Poesias
John Keats
Se Tenho Medo
Se tenho medo de meus dias terminar
Antes de a pena me aliviar o espírito, antes
De muito livro, em alta pilha, me encerrar
Os grãos maduros como em silos transbordantes;
Se vejo, nas feições da noite constelar,
Enormes símbolos nublados de um romance
E penso que não viverei para copiar
As suas sombras com a mão maga de um relance;
Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
Formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
Do amor irrefletido! – então no litoral
Do vasto mundo eu fico só, a meditar,
Até ir Fama e Amor no nada naufragar.
Biografia de John Keats aqui
- Comentários desativados em John Keats
- Tweet This !
CÉSAR VALLEJO
EPÍSTOLA AOS TRANSEUNTES
Tradução de Antonio Miranda
Renovo meu dia de coelho
minha noite de elefante em descanso.
E, para mim, digo:
esta é minha imensidade em bruto, a cântaros,
éste é meu grato peso, que me buscara debaixo para pássaro;
este é meu braço
que por conta própria recusou ser asa,
estas são minhas sagradas escrituras,
estes meus alarmados testículos.
Lúgubre ilha me iluminará continental,
enquanto o capitólio se apóie em meu íntimo deslize
e a assembléia de lanças clausure meu desfile.
Mas quando eu morrer
de vida e não de tempo,
quando cheguem a duas minhas duas maletas
este há de ser meu estômago em que coube minha lâmpada em pedaços,
esta aquela cabeça que expiou os tormentos do círculo em meus passos,
estes esses vermes que o coração contou em unidades,
este há de meu corpo solidário
pelo qual vela a alma individual; este há de ser
meu umbigo em que matei piolhos natos,
esta minha coisa coisa, minha coisa tremebunda.
Entanto, convulsiva, asperamente
convalesce meu freio,
sofrendo como sofro da linguagem direta do leão;
e, posto que eu existi entre duas potestades de ladrilho,
convalesço eu mesmo, sorrindo de meus lábios.
Biografia de César Vallejo aqui
- Comentários desativados em CÉSAR VALLEJO
- Tweet This !
Carlos Drummond de Andrade
As sem-razões do amor
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Biografia de Drummond aqui
Augusto dos Anjos
Hino à dor
Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam..
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tacto
Prendo a orquestra de chamas que executas…
E, assim, sem convulsão que me alvorece,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!
Biografia de Augusto dos Anjos aqui
Jorge de Lima
Inverno
Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa…
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d’água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa…
…rede gemendo…
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!
Leia a biografia de Jorge de Lima aqui
- Comentários desativados em Jorge de Lima
- Tweet This !
Rainer Maria Rilke
O POETA
Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?
Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.
Leia a biografia aqui
Da Costa e Silva
SOMBRA E NÉVOA
Cai o crepúsculo. Chove.
Sobe a névoa… A sombra desce…
Como a tarde me entristece!
Como a chuva me comove!
Cai a tarde, muda e calma…
Cai a chuva, fina e fria…
Anda no ar a nostalgia,
Que é névoa e sombra em minh’alma.
Há não sei que afinidade
Entre mim e a natureza:
Cai a tarde… Que tristeza!
Cai a chuva… Que saudade!
Leia a biografia de Da Costa e Silva Aqui
- Comentários desativados em Da Costa e Silva
- Tweet This !
Murilo Mendes
O utopista
Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.
Biografia aqui.
- Comentários desativados em Murilo Mendes
- Tweet This !
Eli Celso
EM HOMENAGEM A TERCEIRA SINFONIA
( Brahms, opus 90, em lá maior)
No começo da noite
retiro meus olhos já vermelhos e cansados
guardo-os na mesa enlevados,
com a escuridão das pálpebras, velhas conhecidas.
Os olhos solitários na mesa não sabem lamentar,
os olhos sem mim não podem chorar.
Minha face dois grandes buracos
profundos poços que dilatam a aurora e
aprisionam o sol ao meio-dia.
Eis onde carretéis sem fim puxam-me para os mares.
E, se nesse retrato remoço-me,
são os olhos que não sabem sonhar.
Biografia aqui.
- Comentários desativados em Eli Celso
- Tweet This !
Adalgisa Nery
A POESIA SE ESFREGA NOS SERES E NAS COUSAS
Nunca sentiste uma força melodiosa
Cercando tudo que teus olhos vêem,
Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?
Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
Deparando com um campo devoluto
Semelhante a uma virgem esquecida?
Num circo, nunca se apoderou de ti, um amargor sutil
Vendo animais amestrados
E logo depois te mostrarem
Seres humanos imitando um réptil?
Nunca reparaste na beleza de uma estrada
Cortando as carnes do solo
Para unir carinhosamente
Todos os homens, de um a outro pólo?
Nunca te empolgastes diante de um avião
Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
Ou de qualquer outra invenção?
Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia
Ao mistério da noite,
Na extensão da tua dor
E na delícia da tua alegria?
Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta montanha
Para que vejas com toda a amplitude
A grandeza infindável da poesia que não percebes
E que é tamanha!
Biografia aqui.
- Comentários desativados em Adalgisa Nery
- Tweet This !
Comentários Recentes