Artigo

LEITURA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.”  (Mário Quintana)

Antes de me profissionalizar como jornalista, trabalhei em vários órgãos da imprensa do Rio de Janeiro que já não circulam. Guardo com saudade “A Manhã”, dos Diários Associados, onde reportei o esporte amador dos subúrbios cariocas; e, o “Diário Trabalhista”, onde fiz a incursão pelo jornalismo político. Reverencio especialmente a lembrança da revista “Leitura”.

Despertando para a vida, tive a felicidade de ver, mesmo de longe, na redação da Leitura, na Rua das Marrecas, Carlos Drummond, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Lúcia Miguel Pereira, Raquel de Queiroz, Rubem Braga…. E ao tê-los por perto, mergulhei na produção literária deles….

Graças à convivência imaginária com estes ídolos, tornei-me um voraz leitor. Li tudo o que me caiu nas mãos; além dos periódicos, jornais e revistas, os almanaques (multiplicavam-se naquela época), “best-sellers” estrangeiros, peças teatrais, poesias, romances, e até bula de remédio…

Adotei obsessivamente uma máxima de Monteiro Lobato, que veio num artigo escrito para a Leitura, alertando: – “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê. ”

Partindo daí, não vejo o “pior analfabeto” de que fala Brecht; para mim todos analfabetos são os piores indivíduos da raça humana… Excetuam-se apenas os combatentes em campo de guerra, conforme ouvi um relato sobre a atuação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra.

Um primo meu, que foi para a Itália guerrear contra o nazi-fascismo, contava uma passagem do comandante da FEB, general e depois marechal Mascarenhas de Morais, uma história que nenhum livro divulga.

“Quando inspecionava as tropas, Mascarenhas viu um soldado que trazia duas medalhas no peito, a cruz da bravura e a cruz do mérito; então perguntou ao oficial no comando: -“Por que este soldado ainda não foi promovido? ”. E ouviu que o praça era analfabeto e o regulamento impedia isto.

O General foi curto e grosso: – “Se ele demonstra coragem enfrentando o inimigo e conquista vitórias, quem vai exigir que leia e escreva? ”; e atropelando a regra, promoveu o soldado a sargento…

Esta é a única exceção porque o analfabetismo é imperdoável, mesmo considerando que o acesso aos estudos no Brasil é privilégio da alta burguesia e das classes médias; mas não são poucos os que rompem com isto, e mesmo com o ensino público deficiente, enriquecem-se pelo autodidatismo. Não há perdão sequer para militares analfabetos cujo combate se trava nas trincheiras da política…

A leitura está muito facilitada pelo advento da Internet e o acesso às redes sociais. Acompanhei (não vou citar nomes) muitos que se iniciaram trocando dois esses pelo cê cedilha e botavam ene antes de pê e bê…. Na sua maioria, passaram a escrever razoavelmente bem, e esta evolução se deve à leitura expressa no exercício da escrita e à paciência e à bondade dos vários professores que atuam na Rede.

O verbete Leitura, dicionarizado, é um substantivo feminino significando “ação de ler, compreender um texto escrito”; tem origem no verbo latino “lĕgo,is,lēgi,lectum,legĕre”, captar com os olhos, substantivado como “lectura,ae”.

Não me lembro qual o filósofo que defendeu a tese da importância da leitura ultrapassar os livros, aconselhando que se deve ler diretamente a realidade que nos cerca. Considero interessante a proposta, mas quem tem preguiça de pegar um livro terá olhos para ler o mundo?

Está certo o Padre Antônio Vieira quando diz que “Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar”. É assim que lemos penosamente a realidade brasileira, vendo a falta de estímulo do Ministério da Educação e das próprias universidades que dão mais valor a um diploma do que ao conhecimento.

Aos meus leitores (coautores dos textos, como diz Ledo Ivo) os meus agradecimentos; e, como na sinonímia da palavra “Ler” encontramos também “Advinhar”, podem crer que faço tudo para compreendê-los e interpreta-los.

MITOMANIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br )

“Não é aconselhável encontrar símbolos em tudo aquilo que se vê. Os símbolos tornam a vida cheia de horrores…” (Oscar Wilde)

Sou um admirador do mineiro Affonso Romano de Sant’Anna como poeta, mais do que como professor de literatura…. Degusto as poesias e nunca assisti suas aulas…. O pessoal do Twitter é testemunha de que não canso de postar os versos dele, recortados na sua maioria da “Implosão da Mentira”, um poema sempre atual no nosso cenário político…

A implosão da mentira faz parte da minha preocupação, pela multiplicação de falsos símbolos e criação de mitos vazios destinados a movimentos e personalidades na luta pelo poder; é a veneração dos tontos pelos protagonistas do show da mentira.

Exigente em relação aos agentes públicos, vejo muitas dessas figuras mais como mitômanas (ou mitomaníacas, como querem muitos) do que como mitos (como querem alguns).

