Poesias

BUENO DE RIVERA

OS DESTINOS URBANOS

 

O tráfego é previamente fixado

e todos os sensatos vivem o seu minuto.

 

Onde está o louco para um discurso

sobre os acontecimentos futuros?

 

Ah! se pudesses, dormirias

sob as árvores da praça, sem cuidados,

te banharias em público, comerias

o teu pão na calçada…

 

Vives no tempo dos relógios. Os teus passos

são contados, tuas horas são rações

minguadas na fome de ser livre.

E impaciente esperas numa esquina

um mágico que te indique

a porta, te mostre a claridade e ordene a fuga!

 

Onde estão os mágicos?

Dormem.

E o louco dos comícios?

Morto.

Morto o pássaro, o lírio extinto,

calado o mar,

o coração do homem pulsa

sob as pedras.

 

Biografia aqui.

Mário de Andrade

Serra do Rola-Moça

 

A Serra do Rola-Moça

Não tinha esse nome não…

Eles eram do outro lado,

Vieram na vila casar.

E atravessaram a serra,

O noivo com a noiva dele

Cada qual no seu cavalo.

 

Antes que chegasse a noite,

Se lembraram de voltar.

Disseram adeus para todos

E puseram-se de novo

Pelos atalhos da serra

Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes,

Na altura tudo era paz.

 

Pelos caminhos estreitos,

Ele na frente ela atrás.

E riam. Como eles riam!

Riam até sem razão.

A serra do Rola-Moça

Não tinha esse nome não,

As tribus rubras da tarde

Rapidamente fugiam

E apressadas se escondiam

Lá embaixo nos socavões

Temendo a noite que vinha.

 

Porém os dois continuavam

Cada qual no seu cavalo,

E riam. Como eles riam!

E os rios também casavam

Com as risadas dos cascalhos

Que pulando levianinhos

Da vereda se soltavam

Buscando o despenhadeiro.

 

Ah, Fortuna inviolável!

O casco pisara em falso.

Dão noiva e cavalo um salto

Precipitados no abismo

Nem o baque se escutou.

 

Faz um silêncio de morte.

Na altura tudo era paz…

Chicoteando o seu cavalo,

No vão do despenhadeiro.

O noivo se despenhou.

 

E a serra da Rola-Moça

Rola-Moça se chamou.

 

Biografia aqui.

  • Comentários desativados em Mário de Andrade

Lêdo Ivo

O cavalo

 

 

No campo matinal

um cavalo assediado

pelo zumbir das moscas

mastiga avidamente,

o capim do universo.

Os insetos volteiam

no anel azul do mundo

– esfera sem passado

nos ares momentâneos.

Não há mitologia

espalhada na relva

que é verde, sem caminhos,

longe das longes terras.

E o cavalo sobrado

da inenarrável guerra

e da paz defendida

à sombra das espadas

mata a fome no campo

onde não jazem mortos

nem retroam clarins.

Sua crina estremece.

E seus cascos escarvam

a plácida planície

coberta pelos pássaros.

Já sem fome, relincha

para os céus que não guardam

as fanfarras e flâmulas

e a fumaça da História,

e se muda em estátua.

 

Biografia aqui.

Augusto dos Anjos

A louca

 

A Dias Paredes

 

Quando ela passa: – a veste desgrenhada,

O cabelo revolto em desalinho,

No seu olhar feroz eu adivinho

O mistério da dor que a traz penada.

 

Moça, tão moça e já desventurada;

Da desdita ferida pelo espinho,

Vai morta em vida assim pelo caminho,

No sudário de mágoa sepultada.

 

Eu sei a sua história. – Em seu passado

Houve um drama d’amor misterioso

– O segredo d’um peito torturado –

 

E hoje, para guardar a mágoa oculta,

Canta, soluça – coração saudoso,

Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

  • Comentários desativados em Augusto dos Anjos

Barros Pinho

Aviso prévio

 

 

o sonho

uma borboleta

 

quando menos

se espera

a gente acorda

 

e vai-se

embora

sem deixar

aviso prévio

 

Biografia aqui.

PELA RUA DA AMARGURA

(Hélio Xavier de Vasconcellos)

 

Comprido, curvo, estrábico, esquelético,

Não só causa arrepios – causa horror!

Tão raquítico, assim, e tão sintético,

É o símbolo da Fome, sem favor.

No horário do namoro, é aritmético.

Não falta e nem atrasa. É de valor!

Ganhou, porisso, o cargo apologético

De Funcionário Público do Amor.

 

Discursando, é um atleta nas arenas;

É um orador de múltiplos recursos;

Um Ruy Barbosa de ambições serenas…

 

Mas, logo as cousas mudarão seus cursos,

Pois, ao lado da noiva, é a noiva apenas

Que tem direito de fazer discursos!…

 

Biografia aqui.

Renata Pallottini

O GRITO

se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua  os carros  o espaço  o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre  tem o direito de não sofrer

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer  doer  doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse 

 

Biografia aqui.

  • Comentários desativados em Renata Pallottini

Joaquim Cardozo

CHUVA DE CAJU

 

 

Como te chamas, pequena chuva inconstante e

                                                       [ breve?

Como te chamas, dize, chuva simples e leve?

Tereza? Maria?

Entra, invade a casa, molha o chão,

Molha a mesa e os livros.

Sei de onde vens, sei por onde andaste.

Vens dos subúrbios distantes, dos sítios

                                                   [ aromáticos.

Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e

                                                   [ mangabas,

Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos

                                                   [ viveiros

E em noites de lua cheia passam rondando os

                                                   [ maruins:

Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.

Invade a casa, molha o chão,

Muito me agrada a tua companhia,

Porque eu te quero muito bem, doce chuva,

Quer te chames Tereza ou Maria.

 

Biografia aqui.

Casimiro de Brito

O POEMA

 

Poemas, sim, mas de fogo

devorador. Redondos como punhos

diante do perigo. Barcos decididos

na tempestade. Cruéis. Mas de uma

crueldade pura: a do nascimento,

a do sono, a da morte.

 

Poemas, sim, mas rebeldes.

Inteiros como se de água, e,

como ela, abertos à geometria

de todos os corpos. Inteiros

apesar do barro e da ternura

do seu perfil de astros.

 

Poemas, sim, mas de sangue.

Que esses poemas brotem do

oculto. Que libertem o seu pus

na praça pública. Altos, vibrantes

como um sismo, um exorcismo

ou a morte de um filho.

 

Biografia aqui.

  • Comentários desativados em Casimiro de Brito

Emílio Moura

Como a noite descesse…

 

Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e

                 [ desesperado diante dos horizontes 

                 [ que se fechavam,

gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível

                 [ Aurora! e vi logo que só as estrelas

                 [ é que me entenderiam.

Era preciso esperar que o próprio passado

                                           [ desaparecesse,

ou então voltar à infância.

Onde, entretanto, quem me dissesse

ao coração trêmulo:

— É por aqui!

 

Onde, entretanto, quem me dissesse

ao espírito cego:

— Renasceste: liberta-te!

 

Se eu estava só, só e desesperado,

por que gritar tão alto?

Por que não dizer baixinho, como quem reza:

— Ó doce e incorruptível Aurora…

se só as estrelas é que me entenderiam?

 

Biografia aqui.