Poesias

Vinícius de Moraes

A partida


Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É a mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.

Texto extraído da antologia “Vinicius de Moraes – Poesia completa e prosa”.

Biografia de Vinícius de Moraes aqui.

 

  • Comentários desativados em Vinícius de Moraes

Mário de Andrade

Eu Sou Trezentos…

 

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Ôh espelhos, ôh ! Pirineus ! Ôh caiçaras !

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro !

Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos táxis,

nas camarinhas seus próprios beijos !

 

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal toparei comigo…

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

 

Biografia de Mário de Andrade aqui.

 

 

  • Comentários desativados em Mário de Andrade

Alejandra Pizarnik

A JAULA

 

Lá fora faz sol.

Não é mais que um sol

mas os homens olham-no

e depois cantam.

 

Eu não sei do sol.

Sei a melodia do anjo

e o sermão quente

do último vento.

Sei gritar até a aurora

quando a morte pousa nua

em minha sombra.

 

Choro debaixo do meu nome.

Aceno lenços na noite

e barcos sedentos de realidade

dançam comigo.

Oculto cravos

para escarnecer meus sonhos enfermos.

 

Lá fora faz sol.

Eu me visto de cinzas.

 

tradução de Virna Teixeira

 

Biografia de Alejandra Pizarnik aqui.

  • Comentários desativados em Alejandra Pizarnik

Federico García Lorca

AR DE NOTURNO

 

Tenho muito medo

das folhas mortas,

medo dos prados

cheios de orvalho.

eu vou dormir;

se não me despertas,

deixarei a teu lado meu coração frio.

 

O que é isso que soa

bem longe ?

Amor. O vento nas vidraças,

amor meu !

 

Pus em ti colares

com gemas de aurora.

Por que me abandonas

neste caminho ?

Se vais muito longe,

meu pássaro chora

e a verde vinha

não dará seu vinho.

 

O que é isso que soa

bem longe ?

Amor. O vento nas vidraças,

amor meu !

 

Nunca saberás,

esfinge de neve,

o muito que eu

haveria de te querer

essas madrugadas

quando chove

e no ramo seco

se desfaz o ninho.

 

O que é isso que soa

bem longe ?

Amor. O vento nas vidraças,

amor meu !

 

( tradução:  William Agel de Melo )

Biografia de Gabriel García Lorca aqui.

  • Comentários desativados em Federico García Lorca

Fernando Pessoa

O TEJO É MAIS BELO

(do “Guardador de Rebanhos” – Alberto Caeiro)

 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

 

O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

 

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.  

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso porque pertence a menos gente, 

É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 

 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.  

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.  

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

 

Biografia de Fernando Pessoa aqui.

Ferreira Gullar

MAU DESPERTAR

 

Saio do sono como

de uma batalha

travada em

lugar algum

 

Não sei na madrugada

se estou ferido

se o corpo

        tenho

        riscado

de hematomas

 

Zonzo lavo

       na pia

os olhos donde

ainda escorre

uns restos de treva.

 

Biografia de Ferreira Gullar aqui.

 

Luis Carlos Guimarães

Nona

Quando não mais esperava, chegou
com a doçura de uvas maduras.
Jorro de luz. Estrela-d’alva. Lua
refletida no rio, levada para o mar.
Crença me acenando com a proteção
do céu. Janela aberta à paisagem
que se vê pela primeira vez.
Macia como lã, sua voz na penumbra.
Canto de pássaro tecendo a manhã.
Biografia de Luis Carlos Guimarães aqui.
  • Comentários desativados em Luis Carlos Guimarães

Zila Mamede

Trigal

 

Por entre noite e noite, essas veredas 

para os trigais maduros me acenando. 

Despertam-se campinas, precipitam-se 

as invenções da luz na ventania.

 

 Por entre lua e lua, essa querência 

– um resmungar de espigas conscientes 

do retorno às searas, que ceifeiros 

já descerraram olhos invernais.

 

Planície enlourecendo se oferece 

e um mar desenha nos pendões crescentes. 

Ceifeiros – seus marujos sem navios –

 

pescam sementes, riscam no amarelo 

a saudade dos peixes inascidos 

nesse (não mar das águas) mar de pão.

 

Biografia de Zila Mamede aqui.

Adélia Prado

Briga no Beco

 

Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mãos e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior,
[fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo
[ graças.
Desde então faço milagres.

 

Biografia de Adélia Prado aqui.

Lya Luft

Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou 
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos 
a sério.

 

Biografia de Lya Luft aqui.