Para a Mitomania, compulsão patológica para mentir, vou sempre a Sant’Anna, do qual reproduzo um excerto, extrato magnifico da sua poesia, à apreciação dos meus leitores:

“Mentiram-me./  Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente./ Mentem de corpo e alma, completamente./ E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente./ Mentem, sobretudo, impune/mente”.

O verbete Mitomania dicionarizado é um substantivo feminino de origem grega, composto da raiz “mythos”, que significa ‘história’ ou ‘palavra’, e do sufixo “mania”, significando ‘desejo desordenado’. O termo é vigente na Psicologia como a tendência mórbida para contar mentiras compulsivamente, criar histórias fantásticas ou simular situações inexistentes.

Por não encontrarmos textos fora da Medicina sobre a mentira patológica, acatamos os estudos médicos sobre os sinais e sintomas deste transtorno de personalidade, entendendo-os como a “predisposição para mentir”.

Estudos neurocientíficos sugerem que este transtorno decorre de determinadas condições mentais, como transtorno bipolar, esquizofrenia ou transtorno de personalidade limítrofe.

Pesquisa feita pela Universidade Stanford, da Califórnia, Estados Unidos, levantou dados com crianças de 200 famílias de origem e formação diferentes, e concluiu que meninos e meninas começam a mentir com seis anos, mas que pela repressão doméstica e a convivência escolar abandonam o hábito; são poucos indivíduos que se tornam mitômanos.

Para o poeta e escritor russo Boris Pasternak, autor do famoso romance “Doutor Jivago”, em que relata as perseguições do regime stalinista contra a liberdade de expressão do pensamento, tem uma frase que talvez lhe condene aqui e agora: – “Os detentores do poder ficam tão ansiosos por estabelecer o mito da sua infalibilidade que se esforçam ao máximo para ignorar a verdade.

É um pensamento que vem de encomenda para o presidente Jair Bolsonaro, eleito “mito” pelos seus aduladores fanáticos e, talvez por isto usa e abusa da própria condição mitômana da infalibilidade… Desdenhou da pandemia do novo coronavírus tratando-a como uma “gripezinha”, receitou, a conselho de Trump, remédios ineficazes e condena a imunização em massa pela vacina.

Aparelhou o Ministério da Saúde com militares da ativa e da reserva sem a menor experiência em saúde pública. Perfilam-se diante dele, mas batem cabeça na campanha da vacinação aceitando suas ordens negacionistas.

Felizmente os brasileiros em geral – com exceção dos cultuadores da personalidade do Presidente – registram os discursos irrealistas, as opiniões insensatas e o comportamento estúpido dele, tudo oxigenado de mentiras para fazer-se acreditar.

Enganou durante um certo tempo com mensagens inexatas e fictícias que não se mantiveram; pelo contrário, levaram-no de “mito” a mitômano, aquela pessoa que “de tanto mentir tão brava/mente constrói um país de mentira diária/mente”…

 

 

ADULADORES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

 “Os aduladores são a pior espécie de inimigos” (Tácito)

Encontramos nos dicionários de nordestinês do cearense Tomé Cabral e do paraibano Horácio de Almeida o termo “Adulão” designando o adulador. É usado como um desprezo ao agente da subserviência, que a altivez popular do Nordeste condena.

O verbete Adulador é dicionarizado como adjetivo, o que bajula, o lisonjeador; e também como substantivo masculino para o Indivíduo que adula; quem faz elogios em excesso. A etimologia é latina, “adulator,oris”, aquele que adula.

Esta fauna é encontrada em todos ramos da atividade humana e se multiplica com filhotes tal e qual ratazanas de esgoto, que pare doze ou mais cada vez….  Surgem na escola, no emprego, nas forças armadas e nas repartições dos governos; e até de onde não se espera, no exercício profissional…

Aprendi com a minha mãe que o bajulador é um ser desprezível e meu pai dizia que a gente fica mais confiante e mais forte com as críticas. Estas lições me fazem incomodar muita gente com a verdade, do que agradar com bajulações.

Por isso, recebo críticas sobre o que escrevo defendendo a vida contra o negacionismo obscurantista, filho da ignorância e da politicagem. Faço-o permanentemente comentando, denunciando e perfilando os cúmplices conscientes do vírus, ou omissos em contestá-lo.

Como uma realidade funesta, a pandemia do novo coronavírus construiu um sistema mental de revolta, que assumo, contra os que desdenham a ameaça da covid-19 e negam os avanços científicos na busca de combate-la.

Numa comédia de Shakespeare, “Noite de Reis”, um dos personagens rejeitado no seu meio, que comenta – “Os amigos me adulam e me fazem de asno, mas meus inimigos dizem abertamente que o sou; de forma que os amigos me prejudicam e com os inimigos aprendo a me conhecer”.

Como a cena política é um teatro, nós, do auditório, assistimos os personagens principais trocando falsas lisonjas influenciando os coadjuvantes a adulá-los para melhor aproveitar-se deles.

Nada melhor representa isto do que as figuras que cercam o presidente Jair Bolsonaro, a partir dos próprios filhos, que sempre viveram à sua sombra e às suas custas; e se estende aos ministros nomeados do círculo familiar ou figurantes reservistas para mostrar compromisso militar.

