Artigo
DISCRIÇÃO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Falar é bom, calar é melhor, mas ambos são desagradáveis quando levados ao exagero” (La Fontaine)
Li certa vez, mas olvidei o nome do autor, o pensamento: – “a avareza das palavras não é falta de cultura, mas sinal de inteligência”. Sem dúvida, um bom conselho, porque quem exagera no falar é taxado de boquirroto, falador e tagarela…. Quem muito fala é sempre indiscreto, mente ou revela segredos; e o povo não perdoa.
Algumas pessoas, porém, gostam de falastrões, principalmente dos falastrões políticos que põem nas redomas da adoração pessoal. É conceito geral, entretanto, que levantar ideias com poucas palavras é louvável, mas que se deve evitar o exagero.
A História dos Estados Unidos tem um capítulo dedicado ao presidente republicano Calvin Coolidge, um intelectual do Estado de Vermont. Ali se ressalta o comedimento dele com as palavras; diz que iniciava seus discursos prometendo reduzir o assunto a ser tratado.
E tem uma anedota sobre ele contando que um dia, voltando da Igreja, Coolidge foi perguntado pela esposa: – “Que tal o sermão de hoje? ”; ele respondeu: – “Bom”. Ela continuou: – “Qual foi o tema? ”; e ele: – “Pecado”. A mulher insistiu: – “Que disse o pastor?; ele: – “Contrário”….
Esta sovinice de Coolidge com as palavras chegou ao máximo quando num jantar uma senhora se achegou e disse-lhe: – “Presidente, eu apostei que conseguiria fazê-lo falar cinco palavras…” Ele interrompeu-a: – “Perdeu”.
O exemplo do norte-americano vem de longe. Quando fizemos o ginásio e estudamos a História Romana, encontramos Júlio Cézar, cujo relatório após a conquista da Gália se resumiu ao “Vim, vi e venci” (Veni, vide, vinci). E mais tarde tivemos também o admirável René Descartes, que constituiu um sistema filosófico resumindo a sua tese sobre a Razão com apenas três palavras: – “Penso, logo existo”.
A discrição merece respeito e deveria ser obrigatoriamente usada pelos agentes públicos que exercitam a política. A sabedoria popular usa um ditado que diz “falar é prata, calar é ouro”, e ensina “que palavra fora da boca e pedra fora da mão não voltam atrás…”.
Infelizmente estas lições não mergulham no poço da mediocridade que domina a cena política no Brasil. Fui repórter cobrindo a Câmara Federal e o Senado, e me abate, e me envergonha, que não tenhamos mias congressistas como antigamente; o nível é baixíssimo nas duas casas. Por concessão cautelosa, registro algumas exceções.
Muito mais insignificante é o nível ministerial. Mais baixo do que em qualquer regime, do que em qualquer época, no Império ou na República…. Aí, também por cautela, seria insensato não livrar alguns, poucos, mas existem.
Ocupando pastas, direção de órgãos administrativos superiores ou presidências de empresas estatais, há pessoas que podemos ressalvar sem nos amesquinhar; mas a imensa maioria, entretanto, segue o padrão do presidente Jair Bolsonaro, falando muito para esconder a inação administrativa.
O maior exemplo é do ministro-general Eduardo Pazuello que muitas vezes diz e se desdiz em pronunciamentos importantes para a Nação. Só marcando a data da chegada da vacina e o dia da vacinação, marcou várias horas “Hs” e vários dias “Ds” rodando num carrossel iluminado e colorido de ilusões.
Só não vê quem não quer que o governo federal está baratinado diante da pandemia, sem um comando que imponha respeito, acatando as ordens do ignorantérrimo presidente Bolsonaro, que me traz à lembrança a posição enérgica do rei Juan Carlos dirigindo-se ao boquirroto ditador venezuelano Hugo Chávez, na XVII Conferência Ibero-Americana: – “¿Por qué no te callas? – Uma reprimenda que deveria servir de lição para qualquer político e principalmente para o Presidente.
Serviria como uma luva para o Capitão boca-rota, antigo admirador de Chávez, cujos excessos ilimitados nas declarações e entrevistas, seriam dispensáveis até para ele próprio. O “cala boca” teria o apoio dos eleitores que votaram nele contra a corrupção, e se arrependeram.
Para Bolsonaro, mesmo mouco para qualquer orientação cultural, valeria a lição de Abraham Lincoln: – “É melhor calar e suspeitarem da sua pouca sabedoria, do que falar e eliminar qualquer dúvida…”
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VACINA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Vale mais prevenir que remediar!” (Galeno – O “Pai da Farmácia”)
A vacina é indispensável para garantir a saúde e a vida dos povos. Foi com muita tristeza que acompanhamos o nosso atraso no enfrentamento da covid-19, quando em todo o planeta os governos, entidades privadas e instituições filantrópicas se mobilizaram e contribuíram para as pesquisas de anticorpos imunizadores contra o vírus.
É um momento de mobilização mundial sem precedentes para enfrentar a covid-19; inúmeros países investiram bilhões de dólares para o desenvolvimento de vacinas e a comunidade científica, por sua vez, faz História ao produzi-la em tempo recorde.
