Artigo

PEGASUS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O Grande Irmão está lhe vigiando” (George Orwell)

As cidadãs e cidadãos ciosos da sua dignidade e integridade repudiam a invasão espiã da sua vida privada. É claro que fica de fora a manada tangida pelos violadores dos direitos humanos, ditadores e aprendizes de ditador.

Descobrimos, entretanto, ao tomar conhecimento da existência do software espião “Pegasus”, que todos estamos sob esta ameaça, usada por governos antidemocráticos para vigiar ativistas de movimentos sociais, blogueiros, jornalistas, militantes dos partidos políticos de oposição e até mesmo os seus aliados de quem desconfiam….

Criadora desta ferramenta totalitária, a empresa israelense NSO Group, alega que não foi produzida com esta intenção, mas reconhece que a espionagem tem sido aplicada de maneira insensata por governos autoritários.

O escândalo fascistóide contra a privacidade das pessoas e de organizações civis causa apreensões e condenações do mundo pensante. Na ONU, por exemplo, formou-se um comitê de vigilância contra as operações de alguns governos violentos que resultaram em prisões, intimidações e até assassinatos.

Apesar dos protestos internacionais e adoção de medidas de segurança por muitos governos, no Brasil dos estagiários do totalitarismo, a espionagem é vista como necessária. Viu-se, por exemplo, no mês de maio deste ano o vereador federal Carlos Bolsonaro, chefe da propaganda bolsonarista, negociar através do Ministério da Justiça a aquisição do Pegasus.

Participou pessoalmente de negociações para que a NSO Group participasse de uma licitação do Ministério da Justiça. Sem muita explicação, porém, a representante dos israelenses responsável por comercializar o software espião, se retirou do processo licitatório.

Em nome da verdade, a movimentação do filho do Presidente da República, não contou então com o apoio dos militares com cargos no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e na Agência Nacional de Inteligência (Abin).

Hoje talvez fosse diferente, com os comandos mudados e a clara intervenção pouco republicana do capitão Bolsonaro nas FFAA, sob a proteção da guarda pretoriana de pijama. Hoje, possivelmente, os brasileiros seríamos esquadrinhados pelo gabinete do ódio que atua nos porões do Planalto.

O exemplo de que a intimidação e espreita está na denúncia feita pelo senador Rogério Carvalho em sessão da CPI da Covid, apontando que o coronel da reserva Roberval Corrêa Leão tentou “bisbilhotar” a sua vida. O Coronel é chapa branca; contemporâneo e ligado ao ministro da Defesa, Braga Netto.

Com isto, temos a impressão de que o projeto de espionagem dos Bolsonaro poderá estar penetrando nos órgãos públicos através dos que morrem de saudades do tempo em que as polícias políticas agiam contra os opositores do regime militar, as prisões eram gratuitas e a tortura ocorria nos porões dos quarteis.

Assim é suspeitável que a ameaça se torne cada vez mais real. A intimidação fantasmagórica atingiu o clímax com a programação de uma “Tanquiata” em continência ao capitão Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios, no dia em que a Câmara Federal apreciaria a PEC do Voto Impresso, a tática trumpista de embaralhar as eleições do ano que vem.

Pairam dúvidas se a cúpula militar submissa aos projetos continuístas do mitomaníaco que ocupa a Presidência tem apoio dos quarteis. Não creio que um militar das FFAA traia o princípio pétreo de defender a Constituição e defender o Estado.  Se isto ocorrer, o retrocesso histórico nos alinhará entre as ridículas “repúblicas das bananas”.

Porque seguir a aventura golpista do Grande Mentiroso é atentar contra o Estado Democrático de Direito, na medida em que ele defende o vazamento dos processos que correm em sigilo, alegando que devem ser conhecidos porque interessam a todos nós. Entretanto vem sendo useiro e vezeiro de decretar sigilos…. Fez segredo até no seu teste para a covid-19 e faz segredo para a movimentação dos filhos no Planalto.

Mesmo assentado em visível incoerência, é cercado de uma horda de aduladores perfilados, fardados ou de pijama, numa cena que foi vaticinada pelo general Olímpio Mourão Filho no seu livro “A Verdade de um Revolucionário”….

 

 

 

MOLEQUE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância” (Millôr)

A rica contribuição do quimbundo para o idioma português falado no Brasil nos deu a sonora, sugestiva e de amplo significado a palavra Moleque, de origem “muleke”, que dicionarizada é um substantivo masculino.

Na linguagem coloquial Moleque tem o significado de criança buliçosa, sapeca e traquinas; no pejorativo é usado como gentalha, ralé, pessoa que não merece confiança.

O depreciativo se encaixa perfeitamente na personalidade grosseira, mal-educada e inescrupulosa do capitão Bolsonaro. Quem imaginou, por exemplo, que um dia tivéssemos um presidente da República que xingasse publicamente um ministro do Supremo Tribunal Federal de “filho da puta”?

Coisa de gentalha de ponta de rua. Desprezo os que por fanatismo insano ou pagos para isto, aplaudem este comportamento de quem senta na cadeira presidencial; e condeno aqueles que o defendem direta ou metaforicamente essa insensatez, considerando-os iguais a ele.