Lembram-me a “Verdade de um Revolucionário”, em que o verdadeiro líder de 1964, o general Olímpio Mourão Filho, vê pela lupa da verdade o mundo da bajulação, e observa: “Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semianalfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta”.

Na crise inegável que atravessamos, os bajuladores não se limitam ao governo, são figurantes secundários que se abraçam ao tronco do poder como parasitas para sugar a sua seiva…  Multiplica-se no varejo das redes sociais, legiões de fantoches (o povo os trata como mamulengos) manipulados desde os porões do Palácio do Planalto.

Essas marionetes não regatearam aplausos quando Bolsonaro declarou no ano passado que “a pandemia está no fim e pressa para vacina não se justifica”; e agora deram uma guinada de 180 graus, convertendo o líder negacionista em “Pai da Vacina”…. Quanta hipocrisia!

Por fanatismo ou vantagens pessoais, pouco importa aos aduladores que Chefe, mesmo com presumível formação militar, ignore o grande estrategista Carl von Clausewitz e seu livro “Da Guerra”, ensinando que “quem não colabora, prejudica”; e também desconhece a lição antológica de Napoleão Bonaparte: – “Quem sabe adular também é capaz de caluniar’.

No mundo civil, temos a antiquíssima filosofia hindu ensinando que “as línguas dos aduladores são mais macias do que seda na nossa presença, mas são como punhais na nossa ausência….

 

 

DISCRIÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Falar é bom, calar é melhor, mas ambos são desagradáveis quando levados ao exagero” (La Fontaine)

Li certa vez, mas olvidei o nome do autor, o pensamento: – “a avareza das palavras não é falta de cultura, mas sinal de inteligência”. Sem dúvida, um bom conselho, porque quem exagera no falar é taxado de boquirroto, falador e tagarela…. Quem muito fala é sempre indiscreto, mente ou revela segredos; e o povo não perdoa.

Algumas pessoas, porém, gostam de falastrões, principalmente dos falastrões políticos que põem nas redomas da adoração pessoal. É conceito geral, entretanto, que levantar ideias com poucas palavras é louvável, mas que se deve evitar o exagero.

A História dos Estados Unidos tem um capítulo dedicado ao presidente republicano Calvin Coolidge, um intelectual do Estado de Vermont. Ali se ressalta o comedimento dele com as palavras; diz que iniciava seus discursos prometendo reduzir o assunto a ser tratado.

E tem uma anedota sobre ele contando que um dia, voltando da Igreja, Coolidge foi perguntado pela esposa: – “Que tal o sermão de hoje? ”; ele respondeu: – “Bom”. Ela continuou: – “Qual foi o tema? ”; e ele: – “Pecado”. A mulher insistiu: – “Que disse o pastor?; ele: – “Contrário”….

Esta sovinice de Coolidge com as palavras chegou ao máximo quando num jantar uma senhora se achegou e disse-lhe: – “Presidente, eu apostei que conseguiria fazê-lo falar cinco palavras…” Ele interrompeu-a: – “Perdeu”.

O exemplo do norte-americano vem de longe. Quando fizemos o ginásio e estudamos a História Romana, encontramos Júlio Cézar, cujo relatório após a conquista da Gália se resumiu ao “Vim, vi e venci” (Veni, vide, vinci). E mais tarde tivemos também o admirável René Descartes, que constituiu um sistema filosófico resumindo a sua tese sobre a Razão com apenas três palavras: – “Penso, logo existo”.

A discrição merece respeito e deveria ser obrigatoriamente usada pelos agentes públicos que exercitam a política. A sabedoria popular usa um ditado que diz “falar é prata, calar é ouro”, e ensina “que palavra fora da boca e pedra fora da mão não voltam atrás…”.

Infelizmente estas lições não mergulham no poço da mediocridade que domina a cena política no Brasil. Fui repórter cobrindo a Câmara Federal e o Senado, e me abate, e me envergonha, que não tenhamos mias congressistas como antigamente; o nível é baixíssimo nas duas casas. Por concessão cautelosa, registro algumas exceções.

Muito mais insignificante é o nível ministerial. Mais baixo do que em qualquer regime, do que em qualquer época, no Império ou na República…. Aí, também por cautela, seria insensato não livrar alguns, poucos, mas existem.

Ocupando pastas, direção de órgãos administrativos superiores ou presidências de empresas estatais, há pessoas que podemos ressalvar sem nos amesquinhar; mas a imensa maioria, entretanto, segue o padrão do presidente Jair Bolsonaro, falando muito para esconder a inação administrativa.

O maior exemplo é do ministro-general Eduardo Pazuello que muitas vezes diz e se desdiz em pronunciamentos importantes para a Nação. Só marcando a data da chegada da vacina e o dia da vacinação, marcou várias horas “Hs” e vários dias “Ds” rodando num carrossel iluminado e colorido de ilusões.

