Artigo

A CAVERNA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

 “Se o arrancarmos da caverna e o arrastarmos pela senda áspera e fragosa até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado! ” (Platão)

O verbete Caverna, dicionarizado, é um substantivo feminino de origem latina cavus,i, “vazio, com material retirado” que deu em caverna,ae, cova. É uma cavidade no interior do solo rochoso; antro, furna, gruta, toca. Figuradamente, a parte mais interna ou íntima, recôndita, pouco acessível; lugar obscuro e fechado.

Em Medicina, cavidade dos pulmões devido à tuberculose e, na terminologia naval, peças curvas que partem da quilha para dar forma ao casco da embarcação.

Herdamos o mito da caverna na metáfora criada pelo filósofo grego Platão para explicar a condição de ignorância dos seres humanos e sua necessidade de sair para a luz do “mundo real”.

Sair da caverna para Platão não é coisa fácil. Trata-se de mudar a visão das coisas e das convicções arraigadas; implica em sofrer a dor da perda, compensada pelo impulso de se libertar…

As cavernas foram a habitação mais comum no período de evolução do neandertal para o homo sapiens, e chegaram à civilização trazendo um misterioso fascínio dos seres humanos vendo-as em várias religiões como cenário do nascimento de deuses.

Registra-se assim, antes, muito antes de Platão, que as grandes religiões antigas santificaram as cavernas adorando nelas seus deuses Atis, Baal, Isis e Osiris; em Creta havia um túmulo de Zeus “nascido numa gruta, fornecedor da comida da comunhão, do pão e do vinho, deus da morte e da ressurreição”.

Na conquista europeia das Américas encontrou-se os astecas, maias e incas, do outro lado do Atlântico, cultuando também as cavernas como santuários dos deuses.

Tivemos filmada “A caverna do Dragão”, uma série de animação do século passado produzida em 27 episódios. Como o final foi meio conturbado, o desenhista

Reinaldo Rocha produziu o 28º episódio em quadrinhos, intitulada “Réquiem”.

Foi uma proposta de mudança para concluir o enredo, coisa interessante porque, como disse alguém, “triste não é mudar de ideia, mas sim não ter ideias para mudar”.

Se ninguém não sai da caverna jamais verá a luz…. Ver a luz à primeira vista, porém, ofusca, mas fascina ao encontrar a verdade e deixar na escuridão as sombras da ignorância.

É difícil, porém, libertar certas pessoas, escravas das paixões. Estas, como disse Sócrates, não reconhecem que foi pelas trevas que teve os olhos magnetizados e desejam voltar para a caverna…. Isto exige uma reflexão sobre como quebrar as algemas dessas vítimas da obscuridade, ainda prisioneiros do complexo da caverna.

A “caverna” também entra no dia-a-dia da politicagem no Brasil: Há quem lembre a gruta dos 40 ladrões e, por ignorância, comparam o super meliante Lula da Silva com Ali-Babá, porque não leram o conto das “Mil e uma Noites”. Na verdade, Ali-Babá é o povo brasileiro, o Pelegão é o chefe da quadrilha…

A história conta que: “Um trabalhador amedrontado, assistiu escondido uma reunião de 40 ladrões, ouviu o chefe deles usar as palavras mágicas “Abre-te Sésamo”, e uma cova se abriu. Quando o bando saiu, Ali foi até lá e no seu interior vê um tesouro; recolhe uma parte razoável e vai para casa.

“Com o que trouxe, provocou a inveja do irmão e ensinou-lhe como fazer. Indo à caverna, o irmão com mesquinhez, quis pegar tudo o que viu terminando sendo surpreendido, preso e torturado. Dedurou o irmão e, embora tenha delatado, foi morto pelos bandidos.

“A quadrilha saiu em busca de Ali escondidos em barris para se vingar; ele, porém preparou uma armadilha e abortou o ataque jogando óleo fervente nos barris onde estavam os ladrões, matando-os cozidos…”

Lembrando o conto, ouço uma voz cavernosa ecoando: – “Antigamente o óleo fervente era uma espécie de Lava-Jato…”.

 

 

REMÉDIOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males” (Voltaire)

Quando eu e minha mulher nos casamos, mantivemos o hábito de visitar uns tios para filar os lautos almoços que ofereciam nos domingos aos parentes e amigos. Ao sentar à mesa, ele, casado com a irmã da minha mãe, colocava à sua frente um monte de pílulas e comprimidos que ia tomando enquanto comia.

Quando saíamos de lá morríamos de rir lembrando este fato; e fomos castigados pela natureza do envelhecimento. Hoje, tomo no mínimo seis comprimidos e cápsulas, e ela outro tanto…

Confesso que houve um tempo que eu chamava os médicos de “máfia de branco” e não escondia o desprezo pelos remédios. Quando comecei a precisar deles fiz as pazes com as “bolinhas” a ponto de até me automedicar…

Através das variadas espécies de Medicina temos terapias praticadas através de uma imensa gama de drogas e métodos de cura. Para dormir, para acordar, antiácidos, antibióticos, ansiolíticos, anti-infecciosos, antidepressivos, corticoides, etc.