O Brasil também vive hoje um dia histórico, escrito pela Anvisa, seu corpo de médicos e pesquisadores, que acaba de aprovar, por unanimidade, as vacinas desenvolvidas pelo Butantan e a FIOCRUZ, calando o negacionismo caricato e ignorante. Assim, “Habemus Vacinnae! ”.
Nesta nova realidade, é essencial que se faça (como já se fez) campanhas educativas sobre a imunização. A informação é indispensável para alertar e instruir a sociedade sobre o uso dos imunizantes; e o foco da instrução depende das pessoas esclarecidas contra o obscurantismo negacionista.
Tivemos no passado militares estudiosos da geopolítica e de Economia desenvolvimentista, que quando ocuparam o poder (1964-1979), fizeram várias campanhas educativas explicando a necessidade da vacinação. Eram conscientes da importância de vacinar as crianças para protege-las de doenças epidêmicas que grassavam no País.
Uma dessas promoções, em 1972, obteve o maior sucesso, trazendo um curioso personagem de animação, Sujismundo, que se recusava a tomar vacina, justificando: – “eu não tô doente…”, – “prá quê espetadas inúteis? ” – Eram os argumentos negacionistas da época.
Sujismundo se apresentava mal-ajambrado e sujo, provocando rejeição a si; mas em compensação o programa trazia a figura limpa, inteligente e vivaz de Sujismundinho, um garoto filho de Sujismundo, que exigia ser vacinado.
Aqueles filmes publicitários alertavam que a vacinação era obrigatória para crianças, e os pais que se recusassem vacinar seus filhos perderiam direito ao salário-família. Assim, conseguiu-se debelar muitas enfermidades no Brasil.
O êxito da propaganda incentivou mais tarde, na década de 1980, o aparecimento de Zé Gotinha, personagem que foi estudado na brilhante tese de mestrado de Johnny Ribas da Motta, da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade de Goiás.
Esta segunda campanha, igualmente meritória, trouxe um estímulo para a divulgação regional, com verbas para promover atividades artesanais de comunicação, como teatro de bonecos, literatura de cordel e desafios repentistas….
Mas o que passou, passou. Era muito difícil imaginar que viéssemos a ter na presidência da República um indivíduo com a mentalidade de Sujismundo; mas infelizmente é isto que temos; hoje impera nos círculos do poder a demência negacionista, ignorando os avanços científicos da medicina preventiva.
É triste constatar que este fato negativo é um produto mental importado da loucura de Donald Trump, reacionário retrógrado que felizmente foi derrotado na reeleição pelo povo norte-americano, repudiando suas trapaças egocêntricas…. Mas sua herança boçal do negacionismo vigora no Brasil como uma caricatura toscamente desenhada para as mentalidades colonizadas.
Toda Nação, quase à unanimidade – com exceção do bloco dos sujismundos, doentios seguidores de políticos animadores de auditório –, ansiava por um programa de vacinação de massa para enfrentar o novo coronavírus e a letal covid-19.
Com “ansiedade e a angústia” depreciadas pelo ministro-general Pazuello, eu gostaria de ajudar nisto; se tivesse a força de um ”digital influencer”, abriria nas redes sociais um concurso para eleger o Sujismundo da atualidade… O meu voto seria para Bolsonaro…
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MAQUIAGEM
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Tem pessoas que deviam comer maquiagem prá ver se ficam mais bonitas por dentro”. (Coringa)
Desde menino sei como as mulheres de todas as classes sociais e de todas as idades usam cosméticos querendo, na opinião delas, melhorar a aparência. Há controvérsias, pelo menos na opinião de Shakespeare, que botou na boca de Hamlet uma reprimenda para Ofélia: – “Ouvi falar da vossa maquiagem. Deus vos deu um rosto e vós fazeis dele outro rosto”.
Will bateu com a brasileiríssima opinião expressada por Dorival Caymmi, que cantou – “Marina, me faça um favor, não pinte este rosto, você é bonita com o que Deus lhe deu”…. Foi no tempo em que não se condenava o machismo romântico pelo “politicamente correto”…
O certo é que o enfeitar-se (e hoje não é só uma preocupação das mulheres, mas dos homens também) exige pomadas e loções para branquear a pele, lápis delineadores para os olhos e sobrancelhas, rímel para as pálpebras e os cílios, ruge para a face, batom para os lábios, hena ou água oxigenada para os cabelos, e esmalte para as unhas…
Se embeleza as pessoas, é uma questão de gosto; mas o certo é que tornou bilionários comerciantes, industriais e inventores de cosméticos. Alguns deles tiveram os seus nomes popularizados como marcas célebres, como Elisabeth Arden, Coco Chanel, Helena Rubinstein e Max Factor, que aliaram seus produtos às embalagens atrativas e uma massiva publicidade.
“Maquiagem” ou “Maquilagem”, indiferentemente, como verbetes dicionarizados são substantivos femininos, significando ação ou efeito de maquilar, isto é, mudar a aparência de pessoas ou coisas. A palavra vem do francês “maquiller”, pintar o rosto para apresentação teatral.
