mas perde para a insolência dos políticos quê, com ou sem carnaval, usam máscaras, inclusive religiosas, fantasiando o comportamento incompatível com os mandatos que assumem ou cargos que exercem.

Assistimos na quaresma patriótica, congressistas e magistrados reduzirem a cinzas as suas carreiras. E o fazem no antigo costume dos jornalistas amigos deletarem as suas falcatruas. Esquecem-se que hoje, sem bandidos de estimação, as redes sociais fazem o autêntico jornalismo, e há juízes como Moro, que os levam à cadeia.

Quanto àqueles que entre os atores da vida pública que usam a Internet, lembremos que “sucesso, poder e posses materiais são fugazes e desaparecerão como cinzas ao vento”.

 

 

 

 

 

 

 

PASSEATA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Como seria bom se existisse impressa a Declaração Universal das Responsabilidades Humanas” (Jackson da Mata)

Manifestações políticas sempre foram organizadas para atrair o povo, existindo na Grécia Antiga a democracia ateniense realizava a Eclésia (em grego: Εκκλησία: ekklesia), uma assembleia reunindo cidadãos com mais de 21 anos que tinham servido o exército.

Essas reuniões chegaram à Roma republicana. Realizavam-se lá os comícios, comitiu, is, para as eleições do Senado; depois na Idade Média, com o fim dos governos despóticos europeus, também passaram a ocorrer comícios.

Muito mais tarde, essas demonstrações públicas atravessaram o Atlântico e o jeitinho brasileiro inventou showmícios com atrações lúdicas, apresentando artistas populares, sorteios de prêmios e distribuição de brindes. Estes, pela evidente compra de votos, foram proibidos em 2006 com a Lei Nº 11.300.

Lembrando manifestações políticas, a minha memória vai à infância, quando assisti comícios pedindo a declaração de guerra contra o nazi-fascismo, contra a ditadura Vargas, pela redemocratização do País; e depois, pelo inverso, na retumbante volta de Getúlio com o povo cantando “Bota o retrato do Velho, outra vez, / Bota no mesmo lugar”.

Nas manifestações nacionalistas do “Petróleo é Nosso” eu ia com meu pai, um patriota como poucos. Daí em diante, as passeatas tornaram-se rotineiras. O verbete “Passeata” é um substantivo feminino, derivado de passear e designando um passeio coletivo organizado, manifestação pública de alegria ou política.

Tem vasta sinonímia, como caminhada, cortejo, desfile, marcha, mobilização e protesto. Exprimindo religiosidade, procissão. Feita por jovens, rolê e giro. O Carnaval com o corso de automóveis e desfiles de carros alegóricos, inspirou o surgimento das carreatas político-eleitorais.

Em Campina Grande, Paraíba, assisti pela primeira vez à uma cavalgada, e soube que já era uma prática comum no Rio Grande do Sul; vi também em apoio político, cortejo de carroceiros, ronco de motocicletas e silenciosas bicicletadas.

Foram tão repetitivas as passeatas pela “redemocratização do País” que entrou para a História a “Passeata do 100 mil” em 1968, levando muitos da minha geração a continuar marchando até hoje, sem se dar conta de que os tempos mudaram; e que envelheceram sem ver a realidade.

Até entrou na gíria política a expressão “padres de passeata”, nomeando os sacerdotes politiqueiros (ainda os há muitos) que convocavam demonstrações pela queda de um palito no chão, da maneira como o Psol faz hoje para defender os aviõezinhos do tráfico da repressão policial…

A sequência de atos políticos, expressando várias vezes os mesmos slogans e palavras-de-ordem cai na trivialidade, tornam-se banais, corriqueiros e ordinários. Muitas vezes adquirem aspectos caricatos e até cômicos.

Compareci com familiares e amigos a Copacabana no dia 9 de setembro de 2018, ao comício-passeata de solidariedade a Jair Bolsonaro pelo brutal e covarde atentado sofrido em Juiz de Fora tendo como agente um pau mandado esquerdista.

Naquela altura Jair Bolsonaro representava o anti-ideologismo, postando-se contra tudo o que representava a corrupção e se expressava como terrorismo. Como o repúdio popular aos governos do PT cresceu como um tsunami, levou Bolsonaro à presidência da República.

