Artigo

CRIAÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Imaginar é o princípio da criação. Nós imaginamos o que desejamos, queremos o que imaginamos e, finalmente, criamos aquilo que queremos” (Bernard Shaw)

Não, não estou a fim de falar sobre os textos bíblicos Gênesis 1:27 e Gênesis 1:28, descrevendo como Deus criou os seres humanos, homem e mulher, parecidos com Ele próprio. Nem lembrar que o Criador lhes disse: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”.

Se entendesse da arte pictórica, preferiria escrever sobre o comentadíssimo afresco “A Criação de Adão” que Michelangelo pintou no teto da Capela Sistina no século 16 a pedido do papa Júlio II. Sei apenas que a presença de Lilith, esposa mística de Adão, na pintura, cria polêmica até hoje…

O substantivo feminino “Criação” tem uma grande amplitude desde a origem linguística, do latim creatĭo,ōnis, significando conceber, desenvolver, elaborar, engendrar, procriar…  E na linguagem coloquial da língua portuguesa, temos um vastíssimo sinonimato, como compor, educar, fabricar, fazer, formar, idealizar, iniciar, imaginar e até parir…

Com a palavra, temos o efeito de criar, de tirar do nada; encontramos nela a capacidade de inventar como se vê especialmente nas agências de publicidade, ou de simplesmente domesticar animais nos galinheiros e chiqueiros para consumo alimentar.

É interessante no estudo da linguagem o processo de criação de novas palavras, os chamados neologismos, expressões derivadas ou formadas de outras já existentes, na mesma língua ou importadas. Citei num dos últimos artigos, o “radar” nascido da rubrica inglesa formada pelo “RA”, rádio, “D”, detetection, e “A”, de and e “R” de ranging que muitos não sabiam…

Da Inglaterra veio também a expressão “perder o trem”, atribuída a Churchill; que se tornando popular, inspirou o sambista Adoniram Barbosa nos versos “… Se eu perder o trem /que sai agora, às onze horas/ Só amanhã, de manhã”…

Do pessoal estrangeiro recebemos também dos franceses uma interessante criatividade idiomática, vindas, por exemplo, de Marcel Prévost, “semi-virgem”, de Taine, “velho regime”, e de Napoleão “espoliador”…

O brasilês, como se refere o mestre gaúcho José Carlos Bortoloti, é rico em criadores de neologismos, entre os quais vale a pena citar Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Guimarães Rosa, José de Alencar, José Lins do Rego, Manoel Bandeira e Mário Quintana. Modéstia à parte, lá em cima escrevi “sinonimato” que não existe nos dicionários…

As expressões populares entre nós dão um colorido especial ao brasilês. Nossa gíria se expande como uma pandemia. Antigamente – por força dos programas radiofônicos e dos primórdios da televisão quase todas saíam do Rio de Janeiro.

Com o tempo, o intercâmbio e o estudo, descobriu-se o universo dos regionalismos, a bela diversidade das expressões populares cobrindo o território nacional do Oiapoque ao Chuí…

Das antiguidades francesas adaptadas e correntes no Nordeste, e do lusitano arcaico remanescente nas Minas Gerais ao galante castelhano dos gaúchos, formamos o nosso idioma, que no dizer de Noel Rosa, “…já passou do português! ”.

A criação chegou à pandemia do novo coronavírus, nos costumes, na linguagem, e até no anedotário. Levou-nos a aprender a ficar em casa e gerenciar o tempo; a popularizar o termo “negativismo” dantes usado somente pelos filósofos, para designar a política sinistra dos governantes aliados da peste…

No anedotário vale a pena lembrar o comentário do jornalista Mário Sabino sobre o “programinha em São Paulo pós-flexibilização: clube, shopping, restaurante, cineminha, vinhozinho — e fim de noite no hospital”.

… E vem da Alemanha tão sisuda, uma piada pronta: a BVG, empresa de transporte públicos, pede ao povo renúncia geral no uso de desodorante, em campanha para incentivar o uso de máscaras…

 

 

SONHOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“É só um sonho que se sonha só, / Mas sonho que se sonha junto é realidade…”  (Raul Seixas)

Com o avanço da ciência e da tecnologia, os seres humanos pensantes se convencem de que a nossa estrutura anatômica é uma sofisticada versão do computador, agindo com os impulsos elétricos nervosos através de condutores ligados ao sistema nervoso central.

Temos no cérebro o encéfalo, parte do Sistema Nervoso Central, que recebe, processa e gera respostas às mensagens que chegam até ele. Uma espécie de radar aperfeiçoado biologicamente para o nosso organismo.

Lembremos que o radar, de uso excessivo nas últimas guerras, é um aparelho que emite ondas eletrônicas detectando corpos sólidos à sua frente. Seu nome é um neologismo adotado em todos idiomas do mundo, vindo da rubrica inglesa formada pelo “RA”, rádio, “D”, detetection, e “A”, de and e “R” de ranging…

Após a Segunda Guerra Mundial, o poeta e dramaturgo Félix-Henri Bataille, maravilhado pelo radar, escreveu sobre as percepções sensoriais humanas, lamentando que nós usamos mal essas maravilhas, porque não sabemos como processá-las.

