Artigo

CHEIRO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não se pode trabalhar num esgoto sem cheirar a esgoto” (José Saramago)

Todas as pessoas que conheço estimulam as lembranças do passado pelos sentidos. São paisagens, olfato, sabores, sons e texturas trazem recordações a muito enterradas no nosso subconsciente; e, para mim, o mais excitante dentre os sentidos é o olfato.

São incríveis os cheiros que me trazem a presença de entes queridos que se foram. De vez em quando, andando pelas ruas passo por uma senhora usando o perfume que minha mãe usava, “Cuir de Russie” de Chanel, trazendo-me imensa tristeza pela ausência dela da minha vida.

“Cheiro” é um substantivo masculino de origem discutida, sendo para mim a mais próxima é a derivada do provençal, “cheiriar” significando lavar com energia as mãos para tirar odores deixados pelo contato com animais, corpos humanos, plantas e objetos produzidos por matérias químicas.

Com muitas variantes, “Cheiro” exprime concretamente a impressão originária do olfato, e o verbo derivado “cheirar” leva até ao uso de cocaína…. Figurativamente, lembra o carinho do fungar no pescoço da pessoa amada, e realça a odorífera poesia de Shakespeare: – “Se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume”.

“Cheiro” também expressa metaforicamente a suspeita de algo que aconteceu ou está por acontecer. É o que sentimos na política brasileira, com o cheiro de mofo, de tinta descascada e musgo de muro carcomido saído do encontro entre Fernando Henrique e Lula; do mesmo modo como o cheiro de enxofre expelido pelo demônio que mora nos ouvidos de Bolsonaro. Nesses exemplos entram os antônimos catinga, fedor, fétido, pestilência….

Embora sem ser investigador de polícia ou ter o faro apurado de um perdigueiro, senti forte cheiro de corrupção quando no ano passado assisti a reunião ministerial de 22 de abril, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, propondo que o governo aproveitasse a pandemia para passar a “boiada”….

Esse “aboio” do Ministro para tanger o gado, foi uma alegoria política visando aproveitar as atenções voltadas para a pandemia e intervir na legislação, mudar as portarias e as regras em defesa do Meio Ambiente, em favorecimento dos desmatadores, garimpeiros e madeireiros ilegais.

O gado humano que apoia bovinamente o Governo Bolsonaro ignorou o fato, por motivos óbvios, e o escondeu sob o esterco da cumplicidade; o mesmo não aconteceu com a manada dos brasileiros patriotas que divulgaram, combateram e não esqueceram a proposta obscena, para não dizer criminosa.

Agora, esta impostura emergiu no noticiário midiático:  Autoridades norte-americanas do Governo Biden apreenderam uma carga ilegal de madeira amazônica e alertaram sobre irregularidades nestes carregamentos para os Estados Unidos. E assim confirmou que a Polícia Federal agiu corretamente ao deflagrar a Operação Akuanduba.

Esta ação foi criada para apurar crimes de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e irregularidades para facilitar o contrabando com a participação suspeitosa de agentes públicos.

Em consequência, veio a seguir, acionada pelo superintendente da PF no Amazonas, delegado Alexandre Saraiva, a Operação Handroanthus, que apreendeu 213 mil metros cúbicos de madeira ilegal na divisa entre Amazonas e Pará no fim do ano passado, uma delinquência que foi defendida pelo ministro Ricardo Salles.

No contexto deste flagrante criminoso, a Polícia Federal abriu investigação sobre a intervenção protetora de Salles e funcionários do Ibama à ilegalidade; mas o Governo Bolsonaro, em vez de combater a corrupção e punir os infratores, destituiu Saraiva da Superintendência da PF….

Nesta circunstância, exala no ar um ativo cheiro de jabaculê, pixuleco, propina e suborno, com o ministro Salles e sua equipe suspeitos de apoiar o contrabando e perseguir agentes públicos. Só quem perdeu o olfato por causa da covid-19 não sente este miasma, e se junta aos que estão sufocados pelo bafio do fanatismo defendendo seus bandidos de estimação.

 

 

 

SUBSTANTIVOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O substantivo em sua majestade, o adjetivo, roupa transparente que o veste, e o verbo, o anjo que lhe dá impulso” (Baudelaire)

Os auto-assumidos conservadores e moralistas distribuem toneladas de pareceres recomendando austeridade e bom senso, mas não prescrevem sequer poucas gramas de rejeição à hipocrisia e a mentira. Vemos isto no cardápio diário das redes sociais, do café-da-manhã à última refeição do dia….

Parece-me a pregação do bom senso pelos puritanos do século 21 pelo bom senso ecoa apenas na “região inexplorada” (“the indiscovered country”) a que se refere Shakespeare no enredado terceiro capítulo de Hamlet; ou, abrasileirando, discurso às pedras do deserto, como escreveu Plínio Salgado.

Não cola. Porque faltam exemplos dos “andares de cima”; palavras, o vento as leva, enquanto o proceder correto desperta admiração e estimula a imitar; impõe respeito e se constitui em modelo.

