Artigo saído n’O JORNAL DE NATAL. Hoje nas bancas
Desprezo pela educação deve nos indignar
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Quando tomei conhecimento do resultado da pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (sigla, em inglês, Pisa), para a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico da ONU, vivi um momento de fúria. Revoltado, salvei-me pelo impulso de recordar o meu líder, o engenheiro Leonel de Moura Brizola, único brasileiro da sua geração a segurar durante toda a vida a bandeira de educação.
Nestes dias tristes de um governo virtual construído pela demagogia de Lula da Silva e uma propaganda intensiva e mentirosa, a lembrança de Brizola nos conforta. Ele nunca ficou preso ao discurso. Acreditava no que dizia e cumpria as promessas feitas. A prova disso é que os seus projetos para educação deixaram marcas indeléveis na prefeitura de Porto Alegre e no governo do Rio Grande do Sul. Há sessenta anos, suas ações como prefeito e governador fazem que lá, nos Pampas, os índices educacionais apresentem os melhores resultados no país.
No Rio de Janeiro, como governador, Brizola consagrou uma parceria com Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer para implantar os Cieps – Centros Integrados de Educação Pública. Ao inaugurar o primeiro módulo disse que uma Nação é construída pela escola e seus professores, e que uma sociedade verdadeiramente justa e desenvolvida nasceria da remoção do berço da desigualdade, o ensino diferenciado entre público e privado.
A memória histórica a ressaltar a coerência de Brizola que, pela causa da educação, passou à oposição ao PT-governo ao sentir que Lula não daria prioridade ao ensino público, então, em 2004, declarou ao repórter Chico Sant’Anna: “Eu gostaria que Lula acertasse. Mas não me parece que desse mato vá sair coelho”.
Brizola tinha ou não tinha razão? O resultado está aí, a vergonhosa posição do Brasil na competição internacional que avalia o alunado com provas de matemática e leitura. Os jovens brasileiros apresentaram resultados que os deixaram na 53ª posição em matemática (entre 57 países) e na 48ª em leitura (entre 56), isso depois de haver registrado o 52º lugar entre 57 países na avaliação sobre o estudo de ciências.
Nossa colocação em matemática foi péssima. Deixando-nos no 54º lugar à frente somente de Tunísia, Qatar e Quirguistão. Em leitura, a nota média do Brasil caiu dez pontos desde a avaliação anterior: 403 para 393. O país ficou na 49ª posição, só à frente de sete países.
Esse quadro não nos induz unicamente às lamentações por ver a nossa pátria ficar nos últimos lugares do mundo da Copa Educação. Devemos nos dispor a lutar para reverter à situação, principalmente ao ver o carnaval que o PT-governo faz festejando – como se fosse o único responsável – a entrada do Brasil no grupo dos 70 países de alto desenvolvimento humano, IDH. Ficamos em último lugar, mas estamos lá, embora o analfabetismo cubra todo território nacional, conquanto escondido sob os confetes coloridos da propaganda oficial.
Oito anos de governo FhC e quase seis de Lula da Silva dividem a responsabilidade entre tucanos e lulistas-petistas. Não me venham falar de capitanias hereditárias porque a exigência da educação é coisa recente, nos países emergentes, China, Índia e Tigres Asiáticos. Lá o ensinamento básico em boas escolas com professores preparados e bem pagos começou ao tempo em que Brizola defendia as escolas de tempo integral; aqui, o jogo pelo poder cega os atores políticos para os problemas fundamentais.
O povo brasileiro queda desamparado sem Educação, Saúde Pública e Segurança Pública. Por não ser educado, sadio e seguro de si, se ilude com o discurso fácil e as promessas vãs da elite política. E assim a Economia vai bem com velas acesas e incenso no altar do Deus Mercado.
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