Ao entrarmos na Medicina Alternativa, encontramos os velhos ensinamentos homeopáticos do doutor Christian Friedrich Samuel Hahnemann, baseados no princípio latino “similia similibus curantur”, “semelhante pelo semelhante se cura”.

A História deste ramo da Medicina nos conta que quando o doutor Samuel Hahnemann pesquisava a farmacologia do quinina, desconfiou da explicação recebida sobre a ação deste medicamento usado no Sudoeste Asiático para a malária, enfermidade tropical que intercala períodos de febre e aparente cura.

Pelo notável amor pela ciência médica, Hahnemann assumiu-se de cobaia e tomou o quinina apresentando os sintomas da malária. Depois, pediu a médicos e estudantes do seu círculo de amizades que mesmo sadios usassem o remédio, e eles também apresentaram os mesmos sintomas; concluiu, então, que qualquer substância capaz de causar sintomas de uma doença em pessoas saudáveis, é capaz de curar uma pessoa doente.

Outras vertentes medicinais se apresentam como a Fitoterapia, de que já tratei em dois artigos anteriores, uma benéfica herança do antigo Império Inca e dos indígenas sul-americanos. Os medicamentos extraídos da floresta são usados até hoje com bastante eficácia entre os ditos civilizados…

Temos, também, vinda do Grande Oriente, a chamada Medicina Oriental utilizando além dos produtos fitoterápicos, métodos terapêuticos como acupuntura e dietética, aplicadas para estabelecer o equilíbrio do organismo, conforme ensinam as milenares culturas da China, Coreia e Japão.

Estudando por curiosidade a diversidade de diagnósticos e receituário médico, procurei saber o que é a Aromaterapia, e as primeiras pessoas a quem indaguei ensinaram-me que se trata de um ramo da Fitoterapia. A palavra “aromaterapia” vem dos termos gregos “aroma” = odor agradável + “therapeia”, seja, “tratamento pelo cheiro”.

Em concordância com os seus adeptos – são muitos, e proliferam cursos, lojas especializadas e até Ongs -, a terapia por aspiração de odores agradáveis ajuda a combater ansiedade, dor, depressão, estresse e insônia; e do ponto de vista holístico, atua pelo equilíbrio físico, mental, emocional e espiritual.

A História registra que Montaigne (Michel Eyquem de Montaigne) jurista, político, filósofo, e extraordinário ensaísta, foi pioneiro ao sugerir que os médicos usassem aromas como terapia, dizendo que os perfumes influem e transformam o ânimo e o humor.

… E no anedotário, conta-se que Montaigne quando antecipava para um amigo trechos do seu ensaio sobre perfumes e estranhando o silêncio do interlocutor, encarou-o e viu que ele estava de olhos fechados; pensou que ele havia adormecido, mas se enganou:  o amigo, alérgico a odores, desmaiara só em ouvir falar de perfumes…

MALABARISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Una persona que aprende a hacer malabares con seis bolas está mejor preparada que otra que soló hace malabares con três” (Anónimo)

Na virada de uma página da História, encontramos a transição do homem de Neandertal para o Homo Sapiens e no que restou da cultura musteriense, as primeiras fabricações de armas e ferramentas registradas na arte pictórica rupestre. Ali encontramos, também, desenhos de 30 mil anos atrás sobre a prática do malabarismo.

Com o avanço civilizatório, recebemos também referencias da prática do malabarismo por pessoas de ambos sexos no Antigo Egito e nas sociedades chinesa, indiana, grega, romana, nórdica, asteca e polinésia.

O termo “Malabarismo” vem de “malabares” com referência à Costa de Malabar, no sudeste da Índia, onde os habitantes, desde a mais tenra infância, são hábeis em manipular objetos com destreza. Mantêm domínio sobre argolas, bastões, bolas, claves, facas, fitas, ioiôs, pinos e tochas, obtido pelo controle mental e habilidade manual, que se tornou uma arte circense.

Muitos artistas ganham a vida com malabarismos; principalmente os artistas de rua, sempre encontrados nas grandes cidades. Sob a sacada do meu apartamento tem um bar em que eles se apresentavam semanalmente antes do covid-19, alternando com ritmistas, dançarinos e ginastas.

Dicionarizado, o verbete malabarismo é um substantivo masculino significando a arte ou a técnica do malabarista; refere-se figuradamente à habilidade para enfrentar situações difíceis.

Dessa figuração encontramos algo relacionado com a vida social, o chamado “malabarismo retórico”, representação mental de palavras e gestos que pouco ou nada expressam a não ser um discurso vazio de conteúdo.