O cenário contraditório é amplo; político, religioso e social. Um palco aonde se gasta hectolitros de substantivos qualificativos para tingir uma postura de momento. São muitas as cores dos “ismos”; vão das nuances do anarquismo ao absolutismo. Nenhum deles, porém, pior do que o negacionismo, que estimula a cavalgada de grupos obscurantistas com a bandeira da ignorância.

Se estudassem, veriam que as ciências astronômicas, físicas, matemáticas e químicas vêm da aurora da História da Antiguidade. Engatinharam, arrastaram-se, cambalearam; mas de dois mil anos para cá, só um néscio se opõe a conceitos que podem ser provados cientificamente.

Entretanto, temos até dias de hoje idiotas defendendo que a Terra é plana, séculos depois de Galileu enterrar o geocentrismo e, 400 anos mais tarde, Iuri Gagarin ter visto e fotografado o globo terrestre exclamando: -“A Terra é azul! ”.

Vemos em plena pandemia do novo coronavírus a cambada negacionista ignorar a Ciência, rejeitando conceitos apoiados no consenso científico internacional; monta na égua da desinformação para se contrapor aos conceitos médicos de prevenção contra a covid-19, de evitar aglomerações, usar máscara e na medida do possível, fazer o isolamento social.

No Brasil, estas falanges imbecilizadas pelo fanatismo tentaram sob o comando do próprio presidente da República, boicotar a vacinação. Assistimos Bolsonaro falar de público que “quem tomasse a vacina poderia virar jacaré”, “que cresceria barba nas mulheres” e “os homens iriam falar fino”…. O filho Eduardo, não menos idiota, ao ser aconselhado a se resguardar, mandou que “enfiassem a máscara no rabo” em vídeo divulgado nas redes sociais.

Tal rejeição à Ciência Médica e desrespeito ao povo brasileiro, merece, sem dúvida, nomear com substantivos adjetivados o estado patológico da familiocracia que ocupa o poder.  Incentiva-nos a empregar substantivos comuns, figurativos ou temáticos, para classificar a estupidez do seu negacionismo.

E para piorar o quadro da política necrófila do Governo Bolsonaro, ficou instituída a Mentira, a do Presidente, sempre; e por espírito de imitação daqueles que o cercam perfilados, como o ex-ministro Eduardo Pazuello. Negando que a verdade é um símbolo da honra militar, mentiu na CPI da Covid, diante de documentos apresentados.

O substantivo feminino Mentira, ato de mentir, tem etimologia latina mentīre, remetendo ao latim clássico mendacium, ou, como querem outros, mentionica, do latim tardio.

Adotou-o Pazuello à frente do Ministério da Saúde, de prontidão diante do “chefe de Estado”, “chefe de Governo”, “comandante-chefe das FFAA” e “chefe da Administração Federal”; não esquecendo de que o Capitão-Generalíssimo, quando diz besteira, fala como “agente político”…. Lembrou-me nazistas em Nuremberg.

Diante disto, o perfil do General é o de que, após comandar a batalha contra a pandemia, deixou o Ministério resumiu em duas palavras a sua passagem por lá: “Omissão cumprida”….

VELHOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente…” (Mario Quintana)

A intenção maldosa de ofender às vezes sai pelo contrário; por três vezes nesta semana me chamaram de “velho” nas redes sociais, mandando-me recolher, e, em vez de me irritar, senti-me elogiado e apenas registrei a falta de educação.

Falta de educação é uma conduta de filho de chocadeira, que não teve mãe nem pai para ensinar convivência com outrem. Quando menino, meus pais educaram-me para respeitar crianças, mulheres e velhos; e quem não os tratar assim sofre uma deformidade moral.

Deixando de lado o sentimento doentio dos mal-educados, digo-lhes que o meu recolhimento, é inaceitável, quando vejo no governo dezenas de militares da minha geração defendendo o negativismo; assim, para fazer-lhes oposição de igual para igual (exceto pelos altos salários acumulados deles) não renuncio à participação na rede social.

Para escrever este artigo, refleti que não sou o único exemplo na exclusão etária dos que querem impedir a livre expressão do pensamento nas redes sociais; são centenas de internautas idosos, expondo experiências, mostrando cultura e polemizando em defesa das opiniões próprias, e como eu, sofrendo também discriminações.

Lembrei-me de uma historinha que pesquei entre muitas que coleciono, com a artista francesa Mistinguett, cantora que brilhou nos palcos e nos filmes, deixando a sua lembrança gravada na memória de várias gerações.

O antigo empresário dela visitou-a e revelou que estava trabalhando numa peça e pensava em aproveitar uma atriz idosa num monólogo em que expõe as experiências acumuladas para uma jovem que lhe pediu conselhos.

– “Este papel me entusiasma”, falou Mistinguett, que tinha 81 anos na época. – “É excelente esta ideia”, e perguntou a seguir: – “… E quem vai protagonizar a velha? ”.

É isto. O artista que é artista pode atuar como qualquer personagem, seja de que idade for; é como os jornalistas do meu tempo, cuja formação humanista e cultura acumulada, lhes permite assumir qualquer pauta, seja da sua especialidade ou fora do contexto.

