Poesias

Jacques Roubaud

ESTA FOTOGRAFIA, TUA ÚLTIMA

 

Esta fotografia, tua última, deixei-a na parede, entre as duas janelas, por cima,

 

Da televisão abandonada, e ao entardecer, no golfo de tetos, à esquerda da igreja, quando a luz,

 

Se concentra, que ao mesmo tempo, escorre, em dois estuários oblíquos, e invariáveis, na imagem,

 

Sento-me, nesta cadeira, de onde se vê, ao mesmo tempo, a imagem interior ….a fotografia, em volta, o que ela mostra,

 

Que somente, ao entardecer, coincide, pela direção da luz, com ela, fora isso, que à esquerda, na imagem, olhas,

 

Para o ponto onde me sento, para ver-te, invisível agora, na luz,

 

Da tarde, que pesa, sobre o golfo de tetos entre as duas janelas, e eu,

 

Ausente de teu olhar, que na imagem, fixa, o pensamento dessa imagem, dedicada a isso, nos entardeceres de agora, sem ti, no ponto,

 

Vacilante da dúvida de tudo.

 

 

tradução: Inês Oseki-Dépré

 

Biografia de Jacques Roubaud aqui.

Eugenio Montale

MADRIGAIS PRIVADOS

 

Deste meu nome a uma árvore? Não é pouca coisa;

embora não me resigne a ficar apenas sombra, ou tronco,

abandonado num subúrbio. Eu o teu

dei a um rio, a um longo incêndio, à minha sorte

cruel, à confiança

sobre-humana com que falaste ao sapo

que saiu do esgoto, sem horror ou pena

ou exaltação, ao alento daquele poderoso

e suave lábio teu que consegue,

nomeando, criar: sapo flores relva rocha —

carvalho pronto a desfraldar-se sobre nós

quando a chuva dispersa o pólen das carnosas

pétalas de trevo e a chama se levanta.

 

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

Biografia de Eugenio Montale aqui.

Edmond Jabès

CANÇÃO PARA UMA NOITE DE LUAR

 

Tu deslocas as ruas.

A cidade é um labirinto.

Sempre acabo em tua rua.

 

Tu mudas de nome.

Os dias são meus degraus.

Tua janela é tão alta.

 

Perco-te de vista.

À tua porta, um ladrão

ataca a fechadura.

 

Circundas meus sonhos.

Escapas à terra,

Ao inverno, às lágrimas.

 

(tradução: Mário Laranjeira)

Biografia de Edmond Jabès aqui.

Manoel de Barros

Uma Didática da Invenção

d` “O Livro das Ignorãnças”

 

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com

faca

b) 0 modo como as violetas preparam o dia

para morrer

c) Por que é que as borboletas de tarjas

vermelhas têm devoção por túmulos

d) Se o homem que toca de tarde sua existência

num fagote, tem salvação

e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega

mais ternura que um rio que flui entre 2

lagartos

f) Como pegar na voz de um peixe

g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.

Etc.

etc.

etc.

Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

 

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava

escrito:

Poesia é quando a tarde está competente para

Dálias.

É quando

Ao lado de um pardal o dia dorme antes.

Quando o homem faz sua primeira lagartixa

É quando um trevo assume a noite

E um sapo engole as auroras

 

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso

partir de um torpor animal de lagarto às

3 horas da tarde, no mês de agosto.

Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer

em nossa boca.

Sofreremos alguma decomposição lírica até

o mato sair na voz.

 

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

 

IX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa

era a imagem de um vidro mole que fazia uma

volta atrás de casa.

Passou um homem depois e disse: Essa volta

que o rio faz por trás de sua casa se chama

enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro

que fazia uma volta atrás de casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

 

Biografia de Manoel de Barros aqui.

Raul Bopp

Coco de Pagu
Pagu tem os olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Coração pega a bater.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Passa e me puxa com os olhos
provocantissimamente.
Mexe-mexe bamboleia
pra mexer com toda a gente.

Eli Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer.
Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

 

Biografia de Raul Bopp aqui.

Luís Fernando Veríssimo

Tu e Eu
 

Somos diferentes, tu e eu.

Tens forma e graça

e a sabedoria de só saber crescer

até dar pé.

Eu não sei onde quero chegar

e só sirvo para uma coisa

– que não sei qual é!

És de outra pipa

e eu de um cripto.

Tu, lipa

Eu, calipto.

