Poesias

Hilda Hilst

Poemas aos Homens do nosso tempo


Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.


***********

Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças 
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa. 
As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza e o difícil de antes,
Aparências, o amor dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra, da semente.
Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu

Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.


Leia a biografia de Hilda Hilst aqui

Anchieta Fernandes

MISTÉRIO

 

O homem que está perto

É objeto

O que está longe

É euforia

Assim como a noite

mais promete

quando é dia.

 

Biografia de Anchieta Fernandes aqui

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Octávio Paz

VISITAS

 

Através da noite urbana de pedra e seca

o campo entra no meu quarto.

Estende braços verdes com pulseiras de pássaros,

com fivelas de folhas.

Leva um rio à mão.

O céu do campo também entra,

com o seu cesto de jóias acabadas de cortar.

E o mar senta-se ao meu lado,

estende a sua cauda branquíssima no solo.

No silêncio brota uma árvore de música.

Na árvore pendem todas as palavras formosas

que brilham, amadurecem e caem.

Na minha testa, uma caverna onde mora um relâmpago…

Porém, tudo se povoou com asas.

Diz-me: é deveras o campo que vem de tão longe,

ou és tu, são os sonhos que sonhas ao meu lado?

(Tradução: Luis Costa)

 

Biografia de Octávio Paz aqui

konstantinos kavafis

Esperando os bárbaros

 

Mas que esperamos nós aqui n’Ágora reunidos?

 

É que os bárbaros hoje vão chegar!

 

Mas porque reina no Senado tanta apatia?

Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores?

 

É que os bárbaros hoje vão chegar.

Que leis hão­‑de fazer os senadores?

Os bárbaros que vêm, que as façam eles.

 

Mas porque tão cedo se ergueu hoje o nosso imperador,

E se sentou na magna porta da cidade à espera,

Oficial, no trono, co’a coroa na cabeça?

 

É que os bárbaros hoje vão chegar.

O nosso imperador espera receber

O chefe. E certamente preparou

Um pergaminho para lhe dar, onde

Inscreveu vários títulos e nomes.

 

Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores

trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas?

E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas,

e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes,

por que razão empunham hoje bastões preciosos

com tão finos ornatos de ouro e prata cravejados?

 

É que os bárbaros hoje vão chegar.

E tais coisas os deixam deslumbrados.

 

Porque é que os grandes oradores como é seu costume

Não vêm soltar os seus discursos, mostrar o seu verbo?

 

É que os bárbaros hoje vão chegar

E aborrecem arengas, belas frases.

 

Porque de súbito se instala tal inquietude

Tal comoção (Mas como os rostos ficaram tão graves)

E num repente se esvaziam as ruas, as praças,

E toda a gente volta a casa pensativa?

 

Caiu a noite, os bárbaros não vêm.

E chegaram pessoas da fronteira

E disseram que bárbaros não há.

 

Agora que será de nós sem esses bárbaros?

Essa gente talvez fosse uma solução.

 

Biografia de konstantinos kavafis aqui

 

 

 

 

 

 

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Paul Valéry

AS ROMÃS

 

Duras romãs entreabertas

Pelo excesso dos grãos de ouro,

Eu vejo reis, todo um tesouro

Nascer de suas descobertas!

 

Se os sóis de onde ressurgis,

Ó romãs de entrevista tez,

Vos fazem, prenhes de altivez,

Romper os claustros de rubis,

 

E se o ouro sece cede enfim

Ante a demanda ainda mais dura

E explode em gemas de carmim,

 

Essa luminosa ruptura

Faz sonhar uma alma que há em mim

De sua secreta arquitetura.

 

(tradução: Augusto de Campos)

Biografia de Paul Valéry aqui

Stéphane Mallarmé

Angústia

 

Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela

Que encerras os pecados de um povo, ou cavar

Em teus cabelos torpes a triste procela

No incurável fastio em meu beijo a vazar:

 

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios

Pairando sob ignotas telas do remorso,

E que possas gozar após negros enleios,

Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

 

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,

Tal como a ti marcou-me de esterilidade,

Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

 

De um coração que crime algum fere com presas,

Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,

Com medo de morrer pois durmo solitário.