Um bom ator aprende a interpretar todos os tipos de papéis, do mesmo modo como um jornalista vocacionado conduz uma matéria sobre qualquer assunto. É assim que no meu caso particular procuro fazer mesmo amadoristicamente, desgostando os fanáticos cultuadores de personalidade.

Se lhes aborreço e instigo o ódio enfermiço do fanatismo político ou religioso, agrado em contraposição um grande número de seguidores e jovens leitores dos meus artigos. Na minha atuação como internauta, sigo uma lição de Goethe que me acompanha desde que entrei no Twitter: – “Quando se é velho, é preciso ser mais ativo do que quando jovem”.

É talvez por causa da minha atividade aos 87 anos de idade que eu tenho incomodado os recém-chegados à rede social sem formação adequada, cujo único argumento numa polêmica é a intolerância. São palermas que se fanatizam pela política, sem pensamento próprio, levados a seguir bovinamente lideranças demagógicas, juntando-se a mercenários que se põem a serviço do poder atuando fraudulentamente por dinheiro.

Assim denunciaram os influencers que receberam verbas do Governo Bolsonaro para defender o tratamento precoce; e tem outros que ainda continuam elogiando remédio contra piolho para curar a covid-19, por vergonha de admitir que venderam a consciência.

Encontro numa ilação sobre a velhice atuante, muitos que defendem suas ideias com destemor, levando-me a reconhecer e aplaudir esses que envelheceram com dignidade. Da minha parte, valho-me de Paulinho da Viola,navegando como “um velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar! ”

MEDIDA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Eu sou do tamanho daquilo que sinto, que vejo e que faço, não do tamanho que os outros me enxergam” (Bob Marley)

“O homem é a medida de todas as coisas”, ensinou Protágoras, o célebre sofista da Grécia Antiga, obrigando-me a invocar a regra que diz que “toda regra tem exceção” para deixar os tolos fanatizados por políticos de fora da medida “das coisas que são, enquanto são e das coisas que não são, enquanto não são”….

Sem ligar para que os tolos pensam e dizem, foi sofrendo a interferência da memória dos meus pais, da minha mãe espírita kardecista (militante, participando de federações na Paraíba e no Rio de Janeiro) e do meu pai, de formação positivista que se assumia como agnóstico, que escrevi o artigo “Ressureição”.

No texto, abordei pela segunda vez os casos de Bolsonaro a Dilma, ele querendo blindar o general Pazuello e ela querendo salvar Lula, com cargos ministeriais. Estes fatos lembraram-me o episódio em de Dilma pediu que chamassem o Messias e por ela estar gripada, fanha, o pessoal ouviu “Bessias”.

Por ter falecido este personagem que foi badaladíssimo na época do episódio, a citação que fiz dele provocou críticas de uns idiotas que falam em nome da “religião”. Então, para me defender, invoco o pastor Martin Luther King, com a frase: “a religião mal-entendida é uma febre que pode terminar em delírio”.

Então rebato os delirantes afirmando que não invoquei o espírito do Messias, não porque dê importância à Congregação do Santo Ofício que proibiu que se interroguem espíritos e ouçam as suas respostas; nem porque tenho dúvidas sobre a crença espírita de que as almas vagam pelo mundo.

Sei, porém, que isto suscita discussões. É por demais conhecida a obstinação de Lombroso buscando provas sobre a comunicação dos mortos, e foi confrontado pelo incrédulo Gustave Le Bom que escreveu: – “sob o domínio da crença no além vida, até um cientista fica inseguro sobre os métodos científicos de análise”.

Tais posições destes importantes personagens, pensamos no que se diz sobre os chamados médiuns, aqueles que possuem o dom de se comunicar com os espíritos. Argumenta-se que se trata de possuidores de um sentido, entre os 21 inexplorados além dos cinco usados normalmente, audição, olfato, paladar, tato e visão.

Conforme os kardecistas, existem poucos médiuns autênticos no mundo, porque a mediunidade é um fenômeno raríssimo. Citam alguns nomes que foram capazes de exercer esta prática, como as santas Joana D’Arc e Tereza D’Ávila e no Brasil, Chico Xavier; os Evangelhos contam que na cruz Jesus comunicou-se com Deus, murmurando “Eloi, Eloi, lamá sabactani? ” – “Deus, ó Deus, porque me abandonastes? ”.

Em verdade, as medidas sobrenaturais não são traçadas com régua e compasso, e muito menos por pessoas que se investem de intermediários da divindade, cobrando módicas quantias para isto num determinado endereço, e até patenteando a “marca” Jesus Cristo….

Quanto à vida real, com ou sem religião, “se você quiser ver a verdadeira medida de um homem, preste atenção em como ele trata seus inferiores, não seus iguais”, aconselha a escritora britânica J. K. Rowling. Lição que deveria chegar a Paulo Guedes para ele não desdenhar filhos e filhas de porteiros…, é uma silhueta recortada do elitismo bolsonarista assumido fraudulentamente como “de direita” e “conservador”.

