março 7, 2008
POESIA
Acordar, viver
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu que do inerte sem paixão.
Como repetir,
dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento que lembra a Terra
e sua púrpura demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.
Carlos Drummond de Andrade, poeta (Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987), considerado um dos mais importantes poetas brasileiros.
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