Sinto reconhecer que como os “padres de passeata” e os eternos estudantes sem futuro, grupos auto assumidos como “bolsonaristas” ainda continuam desfilando em campanha eleitoral, dando-me vontade de gritar para eles, parodiando os cearenses: “Bolsonaro está eleito, babacas! ” .

O Presidente, que recuperou a saúde e se encontra em condições de cumprir as suas promessas, deve dar um exemplo de mandatário aos seus seguidores, para que evitem declarações e discursos que dividem o País. E, principalmente, não usarem a Internet com debates sem futuro.

Os manifestantes contínuos se exibem mais do que ajudam; para eles, lembro Sosígenes de Alexandria: “Quando se atravessa o tempo de manifestação e ela se torna permanente, o que atraiu torna-se repelente”.

SAMBA DO CRIOULO DOIDO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música” (Friedrich Nietzsche)

Ao lembrar a genialidade do jornalista Sérgio Porto (que nos faz ter saudades do antigo jornalismo), nos deixou como herança uma canção satírica, Samba do Crioulo Doido, composta por ele para o Teatro de Revista sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

A letra é uma overdose de ironia, voltada para a obrigatoriedade imposta pelo Departamento de Turismo da Guanabara aos compositores de sambas-enredo de abordarem apenas temas da História do Brasil, que terminou por criar disparates.

Imaginem: No enredo, Sérgio Porto descreve como Chica da Silva obrigou a Princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes e este, depois eleito como Pedro Segundo, procurou o padre José de Anchieta para juntos proclamarem a escravidão…

A canção foi inicialmente interpretada pelos Originais do Samba e gravada pelo Quarteto em Ci e os Demônios da Garôa. Tornou-se tão popular que o título foi usado como expressão designando coisas sem sentido e textos sem nexo. Cortando-a em partes, como Jack Estripador, temos as palavras “Samba”, “Crioulo” e “Doido”, três temas de estudo.

O samba, como estamos cansados de saber, é um gênero musical de raízes africanas, cuja origem é disputada pela Bahia e Rio de Janeiro, por ser uma das mais importantes manifestações culturais brasileiras. Deve-se ao Governo Vargas o decreto de sua classificação como Música Nacional do Brasil.

Assim, desde a década de 1930, o samba chegou a todas as regiões do país através de agremiações carnavalescas, organizações de carnaval, e sambistas, entre os quais se destacaram como desbravadores Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Pixinguinha, Donga e Sinhô.

Depois do Samba, vem o Crioulo, palavra cuja etimologia se refere na América Espanhola a descendentes de europeus nascidos na colônia e mestiços de brancos com indígenas e negros. No Brasil o termo de origem portuguesa foi usado como sinônimo de negro ou de mulato, e depois a qualquer homem negro.

O vendaval maléfico do politicamente correto, de chamar alguém de crioulo é considerado capciosamente como racismo, uma maneira de diminuir um negro, coisa do racismo às avessas, o vitimismo e a herança da “dívida histórica” importados dos EUA.

Como o politicamente correto é uma manifestação absolutamente cretina, um distúrbio mental que chegou ao cúmulo de condenar o uso da palavra “homem” para gênero, porque para esses psicopatas o gênero é uma decisão individual.

Assim chegamos ao terceiro verbete, “Doido” que é dicionarizado com rica sinonímia, em três categorias, como louco, imprudente e apaixonado… É, na verdade a qualidade de quem se comporta insensatamente; que não tem juízo.

Assim, em tempo de “politicamente correto” com as palavras submetidas ao patrulhamento pseudo-ideológico, vamos adotar o Samba do Afro Descendente para vender o nosso peixe.

Ontem, acordei no meio da noite – o que não é de meu costume – e ligando a tevê assisti ao desfile de uma Escola de Samba, não importa o nome, e acompanhei perplexo um roteiro que foi de um centurião romano, passando pela revolução francesa, chegando à escravidão no Brasil, com um papa estilizado conduzindo a bateria…

A globalização do tema não ficou muito diferente dos tempos de Chica da Silva e da Princesa Izabel…