ARTIGO PARA O JORNAL DE NATAL
Nunca, neste País, tanto cinismo
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
O Brasil assistiu quinta–feira passada Lula da Silva declarar, de público, não saber da gravidade dos problemas no setor aéreo, atingindo o extremo limite do descaramento. Somente os aparelhados do PT-governo que substituíram mercenariamente a antiga e gloriosa militância do partido antes de chegar ao poder, podem aceitar essa desfaçatez; ou os comunistas dos irmãos Marx, satisfeitíssimos com as boquinhas que assumem na administração pública.
Nos círculos da imprensa televisiva os jornalistas lulistas-petistas se mostraram “surpresos” com as declarações do Presidente que, aliás, falou difícil, dizendo que a crise da aviação comercial, para ele, foi como “uma metástase que o paciente não sabia”… Metástase é o seu fracasso como governante, somente descoberta depois que o povo carioca, no Maracanã, cobriu-o de vaias.
Não satisfeito com tanta hipocrisia e oportunismo, Lula da Silva teve o despudor de comentar que só foi tomando um pouco mais de conhecimento sobre o assunto a partir do acidente com o avião da Gol, que matou 154 pessoas, em setembro do ano passado. Ele fala como se fosse uma ilha inóspita, e não um Presidente da República – supõe-se um administrador da coisa pública – cercado de auxiliares por todos os lados: Ministério da Defesa, Força Aérea Brasileira, Conac, Infraero, Cenip e a Anac, além do seu bem pago e melhor aparelhado Serviço Nacional de Informações.
Isso, para “corporativamente” deixar de lado sua Secretaria de Imprensa, ocupada por um dos mais inteligentes e eficazes jornalistas da velha guarda, Franklin Martins e ter ao seu lado a habilitada, capaz, proficiente, dinâmica, agitada e onipresente ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Dez meses se passaram do choque do Boeing da Gol com um avião Legacy em agosto do ano passado. De lá para o segundo desastre em Congonhas, com um Airbus da TAM, de frente das Câmeras de televisão que o povão assiste, Lula da Silva prometeu oito vezes que o tráfego aéreo seria normalizado e ainda não faz dez dias falou solenemente que assumia a administração da crise. Trocou o ministro Waldir Pires por Nelson Jobim; está fritando (até este momento em que escrevo o artigo) o brigadeiro Pereira, presidente da Infraero, e defendeu mudanças na agência reguladora do setor, a Anac.
Como então não tomou conhecimento da crise? Será que pensa estar falando para a fração de pelegos que dirigia em São Bernardo do Campo nos tempos de sindicalismo ou para os ignorantes garroteados na escravidão do Bolsa Família?
Lula da Silva diz besteiras diante de aspones aparelhados no governo ou claques organizadas a peso de ouro pelo agit-prop do Palácio do Planalto, e todo mundo gargalha às escâncaras. O primarismo de matuto inteligente se soma ao riso frouxo dos arrivistas que afogueiam ao pé da lareira do poder.
Depois de assumir e desassumir a promessa de fazer um novo aeroporto em São Paulo – embora não soubesse de nada sobre a crise aeronáutica – o Presidente defende agora mudanças nas agências reguladoras para permitir demissões dos comissionados indicados pelo Poder Executivo e aprovados pelo Senado Federal. O argumento é rudimentar: “Quem nomeia tem de ter o poder de demitir”, falou com o cenho cerrado no Conselho Político do Governo, diante de representantes de 11 partidos da base de sustentação.
De acordo, Lula da Silva. O povo que elege um presidente da República também deve ter o direito de derrubá-lo.
Comentários Recentes