Vimos também este tratamento com outrem feito por Bolsonaro atacando o principal parceiro comercial do Brasil, a China. Tal cretinice não se trata de Teoria da Conspiração, mas talvez uma manifestação mediúnica do diabinho que incentiva o Presidente na política macabra do negativismo, querendo a suspenção do envio de insumos de vacinas para matar mais brasileiros.

O comportamento psicopático do Presidente, não é “invenção da mídia”, nem ataques comuno-globalistas; está nas declarações dele gravadas em vídeo, com as quais se pode ver que a sua posição negativista causa mais mal ao País do que todos os acusados de infringir a Lei de Segurança Nacional por criticá-lo….

FASCISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não seria demasia lembrar que os arautos das devassas ilegais odiosas e fascistas, acabam por ter que quebrar os seus próprios espelhos. ” (Frase de autor desconhecido citada por Carl Sagan)

Chamar Bolsonaro de fascista não dá. Ele pode até pensar no fim da democracia pensando receber apoio das FFAA; mas pela sua formação, egresso da caserna por contumaz indisciplina, julga identificar-se,  como “capitão contestador”, como foram os “revolucionários” da mesma patente Luiz Carlos Prestes e Carlos Lamarca….

Diferente dos dois, porém, a sua formação política nasceu na Câmara dos Deputados sentado entre os picaretas do baixo clero. É uma salada mista ideológica; como deputado oportunista, votava com o PT-governo e dava entrevistas elogiando o ditador venezuelano Hugo Chávez…. Depois voltou-se para a “direita”.

Pela notória obtusidade, é incapaz de tornar-se um estadista, nem ao menos aparentar conhecimento da conjuntura socioeconômica nacional; e sequer possui eloquência oratória para cativar as massas.

É difícil para ele conviver com militares de alta patente da ativa, com curso de Estado Maior obedientes à Constituição; e muito menos com os políticos cultos de formação acadêmica; acomoda-se bem cercado da turma do Centrão, de advogados de porta de xadrez e de policiais que abandonaram a farda tornando-se seguranças.

Foi elevado ao poder federal por causa da roubalheira lulopetista, condenada e desmoralizada por patriotas brasileiros, que foram para as ruas espontaneamente aos milhões. E naquela conjuntura, a radicalização política foi rápida; e não demorou que fosse aproveitada por extremistas de direita e revanchistas do regime militar, orientados pelos piores anticomunistas, aqueles que não conseguiram se encarreirar no partido, se melindraram, e viraram gurus de ignorantes deslumbrados.

Ganha as eleições, as bandeiras da campanha contra a corrupção foram abandonadas pela pressão interna da criminalidade na mesquinharia das “rachadinhas”; como foram traídas outras promessas, como o liberalismo econômico e uma administração livre da picaretagem parlamentar.

Caminhou-se então o Governo Bolsonaro para a mitologia agressiva e a irracionalidade ideológica, promovendo o culto da personalidade e, com a pandemia do novo coronavírus, enaltecendo o negacionismo da Ciência inspirado na subalternidade ao boçal Donald Trump.

A cultura dominante e continuada do negacionismo promovido pela Familiocracia instalada no Planalto, nos leva à canção dos Engenheiros do Hawaii, “…o fascismo é fascinante/ deixa a gente ignorante e fascinada”. Este aludido fascínio atrai aqueles que são inclinados a “ouvir e obedecer”, e é repudiado pelos amantes da Democracia e da Liberdade.

O fascínio fascistizante produz decepções entre os que respeitam o Exército Brasileiro, ao saber que três militares-ministros, da Casa Civil, da Defesa e da Energia, tomaram vacina escondidos do Chefe. Um deles, Luiz Eduardo Ramos, da Casa Civil, contou que tomou “escondido” a vacina contra a Covid-19 e que tenta convencer o presidente Jair Bolsonaro a se imunizar também. Parece que esqueceram que “A verdade é um símbolo da honra militar”.

Lá em baixo, nas valas lamacentas do fanatismo e do mercenarismo, a sedução fascista chega nas redes sociais com ataques à Maçonaria e pior, com o revoltante racismo de uma “Petição ao Congresso” contra o casamento inter-racial para “garantir” a “raça pura”. Sobre esta loucura, a internauta Maria Feistauer falou por nós declarando: -“Os nazistas estão saindo das sombras sem qualquer pudor”.

Estas figurinhas fáceis que atuam nas redes sociais por controle remoto do Palácio do Planalto, exibem agora uma  ação fascista de atacar o médico Luiz Henrique Mandetta, que na CPI da Covid revelou que o País vive sob o poder de uma família tresloucada, capaz de fraudar bula de remédio e mentir sobre os números da pandemia.

Mentindo, esse bando atua como cópia xerocada do governo necrófilo, e embora muitos neguem serem fascistas, o são até sem o saber quando assumem a organização e a disciplina fascista para defender o Capitão Minto.

