Poesias

Antero de Quental

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo…

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

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Fernando Pessoa

Chove

 

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva

Não faz ruído senão com sossego.

Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva

Do que não sabe, o sentimento é cego.

Chove. Meu ser (quem sou) renego…

 

 

Tão calma é a chuva que se solta no ar

(Nem parece de nuvens) que parece

Que não é chuva, mas um sussurrar

Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.

Chove. Nada apetece…

 

 

Não paira vento, não há céu que eu sinta.

Chove longínqua e indistintamente,

Como uma coisa certa que nos minta,

Como um grande desejo que nos mente.

Chove. Nada em mim sente…

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Geraldino Brasil

CLASSE MÉDIA

 

Um médico.

Ótimo na família

 

Um executivo.

Ótimo

 

Um engenheiro.

Um arquiteto.

Um magistrado.

Ótimo

 

Um poeta.

Melhor na família dos outros

 

 in “Bem Súbito”

Biografia de Geraldino Brasil aqui

Manuel Bandeira

Balõezinhos

 

 

Na feira do arrabaldezinho

Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:

— “O melhor divertimento para as crianças!”

Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,

Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

 

 No entanto a feira burburinha.

Vão chegando as burguesinhas pobres,

E as criadas das burguesinhas ricas,

E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

 

 Nas bancas de peixe,

Nas barraquinhas de cereais,

Junto às cestas de hortaliças

O tostão é regateado com acrimônia.

 

 Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,

Os tomatinhos vermelhos,

Nem as frutas,

Nem nada.

 

 Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.

 

 O vendedor infatigável apregoa:

— “O melhor divertimento para as crianças!”

E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um círculo inamovível de desejo e espanto.

 Saiba mais sobre Manuel Bandeira aqui

 

Rainer Maria Rilke

O Cego

 

Ele caminha e interrompe a cidade,

que não existe em sua cela escura,

como uma escura rachadura

numa taça atravessa a claridade.

 

Sombras das coisas, como numa folha,

nele se riscam sem que ele as acolha:

só sensações de tato, como sondas,

captam o mundo em diminutas ondas:

 

serenidade; resistência –

como se à espera de escolher alguém, atento,

ele soergue, quase em reverência,

a mão, como num casamento.

 

(Tradução: Augusto de Campos)

Biografia de Rilke aqui

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Augusto dos Anjos

A idéia

 

De onde ela vem?! De que matéria bruta

Vem essa luz que sobre as nebulosas

Cai de incógnitas criptas misteriosas

Como as estalactites duma gruta?!

 

 

Vem da psicogenética e alta luta

Do feixe de moléculas nervosas,

Que, em desintegrações maravilhosas,

Delibera, e depois, quer e executa!

 

 

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

Chega em seguida às cordas do laringe,

Tísica, tênue, mínima, raquítica …

 

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No mulambo da língua paralítica

Biografia de Augusto dos Anjos aqui

César Vallejo

OS ANÉIS FATIGADOS

 

Há ânsias de voltar, de amar, de não ausentar-se,

e há ânsias de morrer, combatido por duas

águas unidas que jamais hão-de istmar-se.

 

Há ânsias de um beijo enorme que amortalhe a Vida,

que acaba na África de uma agonia ardente,

suicida!

 

Há ânsias de… não ter ânsias, Senhor,

a ti aponto-te com o dedo deicida:

há ânsias de não ter tido coração.

 

A primavera volta, volta e partirá. E Deus,

curvado em tempo, repete-se, e passa, passa

carregando a espinha dorsal do Universo.

 

Quando as têmporas tocam seu lúgubre tambor,

quando me dói o sonho gravado num punhal,

há ânsias de ficar plantado neste verso!

Biografia de Vallejo aqui

Carlos Drummond de Andrade

MÃOS DADAS

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

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Vladimir Maiakóvski

ESCÁRNIOS

 

Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.

Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz es-

cavam com seus focinhos as raízes.

 

(tradução:  Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)

Biografia de Maiakóvski aqui

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Brecht

O Analfabeto Político (Bertold Brecht)

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo