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Carlos Drummond de Andrade

POLÍTICA

 

Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que êle sabia bons.
Sentia-se diminuído na sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.

Entrou a tomar porres
violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos.
Se só os outros poetas eram imitados.

Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso,
o rio que lá em baixo pouco se importava com êle
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.
E teve vontade de se atirar
(só vontade).

Depois voltou para casa
livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.

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Augusto dos Anjos

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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Carlos Drummond de Andrade

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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CUSTOMIZAR

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Crie seu próprio estilo visual… deixe-o ser único para você e, contudo, identificável para os outros” (Orson Welles)

Dos novos vocábulos que entraram no Dicionário da Língua Portuguesa sem bater à porta, tem um que gostei muito: “Customizar”. Este verbete é um verbo transitivo direto de origem inglesa “to customize”, que deu no adjetivo “custom” que para os norte-americanos significa “feito sob a encomenda”, “elaborado sob a medida”.

A palavra ganhou o mundo, expressando a reciclagem que leva a adaptar, modificar, transformar, alterar, mudar, reformar. Pessoas que cuidam do vestuário adoram bolar o reaproveitamento de roupas usadas.

Eu e minha mulher quando casamos inventamos adaptar as sandálias havaianas com lantejoulas e vidrilhos como acessório praiano. Péssimos comerciantes, nada ganhamos com isto, presenteamos as sobras com pessoas amigas.

Entretanto a customização pegou no mercado da moda, adequando vestidos e camisas de acordo com o gosto do freguês; hoje rasgando-as para parecerem como fizeram os hippies no século passado…. E entrou na informática pela adaptação de usuais costumes do usuário.

Customizar, como modificação e mudança, deveria entrar na política. Não sei se veremos isto no Reino Unido, após a morte da rainha Elizabeth 2ª e a assunção ao trono pelo príncipe Charles; mas no Brasil, tenho certeza, se ganharem a eleição Bolsonaro ou Lula, apenas teremos a adaptação do Centrão ao poder e a picaretagem dos corruptos se customizará.

A História mostra que na Grã-Bretanha as coisas sofrem necessariamente conversões e mutações. Lembro a passagem em que Churchill escolheu o “V” com os dedos da mão direita para simbolizar a vitória contra o nazi-fascismo e sofreu protestos de conservadores na Cornualha que consideraram a marca dos chifres do diabo.

A imensa maioria dos ingleses, porém, aceitou e usou a mímica do Primeiro-Ministro, que se espalhou mundo como ícone anti-totalitário.

Também entre nós nada é mais customizável do que a política brasileira. Uma figura notável das Minas Gerais, Magalhães Pinto, viu isto e divagou: – “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou…”

O triste é que essa costumização da política tupiniquim vai sempre para a pior moldagem; ajusta-se sempre aos interesses pessoais ou grupistas, principalmente como forma de corromper ou ser corrompido. Lembro meus tempos de menino ouvir Carlos Lacerda verberando contra os “corruptos e corruptores”.

Em verdade a coisa vem de longe, embora tenha sido institucionalizada nos governos lulopetistas e adotada pelos sucessores com as rachadinhas, os cheques suspeitos, a tentativa de compra de vacinas e as propinas dos pastores no Ministério da Educação. Nem vou falar da “Imobiliária Bolsonaro” que é manchete dos jornais.

Customizar para personalização dos detentores do poder é, sem dúvida, o estilo populista de governar e mais do que o prejuízo imediato sofrido pela Nação, sabe-se que o  populismo é o fascismo de fralda.

E por falar em fralda, sugiro que elas sejam customizadas em Brasília para cumprir o que escritor e pensador português Eça de Queiroz repassou inteligentemente: – “Os políticos e as fraldas devem ser trocados sempre pelo mesmo motivo”. Por isto apelamos para a criatividade do eleitor inteligente customize as fraldas políticas bordando-as com a negação do voto aos populistas corruptos.

Espero que um estalo leve ao brasileiro honesto preferir um terceiro nome na hora do voto, levando-o ao segundo turno contra um dos polarizadores da “direita” e da “esquerda”.

Desta maneira, com certeza,  derrotaremos a corrupção, o ódio e a violência que grassaram entre nós como uma peste maligna, infelicitando as pessoas de bem e degradando a política.

 

 

Paulo Leminski

Não discuto

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

IMPOSSÍVEL

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Lembrai-vos que as grandes proezas da História foram conquistas daquilo que parecia impossível. ” (Charlie Chaplin)

Fazendo a sesta (de uns anos para cá obrigatória) chegou-me à lembrança entre um cochilo e outro a fábula dos insetos, em que quase todos, menos as borboletas, caíram na gargalhada quando a lagarta disse que ia voar. As borboletas sabem que tal milagre acontece sempre; para elas é rotineiro.

Talvez esvoaçando como uma borboleta, alguém escreveu que o impossível ocorre quase sempre. Atravessando agora a Era de plena mediocridade das elites mundiais e muito especialmente no Brasil, onde uma pororoca de idealismos insignificantes, ideologias distorcidas e personalidades medíocres parecem tornar impossível a nossa confiança no futuro.

Isto desorienta os mal informados e vacilantes. Lembramos-lhes porém que nem tudo está perdido. A Mentira reinante, de um lado e do outro, ainda não conseguiu alcançar os corações e as mentes da maioria dos brasileiros. Vamos então analisar e refletir em tempo de eleições.

Pelos inesquecíveis casos ocorridos nos governos lulopetistas, com o pelego Lula se regalando de propinas das empreiteiras, trazendo a sua condenação em três instâncias por corrupção e lavagem de dinheiro. Quem tem memória sabe que não é por acaso que registra alta rejeição do eleitorado, apesar do ativismo condescendente da mídia e da militância.

