Poesias

Gregório de Matos

As Cousas do mundo 

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não igo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

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Fernando Pessoa

Oração

Nossa Senhora das lágrimas vãs,

Dai ao meu coração o vosso ninho.

Adoeço em infindáveis manhãs

E me embebedo com o amargo vinho

De só conhecer  angústias mal sãs,

De não saber senão viver sozinho.

 

Reconheço que imploro a vós em vão,

Mas meu coração só conhece a dor.

Um vosso olhar seria a salvação,

Mesmo que seja um olhar de horror.

Concedei-me que eu volte a ser irmão

Do vosso menino, Nosso Senhor.

Meu sentido de mim é todo pranto,

De mim mesmo só tenho muita pena.

Oh colo dos meus medos acalanto

Agarro-me a vós, criança pequena.

Quisera vos ver viva por encanto

A minha mão na vossa mão serena.

 

Há muito tempo perdi o sabor

Da fé, e tenho ânsia de oração

Meu coração é um jardim sem flor,

Nos meus brancos cabelos, vossa mão

De mãe deixai repousar com amor

E deixai-me morrer por compaixão.

Tradução de Jorge Pontual

 

Jalal ul-Din Rumi

Momento de felicidade

 

Felicidade é este momento,

você e eu sentados na varanda –

duas formas, dois rostos,

mas uma alma,

você e eu.

 

A beleza das flores

e o canto dos pássaros

nos dão a água da vida

quando entramos neste jardim,

você e eu.

 

As estrelas do céu vêm nos ver,

e mostramos a elas a lua,

você e eu.

 

Você e eu,

unidos em êxtase de alegria,

livres do juízo e da razão –

você e eu.

 

Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar

quando nós rimos,

você e eu.

 

Mais incrível ainda,

estamos aqui ao mesmo tempo

no Iraque, na Pérsia,

você e eu –

numa forma aqui na Terra,

e noutra forma, no Paraíso.

E na Terra do Açúcar, você e eu…

 

Saiba sobre   Jalal ud-Din aqui

 

(Tradução: Jorge Pontual)

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Konstantinos Kaváfis

À espera dos bárbaros

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado? 
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje 
Que leis hão de fazer os senadores? 
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo 
e de coroa solene se assentou 
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje. 
O nosso imperador conta saudar 
o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe 
um pergaminho no qual estão escritos 
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores 
usam togas de púrpura, bordadas, 
e pulseiras com grandes ametistas 
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas? 
Por que hoje empunham bastões tão preciosos, 
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje, 
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores 
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje 
e aborrecem arengas, eloquencias.

Por que subitamente esta inquietude? 
(Que seriedade nas fisionomias!) 
Por que tão rápido as ruas se esvaziam 
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm 
e gente recém-chegada das fronteiras 
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós? 
Ah! eles eram uma solução.

Sobre Konstantinos Kaváfis aqui

Hilda Hilst – Poemas

Lobos? São muitos.

Mas tu podes ainda

A palavra na língua

Aquietá-los.

Mortos? O mundo.

Mas podes acordá-lo

Sortilégio de vida

Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.

Mas se farão milhares

Se à lucidez dos poucos

Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.

E tu mesmo, raro.

Se nas coisas que digo

Acreditares.

Saiba mais sobre Hilda Hilst aqui

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Manuel Bandeira

VULGÍVAGA

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos…

Fui de um… Fui de outro… Este era médico…
Um, poeta… Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira… E aos tímidos  o orgulho.

Estes, caço-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi…
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!

E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo… dou dinheiro…

Se bate, então como estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso…

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas…

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Biografia de Manuel Bandeira aqui

Carlos Drummond de Andrade

Combate

Nem eu posso com Deus nem pode ele comigo.
Essa peleja é vã, essa luta no escuro
entre mim e seu nome. 
Não me persegue Deus no dia claro.
Arma, à noite, emboscadas.
Enredo-me, debato-me, invectivo
e me liberto, escalavrado.
De manhã, à  hora do café, sou eu quem desafia.
Volta-me as costas, sequer me escuta,
e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.
Deus golpeia à traição. 
Também uso para com ele táticas covardes.
E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer
pela vitória equívoca.

Biografia de Drummond aqui

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Jorge Luis Borges

ARTE POÉTICA

                    Tradução de Rolando Roque da Silva

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

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Elizabeth Bishop

CADELA ROSADA

[Rio de Janeiro]

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pêlo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia  é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!

1979

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Paulo Hecker Filho

O PEITO POÉTICO

Tenho versos, tenho versos!
Tenho-os pelo corpo todo!
Versos florescem como vermes
de meu peito poético
às minhas mãos e aos pés.
Nascem-me como bolhas na fervura.
Versos, versos, arco-íris de versos!
Não sou alma, não sou valente,
não faço parte do partido comunista.
Invento-me tudo isto ou não me invento.
Estou no mundo, não me pertenço.
Tenho um peito poético, ora bolas!
Sou um viveiro de versos e mais nada.

 

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