Esta apresentação etimológica formal é capenga e sua definição é restrita; na verdade, o termo vem de um capítulo épico da História Mundial, da resistência francesa contra a ocupação nazista. “La resistence” era conduzida pelos jovens “maquisards” designação que foi simplificada para “maquis” designando os grupos atuantes que se escondiam nas áreas rurais, bosques e montanhas, e pintavam os rostos em ataques noturnos contra os invasores.
Assim, encontramos também a definição figurada da Maquiagem no sentido de “encobrir alguma coisa”. E é nesse sentido que vemos os maus políticos disfarçados de bons moços, maquiados com a “ética”, a “honestidade” e a “religião” para enganar o povo.
Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir sabe que os picaretas ególatras e corruptos usam a maquiagem enganadora e conseguem por muito tempo iludir as pessoas.
Uma antiga narração tendo como cenário a antiga Grécia, fala de um jogo que andou em moda nas rodas intelectuais, o “Jogo dos Reis” em que uma pessoa era escolhida para ser rei ou rainha e dar ordens indiscutíveis e obrigatórias a cada um dos convivas.
Num desses saraus estava presente a bela cortesã Friné, acatada pela brilhante inteligência e repentismo. Quando foi indicada para ser rainha, ela mandou que os escravos trouxessem bacias com água para as damas presentes; ao receber a sua, lavou o rosto e ordenou que todas a imitassem.
Após a remoção das maquiagens a maioria das caras lavadas eram lastimáveis, enquanto a soberana do jogo manteve o esplendor de sua beleza, elogiada através dos tempos…
Esta anedota histórica foi publicada numa das crônicas do jornalista ítalo-argentino Pittigrilli, exemplificando uma lição que deve ser levada ao eleitorado brasileiro para ser usada, numa exigência aos políticos populistas de direita e de esquerda para que lavem a cara e removam a maquiagem.
No cenário político brasileiro, o exemplo mais-do-que-perfeito é a camuflagem que o presidente Jair Bolsonaro mantém, mesmo depois de trair as suas promessas eleitorais; deveria ser ele o primeiro a usar o sabonete da autenticidade…
DECEPÇÃO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O tempo passa e descobrimos que grandes eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais! ” (Bob Marley)
Findo o segundo ano de governo, fora de realizações pontuais o presidente Jair Bolsonaro atende apenas a duas prioridades: defender os filhos, particularmente o 01, envolvido até o gogó no caso das “rachadinhas”; e a própria reeleição, esquecendo dos acenos eleitorais contrários da campanha eleitoral de 2018.
Este quadro inquieta as pessoas livres do fanatismo político. São muitas críticas dos que votaram nele pelo acolhimento farsante à delinquência filial, intervindo na Polícia Federal, usando a Abin e um grupo particular de arapongagem e, sub-repticiamente, aliando-se ao lulopetismo no combate à Lava Jato.
Também a campanha reeleitoral, a outra obsessão, é desaprovada pelo eleitor do modo populista como é feita, o festival de reinaugurações (até de relógio!), para alegria dos cabos eleitorais, dos jornalistas fuxiqueiros, dos institutos de pesquisa e, principalmente, dos mamadores nas tetas governamentais.
O cenário político expõe a fotografia em grande angular da “direita populista” que persegue o poder pelo poder praticando a pior espécie de eleitoralismo… Pelos conchavos, tenta-se até a volta do lulopetismo corrupto à cena política para ressuscitar o abominável pelego Lula da Silva; uma estratégia oportunista que visa polarizar eleitoralmente a “direita populista” com a “esquerda populista”, ambos combatendo Sérgio Moro, o caçador de corruptos.
Assim, surgiu o “bolsopetismo” uma investida caricatural copiada das jogadas do tucanato de polarização, que ludibriava os desavisados invertendo os princípios éticos da política e patinando na lama da corrupção deixada pelos pelegos lulopetistas.
Pouco importa se isto ameaça a Democracia escondendo que com Lula e o seu “Poste” alastrou-se virulentamente a corrupção na Petrobras, conquistou-se propina para os filhos, ganhando-se o Tríplex e o Sítio, e cometendo crime de lesa Pátria, ao receber dinheiro do ditador líbio Muamar Khadaffi, como foi denunciado por Antônio Palocci.
Diante desses desatinos que chegaram às raias da criminalidade, os brasileiros revoltados apoiaram Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Ledo engano! O “Salvador da Pátria”, não passava de um deputado do “baixo clero” com 28 anos de mandato na Câmara Federal e atravessando 11 partidos diferentes.
Apenas duas correntes o conheciam realmente: os beneficiados pelo “sindicalismo fardado” e os revanchistas militaristas revoltados com a Democracia. Os demais apoiadores que desconheciam o perfil do candidato e as performances dos seus filhos, acreditaram ingenuamente nas promessas eleitorais. E acabaram traumatizados pela decepção.
Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, vê e ouve o Presidente dizer que “o Brasil está quebrado, eu não posso fazer nada…”. Comentário que está mais para Elba Ramalho falando no mais puro “dilmês”.
A decepção é dolorosa. Como verbete dicionarizado, “Decepção” é um substantivo feminino de origem latina, “Deceptio”, significando ’empulhação, dolo, engano’. Temos também disappoint, do inglês médio vindo do francês antigo desapointer; ambas, no sentido literal, significam “remover do cargo”.
