Artigo publicado n’ O JORNAL DE HOJE

Comentários desativados em Artigo publicado n’ O JORNAL DE HOJE
Compartilhar

Ovos da serpente no ninho brizolista

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br

A colunista da Época, Ruth de Aquino, expressou sua argúcia essa semana com o texto de sempre, enxuto e gostoso. O título é chamativo: “O que ruboriza uma prostituta”. Não dá para fazer qualquer reparo ao juízo da jornalista, exceto uma dúvida que paira nos círculos bem informados sobre a citação que abre o artigo, cujo primeiro parágrafo vale à pena reproduzir:

“Nosso filósofo popular Tim Maia dizia que “não pode dar certo um país em que prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme e traficantes se viciam”. Seguindo o mesmo raciocínio, não pode ser sério um país em que organizações não-governamentais (ONGs) são sustentadas pelo governo e desviam dinheiro público. Estamos falando de um ralo de R$ 12 bilhões (repetindo, “bilhões”) sem prestação de contas desde 1999. É um escândalo nacional que ruborizaria nossas prostitutas. Quando a fiscalização bate à porta do ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), ele cancela convênios sem explicar por quê, promete investigar irregularidades nas ONGs de parentes e pedetistas, mostra que favoreceu a todos os partidos, não só o seu, mistura prefeituras com ONGs e merece elogios do presidente Lula como “o mais republicano dos ministros”.

O problema de forma – que não arranha o conteúdo – é que a frase é correta, corretíssima, mas há controvérsias quanto ao autor. Uns garantem ser de Tim Maia, outros a atribuem ao maestro Antonio Carlos Jobim. Acredito até que seja de co-autoria de ambos os poetas e filósofos populares, e pela alta qualidade poderia ter saído da cabeça de outros expoentes da nossa intelectualidade como Paulo Francis ou Nelson Rodrigues…

Bem encaixado no artigo, o pensamento nos leva a pensar em Carlos Lupi, que embora presidente do PDT, esteja mais para Lula do que para Brizola, pois não sabe ler. Seria bom que soubesse, ou tivesse a humildade de pedir a alguém para repassar o que se fala dele pela imprensa. Nada de preconceitos, como se vê na excelente exposição de Melchíades Filho na Folha de São Paulo de sábado passado, examinando criticamente a situação do Ministro e do Ministério. Melchíades observa as origens trabalhistas do PDT e a convivência espúria de Lupi com os adversários históricos da legislação trabalhista de Getúlio Vargas e ferozes antagonistas das idéias de Leonel Brizola.

Brizola deve se retorcer no túmulo assistindo o equilibrismo de Lupi para se manter no poder em parceria com os 300 picaretas do Congresso Nacional e conveniando suspeitosamente com ONGs caça-níqueis. O certo é que são os próprios sócios do PT-partido que plantam notícias contra ele e que Lula o mantém por causa da Força Sindical e de parlamentares da legenda sedentos de uma boquinha governamental. Há exceções para justificar a regra, é claro, mas a maioria dos deputados federais pedetistas está satisfeitissíssima com os restos do banquete petista.

A análise correta da situação é o reconhecimento da invulgar esperteza de Lula. Ele sabe que são os seus sequazes que tramam contra Lupi e incentiva-os a fazê-lo. Aparentemente defendendo-o terá preso pela coleira o presidente do PDT e alcança três objetivos: desmoraliza o trabalhismo de uma vez; fica autorizado a falar em nome da Força Sindical; e participará das eleições municipais do Rio de Janeiro, usando o PDT como força diversionista. Essas tramenhas ajudarão a construir o alicerce golpista do 3º mandato.

O plano estratégico do estado maior da pelegagem não merece reparos. Corre frouxo diante da acomodação do povo e só há uma coisa que pode prejudicar a marcha batida do continuísmo, o destempero do Pelegão. Quando toma umas e outras o Brasil vê estarrecido o que ocorreu em Sergipe: um Presidente da República descontrolado e arrogante berrando contra o Judiciário e o Legislativo com afirmações desastradas. Diante de uma platéia especialmente mobilizada para aplaudi-lo, disse que “seria bom se o Judiciário metesse o nariz apenas nas coisas dele” e que o Legislativo “deveria cumprir suas funções apenas de legislar”.

Vê-se que Sua Excelência não quer apreciações jurídicas interpretadas à luz da Constituição, como faz o STF; nem uma oposição parlamentar que investigue e critique a administração pública sob seu comando. Quer concretizar, sem censuras, o projeto eleitoreiro da compra de consciências e votos com o dinheiro público. Esta é a visão que os trabalhistas autênticos têm da realidade, e não o arrivismo nojento dos ovos da serpente chocados no ninho brizolista.

Os comentários estão fechados.