“Ele é assim”; “diz o que tem vontade”; “porque está com raiva”…. Defesas tolas de manifesta bajulação. Mas tem pior: “é a formação dele”…. Uma desconsideração bestial à vida anterior como militar. Nas escolas militares não se ensina isto, e nem mesmo os nossos sargentos assumem a caricata grosseria dos colegas americanos que assistimos nos filmes…

O Exército não o tolerou obrigando-o a ir para a reserva. Saiu e seu meteu na política, no carreirismo alucinado que foi de namoro com a esquerda, elogios ao ditador venezuelano Chávez, e sem ter crédito no lado de lá, se cobriu com o manto dos revanchistas da ditadura militar defendendo torturas e torturadores.

E há quem considere isto “de direita” e “conservadorismo”! …. E pior ainda; passou 28 anos na Câmara dos Deputados sentado na bancada do Centrão, cobrando rachadinhas e se assumindo como pelego de um virtual “sindicato da farda” para defender aumentos de soldos e encarreiramentos nas forças armadas e polícias militares.

Muito mais do que traquinagens, criou um sistema nepótico levando os filhos para a política, através das bases eleitorais formadas de revanchistas, reservistas politiqueiros e os aquinhoados com vantagens obtidas através dele com o dinheiro público.

Este explorador de verbas governamentais e da crendice infame num “salvador da Pátria”, exibiu a sua psicopatia e rica acumulação de mentiras na campanha presidencial em que se elegeu com o voto dos descontentes pela corrupção lulopetista e dos patetas cocainizados na ilusão de conquistar segurança institucional.

Vencedor, traiu as duas frações que haviam se somado ao bando de milicianos políticos; traiu, desprezou e sabotou as medidas contra a corrupção defendidas por Sérgio Moro e em vez de trazer segurança criou a maior instabilidade no País desde a redemocratização.

Os corruptos estão de volta, como se comprova com depoimentos dos envolvidos e copiosos documentos; quanto à inseguridade, assistimos aqui a insensata loucura da ditadura coreana de Norte com desfiles militares para demonstração de força. Cá como lá, vê-se governos fracos e impopulares apoiados pela força armada.

O carnaval fora de época de blocos uniformizados exibindo tanques como carros alegóricos, leva-nos a refletir sobre a triste realidade que vivemos; da minha parte, apelo de coração para a poesia “Menino Moleque”, de Milton Nascimento; “… não posso aceitar sossegado/ Qualquer sacanagem ser coisa normal…”.

 

 

 

DOGMAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br

“Dogma não significa ausência de pensamento, mas sim o fim do pensamento” (Chesterton)

As cidades-estados da velha Grécia, que foram o berço da Democracia, eram contraditoriamente governadas por uma teocracia; que foi copiada pelos “bispos cristãos” ao conquistar o poder em Roma criando o Papado.

Esta organização eclesial fortemente hierarquizada substituiu as antigas comunidades cristãs livres que tiveram de se submeter ao imperador Constantino e a sua fraude oportunista de que dialogara com Jesus Cristo…

Assim, o cristianismo católico passou a governar através de uma simbiose Deus-Estado…. Inventou até um título para Deus, “Rei dos reis”…. E o papa então tornou-se o representante de Deus na Terra, como Pontifex Maximus, como era o chefe do colégio dos sacerdotes na antiga religião romana.

O Papado com o poder imperialmente consolidado chegou à Idade Média estendendo o seu mando aos países europeus convertidos, pondo os bispos a serviço dos governos e divinizando também os ocupantes do poder.

Esta interação teocrática dominou com forte repressão, criando tribunais de exceção que sentenciavam prisões, torturas e condenações à morte pela fogueira. Mas como todo poder totalitário, degenerou-se estimulando a revolta dos clérigos honestos. A reação culminou com a Reforma Protestante.

Este movimento nasceu da repulsa ao modo de vida luxurioso do bispado e do repúdio à politicagem e a corrupção de grande parte do clero, comportamento que corroeu o Sacro Império Romano Germânico.

Como autodefesa, o Papado viu-se obrigado em 1546 a convocar um concílio a fim de reestruturar o ordenamento clerical. Conhecido como “Concílio de Trento”, o sínodo realizou-se sob a direção do papa Paulo III; aprovou duras medidas para disciplinar o sacerdócio, proibiu a imoral venda de indulgências, criou seminários para formar padres e permitiu a livre expressão de pensadores cristãos, como Inácio de Loyola e Erasmo de Roterdã.

Foi assim que surgiu a “contrarreforma”. Esta, apesar do arejamento das ideias humanistas, teve que fazer concessões para conter a rejeição dos ultramontanos conservadores e dogmáticos, fortalecendo a Inquisição para julgar “hereges”,

“Herege” é uma palavra grega, “hairetikós”, que significa escolher. Seriam as pessoas que pela visão de um bispo investido de juiz, inconformadas com as correntes retrógradas mantidas no Vaticano, como todo aquele que contestasse os dogmas estabelecidos de cima para baixo pela hierarquia eclesial sem ter por base os Evangelhos.

