Artigo publicado n’O METROPOLITANO. Nas bancas

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Nunca antes neste país se mentiu tanto

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br

O vazamento do sigilo das contas da Presidência da República, divulgando gastos de Fernando Henrique e de Ruth Cardoso, repete o que o ex-ministro Antonio Palocci fez contra o humilde caseiro que teve a coragem de testemunhar sua presença entre quadrilheiros de Ribeirão Preto, numa mansão do Lago Sul de Brasília.

Não é, portanto, a primeira vez que o PT-governo, com a divulgação do Dossiê FHC, fere os direitos constitucionais dos cidadãos. O que há de diferente é que nunca antes neste país se mentiu tanto: até agora temos uma meia dúzia de cinco ou seis versões para o fato. Senão vejamos:

A ministra Dilma Rousseff esbravejou afirmando que não havia um dossiê, ao mesmo tempo em que o ministro Tarso Genro dizia tratar-se de um relatório para uso interno do Planalto. A segunda interpretação veio da própria Dilma, levantando uma questão semântica, ao dizer que não se tratava de um “dossiê”, mas de um “banco de dados” levantado a pedido do Tribunal de Contas da União.

O TCU desmentiu a Ministra, e depois vem “unha e cutícula” como diz o líder do DEM no Senado, José Agripino. Erenice Guerra, a auxiliar de Dilma, confirmou a existência do “Banco de dados” para atender prováveis requerimentos da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Cartões Corporativos. A seguir se descobre que o tal dossiê, ou relatório, ou banco de dados teve início muito antes da instalação da CPI. Com isso, surge outra variante apontando que o pedido partira da Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A CCJ contesta a encomenda dos dados.

O desmoronamento célere das versões proporcionou agora, quando redijo este comentário, uma nova explicação: já não é um banco de dados, nem um relatório; voltou a ser um dossiê, preparado clandestinamente por um elemento infiltrado no governo pelos tucanos, com a interpretação paralela da possibilidade do subversivo se tratar de um aparelhado-traidor do sistema lulista-petista.

Como se vê este espetáculo de embromações, trapaças e embustes, vai entrar no Livro dos Recordes, suplantando todas as manifestações de tramas ardilosas dos pelegos, do achacamento de bicheiros, do assassinato de correligionários, das sanguessugas, do mensalão e do Dossiê Vedoin. Não é difícil represar esse turbilhão de serviços malfeitos e intrigas: basta o presidente Lula da Silva abrir suas contas e as dos seus familiares nos cartões corporativos.

Se é que não ocorram ilícitos inomináveis que atemorizem o Presidente seria isto o correto. Abrir tudo desde a criação dos cartões até hoje. Levar ao conhecimento público os gastos de FHC e de Lula, com abrangência aos seus dependentes. Caso Lula resista a mostrar suas despesas, a oposição parlamentar continuará a azucrinar a vida dos governistas, procurando inclusive a Procuradoria-Geral da República.

Confiante na impunidade, a ministra Dilma quer amenizar a crise com o paliativo de uma “comissão de sindicância” para identificar o autor clandestino do dossiê e do vazamento para a imprensa. Mas a comissão constituída é uma gracinha. Tem a participação de Edimar Fernandes de Oliveira, corregedor-geral substituto da Advocacia Geral da União (AGU) que já mostrou uma insignificante atuação no caso Waldomiro Diniz, de fim melancólico. Outro componente é Waldir João Ferreira da Silva Junior, corregedor-geral adjunto da União para a Área Social e o terceiro membro é Carlos Humberto de Oliveira, conselheiro do Fundo Nacional de Segurança Pública, dependente hierárquico de Dilma e Erenice.

Este grupo de trabalho não chega a ser uma nuvenzinha no céu de brigadeiro em que dona Dilma voa tranqüila. E cada vez mais arrogante, como se viu na sua bravata ao dizer que “não perde tempo indo ao Senado, pois tem mais o que fazer”… Esperamos que os senadores não baixem a cabeça mais uma vez.

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