Só não vê quem não quer que o governo federal está baratinado diante da pandemia, sem um comando que imponha respeito, acatando as ordens do ignorantérrimo presidente Bolsonaro, que me traz à lembrança a posição enérgica do rei Juan Carlos dirigindo-se ao boquirroto ditador venezuelano Hugo Chávez, na XVII Conferência Ibero-Americana: – “¿Por qué no te callas? – Uma reprimenda que deveria servir de lição para qualquer político e principalmente para o Presidente.

Serviria como uma luva para o Capitão boca-rota, antigo admirador de Chávez, cujos excessos ilimitados nas declarações e entrevistas, seriam dispensáveis até para ele próprio. O “cala boca” teria o apoio dos eleitores que votaram nele contra a corrupção, e se arrependeram.

Para Bolsonaro, mesmo mouco para qualquer orientação cultural, valeria a lição de Abraham Lincoln: – “É melhor calar e suspeitarem da sua pouca sabedoria, do que falar e eliminar qualquer dúvida…”

 

 

VACINA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Vale mais prevenir que remediar!” (Galeno – O “Pai da Farmácia”)

A vacina é indispensável para garantir a saúde e a vida dos povos. Foi com muita tristeza que acompanhamos o nosso atraso no enfrentamento da covid-19, quando em todo o planeta os governos, entidades privadas e instituições filantrópicas se mobilizaram e contribuíram para as pesquisas de anticorpos imunizadores contra o vírus.

É um momento de mobilização mundial sem precedentes para enfrentar a covid-19; inúmeros países investiram bilhões de dólares para o desenvolvimento de vacinas e a comunidade científica, por sua vez, faz História ao produzi-la em tempo recorde.

O Brasil também vive hoje um dia histórico, escrito pela Anvisa, seu corpo de médicos e pesquisadores, que acaba de aprovar, por unanimidade, as vacinas desenvolvidas pelo Butantan e a FIOCRUZ, calando o negacionismo caricato e ignorante. Assim, “Habemus Vacinnae! ”.

Nesta nova realidade, é essencial que se faça (como já se fez) campanhas educativas sobre a imunização. A informação é indispensável para alertar e instruir a sociedade sobre o uso dos imunizantes; e o foco da instrução depende das pessoas esclarecidas contra o obscurantismo negacionista.

Tivemos no passado militares estudiosos da geopolítica e de Economia desenvolvimentista, que quando ocuparam o poder (1964-1979), fizeram várias campanhas educativas explicando a necessidade da vacinação. Eram conscientes da importância de vacinar as crianças para protege-las de doenças epidêmicas que grassavam no País.

Uma dessas promoções, em 1972, obteve o maior sucesso, trazendo um curioso personagem de animação, Sujismundo, que se recusava a tomar vacina, justificando: – “eu não tô doente…”, – “prá quê espetadas inúteis? ” – Eram os argumentos negacionistas da época.

Sujismundo se apresentava mal-ajambrado e sujo, provocando rejeição a si; mas em compensação o programa trazia a figura limpa, inteligente e vivaz de Sujismundinho, um garoto filho de Sujismundo, que exigia ser vacinado.

Aqueles filmes publicitários alertavam que a vacinação era obrigatória para crianças, e os pais que se recusassem vacinar seus filhos perderiam direito ao salário-família. Assim, conseguiu-se debelar muitas enfermidades no Brasil.

O êxito da propaganda incentivou mais tarde, na década de 1980, o aparecimento de Zé Gotinha, personagem que foi estudado na brilhante tese de mestrado de Johnny Ribas da Motta, da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade de Goiás.

Esta segunda campanha, igualmente meritória, trouxe um estímulo para a divulgação regional, com verbas para promover atividades artesanais de comunicação, como teatro de bonecos, literatura de cordel e desafios repentistas….

Mas o que passou, passou. Era muito difícil imaginar que viéssemos a ter na presidência da República um indivíduo com a mentalidade de Sujismundo; mas infelizmente é isto que temos; hoje impera nos círculos do poder a demência negacionista, ignorando os avanços científicos da medicina preventiva.

É triste constatar que este fato negativo é um produto mental importado da loucura de Donald Trump, reacionário retrógrado que felizmente foi derrotado na reeleição pelo povo norte-americano, repudiando suas trapaças egocêntricas…. Mas sua herança boçal do negacionismo vigora no Brasil como uma caricatura toscamente desenhada para as mentalidades colonizadas.

Toda Nação, quase à unanimidade – com exceção do bloco dos sujismundos, doentios seguidores de políticos animadores de auditório –, ansiava por um programa de vacinação de massa para enfrentar o novo coronavírus e a letal covid-19.

Com “ansiedade e a angústia” depreciadas pelo ministro-general Pazuello, eu gostaria de ajudar nisto; se tivesse a força de um ”digital influencer”, abriria nas redes sociais um concurso para eleger o Sujismundo da atualidade… O meu voto seria para Bolsonaro…

 

 

 

MAQUIAGEM

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Tem pessoas que deviam comer maquiagem prá ver se ficam mais bonitas por dentro”. (Coringa)

Desde menino sei como as mulheres de todas as classes sociais e de todas as idades usam cosméticos querendo, na opinião delas, melhorar a aparência. Há controvérsias, pelo menos na opinião de Shakespeare, que botou na boca de Hamlet uma reprimenda para Ofélia: – “Ouvi falar da vossa maquiagem. Deus vos deu um rosto e vós fazeis dele outro rosto”.

