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O ministro e seu voto: “Foi inspiração”

O ministro Carlos Ayres de Britto levou 111 minutos para ler o voto onde rejeitou os esforços para impedir pesquisas com células-tronco embrionárias. Protagonista de um debate de valor histórico, ainda que a decisão tenha sido adiada, Britto saiu do STF consagrado pelos elogios públicos dos colegas e pelos comentários positivos de muitos advogados presentes. “Escrevo por inspiração,” me disse ele. “As idéias vem, as emoções também. O texto sái.”

Perguntei se considerava aquele um grande texto. Ele me encarou com jeito sério e respondeu, divertido com a própria modéstia: “É um bom texto.” Num debate onde se pretendia sustentar como verdade científica que a vida humana começa no momento da concepção, isto é, quando se forma um embrião, o que tornaria criminoso todo capaz de “violar seu direito à vida,” Britto marcou seu voto por seguidas referências à mulher, à maternidade, ao corpo feminino, ao amor da gestação, e assim por diante.

Isso era parte de um esforço para mostrar que um embrião não evolui por conta própria, não tem autonomia nem personalidade – e não pode ser considerado, portanto, portador dos direitos de uma pessoa. Para tornar-se feto e depois pessoa ele necessita de um elemento fundamental para os saltos evolutivos – a mãe. Sem isso, escreveu o ministro, “uma pessoa é uma pessoa, um feto é um feto, um embrião é um embrião.” “Sempre escrevo por inspiração. Quando ela vem, escrevo. Quando não vem, páro,” explica, num tom de voz de quem se refere a um mundo de realidades especiais.

Perguntei se ele tem alguma vocação mística. O ministro: “Gosto e tenho simpatias.” De que? “Gosto da holística,” responde, referindo-se a uma visão da existência que pretende criar novas harmonias entre Deus, os homens e o universo. Pelo visto, a inspiração funcionou, não?

Fonte: Paulo Moreira Leite

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