Para os servis lambe-botas não gasto mais de três linhas; uma delas é para lembrar-lhes que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, como escreveu Brecht; e também com Mussolini ao assumir o poder, encerrando o discurso de posse com a frase:  “Enterramos o cadáver pútrido da liberdade. ”

 

 

O TEMPO (2)

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol,com.br)

“O tempo é o teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida” (Kafka)

Einstein, o genial criador da Teoria da Relatividade, observou que “o tempo é apenas uma persistente ilusão”, pela sua passagem relativa e ligada à velocidade. Será que um dia poderemos retroceder ao passado e avançar no futuro?

Leva-nos ao genial filme hollywoodiano, dirigido por Robert Zemeckis, com script dele próprio e Bob Gale, “Back to the Future” – De Volta ao Futuro -, que de tão relevante e incrivelmente extemporâneo, já deu três versões em série.

Produzido em 1985 com um excelente elenco que conta com Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover e Thomas F. Wilson, se mantém atual por trazer a visão de que as coisas se interpõem o passado e o tempo….

Da ficção para a realidade, chama a atenção o fato de não ser possível esconder para nós, a medida do tempo, escalonado na sua duração por segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, séculos…

Do cinema nos vem, também, uma curiosa situação de ficar preso ao tempo, com o filme “Feitiço do Tempo”, que tem como enredo a cobertura do Dia da Marmota, que a cada dia 2 de fevereiro, se define, pelo bichinho, se o inverno continua pelo mês. O repórter-do-tempo de uma TV vai à cidadezinha onde ocorre o evento e por não poder retornar à origem por uma nevasca, dorme no local e acorda sempre no mesmo dia…. Vale a pena assistir….

É interessante, porque contamos na vida com épocas, comemorações, ocasiões, períodos e prazos; e na medida em que envelhecemos, alegra-nos ou entristecem-nos os acontecimentos de ocasião.

Então observamos coisas que se passam diante de nós, na Ciência, na Economia e na Política. Que peso no tempo nos trouxe a pandemia do novo coronavírus! Como nos contraria ver no que produziu a estúpida dupla negacionista Trump e Bolsonaro… que entre seus malefícios ocasionaram milhares de mortes.

E uma das piores coisas que fizeram atingiu as populações miseráveis dos países pobres, negando a quebra da patente das vacinas. Eles favoreceram necrofilamente a indústria farmacêutica, sedenta de lucro sem se preocupar em curar alguém….

É inesquecível a colocação do bioquímico e biólogo molecular inglês Sir Richard J. Roberts, prêmio Nobel de Medicina, que disse “para a indústria farmacêutica, a cura é menos rentável que a doença”.

Os doidinhos fanáticos do bolsonarismo (teve um, nas manifestações de 1º de maio que exibiu uma placa “Autorizo o Presidente a me matar! ”) vão dizer que é opinião esquerdista, ou pior, uma “conspiração chinesa”…

Que pensem assim, ou reproduzam o que lhes mandam dizer. Esses chatos auto-assumidos “de direita”, renascidos do passado obscurantista das ditaduras e suas consequentes repressões à liberdade de expressão, leis de “segurança nacional”, prisões e torturas, são poucos e voltarão ao esquecimento, de onde não deveriam ter saído.

Eleitoralistas, querem um retorno à falsa polarização eleitoral, a fraudulenta e insultuosa alternativa entre Bolsonaro e Lula, iguais em quase tudo, incluindo a corrupção, de um, a grosso, vendendo medidas provisórias e do outro, no varejo com as “rachadinhas”….

Se os chatos “de direita” estão se amostrando e revoltando quem assiste a sua estupidez, enquanto os chatos de esquerda, por sua vez, continuam os mesmos, pensando e agindo como os communards ou os bolcheviques de 1917.

Então lembro a história de um esquerdista chato que numa conferência em Frankfurt abordou o patriarca dos Rothschild, fundador da maior oligarquia financeira do mundo no século 19.

O Banqueiro defendia o humanismo; então, o Agitador lhe interrompeu em voz alta: –  “O senhor possui 200 milhões de florins e se assume como humanista, porque não divide a sua fortuna com os deserdados? ”

Rothschild alisou a barba e respondeu:  – “Você tem razão; se devo partilhar o meu dinheiro, raciocinemos: a Europa tem 200 milhões de habitantes, então cabe um florim para cada um”. Meteu a mão no bolso, tirou uma moeda, e arrematou: – “Eis aqui o seu, venha busca-lo”.

… E assim, o tempo se fecha….

RESSURREIÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A ressurreição derruba três muros intransponíveis: a morte, a injustiça e o fracasso”  (Dom Orlando Brandes)

Intitulei de “Ressuscitem o ‘Bessias’” uma mensagem escrita na semana retrasada comentando a indicação do ex-ministro Eduardo Pazuello, alvo da CPI da Covid, para um cargo a nível ministerial a fim de blindá-lo. (Repetia-se o caso de Dilma querendo livrar o corrupto Lula da prisão; o nome do secretário era Messias, mas a ex-presidente estava fanha na ocasião).

Recebi várias críticas sobre isto; o interessante porém, é que não foi somente dos bolsonaristas defendendo a medida frustrada que igualaria Bolsonaro a Dilma; os pareceres contrários mais contundentes (e alguns ofensivos), vieram de psicopatas decorebas da Bíblia considerando que referir-me à “ressurreição” é um despropósito.