Will bateu com a brasileiríssima opinião expressada por Dorival Caymmi, que cantou – “Marina, me faça um favor, não pinte este rosto, você é bonita com o que Deus lhe deu”….  Foi no tempo em que não se condenava o machismo romântico pelo “politicamente correto”…

O certo é que o enfeitar-se (e hoje não é só uma preocupação das mulheres, mas dos homens também) exige pomadas e loções para branquear a pele, lápis delineadores para os olhos e sobrancelhas, rímel para as pálpebras e os cílios, ruge para a face, batom para os lábios, hena ou água oxigenada para os cabelos, e esmalte para as unhas…

Se embeleza as pessoas, é uma questão de gosto; mas o certo é que tornou bilionários comerciantes, industriais e inventores de cosméticos. Alguns deles tiveram os seus nomes popularizados como marcas célebres, como Elisabeth Arden, Coco Chanel, Helena Rubinstein e Max Factor, que aliaram seus produtos às embalagens atrativas e uma massiva publicidade.

“Maquiagem” ou “Maquilagem”, indiferentemente, como verbetes dicionarizados são substantivos femininos, significando ação ou efeito de maquilar, isto é, mudar a aparência de pessoas ou coisas. A palavra vem do francês “maquiller”, pintar o rosto para apresentação teatral.

Esta apresentação etimológica formal é capenga e sua definição é restrita; na verdade, o termo vem de um capítulo épico da História Mundial, da resistência francesa contra a ocupação nazista. “La resistence” era conduzida pelos jovens “maquisards” designação que foi simplificada para “maquis” designando os grupos atuantes que se escondiam nas áreas rurais, bosques e montanhas, e pintavam os rostos em ataques noturnos contra os invasores.

Assim, encontramos também a definição figurada da Maquiagem no sentido de “encobrir alguma coisa”. E é nesse sentido que vemos os maus políticos disfarçados de bons moços, maquiados com a “ética”, a “honestidade” e a “religião” para enganar o povo.

Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir sabe que os picaretas ególatras e corruptos usam a maquiagem enganadora e conseguem por muito tempo iludir as pessoas.

Uma antiga narração tendo como cenário a antiga Grécia, fala de um jogo que andou em moda nas rodas intelectuais, o “Jogo dos Reis” em que uma pessoa era escolhida para ser rei ou rainha e dar ordens indiscutíveis e obrigatórias a cada um dos convivas.

Num desses saraus estava presente a bela cortesã Friné, acatada pela brilhante inteligência e repentismo. Quando foi indicada para ser rainha, ela mandou que os escravos trouxessem bacias com água para as damas presentes; ao receber a sua, lavou o rosto e ordenou que todas a imitassem.

Após a remoção das maquiagens a maioria das caras lavadas eram lastimáveis, enquanto a soberana do jogo manteve o esplendor de sua beleza, elogiada através dos tempos…

Esta anedota histórica foi publicada numa das crônicas do jornalista ítalo-argentino Pittigrilli, exemplificando uma lição que deve ser levada ao eleitorado brasileiro para ser usada, numa exigência aos políticos populistas de direita e de esquerda para que lavem a cara e removam a maquiagem.

No cenário político brasileiro, o exemplo mais-do-que-perfeito é a camuflagem que o presidente Jair Bolsonaro mantém, mesmo depois de trair as suas promessas eleitorais; deveria ser ele o primeiro a usar o sabonete da autenticidade…

 

 

 

DECEPÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O tempo passa e descobrimos que grandes eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais! ”  (Bob Marley)

Findo o segundo ano de governo, fora de realizações pontuais o presidente Jair Bolsonaro atende apenas a duas prioridades: defender os filhos, particularmente o 01, envolvido até o gogó no caso das “rachadinhas”; e a própria reeleição, esquecendo dos acenos eleitorais contrários da campanha eleitoral de 2018.

Este quadro inquieta as pessoas livres do fanatismo político. São muitas críticas dos que votaram nele pelo acolhimento farsante à delinquência filial, intervindo na Polícia Federal, usando a Abin e um grupo particular de arapongagem e, sub-repticiamente, aliando-se ao lulopetismo no combate à Lava Jato.

Também a campanha reeleitoral, a outra obsessão, é desaprovada pelo eleitor do modo populista como é feita, o festival de reinaugurações (até de relógio!), para alegria dos cabos eleitorais, dos jornalistas fuxiqueiros, dos institutos de pesquisa e, principalmente, dos mamadores nas tetas governamentais.

