EVOCAÇÃO

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MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Revirando meus arquivos nos pen-drives, senti a necessidade de evocar um passado não muito distante em que reverenciei os meus mortos que brilham pálidos e frios como estrelas distantes.

O título, “Evocação”, como verbete dicionarizado é um substantivo feminino de etimologia latina, “evocatio, -onis”, significando “chamamento”; levando ao ato de trazer algo à lembrança, à imaginação ou à presença.

Trazendo à mente o texto de dois ou três anos atrás, chegou-me à lembrança da juventude distante, quando recebi da minha mãe e da minha madrinha uma passagem aérea de ida e volta à Paris e financiamento de hospedagem e alimentação por 11 dias….

Tomei como base esta generosa oferta de almas sempre presentes na minha memória que me ajudou a materializar um antigo desejo de confirmar o epitáfio de um dos ícones que cultuo, o escritor e filósofo francês, François-Marie Arouet, conhecido na literatura clássica com o heterônimo de Voltaire.

Cumpri o propósito que ambicionava: saltando no Aeroporto Internacional de Orly, peguei um táxi e fui direto ao Père-Lachaise, histórico cemitério parisiense; lá procurei o túmulo do meu ídolo que reverenciei no salto que dei da criancice para a adolescência. Comprovei então que era verdade o que o próprio Voltaire escreveu e sugeriu a legenda que lhe serviria como epitáfio: “O homem é o único animal que sabe que vai morrer um dia, triste destino!”

O ensaísta do Iluminismo mostrou-se post-mortem o símbolo da luta contra o fanatismo religioso, a intolerância e a censura, defendendo incansavelmente a liberdade de expressão e da razão. No Brasil, o cientista Osvaldo Cruz comentou com naturalidade a morte como “um fenômeno biológico tão natural, que não há necessidade de frisá-lo com cerimônias especiais”.

No Oriente espiritualizado, o budismo vê a morte como uma etapa transitória marcada pela impermanência e pelo renascimento, cuja superação plena ocorre no Nirvana; e a principal vertente do cristianismo, a Igreja Católica Apostólica Romana, tem como dogma que a morte foi transformada pela ressurreição de Cristo: torna-se a entrada para a vida eterna.

Gosto de reverenciar os meus mortos e sempre que tenho oportunidade para mostrar trago o poeta mexicano Amado Nervo e o seu lindo poema “Mis Muertos”: “Yo estoy unido con mis muertos, / que en posición horizontal contemplan/ el callado misterio de la noche/ y oyen el ritmo de las diamantinas/ constelaciones en el negro espacio”.

Recordo meus pais e meus parentes da geração deles que se foram; os amigos que reconheci por onde andei ao longo da vida, e também os que admirei pelos discursos, escritos, poesias, pinturas e interpretações artísticas.

Penso muitas vezes festeja-los como fazem os mexicanos. Lá no norte latino-americano há também o feriado do Dia dos Mortos, a 2 de novembro, a maior festa tradicional do México. Reúne antigas crenças dos maias e astecas sincretizada com crenças católicas trazidas pelo conquistador espanhol.

Vigora o simbolismo das almas dos falecidos de retornarem ao seio da família; os cemitérios ficam iluminados, com música, orações, flores e manifestações de alegria; em torno dos túmulos apresentam-se fotografias, acende-se velas, e são servidos alimentos, bebidas e o tradicional pão dos mortos.

Há um pensamento que diz que os mortos só morrem se forem esquecidos. Assim é bom lembrá-los como fez o intelectual gaúcho José Carlos Bortoloti, na sua crônica “A Sofisticação da Simplicidade!” citando a lápide de Charles Dickens na Abadia de Westminster, “Apoiante dos pobres, dos que sofrem e dos oprimidos”.

Será de lembrar que a defesa mística dos fracos e oprimidos é uma tradição humanista muito antiga, enraizada em textos bíblicos e na figura evangélica de Jesus Cristo.

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