Como admirador do pastor Martin Luther King, imolado pelo racista e extremista James Earl Ray, aproveito um seu pensamento na minha defesa: – “A religião mal-entendida é uma febre que pode terminar em delírio”; e não perdoo esses delirantes que me criticaram.

A ressurreição dos mortos é a base de todas as religiões. Para os cristãos, consta nos Velho e Novo testamentos e nos livros não-canônicos de Baruque, de Enoque e de Esdras, e é emblemática a volta de Jesus Cristo do reino dos mortos.

Assim, a metáfora que eu usei sobre o finado secretário da ex-presidente Dilma, não constitui nem uma ofensa ao morto, nem uma blasfêmia. Não fora a beleza proverbial do texto de Oscar Wilde sobre a ressurreição, encontraríamos nele, isto sim, um insulto ao sagrado.

Contou Wilde que ressurreto, Jesus surgia às vezes à noite, e numa delas reparou um jovem sentado à beira da estrada chorando. – “Porque choras? Perguntou o Nazareno; entre soluços, o rapaz respondeu: – “Eu estava morto e Vós me ressuscitastes; que poderei fazer vendo uma cruel realidade em torno de mim, senão chorar? ”.

Talvez fosse assim o que ‘Bessias’ encontrasse na infeliz conjuntura que o Brasil atravessa. Após tanto tempo afastado do mundo vivente, talvez se entristecesse e chorasse como o moço que Jesus ressuscitou observando o cenário político no Brasil, que provoca lágrimas de revolta a quem realmente ama o nosso País.

Por causa do negacionismo genocida de Bolsonaro, as coisas andam tão mal na luta contra a pandemia do novo coronavírus, pela negligência em todas as ações do governo federal, comprovadamente na falta de insumos hospitalares e até de vacinas!

A mais antiga ressurreição que conhecemos é a de Osiris, primeiro faraó egípcio, assassinado traiçoeiramente pelo irmão Set para tomar o poder. O morto teve várias partes do corpo separadas e atiradas no Rio Nilo; mas a sua dedicada esposa Isis, conseguiu reunir os pedaços e com a ajuda da cunhada Néftis, deusa da morte, ressuscita-o, e Osiris se torna o Deus do Julgamento final.

Essa lembrança mitológica da ressurreição nos leva a Bolsonaro, que vem fazendo de tudo para recuperar a confiança perdida para os que votaram nele contra a corrupção, e os traiu; tornando impossível que ressuscite moralmente.

Sem a hipocrisia dos “cristãos profissionais” e à crença da ressurreição, lembro a passagem bíblica em que Jesus traz Lázaro de volta à vida depois de quatro dias de sepultamento…. Mas considero um feito ainda maior do que ressuscitar os mortos, a certeza que o Cristo tem capacidade de ressuscitar os vivos.

O que não é o caso do Capitão Minto, que mesmo com as orações hipócritas dos pastores e padres políticos que apoiam os seus desatinos, jamais será perdoado pela resistência à imunização contra o vírus, nem por semear o ódio antirrepublicano entre os poderes constituídos.

Nem a ressurreição moral, nem a CPI da Covid, e muito menos o Código Penal, o salvarão da condenação histórica pelas quase 400 mil mortes de brasileiros, em grande parte devidas ao seu negacionismo….

N’EST PAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

‘Le Brésil n’est pas un pays sérieux’ (General De Gaulle)

Passando um olhar patriótico sobre o Brasil real, vivendo atualmente sob a mediocridade da política populista e o carreirismo eleitoral, é profundamente triste reconhecer que De Gaulle tinha razão.

Ao assumir patriotismo, lembro que George Orwell no seu badalado livro “1984” projetou um “Ministério da Verdade” usando uma “novilíngua” para distorcer a significação dos vocábulos; o que ocorre entre nós quando a palavra “patriotismo” é adotada por alguns como o culto da personalidade de Jair Bolsonaro.

Vem destes cultuadores fanáticos os aplausos para a totalitária “Lei de “Segurança Nacional” que confunde a pessoa do Presidente da República blindando-o como se fora o próprio Estado, levando-nos de volta a Luiz 14 que dizia “L’ Estat c’est moi”, – “O Estado sou Eu”.

Ungido ao poder por um desastroso desvio do destino, que arrastou expressiva fração do eleitorado inimiga da corrupção lulopetista para elegê-lo, traiu o discurso de campanha, aliou-se aos picaretas e se cercou de uma horda de aduladores oportunistas.

Assim, não é por acaso que o chamado Capitão Minto, ensimesmado, tenha desdenhado a pandemia, bravateado o negacionismo da Ciência e o desrespeito pelas regras sanitárias. O triste é que contou com o apoio das brigadas primitivas, antigos assessores, executores de “rachadinhas” e beneficiados com ações legislativas do “sindicato fardado” que dirigia da Câmara Federal.

Contará com o mesmo amparo agora, quando comete um bestial crime contra a nacionalidade, desprezando-a e envergonhando-a, ao impedir a realização do Censo Demográfico?