Realmente. Há estudos científicos que nos falam de vinte ou mais sentidos, além da audição, do olfato, do paladar, do tato e da visão; operando-os, eles nos permitiriam uma imensa e múltipla percepção de sensações externas.

Pesquisadores científicos dos sentidos dão exemplos de sensações que vão além dos cinco conhecidos, como intuição, premonição, pressentimento e transmissão do pensamento. Alguns vão mais além, falam dos sonhos que projetam invenções e/ou indicam saídas para situações difíceis.

Para Freud, no seu livro “Teoria dos Sonhos”, o sonho é um fenômeno psíquico onde realizamos desejos inconscientes; mais adiante, na sua “Interpretação dos Sonhos”, o Pai da Psicanálise afirma que quando o estado de sono reprime revelações anormais ou perversas, é o motivo gerador de traumas e mudanças de comportamento.

Falando por experiência própria, eu sempre me preocupei com o sonho, a sua forma de traduzir fatos do cotidiano, resposta às sensações fisiológicas e o que fica da sua lembrança ao acordar.

Esclareço que uso alguns métodos para exercitar o adormecer e para estimular o sono,e estimulando para os sonhos experiências pessoais. Aprendi muito no correr dos anos, mas tudo teve início na infância, graças à minha formação através das discussões domésticas sobre isto.

Com meu pai positivista e a minha mãe espírita kardecista, nós discutíamos muito a respeito das manifestações do sonho, o pai refletindo sobre vidas interplanetárias – hoje diríamos alienígenas –; e a mãe, sobrepesando e defendendo a imortalidade da alma – seja, a vida após a morte –.

Meus estudos esclareceram que foram os sonhos dos homens primitivos que os levaram à crença de uma outra vivência, paralela, precedendo milhares de anos as religiões orientais espiritualistas, o kardecismo, os cultos afro-ioruba e a sua descendência brasileira, a Umbanda.

O verbete Sonho, dicionarizado é um substantivo masculino, ato ou efeito de sonhar; e também a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo sonhar. A origem é latina, “somnium”, criação do sono.

A palavra deu um grandioso mergulho na política, graças ao discurso histórico de Martin Luther King, líder norte-americano do movimento pelos direitos civis, tornado antológico em todo mundo como “I have a dream” – “Eu tenho um sonho”.

A fala do grande líder norte-americano em Washington contra a segregação racial (que soube a pouco, contou com a presença de Frank Sinatra) teve um desfecho apoteótico, descrevendo o sonho como um sonho de liberdade, igualdade e respeito humano, um sonho para o futuro.

Vivendo o inferno astral trazido pelo novo coronavírus juntei o sonho de Martin Luther King ao sonho que Shakespeare pôs na boca de Hamlet: “Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema. ”

Assim, fui levado a falar do meu sonho no isolamento social, por amor à vida, pelo civismo e em solidariedade ao próximo. Sonho com o fim da pandemia, e não quero sonhar só; vamos sonhar juntos para torna-lo realidade…

A FARDA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam” (Martin Luther King)

A fixação do presidente Jair Bolsonaro pela farda é comovente; foi de Brasília para o Rio assistir o funeral de um jovem paraquedista acidentado e morto em treinamento, mas se mostra indiferente diante dos mais de 50 mil óbitos por covid-19 no País.  Dispensa humanidade para um e sequer uma palavra de conforto às famílias enlutadas…

O Presidente ignora e não tem um só assessor encorajado para lembrar-lhe, que todos os brasileiros, com exceção apenas de 30 ou 300, estão pesarosos pelas vidas ceifadas na pandemia, e se solidarizam com os infectados à espera do pior.

Recebe apoio, sem dúvida, pela fração que lhe cultua no melhor estilo do que fizeram os nazistas com “mein führer” Hitler e os bolcheviques russos com “camarada” Stálin. São agrupamentos que os sociólogos classificam como “massa”.

A massa representa desmiolados reunidos em grupos, sob a liderança de algum esperto carreirista político ou de um malandro ludibriador mercenário. Toma o partido do condutor que grita mais ou incita com ardor de uma palavra-de-ordem espalhafatosa.

A massa tem coletivamente a mentalidade de uma criança de nove, 10 anos, aberta às sugestões dos adultos que respeitam. Participando, então, da política, é capaz de tudo: criar mitos, coroar heróis, derrubar estátuas, injuriar personalidades e incendiar edifícios públicos. Até assaltar bancos…

O gênio de Shakespeare nos deu um retrato sem retoques disto, descrevendo o velório de César, diante da massa hostil vociferando contra o morto e aplaudindo seus assassinos. Repercute o discurso fúnebre de Marco Antônio, recordando os feitos de César, e apresentando o testamento dele deixando os bens para o povo romano.

Este drama shakespeariano tem como apoteose a notável inversão do comportamento da massa exortando a memória de César e se voltando contra os conspiradores que o mataram.

Não é preciso um aprofundamento sociológico para se ver que há uma diferença enorme entre massa, povo, povo organizado e povo fardado. A própria convivência mostra que o povo tem consciência cívica; quando organizado, participa de movimentos de acordo com os seus ideais; e o povo militarmente estruturado obedece a uma hierarquia e aos valores patrióticos.

