NUNCA ANTES
Vale a pena ler de novo…
Nunca antes na história deste país um partido de esquerda -o Partido dos Trabalhadores- tivera tanta chance e legitimidade para começar a desmontar as sólidas engrenagens da tragédia brasileira e nunca defendera tanto as mudanças sociais e políticas dotadas de valores éticos e morais que travassem e obstassem a corrupção do Estado patrimonial brasileiro.
Nunca antes na história deste país um presidente da República fora tanto a imagem e a semelhança do povo brasileiro.
Nunca antes na história deste país um partido de esquerda (no governo) implementara uma política tão assistencialista -que nem sequer arranhou o verniz da nossa barbárie- e tão rapidamente se convertera em partido da ordem.
Nunca antes na história deste país uma liderança política de origem operária e sindical sofrera um transformismo tão acentuado, que lhe desfigurou a própria alma. Nunca antes na história deste país o dito virou não dito. A antiga e bravia oposição virara tão serviçal situação e fora tão pateticamente tragada pela corrupção. O velho e moderado PCB saiu muito mais íntegro na longa história do chamado Partidão.
Nunca antes na história deste país um governo e o comando de seu partido -que nasceu e se definia como sendo de esquerda- tinham arquitetado um projeto de corrupção do tamanho do mensalão. Até então, esse era um atributo próprio das direitas.
Nunca antes na história deste país um presidente tão personalista e centralizador, tendo seu entorno mergulhado num lamaçal -ou pântano-, alegara tão singelo desconhecimento do que se passava na ante-sala de seu gabinete, mesmo sabendo que ele sempre tivera o controle pleno de tudo o que se decidia na cúpula de seu partido.
Nunca antes na história deste país um governo de “esquerda” fora tão generoso com os lucros dos bancos e dos grandes capitais, tão camarada com os usineiros e por demais cordial com o agronegócios. Nunca antes na história deste país um governo que se originara de um partido de esquerda e de oposição erigira um modelo econômico reiteradamente elogiado pelo FMI e fora tão bom seguidor das políticas gestadas nos estranhos laboratórios do Banco Mundial.
Ricardo Antunes, professor de Sociologia da Unicamp
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