 

 

 Gostas de um som tempestade

roque lenha

muito heavy

Prefiro o barroco italiano

e dos alemães

o mais leve.

És vidrada no Lobão

eu sou mais albônico.

Tu, fão.

Eu, fônico.

 

 

 És suculenta

e selvagem

como uma fruta do trópico

Eu já sequei

e me resignei

como um socialista utópico.

Tu não tens nada de mim

eu não tenho nada teu.

Tu, piniquim.

Eu, ropeu.

 

Gostas daquelas festas

que começam mal e terminam pior.

Gosto de graves rituais

em que sou pertinente

e, ao mesmo tempo, o prior.

Tu és um corpo e eu um vulto,

és uma miss, eu um místico.

Tu, multo.

Eu, carístico.

 

És colorida,

um pouco aérea,

e só pensas em ti.

Sou meio cinzento,

algo rasteiro,

e só penso em Pi.

Somos cada um de um pano

uma sã e o outro insano.

Tu, cano.

Eu, clidiano.

 

Dizes na cara

o que te vem a cabeça

com coragem e ânimo.

Hesito entre duas palavras,

escolho uma terceira

e no fim digo o sinônimo.

Tu não temes o engano

enquanto eu cismo.

Tu, tano.

Eu, femismo.

 

Biografia de Luis Fernando Veríssimo aqui.

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Alphonsus de Guimaraens Filho

À VONTADE

                               (trecho final)

Não seja por isto, noite.
Melhor é que desças. Com toda a tua treva.
E entre nós — embora ressabiados e feridos — até que poderás ficar à vontade.

Pois de qualquer modo há em ti um frêmito vôo informulado,
grande ave de asas cegas…

Somos teus, como sabes, todos te pertencemos, constrangidos embora.
Mas não seja por isto.
A casa é tua — como nestes domínios é hábito dizer aos amigos —
e poderás ficar à vontade.

              De Transeunte (1963-1968)

Biografia de Alphonsus de Guimaraens Filho aqui.

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Octavio Paz

ESCRITO COM TINTA VERDE

 

A tinta verde cria jardins, selvas, prados,

folhagens onde gorjeiam letras,

palavras que são árvores,

frases de verdes constelações.

 

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram

como uma chuva de folhas a um campo de neve,

como a hera à estátua,

como a tinta a esta página.

 

Braços, cintura, colo, seios,

fronte pura como o mar,

nuca de bosque no outono,

dentes que mordem um talo de grama.

 

Teu corpo se constela de signos verdes,

renovos num corpo de árvore.

Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:

olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

 

(Trad. Haroldo de Campos)

Biografia de Octávio Paz aqui.

Sá de Miranda

Soneto

 

 O sol é grande, caem coa calma as aves,

Do tempo em tal sazão que sói ser fria:

Esta água, que dalto cai, acordar-me-ia,

Do sono não, mas de cuidados graves.

 

Ó coisas todas vãs, todas mudaves,

Qual é o coração que em vós confia?

Passando um dia vai, passa outro dia,

Incertos todos mais que ao vento as naves!

 

Eu vi já por aqui sombras e flores,

Vi águas, e vi fontes, vi verdura;

As aves vi cantar todas damores.

 

Mudo e seco é já tudo; e de mistura,

Também fazendo-me eu fui doutras cores;

E tudo o mais renova, isto é sem cura.

 

Biografia de Sá de Miranda aqui.

César Vallejo

POEMA PARA SER LIDO E CANTADO

 

Sei que há uma pessoa

que, dia e noite, me busca em sua mão,

encontrando-me, a cada minuto, em seu calçado.

Ignora que a noite está enterrada

atrás da cozinha com esporas?

 

Sei que há uma pessoa composta de minhas partes,

que eu completo sempre que o meu vulto

cavalga sua exacta pedrazinha.

Ignora que ao seu cofre

não voltará nenhuma moeda que saiu com seu retrato?

 

Sei o dia,

mas o sol escapou-me;

sei o acto universal que fez na cama

com alheia coragem e essa água morna, cuja

superficial frequência é uma mina.

Tão pequena é, acaso, essa pessoa

que até seus próprios pés assim a pisam?

 

Um gato é a fronteira entre eu e ela,

mesmo ao lado de sua malga de água.

Vejo-a pelas esquinas, abre e fecha

sua veste, antes palmeira interrogante…

que poderá fazer senão mudar de pranto?

 

Mas ela busca-me, busca-me. É uma história!

 

Biografia de César Vallejo aqui.