É assim que se forma uma Nação esclarecida e culta. Nação, do latim natio, de natus (nascido), é uma comunidade estável, historicamente constituída voluntariamente por uma comunidade baseada num território comum, com a mesma língua, herdando a mesma cultura e tendo as aspirações materiais e espirituais comuns.

A farda é a vestimenta padronizada que distingue as pessoas, usada por estudantes, clérigos, guardas municipais, policiais militares, porteiros de hotel e até os trajes cerimoniais da seita Santo Daime, que os adeptos chamam de “farda”.

A Farda é o uniforme das forças militares, instituído desde o século 17 na França e posteriormente adotado por todos os países ocidentais, espelhando o “povo fardado”, constituído para defender a Nação.

O Brasil é uma Nação-Estado constituída federativamente por regiões subnacionais, estados-membros, que além da cultura comum apresentam também formações culturais próprias, costumes, tradição e linguística.

A tese de doutorado de Janote Pires Marques na Universidade Federal do Ceará sobre o ensino militar no Brasil, evoca o poeta nacional Castro Alves e o seu poema “Quem Dá aos Pobres, Empresta a Deus” – desenvolvendo a relação benéfica entre a Cultura – O Livro -, e o Militar – O Sabre; “As duas grandezas que se abraçam e se cruzam”.

Castro emociona com os versos: “Não cora o livro de ombrear co’o sabre…/ Nem cora o sabre de chamá-lo irmão…. “ E, como o Poeta, os brasileiros bem formados culturalmente esperam do povo fardado o sabre para garantir institucionalmente a manutenção do Estado de Direito, com respeito à Constituição e aos poderes republicanos.

 

 

INCÊNDIOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A vida é um incêndio: nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta! ” (Mário Quintana)

Quando estudávamos latim no ginásio éramos obrigados a ler e traduzir os discursos de Cícero – que sempre caiam no exame vestibular das faculdades de Direito -, e para os curiosos, como eu, haviam coletâneas de provérbios e os “Doze Césares” de Suetônio.

Lembro-me (não tenho condições de confirmar, por falta de referência) que o livro de Suetônio tem um capítulo dedicado a Nero, onde encontramos as mesmas louvaminhas dos historiadores chapas-branca que enxameiam em torno do poder – e aparecem muitos entre nós…

Para defender o Imperador, Suetônio transfere para os cristãos a culpa pelo incêndio de Roma, uma versão que foi negada posteriormente por Tácito, e que foi combatida insistentemente por escritores católicos, como no livro “Quo Vadis”, romance do escritor polonês Henryk Sienkiewicz ambientado na Roma Imperial à época de Nero.

O tema abordado por Sienkiewicz gira em torno da conversão de Paulo de Tarso ao cristianismo, sua presumível presença em Roma e a perseguição que se abateu sobre os cristãos, após o incêndio.

A força do livro “Quo Vadis” e a transmissão oral por gerações consecutivas atribuem a Nero um comportamento execrável, sentimentos abjetos, sexualidade pervertida e acusam-no pelo incêndio urdido apenas para lhe inspirar um poema…

Outros pontos de vista argumentam antagonicamente o perfil de Nero como um monstro e os seus atos tirânicos. Se firmam pela denúncia de ficção e a frágil confiabilidade das fontes que abundam na Biblioteca do Vaticano.

Fugindo da discussão e separando a ficção da realidade, podemos encontrar governantes que a História registra desde a Antiguidade apresentados como heróis pelos seus patrícios, mas que foram responsáveis por chacinas criminosas. Temos o exemplo de Napoleão Bonaparte, que com suas guerras foi responsável por um milhão e setecentos mil franceses mortos.

Nem precisamos falar de Hitler e Stálin, os neros do século passado, ainda fixos na memória dos traficantes de utopias fraudulentas, e cultuados por admiradores fanáticos.

Ambos foram piromaníacos: Stálin mandou queimar a safra de trigo dos kulaks na década de 1920; e Hitler arquitetou o incêndio do Reichstag após a vitória eleitoral em 1933, o que lhe proporcionou o poder absoluto na Alemanha. O Führer também se divertia com as fogueiras armadas com livros clássicos pela Juventude Nazista…

Guardo tristemente na memória recente do grande incêndio da catedral de Notre-Dame de Paris, cuja construção data do século 12, e se tornou o símbolo da capital francesa. Esta tragédia, segundo notificação inicial da polícia deveu-se à negligência pela conservação da igreja.

A indiferença por um patrimônio cultural da humanidade deu-se igualmente no Brasil com o incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. As causas foram esquecidas, mas ninguém me tira da cabeça que esse trágico incidente deveria ser creditado aos responsáveis pela sua preservação.

Temos no Brasil incendiários perversos com as continuadas queimadas das nossas florestas, em particular na Floresta Amazônica. Os criminosos são blindados por um mecanismo dissimulado e oculto aos olhos dos governos através dos tempos. Antes, durante, e possivelmente após o Governo Bolsonaro, se não pudermos evitar punindo severamente os seus autores.

Mesmo com a criação da operação Garantia da Lei e da Ordem (GLO), autorizando os militares para coibir as queimadas na Região Amazônica, ainda estamos longe de ver o fim da ação revoltante

A defesa da Amazônia não pode se resumir às piadas em torno da ativista juvenil Greta Thünberg. Trata-se de uma imposição da consciência patriótica para impedir que a “boiada passe” arruinando o futuro das próximas gerações.

 

 

LARANJAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Se você tem uma laranja e troca com outra pessoa que também tem uma laranja, cada um fica com uma laranja. Mas se você tem uma ideia e troca com outra pessoa que também tem uma ideia, cada um fica com duas. ”  (Confúcio)

Em tempo de pandemia virulenta seja com o novo coronavírus maléfico ou com a política cada vez mais nefasta, vale a pena falar de laranja, uma fruta festejada em toda parte que, como verbete dicionarizado é originário do árabe “narandja” e curiosamente pode ser substantivo feminino e substantivo masculino.

A versão feminina se refere ao fruto da laranjeira e a versão masculina significa pessoa utilizada por outra como intermediária em fraude e negócios suspeitos, como aplicar dinheiro obtido ilegalmente.

Os dicionários de gíria se referem à laranja para pessoa simples ou ingênua, e nos Sertões a palavra é masculinizada “laranjo” usada como referência à cor de bovinos.

Com menção ao coronavírus, lembro que a laranja é usada medicinalmente para o tratamento de males que derivam de infecções, como a dermatite e a cistite, porque além da famosa vitamina C, contém ácido fólico, cálcio, potássio, magnésio, fósforo e ferro.

Houve época em que os médicos recomendavam beber suco de laranja para “limpar” o organismo antes de determinadas cirurgias, ativando suas propriedades antioxidantes.

É ilustrativa a história de como a laranja doce foi trazida das fraldas do Himalaia para a Europa no século XVI pelos portugueses. Por isso são chamadas de “portuguesas” em vários países, especialmente na Itália e nos Bálcãs. No grego é portokali e portakal em turco.

Além de vários tipos que conhecemos, laranja-Bahia, laranja-da-terra, laranja-lima, laranja-pera, laranja-seleta e laranja vermelha, também designa cor, cor-de-laranja ou alaranjado.

A laranja entrou na literatura em livros como “Meu Pé de Laranja Lima”, clássico de José Mauro de Vasconcellos, que se popularizou com duas novelas, da década de 1970, de Ivani Ribeiro pela TV-Tupi, dirigida por Carlos Zara, com Cláudio Correia e Castro; e, na TV-Bandeirantes, sob a direção de Del Rangel, tendo como protagonista Gianfrancesco Guarnieri.

“Meu Pé de Laranja Lima” chegou ao cinema nacional com o filme também baseado no livro de José Mauro, sob a direção de Marcos Bernstein; cheio de ternura e ingenuidade, confrontou-se com o horror trazido à tela pelo badaladíssimo filme de Stanley Kubrick, “Laranja Mecânica” extraído do romance distópico de Anthony Burgess “A Clockwork Orange”.

O livro de Burgess se inspirou num fato real ocorrido em 1944: o estupro, por quatro soldados americanos, da primeira mulher do autor, Lynne, e o filme é realmente horroroso, amedrontador, mostrando um grupo de delinquentes liderados por um psicopata, que buscam o prazer através da ultraviolência.

Este funesto enredo desenvolvido por Kubrick nos leva ao pânico proporcionado pela pandemia que atravessamos, uma mistura maligna da covid-19 com a politicalha reinante no Brasil, com o fanatismo e o ódio tentando estuprar a Democracia.

É grave e lesiva a convergência dos extremismos de direita e esquerda desprezando as medidas de segurança que o momento exige; e, criminosamente, com o exemplo vindo de cima para baixo…

Laranjas políticos e profissionais se juntam aos laranjas virtuais (termos registrados no Dicionário de Gíria de J. B. Serra e Gurgel) para as tramoias, as rachadinhas, e levando às redes sociais a transgressão da lei e da ordem que vigoram no Estado de Direito.

Como híbrida da toranja e da tangerina, temos uma laranja entre as chamadas laranjas sanguíneas, conhecida como “Moro”.  Ao encontra-la na pesquisa, lembrou-me Sérgio Moro, o caçador de corruptos, que disse: “Talvez alguns entendam que o combate ao crime deve ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais!”

Esses “alguns”, da direita e da esquerda o odeiam por isso…

 

 

ADIVINHAÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo” (Clarice Lispector)

No meu tempo de escola “risonha e franca”, que era também ingênua, brincávamos de adivinhas. Algumas se tornaram clássicas, como a que pergunta “o que é, que é, cai em pé e corre deitado? ”, ou “quem é que anda com os pés na cabeça? ”. As respostas todos sabem, chuva e piolho…

As adivinhas, como vimos nos exemplos acima, são brincadeiras necessárias ao estímulo para aguçar o raciocínio infantil. Utilizei-as muito com meus filhos e depois com os meus netos. Tem um site de Português do “Escola KIDS” com adivinhas inteligentíssimas que podem ser encontradas pelo link  https://bit.ly/3hkf34E  .