Este expediente doloso sempre induzindo à fraude é muito usado pelos políticos; e enquanto os malabaristas de terra e ar entretêm e divertem o povo, os demagogos de todas ideologias e partidos o ilude com logros eleitorais.

Uma frasista do Google, Lanna Borges, nos presenteia dizendo que “é desafiador manter equilíbrio em meio ao malabarismo que é viver”. E o pior da vida é suportar o malabarismo dos agentes políticos destros na oratória recheada de promessas que nunca são cumpridas.

É comum atualmente assistirmos traições políticas dos eleitos aos seus eleitores com argumentos reticentes, frases envoltas em aspas e divagações suspeitas de autoafirmação.

Os maus políticos fazem malabarismos com seis ou mais bolas para admiração geral. O nosso Parlamento, por exemplo, é praticamente controlado por um Centrão carente de crenças, ideias, opiniões, valores e ávido por vantagens pessoais; e é instigado pela facção lulopetista desmoralizada pela corrupção.

Esta é a razão de assistirmos situações absurdas com jogos-de-cena inconsequentes. O exemplo mais do que perfeito disto fica claro na situação criada pelo novo coronavírus, que ameaça tragicamente o mundo e a nossa Nação.

Os malabarismos picaretas disseminam um vírus muito mais agressivo e perigoso – o coruptovírus -, para minar as políticas da Saúde, da Economia, da Segurança Pública e da Infraestrutura que estão se realizando apesar de desacertos e sabotagens.

Neste cenário, constatamos que os políticos brasileiros nascem do jeito de uma história que li e vou tentar relembrá-la: – “Um pai de classe média foi ao quarto do filho para ajudá-lo a escolher uma futura carreira. Para isto, deixou-lhe para a definição, uma Bíblia, uma maçã e um cheque bancário, pensando que se ele fosse encontrado admirando a Bíblia, seguiria o sacerdócio; se observasse a maçã, seria um fazendeiro e, examinando o cheque, entraria no ramo das finanças. E deu um tempo.

Ao voltar, viu que o rapaz embolsara o cheque e comia a maçã sentado em cima da Bíblia. Não teve dúvida de que o filho seria político”.

A partir deste raciocínio, assisto os jogos de malabares ao meu redor raciocinando como Charles Chaplin: “Não sou político; sou principalmente um individualista. Creio na liberdade; nisso se resume a minha política…”

 

GUERRAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível” (Sun Tzu)

Noutro artigo registrei a curiosidade etimológica do substantivo feminino “Guerra” nas línguas neolatinas, que não adotaram o bellum,i romano, e sim o germânico werra, combate, contenda, discórdia, disputa, luta. Do latim, herdamos o bélico, rebelde, rebelião e ‘belicoso’, como tuitou outro dia a brava Marisa Cruz.

No idioma português damos para Guerra o significado da luta armada entre nações e/ou conflitos entre povos ou etnias diferentes. Qualquer luta ou combate com ou sem armas. E a que mais assustou foi a ameaça nuclear com armas atômicas, que poderiam levar a humanidade ao extermínio.

Mas os conflitos veem de longe. A História traz que por volta de 3.200 a.C. a consolidação do Egito ocorreu com uma guerra intestina entre o Reino do Norte e o Reino do Sul. As demais guerras movidas pelos faraós, no apogeu do Império, foram pela expansão e domínio territorial.

Quase mil anos depois, houve um importante confronto, a Guerra do Peloponeso, que unificou a Grécia antiga dando à Atenas a hegemonia militar sobre as outras cidades-estado gregas.

E depois uma das maiores guerras da Antiguidade realizada por Alexandre – O Grande -, rei da Macedônia, que conquistou o Império Persa, o Egito, toda a Ásia Menor, o Afeganistão e chegou às fronteiras da Índia.

Quando se firmava como um poderoso Estado mediterrâneo, suplantando a Grécia, a Roma republicana enfrentou a República de Cartago numa série de três disputas bélicas, chamadas de Guerras Púnicas.

Mais tarde, em termos de guerras mundiais, tivemos as Guerras Napoleônicas, conflitos suscitados pelo Império Francês, sob a liderança de Napoleão Bonaparte que enfrentou todas as nações europeias.

E, bem mais tarde, já na contemporaneidade, tivemos duas grandes guerras mundiais, de 1914 a 1918, a primeira, e de 1939 a 1945, a segunda; enfrentamentos e as mesmas alianças, com pequenas modificações.

A 2ª Guerra trouxe sequelas pontuais, como as guerras da Coreia e do Vietnã, e uma guerra sem tiros, a Guerra Fria, defrontando os Estados Unidos e a União Soviética.

Eis que de repente, “não mais que de repente” chegou a Terceira Grande Guerra. E esta só tem dois lados: os povos em perigo e um inimigo invisível, microscópico. Diante deste campo de batalha, é preciso que tenhamos a coragem de enfrentar o perigoso adversário para derrota-lo sem lutar: Pelo isolamento social como estratégia para a vitória.