O cenário político expõe a fotografia em grande angular da “direita populista” que persegue o poder pelo poder praticando a pior espécie de eleitoralismo… Pelos conchavos, tenta-se até a volta do lulopetismo corrupto à cena política para ressuscitar o abominável pelego Lula da Silva; uma estratégia oportunista que visa polarizar eleitoralmente a “direita populista” com a “esquerda populista”, ambos combatendo Sérgio Moro, o caçador de corruptos.

Assim, surgiu o “bolsopetismo” uma investida caricatural copiada das jogadas do tucanato de polarização, que ludibriava os desavisados invertendo os princípios éticos da política e patinando na lama da corrupção deixada pelos pelegos lulopetistas.

Pouco importa se isto ameaça a Democracia escondendo que com Lula e o seu “Poste” alastrou-se virulentamente a corrupção na Petrobras, conquistou-se propina para os filhos, ganhando-se o Tríplex e o Sítio, e cometendo crime de lesa Pátria, ao receber dinheiro do ditador líbio Muamar Khadaffi, como foi denunciado por Antônio Palocci.

Diante desses desatinos que chegaram às raias da criminalidade, os brasileiros revoltados apoiaram Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Ledo engano! O “Salvador da Pátria”, não passava de um deputado do “baixo clero” com 28 anos de mandato na Câmara Federal e atravessando 11 partidos diferentes.

Apenas duas correntes o conheciam realmente: os beneficiados pelo “sindicalismo fardado” e os revanchistas militaristas revoltados com a Democracia. Os demais apoiadores que desconheciam o perfil do candidato e as performances dos seus filhos, acreditaram ingenuamente nas promessas eleitorais. E acabaram traumatizados pela decepção.

Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, vê e ouve o Presidente dizer que “o Brasil está quebrado, eu não posso fazer nada…”.  Comentário que está mais para Elba Ramalho falando no mais puro “dilmês”.

A decepção é dolorosa. Como verbete dicionarizado, “Decepção” é um substantivo feminino de origem latina, “Deceptio”, significando ’empulhação, dolo, engano’. Temos também disappoint, do inglês médio vindo do francês antigo desapointer; ambas, no sentido literal, significam “remover do cargo”.

Como já disse alguém (que se perdeu no meu esquecimento), “a decepção não mata, ensina a viver”; é vivendo-a que os brasileiros se revoltam com as bandalhas, as piadas infames e o negacionismo estúpido diante da pandemia.

O desdém pela pandemia que Bolsonaro demonstrou com a fina bossa da ignorância é decepcionante e imperdoável, porque é genocida. As lágrimas derramadas pelos familiares e amigos dos 200 mil mortos exigem a condenação do algoz…

Diógenes de Sinope, também conhecido como Diógenes – O Cínico –, ficou conhecido como o mais folclórico dos filósofos gregos da antiguidade clássica. Andava pelas ruas de Atenas durante o dia com uma lanterna acesa nas mãos procurando a verdade e a honestidade. É dele o excepcional pensamento: “A decepção é filha da expectativa”.

Isto valoriza Bob Marley, nosso epigrafado, pois passados dois anos de decepções, vê-se que os sonhos foram grandes demais e o Presidente é pequeno demais para torná-los reais!

 

FRAUDE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Brasil? Fraude explica“ (Carlito Maia)

Relacionei-me no Twitter e venho acompanhando o professor Magno Holanda, escritor e psicopedagogo. Fui atraído pela exigência dele para que as mensagens na rede social que se refiram às pessoas e instituições tragam os seus nomes, para atestar a fonte da informação.

Principalmente os comentários e as críticas devem ser assumidos pelo autor; isto é fundamental para se evitar fraudes, agora batizadas pelo estrangeirismo “fake news”. Como venho de longe, do tempo do Orkut, e um dos pioneiros do Twitter, sou até mais exigente: acho que as contas devem ser abertas e usadas com o nome próprio do responsável.

Seria uma forma de evitar a participação nas redes sociais do pior tipo dos indivíduos, o caluniador e o difamador que se escondem no anonimato.

A fraude é criminosa. Está no artigo 171 do Código Penal: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento: Pena – reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa.

Soma-se ao crime o aspecto humano: é uma ferramenta a serviço do mal. “Fraude”, como verbete dicionarizado é um substantivo feminino de origem latina, “fraus,dis”, vindo de “frustari”, significando a ação de lograr, iludir, enganar, fazer errar”.

O ato delituoso para enganar alguém está sempre presente na politicalha…. Campeia livre, leve e solto entre os picaretas do Congresso; ali se assiste ardis de toda ordem, os “jabutis” postos nos galhos de projetos bem-intencionados, falsificação de documentos e “contrabando ideológico” para justificar traições ao eleitorado.

Este mal está em desarmonia pelo mundo todo, com uma riquíssima sinonímia (só na gíria de traficantes e milicianos encontrei mais de trinta), e na terminologia policial outros tantos. Nos dicionários, garimpa-se falcatrua, farsa, burla, dolo, embuste, golpe, intrujice, logro, ludibrio, tramoia, trampolinagem, trapaça e trapalhada…

Neste momento que atravessamos, ecoa retumbante no cenário mundial a tentativa de fraude nos Estados Unidos urdida pelo presidente Donald Trump; foram criminosos os seus áudios divulgados pelo The Washington Post, pressionando o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, a “achar” votos com os quais pudesse mudar o resultado eleitoral.

