Artigo publicado n’ O JORNAL DE NATAL. Nas bancas
Queda da CPMF e da auto-suficiência do lulismo-petismo
Miranda Sá, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Ao tempo em que entregamos este texto ao editor d’O Jornal de Natal, Vanilson Julião, ainda repercute nos círculos pensantes do país a escachapante derrota do PT-governo e, muito particularmente de Lula da Silva, pela recusa do Senado Federal em aprovar a emenda constitucional que prorrogava a famigerada CPMF. Em torno do assunto, cabeças de todas as tendências político-filosóficas têm uma visão comum: as negociações entre o governo e a oposição foram deficientes.
Em nome da verdade histórica, só quem não errou foi o DEM – brilhantemente conduzido pelo senador conterrâneo José Agripino Maia. Os democratas mantiveram a coerência programática, colocando-se desde o início contra a prorrogação, como tem votado sempre contra a criação ou o aumento de qualquer tributo. Lulistas-petistas e tucanos dançaram como lutadores de Box, olhando-se nos olhos, ora atacando, ora negaceando, ora se defendendo, mas sempre desconfiando de um golpe de surpresa do adversário.
Com o pessoal do PSDB ocorreu o inevitável: o conflito de interesses entre os parlamentares e os chefes de executivos estaduais. Os governadores por interesses próprios pretenderam rasgar o programa do partido e trair a bancada do partido na Câmara; os senadores além da convicção da maioria deles sofreram pressão de dois tipos: adquirir o respeito dos deputados federais e concorrer – enquanto oposicionistas – com os democratas.
Foi tentando explorar essa contradição entre os tucanos que o PT-governo se estrepou. Como nenhum dos palacianos atuais entende de dialética, conduziram erradamente as articulações sem levar em conta que o Senado não é a Câmara. A cada nível de negociação o desgaste governista foi crescendo: quando da aproximação apaixonada pelo PMDB, sofrendo a ciumeira dos outros aliados principalmente os do PSB e do PTB, depois com a tentativa de conquistar o PSDB, que provocou a ira do PMDB renanzista.
O Senado Federal, sem Sarney e sem Renan no comando, é outro. Mesmo antes ficava difícil um entendimento parlamentares donos de um longo mandato e, na maioria, ex-governadores ou ex-prefeitos de grandes cidades, portanto com experiência administrativa. Agora, então, não dá para botar gente sem experiência político-administrativa como Aldo Rebelo, Jaques Wagner, José Múcio e Mares Guia para coordenar a base governista, Nem mesmo Palocci e Tarso Genro têm condições de desempenhar esse papel, de acordo com um senador petista.
Sem conhecer a complexidade do Senado, os “coordenadores” praticaram uma série de erros, entre eles a inútil “visita sigilosa” de Lula à casa de José Roberto Arruda, governador do Distrito Federal, onde esperava encontrar-se com lideranças oposicionistas. Muito pior, por ser inábil e medíocre, foram as cartas de última hora que, além contraditórias, eram mentirosas ao firmar o compromisso de aplicar toda a arrecadação da CPMF para a saúde.
Assim os senadores lulistas-petistas perderam menos do que os palacianos Dilma, Mantega, José Múcio, o próprio Lula, tratando de coisas sérias com a ousadia bravateira dos pelegos sindicais. Além das esquisitices já vistas, ainda meteram na embrulhada duas figuras medíocres e desprestigiadas como Michel Temer e Eduardo Cunha. Com mais de um mês de procuras e ofertas não conseguiram os quatro votos que faltavam. Aliás, minto, ganharam o voto de Pedro Simon que bobeou com o canto da sereia e hoje faz autocrítica, admitindo que foi usado.
Desenhado este quadro, as tintas fortes realçam uma lição que o lulismo-petismo se tirasse a máscara da arrogância aprenderia. Doravante não será fácil criar ou aumentar impostos; se Lula da Silva tiver um pouquinho de juízo deve começar a trabalhar em dois sentidos: aumentar a receita e cortar as despesas, o seu governo vai afundar que nem o Titanic…
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