IDÉIAS
Em greve de fome contra a transposição das águas do São Francisco, o bispo Luiz Cappio não está mortificado. Continua agitando suas idéias das quais pode-se discordar mas há que respeitar. Falando e escrevendo o líder religioso é autor do livro “Rio São Francisco, uma Caminhada entre Vida e Morte” onde expõe os argumentos contrários ao projeto da transposição que considera autoritário e falacioso. Faz também considerações políticas como este excerto de um longo artigo publicado na secção “Tendências e Debates” da Folha de São Paulo do dia 13, quarta-feira passada. Vale a pena ler:
Jejuo também por democracia
Um dos mais graves males da “democracia” no Brasil é achar que o mandato dado pelas urnas confere um poder ilimitado, aval para um total descompromisso com o discurso de campanha, senha para o vale-tudo, para mais poder e muito mais riquezas. Tráficos de influências, desvios do erário, porcentagens em obras públicas e mensalões são práticas tradicionais na política brasileira, infelizmente, pelo visto, ainda longe de acabar. A sociedade está enojada e precisa se levantar.
Há políticos -e, infelizmente, não são poucos- que, por onde passaram na vida pública, deixaram um rastro de desmandos, corrupção, enriquecimento ilícito etc. Como ainda funciona o clientelismo eleitoral, a mitificação de personagens, as falsas promessas de campanha, o “toma-lá-dá-cá” e mais deseducação que educação política do povo, esses políticos conseguem se reeleger e galgar posições de alto poder em governos, quaisquer que sejam as siglas e as alianças.
Na campanha do candidato Lula, o tema crucial da transposição era evitado o máximo possível. Mas as campanhas eleitorais, à base do marketing e das verbas de “caixa dois” das empresas, são tidas e havidas como grandes manifestações do vigor de nossa democracia, que, com urnas eletrônicas, dá exemplo até aos EUA… O projeto de transposição não é democrático, porque não democratiza o acesso à água para as pessoas que passam sede na região semi-árida, distante ou perto do rio São Francisco.
O governo mente quando diz que vai levar água para 12 milhões de sedentos. É um projeto que pretende usar dinheiro público para favorecer empreiteiras, privatizar e concentrar nas mãos dos poucos de sempre as águas do Nordeste, dos grandes açudes, somadas às do rio São Francisco.
Frei Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA)
Comentários Recentes