Artigo publicado ontem n’ O JORNAL DE HOJE
As pesquisas e a popularidade de Lula
MIRANDA SÁ
No ano passado, entre os dias 21 e 22 de agosto, Lula da Silva obteve 52% de aprovação numa pesquisa promovida pela Datafolha. Um ano depois, o mesmo instituto ouvindo igual número de brasileiros registrou no levantamento feito semana passada, entre os dias 1º e 2, que o Presidente conquistou 48% de pronunciamentos que o consideram ótimo ou bom.
Como desconfiar dos números recolhidos por uma agência de pesquisa ligada a um grande jornal como a Folha de São Paulo? A gente pode até desconfiar dos quadros apresentados por órgãos ligados ao governo ou que recebem verbas oficiais, mas deste, não. Por isto, o líder dos democratas, o senador José Agripino, se mostra surpreso dizendo que “essa inércia do eleitorado em relação à crise não corresponde ao que eu vejo, ao que eu escuto nas ruas”.
O estranho comportamento de Lula da Silva diante da tragédia do Airbus da TAM, depois de dez meses de crise no tráfego aéreo revelado pelo acidente do Boeing da Gol com um avião Legacy nos céus da Amazônia realmente embaraça e confunde o observador da cena política ao constatar que de 2006 para cá registra-se a perda de apenas quatro pontos de apoio ao governo – que podem entrar na cota na chamada margem de erro.
Do outro lado, círculos oficiais consideram normal o sentimento dos pesquisados que não se angustiam com fatos que condenariam qualquer autoridade responsável, mas não “colam” em Lula. O novo primeiro conselheiro presidencial, Nelson Jobim – ministro da Defesa – explica que as causas negativas não podem ser transferidas, afirmando que “os incidentes não podem ser atribuídos exclusivamente ao presidente, e não o são, e isso mostra que estamos agindo”. Valorizando sua presença no governo, diz: “há uma percepção nítida da população de que o governo não está parado”.
A realidade, porém, mostra que a boa performance da administração federal se limita ao campo das palavras. O discurso de Lula e a massiva propaganda do governo aplainam, de certa maneira, os altibaixos que a população vê e condena, como constata o senador José Agripino e qualquer um de nós que anda pelas ruas, conversa e escuta duras críticas ao Presidente. Principalmente na faixa das classes médias é comum ouvir-se censura e reprovação referindo-se ao PT-governo.
O interessante é que a compreensão popular arranha mais o sistema de poder de que ao seu dirigente máximo. A explicação sociológica é direta; primeiro, que toda ação de Lula e seus auxiliares diretos volta-se permanentemente para aumentar sua popularidade, iludindo quem não tem acesso à informação, por ignorância ou falta de meios para adquiri-la. Segundo, é a habilidade com que o sistema de poder consegue transferir para terceiros seus erros e até crimes cometidos no núcleo íntimo da presidência da República.
Mantendo o jogo fraudulento de transferir para a “herança maldita” e deslocar para a população responsabilidades de governo, o resultado favorável a Lula da Silva não retrata a degradação administrativa, a desídia casada com a impunidade, a incompetência e a sobreposição de agentes públicos, a falta de visão do futuro e a falta de honestidade na retórica vazia de Sua Excelência. Perdoem-me os defensores da pesquisa científica, mas não é possível concordar com a pouca influência da intelligentsia nacional na opinião pública tal como sem sendo auscultada.
Se não é mais uma farsa, entre tantas que o PT-governo nos oferta, faz-se necessário um deslocamento das áreas de audiência, porque as pesquisas impressionam e influenciam a atividade política, dando respaldo – pelo menos nos círculos parlamentares – aos arrivistas, oportunistas e degradados sócios do clube da picaretagem no Congresso Nacional.
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