Há diferença entre adivinha e adivinhação? Ambas são usadas como sinônimos, porque veem embrulhadas pelo papel celofane do verbo adivinhar; mas a sua diferença é refinada: Adivinha é charada, enigma, questão; e adivinhação é previsão, profecia, prognóstico.

Como verbete dicionarizado, Adivinhação é um substantivo feminino originário do verbo latino addivināre (de divināre ), previsão; suposição ou crença de que é possível prever o que está por vir, ou revelar o que está encoberto no presente e no passado.

Adivinhação é exemplificada num fato vivido pela sibilina deputada Carla Zambelli (aquela que propôs a Sérgio Moro que se submetesse aos desígnios pouco republicanos de Bolsonaro para ganhar cadeira no STF).

A parlamentar predisse que a Polícia Federal iria investigar governadores, e não deu outra: 24 horas depois Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, se enrascou de tal maneira com a investigação que está no caminho do impeachment…

Pensei que depois disto, se ela montar uma tenda de oráculos aberta a consultas, vai ganhar rios de dinheiro; há, porém, outros profetas políticos que não conseguem convencer ninguém.

Entre esses tais que não persuadem ao ler o futuro, tem um astrólogo, guru dos filhos do Presidente, que reclama por não ser ouvido, ameaçando raivoso até de revelar histórias do presidente Jair Bolsonaro se não receber atenção; talvez por isso, mesmo sem crédito na adivinhação, mantém vários pupilos em importantes cargos do governo federal.

Ao meu ver, ser adivinhão é uma profissão de risco. Tem uma história que corre com os camelos nos desertos da Arábia contando que o general Hedjaz, no reinado do califa Valid, consultou um astrólogo íntimo das constelações e dos cometas; e o atendente preparou o mapa astral do consulente e decretou:  – “Vais morrer em breve”.

Hedjaz ficou por instantes pensativo e agradecendo o augúrio disse: -“Confio tanto no seu conhecimento do destino, que desejo tê-lo ao meu lado na vida após a morte. Irás na frente, preparar a minha chegada”. E mandou decapitar o agourento…

Não sei se ocorre pelo mundo afora, mas no Brasil a adivinhação é contravenção penal. O artigo 27 da Lei de Contravenções Penais alcança videntes, cartomantes e adivinhões dedicados a “ler a sorte” por “explorar a credulidade pública mediante sortilégios, predição do futuro, interpretação de sonhos, ou práticas congêneres. ”

Esta Lei vem sofrendo de baixa consideração, mas está viva. A professora e pesquisadora Maíra Zapater nos dá sobre ela um pensamento antológico: – “Não obstante seu perfume de bolor e naftalina e os muitos dispositivos derrogados por normas posteriores ou mesmo não recepcionados pela Constituição Federal, a Lei de Contravenções Penais continua em vigor”.

Mesmo nos tempos imprevisíveis que atravessamos, das baboseiras do “politicamente correto” que condena o filme “…E O Vento Levou”, querendo deletar o passado com a sua soberba ignorância; surgem falsos profetas à esquerda e à direita recuperando o viço pressagiando uma volta ao passado, seja para surfar na corrupção lulopetista, seja para mergulhar num pântano ditatorial dos extremistas de direita.

Em tempo: A Deputada adivinhona não previu que seria investigada como instigadora de atos antidemocráticos, nem que o ministro Weintraub cairia, e muito menos que achariam e prenderiam Queiroz em Atibaia ….  E assim, me perdeu como cliente…

MILAGRES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Coincidências são pequenos milagres onde Deus prefere não aparecer” (Provérbio Árabe)

Quando se fala em milagre o nosso interesse se volta imediatamente para o sentido religioso da palavra. Leva-nos a pensar de uma interferência sobrenatural na vida de alguém; entretanto, a palavra tem um sentido mais amplo.

Como verbete dicionarizado, Milagre é um substantivo masculino de origem latina, “miracŭlum,i”, significando coisa extraordinária, assombrosa, inexplicável. Como ação divina é uma dádiva que beneficia uma pessoa, “milagre de Nossa Senhora”; como ocorrência extraordinária, “milagre da Medicina”; ou que causa surpresa, “milagre, fulano passou no concurso da PF”…

Registra-se na História do Teatro uma espécie de tipo de drama medieval, baseado na vida dos santos e seus milagres, inspirador de Ariano Suassuna no seu “Auto da Compadecida, aparecendo posteriormente como filme.

Para o poeta Walt Whitman, é tudo: “Cada momento de luz ou de treva/ é para mim um milagre”, análise encantadora que cai muito bem na cultura popular brasileira, onde encontramos a acepção da palavra para o artesanato em madeira e cera, ou arte pictórica que servem como oferenda aos santos por uma graça obtida.

Temos mais do que isto. São mais de 30 municípios e distritos batizados de “Milagres” no País; destacam-se cidades nas Alagoas, na Bahia, no Ceará, no Maranhão e nas Minas Gerais.

Pelo menos para conhecimento geral são poucas referências para a origem do nome dessas cidades homônimas.  Fala-se numa cruz na entrada da cidade ou da vila, da passagem de frade milagroso, da edificação de santuário e de ermidas construídas por anônimos.