Isto, porque, não estamos enfrentando um exército de milhões de bacilos, bactérias e vírus; basta somente um desses agentes infecciosos, letal, vindo numa gotícula de saliva, após uma tossida ou um espirro de outrem. É por isso que se encontrarmos algo que evite ou neutralize as ações do inimigo, devemos segurá-lo como o graveto do afogado…

O confinamento, as preocupações e, sobretudo, a solidariedade humana devem ser as nossas armas no enfrentamento com o covid-19. O vírus move táticas insanas e imprevisíveis; mata um bebê de menos de um ano e assiste a cura de um idoso de cem anos.

A verdade, porém, é que a ciência já tem um mapa traçando a coragem de muitos, principalmente na área da Saúde, enquanto a política adota a covardia, com as brigas do carreirismo eleitoral, se lixando para os que estão na arena amedrontados, e se dirigem aos poderosos em desespero:  “Morituri te Salutant”- Salve o Poder, os que vão morrer te saúdam -.

A morrer, todos estamos sujeitos, mas da minha parte, não cairei sem luta. O estrategista Sun Tzu ensinou que “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. É o que faremos com o confinamento.

UNIÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Se todos se mobilizam por um objetivo comum, o sucesso acontece por si só. ” (Henry Ford)

O nosso Olavo Bilac, que estreou na poesia inserindo no livro “Via Láctea” o belíssimo soneto “Ora direis ouvir estrelas”, interpretou o lirismo dos poetas fitando o infinito; e, por sua vez, os astrólogos veem o destino escrito nas estrelas.

A magia imaginativa dos poetas, as interpretações astrológicas e o sacerdócio religioso desmentem a ciência cosmológica e apontam os seus deuses como responsáveis pela criação do planeta e da vida.

Em contrapartida, os astrônomos, como cientistas, céticos, pensam quando o Universo e o nosso sistema planetário volverão ao caos primitivo. Há uma pá de teorias sobre a origem do Universo, além dos mitos, lendas e livros sagrados de todas as religiões mais ou menos semelhantes ao criacionismo judaico-cristão.

A mais badalada atualmente entre as suposições e hipóteses nos meios científicos é o Big Bang, a Grande Explosão que teria ocorrido entre 13,3 e 13,9 bilhões de anos atrás.

Após a explosão do Big Bang ocorreu no cosmos um resfriamento drástico e com a queda da temperatura deu-se o início da formação da matéria, por meio dos prótons, elétrons e outros elementos, tendo os primeiros átomos como unidade básica.

Assim se deu forma às galáxias, aos sóis e planetas. De uma poeira de gases e detritos teria surgido a Terra.

Afora os dogmas, todos querem explicações para o surgimento da vida. São esforços paralelos e simultâneos, embora diferenciados nas pesquisas para explicar nossas origens, duvidando, estudando, inquirindo e pesquisando.

Se os cientistas julgam importante pensar assim, porque não devemos pedir a união de todo mundo, para encontrar uma solução para a grave epidemia que assola o planeta e realizarmos, sem divisionismos, a salvação contra a qual a politicagem resiste e impede?

Não é pedir demais. É um apelo à consciência. Um pensador espírita, cujo nome me foge da memória, mas que a minha inesquecível mãe sempre citava, levantou a tese de que há doenças que veem para despertar o conhecimento da realidade.

Isto me leva a pensar que este horroroso vírus que atinge a todos, sem exceção, alastra-se e vem infectando muitas personalidades poderosas, e quem sabe, as estimule em pensar na sociedade ameaçada…

Os políticos, alguns deles atingidos pessoalmente pelo mal, ou entre os seus familiares, amigos e colegas, ainda não sentiram a necessidade de abandonar as picuinhas rasteiras e buscarem conjuntamente meios para combater o covid-19.

Em verdade, mesmo os mais despreparados para exercer mandatos, têm o discernimento de que estão expostos à “morte, surda, que caminha ao seu lado e não sabe em que esquina ela vai lhe beijar” como cantou Raul Seixas…

Talvez uma provocação mais contundente leve os que administram a coisa pública, no Executivo, Judiciário e Legislativo a considerar suas responsabilidades na situação que atravessamos.

Da minha parte, inserido no epicentro do risco, sinto-me frágil para reagir à abominável politicagem que assistimos, igualmente contagiosa como o vírus. Creio que é preciso uma forte pressão da coletividade para mostrar que o poder não é uma vacina e que a morte é tão democrática como o “Estado de Direito”.

Por isso, lembrei-me de uma passagem proverbial ocorrida com Canuto, o rei da Dinamarca, Inglaterra e Noruega.