Como já disse alguém (que se perdeu no meu esquecimento), “a decepção não mata, ensina a viver”; é vivendo-a que os brasileiros se revoltam com as bandalhas, as piadas infames e o negacionismo estúpido diante da pandemia.
O desdém pela pandemia que Bolsonaro demonstrou com a fina bossa da ignorância é decepcionante e imperdoável, porque é genocida. As lágrimas derramadas pelos familiares e amigos dos 200 mil mortos exigem a condenação do algoz…
Diógenes de Sinope, também conhecido como Diógenes – O Cínico –, ficou conhecido como o mais folclórico dos filósofos gregos da antiguidade clássica. Andava pelas ruas de Atenas durante o dia com uma lanterna acesa nas mãos procurando a verdade e a honestidade. É dele o excepcional pensamento: “A decepção é filha da expectativa”.
Isto valoriza Bob Marley, nosso epigrafado, pois passados dois anos de decepções, vê-se que os sonhos foram grandes demais e o Presidente é pequeno demais para torná-los reais!
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FRAUDE
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Brasil? Fraude explica“ (Carlito Maia)
Relacionei-me no Twitter e venho acompanhando o professor Magno Holanda, escritor e psicopedagogo. Fui atraído pela exigência dele para que as mensagens na rede social que se refiram às pessoas e instituições tragam os seus nomes, para atestar a fonte da informação.
Principalmente os comentários e as críticas devem ser assumidos pelo autor; isto é fundamental para se evitar fraudes, agora batizadas pelo estrangeirismo “fake news”. Como venho de longe, do tempo do Orkut, e um dos pioneiros do Twitter, sou até mais exigente: acho que as contas devem ser abertas e usadas com o nome próprio do responsável.
Seria uma forma de evitar a participação nas redes sociais do pior tipo dos indivíduos, o caluniador e o difamador que se escondem no anonimato.
A fraude é criminosa. Está no artigo 171 do Código Penal: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento: Pena – reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa.
Soma-se ao crime o aspecto humano: é uma ferramenta a serviço do mal. “Fraude”, como verbete dicionarizado é um substantivo feminino de origem latina, “fraus,dis”, vindo de “frustari”, significando a ação de lograr, iludir, enganar, fazer errar”.
O ato delituoso para enganar alguém está sempre presente na politicalha…. Campeia livre, leve e solto entre os picaretas do Congresso; ali se assiste ardis de toda ordem, os “jabutis” postos nos galhos de projetos bem-intencionados, falsificação de documentos e “contrabando ideológico” para justificar traições ao eleitorado.
Este mal está em desarmonia pelo mundo todo, com uma riquíssima sinonímia (só na gíria de traficantes e milicianos encontrei mais de trinta), e na terminologia policial outros tantos. Nos dicionários, garimpa-se falcatrua, farsa, burla, dolo, embuste, golpe, intrujice, logro, ludibrio, tramoia, trampolinagem, trapaça e trapalhada…
Neste momento que atravessamos, ecoa retumbante no cenário mundial a tentativa de fraude nos Estados Unidos urdida pelo presidente Donald Trump; foram criminosos os seus áudios divulgados pelo The Washington Post, pressionando o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, a “achar” votos com os quais pudesse mudar o resultado eleitoral.
O delito cometido é tão flagrante que, segundo o famoso jornalista Carl Bernstein, o caso supera o Watergate que culminou na queda de Richard Nixon; Bernstein acha que os áudios são provas “suficientes’ para o impeachment.
O “esperneio” desesperado com a derrota eleitoral culminou na ação estimulada pelo louco que ainda ocupa a Casa Branca para que seus seguidores fossem protestar em Washington, o que terminou com a invasão e depredação do Congresso americano.
Assim, a quarta-feira, seis de janeiro de 2021, foi um dia que abalou o mundo, ofuscando a visão dos que viam nos Estados Unidos o baluarte da Democracia com Trump e os seus comparsas empunhando as bandeiras da Confederação, símbolo da volta ao passado escravagista.
O triste para nós é que a insanidade extremista nos EUA deixa sequelas colonialistas no Brasil, com as viúvas bolsotrumpistas chorosas e inconformadas por receberem como herança histórica a lição de que não é fácil a reeleição de um presidente cujo governo não corresponde aos anseios nacionais. A onda negacionista levantada por Trump (que alcançou nas praias brasileiras o presidente Jair Bolsonaro), foi uma das razões do descontentamento popular.
Na pandemia do novo coronavírus assistimos muitos enganos, muitos equívocos, atitudes pouco recomendáveis; mas nada como a repercussão lamentável e desastrosa do tsunami do negacionismo. Nos Estados Unidos e no Brasil, o exemplo de Trump e Bolsonaro é a responsabilidade pelos 360 mil óbitos na América e 200 mil mortes no Brasil. Um genocídio.
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FILOSOFIA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol,com.br)
“Não há nada que dominemos inteiramente a não ser os nossos pensamentos” (René Descartes)
Ficaria faltando alguma coisa se depois que escrevi o artigo “Psicologia”, não trouxesse para o meu selecionado grupo de leitores um texto sobre Filosofia. Faço-o fugindo da riqueza que o mundo antigo nos deixou com o saber da China e da Índia e, para nós, ocidentais, o magnífico legado da Grécia Antiga.