Tentei uma pesquisa e encontrei mais citações sobre o turismo religioso do que alusão aos fatos ocorridos. Os acontecimentos não estão disponíveis, omitindo-se circunstâncias, datas e nomes.

Estas áreas urbanas são, porém, o testemunho da religiosidade dos brasileiros, principalmente nos rincões interioranos do país, com suas oradas ajudando a multiplicar a crença nos fenômenos que transgredem a ordem natural das coisas.

Einstein, autor de uma frase muito citada nos círculos rabínicos em defesa da religião, quando disse que “a ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”, fala do milagre com uma simplicidade ímpar quando escreveu: “Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre.

O grande poeta gaúcho Mário Quintana, ao contrário do Físico criador da Lei da Relatividade, é cético e nos deixou versos zombando dos crentes: “O milagre não é dar vida ao corpo extinto, / Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo…/ Nem mudar água pura em vinho tinto…/ Milagre é acreditarem nisso tudo! ”

Atribuindo à coincidência (que os árabes fatalistas consideram ‘pequenos milagres’) li outro dia a referência histórica às bravatas do ministro da propaganda nazista, herr doctor Goebbels, muito adotado no Brasil pelos populistas de direita e esquerda.

Quem escreveu foi um diplomata britânico, então em Berlim.  Conta que numa festa ocorrida em 1939, no auge do poder hitlerista e o esplendor totalitário, Goebbels discursou numa festa da chancelaria dizendo cheio de entusiasmo que despedaçaria a crença cristã como quebraria a taça de champanhe que tinha às mãos. Atirou-a contra a parede e ela caiu no chão sem trincar…  Sob risos (ainda havia quem sorrisse em Berlim) saiu da festa cheio de ódio.

Tem muito político fanfarrão capaz de subestimar a realidade por puro achismo, como fez o presidente Bolsonaro considerando a pandemia do coronavírus uma ‘gripezinha’; a partir daí o que assistimos é que ele vem perdendo cada vez mais a confiança da maioria dos que votaram nele.

Ao declarar que era ‘messias’, mas não fazia milagres, confessou a incapacidade de enfrentar a peste… A seguir, por vocação totalitária, referindo-se ao Congresso e ao Judiciário, baixou a palavra-de-ordem para os seguidores. “Acabou, porra! ”.

Assim, mesmo alinhando-me entre os que não creem em milagres e mitos, vejo, por coincidência, um castigo real chegar ao Presidente pela pesquisa do Instituto Orbis, dando-lhe 48% de rejeição…

A MORTE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A morte não extingue, transforma; não aniquila, renova; não divorcia, aproxima”  (Rui Barbosa)

A sabedoria do sertanejo nordestino diferencia a “morte morrida”, da “morte matada”, e o excelente “Dicionário de Termos e Expressões Populares”, do cearense Tomé Cabral, revela esta distinção entre a morte natural ou acidental e a morte por assassinato.

Encontramos também a expressão “morte súbita”, que no futebol passou a ser uma regra para decidir uma partida final que termina empatada após o tempo regulamentar; foi usada pela primeira vez na Cromwell Cup inglesa e é chamada pela Fifa de golden goal; mas a imprensa esportiva brasileira consagrou o nome funesto…

Do mesmo jeito como escrevi sobre a vida, e a proposta científica da sua origem, não custa ver o seu fim, a falência dos órgãos que animam os seres vivos, ocorrendo assim a morte.

Desde a mais remota antiguidade os homens sempre distinguiram o corpo do seu fluido vívido, a alma, o espírito, e as civilizações primordiais mantinham a crença na ressurreição dos mortos, criando um sem número de métodos para a preservação do corpo para a volta do espírito, ficando famosa a mumificação.

Como diversas religiões ainda persistentes no mundo, os espíritas, creem na vida post morte, com o espírito se desligando do corpo físico para a vida eterna, deixando a matéria inerte se decompondo. Originária da Índia e nações indígenas da América do Norte, viram cinzas ao se adotar a cremação…

No antigo Egito, dos faraós, das pirâmides e das múmias dominava a crença da reencarnação realizando a conservação dos corpos com métodos que os mantiveram por 4.000 anos… Junto ao morto, colocavam os seus pertences e ao lado da sua cabeça o Livro dos Mortos.

Assim foi batizado no Ocidente, mas na realidade era um rolo de papiro onde iam escritos hinos, orações, fórmulas mágicas e sobretudo a lembrança para a sua alma (KA) para defende-lo perante o ‘Grande Deus, o Deus de Amentet’, Khnemu, fazendo-o escutar o pedido, e não ouvir mentiras ao seu respeito…

Há também o Bardo Thodöl, em transliteração bar-do thos-grol, onde bardo é “transição” e thodol é “libertação”. É o chamado Livro Tibetano dos Mortos, tido como sagrado pelos monges budistas. É uma prece pela autolibertação da alma entre a morte e o renascimento para uma próxima reencarnação.

A cultura ocidental influenciada pelo cristianismo – em todas as suas vertentes – com a morte, o espírito vai para o céu ou para o inferno, sendo que para os católicos, ortodoxos, coptas e algumas denominações evangélicas, há o purgatório.

