Tropa de Elite 3

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A tal “guerra do Rio” parece um grande filme B. Tudo nela é precário e mal-acabado. Dos atentados nas ruas às reações das autoridades, nada é o que parece ser. E o noticiário costura a coisa toda produzindo a antológica novela mexicana do Capitão Nascimento.

Mocinhos e bandidos revezam-se nas trapalhadas. A ofensiva do crime, como é a tradição carioca, se dá através de um arrastão de pés-rapados ensaiando maldades desconexas. Uma tosca epidemia de garrafas pet cheias de gasolina nas mãos de moleques imberbes – como aquele que, alguns anos atrás, fugiu apavorado quando a juíza Denise Frossard gritou com ele no meio da rua.

Essa é a ponta-de-lança do “crime organizado”. Uma horda de traficantes indolentes, chateados com a perda de algumas bocas de fumo, simulam uma escalada terrorista – que mataria a al-Qaeda de vergonha. Espalham boatos arrepiantes, prometem um Sábado Negro – que amanhece ensolarado e com as praias lotadas. O pessoal só vai embora da praia para não perder a guerra na TV.

A polícia, mais antiga e leal sócia do tráfico, cumpre como pode a missão heróica de um secretário de segurança obstinado – forte candidato a Don Quixote. A população aplaude a bravura da ocupação dos morros, enquanto passa a ser barbarizada no asfalto. Na bagunça de causas e conseqüências trôpegas, a promiscuidade entre o bem e o mal está salva. Nessa, ninguém toca. Como sempre, para ilustrar a inconsistência e a balela das ações públicas, nada melhor do que um discurso do ministro Nelson Jobim.

A formidável indústria marginal de drogas e armas baseada no Rio de Janeiro é um dos grandes flagelos nacionais. Prospera à base de um mercado economicamente poderoso e altos teores de corrupção do Estado. Um problema que precisará de décadas para ser confrontado – numa hipótese otimista. Mas o direito a esse otimismo dependeria de medidas federais contundentes, desde reformas institucionais das forças de segurança até políticas de controle da natalidade (tema proibido no Brasil).

É aí que surge, nesse “Tropa de Elite” de camelô, a figura infalível de Nelson Jobim – o explicador de tragédias, o mago do caos aéreo, o providencial. Jobim, o homem de Lula (e pelo visto de Dilma) para a guerra do Rio, declarou: “Cabe ao governo estadual definir as áreas estratégicas e receber o apoio que julgar necessário. E depois cabe à Polícia Federal e etc fazer as definições táticas. Fica claro que estamos numa mudança de paradigma”. Ficou claro? Teremos definições táticas a cargo da Polícia Federal e etc.

Não se sabe bem qual o poder de fogo do etc, mas deve ser grande. E o principal: no meio de uma grave crise de segurança, o ministro da Defesa assegura que estamos mudando o paradigma. Os criminosos devem estar apavorados com essa perspectiva. Não poderia haver texto mais perfeito para esse filme B. Ajeite-se na poltrona, escolha o seu paradigma no controle remoto e divirta-se. A tragicomédia vai continuar.

 

Guilherme Fiúza, jornalista

Uma resposta para Tropa de Elite 3

  1. Assino em baixo o artigo do Fiuza. O carnaval midiático na TV retrata bem a ópera-bufa em que tais operações se transformaram. Insisto em que a unica novidade foi o emprego dos blindados da Marinha, aliás um “ovo de Colombo”, do ponto de vista tático. Além do mais revelam em suas entrevistas que ignoram se tratar de um problema globalizado ou “globloqueado”, como queiram. Abs.