Dessa maneira, o recalque da burocracia sacerdotal manteve os dogmas, impondo que as decisões do Papado deveriam ser acatadas sem análises, discussão ou questionamentos, um princípio doutrinário absurdo que chegou até os dias atuais.

Desta posição bitolada originou-se a beatice, o carolismo igrejeiro; enfim, o fanatismo, pois só os fanáticos não têm dúvidas sobre o que lhes impõem como verdade.

Vê-se até hoje no campo da política, exemplos desse servilismo aceitando a exigência de obedecermos aos programas de Governo que não são dogmas, e acolher como correto o discurso de quem ocupa eventualmente o poder. Ambos exigem a discussão, e no mínimo, o diálogo.

Não se deve aceitar e curvar-se à imposição dos segredos misteriosos do capitão Bolsonaro sobre o trânsito e o comportamento dos seus familiares, com decreto de sigilo por 100 anos quanto à ida e vinda dos filhos no Palácio do Planalto

Trata-se de uma medida que nos obriga à reflexão, a discutir e a protestar; chega de sigilos! Por honestidade consigo mesmo, o brasileiro deve adotar o princípio socratiano de que “a vida sem questionamentos, não merece ser vivida”.

A revolta contra “segredos” jurídicos e governamentais dogmáticos é um imperativo de consciência cívica. Pensemos, pois, com André Gide: “Crê nos que buscam a verdade. Ponha em dúvida aqueles que dizem tê-la encontrado”.

 

 

 

VENENO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

A ciência é o grande antídoto contra o veneno do entusiasmo e da superstição“ (Adam Smith)

No ano de 1973 foi lançado um filme do gênero terror sobrenatural que tirou o sono de muita gente: “O Exorcista” (The Exorcist), com o roteiro baseado no livro com título homônimo escrito por William Peter Blatty e dirigido por William Friedkin.

A crônica cinematográfica informa que a história foi supostamente inspirada no caso real do pré-adolescente Robbie Manheim que vivia em 1949 na cidade de Cottage, em Maryland, nos Estados Unidos, que sofreu uma possessão demoníaca.

Verdade ou simplesmente ficção fantástica, tal situação deixa o registro com o parecer de um protagonista do filme: – “o demônio é um mentiroso. Ele vai mentir para nos confundir. Ele também vai misturar mentiras com a verdade para nos atacar”.

As mentiras demoníacas, mesmo em gotículas, são um veneno que transtorna a realidade e comprometem os que vivem no entorno do mentiroso.

Gramaticalmente, a palavra “Veneno” é um substantivo masculino de etimologia latina “venēnum”, designando substância tóxica, natural ou preparada, ou altera ou destrói as funções vitais de um organismo. Acrescente-se que reflete a interpretação maldosa ou deturpada de algo. E o maior veneno secretado nos nossos corações e mentes é a mentira.

A mentira pactua com a perversidade, obrigando-nos a fugir dos seus efeitos danosos ao degustar o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, aquela que o grande Arquiteto do Universo proibiu a Adão e Eva; a Ciência, como diz Erasmo de Rotterdam no seu “Elogio da Loucura”, é o veneno da felicidade.

Para sermos felizes sem alienação é necessário repudiar a maléfica mentira propiciada pelo mundo político; principalmente a intoxicação produzida pelas promessas eleitorais que envenenam as nossas aspirações e interesses.

Verdade se diga que todas as substâncias são venenos, mas não há mentira que não seja um veneno. Leve-se em conta, entretanto, que o Tito Lucrécio Caro, poeta e filósofo da Roma Antiga, classificou veneno como intriga, dizendo que “o que é alimento para uns, para outros é um veneno amargo”.

Este pensamento nos leva aos comentários que se multiplicam em Brasília sobre a recriação do Ministério do Trabalho, que sob o comando do fraudulento Onix Lorenzoni, se incumbirá de atrair a pelegada com a volta do abominável imposto sindical. É veneno para o povo e alimento para a pelegagem.

Investe-se de poder este Ministro “de qualquer ministério” para angariar apoio político e votos para a reeleição do Capitão Minto. Vem somar-se ao “Tratoraço” – o “Mensalão”, na versão da nomenclatura bolsonarista -, compra de parlamentares inventada por Fernando Henrique Cardozo e adotada ardilosamente pelo lulopetismo.

E foca também à disposição da patota de Carluxo, outro termo na novilíngua, o novo cognome de “Propina”; que passou a ser “Comissionamento” para os arrecadadores do negativismo lucrativo do bolsonarismo….

Desse jeito, fica transparente e corrosivo o veneno da corrupção para desfrute dos bajuladores que infestam o “cercadinho” do Palácio do Planalto e enxameiam as redes sociais, onde “sobra algum” dos gastos publicitários para os que disseminam as fake news do gabinete do ódio.

Ocorreu, e parece que vem ocorrendo, com a divulgação em massa em defesa do tratamento precoce para a covid-19 e trazendo depoimentos de cura pelo uso de remédios ineficazes para a doença, cloroquina, hidroxicloroquina e Ivermectina.