Certo dia, caminhando à beira mar, achegou-se ao Rei o embaixador da Alemanha que iniciou uma conversação louvando-o: – “Vós, que sois o rei mais poderoso”… Canuto interrompeu-o, e afastando-se voltou-se para as ondas, gritando:

– “Proíbo-lhes que me molhem! ”. Neste momento uma grande vaga quase lhe derrubou; Canuto, homem de espírito, reagiu ao embaixador: – “Vedes? Se eu tivesse o poder que dizes, o mar me obedeceria…”

Esta lição, também herdamos do padre Antônio Vieira nos seus sermões: “O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo”.

 

 

 

 

JORNALISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O fotógrafo tem a mesma missão do poeta: eternizar o momento que se passa”. (Mário Quintana)

Tenho comentado muito sobre a imprensa atual nos meus últimos artigos e crônicas, com críticas acerbas ao momento infeliz que a imprensa atravessa pelo mundo afora e especialmente no Brasil, onde a informação vem envolta no papel celofane da propaganda.

Foi o colega da velha guarda, o multifacetado jornalista Gaudêncio Torquato que me inspirou falar dos tempos em que as redações eram “risonhas e francas”… Época em que nos esforçávamos a estudar para bem concorrer.

Gaudêncio atua com qualidade no campo da política, como analista, na pesquisa e no marketing, além de articulista e tuiteiro. Numa mensagem que tuitou, disse literalmente que:  “Tenho responsabilidades como analista político. Posso discordar das atitudes do presidente – e discordo – mas não posso lhe desejar o mal. Tenho procurado me guiar pela luz dos bons caminhos”.

É como se faz no bom jornalismo. Nem agressões, nem bajulações; ater-se ao fato, informando e analisando. Hoje, poucos jornalistas fazem assim. A mudança flagrante do comportamento da imprensa está numa memória ocorrida a 136 anos com o “The New York Times”.

Numa de suas edições no ano de 1884, o jornal trouxe o seguinte texto: “A decadência da Espanha começou quando os espanhóis adotaram o cigarro, e se essa praga perniciosa se espalhar entre os americanos adultos, a ruina da nossa República estará próxima”. O N.Y. Times nos dias atuais defende a descriminalização da maconha.

Sem comentários. Passo às recordações dos meus tempos de jornal, como repórter, editor e secretário de redação. A lembrança me leva ao coleguismo sempre presente, com o tratamento respeitoso nas divergências de opinião, e ocorriam discussões acirradas todo tempo.

Naquele tempo, entretanto, já existiam os bezerros de presépio, sem ideia própria, aceitando levar ao leitor a opinião do eventual diretor do jornal ou da revista, este obedecendo aos interesses comerciais ou dos acionistas da empresa para manter o cargo…

Haviam também, como hoje é voz geral, os que consideravam os jornalistas uns privilegiados, por ter preferência nas antessalas dos ministérios, achegar-se aos chefes de executivos, tomar cafezinho com parlamentares e receber ingressos para cinemas teatros e shows.

A regra geral era de um comportamento profissional ético e o produto do trabalho informativo isento de favoritismo. Para isto se cultivava o relacionamento com os porteiros, as secretárias e até os informantes da Polícia, tratando-os com cordialidade e respeito. “Fazendo” amizade.

Há segredos no exercício da profissão de jornalista. Recordo um deles: a ajuda indispensável dos fotógrafos em qualquer ocasião. Agradeço a um deles um importante prêmio que recebi por uma reportagem que foi altamente valorizada pela composição fotográfica. O repórter-fotográfico cumpre o milenar princípio de que uma imagem vale por mil palavras…

Hoje, nem o repórter e o fotógrafo escapam das pressões políticas, como Thomas Sowell deixa claro: – “Muitos na imprensa parecem não entender a diferença entre reportar notícias e criar propaganda.”

Numa matéria manchetada em quatro importantes órgãos da imprensa neste mês, encontramos: “O Brasil demorou a combater o covid-19” – omitindo que Espanha, EUA, Itália, Irã e outros também o fizeram. Trata-se evidentemente que em vez de colaborar internamente no combate ao vírus, a mídia fica “do contra”.

Felizmente essa falta de ética, sentenciando à morte milhares de brasileiros, não nos faz perder o respeito pelo jornalismo, que apesar dos pesares renascerá como uma fênix das cinzas.

PASSAGEIROS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Acho que contamos histórias para não ficarmos sós” (Do filme “Passageiros”)

Não vou falar dos que viajam num veículo, por necessidade, a convite ou de carona… vejo aquele que passa rápido ou aquilo de pouca duração, o transitório, o efêmero. Aliás, a palavra Efêmero significa curiosamente “o que dura um só dia”.

Designa também uns pequenos insetos que voam e amerissam em águas estagnadas, cuja vida é limitada a 24 horas, e nos leva a considerar a relatividade do tempo nas nossas vidas.

