Poesia
A espera
Amado… Por que tardas tanto?
As primeiras sombras se avizinham
E as estrelas iniciam a noite.
Vem…
Pois a esperança que se acolheu em meu coração
Vai deixá-lo como um ninho abandonado nos penhascos.
Vem… Amado…
desce a tua boca sobre a minha boca
Para a tua alma levar a minha alma
Pesada de sofrimento!
Vem…
Para que, beijando a minha boca
Eu receba a sensação de uma janela aberta.
Amado meu…
Por que tardas tanto?
Vem…
E serás como um ramo de rosas brancas
Pousando no túmulo da minha vida…
Vem amado meu
Por que tardas tanto?
Adalgisa Nery
A Poetisa
O nome da poetisa Adalgisa Nery (1905-1980) deve soar, para a maioria dos leitores como desconhecido. Mais ainda: mesmo quem tem informação sobre o nome dela pouco sabe sobre seu trabalho.
Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira, nome de batismo de Adalgisa Nery, foi poeta, jornalista, prosadora e política. Nasceu no Rio de Janeiro, filha de um funcionário municipal. Órfã de mãe desde os 8 anos, estudou como interna num colégio de freiras. Aos 16 anos, casou-se com o pintor paraense Ismael Nery, um dos precursores do modernismo. O casamento durou até a morte de Ismael, em 1934. A relação foi conflituosa e até violenta. O casal teve sete filhos, dos quais sobreviveram apenas dois.
Viúva, e obrigada a trabalhar para sustentar os filhos, Adalgisa lançou seu primeiro livro, Poemas, em 1937. Três anos depois, casou-se com o diretor do temível Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, criado pelo ditador Getúlio Vargas em 1939 para difundir as idéias autoritárias do Estado Novo. O casamento durou treze anos. Nesse período, Adalgisa viajou pelo mundo em missão diplomática, acompanhando o marido.
Separada, abandonou a literatura e passou a dedicar-se ao jornalismo. Também adotou a política. Foi deputada três vezes pela legenda do Partido Socialista Brasileiro. Depois do golpe militar de 1964, passou ao MDB e foi cassada em 1969.
Seus últimos anos foram melancólicos. Nos anos 70, viveu de favor, durante algum tempo, numa casa do apresentador de televisão Flávio Cavalcanti, em Petrópolis (RJ). Escreveu ainda seis livros – entre os quais dois de poesia. É dessa época o romance Neblina (1972), dedicado a Flávio Cavalcanti. Essa dedicatória, certamente ditada pela gratidão, pegou mal na difícil conjuntura política da época. Cavalcanti era tido como dedo-duro nos meios de comunicação.
Em 1976, Adalgisa recolheu-se a uma clínica para idosos, no Rio. Um ano depois, sofreu um acidente vascular que a deixou hemiplégica. Morreu em 1980.
Fonte: Jornal de Poesia
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