Talvez por falta de verbas, ainda não vi nenhum adjutório para a nova droga saída da mente inescrupulosa de Bolsonaro, a proxalutamida. Mas certamente teremos em breve os bolsonaristas do Centrão repetindo o diagnóstico fraudulento nas redes sociais garantindo a que “achismo” do Chefe é genial.

Esta idolatria estúpida nutrida com o veneno das mentiras, fortalece a convicção dos tolos; da minha parte, prefiro a oração de Gandhi: “Meu Senhor, ajude-me a dizer a verdade diante dos fortes e não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos débeis”.

 

 

 

VACINAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Vai comprar vacina na casa de sua mãe” (Jair Bolsonaro)

As crianças do mundo inteiro (e os que já foram crianças um dia) devem venerar o médico, virologista e epidemiologista norte-americano, Jonas Salk, que deve ser lembrado por ter desenvolvido a vacina oral (famosa “gotinha”) para a poliomielite.

Certa vez, indagado por um jornalista se ele havia registrado a patente da vacina da poliomielite, Salk respondeu: – “Não. Ela é das pessoas. Não há nenhuma patente. Você poderia patentear o sol? “. Merece ou merece encômios?

Os aplausos, infelizmente devem ser trocados por apupos aos governantes que foram contra a quebra das patentes, medida humanitária para as nações mais pobres enfrentarem a pandemia. Entre os defensores do lucro das farmacêuticas monopolistas alinhou-se o presidente brasileiro, capitão Bolsonaro, atendendo ao pedido do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, a quem venera.

Isto, por si, é condenável; mas Bolsonaro fez muito pior, condenou pessoas à morte pelo negativismo, também seguindo Trump, subestimando a ameaça da pandemia do novo coronavírus, e depreciando as medidas preventivas como uso de máscaras, evitar aglomerações e fazer o isolamento social.

E foi ao superlativo – mesmo como neologismo -, pioríssimo, ao charlatanescamente prescrever drogas ineficazes para a covid-19 e desqualificando perversamente a vacina, ora ridicularizando o seu uso, ora condenando por xenofobia a insumo chinês desenvolvido pelo Instituto Butantan.

Com isto torna-se impossível encontrar um adjetivo para qualificar o negativismo lucrativo de Bolsonaro suspeitosamente comprar vacinas através de intermediários dispostos a pagar “comissionamentos” à quadrilha que se instalou no Ministério da Saúde.

Como pensador iluminista cujos pensamentos estão válidos até hoje, Voltaire disse que “a política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano”, mostrando-se um futurólogo para o Brasil do que Nostradamus que se limitou à Europa…. (Embora haja quem interprete centúrias deste lado do Atlântico).

A perversidade genocida do capitão Bolsonaro e seus partidários não se limitou a ceifar mais de meio milhão de vidas: tornou-se lucrativa como faziam os guardas de campos de concentração nazistas recolhendo roupas, joias, cabelos e até arrancando dentes de ouro dos que iam para as câmaras de gás.

Desenrola-se, para júbilo dos brasileiros que não têm bandido de estimação, uma CPI no Senado Federal que está mostrando a ganância criminosa ocorrida nas transações fraudulentas com intermediários para suposta aquisição de vacinas. Com US$ 1 de sobrepreço para atender a demanda gulosa dos comissionados….

Na CPI da Covid a brilhante senadora Simone Tebet em uma atuação firme. Antecedeu pelo estudo e projeções a nota da farmacêutica indiana Barath Biotech questionando a autenticidade dos documentos apresentados pela Precisa Medicamentos que foram recebidos e aceitos pelo Ministério da Saúde. E isto ocorrido, comprova as maracutaias que estavam sendo tramadas para recebimento de “comissionamentos” a propina rebatizada pela novilíngua bolsonarista.

A Barath Biotech também rescindiu o contrato com a Precisa por Irregularidades na negociação da vacina com o Governo Bolsonaro denunciadas pelo deputado Luís Miranda a quem o Capitão até agora não respondeu.

Os documentos falsificados foram exibidos oficialmente em rede de televisão pelo ministro de qualquer coisa Onix Lorenzoni, configura um crime de falsidade ideológica, coisa que vem ocorrendo sistematicamente com o próprio capitão Bolsonaro, que ocupa a presidência da República.

Oficiosamente, anunciado à larga pelos motoqueiros do fanatismo, o diversionismo do capitão Bolsonaro já não convence sequer a direita autêntica, traída em seus princípios contra os visíveis desvios da honestidade, do pudor e da ética, enfrenta vacinada contra o medo as ameaças golpistas guarda pretoriana de pijama….

Estes arreganhos seriam a última palha para o capitão Bolsonaro se afogando no slogan que se inverteu na boca do povo brasileiro: “Na minha corrupção não tem governo”!

 

 

SENTENÇAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Quando um juiz se deixa levar pela cólera ou por qualquer outra paixão, sua sentença recebe necessariamente a marca disso” (Aristóteles)

Sendo julgado, Jesus Cristo disse a Pôncio Pilatos – “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, e com isto não deixa dúvidas quanto à separação de Deus e do Estado; mas foi traído pelo catolicismo quando conquistou o poder em Roma e, posteriormente, pelas demais vertentes da religião cristã.

Sob o poder do Papado, posteriormente, na Idade Média, viu-se o surgimento de tribunais controlados pela Igreja, ocupados por bispos investidos pelo papa Gregório IX para julgar casos de heresia. Desse modo, instalou-se a Inquisição.

Mesmo com a Reforma Protestante de Martinho Lutero, com rancorosas críticas à Igreja Católica, os seus seguidores mantiveram as ações inquisitoriais instalando tribunais persecutórios semelhantes aos da Igreja Católica.

Assim, a atuação religiosa protestante e o catolicismo da contrarreforma se igualaram nos julgamentos. Tanto os tribunais vaticanenses como os luteranos e calvinistas, absolviam os réus que confessassem os seus crimes, contanto que jurassem tê-los cometidos incorporados pelo diabo.  As penas variavam entre ser exorcizado e remissão dos pecados….

Ainda hoje, os “foros” da beatitude negam o dualismo fundamental entre a lei de Deus e a lei dos homens. Essas concepções levaram aos tribunais civis momentos inquisitórios. Como ocorreu no famoso caso das “Bruxas de Salem”, ocorrido em Massachusetts (EUA), no ano de 1692.

Descrito magistralmente pelo escritor Arthur Miller em livro, peça e roteiro de filme “As Bruxas de Salem”, mostra como se deram os julgamentos de pessoas acusadas de bruxaria; mais de duzentos denunciados responderam a processos. Destes réus, 30 tiveram uma sentença condenatória e 19 foram enforcados.

Uma tonelada de artigos em jornais e revistas, livros, panfletos e teses acadêmicas giram sobre este caso e os historiadores resumem que a história surgiu de uma rivalidade entre duas famílias, protagonizando entre elas uma mulher problemática que rejeitava o puritanismo e não comparecia à missa. Foi o bastante para ser acusada de bruxa.

Os julgamentos deste presumível crime e os seus desdobramentos com acusações de parte a parte foram conduzidos pelo tribunal local e em 2ª Instância pelo Tribunal Superior de Justiça.

As delações e depoimentos de fervorosos religiosos se basearam na maioria, em alucinadas jurisprudências medievais que condenavam qualquer mulher considerada feiticeira por não se assumir católica ou protestante. Seguiam o insano Malleus Maleficarum, códice de caça às bruxas dos inquisidores dominicanos, visando condenar parteiras e curandeiras que atuavam às escondidas.

A tortura para obter confissões, eram comuns para justificar as sentenças dos juízes de paz nomeados para servir ao governo colonial da América do Norte e – embora não tenhamos pesquisado, cremos ter ocorrido nos vice-reinados espanhóis na América Latina, que condenaram à fogueira e ao enforcamento muitos “hereges”.

Esta anti-Justiça é defendida até hoje por muita gente; e, para isso, os governos nomeiam os magistrados dos tribunais superiores e quando não conseguem obter o seu servilismo, criam milícias políticas para desrespeita-los e condenar as suas sentenças.

É assim, infelizmente, o que ocorre algumas vezes no Brasil. O Supremo Tribunal Federal mantém entre seus membros uma fração de magistrados “garantistas”, defensores da tese que confunde direitos humanos com o direito dos bandidos, e assim impõem a execrável impunidade.

… E como nada está tão ruim que não piore, aguardamos a nomeação para o STF de um juiz “terrivelmente evangélico”, segundo o capitão Bolsonaro.

Imaginemos isto concretizado: chegando à Corte um corrupto para ser julgado com uma tonelada de provas contra ele e, diante do Juiz com a Bíblia na mão, jure que se arrepende e que cometeu os crimes possuído pelo diabo. A sentença seria a absolvição; e nesta hipótese, não ocorreria o mesmo se fosse uma bruxa contestadora do regime.

 

 

SODOMA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Quem semeia para a sua carne da carne colherá destruição” (Gálatas 6:8)

No Velho Testamento, o livro de Gênesis, capítulo 19, descreve como as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas por causa do comportamento sexual perverso dos seus habitantes, pecaminoso “aos olhos de Deus”.

Essa catástrofe é estudada por arqueólogos, cientistas e teólogos; e na Universidade Trinity Southwest instituto cristão sediado em Albuquerque, Novo México (EUA), levantam a tese que foi um meteorito que atingiu a atmosfera terrestre mais ou menos há 3,7 mil anos e explodindo incidiu sobre aquela região próxima ao Mar Morto.

Teóricos dos antigos astronautas acreditam que os anjos citados em Gênesis como enviados por Deus, eram na realidade extraterrestres indo a Sodoma levando um ultimato, e que a destruição da cidade se deu num confronto interplanetário usando armas atômicas.

Os fariseus pregavam e os escribas copiavam a lenda ainda repetida pelos sacerdotes de várias denominações cristãs: Sodoma era uma cidade opulenta sob o poder das Artimanhas, do Engano, da Fraude e da Mentira, e os seus habitantes viviam na abundância em orgias luxuriosas….