O cálculo mais interessante sobre a passagem dos anos tiramos do genial escritor Liev Nikoláievich Tolstói, pai do realismo na literatura russa.  Tolstoi explica a relatividade do tempo dizendo que “Para o menino de cinco anos, um ano é a quinta parte da vida; enquanto para um homem de 80 anos, é a octogésima parte”.

O que tranquiliza os octogenários, como eu, é lisonja do filósofo Platão refletindo que “devemos aprender durante toda a vida, sem imaginar que a sabedoria vem com a velhice”… No meu caso, guardo dúvidas; continuo estudando como um adolescente.

E sempre volto a lembrança aos bancos escolares como agora, recordando uma anedota sobre o tema que corria na Faculdade Nacional de Direito em torno do professor Hermes Lima, de quem recordo com muito carinho.

Casado com a senhora Maria Moreira Dias Lima, com quem mantinha um afetuoso relacionamento, Hermes atendeu-a prontificando-se a fazer uma palestra sobre a vida na Terra. Como a esposa era ligada à uma das famílias mais ricas do Brasil, os Larragoiti, donos na época da maior empresa de seguros da América Latina, a Sul América S.A., a audiência feminina era deste patamar.

O Professor discorreu didaticamente sobre o tema sugerido, terminando por enfatizar a perspectiva cosmológica de que mais ou menos a 50 milhões de anos o nosso sol e seu sistema planetário desaparecerão.

Passados alguns dias, dona Maria relatou ao marido que suas amigas ficaram apavoradas com a expectativa do fim do mundo; o marido pediu-lhe que as reunisse de novo para uma conversa com elas. Assim se deu, e Hermes detalhou o que representa os milhões de anos na história planetária, e para amainar o medo, concluiu que o sol viveria 100 milhões de anos. Para agradar o círculo social da sua mulher, adiou por 50 milhões de anos o fim do mundo…

A verdade é que mesmo sofrendo catástrofes, pandemias e guerras. acontecimentos passageiros, o planeta Terra e seus habitantes ainda terão muito tempo de vida. A humanidade se desenvolve científica e tecnologicamente a passos largos e supera todos os malefícios.

Houvesse mais aplicação dos governos para a educação, as novas gerações viriam com melhor formação, física e mental. Pena que estejamos vivendo – não só no Brasil, mas pelo mundo afora -, um período histórico de retorno às ideias totalitárias e tendência ao autoritarismo.

Leva-nos a pensar os alertas da filosofia proudhoniana e ao ‘1984’ de George Orwell, conscientizando-nos de que “ser governado significa ser observado, inspecionado, admoestado, avaliado, censurado, cercado, comandado, controlado, dirigido, doutrinado, espionado, explorado, filmado, fotografado, legislado, regulamentado”.

Isto, porém, em vez de revoltar, leva a cidadania a se acomodar e esperar que venha dos governantes as iniciativas no campo da educação, saúde e segurança, quando coletivamente poder-se-ia criar condições objetivas para que isto fosse feito.

Agora mesmo, no caso do covid-19, em vez de uma ação coletiva e unitária contra a pandemia infecciosa, tudo vem de cima para baixo, envolvido em divisões ideológicas e grupais. E o mais triste é que vem divulgado numa mídia que está exagerando no noticiário criando o pânico entre os desinformados.

Isto nos leva a Proudhon, quando escreveu: – “Os jornais são os cemitérios das ideias. “

PERIGOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Conheça o inimigo e a si mesmo e você obterá a vitória sem qualquer perigo” (Sun-Tzu)

Sempre que surgem ameaças de extermínio da humanidade renovadas no correr dos séculos, é preciso ter olhos para o futuro e esperança na recuperação. Nos dias que atravessamos testemunhamos o surgimento e a propagação do novo coronavírus, o covid-19, que a Organização Mundial da Saúde declarou como pandemia.

Registradas na História Geral, as primeiras pandemias foram bacterianas, surgidas a partir do século 4, com a que se convencionou chamar “Praga de Justiniano” – a peste bubônica –, precursora da Peste Negra que assolou a Europa, Ásia e África no século 14.

A Peste Negra foi devastadora, atacando em ondas de epidemias a partir da Ásia Central e se espalhando pela Ásia e Europa, causando a morte de 75 a 200 milhões de pessoas. Um quarto da população europeia foi dizimada na Baixa Idade Média por causa das pulgas hospedeiras da bactéria causadora da peste (Yersinia pestis).

Vivia-se um período histórico turbulento após a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos e o cerco de Roma pelos povos circunvizinhos. (Recuso-me a chamá-los de bárbaros…).

Na comparação sintomática das doenças bacterianas e virais vê-se que, embora biologicamente diferentes, as bactérias são organismos vivos e os vírus são partículas infecciosas; ambas, quando inoculadas, apresentam sintomas semelhantes e inespecíficos, como catarro, febre, dores pelo corpo e na cabeça, náuseas…

As infecções bacterianas ou virais, são assustadoras. As primeiras, porém, são tratadas agora com eficácia na Era dos Antibióticos, apenas com a necessidade de isolamento por uma semana.