O delito cometido é tão flagrante que, segundo o famoso jornalista Carl Bernstein, o caso supera o Watergate que culminou na queda de Richard Nixon; Bernstein acha que os áudios são provas “suficientes’ para o impeachment.

O “esperneio” desesperado com a derrota eleitoral culminou na ação estimulada pelo louco que ainda ocupa a Casa Branca para que seus seguidores fossem protestar em Washington, o que terminou com a invasão e depredação do Congresso americano.

Assim, a quarta-feira, seis de janeiro de 2021, foi um dia que abalou o mundo, ofuscando a visão dos que viam nos Estados Unidos o baluarte da Democracia com Trump e os seus  comparsas empunhando as bandeiras da Confederação, símbolo da volta ao passado escravagista.

O triste para nós é que a insanidade extremista nos EUA deixa sequelas colonialistas no Brasil, com as viúvas bolsotrumpistas chorosas e inconformadas por receberem como herança histórica a lição de que não é fácil a reeleição de um presidente cujo governo não corresponde aos anseios nacionais. A onda negacionista levantada por Trump (que alcançou nas praias brasileiras o presidente Jair Bolsonaro), foi uma das razões do descontentamento popular.

Na pandemia do novo coronavírus assistimos muitos enganos, muitos equívocos, atitudes pouco recomendáveis; mas nada como a repercussão lamentável e desastrosa do tsunami do negacionismo. Nos Estados Unidos e no Brasil, o exemplo de Trump e Bolsonaro é a responsabilidade pelos 360 mil óbitos na América e 200 mil mortes no Brasil. Um genocídio.

 

 

FILOSOFIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol,com.br)

“Não há nada que dominemos inteiramente a não ser os nossos pensamentos” (René Descartes)

Ficaria faltando alguma coisa se depois que escrevi o artigo “Psicologia”, não trouxesse para o meu selecionado grupo de leitores um texto sobre Filosofia. Faço-o fugindo da riqueza que o mundo antigo nos deixou com o saber da China e da Índia e, para nós, ocidentais, o magnífico legado da Grécia Antiga.

É preciso navegar no mar tempestuoso da pandemia, enaltecendo o pensamento moderno, que o filósofo e matemático René Descartes criou quando a Ciência e a Tecnologia ainda engatinhavam de fraldas.

O monumento filosófico erguido por Descartes tem uma lápide com o enunciado que resume a consciência dos novos tempos: “penso, logo existo”.

Para os mais exigentes, está no perfil deste pioneiro da moderna filosofia que ele era um católico praticante, mas multisciente e erudito o bastante para aceitar e adotar as condenadas heresias de Galileu, que expôs no seu livro “Le Monde”, descrevendo a rotação da Terra e negando o geocentrismo obscurantista.

Quase uma leitura obrigatória, destacam-se na sua obra “Discurso Sobre o Método” e “Meditações”, livros em que explica a chamada “dúvida cartesiana”, a base do seu pensamento filosófico.

Bertrand Russel salienta que essa teoria é tão audaciosa que se estende à Aritmética e à Geometria, considerando-as passíveis de dúvida, seja na contagem dos quadrados, seja numa simples operação de somar.

A busca de explicações além do que se pode comprovar pelos sentidos foi um tema que se seguiu depois dele, aceita por Spinoza e todos demais filósofos, até Kant. John Locke, por exemplo, reforçou a dúvida cartesiana com o seu empirismo, exemplificando:

– “Suponhamos que a mente é, por assim dizer, um papel em branco, sem nada escrito, sem nenhuma ideia; de que forma, então, ela se enche? ”. E conclui magistralmente: – “Pela experiência, que encerra todo o conhecimento pessoal”.

O romancista e pensador francês André Gide deixou uma marca indelével sobre a acumulação da experiência resumindo como um princípio: – “Crê nos que buscam a verdade. Duvida dos que dizem tê-la encontrado”. E o genial cineasta norte-americano Orson Welles, ator, diretor e escritor, reforça: – “É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos”.

Vemos com estas intervenções que a Filosofia não é monopólio de ninguém; está ao alcance de quem queira estudar, e mais, de quem queira pensar; dar atenção a um fato, ou a uma teoria, meditar questionando hipóteses e concepções gerais é um exercício mental que se faz sem querer e muitas vezes até sem sentir…

Mesmo assim, para resolver problemas difíceis não há métodos fáceis; ou ocorre espontaneamente na cabeça de alguns privilegiados, ou se encobre com teorias triviais. O genial Shakespeare deixa isto explícito pondo na boca de Romeu que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia…”.

A palavra Filosofia dicionarizada é substantivo feminino, que vem do grego antigo “Philosophia” e significa: “philo”- amizade, amor, afeição e “sophia” – sabedoria; definida como o conjunto das reflexões racionais de cada indivíduo, para entender a realidade. Atribui-se a Pitágoras de Samos a invenção da palavra, que a usava como “apreço ao saber”.