É preciso navegar no mar tempestuoso da pandemia, enaltecendo o pensamento moderno, que o filósofo e matemático René Descartes criou quando a Ciência e a Tecnologia ainda engatinhavam de fraldas.
O monumento filosófico erguido por Descartes tem uma lápide com o enunciado que resume a consciência dos novos tempos: “penso, logo existo”.
Para os mais exigentes, está no perfil deste pioneiro da moderna filosofia que ele era um católico praticante, mas multisciente e erudito o bastante para aceitar e adotar as condenadas heresias de Galileu, que expôs no seu livro “Le Monde”, descrevendo a rotação da Terra e negando o geocentrismo obscurantista.
Quase uma leitura obrigatória, destacam-se na sua obra “Discurso Sobre o Método” e “Meditações”, livros em que explica a chamada “dúvida cartesiana”, a base do seu pensamento filosófico.
Bertrand Russel salienta que essa teoria é tão audaciosa que se estende à Aritmética e à Geometria, considerando-as passíveis de dúvida, seja na contagem dos quadrados, seja numa simples operação de somar.
A busca de explicações além do que se pode comprovar pelos sentidos foi um tema que se seguiu depois dele, aceita por Spinoza e todos demais filósofos, até Kant. John Locke, por exemplo, reforçou a dúvida cartesiana com o seu empirismo, exemplificando:
– “Suponhamos que a mente é, por assim dizer, um papel em branco, sem nada escrito, sem nenhuma ideia; de que forma, então, ela se enche? ”. E conclui magistralmente: – “Pela experiência, que encerra todo o conhecimento pessoal”.
O romancista e pensador francês André Gide deixou uma marca indelével sobre a acumulação da experiência resumindo como um princípio: – “Crê nos que buscam a verdade. Duvida dos que dizem tê-la encontrado”. E o genial cineasta norte-americano Orson Welles, ator, diretor e escritor, reforça: – “É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos”.
Vemos com estas intervenções que a Filosofia não é monopólio de ninguém; está ao alcance de quem queira estudar, e mais, de quem queira pensar; dar atenção a um fato, ou a uma teoria, meditar questionando hipóteses e concepções gerais é um exercício mental que se faz sem querer e muitas vezes até sem sentir…
Mesmo assim, para resolver problemas difíceis não há métodos fáceis; ou ocorre espontaneamente na cabeça de alguns privilegiados, ou se encobre com teorias triviais. O genial Shakespeare deixa isto explícito pondo na boca de Romeu que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia…”.
A palavra Filosofia dicionarizada é substantivo feminino, que vem do grego antigo “Philosophia” e significa: “philo”- amizade, amor, afeição e “sophia” – sabedoria; definida como o conjunto das reflexões racionais de cada indivíduo, para entender a realidade. Atribui-se a Pitágoras de Samos a invenção da palavra, que a usava como “apreço ao saber”.
A valorização do saber é levada muito a sério pelos filósofos consagrados e assim se impõe. Outro dia, numa troca de mensagens no Twitter, os protagonistas citaram a Coleção “Os Pensadores”, uma excelente publicação da antiga Editora Abril, e dela colhi que todos apresentados – sem exceção -, enaltecem o conhecimento.
No Brasil que está vivendo sob o triunfo (aparente) da mediocridade, enche-nos de pena ao ver os “filósofos da televisão” e os “filósofos da política” com suas certezas estúpidas sobre tudo, levando a Filosofia ao ridículo. Vê-se que não assistiram a aula inaugural da Etiologia e assim não aprenderam a primeira lição dada: “O ignorante afirma, o sábio duvida e o sensato reflete”.
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2020 – Um Ano Perdido
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Tudo crer é de um ingênuo. Tudo negar é de um tolo” (Jean-Jacques Rousseau)
Rompendo o costume de registrar e comentar os acontecimentos factuais do ano, a pandemia do novo coronavírus obriga-nos a reconhecer que 2020 foi um ano perdido e nada ocorreu que pudesse evitar a ocupação de todos os espaços com o coronavírus.
Saltando de 2019 para 2020, assustou-nos em janeiro o aparecimento de vítimas que consumiram lotes contaminados da cerveja Belorizontina, da Backer, em Minas Gerais, com várias mortes. Todos que gostam de uma cerva gelada se sentiram ameaçados.
Mas o perigo estava bem mais distante, na China, numa cidade pouco conhecida, Wuhan, que entra na História da Civilização como o polo originário do novo coronavírus, que fora descoberto em novembro de 2019, mas teve o anúncio em janeiro de 2020.
Em três semanas o vírus se espalhou pelo planeta levando a Organização Mundial da Saúde – OMS -, a convocar um comitê de emergência em 22 de janeiro e no dia 30 reconheceu o surto planetário alertando aos governos nacionais para “uma ação coordenada de combate à doença que deverá ser traçada nas diferentes realidades”.
