ARTIGO
O Senado tem razão de ser?
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Depois da cena vergonhosa oferecida pelo Senado Federal com a absolvição de Renan Calheiros, tenho pensado na inutilidade daquela instituição. Aliás, nos começos da década de cinqüenta do século passado, ainda estudante, me entusiasmei com um documento revolucionário do Partido Comunista Brasileiro, que falava da extinção do Senado, o histórico “Manifesto de Agosto”…
Os anos se passaram e deixei pra lá. Novamente enojei-me com a Alta Câmara dez anos depois, quando os seus componentes aceitaram, pusilânimes, a criação do mandato biônico, uma ejaculação antidemocrática dos militares no poder. A bionicidade acabou-se deixando atrás de si, inexplicavelmente, o terceiro senador por unidade federativa. Como era mais um emprego para os políticos, todos se calaram.
Agora não tem mais jeito. Nem a presença dos senadores Agripino e Garibaldi, de quem me considero amigo e admirador, me convencerá a mantê-los lá fiscalizando o trabalho decente e honesto que realizam e que acompanhamos pela TV – Senado – única coisa que fará falta quando a instituição for fechada, se antes não cair de podre.
O espetáculo que a TV – Senado oferece tornou-se uma diversão. Através dela sonhamos em assessorar os atores que admiramos, oferecendo-lhes subsídios que julgamos bons para o país, ou extravasamos uma vontade louca de estrangular a raça dos cínicos, desavergonhados e hipócritas que só pensam em si, no seu grupo, e que a Nação que se dane.
Essas reflexões levaram-me a uma época em que se liam romances e eu gostaria de estar em São Paulo para encomendar nos maravilhosos sebos de lá o romance “Democracia”, de Henry Adams, que li nos meus quinze, dezesseis anos. O livro foi publicado em 1880. Foi considerado tão pesado que Adams lançou-o anonimamente.
“Democracia” (como gostaria de relê-lo!) deveria ser realmente pesado nos Estados Unidos do século XIX, e ainda o é, hoje. Se a memória não me trái, guardo a experiência de um personagem, a Senhora Lee, que foi a Washington curiosa em conhecer o mundo político de perto. E lá fez de um tudo para não ser triturada pela máquina infernal. O medo de ser cooptada não a deixava em paz. Lembro-me de um relato em que dizia ter dado “cambalhotas morais” para escapar do assédio (ideológico) de um político.
E outro trecho que recordo fala que “as cabriolas do Presidente e dos senadores eram tão divertidas, que dava vontade de participar delas”. No fim a Senhora Lee se salvou, abandonando a orgia da politicagem para “voltar a verdadeira democracia da vida” levando consigo mais disposição de servir ao povo, suas obras sociais, seus mendigos, seus doentes, escolas e hospitais que precisavam de uma força para se manter.
É isso que todos devemos fazer. Se a democracia dos arrivistas, corruptos e oportunistas está em alta, recolhamos-nos. Tentemos uma mobilização organizativa. Protestemos. Vamos começar de novo…
Comentários Recentes