Segundo o vizinho judeu, o judaísmo prescreve que defunto seja despojado dos seus valores, dinheiro, joias, próteses e até perucas; que a sua casa tenha as janelas abertas e que o féretro deve ser de madeira, forrado de pano preto e uma estrela de Davi. Os caixões obedecem a um só padrão para mostrar que a morte iguala a todos.

Os muçulmanos creem que, como o nascimento, a morte está nas mãos de Deus. Lê-se no Alcorão:  “Foi Alá quem te criou, quem te sustentou, e é ele quem te fará morrer”, Suräh 30:40.

Não é demais falar-se da morte em plena pandemia do novo coronavírus, o covid-19. A ameaça é um cutelo que está sobre todas as cabeças, independendo de raça, sexo, condição social e econômica. Por isso devemos estar preparados para enfrentar os riscos, porque não se trata de uma ‘gripezinha’ como é vista negligentemente pelo Presidente da República.

Da minha parte, faço uma declaração pública:  Não acredito na sobrevivência da alma, nem tenho medo da morte; espero-a como cantou Raul Seixas a sua composição “Canto Para A Minha Morte”: “Vou te encontrar vestida de cetim/ Pois em qualquer lugar esperas só por mim/ Vem, mas demore a chegar…”

 

ALFARRÁBIO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Entre velhas páginas uma folha ainda verde da casa antiga”. (Alice Ruiz)

No ano de 1960 eu trabalhava no Correio da Manhã, o primeiro grande jornal em que atuei profissionalmente, e, como era madrugador, estava sozinho na redação quando apareceu um cidadão pedindo para falar com o chefe.

Conversa vai, conversa vem, a figura queria levar para Campina Grande, na Paraíba, um jornalista para dirigir um jornal local que transformaria a circulação semanal em diária; desejoso de participar deste desafio, antes de levar o campinense no aquário do chefe (que era meu primo) fui antes, e pedi-lhe para me indicar…

Não deu outra. Foi sopa no mel; o proprietário da publicação já tinha gostado da minha conversa e aceitou de bom grado a indicação.

Na Campina Grande regurgitante de progresso e vibrante movimentação econômica e cultural, encontrei um bar chamado Alfarrábio; era uma casa velha, com as paredes descoloridas e emboloradas, que acumulava como atividade comercial a venda de livros usados, de frutas e servir cachaça e cerveja (não muito gelada, como gostava o saudoso poeta Raimundo Asfora).

Perdoe-me, se ainda estiver entre nós, por não lembrar quem a pessoa me levou lá pela primeira vez; mas recordo que convivi ali com os jovens intelectuais Agnelo Amorim, Figueiredo Agra, Orlando Tejo, o jornalista Wallace Figueiredo e os estudantes Alcir Góes e Emílio Bezerra.

Vivi uma encantadora convivência no Alfarrábio, onde o papo era livre e agradável, e a gente se divertia quando apareciam comerciantes e políticos com a desculpa de levar para casa laranjas, maçãs e peras (um luxo na época) e aproveitavam a oportunidade para tomar umas e outras…

O curioso e inteligente nome do estabelecimento caía bem. Quando menino, pouco ouvia citar-se a palavra “alfarrábio”, que foi para a UTI da gramática e, ao que parece morreu, ficando no dicionário como elogio fúnebre: substantivo masculino originário do árabe, Al-Farābi, significando livro antigo ou há muito editado, cujo valor muitas vezes reside somente pela antiguidade.

Além de significar também sebos e lojas de nostalgia, Alfarrábio foi pluralizado pelo famoso escritor brasileiro José de Alencar, que intitulou “Alfarrábios” sua trilogia de romances históricos, seriada como “O Garatuja”, “O Ermitão da Glória” e “Alma de Lázaro”, crônicas dos tempos coloniais publicadas em 1873.

Às vezes fico conjecturando se uma visita a casos e fatos políticos ocorridos no século passado seriam alfarrábios…. Para mim ainda estão muito próximos, eu que cobri jornalisticamente a Câmara dos Deputados ainda no Rio, na Praça XV, e depois o Senado Federal sediado no Palácio Monroe, um belo monumento arquitetônico demolido estupidamente em 1976. Em nome do “progresso”…

No Rio de Janeiro antes da mudança da capital, era o espelho social e político do Brasil e viveu, sem dúvida alguma, os seus “anos dourados” na década de 1950, com uma efervescência generalizada, e a consequente evolução comportamental dos brasileiros, pelos avanços na ciência, na cultura e a implantação da tecnologia moderna, com a popularização da televisão e dos automóveis nacionais.

O lado triste, no começo da década – a derrota para o Uruguai no recém-inaugurado Maracanã – foi logo esquecido. Eleito para a presidência da República, Getúlio Vargas, criou a Petrobras, à época uma aspiração do povo brasileiro.

Tivemos a eleição de Juscelino Kubitschek e com ele uma era democrática e alegre, com paz e esperanças no futuro, coincidindo com o sucesso do rock e da nossa “Bossa Nova” tendo como pioneiros Tom Jobim, Vinícius de Morais e João Gilberto.

