Poesias

Ariano Suassuna

NOTURNO

 

Têm para mim Chamados de outro mundo

as Noites perigosas e queimadas,

quando a Lua aparece mais vermelha

São turvos sonhos, Mágoas proibidas,

são Ouropéis antigos e fantasmas

que, nesse Mundo vivo e mais ardente

consumam tudo o que desejo Aqui.

 

Será que mais Alguém vê e escuta?

 

Sinto o roçar das asas Amarelas

e escuto essas Canções encantatórias

que tento, em vão, de mim desapossar.

 

Diluídos na velha Luz da lua,

a Quem dirigem seus terríveis cantos?

 

Pressinto um murmuroso esvoejar:

passaram-me por cima da cabeça

e, como um Halo escuso, te envolveram.

Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,

a ventania me agitando em torno

esse cheiro que sai de teus cabelos.

 

Que vale a natureza sem teus Olhos,

ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

 

Da terra sai um cheiro bom de vida

e nossos pés a Ela estão ligados.

Deixa que teu cabelo, solto ao vento,

abrase fundamente as minhas mão…

 

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,

o vento encrespa as Águas dos dois rios

e continua a ronda, o Som do fogo.

 

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

 

Biografia de Ariano Suassuna aqui.

Alfonsina Storni

A SÚPLICA

 

Senhor, Senhor, há muito tempo, um dia,

sonhei o amor, como ninguém houvera

inda sonhado, amor que fosse e que era

a vida toda todo uma poesia.

 

Passa o inverno e esse amor não chegaria,

passaria também a primavera;

o verão persistente volveria

e o outono, ainda me encontra à sua espera.

 

Ó Senhor, sobre minha espádua nua,

faze estalar, por mão que seja crua,

o látego que mandas aos perversos!

 

Que já anoitece sobre minha vida

e esta paixão ardente e desmentida

eu a gastei, Senhor, fazendo versos!

 

Tradução: Osvaldo Orico

 

Biografia de Alfonsina Storni aqui.

 

Marisa Alverga

CERTEZA

Quando
Este amor for passado
E só a saudade restar
Como epitáfio gravado
No mausoléu do tempo,
Por certo lembrarás alguém
Que te quis bem,
Pois ninguém sendo amado
Como tu és,
Poderá deixar
De amar também.

Biografia de Marisa Alverga aqui.

ALEX POLARI DE ALVERGA

FOICES

 

E fosse o vento

como rajada

fio de foice

rente ao horizonte

cortando espigas e auroras.

E fosse fosco

o vidro que nos separasse

da paisagem

assim semeador

vulto impreciso pelas grades

colher o que?

que fímbria de esperança

que migalhas de posteridade

disputar com os ratos?

 

Biografia de Alex Polari de Alverga aqui.

DEÍFILO GURGEL

Os Fantoches

 

O fantoche obedece cegamente

ao comando do manipulador: 

um tempo de sorrir e estar contente,

um tempo de chorar e sentir dor.

 

Mas, a face não muda. A gente sente 

olhando em seu olhar, seja o que for 

de morte e solidão, a inconsistente 

vida a que uma outra vida dá calor.

 

O homem dos fantoches é um sucesso: 

— Distinto público, eu agora peço… 

(Silencia a ululante patuléia).

 

A lágrima e o sorriso controlados

nos cordéis habilmente disfarçados. 

(Os fantoches no palco ou na platéia?).

 

Biografia de Deífilo Gurgel aqui.

Adalgisa Nery

Poema natural

 

Abro os olhos, não vi nada

Fecho os olhos, já vi tudo.

O meu mundo é muito grande

E tudo que penso acontece.

Aquela nuvem lá em cima?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

Ontem com aquele calor

Eu subi, me condensei

E, se o calor aumentar, choverá e cairei.

Abro os olhos, vejo um mar,

Fecho os olhos e já sei.

Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.

Quando a maré baixar, na areia secarei,

Mais tarde em pó tomarei.

Abro os olhos novamente

E vejo a grande montanha,

Fecho os olhos e comento:

Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,

Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

 

Biografia de Adalgisa Nery  aqui.

Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal

 

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta,  lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d’água, bebida. A Vida é líquida.

 

Alcoólicas (1990)

 

Biografia de Hilda Hilst aqui.

Adélia Prado

Briga no Beco

 

Encontrei meu marido às três horas da tarde

com uma loura oxidada.

Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.

Ataquei-os por trás com mãos e palavras

que nunca suspeitei conhecer.

Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,

gritei meu urro, a torrente de impropérios.

Ajuntou gente, escureceu o sol,

a poeira adensou como cortina.

Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,

sem me reter, peixe-piranha, bicho pior,

[fêmea-ofendida,

uivava.

Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.

Quando não pude mais fiquei rígida,

as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,

eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,

as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo

[ graças.

Desde então faço milagres.

 

Biografia de Adelia Prado aqui.

Emily Dickinson

Dentre todas as Almas já criadas

 

Dentre todas as Almas já criadas –

Uma – foi minha escolha –

Quando Alma e Essência – se esvaírem –

E a Mentira – se for –

 

Quando o que é – e o que já foi – ao lado –

Intrínsecos – ficarem –

E o Drama efêmero do corpo –

Como Areia – escoar –

 

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem –

E a Neblina – fundir-se –

Eis – entre as lápides de Barro –

O Átomo que eu quis!

 

(Tradução: José Lira)

Biografia de Emily Dickinson aqui.

Charles Baudelaire

A Música

 

A música p’ra mim tem seduções de oceano!

Quantas vezes procuro navegar,

Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,

Minha pálida estrela a demandar!

 

O peito saliente, os pulmões distendidos

Como o rijo velame d’um navio,

Intento desvendar os reinos escondidos

Sob o manto da noite escuro e frio;

 

Sinto vibrar em mim todas as comoções

D’um navio que sulca o vasto mar;

Chuvas temporais, ciclones, convulsões

 

Conseguem a minh’alma acalentar.

— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,

Que desespero horrivel me exaspera!

 

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”

Tradução de Delfim Guimarães

Biografia de Charles Baudelaire aqui.

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