Poesias

Artur da Távola

Autismo

O tédio que não revelo
resvala e vala na taquicardia
do sorriso emoliente
em minha ativa participação.
A morte, amiga de infância,
palpita vida na força do meu viver.
Sou segredos, dons, acasos e órfão,
silenciados em músicas e pickles.
Meu menino, a cirurgia, aquele cão, o não,
a morte do pai e minha irmã
moram anônimos
no quarto e sala da alma.
Falo o que calo
sinto o que guardo
sob outro eu igual ao mim
bem melhor, porém.
Mas autista.
O sexo implícito, o tesão abissal,
a gula mamada,
a timidez flatulenta,
jazem no fundo do meu mar.
Escafandro-me, debalde.
Calo constatações,
blasono brilhos
suicido sonhos,
calafrio-me a colher náuseas
e navego fés esperançosas.
Sou sem teto de onde salto
para o chão do não ser.
Minha blandícia
quem acarinhará?

 

Biografia de Arthur da Távola aqui.

Antero de Quental

A um poeta (Antero de Quental)

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno…

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções…
Mas de guerra… e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

 

Biografia de Antero de Quental aqui.

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Jarbas Martins – Não derrubem os muros de jasmins

    NÃO DERRUBEM OS MUROS DE JASMINS
                                  Não derrubem os muros de jasmins
                                  que a usura, as leis, o desamor não tecem.
                                  Paralisam-se as dunas, os ventos ruins
                                  ao baque de uma árvore enlouquecem.
 
 
                                  A saltitar golfinhos não entretecem
                                  e o elefante e suas danças de marfins.
                                  Um iceberg fende-se, emagrecem
                                  os rios esquecidos de seus fins.
 
 
                                  O canto das baleias já ensurdecem,
                                  a calúnia desata os seus mastins.
                                  Não derrubem os muros de jasmins
                                  que a usura, as leis, o desamor não tecem.
 
 
                                  Não derrubem os muros de jasmins.
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Carlos Drummond de Andrade – Acordar, viver

Acordar, viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

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Tragédia em Santa Maria

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça./A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta./Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa. /A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27dejaneiro de 2013. /As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada. /Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa. / Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio. /Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda. /Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência. /Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa. / Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram. / Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo? / O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista./A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados. / Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro. / Mais de duzentos e trinta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos. / Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal. / As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso. /Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu. /As palavras perderam o sentido. (Fabrício Carpinejar, poeta gaúcho)

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Sylvia Plath – Espelho

ESPELHO

      

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele
[ falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça
[ sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem
[ verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um
[ peixe terrível.

 

 Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício A. Mendonça

 

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Elizabeth Barrett Browning – Sonetos de Amor

SONETO XIV


Ama-me por amor do amor somente
Não digas: «Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua.» Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.

  Tradução: Manuel Bandeira 

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Emily Dickinson – Noites Loucas

Noites Loucas — Noites Loucas!

Estivesse eu contigo

Noites Loucas seriam

Nosso luxuoso abrigo!

 

Para Coração em porto —

Ventos — são coisas fúteis —

Bússolas — dispensáveis —

Portulanos — inúteis!

 

Navegando em pleno Éden —

Ah, o Mar!

Quem dera — esta Noite — em Ti

Ancorar!

 

 

              Tradução: Paulo Henriques Britto
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Charles Baudelaire

EMBRIAGUEM-SE

 

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

 

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

 

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

 

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Wallace Stevens

O homem do violão azul

 

I

Homem curvado sobre violão,

Como se fosse foice. Dia verde.

 

Disseram: “É azul teu violão,

Não tocas as coisas tais como são”.

 

E o homem disse: As coisas tais como são

Se modificam sobre o violão”.

 

E eles disseram: “Toca uma canção

Que esteja além de nós, mas seja nós,

 

No violão azul, toca a canção

Das coisas justamente como são”.

 

II

Não sei fechar um mundo bem redondo,

Ainda que o remende como sei.

 

Canto heróis de grandes olhos, barbas

De bronze, mas homem jamais cantei.

 

Ainda que o remende como sei

E chegue quase ao homem que não cantei.

 

Mas se cantar só quase ao homem

Não chega às coisas tais como são,

 

Então que seja só o cantar azul

De um homem que toca violão.