As medidas de prevenção em âmbito internacional esbarraram em dúvidas e incertezas, culminando com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embora ciente da transmissão do novo coronavírus, ficar contra as medidas defensivas propostas pela OMS, como o isolamento social e o uso de máscaras.
Dessa maneira, tristemente, a América do Norte enfrentou a crise com o governo contrário às orientações dos centros científicos mais adiantados do mundo. A “prescrição negacionista” de Trump impôs o perigo que os norte-americanos pagam hoje; e, muito pior, influenciou perversamente os governantes satélites, como Jair Bolsonaro, no Brasil.
Não se trata de fake news como dizem os “bolsotrumpistas”, grupo subserviente às ordens “de cima”. Felizmente são poucos os que não aceitam a verdade exposta pelo próprio Trump em entrevista ao jornalista Bob Woodward, admitindo que sabia que o vírus era perigoso e mortal; mas decidiu esconder os riscos para evitar pânico.
Agora – derrotado nas eleições – Trump deu uma meia volta e o seu governo assumiu a vacinação em massa, no que não é lamentavelmente seguido pelo seu seguidor brasileiro Bolsonaro, que sequer abandonou a propaganda da ineficaz cloroquina aconselhada pelo líder imperial. E nisso é bovinamente apoiado por gente que inventa curas milagrosas com a medicação adequada à malária…
Revoltei-me na época da “Guerra da Lagosta” com o presidente francês De Gaulle dizendo que o Brasil “não era um País sério (n’est pas serieux”), hoje, entristece-me reconhecer que a referência cairia como um enorme “sombrero mejicano” nas nossas cabeças envergonhadas com o Presidente que temos…
A subalternidade hierárquica de Bolsonaro ao Negacionismo torna-se mundialmente ridícula pelos seus comentários sobre a maior pandemia desde a gripe espanhola, tratando-a como “gripezinha” e “resfriadinho”, em declarações ora negadas, ora desmentidas pelos seus fanáticos seguidores.
Este besteirol negacionista ocorreu em várias ocasiões com alusões, piadas de mal gosto e insinuações, até chegar ao fim deste ano de crise, com o Presidente sem máscara e provocando aglomeração, respondendo a um repórter que lhe perguntou sobre o atraso do Brasil em relação a países que já iniciaram a imunização vacinal: – “Não admito pressões, não dou bola para isso”.
Ao registrarmos a ida sorridente de Jair Bolsonaro para tomar banho de mar no Guarujá, vemos que pouco se lhe importa o grave problema educacional com a suspensão das aulas, nem o imenso número de desempregados. Para ele está tudo politicamente controlado com Ministério da Saúde e a Anvisa sob seu comando.
Ainda mais entristece neste final de 2020 é chegarmos perto de 200 mil mortes pela covid-19, vendo o luto dos familiares chorando a morte dos entes queridos. Esta triste despedida, porém, conscientiza a todos do desrespeito do Presidente da República com as vítimas da sua estupidez.
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PSICOLOGIA
MIRANDA SÁ (Email: nirandasa@uol.com.br)
“Certamente você tem um revólver e eu, o conhecimento. Cada um na sua capacidade”. (Wilhelm Reich)
Responsável pela derrubada do Governo João Goulart em 1964, o general Olímpio Mourão Filho, de indiscutível honestidade pessoal, registrou no seu livro de memórias “A Verdade de um Revolucionário”: “Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semianalfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta”.
A adulação com os ocupantes do poder é antiga entre nós, tendo começado com a carta de Pero Vaz de Caminha comunicando ao rei Dom Manuel sobre o “achamento” de terras deste lado do Atlântico, aproveitando, entre elogios, para pedir emprego para um parente…
Não há dúvida de que a degenerescência do regime comunista na finada URSS, teve como uma de suas causas o “culto da personalidade de Stálin”, lição não aprendida pelas caricaturas do stalinismo, com o culto dos chefes de Estado, como ocorreu em Cuba a divinização de Fidel Castro e ainda vemos nos dias de hoje com o ditador coreano Kim Jong-um.
O general Olímpio Mourão Filho não era um psicólogo, mas um acurado observador das pessoas e dos costumes; usou, consciente ou inconscientemente o método científico da Psicologia, de analisar, enxergar e pesquisar de cautelosamente o paciente. No coletivo, a massa inculta emprenhada de subserviência….
Dicionarizado, o verbete Psicologia é um substantivo feminino de origem grega, formada das palavras “psyché” (alma, espírito) e “logos” (estudo, razão, compreensão), que deram no latim clássico psychologia; psico + logia. Os gregos antigos designavam-na com referência ao ar frio e à alma; os romanos como “estudo da alma”.
A Psicologia foi incorporada à terminologia médica criado em 1590 pelo teólogo alemão Felipe Melanchthon, um estudioso preocupado com problemas mentais na sua congregação.
Hoje considerada uma ciência, a Psicologia estuda a mente e o comportamento dos seres humanos, individualmente ou em grupos. Analisa a associação de ideias, emoções, avaliação autocrítica e visão crítica de fatos e das pessoas com o quê o indivíduo interage. Mesmo na Veterinária já se estuda também distúrbios de animais.
