Poesias

Agostinho Neto

Confiança

 

O oceano separou-se de mim 
enquanto me fui esquecendo nos séculos 
e eis-me presente/ 
reunindo em mim o espaço 
condensando o tempo.

Na minha hisória 
existe o paradoxo do homem disperso

Enquanto o sorriso brilhava 
no canto de dor 
e as mãos construíam mundos maravilhosos

john foi linchado/o irmão chicoteado nas costas nuas 
a mulher  amordaçada 
e o filho continuou ignorante

E do drama intenso 
duma vida imensa e úti/ 
resultou a certeza

As minhas mãos colocaram pedras 
nos alicerces do mundo 
mereço o meu pedaço de chão.

 

A biografia de Agostinho Neto aqui.

Menotti Del Picchia – Banzo

 
       
 

E por que deixou na areia do Congo  
a aldeia de palmas;  
e porque seus ídolos negros  
não fazem mais feitiços;  
e porque o homem branco o enganou com missangas  
e atulhou o porão do navio negreiro  
com seu desespero covarde;  
e porque não vê mais de ânfora ao ombro  
a imagem do conga nas águas do Kuango,  
ele fica na porta da senzala  
de mão no queixo e cachimbo na boca,  
varado de angústia,  
olhando o horizonte,  
calado, dormente, 
pensando, 
sofrendo, 
chorando. 
morrendo.

 

Biografia de Menotti Del Picchia aqui.

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Mário Quintana

Dos nossos males

A nós bastem nossos próprios ais,

Que a ninguém sua cruz é pequenina.

Por pior que seja a situação da China,

Os nossos calos doem muito mais…

 

Biografia de Mário Quintana aqui.

Affonso Romano de Sant’Anna

A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI

A primeira vez que entendi do mundo 
alguma coisa 
foi quando na infância 
cortei o rabo de uma lagartixa 
e ele continuou se mexendo. 

De lá pra cá 
fui percebendo que as coisas permanecem 
vivas e tortas 
que o amor não acaba assim 
que é difícil extirpar o mal pela raiz. 

A segunda vez que entendi do mundo 
alguma coisa 
foi quando na adolescência me arrancaram 
do lado esquerdo três certezas 
e eu tive que seguir em frente. 

De lá pra cá 
aprendi a achar no escuro o rumo 
e sou capaz de decifrar mensagens 
seja nas nuvens 
ou no grafite de qualquer muro.
A biografia de Affonso Romano de Sant´Anna aqui.

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Murilo Mendes

 

A mãe do primeiro filho

Carmem fica matutando
no seu corpo já passado.

— Até à volta, meu seio
De mil novecentos e doze.
Adeus, minha perna linda
De mil novecentos e quinze.
Quando eu estava no colégio
Meu corpo era bem diferente.
Quando acabei o namoro
Meu corpo era bem diferente.
Quando um dia me casei
Meu corpo era bem diferente.
Nunca mais eu hei de ver
Meus quadris do ano passado…

A tarde já madurou
E Carmem fica pensando.

 

Biografia de Murilo Mendes aqui.

Manuel Bandeira


VULGÍVAGA


Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos…

Fui de um… Fui de outro… Este era médico…
Um, poeta… Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira… E aos tímidos  o orgulho.

Estes, caço-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi…
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!

E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo… dou dinheiro…

Se bate, então como estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso…

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas…

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Biografia de Manoel Bandeira aqui.

João Cabral de Melo Neto

Alguns Toureiros


A Antônio Houaiss

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.

 

A biografia de João Cabral de Melo Neto aqui.

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Cecília Meireles

Transição

 

O amanhecer e o anoitecer
parecem deixar-me intacta
Mas os meus olhos estão vendo o que há de mim,
De mesma e exata.
Uma tristeza e uma alegria
O meu pensamento entrelaça,
Na que estou sendo a cada instante,
Outra imagem se despedaça.
Este mistério me pertence
Que ninguém de fora repara
Nos turvos rostos sucedidos,
No tanque da memória clara.
Ninguém distingue a leve sombra
Que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando,
A mesma. Continuada e exata.
Chorai oh, olhos de mil figuras!
Pelas mil figuras passadas
E pelas mil que vão chegando
Noite e dia.
Não consentidas, mas recebidas e esperadas.

 

Biografia de Cecília Meireles aqui.

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Silvia Plath

OUTONO DE RÃ

O verão envelhece, mãe impiedosa.
Os insetos vão escassos, esquálidos.
Em nossos lares palustres nós apenas
Coaxamos e definhamos.

As manhas se dissipam em sonolência.
O sol brilha pachorrento
Entre caniços ocos. As moscas não chegam a nós.
O charco nos repugna.

A geada cobre até aranhas. Obviamente
O deus da plenitude
Está morando longe daqui. Nosso povo rareia
Lamentavelmente.

(tradução de Jorge Wanderley)

Biografia de Silvia Plath aqui.

Jorge de Lima

Mulher proletária

Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.

 

Biografia de Jorge de Lima aqui.