Este lado religioso é mitológico, envolvendo figuras reverenciadas pelo judaísmo e algumas seitas islâmicas como o patriarca Abrahão. Contam que ele pediu a Deus para não destruir a cidade, ouvindo Dele que se por acaso lá vivessem 10 justos a pouparia.

Então dois anjos foram à cidade e não encontraram os dez justos que a salvaria; pelo contrário, assistiram a dolorosa cena de uma menina que foi sacrificada por ter dado a um mendigo um pedaço de pão: desnudaram-na e untaram-na com mel expondo-a sobre um muro para que os maribondos a atormentasse. Estava assim decretado o arrasamento de Sodoma.

Por interferência divina, os anjos insistiram com Ló, sobrinho de Abrahão, para que fugisse com a sua família antes que a ira de Deus se concretizasse. E orientaram que não olhassem para trás; mas a mulher de Ló olhou para trás e se transformou numa estátua de sal.

No dia seguinte Ló viu de longe uma densa fumaça subindo da terra, como saísse de uma fornalha, sobre Sodoma e Gomorra. Deus havia lançado sobre as cidades uma chuva de fogo e enxofre, arrasando toda a planície, matando todos os habitantes e destruindo toda a vegetação.

Se essa história é fantasiosa, pouco interessa. Serve simbolicamente como um exemplo de castigo para os execráveis dirigentes de qualquer nação. Não custa lembrar o que ocorreu no fim do Terceiro Reich e da União Soviética; os nazistas sob a ditadura de um falso messias cercado por um ministério de figuras execráveis, viciados, corruptos e esquizofrênicos. E os comunistas sob o terror macabro e policialesco do stalinismo.

A associação da obsessão dos políticos carreiristas pelo poder e o egocentrismo, termina sempre castigada, como vimos Mussolini morto por apedrejamento, tendo o corpo pendurado em ganchos de açougue e exibido em praça pública.

Felizmente, o deus do Antigo Testamento não confunde o Brasil com Sodoma. Aqui, nunca ocorreram destruição geográfica e aniquilamento do povo. Mudanças políticas estruturais sempre se deram pelo consenso e a conciliação, como a História registra na Independência, Abolição e República. Viu-se na revolução de 1930 e na queda do Governo Jango em 1964.

Assim, ao pregar uma guerra civil no caso de perder a eleição, é um desvario do capitão Bolsonaro, o aprendiz de Hugo Chávez que surfa nas ondas do negacionismo genocida durante a pandemia.

Há mais alguém que apoie essa aventura? Sem dúvida que há. Mas o que vemos entre os seus frenéticos auxiliares de governo e no fanatismo dos seguidores virtuais (não me refiro ao automatismo dos robôs, mas aos tolos que ainda creem nele) é o eco da voz do chefe.

Assim, é ditoso vermos que ente nós a soberania das Artimanhas, do Engano, da Fraude e da Mentira que reinava em Sodoma resume-se ao delírio de capitão Bolsonaro, oportunista demagogo, ignorante e mentiroso.

 

 

MAKTUB

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O destino baralha as cartas, e nós jogamos” (Schopenhauer)

A palavra Maktub entrou no idioma do mundo inteiro, serve até para tatuar muitas pessoas que aceitam o fatalismo. É um verbete de origem árabe “مكتوب” significando “estava escrito”; no coloquial, “tinha que acontecer”. Maktub é considerado por filólogos como sinônimo de Destino.

A fórmula fatalista com que o crente do Islam se resigna à vontade de Alá não se limita aos seguidores de Maomé. Na Grécia antiga, Heráclito, um filósofo pré-socrático ensinou que “o caráter do homem é seu destino”, antecedendo o islamismo.

E também o tão badalado Freud, criador da psicanálise, escreveu no seu estudo “Além do princípio do prazer” que “podemos dizer que o objetivo de toda vida é a morte, e, retrospectivamente, que o inanimado existia antes que o vivente…” E estabeleceu a teoria do Complexo de Édipo, bastante conhecido e tema de conversas de bar…

Apreendeu Freud a teoria do Complexo de Édipo no mito que Sófocles levou ao teatro, com a peça “Édipo Rei”. É a história do rei de Tebas, Laio, que ouviu de um oráculo que seria morto pelo próprio filho, que depois se casaria com a sua esposa e a própria mãe.

Supersticioso, Laio abandona o filho pregado pelos pés num tronco de árvore para que ali morresse; mas um caçador que por ali passava levou a criança para casa e deu-lhe o nome de Edipodos (pés-furados). O menino foi adotado mais tarde pelo rei de Corinto.

Já adulto, Édipo ouviu de uma pitonisa que mataria o pai. Pensando tratar-se do pai adotivo, ele foge de Corinto e no caminho foi agredido por um grupo de mercadores; enfrentando-os, mata a todos, inclusive o líder que era o seu pai biológico, Laio. Prosseguindo a viagem e chegando a Tebas, para livrar a cidade de ameaças, decifra o enigma da Esfinge e sob o delírio do povo é investido como rei e se casa com a rainha viúva, Jocasta, sua mãe…

O filósofo Arthur Schopenhauer, cujas aproximações e divergências com as teorias posteriores de Freud já deram em muitos livros, deixou-nos um curioso pensamento que nos leva à reflexão ao dizer que “na hora da morte, todos os poderes misteriosos que determinam o eterno destino do homem se conjugam e entram em ação”.