A valorização do saber é levada muito a sério pelos filósofos consagrados e assim se impõe. Outro dia, numa troca de mensagens no Twitter, os protagonistas citaram a Coleção “Os Pensadores”, uma excelente publicação da antiga Editora Abril, e dela colhi que todos apresentados – sem exceção -, enaltecem o conhecimento.

No Brasil que está vivendo sob o triunfo (aparente) da mediocridade, enche-nos de pena ao ver os “filósofos da televisão” e os “filósofos da política” com suas certezas estúpidas sobre tudo, levando a Filosofia ao ridículo. Vê-se que não assistiram a aula inaugural da Etiologia e assim não aprenderam a primeira lição dada: “O ignorante afirma, o sábio duvida e o sensato reflete”.

 

 

 

2020 – Um Ano Perdido

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Tudo crer é de um ingênuo. Tudo negar é de um tolo” (Jean-Jacques Rousseau)

Rompendo o costume de registrar e comentar os acontecimentos factuais do ano, a pandemia do novo coronavírus obriga-nos a reconhecer que 2020 foi um ano perdido e nada ocorreu que pudesse evitar a ocupação de todos os espaços com o coronavírus.

Saltando de 2019 para 2020, assustou-nos em janeiro o aparecimento de vítimas que consumiram lotes contaminados da cerveja Belorizontina, da Backer, em Minas Gerais, com várias mortes. Todos que gostam de uma cerva gelada se sentiram ameaçados.

Mas o perigo estava bem mais distante, na China, numa cidade pouco conhecida, Wuhan, que entra na História da Civilização como o polo originário do novo coronavírus, que fora descoberto em novembro de 2019, mas teve o anúncio em janeiro de 2020.

Em três semanas o vírus se espalhou pelo planeta levando a Organização Mundial da Saúde – OMS -, a convocar um comitê de emergência em 22 de janeiro e no dia 30 reconheceu o surto planetário alertando aos governos nacionais para “uma ação coordenada de combate à doença que deverá ser traçada nas diferentes realidades”.

As medidas de prevenção em âmbito internacional esbarraram em dúvidas e incertezas, culminando com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embora ciente da transmissão do novo coronavírus, ficar contra as medidas defensivas propostas pela OMS, como o isolamento social e o uso de máscaras.

Dessa maneira, tristemente, a América do Norte enfrentou a crise com o governo contrário às orientações dos centros científicos mais adiantados do mundo. A “prescrição negacionista” de Trump impôs o perigo que os norte-americanos pagam hoje; e, muito pior, influenciou perversamente os governantes satélites, como Jair Bolsonaro, no Brasil.

Não se trata de fake news como dizem os “bolsotrumpistas”, grupo subserviente às ordens “de cima”.  Felizmente são poucos os que não aceitam a verdade exposta pelo próprio Trump em entrevista ao jornalista Bob Woodward, admitindo que sabia que o vírus era perigoso e mortal; mas decidiu esconder os riscos para evitar pânico.

Agora – derrotado nas eleições – Trump deu uma meia volta e o seu governo assumiu a vacinação em massa, no que não é lamentavelmente seguido pelo seu seguidor brasileiro Bolsonaro, que sequer abandonou a propaganda da ineficaz cloroquina aconselhada pelo líder imperial. E nisso é bovinamente apoiado por gente que inventa curas milagrosas com a medicação adequada à malária…

Revoltei-me na época da “Guerra da Lagosta” com o presidente francês De Gaulle dizendo que o Brasil “não era um País sério (n’est pas serieux”), hoje, entristece-me reconhecer que a referência cairia como um enorme “sombrero mejicano” nas nossas cabeças envergonhadas com o Presidente que temos…

A subalternidade hierárquica de Bolsonaro ao Negacionismo torna-se mundialmente ridícula pelos seus comentários sobre a maior pandemia desde a gripe espanhola, tratando-a como “gripezinha” e “resfriadinho”, em declarações ora negadas, ora desmentidas pelos seus fanáticos seguidores.

Este besteirol negacionista ocorreu em várias ocasiões com alusões, piadas de mal gosto e insinuações, até chegar ao fim deste ano de crise, com o Presidente sem máscara e provocando aglomeração, respondendo a um repórter que lhe perguntou sobre o atraso do Brasil em relação a países que já iniciaram a imunização vacinal: – “Não admito pressões, não dou bola para isso”.

Ao registrarmos a ida sorridente de Jair Bolsonaro para tomar banho de mar no Guarujá, vemos que pouco se lhe importa o grave problema educacional com a suspensão das aulas, nem o imenso número de desempregados. Para ele está tudo politicamente controlado com Ministério da Saúde e a Anvisa sob seu comando.

Ainda mais entristece neste final de 2020 é chegarmos perto de 200 mil mortes pela covid-19, vendo o luto dos familiares chorando a morte dos entes queridos. Esta triste despedida, porém, conscientiza a todos do desrespeito do Presidente da República com as vítimas da sua estupidez.

 

 

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