Carta ao prefeito Carlos Eduardo
Nosso artigo publicado na edição desta segunda-feira no vespertino Jornal de Hoje, de Natal, Rio Grande do Norte. MIRANDA SÁ, jornalista
Parece que foi ontem que lhe conheci, você era um rapazola trabalhando para conhecer na prática como funcionava a redação de um jornal. Foi na Tribuna do Norte, entre 79 e 80 do século passado… É em nome de uma amizade duradoura guardada no coração, que tomo a liberdade de escrever-lhe; e tenho motivos para isto. Tenho duas razões que considero importantes para levar-lhe: uma já falei ao vivo e a cores pela televisão. Disse de público que estava ao seu lado e da equipe administrativa que constituiu, no caso dos vetos que você lavrou para salvar o Plano Diretor do imediatismo e da demagogia de políticos inconseqüentes. Assumi anteriormente esta atitude no caso do hotel da Via Costeira, quando pessoas inescrupulosas quiseram derrubar fundamentos urbanos no grito.
O outro motivo é aconselhar-lhe a respeito da nossa querida cidade do Natal. Pela necessidade de acompanhar minha companheira Marjorie fazendo tratamento médico em São Paulo, por duas vezes este ano estive na terra paulistana. E lá testemunhei uma transformação impressionante depois que o prefeito Gilberto Kassab assumiu a cruzada para acabar com a poluição visual com a Lei da Cidade Limpa.
(Muitos anos atrás fiquei literalmente espantado com a transformação do Sertão Nordestino quando, após longa seca, caem as primeiras chuvas. Viajei de João Pessoa a Cajazeiras percorrendo uma paisagem marrom, empoeirada e feia; ao voltar, as plantas germinavam com uma força incrível e a babugem entapetava o chão proporcionando um espetáculo deslumbrante de vida)
Esta recordação – entre parênteses – foi uma comparação que fiz da São Paulo antes e depois de posta em prática a Lei 14.223/ 2006, que veio para acabar com a exorbitante exibição de mau gosto da publicidade excessiva que violentava a visão de quem passava nas ruas da cidade. Não escapava sequer o mágico cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João…
Enfrentando interesses particulares, o lobby das empresas de outdoors e o grupo de pressão de publicitários e pichadores de muros, Kassab mandou brasa. Quem não acreditou que a assepsia urbana era para valer, sofreu pesadas multas, que vão de R$ 10 mil e sobem progressivamente até quantias
incalculáveis. Os prazos de adaptação foram longos, dando tempo para cumprir a legislação. Depois baixou a ação administrativa disciplinadora recuperando a paisagem urbana.
O fim dos outdoors, a derrubada das fachadas de armação barata e o fim dos reclames de gosto duvidoso, libertaram São Paulo do cativeiro da poluição visual. Antonio Ermírio de Morais, não o empresário, mas o homem de bom gosto, elogiando o que chamou de “lei de boa qualidade” escreveu: “Aos poucos, os paulistanos foram descobrindo uma cidade esquecida ou que nunca conheceram. Uns ficaram admirados com a arte embutida na arquitetura das construções. Outros se assustaram com as rachaduras nos edifícios, estruturas maltratadas, marquises caem-não-caem, redes elétricas a céu aberto e outros problemas que eram escondidos pelos anúncios”.
A mim, o novo quadro garimpou na memória a São Paulo dos anos 50, quando a conheci, e dos anos 70 onde lá trabalhei. Fui literalmente conquistado pela audácia do prefeito Gilberto Kassab arruinando os exploradores da paisagística para trazer de volta a natureza que o homem constrói com o progresso social. As vias de trânsito já desvendam as ruas enladeiradas e os edifícios antigos reapareceram. E este retorno histórico trouxe-me o deslumbramento do espetáculo da vida como o reflorescer sertanejo.
Pode tomar nota aí na sua agenda, Carlos Eduardo, que o povo paulistano e os que buscam a cidade por força de negócios ou fazendo turismo gostaram, e é por isso que venho apoiar-me na sua coragem de enfrentar os defensores da degradação urbana, apelando para que faça aqui o que Kassab fez em São Paulo; chega da ilusão de ótica que concorre com o azul dourado do céu e do sol.
Fique certo, Prefeito, que uma medida assim vai recuperar a auto-estima dos natalenses.
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