Poesia

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Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!
Ler é maçada,

Estudar é nada.


O sol doira sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastão,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca,

Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,

Quer não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa

O Poeta

Uma biografia de Fernando Pessoa seria na verdade uma coleção de biografias. Uma dele próprio; outras tantas para seus heterônimos. Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, só para falar em alguns destes heterônimos, que não são pseudônimos como alguns pensam, mas escritores com personalidades e estilos próprios, com vida e história independentes dos demais.

A genialidade de Pessoa era tamanha que não cabia em um só homem; eram necessários vários homens, várias cabeças para dar vazão a tanta criatividade, ao transbordamento de idéias que o acometia. Grande conhecedor da língua portuguesa, ela própria brincou com seu sobrenome: Pessoa. Talvez Pessoas fosse mais adequado, para um poeta que era habitado por tantos outros.
Fernando Antônio Nogueira Pessoa, nasce em 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa, Portugal. Segundo ele próprio nos conta, no ano seguinte nasceu Alberto Caeiro, o poeta do campo e da natureza e também Álvaro de Campos, o engenheiro.

Quando tinha cerca de 5 anos, seu pai morre com apenas 43 anos. Em 1894, então com 6 anos de idade, cria seu primeiro heterônimo: Chevalier de Pas. Em 1896, parte com sua família para Durban, África do Sul. Vão morar com o novo marido de sua mãe, o comandante João Miguel Rosa, cônsul interino de Portugal naquele país. Lá Fernando Pessoa vai aprender inglês e francês, línguas em que escreverá alguns poemas e grandes trabalhos de tradução.

Embora tenha escrito e publicado dezenas de artigos, ensaios e poemas em seus anos de vida, por incrível que pareça, ele que é um dos maiores poetas da língua portuguesa, publicou apenas um livro em vida, o “Mensagens” em 1934. Com este livro participou de um concurso literário chamado “Antero de Quental” e ganhou o segundo prêmio (“segunda categoria”), cabendo o primeiro prêmio ao livro “Romaria” de Vasco Reis. Em janeiro de 1935 pensa em mudar-se para as cercanias de Lisboa para compor seu primeiro grande livro a ser publicado, o que não aconteceria.

Em 29 de novembro deste ano, Fernando Pessoa é hospitalizado com uma cólica hepática.
No dia seguinte, 30 de novembro de 1935, com apenas 47 anos de vida, falece Fernando Pessoa.

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