DOS HERÓIS

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MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

A minha profunda admiração pela figura de Bertolt Brecht, dramaturgo, filósofo e poeta alemão, o maior renovador do teatro no século XX, levou-me a refletir sobre a sua frase: “Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis”.

O pensamento que se insere neste pensamento resume a dimensão ética da peça “A Vida de Galileu”, um clássico teatral que perfila a presença histórica do pai da ciência moderna, um verdadeiro revolucionário de sua época, perseguido pela Igreja Católica ao defender o heliocentrismo, segundo o qual a Terra gira em torno do Sol, e dessa maneira contrariando a “ciência” adotada pelo papado.

O que hoje as crianças aprendem no ensino básico (dos países desenvolvidos, sem crise educacional) era considerado crime e Galileu enfrentou  a Inquisição defendendo o real sistema planetário; mas, ameaçado de condenação à pena de morte, recuou da verdade que comprovou telescopicamente.

A história deste astrônomo do século XVII oferece reflexões ainda hoje. O herói, de acordo com Brecht, não é dono de um destino divino; é o espelho das engrenagens dominantes na sociedade.

Enfim, “A Vida de Galileu”, mostra um personagem que ao tempo em que se mostra herói é contraditório, negando a si próprio sobre sua descoberta diante da Inquisição, sem saber que não basta descobrir; é preciso perguntar para quem e para que serve o conhecimento científico.

Patinando nas pistas da História da Humanidade encontramos  heróis na mitologia greco-romana, personalidades de origem semidivina, qualificados pela coragem, destreza, força, inteligência e, por isso, destinados a realizar feitos que ultrapassam a capacidade das pessoas comuns.

Aqueles heróis representavam um modelo excepcional situado entre o mundo dos mortais e o dos deuses. Nas epopeias atribuídas a Homero temos o exemplo com Aquiles e Odisseu; Aquiles, filho da deusa Tétis e do mortal Peleu é descrito na Ilíada com uma força extraordinária impondo temor e respeito na Guerra de Troia.

O outro, Odisseu, protagonista da Odisseia, distingue-se não pela força, mas sobretudo pela inteligência, astúcia e capacidade de superar perigos.

Na antiga Índia, os heróis aparecem no Ramayana e no Mahabharata, principalmente Rama, Krishna e Arjuna, cultuados por honrar o dharma cumprindo o dever moral e a ordem justa. Na antiguidade chinesa, o herói poderia ser um soberano exemplar, um guerreiro ou um homem que salvasse o povo pelo mérito e pela virtude.

Vê-se desta maneira que a Índia e China valorizavam no herói não somente a força, mas sobretudo pela honra, lealdade, sacrifício, justiça e serviço à comunidade. É triste que a marcha civilizatória não tenha trazido aos nossos dias tais exemplos.

Atualmente, mesmo com o avanço cultural e o excepcional desempenho da Ciência e da Tecnologia, não encontramos no concerto das nações um dirigente de Governo e de Estado que provoque grande admiração; e, no campo político, infestou-se uma praga inaudita, a ascensão espantosa e fulminante do idiota, como disse Nelson Rodrigues.

Infelizmente os estúpidos que dominam a cena política planetária (com raríssimas exceções para justificar a regra) são encontrados mundo afora e nos últimos anos infelicitando o Brasil.

Não há exemplo melhor do que vemos na maldita polarização eleitoral em que reina a mediocridade populista dos Bolsonaro e de Lula da Silva, anti-heróis, como o famoso personagem que Mário de Andrade trouxe no seu romance “Macunaíma”.

Deles, assistimos a performance em debates, entrevistas e nos programas eleitorais na televisão e rádio, que pagamos para escória política eleger-se.

Temos, assim, heróis sem nenhum caráter, que não possuem ética nem moral; que são corruptos, mentirosos e nepotistas.

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