Não é preciso ser especialista nem cobrador “de oposição”, para entender que um País deve contar com informações confiáveis sobre todos os aspectos da vida cotidiana, afim de alicerçar a administração pública e conscientizar para a realidade nacional políticos, empresários e cidadãos.

O Brasil deve se orgulhar do IBGE que sempre trabalhou com seriedade e conquistou renome internacional pelo embasamento das suas pesquisas. Entretanto, a irresponsabilidade do atual governo federal não quer saber de números reais, desprezando-os e substituindo-os pela fraude, como vem ocorrendo na pandemia.

As contumazes mentiras de Bolsonaro, são acompanhadas pelo seu ”Posto Ipiranga” e o general Augusto Heleno, atingindo os limites do ridículo. O ministro Paulo Guedes ironizou o questionário do Censo e o general Heleno não esconde o menosprezo pela pesquisa dizendo que a taxa do desmatamento amazônico levantada pelo Inpe era inflada.

Constata-se com isto que Bolsonaro que não tem noção do que seja um Censo, porque ao manobrar no Congresso o Orçamento Picareta de 2021 fez pouco caso da megapesquisa populacional e econômica, pouco ligando que seja ou não seja realizada.

Assim, o Censo que ocorria a cada dez anos e ocorreria no ano passado, foi adiado para 2021 com a desculpa da pandemia, mas na realidade para economizar R$ 2 bilhões….

Novamente, em função da ignorância imperante em Brasília, o Governo Bolsonaro não deu importância ao financiamento do Censo quando tramitou no Congresso a lei orçamentária de 2021. E, na semana passada, o Presidente anunciou desavergonhadamente que o levantamento nacional sobre a conjuntura socioeconômica será adiado mais uma vez.

Quem tem cabeça de pensar sabe que todos os países devem ter estas informações obtidas por uma minuciosa operação estatística; que se torna complexa no Brasil, pela sua dimensão territorial de 8.515.692,27 km², distribuídos por 27 Unidades da Federação e 5.565 municípios.

Lembramos que as pesquisas seriam realizadas com visitas a todos os municípios, distritos, bairros e localidades rurais e urbanas, com visitas a domicílios, colhendo dados sobre as condições de vida da população; e ressaltamos que um País que não sabe quem são os seus cidadãos e cidadãs, não sabe o que realmente possui e o que pode realizar, não é um País sério, que traduzimos para o mundo: – “n’est pas serieux”.

 

 

PROTESTO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele” (Martin Luther King)

É impossível esconder o protesto dos 380 mil mortos pela covid-19 contra o presidente Bolsonaro, mais preocupado com a sua reeleição do que em promover a vacinação em massa, única maneira de debelar a pandemia.

Em vez de adquirir vacinas e insumos hospitalares, de mobilizar e ampliar equipes de atendimento às vítimas do vírus, a Familiocracia no poder recruta mercenários e “tolos ideológicos” como agitadores para esconder a política negacionista e fazer do Capitão Minto o “Pai da Vacina”…. É o novo slogan: “A fraude acima de tudo”.

Levantam-se protestos mundo afora; do empresariado, dos trabalhadores, dos intelectuais, do sistema econômico, da magistratura e da política; mas o protesto dos mortos traz a força milenar da maldição do “Rei Tut”, encontrada na tumba dele em 1922 pelo arqueólogo Howard Carter.

Numa parede cheia de pinturas representando Tutancâmon e os seus feitos em vida, numa vasilha contendo fungos, hieróglifos alertavam: – “Ai de quem violar o sono do Faraó! ”. Uma ameaça explícita a quem violasse o túmulo que atingiu os seus descobridores, pois a maioria dos membros da equipe de Carter morreu de causas sobrenaturais; e também alcançou Lorde Carnarvon, o financiador da expedição.

Muitos negam isto, afirmando não passar de uma lenda; mas há quem considere e acredite nas antigas profecias, fazendo ilações sobre acontecimentos coincidentes.

É, mais ou menos, o que vem ocorrendo no Brasil: duas correntes de opinião; uma que questiona os fatos em busca da verdade; e outra que se baseia nas repetidas mentiras do mitômano Bolsonaro.

Nos entrechoques da política miúda, prevalece a sabedoria popular ao dizer que “nem tudo que reluz é ouro”, um princípio que alerta para as fraudes do folheado a ouro, da máquina de fazer dinheiro, da pérola falsa e da demagogia populista….

Nenhuma destas arapucas armadas por vigaristas consegue enganar quem está prevenido sobre as vírgulas de um decreto, a convocação de uma CPI para não investigar, e não levar a sério o bando oportunista que se fantasia “de direita” e “conservador”.

Os observadores da política nacional estão vacinados contra o fanático culto de personalidades e seguidores de ideologias adulteradas por falsos gurus. Vêm claramente a orquestração do grupo que atua sob a orientação baixada de salas contíguas à do Presidente no Palácio do Planalto.

É o ativismo bolsonarista. São poucos, mas confirmam a observação de Mark Twain que disse: – “os tolos representam quatro quintos da humanidade”, dando oportunidade aos espertos para conduzi-los.

