PREPARANDO A PRÓXIMA TRAGÉDIA
Abrindo aspas para Lúcia Hippólito
“Com enxaqueca ou não, fui ontem para São Paulo, porque tinha um compromisso de trabalho hoje de manhã. A coisa está assim. Não dá mais para ir no mesmo dia, para lugar nenhum. As companhias riem e desdenham das ameaças tonutruantes do ministro da Defesa. Como diria Shakespeare, as palavras do ministro Nelson Jobim são “cheias de sons e fúria, significando nada.”As companhias riem mais ainda da aflição dos passageiros-consumidores -VÍTIMAS.
Juntar dois vôos — e atrasar ambos — ficou uma providência mais do que banal. É diária, e acontece em todas as companhias.Satisfação, prestação de contas aos passageiros? Nadica de nada. Por que, se as autoridades também não prestam contas ao contribuinte-eleitor?Há duas ou três semanas, eu, consumidora intensiva de transporte aéreo, comecei a observar um comportamento por parte dos passageiros, que, tenho certeza, é baseado no desespero e na desconfiança de tudo o que dizem as companhias aéreas. Como os vôos têm durado em média, uma a duas horas a mais do que o previsto — atrasos, sobrevôos em Santos, Santa Cruz, perto de Curitiba, perto de Porto Alegre, ao largo de Brasília etc. etc. etc. –, passageiros perdem compromissos, atrasam-se para reuniões, estressam-se.
Assim, em pleno vôo, passageiros começam a ligar os celulares, sobretudo aqueles com acesso à Internet, e ouvem recados, checam e-mails, enviam e-mails anunciando que não vão poder comparecer aos compromissos, porque as companhias aéreas nos fazem de tolos. Das duas uma. Ou o funcionamento de aparelhos celulares durante vôos e aterrissagens não tem a menor interferência na operação dos aviões — e, então, as companhias vêm mentindo aos passageiros-vítimas há muito tempo.Ou os aparelhos celulares interferem fortemente na operação dos aviões — e estamos preparando a próxima tragédia.A culpa será das companhias aéreas. E a responsabilidade será da Anac, da Infraero e do Ministério da Defesa.Continuam brincando com as nossas vidas.”
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