 

Biografia de Stéphane Mallarmé aqui

 

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Herberto Helder

Sobre o Poema


Um poema cresce inseguramente 
na confusão da carne, 
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, 
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência 
ou os bagos de uva de onde nascem 
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis 
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas, 
as folhas dormindo o silêncio, 
as sementes à beira do vento, 
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes, 
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

 

Biografia de Herberto Helder aqui

Vasko Popa

NO SUSPIRO

 

Pelas estradas da profundeza da alma 

Pelas estradas azul-celeste 

A erva-daninha viaja 

As estradas se perdem 

Sob os pés

 

Enxames de pregos violentam 

As plantações cansadas 

As lavouras desaparecem 

Do campo

 

Lábios invisíveis 

Apagaram o campo

 

A dimensão triunfa

Encantada pelas palmas de suas mãos lisas

Cinzalisas

 

(tradução: Aleksandar Jovanovic)

Biografia de Vasko Popa aqui

BBiogra

Garcia Lorca

ROMANCE SONÂMBULO

(Tradução de Salomão Sousa)

 

Verde que te quero verde.

Verde vento. Verdes ramos.

O barco sobre o mar

e o cavalo na montanha.

Com a sombra na cintura,

ela sonha na varanda

verde carne, cabelo verde,

com olhos de fria prata.

Verde que te quero verde.

Debaixo da lua cigana,

as coisas a estão olhando

e ela não pode olhá-las.

 

***

 

Verde que te quero verde.

Grandes estrelas de escarcha

vêm com o peixe de sombra

que abre o caminho da alba.

A figueira arranha o vento

com a lixa de seus ramos

e o monte, gato matreiro,

eriça suas fibras acres.

Mas quem virá? e por onde?¼

Ela continua na varanda,

verde carne, cabelo verde,

sonhando no mar amargo.

 

***

 

Compadre, quero trocar

meu cavalo por sua casa,

meu arreio pelo espelho,

minha faca por sua manta.

Compadre, venho sangrando

desde os portos de Cabra.

Se eu pudesse, seu moço,

este trato se fechava.

Mas eu já não sou eu

nem já é minha a minha casa.

Compadre, quero morrer

decentemente em minha cama.

De arma branca, pode ser,

com os lençóis de holanda.

Não vês a ferida que tenho

do peito até a garganta?

Trezentas rosas morenas

leva teu peitilho branco.

Teu sangue respinga e cheira

ao redor de tua faixa.

Mas eu já não sou eu.

Nem já é minha a minha casa.

Deixai-me subir ao menos

até as altas varandas:

deixai-me subir!, deixai-me

até as verdes varandas!

Avarandados da lua

por onde estronda a água¼

 

***

 

Já sobem os dois compadres

até as altas varandas.

Deixando um rastro de sangue.

Deixando um rastro de lágrimas.

Tremulavam nos telhados

pequenos faróis de lata.

Mil pandeiros de cristal

feriam a madrugada.

 

***

 

Verde que de quero verde.

Vento verde. Verdes ramos.

Os dois compadres subiram.

O longo vento deixava

na boca um gosto raro

de fel, de menta e alfavaca.

Compadre! Onde está, dize-me?

Onde está tua menina amarga?

Quantas vezes te esperou!

Quantas vezes te esperara,

de cara alegre, cabelo alegre,

nesta verde varanda!

 

***

 

Sobre a boca da cisterna

a cigana tremia.

Verde carne, cabelo verde,

com olhos de fria prata.

O gelo da lua, em pedaços,

ampara-a sobre a água.

A noite se tornou íntima

como uma pequena praça.

Guardas-civis bêbados

na porta golpeavam.

Verde que te quero verde.

Verde vento. Verdes ramos.

O barco sobre o mar.

E o cavalo na montanha. 

 

Biografia de Garcia Lorca aqui

Emily Dickinson

Dentre todas as Almas já criadas

 

Dentre todas as Almas já criadas –

Uma – foi minha escolha –

Quando Alma e Essência – se esvaírem –

E a Mentira – se for –

 

Quando o que é – e o que já foi – ao lado –

Intrínsecos – ficarem –

E o Drama efêmero do corpo –

Como Areia – escoar –

 

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem –

E a Neblina – fundir-se –

Eis – entre as lápides de Barro –

O Átomo que eu quis!

 

(Tradução: José Lira)

Biografia de Emily Dickson aqui