Poesias

Arthur da Távola

SONETO DO DESESPERO

Senhores da dublagem, falem por mim outra voz.
Operadores de VT, multipliquem-me a imagem.
Iluminando-se-me o pavor. Moços:
Fazei moções contra meu envelhecer.
Tragam-me a pele de alabastro
A nuca e o braço deslumbrantes
(Eros insiste em se intrometer).
Não quero a sociedade, se vil
Nem pretendo militar na dor.
Choraste mel? Chorei pus.
Que faço com teu sutiã?
Hoje ninguém entra no céu sem crachá.
Se era para o medo de morrer
Por que me deram tanta vida?

 

 

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Darcy Ribeiro

A INDESEJADA

 

Aí estão eles, os da terceira idade.

Gregários, vivem aos bandos.

Sentados, jogando cartas, andando devagar.

Conversando pretéritos assuntos.

Olhando tristes os outros viverem.

 

Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.

Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.

Uns são viúvos, outros largados, poucos.

Muitos deles, os mais, ainda casados.

As mulheres duram demais.

 

Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.

Não reclamam, resmungam disfarçados.

Estão todos aflitos, na espera

Da indesejada, que tarda.

Tarda, é certo, mas virá. Inexorável.

Tárik de Souza

Epistemológico

 

patriamada fuzil

o ri

bombar de tuas fontes

 

patriamada, Brazil

o cor

cundar de suas costas

 

camaleão a sangue frio

macunaíma portátil, radinho

culhão e cachaça

 

 

reichmarcação

 

na psico-loja

dos prazeres

há de tudo um rosto

atos falhos

passaralhos

sanguessugas

turumbambas

negocêntricos

psicódigos

esquisogágicos

 

loucompletem-se todos.

 

Biografia de Tárik de Souza aqui.

Carlos Ayres Britto

Conselho

 

Namore bem com a vida.
Deixe que ela seduza você.
Permita-se ter um caso de amor
Com ela,
Mas não pare por aí:
(…)
Faça tudo isso e prove da vida
Como do néctar das flores
Prova o colibri,
Sem se perguntar se existe outro céu
Fora daqui.

 

Biografia de Carlos Ayres Britto aqui.

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Berilo Wanderley

Sangue e ópio


Bebe de um sorvo as minhas queixas roucas!
 

Mistura o teu pecado ao meu pecado! 
E depois, muitas horas serão poucas. 
E tanto, tanto sangue derramado…

Os teus beijos ateus vão-se, deixando 
gosto de tua carne em minha boca 
e um gosto de ópio me narcotizando. 
E tu hás de sentir, quando me deixas, 
uma vontade triste de ser louca, 
pois bebeste tristeza em minhas queixas…

  Biografia de Berilo Wanderley aqui.

 

Aníbal Beça

O Gato
(Ária para tenorino e flautim)
Para Carô Murgel

O gato aparece à noite 
com seu esquivo silêncio 
de passos bem calculados 
num jogo de paciência 
as garras bem recolhidas 
na concha de suas patas 
O gato passeia a noite 
com seu manto de togado 
como se fosse um juiz 
de presas resignadas 
a sua sentença de sombras 
seu apetite de gula 

O gato varre essa noite 
facho de suas vassouras 
vermelhas de olhos ariscos 
e alcança nessa limpeza 
o movimento mais presto 
o guincho mais desouvido 

Mais que perfeito no bote 
(tal qual Mistoffelees de Eliot) 
do pulo que nunca ensina 
tombam baratas besouros 
peixes de aquário catitas 
ao paladar sibarita 

Nada à noite falta ao gato 
nem a presteza no salto 
nem a elegância completa 
do seu traje de veludo 
para o baile dos telhados 
roçando as fêmeas no cio 

O gato é ato em seu salto 
e a noite luz do seu palco: 
ribalta luciferina 
lunária ária da lua 
na réstia de seus dois gozos 
é felix feliz felino 

Guardei a sétima estrofe 
para o canto do mistério 
das sete vidas do gato 
e seu tapete aziago 
nas noites de sexta-feira 
há provas do seu estrago.

 

Biografia de Aníbal Beça aqui.

Augusto dos Anjos

A FOME E O AMOR

 

A um monstro

 

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,

Receando outras mandíbulas a esbangem,

Os dentes antropófagos que rangem,

Antes da refeição sanguinolenta!

 

Amor! E a satiríase sedenta,

Rugindo, enquanto as almas se confrangem,

Todas as danações sexuais que abrangem

A apolínica besta famulenta!

 

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,

No desembestamento que os arrasta, Superexcitadíssimos. os dois

 

Representam. no ardor dos seus assomos

A alegoria do que outrora fomos

E a imagem bronca do que inda hoje sois!

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Geir Campos

INVENTÁRIO

 

Esta epiderme há muitos muitos anos

me cobre: guarda algumas cicatrizes,

outras não lembra mais, e até mistura

uns caminhos da infância a outros de agora.

 

As unhas não direi que são as mesmas

com que o seio nutriz terei vincado:

são mais duras, mais feias e mais sujas

— pois nem sempre de amor e entrega foi

o chão em que plantei, colhi nem sempre.

 

Se os dentes não gastei, gastei meus olhos

entrevendo paisagens, vendo coisas,

cegando-me ante sésamos de sombra.

 

A alma apanhou demais e vai pejada,

mas vão leves as mãos cheias de nada.

 

Biografia de Geir Campos aqui.

Florbela Espanca

AS MINHAS MÃOS

 

As minhas mãos magritas, afiladas,

Tão brancas como a água da nascente,

Lembram pálidas rosas entornadas

Dum regaço de infanta do Oriente.

 

Mãos de ninfa, de fada, de vidente,

Pobrezinhas em sedas enroladas,

Virgens mortas em luz amortalhadas

Pelas próprias mãos de oiro do sol poente.

 

Magras e brancas… Foram assim feitas…

Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas…

Tão doces que elas são! Tão a meu gosto!

 

Pra que as quero eu- Deus! – Pra que as quero eu?!

Ó minhas mãos, aonde está o Céu?

… Aonde estão as linhas do teu rosto?

Biografia de Florbela Espanca aqui.

Federico García Lorca

ALMA AUSENTE

 

Não te conhece o touro nem a figueira,

nem cavalos nem formigas de tua casa.

Não te conhece o menino nem a tarde

porque já morreste para sempre.

 

Não te conhece o lombo da pedra,

Nem o raso negro onde te destroças.

Não te conhece a lembrança muda

Porque já morreste para sempre.

 

O outono virá com suas conchas,

uva de névoa e montes agrupados,

mas ninguém virá olhar teus olhos

porque já morreste para sempre.

 

Porque já morreste para sempre,

como todos os mortos da Terra,

como todos os mortos esquecidos

em um monte de cães apagados.

 

Ninguém te reconhece. Não. Mas eu te louvo.

Eu canto desde já teu perfil e tua graça.

A madurez insigne de teu conhecimento.

Tua apetência de morte e o gosto de sua boca.

A tristeza que teve tua valente alegria.

 

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,

um andaluz tão claro, tão pleno de ventura.

Eu canto sua elegância com palavras que gemem

e relembro uma brisa triste pelas oliveiras.

 

Tradução de Antonio Miranda

 

Biografia de García Lorca aqui.

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