É igualmente inegável a objeção negativista (a palavra cabe aqui como uma luva) ao capitão Bolsonaro. Pelas pesquisas de opinião de vários institutos, registra-se contra ele uma desaprovação maior que aprovação. Não tem caneta Bic, subserviência ministerial, verbas secretas para picaretas e distribuição de benesses, que diminuam este desabono eleitoral.

Vê-se assim, neste quadro surrealista, duas figuras disformes que trazem em si semelhanças indesmentíveis, com traços e cores quase iguais, na tela apreciada pelos seus admiradores míopes pelo fanatismo.

Em números contabilizados nas pesquisas igualam-se 30% para cada um, refletindo os votos cativos que possuem; e a sutil diferença percentual entre eles, reduzida, é de oito a dez por cento, sem levar em conta a margem de erro….

Nesta exposição não se justifica o ceticismo reinante ao surgimento de um “tertius” que desequilibre a macabra polarização entre o ruim e o pior. Esta descrença nos leva a divergências, censuras e até desaprovação coisas vistas antes das descobertas científicas sobre a circulação do sangue, a descoberta de bacilos e a criação de vacinas. Mas tudo foi superado ao longo da História.

Não é preciso citar também coisas que circulam na mídia, com o obscurantismo religioso combatendo o geocentrismo astronômico e mentindo sobre as vacinas; são insanidades dos que seguem uma religião mal-entendida e surfam beatamente na lama da ignorância.

Algumas opiniões mostram “que precisamos de mais pessoas especializadas no impossível”, como citou alguém que não me lembro quem e quando. Acredito que, em se achando esse especialista, ele encontrará decerto a maneira de livrarmo-nos do populismo corrupto, travestido de “direita” e de “esquerda”.

… E para derrubar as trincheiras do impossível, como foi feito com o Muro de Berlim, pensamos na renovação nas assembleias legislativas, no Congresso Nacional e mais audaciosamente na presidência da República que os dois populistas baratos Capitão Minto e o Pelego Lula, disputam, assemelhados pelos propósitos personalistas já comprovados.

Cora Coralina

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

ESTUDO

MIRANDA SÁ (mirandasa@uol.com.br)

“Para nos fazer entender por um tolo são necessárias dez pauladas na cabeça; ao inteligente, basta uma palavra. ” (Provérbio persa)

Uma pessoa amiga que me segue no Twitter estranhou a minha orientação de assistir o debate presidencial da TV-Bandeirantes sem prestar atenção às mensagens, mas somente aos gestos.

É um pouco “acadêmico” explicar o aconselhamento, mas vá lá: É que gosto de seguir a psicologia dos gestos, olhares e trejeitos corporais, começando pela teoria do teólogo suíço Johann Kaspar Lavater que foi para o estudo da fisionomia o que Freud foi para psicanálise.

Um seguidor de Lavater, o médico alemão Franz Anton Mesmer, criou o conceito do magnetismo pessoal, uma força natural invisível possuída por todos os seres vivos, dando vida à proposição conhecida como mesmerismo.

Depois, sob a influência de Lavater e Mesmer, Cesare Lombroso defendeu a tese de que pelas características corporais distinguia-se o criminoso e que o “verdadeiro” delinquente, era nato.

Mais tarde, a análise bioenergética de William Reich vê o indivíduo em sua integralidade e a análise psiquiátrica pode fazê-lo encontrar-se com seu corpo, que respondendo às repressões geram tensão muscular, podendo controla-la para se adaptar às relações sociais.

… E o nosso contemporâneo Joseph Messenger, psicólogo, autor de vários best-sellers, afirma que 93% da nossa comunicação é não-verbal, e sim feita por meio de gestos, postura, expressões faciais e movimentos dos olhos.

Debulhando este rosário de laureados estudiosos e levando-os em consideração, encontro muito significado no conhecimento psicológico e biológico do caráter humano. (A veterinária que cuida dos meus gatos garante que isto se estende também aos animais).

Foi assim que observei o debate entre os seis presidenciáveis convidados pela Band, lamentando que ficassem de fora os outros seis que disputam o Planalto…. E tem mais: apesar das teorias enunciadas, acrescento que a inspeção gestual dos que foram ao show, obedece, não somente à cena estática, também ao ponto de vista do observador.

Da minha parte – admito discordâncias, pois não sou dono da verdade -, do meu modo de ver, dei atenção a esta diligência: senti, por exemplo, que o candidato Jair Bolsonaro (PL) estava mais tenso do que costuma estar e que o candidato Lula da Silva (PT) antes tão seguro de si mostrou-se com os nervos à flor da pele.

Ainda na minha opinião, achei o candidato Luiz Felipe d’Avila (Novo), se apresentando ludicamente, não por brincadeiras, mas chamando à uma recreação educativa; e que o candidato Ciro Gomes (PDT) pareceu estar na base de tranquilizantes, impondo-se cuidados e preocupado com a sua atuação.

As duas representantes do belo (respeitado e aguerrido) sexo feminino, Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil), revelaram otimismo, na firmeza de suas convicções; Soraya, garantida pelo mandato senatorial até 2027, e Simone transparecendo satisfação em expor as suas ideias como candidata â Presidência.

É assim que vi com estes olhos que a terra há de comer e exponho à maneira de me fazer entender, certo de que para os que cultivam respeito pela opinião alheia bastam umas palavras; e, dessa maneira poupo as dez pauladas para os estúpidos, por que não os tenho entre os meus leitores….

 

Ferreira Gullar

Homem comum

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.
Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei

Mário Quintana

Seiscentos e Sessenta e Seis

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.