A psicologia adentrou nos meios políticos pela propaganda, principalmente os regimes totalitários. Wladimir Ilitch Lênin anunciou pelo rádio a vitória da revolução de 1917, e considerava a difusão radiofônica como estratégia de convencimento, tese mais tarde aproveitada por Adolf Hitler nas campanhas do partido nazista.
Aliás, a propaganda nazista, do ponto de vista psicológico, é profundamente estudada por Wilhelm Reich no livro “Psicologia de Massa do Fascismo”. Neste trabalho, Reich cita o próprio Hitler que escreveu no seu livro “Mein Kampf” (Minha Luta): “A voz do povo nunca foi mais do que a expressão daquilo que do alto se lançou sobre a opinião pública”.
A influência psicológica exercida pelos bancos, pelo Comércio e pelos governos exerce uma poderosa transcendência não somente nas massas, mas de uma forma especial sobre as classes médias.
No Brasil assistimos, por um paradoxo histórico, o exemplo das classes médias revoltadas contra a corrupção lulopetista, que engrossaram a campanha eleitoral de um desconhecido político do baixo clero parlamentar, Jair Bolsonaro, graças à propaganda sub-reptícia da direita populista com promessas inexequíveis.
As altissonantes palavras-de-ordem contra a corrupção (enaltecendo o juiz Sérgio Moro e a Operação Lava Jato), os acenos de mudanças com críticas à picaretagem parlamentar e a defesa das privatizações conquistaram mais de 30% dos votos….
Lembra-me o enunciado de Carl Jung: – “quem olha para fora sonha e quem olha para dentro desperta”, confirmando o despertar da psicologia instintiva dos brasileiros revoltando-se pela traição e, pior, a inversão do combate à corrupção e ao crime organizado por interesse familiar.
Este repúdio cresceu e se manifesta mais vigorosamente com o negacionismo obscurantista do Presidente diante da pandemia, desdenhando da prevenção para a imunização criticando as vacinas. Neste cenário de quase faroeste, se trava a luta entre o revólver e o conhecimento…
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PAPAI NOEL
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A única pessoa que gosta de ficar de saco cheio é o Papai Noel” (Everton Medeiros)
Esperei, mas ainda não apareceu entre os auto-assumidos “direitistas” e pseudo “conservadores”, um que propusesse vestir Papai Noel de azul ou verde porque vermelho é cor de comunista…. Espero que não ocorra tal estupidez após a publicação deste texto….
Referi-me outro dia num dos textos polêmicos que de vez em quando escrevo, sobre as pessoas que insistem em deletar o passado. Entristecem-me por nunca terem lido o poeta Mário Quintana, sem tomar conhecimento do seu brilhante pensamento: “o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.
O Vate Gaúcho foi maravilhosamente elucidativo, igualando-se à referência de Orwell ao “Ministério da Verdade” no “1984”…. Sempre foi de uso dos regimes totalitários várias maneiras de apagar o passado. A História registra a famosa fotografia dos revolucionários de 1917 em torno de Wladimir Lênin, que Stálin mandou os retocadores tirarem Trotsky, seu desafeto.
Nunca procurei saber (até fazer pesquisas para este texto) porque Papai Noel se veste de vermelho. O seu símile na Europa sob influência romana, São Nicolau, veste-se como bispo católico com a mitra na cabeça. Nos países nórdicos popularizou-se como Joulupukki, na Finlândia e Julenissen, na Noruega.
Atravessando o Atlântico, São Nicolau chegou aos Estados Unidos onde se transformou em Santa Claus (o nosso Papai Noel) graças ao desenhista Thomas Nast, que ilustrou o poema “Uma visita de São Nicolau”. Traçou uma caricatura do Santo tal como conhecemos Papai Noel: barbas brancas, barrigudo, com gorro e túnica vermelhos, botas e luvas brancas.
As transmutações do lendário personagem em tempo e espaço permitem que a qualquer época se proponha mudanças na sua imagem. No Brasil, na década de 1930, o líder integralista Plínio Salgado propôs que se usasse a figura do “Vovô Índio” no lugar de Noel, mas não colou, nem mesmo entre os seus partidários.
A tradição arraigada no consciente coletivo impede qualquer tentativa de mudar a conhecida figura; por isso aviso aos macarthistas brasileiros do século 21, que Papai Noel não é comunista.
Lembro-lhes que na finada URSS as festividades natalinas foram proibidas e que o Bom Velhinho (mesmo vestido de vermelho) foi exilado e substituído pelo “Ded Moroz” (em russo Дед Мороз), que significa “Avô Gelo”.
Assim, é muito bom que se mantenha a figura de Papai Noel como ela é, do mesmo jeito como devem ser preservados os personagens de Monteiro Lobato, as marchinhas carnavalescas, o frevo pernambucano, a lavagem das baianas na Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, o Boi do Maranhão e as tradições gauchescas….
Por quatro ou cinco gerações a minha família – de ambos lados, materno e paterno -, manteve o costume de pintar ovos de galinha na Páscoa, escondendo-os para que crianças os achassem. Brinquei assim com os meus filhos e acho que eles mantiveram essa tradição.