Assim se materializa na cultura ocidental o Maktub, o “estava escrito”, usado como sinônimo de destino. No Brasil, o escritor Júlio Cesar de Melo e Souza (que foi meu professor), sob o pseudônimo de Malba Tahan, escreveu o livro Maktub em 1935, e mais tarde foi título de publicação de Paulo Coelho de 1994.

Na música, Maktub é mais uma das belas canções do mineiro Marcus Viana, lançada em 2016; e no cinema temos na Netflix, o filme israelense Maktub, classificado como comédia/drama misturando violência e humor; dirigido por Oded Raz, desenvolve o enredo de uma dupla de Steve (Hanan Savyon) e Chuma (Guy Amir), que trabalham como cobradores do agiota Karlassi (Itzik Cohen).

O catolicismo tem na sua hagiologia a curiosa história de um vagabundo que andava pelo mundo dizendo estar em busca do seu destino. Um dia, cansado, parou na margem de um rio; como tinha uma força descomunal transportava pessoas de uma margem à outra ganhando o de comer.

O destino levou este condutor a ouvir a voz de uma criança pedindo-lhe para atravessar as águas caudalosas; como era seu trabalho, pôs o menino nos ombros e na travessia foi sentindo o aumento quase insuportável do peso que levava; quando alcançou com dificuldade o outro lado do rio, ouviu da criança: – “Transportaste sobre os teus ombros o mundo e Aquele que o criou”.

Estava escrito:  o menino era Jesus Cristo e o guia a partir de então adotou o nome de Cristóvão, “carregador de Cristo”. Hoje é adorado como São Cristóvão, padroeiro dos motoristas e viajantes.

Na política, tiveram os brasileiros o triste destino em ver um psicopata mitômano ser eleito presidente da República com promessas mentirosas de combate à corrupção e, no poder, mostrou a verdadeira face de político medíocre, que alguém descreveu como “uma figura patética e inexpressiva do baixo clero no Congresso Nacional”.

O capitão Bolsonaro traiu as promessas eleitorais e se aliou aos corruptos do Centrão abrindo o seu governo à corrupção; e, sem se acanhar, diz que “não sabe o que se passa nos ministérios” e, pior ainda, reconhece que existem pessoas “com interesse” no Ministério da Saúde….

Fatalistas que observam a nossa cena política dizem que “estava escrito”: quem praticou as “rachadinhas” impunemente, arrisca-se a tentar uma “rachadona”…

 

 

 

SEGREDOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol,com.br)

“O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho” (Nietzsche)

É inolvidável a primorosa poesia de João Nogueira cantando “Segredo” fazendo a defesa dos cuidados na interpretação das coisas com o alerta: – “Não deixe que males pequeninos/ Venham transtornar os nossos destinos”.

Gosto de repetir que aprendi com William Blake, romancista e jornalista escocês, autor de vários livros de sucesso, incluindo o excelente romance “A Estranha Aventura”, que “quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito”, e aproveitando a letra filosófica de “Disparada”, de Geraldo Vandré, afirmo que sempre “as visões vão se clareando, até que um dia acordamos”.

Quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, vê e escuta o que se passa no Governo Bolsonaro desde que assumiu o poder; e entristece tendo votado nele, iludido pelo discurso contra a corrupção.

Assumindo a presidência da República montou na égua dos sigilos sinalizando que deve esconder da opinião pública o que pensa e o que faz. Pena que seja seguido por quem não deveria copiar a intransparência embaciando a verdade, como fez sigilo de 100 anos a cúpula militar no processo que absolveu a indisciplina do general-ativista Eduardo Pazuello.

… E daí em diante os segredos nos assustam por ver o envolvimento de dezenas de militares (talvez centenas) da reserva, lotando os gabinetes ministeriais, principalmente na Saúde, onde explodiu agora o caso mais suspeitoso de corrupção.

Isto confirma tristemente que o projeto ditatorial do capitão Bolsonaro, admirador do golpista e depois ditador Hugo Chávez, pode contar com apoio dos militares burocratas; acredito, porém, que os quarteis não embarcarão nesta aventura antidemocrática.

O apoio da guarda pretoriana de pijama pouco vale e as simpatias de alguns poucos oficiais superiores das FFAA não bastam para que o capitão Bolsonaro mergulhe numa tentativa de golpe. Para saciar a sua sede de poder, é melhor continuar a desatinada campanha reeleitoral que empreende, inaugurando até postos de gasolina para justificar os gastos com o dinheiro público….

Assusta-me e revolta-me é que o povo brasileiro vem perdendo a confiança nas suas Forças Armadas, principalmente no Exército de Caxias onde antigamente se obedecia ao princípio de que “a verdade é o símbolo da honra militar”.