Nas redes sociais a gente está sempre topando com um deles, particularmente os recém-chegados no Twitter, que não seguem os princípios éticos que adotávamos e deixam de lado os critérios de socialização (é possível que algum desses imbecis confunda socialização com socialismo, mas não é).

Com este pessoal, passamos a encontrar mensagens padronizadas, opiniões selecionadas, ofensas pessoais e xingamentos com palavrões…. E vão ao exagero com ataques a quem não reza pela cartilha do desvario governamental grotescamente ideologizado.

Contra tudo isto, chega o protesto dos nossos mortos “transportando estrelas no negro infinito”, como os viu o poeta mexicano Amado Nervo. Do além, inspiram as suas famílias e os seus amigos a também repudiar a falta de consciência e a desumanidade de Bolsonaro na prática da sua política necrófila.

É preciso que a presença espiritual dos que morreram graças ao negacionismo, faça os civis se comoverem, e que os militares cumpram o princípio da caserna:  “A verdade é um símbolo da honra militar”.

 

 

TITANIC

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A gente quer a vida como a vida quer” (Banda Titãs, in “Comida”)

É impressionante o pavor dos seguidores de Bolsonaro reagindo contra a convocação da CPI da Covid-19. Veem as investigações sobre a política governamental durante a pandemia como aquele iceberg que afundou o luxuoso transatlântico da White Star Line, saído dos estaleiros de Belford, na Irlanda.

Do outro lado, muitos acham que é uma excelente chance para o Presidente provar que está certo na sua condução da política sanitária enfrentando o vírus; afirma-se que o temor dos bolsonaristas mostra o contrário do que afirmam, que a mentira e a fraude substituíram o slogan “O Brasil Acima de Tudo”….

Pelo interesse nacional na apuração dos fatos, os brasileiros não comparam esta CPI com a montanha de gelo flutuante que partiu o Titanic ao meio e levou-o ao fundo do oceano, mas uma maneira de esclarecer como o Ministério da Saúde se conduziu na pandemia.

Vê-se paralelamente quão insólito é o ataque virulento do Presidente ao STF, em particular ao ministro Luiz Barroso, sempre acompanhado pelos seus seguidores. Em verdade, vê-se que os que se opõem à CPI, levantam críticas usando a camisa listrada dos malandros, e não a toga da magistratura, porque é inegável que a decisão do ministro Barroso foi técnica, baseada no texto constitucional.

Diante disto, observa-se que não há boa-fé dos fanáticos que seguem a forma desrespeitosa e grosseira com que o presidente Bolsonaro reagiu. Se na verdade são amigos, deveriam educá-lo, mostrando que o comportamento republicano exige que siga a norma consagrada do Direito, de que decisão de Justiça não se discute, se cumpre.

O historiador, filósofo e poeta romano Caio Cornélio Tácito, que passou à História simplesmente como Tácito, disse que – “Os aduladores são a pior espécie de inimigos”, projetando ad futurum os servis puxa-sacos que cercam o Presidente, mais prejudiciais a ele do que uma barulhenta oposição política e parlamentar.

Como baixar a cabeça, subalternos, à desobediência infantilóide de Bolsonaro, com xingamentos e ataques pessoais, exibindo um comportamento nefasto a si próprio? Será ele intocável, um semideus como os titãs da mitologia greco-romana ou apenas um homem de carne e osso que eventualmente ocupa a presidência da República?

Foi lembrando os Titãs que chegamos ao navio Titanic, cujo nome que veio da palavra “titãs”, entidades divinas da mitologia, filhos de Gaia e Urano. “Mito” por “mito”, esta comparação nos levou à história da primeira geração dos deuses do Olimpo.

Eram seis homens e seis mulheres que governaram o mundo após Cronos – o Tempo – ter matado Urano para defender Gaia, atacada por ele. Antes de Zeus, o governo deles, com Cronos à frente, representou a Era conhecida como “A Idade de Ouro”.

O rock brasileiro marca a presença da Banda Titãs, que no ano passado gravou o seu CD “O Brasil de Que Deu Certo”, e sempre evoca saudades das composições cheias de poesia como “Epitáfio” e “Enquanto Houver Sol”. É antológica a sua canção “É preciso saber viver”, com os versos: “Quem espera que a vida/ Seja feita de ilusão/ Pode até ficar maluco/ Ou morrer na solidão…”.

Navegando nos mares revoltos da pandemia, enfrentando as ondas da necropolítica governamental e 350 mil cadáveres boiando, voltamos à ficção do Titanic bolsonarista construído nos estaleiros da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, tendo como armadores “os meninos do Presidente”, advogados despachados, empresários expertos, PMs aposentados e a turma operária tendo como mestre –de-obras Fabrício Queiroz…

Entusiastas da indestrutibilidade do barco, escreveram na linha d’água os slogans “Os Filhos Acima de Todos” e “Reeleição Acima de Tudo” e puseram o novo Titanic a navegar em Brasília, no Lago Paranoá, símbolo do poder marítimo do Palácio do Planalto….

Será a CPI da Covid-19 que o levará ao fundo?