Arquivo do mês: agosto 2026
ETCETERA
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
A casa da minha avó Quininha, mãe de minha mãe, era senhorial; tinha seis quartos, três banheiros internos e dois externos, com uma imensa varanda ao fundo, de onde se via o sítio com árvores frutíferas e canteiros de hortaliças. Ali ficava uma enorme mesa de refeições.
Não havia saneamento; a água era bombeada de uma cacimba, cuja água, testada, era consumível; a cozinha ficava ao ar livre e havia um porão cheio de tralhas. Menino, eu coabitava lá, convivendo num ambiente jovial que contava sempre com a presença de primos e primas e tias solteiras, todos adultos.
Piano, rádio e vitrola alegravam os fins de semana, que começava na 6ª-feira com vovó Quininha sentada na calçada com um barril de bacalhau e um saco de farinha que distribuía com os “seus” pobres.
Descrevo o meu passado infantil para dizer que naquela morada coabitava a cultura da época, os primos velhos de formação acadêmica, entre os quais um escritor, dois jornalistas e um poeta.
Trago daquele tempo a memória de uma anedota familiar corrente; uma narrativa sobre uma prima sertaneja que vinha à casa da avó, na capital do Estado, fazer compras e visitar a parentela.
Conta que ela era muito enxerida e ficava sempre atenta às conversas dos primos. Foi aí que ouviu um deles usar a palavra etcetera, procurou o significado no dicionário e ficou fissurada para usá-la. Então em certa reunião da turma, estava sentada numa cadeira de balanço quando um gato pulou no seu colo e ela repreendeu-o: – “Chô gato, etcetera…”
Como aprendemos na escola, Etcetera é uma expressão locucional que indica continuidade. Significa “…e outras coisas mais”, ou “… e assim por diante”. Escrita tem uma abreviatura, Etc., utilizada ao fim de uma enumeração para sugerir que outros itens semelhantes aos citados poderiam somar-se a deles.
Lembro um professor no Ginásio que alertava que como recurso de economia linguística, o etc. deve sempre terminar com ponto final, e não pode ser usado junto com reticências, nem com a conjunção “e” antecedendo o termo, pois o “e” está implícito em sua etimologia.
A palavra Etcetera, mais conhecida pela abreviatura etc., vem do latim, sendo empregada desde a Antiguidade para evitar enumerações longas e repetitivas. Ao longo dos séculos, a expressão foi incorporada às principais línguas europeias, conservando seu sentido original.
Na literatura, escritores recorrem ao etc. para sugerir continuação, indicando que exemplos semelhantes poderiam ser acrescentados sem necessidade de repeti-los; e, também, a fim de realçar ironia ou humor, insinuando que o leitor já compreende o restante da ideia.
A linguagem coloquial tem no etc. uma frequência constante, empregada para encerrar listas ou indicar continuidade: “estreiteza, estupidez, fanatismo, etc.”. Desse modo, a pequena expressão latina atravessou mais de dois mil anos de História e continua viva na escrita e na fala, permanecendo presente no cotidiano da língua portuguesa e entre nós, no brasilês.
Definindo “o resto”, e “as outras coisas”, o etc. ajudaria muito a censura imposta pela ditadura judicial dos intocáveis que ocupam os andares de cima do poder. Assim, a tradição clássica nos permite avaliar o seu uso atualmente no Brasil.
Vimos, por exemplo, a Justiça do Maranhão condenar em 1ª Instância o jornalista José Fernandes Linhares Júnior a 2 anos e 15 dias de detenção, por publicar em rede social a expressão “Dino, governador vagabundo”.
A condenação seria quadruplicada se José Fernandes tivessem escrito o etc. antes do ponto final, ficando: “Dino, governador vagabundo, etc.”. Como a imaginação voa, será possível pensar que daria prisão perpétua se nas manchetes que trazem: “A esposa de Alexandre Moraes recebeu R$129 milhões de Vorcaro como advogada do Master”, fosse acrescentada a abreviatura etc..
Muito pior, se mexessem com o esquema polarizador do Sistema Corrupto e defenderiam a pena de morte para o tuiteiro que comentasse com o etc. o que se diz por aí: – “Flávio pediu dinheiro a Vorcaro para um filme, etc.; e, com Lula falando sobre o assalto do filho no INSS dissesse: – “Lulinha me disse que era inocente, etc.”.
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