No momento atual, enfrentamos uma infecção pandêmica viral, felizmente com uma taxa geral de mortalidade de 2,3% — embora levando às pessoas com mais de 60 anos a taxa de 14,8%.

Para nos tranquilizar temos conhecimento de que Alemanha, China e Estados Unidos travam uma guerra humanitária para assumir a paternidade (ou maternidade) do medicamento contra o covid-19 e da vacina para evita-lo.

Acrescente-se a estes três países muitos outros que invisíveis na mídia, participam dessa maratona humanista, inclusive o Brasil. Isto nos leva ao culto da Esperança, o único remédio com eficiência contra o desespero alardeado nos meios de comunicação.

O perigo dos boatos, do ceticismo, das ciladas e da descrença será afastado na medida em que mantivermos a esperança na vida, na sociedade, no País e no universo em seu eterno movimento…

Para isto, precisamos enfrentar a fanfarronice dos tolos que se julgam donos da verdade, lembrando a lição do Marquês de Maricá ao dizer que os sábios duvidam mais que os ignorantes; porque estes últimos creem se impor pela adulação.

Os puxa-sacos dos ocupantes do poder e seu inverso, os que querem se manter no poder bajulando o eleitorado, são incapazes de fazer críticas – e não respeitam os que a fazem –, deveriam aprender com o exemplo deixado por Catarina II – A Grande – imperatriz da Rússia:

Dada à leitura, Catarina sofreu um começo de miopia e reclamando dessa dificuldade recebeu um par de óculos. Para experimenta-los pediu que lhe dessem algo para ler; então apresentaram-lhe um texto cheio de louvaminhas e lisonjas para ela.

Ao ler o primeiro parágrafo, a Czarina devolveu os óculos e o cartão dizendo: – “Estas lentes não me servem; põem minha vista em perigo, aumentam demais”.

 

 

 

 

 

NARRATIVA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Uma vez li que, quando olhamos para o nosso passado, podemos ver uma linha narrativa, uma ordem ou um plano, como se fosse algo gerado por uma força invisível” (Gisele Bündchen)

Escrevi anteriormente o artigo “PILULAS” confessando-me um acumulador obstinado de anedotas históricas, pensamentos, provérbios e causos do cotidiano, que passo adiante quando tenho oportunidade para isto…

Faz tempo que guardei uma curiosa história ocorrida na década de 1959 no Egito, quando a Secretaria de Antiguidades Faraônicas convocou arqueólogos, cientistas, historiadores e a imprensa para participarem da incrível experiência de aspirar o perfume que era usado pela rainha Cleópatra.

A essência era concentrada como aqueles defumadores indianos, comprimidos em tabletes. Quebrado um deles e atirado a um braseiro, provocou uma fumaça azulada exalando um odor agradabilíssimo, embriagador. Um jornalista presente não se conteve e soltou uma provocação: – “Foi com este aroma entorpecente que Cleópatra enlouqueceu César! ”…

Nenhuma das personalidades presentes e também sensíveis ao odor aspirado, ensaiou comentar a óbvia conclusão do repórter; e a obviedade é a comprovação incontestável através dos sentidos.

Esta narrativa nos mostra como o faro jornalístico é capaz de recuar 2.000 anos para explicar o motivo que levou o imperador romano à paixão enlouquecedora pela rainha egípcia. E reforça a minha opinião de que o jornalismo é vocação; não há escola nem professor capazes de fazer um bom profissional. Talento não se vende em hortifrúti como chuchu e abobrinha.

Por outro lado, a narrativa não menos talentosa na literatura, traz enredos atraentes, com protagonistas bem situados no tempo e no espaço encenando histórias curiosas e ilustrativas.

Umberto Ecco diz que a gente quando lê um romance o enredo nos leva a pensar que a narrativa é verdadeira e faz crer que havia uma mulher que se chamava Madame Bovary e um homem que se chamava Raskolnikov…

O verbete Narrativa é um substantivo feminino originário do verbo latino narro, as, āvi, ātum, āre, ação, processo ou efeito de contar, expor, dar a saber.

Na Literatura temos os contos, as crônicas, as fábulas e as novelas, cada um dos estilos desenvolvendo uma fórmula diferente, para exprimir a realidade ou uma ficção, um tema do dia-a-dia, mensagem de cunho moral ou fatiada em capítulos girando em torno de um personagem como muito sabe fazer o Aguinaldo Silva…

Ao longo da vida constatamos, porém, que as exposições ao passarem de boca a ouvido, de geração a geração, caem como uma luva no ditado popular: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Aprendemos que coisas reais passam a ser fantasiosas conforme as palavras e as imagens usadas na narrativa.

