Poesias

Yves Bonnefoy

O POÇO

 

Escutas a corrente a bater na parede

Quando o balde desce no poço que é a outra estrela.

Vésper às vezes, solitária estrela,

Fogo sem raio as vezes a esperar à alva

Que saiam o pastor e suas reses.

 

Mas sempre a água está presa, no fundo do poço.

A estrela fica sempre ali selada.

É possível ver sombras, sob os galhos.

São viajantes que de noite passam

 

Curvados, carregando às costas massa negra,

Hesitantes, diria, numa encruzilhada.

Uns parecem que esperam, outros se apagam

No faiscar que vai sem luz.

 

A viagem do homem, da mulher é longa, mais longa do que a vida,

É uma estrada no fim do caminho, um céu

Que se pensou ter visto brilhar entre as árvores.

Quando o balde toca a água, que o levanta,

É uma alegria, então a corrente o esmaga.

 

Biografia de Yves Bonnefoy  aqui.

William Butler Yeats

A ROSA DO MUNDO

 

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?

Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,

Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,

Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,

E morreram os filhos de Usna.

 

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:

Entre humanas almas que se agitam e quebram

Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,

Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,

Vive este solitário rosto.

 

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:

Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,

Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;

Ele fez do mundo um caminho de erva

Para os seus errantes pés.

 

(tradução: José Agostinho Baptista)

 

Biografia de William Butler Yeats aqui.

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Maiakóvski


BLUSA FÁTUA

 

Costurarei calças pretas

com o veludo da minha garganta

e uma blusa amarela com três metros de poente.

pela Niévski do mundo, como criança grande,

andarei, donjuan, com ar de dândi.

 

Que a terra gema em sua mole indolência:

“Não viole o verde de as minhas primaveras!”

Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:

“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!”

 

Não sei se é porque o céu é azul celeste

e a terra, amante, me estende as mãos ardentes

que eu faço versos alegres como marionetes

e afiados e precisos como palitar dentes!

 

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta

garota que me olha com amor de gêmea,

cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,

com flores os bordarei na blusa cor de gema!

 

(tradução:  Augusto de Campos)

Biografia de Maiakóvski aqui.

Vasko Popa

CRÍTICA DA POESIA

 

Depois da leitura de poemas

No serão literário da fábrica

Começa o diálogo

 

Um ouvinte ruivo

De face marcada por manchas solares

Ergue dois dedos

 

Camaradas poetas

 

Se eu lhes versificasse

Toda a minha vida

O papel ficaria rubro

 

E pegaria fogo

 

( tradução: Aleksandar Jovanovic)

Biografia de Vasko Popa aqui.

T.S.Eliot

O Nome dos Gatos

                                      Tradução: Rodrigo Suzuki Cintra

 

Dar nome aos gatos é assunto complicado,

   Não é apenas um jogo que divirta adolescentes;

Podem pensar, à primeira vista, que sou doido desvairado

Quando eu digo, um gato deve ter TRÊS NOMES DIFERENTES.

Primeiro, temos o nome que a família usa diariamente,

   Como Pedro, Augusto, Alonso ou Zé Maria,

Como Vitor ou Jonas, Jorge ou Gui Clemente –

   Todos nomes sensíveis para o dia-a-dia.

Há nomes mais requintados se pensam que podem soar melhor,

   Alguns para os cavalheiros, outros para titia:

Como Platão, Demetrius, Electra ou Eleonor –

   Mas todos eles são sensíveis nomes de todo dia.

Mas eu digo, um gato precisa ter um nome que é particular,

   Um nome que lhe é peculiar, e que muito o dignifica,

De outro modo, como poderia manter sua cauda perpendicular,

   Ou espreguiçar os bigodes, orgulhar-se de sua estica?

Dos nomes deste tipo, posso oferecer um quórum,

   Como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato,

Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum –

   Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.

Mas, acima e para além, ainda existe um nome a suprir,

   E este é o nome que você jamais cogitaria;

O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir –

   Mas O GATO E SOMENTE ELE SABE, e nunca o confessaria.

Se um gato for surpreendido com um olhar de meditação,

   A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma que o consome:

Sua mente está engajada em uma rápida contemplação

   De lembrar, de lembrar, de lembrar qual é o seu nome:

       Seu inefável afável

       Inefavefável

Oculto, inescrutável e singular Nome.

 

 

Biografia de T.S.Eliot aqui.

Rainer Maria Rilke

Morgue

 

Estão prontos, ali, como a esperar

que um gesto só, ainda que tardio,

possa reconciliar com tanto frio

os corpos e um ao outro harmonizar;

 

como se algo faltasse para o fim.

Que nome no seu bolso já vazio

há por achar? Alguém procura, enfim,

enxugar dos seus lábios o fastio:

 

em vão; eles só ficam mais polidos.