Não considerei irreverente ao escrever outro dia que “os generais Castello Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo se remexem envergonhados nos seus túmulos…. Não expliquei o porquê, certo de que é tão transparente.

Mas revelo que é pelo silêncio ensurdecedor que a cúpula militar mantém diante do contrassenso que a Nação assiste diante do palavreado inconsequente do Presidente arremetendo contra ministros do Supremo e congressistas, e dizendo que o “nosso lado” pode não aceitar eleições de 2022 sem mudar o voto eletrônico”.

Assim, regurgitando o seu personalismo autoritário, o capitão Bolsonaro ameaça o Congresso e o STF, e divide o Brasil entre “nós” e “eles”, em vez de chefiar a Nação pelo bem de todos….

Não faço segredo: se o Ministério da Defesa e os comandantes das FFAA influenciados por militares envolvidos em suspeitas de corrupção apoiarem as sandices do Presidente, conspurcarão o seu passado de honradez e patriotismo, entrando para a História como “males pequeninos” que ameaçaram o destino glorioso do Brasil.

QUADRILHAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)    

“Um pequeno ladrão é colocado na cadeia. Um grande bandido torna-se o governante de uma nação” (Chuang Tzu)

O nosso epigrafado que vem do século IV a/C, Chuang Tzu, foi um filósofo chinês que se contrapôs a Confúcio, e é considerado pelo economista norte americano Murray Rothbard o precursor do liberalismo econômico por ter desenvolvido um dos conceitos econômicos mais importantes do mundo: a ordem espontânea.

Murray Rothbard, autor do badalado livro “Esquerda e Direita” e criador do anarcocapitalismo, destaca entre os pensamentos de Chuang Tzu: –  “o que o homem conhece, nem sempre se compara com o que ele não conhece”.

O volume do que desconhecemos é incomensurável. Assistindo o desenrolar da briga nos andares de cima pelas propinas na compra da vacina da Covaxin, sintetizei os pequenos e grandes ladrões como quadrilha.

A palavra “Quadrilha” dicionarizada é um substantivo feminino de etimologia do castelhano “cuadrilla”, designando grupo de quatro pessoas ou mais, e chegou à França do século XVIII como “quadrille”, uma dança elitista dos salões da alta aristocracia parisiense.

Coloquialmente a palavra popularizou-se como bando de ladrões ou salteadores, corja, gangue, malta, súcia. E se consagrou como dança alegre e movimentada nas nossas festas juninas, principalmente no Centro-Oeste e no Nordeste. Alguns pesquisadores defendem que teve origem holandesa e, por influência portuguesa veio para o Brasil dos Açores.

No mês de junho, quando ocorre o solstício de Inverno no Hemisfério Sul, os festejos homenageiam os santos Santo Antônio, São João e São Pedro, uma adaptação religiosa dos primitivos costumes de acender fogueiras em homenagem ao deus-sol para agradecer a colheita.

A versão católica prende-se à mitologia evangélica contando que as primas Isabel (mãe de São João Batista) e Maria (mãe de Jesus Cristo), grávidas, combinaram em acender uma fogueira para anunciar o nascimento dos filhos.

As fogueiras que ainda são acesas fazem parte das festas juninas que inicialmente foram estimuladas pelos jesuítas, fugiram do controle clerical tornando-se uma prática popular e mundana.

Trazem-nos saudades as comemorações juninas dos santos do povo. Como era bom dançar quadrilha, comer amendoim cozinhado no sal, canjica, milho assado na brasa, mungunzá, pamonha e pé de moleque! Tomar quentão para esquentar; soltar balões, brincar com fogos de vista inocentes, os chuveirinhos, diabinhos, estrelinhas, mijões, peido de velha, rodinhas-de-fogo e traques de chumbo….

Das tradições portuguesas, sincretizadas com a cultura dos povos migrantes, africanos por sujeição escravocrata e europeus fugindo das guerras e da pobreza, restam muito poucas coisas boas, e ao mesmo tempo nos decepcionando com outras quadrilhas, as quadrilhas políticas que dançam a dança ignominiosa da corrupção.

A antiga dança alegre e movimentada sob a música típica, transformou-se em visitas soturnas, conversas suspeitas, telefonemas comprometedores e o coro criminoso de pedidos de propina.

Folclorizou-se estupidamente como associação criminosa, bando e gangue….  Os seus protagonistas estão enquadrados no artigo 288 do Código Penal Brasileiro, a fim de responder pelos crimes de advocacia administrativa, corrupção ativa ou passiva, concussão, falsidade ideológica, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e prevaricação.

Como se diz na gíria militar: “meia dúzia de três ou quatro” criminosos ocupando altos cargos no governo, exigem o pagamento de vantagens na compra de vacinas e insumos médico-hospitalares.

É uma triste fatura pelos boletos do negacionismo fraudulento, tão lucrativo quanto o tráfico de drogas e as múltiplas atividades criminosas das milícias. Pelas denúncias, suspeita-se que isto esteja ocorrendo no Governo Bolsonaro. E nós, ainda sem adotar bandido de estimação, queremos que as investigações da CPI da Covid vão a fundo para que a verdade apareça.