Os acontecimentos emitidos são descritos de forma diferente por cada um dos narradores e igualmente diferenciados pelos que recebem a descrição. Verificamos também, com experiência, que encontramos no discurso político a dialética da ilusão e do logro.

Todos os agentes políticos são assim? Não. Há raras e honrosas exceções. Mais tarde, a História irá expor os acontecimentos da nossa época que poderão ser reais, registrando os bons; ou, episódios imaginários baseados em pesquisas de jornais; e assim todos serão absolvidos…

Na minha narrativa, porém, são imperdoáveis os profissionais da política que atuam contra a Pátria. Na segunda-feira pestilenta em que a Bovespa teve uma queda recorde e o dólar foi ao mais alto patamar, pelo coronavírus e o petróleo, eles alegraram-se e torceram para que a situação piorasse. Renovou-se o malogro econômico e de novo as aves de mal agouro grasnaram contentes.

Não me lembro, mas parece que foi o ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, quem disse que “a História contará sobre as nossas ações, e não das nossas boas intenções”.

Quanto a nós, humildes observadores de uma época, resta-nos reconhecer que nem toda narrativa é feita abertamente, fica invisível mesmo que nos esforcemos em defender que tudo deve ser dito com destemor.

 

 

 

PÍLULAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Uma boa estória é como uma pílula amarga, com uma camada de açúcar por dentro. ” (O. Henry

Faz muito tempo que eu, ainda adolescente, escrevi uma coluna no extinto jornal “A Manhã”, intitulando-a de “Pílulas”. Eram pequenas notas, espremidas e isoladas, que eu tirava do noticiário dos outros jornais ou de conversas com amigos. Mais ou menos precursoras do que faço atualmente no Twitter.

No rodapé trazia um subtítulo, “Ora Pílulas! ”, que na linguagem popular usava-se com referência à insignificância; ali resumia coisas de pouca importância, só levadas a sério pelos colunistas sociais…

O verbete Pílula é um substantivo feminino de origem latina (“pilula”) que significa bolinha, diminutivo de “pila,ae”, “bola”. É um fármaco compactado por compressão, com diversas formas e cores.

A palavra caiu em desuso passando a chamar-se comprimido, até que surgiram as anticonceptivas, a pílula azul e a pílula do dia seguinte, voltando à linguagem coloquial. Atestando a eficácia da pílula contra a gravidez, Millôr Fernandes tem um comentário irônico, ao escrever que: – “Você pode evitar descendentes. Mas não há nenhuma pílula para evitar certos antepassados”.

Recentemente os cientistas desenvolveram uma pílula com resultados positivos para tomar o lugar das abomináveis injeções.

Baseando-me no ensinamento de Antoine de Rivarol de que “As máximas são a sabedoria em pílulas” pesquisei e colecionei pensamentos, provérbios e anedotas históricas que mantenho sempre nos meus escritos.

Uma delas, bastante antiga, relembrei por se tratar de uma historieta adaptável aos dias que atravessamos:

“Na década de 1950 a revista ‘Nouvelle Revue Française” recebeu uma comunicação do Imposto de Renda da França convidando o escritor Franz Kafka – que aparecia como colaborador da Editora – a pagar os impostos atrasados.

A diretoria financeira da empresa respondeu: – ‘Lamentamos muito, mas o senhor Franz Kafka não pode atender a sua intimação, porque morreu a 20 anos’, o que correspondia à verdade. ”

Isto retrata uma rotina burocrática antiga, mas ainda vigente em diversas repartições públicas de todos os países.

Em 1958, fui funcionário do antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários, e quando lá iniciei as minhas funções, encontrei processos atrasados dos antigos “bancos do Eixo”, que sofreram intervenção federal na 2ª Guerra Mundial. Passaram-se 13 anos do fim do conflito e os processos de aposentadoria e pensões dos empregados daqueles estabelecimentos estavam engavetados. Desarquivei-os e dei solução a todos, o que me valeu uma promoção…

Agora assisto a constrangedora situação de milhares de pessoas que têm os processos congelados no INSS, o que dói na consciência das pessoas normais. Reconheço que não se trata apenas de burocracia, mas também do envelhecimento do quadro de servidores levando-os à aposentadoria sem a necessária renovação, mesmo tendo muitos aprovados em concurso.

Mas enquanto isto ocorre, nós nos revoltamos vendo que os ex-presidentes têm direito a cartões corporativos, quatro servidores à disposição e dois veículos oficiais com dois motoristas; tudo pago pelo contribuinte.

Pior ainda é ver-se Fernando Collor e Dilma Rousseff que tiveram seus mandatos cassados pelo impeachment, manterem esses benefícios.

São as pílulas amargas que a cidadania é obrigada a engolir por força de uma legislação frouxa e o Congresso legislando em causa própria…