A barba está mais dura, todavia

ficou mais limpa ao toque do vigia,

 

para não repugnar o circunstante.

Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,

olham só para dentro, doravante.

 

(Tradução: Augusto de Campos)

Biografia de Rainer Maria Rilke aqui.

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Marina Tsvetaeva

A CARTA

 

Assim não se esperam cartas.

Assim se espera – a carta.

Pedaço de papel

Com uma borda

De cola. Dentro – uma palavra

Apenas. Isto é tudo.

 

Assim não se espera o bem.

Assim se espera – o fim:

Salva de soldados,

No peito – três quartos

De chumbo. Céu vermelho.

E só. Isto é tudo.

 

Felicidade? E a idade?

A flor – floriu.

Quadrado do pátio:

Bocas de fuzil.

 

(Quadrado da carta:

Tinta, tanto!)

Para o sono da morte

Viver é bastante.

 

Quadrado da carta.

 

(Trad. Augusto de Campos)

Biografia de Marina Tsvetaeva aqui.

Lawrence Ferlinghetti

AO LONGE SOBRE UM PORTO CHEIO…

 

 

Ao longe sobre um porto cheio

de casas sem calefação

em meio às chaminés de navio

de um telhado mastreado de varais

uma mulher hasteia velas

sobre o vento

expondo seus lençóis matinais

com pregadores de madeira

Oh mamífero adorável

seus seios seminus

arrojam sombras retesadas

quando ela se estica

para pendurar de alma lavada

seu último pecado

mas umidamente sensual

ele se enrola nela

agarrado à sua pele

Capturada assim de braços

erguidos

ela atira a cabeça para trás

numa gargalhada muda

e num gesto espontâneo

espalha então cabelo dourado

 

enquanto nas inatingíveis paisagens marinhas

 

entre lonas brancas e enfunadas

 

sobressaem radiantes os barcos a vapor

 

para o outro mundo

 

 

Trad. Nelson Ascher

Biografia de Lawrence Ferlinghetti  aqui.

 

 

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Laura Riding

ABRIR DE OLHOS

 

Pensamento dando para pensamento

Faz de alguém um olho.

Um é a mente cega-de-si,

O outro é pensamento ido

Para ser visto de longe e não sabido.

Assim se faz um universo brevemente.

 

A suposição imensa nada em círculos,

E cabeças ficam mais sábias

Enquanto notam a grandeza,

E a dimensão imbecil

Espaça a Natureza,

 

E ouvidos reportam primeiro os ecos,

Depois os sons, distinguem palavras

Cujos sentidos chegam por último ─

Vocabulários jorram das bocas

Como por encanto.

E assim falsos horizontes se ufanam em ser

Distância na cabeça

Que a cabeça concebe lá fora.

 

O maravilhar-se, que escapa dos olhos,

Regressa a cada lição.

O tudo, antes segredo,

Agora é o conhecível,

A vista da carne, a grandeza da mente.

 

Mas e quanto ao sigilo,

Pensamento individido, pensando

Um todo simples de ver?

Essa mente morre sempre instantaneamente

Ao prever em si, de repente demais,

A visão evidente demais,

Enquanto lábios sem boca se abrem

Mundamente atônitos para ensaiar

O verso simples e impronunciável.

 

tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Biografia de Laura Riding aqui.

Fernando Pessoa

LISBON REVISITED (1926)

(Álvaro de Campos)

 

Nada me prende a nada.

Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.

Anseio com uma angústia de fome de carne

O que não sei que seja –

Definidamente pelo indefinido…

Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto

De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

 

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.

Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.

Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

 

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.

Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.

Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.

Até a vida só desejada me farta – até essa vida…

 

Compreendo a intervalos desconexos;

Escrevo por lapsos de cansaço;

E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.

Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;

Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;

ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

 

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma…

E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,

Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa

(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),

Nas estradas e atalhos das florestas longínquas

Onde supus o meu ser,

Fogem desmantelados, últimos restos

Da ilusão final,

Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,

As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

 

Outra vez te revejo,

Cidade da minha infância pavorosamente perdida…

Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

 

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,

E aqui tornei a voltar, e a voltar.

E aqui de novo tornei a voltar?

Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,

Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,

Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

 

Outra vez te revejo,

Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

 

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo -,

Transeunte inútil de ti e de mim,

Estrangeiro aqui como em toda a parte,

Casual na vida como na alma,

Fantasma a errar em salas de recordações,

Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem

No castelo maldito de ter que viver…

 

Outra vez te revejo,

Sombra que passa através das sombras, e brilha

Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,

E entra na noite como um rastro de barco se perde

Na água que deixa de se ouvir…

 

Outra vez te revejo,

Mas, ai, a mim não me revejo!

Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,

E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim –

Um bocado de ti e de mim!…

 

Biografia de Fernando Pessoa aqui.