Neste Natal, do Ano do Senhor de 2020, vivemos sob o medo de transmissão do novo coronavírus e a letal covid-19. Somos obrigados a enfrentar a pandemia sem as festividades que reúnem as famílias bem estruturadas; no meu caso, sofri bastante para encarar (telefonicamente) o meu filho mais velho, Henrique, abdicando da minha presença na festa que ele organiza todos os anos.
Felizmente Henrique concordou, e passaremos o Natal eu, minha mulher, Marjorie, e o nosso gato, Lennon, em casa. À mesa, uma salada de bacalhau, panetone e pudim de leite, todos feitos em casa, comporão a nossa ceia da saudade.
O nosso robô Alexa, será acionado para tocar canções natalinas e bonequinhos de Papai Noel movidos à pilha, que foram do meu neto Heitor quando pequenininho, dançarão para nós. Acenderemos uma vela, com o pensamento voltado para 2021, para um Natal livre da ignorância negacionista, portanto vacinados, e nos abraçando.
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BOCA DE FORNO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Obedecei mais aos que ensinam do que aos que mandam. ” (Santo Agostinho)
O avanço da tecnologia com o computador trouxe-nos a Internet e as redes sociais, facilmente ativadas pelos laptops e celulares. Com isto, estabelecemos a “aldeia global” preconizada lá atrás, na década de 1960 pelo filósofo canadense Herbert Marshall McLuhan, projetando redução das distâncias pela eletrônica.
Mais adiante, o professor Diego Beas, analista político, nos presenteou com um pensamento antológico: “A rede social dotou o cidadão de uma nova e magnífica ferramenta que necessariamente subtrai poder ao Estado”.
… E assim o Planeta Terra converteu-se numa cidadezinha do interior graças à informática, onde já se reinventou os costumes e muita coisa está sendo reinventada para que ocorra as necessárias mudanças estruturais que reflitam a realidade sócio-políticas das nações.
Isto alegra os defensores da Ciência, mas traz saudade dos tempos dos “jogos de botão sobre a calçada, quando a gente era feliz e não sabia” (Ataulfo Alves)…. Este sentimento nos afasta do mecanismo frio para afirmar que nem os videojogos nem a televisão mataram as brincadeiras infantis, como Amarelinha, Bafo, Boca-de-forno, Bota, Cabra-cega, Dança das cadeiras, Esconde-esconde, Estátua, Passa anel, Passa passa gavião, Pega-pega e Viuvinha…
Estes divertimentos lúdicos ainda estão vivos em muitas escolas, subúrbios metropolitanos e cidades do interior…
Quando a gente é menino, entretanto, sonhamos em tornarmo-nos adultos, adulteramo-nos…. E assim azedamos o doce aprendizado infantil exercendo a cidadania para analisar a Economia e procurar entender a Política, construindo uma personalidade independente, seguindo o pensamento do admirável filósofo, físico e matemático francês René Descartes, que resumiu a sua concepção da vida numa frase: – “Penso, logo existo”.
É claro que há muitos que pensam diferente do Filósofo; alguns, possivelmente, tentarão até denegri-lo, porque preferem “pensar” pela cabeça alheia na recreação “Boca-de-Forno” em que uma das crianças é escolhida para representar o Mestre, e os outros obedecem passivamente….
Lembram? A brincadeira começa com o Mestre dizendo em voz alta: – “Boca-de-forno”! … E a manada responde uníssona: – “Forno”! O Mestre então levanta: – “Tirando o bolo”. E os outros respondem: – “Bolo”! Aí vem uma palavra-de-ordem: – “Farão tudo o que seu mestre mandar?” E o grupo se assume: -“Fazeremos todos! “. Nunca entendi o “fazeremos”, mas era assim que se dizia…
Então o jogo passa a ser levado pelo autoritarismo, com o Mestre dando ordens absurdas aos participantes que obedientes saem para cumprir as tarefas. O primeiro que volta se torna o mestre, e o último é castigado com bolos na mão dados por todos.
É claro que em nome da Democracia respeito o efeito preguiçoso de quem não “ousa pensar por si mesmo”, como preconiza Immanuel Kant. Mas, todavia, parece-me inadmissível usar as ferramentas tecnológicas das redes sociais tangidos pelas lideranças aceitas como “a voz do Mestre”.
Esta submissão “ideológica” torna-se perigosa quando sai da opinião xerocada no mundo digital e mergulha no pântano da fraude e da criminalidade, como vem sendo feito para defender condutas e orientações urdidas nos andares “de cima” do poder.
Isto se viu e se vê, desde que os “conservadores bolsonaristas” passaram a defender os “cartões corporativos”, a aceitar o “foro privilegiado”, a ficar contra à prisão na 2ª Instância, de isolar a picaretagem do Centrão e de adotar o negacionismo insano e genocida diante da pandemia do novo coronavírus.
Fazer tudo o que seu Mestre mandar deve se limitar aos jogos infantis. As redes sociais tão importantes para a construção de um futuro feliz de paz, ordem e progresso, não devem bater palmas para maluco dançar….
É melhor correr o risco de ser chamado “maricas”, virar jacaré, de homem falar fino ou de nascer barba em mulher, do que assumir o fanatismo subserviente ao obscurantismo anticientífico de um sociopata qualquer…
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