Essa alegria foi conturbada pela até hoje inexplicável renúncia de Jânio Quadros, sucessor de JK, o movimento militar legalista que garantiu a posse de João Goulart e depois outro movimento também militar, a derrubada do Presidente. E assim tivemos a implantação de um regime que suprimiu a liberdade.

Pena que ainda haja hoje um grupo extremista querendo a volta do regime de exceção como se fora um destino nacional, fechando-se o Congresso e o STF. Isto é, porém, impensável pois significaria o fim do Estado de Direito.

Pensando assim, estão errados e podem ser castigados… Encontrei num Alfarrábio a história que mostra o Destino com mão e contramão…  Como todos sabem, o filósofo grego pré-socrático, Zenon de Eleia, ensinava que a humanidade era subordinada a um Destino inevitável.

Certa vez flagrou um dos seus servos roubando, e o ladrão, malandro, se justificou dizendo que o destino lhe determinou que furtasse…. Zenon ouviu-o e disse: – “Tens razão, o Destino quis que roubasses e depois fosses surrado”. E mandou aplicar-lhe umas bordoadas.

 

AS BRUXAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Eu faço qualquer coisa, te dou tudo que tenho, oh bruxa, por um pedacinho de paz que um dia eu perdi”  (Raul Seixas)

Na sua comentada obra “Totem e tabu”, Freud estuda as primeiras hordas humanas e sugere três formas de pensamento: animismo, religioso e científico. O primeiro, tem a visão cosmogônica de entes superiores não humanos, animais, plantas, objetos inanimados ou fenômenos da natureza.

Mais tarde, nos albores da civilização, os medos diante do sobrenatural “se destacam nos nevoeiros das almas” como descreve Oliveira Martins no seu livro “Sistema dos Mitos Religiosos”. Assim criaram-se deuses por temor à floresta, à escuridão, aos raios e os trovões, no resguardo da caverna, na reverência ao sol e aos mortos.

As primeiras organizações sociais apresentaram o poder político exercido pelas mulheres, que desempenhavam um papel importante na administração social, respeitadas e admiradas sem impor-se pela força. Era o regime Matriarcal, cuja existência foi sugerida no século XIX pelo arqueólogo britânico Sir Arthur Evans, estudioso da Civilização Minoica.

Mais tarde, pesquisas arqueológicas da chamada Era do Gelo (40.000 – 10.000 a.C.) descobriram grande quantidade de estátuas femininas conhecidas como vênus ou Estatuetas de Vênus, identificando-as como representações da Deusa mãe.

Nas organizações sociais avançadas dos antigos impérios, as mitologias de diversos povos também consagram os mitos femininos da deusa-mãe, das amazonas ou mulheres guerreiras, valquírias, erínias, harpias e a deusa grega da sabedoria, inteligência e da guerra, Atena.

O cristianismo nascente, como religião acolhedora, caridosa, solidária e libertadora, contrapôs-se às práticas pagãs extravagantes realçando o papel da mulher na vida de Jesus de Nazaré.

São icônicas as três marias citadas nos evangelhos como participantes da pregação do Cristo, do seu suplício e ressureição. Não somente a mãe, Maria, como Maria Madalena, Maria Betânia, irmã de Lázaro, e Maria, mãe de Tiago, foram no princípio igualmente santificadas.

Entretanto, o cristianismo vitorioso, romano e imperial, sincretizou-se com outras religiões pagãs e, em defesa de um clero copiado do mitraísmo, apagou os registros do apostolado feminino contidos nos chamados evangelhos sinóticos.

A hierarquia eclesial fez mais. Desprezou a personalidade de Madalena, tratando-a como se fora uma prostituta ou endemoniada, insinuação machista motivada pelo medo de ver exaltada a importância dela entre os fundadores do cristianismo.

Na idade Média, a loucura fanática e inquisitorial passou a condenar a mulher independente, praticante de terapias fitoterápicas, ou como obstetra, acompanhando a gravidez até o parto. Foram confundidas com as bruxas persistentes na crença pagã, versão feminina dos xamãs. Então, perseguiu-as, torturou-as, e levou-lhes à fogueira.

Como restos caricatos dos tribunais da Inquisição, a América do Norte colonial registrou no século 17, para vergonha do povo norte-americano, os julgamentos das bruxas de Salem, em Massachusetts, processando mulheres acusadas de bruxaria. Este fato inspirou a intelectualidade dos Estados Unidos a chamar de “Caça às Bruxas” a inquisição macarthista que perseguiu os liberais e antifascistas, incriminando-os antidemocraticamente como se fossem comunistas.

A estupidez autoritária não compreende que não se mata uma ideia ou uma prática, sacrificando o seu agente. Foi assim que Hitler suicidou-se no seu bunker berlinense e o stalinismo soçobrou com o Muro de Berlim.

Entristece-me em assistir agora o choque dos extremismos, incentivado pela inépcia intelectual de quem não devia fazê-lo. Espero que este cenário não nos leve a uma “caça às bruxas”, porque “direita” e “esquerda” não representam uma ideologia estável, são apenas sinais de união grupal como inquisidores de todos os tempos.